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sábado, 25 de julho de 2015

O conservadorismo e a História


por Bertone Sousa, para o seu blog


Edmund Burke, eminente pensador do conservadorismo britânico no século XVIII.

 Declarar-se abertamente conservador tem sido uma ação cada vez mais difícil na era da informação em que vivemos. Além do viés quixotesco que norteia suas ações, um conservador também possui um sério problema cognitivo: ele precisa rejeitar o caráter dialético da história e aceitar as mudanças apenas naquilo que mantêm de aparente, isto é, na medida em que não alteram a estrutura da pirâmide social. Por isso as revoluções e os movimentos sociais são a própria antítese da alma conservadora.


 Historicamente, o conservadorismo nasceu como reação à Revolução Francesa e aos ideais de liberdade e igualdade que a nortearam. A Revolução trouxe ao palco da História a expectativa do progresso, a crença na possibilidade humana na realização do futuro através da ciência, da razão e da luta social; a Revolução cristianizou a escatologia cristã, transferindo para o homem e a sociedade as responsabilidades por seu próprio destino, instituindo o planejamento no lugar da espera, a razão no lugar da fé, o Estado no lugar da Igreja, o desejo de poder no lugar da obediência à autoridade e o indivíduo no lugar de Deus.

 Com isso a história passou a ter um sentido fora do conteúdo estritamente religioso que a tradição cristã lhe atribuía. Agora, como sujeito da história o homem assume o controle do seu próprio devir, com o domínio da ciência e a técnica pode mudar a natureza e, com isso mudar a própria sociedade e a si mesmo. A Revolução também traz ao palco a laicização do pensamento político, iniciado na modernidade com Maquiavel e consolidado com os pensadores pós-iluministas do século 19. Nesse sentido, a Revolução Francesa passou a dividir o pensamento político do ocidente em conservador e progressista.

 O progressista acredita na capacidade do espírito humano para reorganizar a sociedade, dissolvendo privilégios seculares e instituindo a noção de direitos humanos. O progressita acredita que a pobreza não resulta da vontade divina ou da indolência dos indivíduos, mas é deliberadamente forjada para manter os privilégios de uma casta ou de um grupo social. Para reverter essa situação, é necessário a institucionalização de outra compreensão da história e o uso da razão e de uma hermenêutica laicista para esquadrinhar as intenções e ações dos agentes no passado e no presente.

 Como reação a esse paradigma, o pensamento conservador veio reafirmar a imutabilidade da natureza humana, a necessidade da sujeição do indivíduo à doutrina religiosa e às classes aristocráticas tradicionais; em nome destas últimas, contesta-se a capacidade do Estado moderno de conceder bem-estar. O progressista tem o olhar voltado para o futuro, o conservador para o passado, para o culto dos antepassados. O conservador teme a liberdade e somente pode conceber uma sociedade “livre” com rédeas. Para isso não bastam as leis, é preciso a imposição do culto à tradição.

 Desse modo o pensamento conservador não pode apelar apenas à História, pois como disse, precisa negar seu caráter dialético e fechar-se no apelo à tradição e à autoridade contra o que consideram o caos, isto é, a reorganização da sociedade pelo espírito revolucionário. Por isso o conservadorismo é mais uma indisposição para com a mudança do que propriamente uma ideologia. Além disso, o conservador precisa recorrer à religião revelada, justamente porque suas verdades são consideradas atemporais  é que a sociedade deve bastar-se nelas. Como a religião revelada não aceita a historicidade dos valores morais, precisa continuamente silenciar aqueles em seu interior que não se conformam a essa visão.

 Por seu fechamento o pensamento conservador tende a ser pouco reflexivo e crítico, mas nunca crítico em relação a si mesmo. Somente pode vicejar em sociedades eminentemente agrárias, com baixa mobilidade social e pouco acesso a informações. Por isso o conservador é uma espécie em extinção, seus clamores contra a mudança em geral não visam ao bem comum mas ao medo que possui de perder privilégios e de que outros tenham acesso a lugares que historicamente não tiveram.

 Mesmo em nossa sociedade urbana, o receio das antigas elites agora é a ocupação daqueles que se acomodaram ao poder e a privilégios. É a jornalista da Folha que protesta num artigo de jornal porque encontrou o porteiro do prédio em Paris ou Nova York. É o empresário que acha ruim porque as pessoas agora querem trabalhar de carteira assinada e não mais por qualquer salário; há quinze ou vinte anos não era assim. São aqueles que vociferam contra cotas para negros na universidade porque, numa sociedade onde os negros têm acesso às piores instituições de ensino, apelar à meritocracia é manter a aristocracia branca nos cursos superiores; é a defesa do latifúndio agroexportador e seu peso na economia do país, razão pela qual não se deve dar ouvidos a “baderneiros invasores”. É o ódio ao presidente que foi operário, à presidente que foi guerrilheira, às políticas de transferência de renda aos mais pobres… Os exemplos não faltam.

 Contra o conservadorismo das elites contemporâneas que odeiam dividir o poder e a renda, somente um pensamento progressista crítico e autocrítico pode erguer a voz em denúncia e em favor dos desfavorecidos e de minorias. A história é fluxo e mudança, mas em favor de quem os eventos vão mudar vai sempre depender da ação dos atores sociais no presente e da consciência de que o passado não é útil apenas aos que querem manter o status quo, mas também a quem quer abrir uma perspectiva de futuro.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O que é ser ateu?

por Bertone Sousa, para seu blog pessoal

Prometeu, de Nicolas-Sébastien Adam.


 Provavelmente nenhum grupo sofre tanta troça e preconceito no Brasil como os ateus. Não, não se trata de um discurso de vitimização, há estatísticas que o comprovam. Mas também é preciso dizer que muitas pessoas que se dizem ateias não têm muita clareza do que isso significa. Dessa incompreensão advém a iniciativa de alguns pela busca de reconhecimento social o que, mesmo em um estado laico, pode ser um erro. O ateísmo nasceu como uma postura negativa: não define uma minoria sociológica, não define um credo, nem mesmo é importante pra definir um indivíduo ou sua posição na sociedade.

 Recentemente, um estudante da UFAC (Universidade Federal do Acre) ganhou notoriedade porque, sendo ateu, queimou uma bíblia em uma manifestação na universidade. Inicialmente animado com a repercussão de seu ato, ele afirmou que não se arrependia e pretendia repeti-lo. Após ler a carta aberta de um padre que chamou a atenção para a importância da tolerância e do respeito à diversidade religiosa, o estudante respondeu dizendo que repensou sua ação e se arrependia dela. Pressionado pela possibilidade de responder judicialmente pelo gesto, ele declinou de outra tentativa de queimar uma bíblia.

 O gesto do estudante de queimar a bíblia traz à superfície um elemento alarmante em nossa sociedade: parte considerável da juventude que se diz ateia não tem referenciais fora de uma denegação pueril da religião e de um conjunto de leituras redutivas e desconexas. Basta ver os fóruns de discussão  na internet onde se reúnem para perceber que a ignorância tomou o lugar de discussões inteligentes e a razão, se é que um dia a cultivaram, foi reduzida a um materialismo cientificista risivelmente prosaico. Exemplos poderiam ser citados à exaustão, mas não vêm ao caso.

 Uma das questões para se entender isso é que essa juventude se beneficia de um ambiente político de ampla liberdade de expressão somado uma cascata inesgotável de informações e publicações com as quais, ou em contato com as quais, não sabe o que fazer, então absorve frases ou pensamentos sem compreender o que quer criticar. Em meu texto Neoateísmo ou a estupidez irreligiosa, chamei a atenção para os leitores de Richard Dawkins que entraram na moda do ateísmo cientificista sem compreenderem historicamente a religião.

 Dawkins esteve no Brasil recentemente. Em uma entrevista à Revista Galileu, ele se sentiu incomodado com  perguntas que não conseguiu responder e, para disfarçar, tentou fugir ao assunto. Um exemplo: o entrevistador lhe pergunta se ele consegue imaginar uma religião que não fosse cega pelo dogma, ao que Dawkins titubeia, demonstra não saber o que significa religião e arremata: “Eu realmente não sei, apenas não tenho interesse por religião. Isso é uma revista de ciência, não vamos falar de ciência?”. A pergunta foi interessante e a resposta tão inesperada quanto ríspida.

 Logo depois o entrevistador lhe pergunta sobre mitos e sua opinião sobre o papel dos mitos no passado e no presente, ao que ele responde: “Nunca entendi muito bem o que é um mito, quer dizer, ele é uma história, e eu suponho que seja uma história com algum significado antropológico. Uma tribo terá histórias tribais sobre a origem das coisas. Estou ciente delas, não acho que sejam muito interessantes sob meu ponto de vista, eu sou um cientista”. É muito curioso que Richard Dawkins, que precisa afirmar diariamente que Deus não existe, não saiba o que é religião ou mito e ache que nada disso tem a ver com ciência. Quando diz “eu sou um cientista”, Dawkins quer fugir de perguntas que expõem suas deficiências intelectuais, como se o que ignora não tivesse relação com a ciência e se esconde sob um título como em uma torre de marfim. Vendo sua fala, é impossível não sentir falta de um Carl Sagan, que conseguia estabelecer pontes com outras áreas do conhecimento fora de sua especialidade e isso refletia em seus vídeos e livros brilhantes e enxutos de dogmatismos.

 No texto sobre neo-ateísmo escrevi que Dawkins não é um intelectual de se jogar fora. Ele publicou bons livros e quando critica as pretensões de cientificidade do criacionismo ou do Design Inteligente, se mostra judicioso. Mas sua abordagem da religião falha por sua falta de conhecimento histórico, como quando disse, em uma dessas conferências no Brasil, que a religião é como um vírus para a mente humana ou ao comparar Deus com o monstro do espaguete voador, dois entes, se é que podemos chamar o monstro do espaguete assim, que não possuem nenhuma relação ou ponto em comum, nem mesmo a não-existência. Não que Deus ou o monstro do espaguete existam como existe esta mesa, este computador ou este lápis e é isso o que escapa a seu pensamento reducionista.

Não há dúvida de que a ciência, através da astrofísica, da genética e da neurociência tem nos ajudado a compreender questões que antes pertenciam ao domínio da metafísica ou da teologia, hoje reduzidas a pó, mas o ateísmo professado por alguns de seus expoentes pode se tornar problemático por uma razão essencial: as ciências naturais tornaram Deus dispensável para explicar a origem da vida e até mesmo do cosmo, assim como a neurociência tem contribuído para compreender os efeitos da meditação e da oração na mente, mas não podem explicar a função social das religiões. Mas há um contraponto que podemos incluir: Foi nos Estados Unidos que o neoateísmo (como é conhecido o movimento de crítica e combate à religião que aproxima cientistas e intelectuais de várias áreas) ganhou força, porque lá, diferentemente do que ocorreu na Europa ocidental, a secularização não implicou um afastamento da religião da esfera pública, ou uma desfiliação religiosa significativa e isso também reflete na área científica, onde pululam concepções pseudo-científicas que buscam aproximar religião de ciência, das quais o Design Inteligente talvez seja o mais notável.

 Enquanto o ateísmo crescia na Europa no século 19, nos Estados Unidos movimentos de despertar religioso combatiam os valores racionalistas oriundos da Revolução Francesa, ao mesmo tempo em que valorizavam o planejamento e a eficiência econômica, a educação, os direitos individuais, o avanço tecnológico, a urbanização e o aperfeiçoamento moral. Um movimento conhecido como “evangelicalismo” ou “evangelicismo” combateu o deísmo até torná-lo marginal na sociedade e empreendeu um amplo projeto de evangelização do país. Pregadores como Jonathan Edwards, John Wesley (ambos no século 18), Charles Grandison Finney e Dwight Lyman Moody (século 19) se tornaram líderes de movimentos religiosos avivalistas anti-deístas e anti-materialistas com ampla penetração na sociedade norte-americana.

 Essa tensão ganhou notoriedade internacional pelo menos desde 1925, quando John Scopes, um professor de Biologia no Estado do Tennessee foi julgado e condenado por ensinar o evolucionismo em uma escola pública estadual, o que era proibido por lei naquele Estado. Embora o veredito tenha sido revogado depois, o caso Scopes expôs a dificuldade que as autoridades e a sociedade norte-americana tinham com as descobertas da ciência moderna que contrariavam a narrativa da criação no Gênesis. Hoje, quase cem anos depois, o ensino do evolucionismo não é mais proibido nos Estados Unidos, mas ainda há uma forte resistência daquela sociedade de aceitar que o Gênesis não é um relato científico. Esse cenário contribui para a popularidade, naquela sociedade, de excentricidades teológicas como William Lane Craig.

 Isso torna compreensível e em vários aspectos também importante as críticas e ataques que Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennett e outros acadêmicos fazem à religião e à pseudo-ciência. Mas também é preciso admitir que o ataque frontal pode produzir resultados opostos ao que desejam, na medida em que a denegação combativa da religião leve a um reforço do sentimento fundamentalista de muitos religiosos. Nesse sentido, o esclarecimento é mais importante do que o ataque e, nesse caso, esclarecer implica começar a fazer as pessoas entenderem a diferença entre mito e ciência.

 E aqui voltamos a Dawkins. Se ele não sabe o que é religião, mito  e dogma e mesmo assim se considera apto a dizer que a religião é como um vírus de computador, além de isso não explicar a religião, não se torna admirável que, sob o mote de um pretenso ateísmo, jovens comecem a queimar bíblias em universidades. Isso não chega a ser pior do que os Grupos de Oração Universitários, que tentam trazer suas igrejas para dentro da universidade e nos dois casos temos a exacerbação do dogmatismo, em campos opostos. Um ateu que queima bíblias não é mais inteligente do que um cristão que acredita na literalidade do Gênesis.

 O ateísmo moderno é filho do Iluminismo do século 18, do anticlericalismo que vicejou na França daquele contexto e se desenvolveu no século seguinte na Europa ocidental na esteira do avanço das ciências da natureza. Embora poucos intelectuais iluministas fossem ateus, como Diderot e D’Holbach, a concepção predominante no movimento foi o deísmo, que aceitava a existência de Deus, a criação e o governo do mundo por ele, mas rejeitava a revelação (por isso o deísmo foi fortemente combatido pelos movimentos avivalistas nos Estados Unidos).  O ateísmo é produto da moderna sociedade industrial e do avanço ciências e da luta por direitos e liberdades em um contexto de consolidação e expansão do sistema econômico capitalista.

 Ainda no século 19, a crítica superior da bíblia, originada na Alemanha, afastou os milagres e intervenções sobrenaturais dos eventos ali narrados para compreender sua historicidade. Foi a partir daí, por exemplo, que nasceu a figura do Jesus histórico, isto é, o Jesus que não nasceu de uma virgem, não ressuscitou e fez milagres, mas existiu historicamente e que cabe entender sua existência e ação como personagem histórico. Hoje sabemos que os autores da bíblia não pretendiam escrever relatos históricos e, como a Ilíada e Odisseia, é um livro fundador da cultura ocidental. Um estudante universitário que compreenda isso, mesmo sendo ateu, saberá que não faz sentido queimar uma bíblia. Mas pra isso ele também precisa entender que religião não é vírus de computador e que Deus e o monstro do Espaguete voador, mesmo que se queira negar a existência de ambos, não são a mesma coisa.

 Não compreendemos mais a religião a partir de alguns sentidos pelos quais eram abordadas até o início do século 20, como ópio do povo (Marx), platonismo para o povo (no caso do cristianismo, Nietzsche) ou neurose universal (Freud). Essas abordagens eram metáforas, não explicações da religião. A diferença é que quando Dawkins fala da religião como vírus, não fala como metáfora, mas literalmente. Se não usasse um discurso tão simplório talvez não tivesse se tornado uma celebridade. Ele é, de longe, o mais midiático do movimento neo-ateu e talvez graças a ele ateus se reúnam em templos aos domingos como uma paródia mambembe das religiões.

 Aí alguns religiosos podem dizer: “Ah, não existem ateus, quando o avião está caindo todos eles chamam por Deus”. Não, não é bem assim. Eu disse no início que o ateísmo não é um credo no sentido que as religiões o são, então é preciso defini-lo: é uma postura diante da vida; ser ateu não é repetir todos os dias que Deus não existe, é viver como se Deus não existisse. O ateu é alguém que encontrou estabilidade em sua vida emocional e social sem precisar de valores religiosos (uma postura que a maior parte da sociedade não pode adquirir). Isso só pode ser resultado de muitos anos de estudos e reflexões e da aquisição de uma cultura histórica e científica a partir da qual o indivíduo adota referenciais de vida e de conduta que prescindem da experiência e dos dogmas religiosos. Isso não torna o ateu necessariamente mais inteligente, mas deve torná-lo apto a entender que não é viável e talvez nem mesmo desejável que as crenças religiosas desapareçam.

 A existência humana é frágil, efêmera e caótica; as doenças e a morte são traumáticas e a vida é carente de sentidos. A religião atribui significados a esse estado de coisas, explica, a partir do mito, o sofrimento e a morte elaborando compensadores para ambos e confere estabilidade emocional e social. Apelar à história para argumentar que as religiões podem se tornar perseguidoras e assassinas não anula o seu papel como agências produtoras de sentidos e de cultura. Somente em condições econômicas, políticas e sociais muito específicas o ateísmo pode ganhar terreno. O que pode se tornar um problema é que, para muitas pessoas, o ateísmo está relacionado à ausência de moralidade e de ética, como no pensamento de Dostoievski de que “se Deus não existe, então tudo é permitido”. Essa visão parte da incapacidade de dissociação de moralidade e ética de religião. Durante milênios, as religiões foram as fontes inspiradoras dos valores morais e somente na modernidade, especialmente no Ocidente, essa relação se rompeu.

 Se existe algo para o que os ateus devem atentar em nossa época é para a importância de manter a religião afastada do controle do poder político, assim como vigiar pelas liberdades individuais e contra a intervenção de princípios religiosos na legislação. Ser ateu é ser, acima de tudo, secularista – o ateísmo não pode vicejar em um ambiente onde a religião tenha o controle do Estado, assim como a própria liberdade de consciência fica seriamente ameaçada nesse contexto.. Isso não significa anular a voz dos religiosos na política e mesmo que queiramos pensar mudanças na legislação que envolvem questões morais, não podemos deixar de dialogar com as religiões.

 O ateísmo contemporâneo somente pode ser eficaz se se afirmar como secularista, enfatizando as liberdades individuais, a tolerância e o esclarecimento (pautas que não são exclusivamente ateístas) em lugar dos reducionismos e de uma militância que por vezes pode atrair mais rejeição do que resultados positivos. Na área da ciência, cabe a reafirmação do ateísmo metodológico, isto é, o reconhecimento de que a ciência não prova Deus e é indiferente a crenças e valores religiosos. O ateísmo metodológico postula que um pesquisador não deve incluir a ação de Deus ou entes sobrenaturais na explicação de fenômenos naturais ou mesmo históricos. Esse princípio foi usado, por exemplo, por Bart D. Ehrman no debate com William Lane Craig sobre o tema da existência ou não de evidências da ressurreição de Jesus Cristo (clique aqui para assistir) e é amplamente aceito no meio científico.

domingo, 31 de maio de 2015

A direita e o culto do irracionalismo


Artigo de Bertone Sousa para seu blog pessoal




 Poucas pessoas entenderam quando Marilena Chauí comentou em uma palestra que a classe média é fascista, mesmo que depois a filósofa da USP tenha explicado didaticamente o sentido de sua frase. Marilena partiu de uma definição marxista de classe média para argumentar como seu desejo de tornar-se classe dominante a conduz ao extremismo político, como no Fascismo. Hoje, enquanto vivemos um momento político conturbado, podemos perceber o quanto a classe média brasileira (não aquela que ascendeu socialmente no governo Lula, mas a classe média no sentido tradicional, a quem Marilena se reportou) flerta com ideias autoritárias. Os panelaços contra Dilma são ações exclusivas desse segmento. São eles que vão às ruas protestar contra o governo e falar contra corrupção usando a camisa da seleção brasileira e a logomarca da CBF! São eles quem falam de “doutrinação de esquerda” nas escolas, pedem outro golpe militar e gritam palavras de ordem para expulsar a esquerda do jogo democrático.

 Parte dessa direita quer ser liberal, mas ela não entende que o liberalismo não funciona em países com grandes bolsões de pobreza, por isso sua defesa do fim das políticas sociais não encontra eco na sociedade; ela não compreende que as políticas sociais não são “esmolas”, mas promovem ascensão e reduzem o abismo entre ricos e pobres, além de expandir o emprego e o  aumento dos pequenos empreendimentos. Esse foi um dos principais acertos do governo Lula, e parte considerável dessa classe média não compreende que apenas se mantem nessa posição em decorrência dessas políticas cujo fim advogam.

 A direita que vai às ruas, na verdade, não está insatisfeita com a corrupção (senão não usaria a camisa da CBF), mas com a democracia. O sentimento de derrota é algo com que muitos não conseguem lidar e com a quarta vitória consecutiva do PT numa eleição presidencial o ressentimento saiu às ruas para manifestar nada mais do que ódio incontido: houve um cartaz defendendo feminicídio, bonecos de Lula e Dilma enforcados em um viaduto, entre outras aberrações que só a direita é capaz de fazer. Curiosamente, querem voltar ao espírito de 1964 e falam de um comunismo que não existe mais. Essa direita que lê apenas Veja e compreende apenas os textos prosaicos de Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho está aquém até mesmo de uma discussão de ideias, porque não tem ideias, apenas papagueia o que lê de seus líderes. Foi assim que Lobão ascendeu a uma posição de destaque em seu meio. Não importa se você nunca leu nada, ser anti-petista já te projeta como um expoente e um intelectual entre eles.

 Culto ao irracionalismo. É isso que vemos hoje no Brasil e é isso o que essas manifestações representam. Numa entrevista ao Jornal Brasil de Fato, a historiadora da USP Maria Aparecida de Aquino teceu algumas considerações importantes sobre as causas do golpe de 1964 e as posturas da direita atualmente. Vou reproduzir alguns trechos da entrevista e retorno a seguir:


Enquanto você tem nos países considerados avançados, como Inglaterra, França, Alemanha, uma determinada caracterização das elites, na medida em que não existe um distanciamento tão grande entre aquele que pertence à elite e aquele que está alijado na sociedade, no Brasil e em outras nações, você tem uma distância imensa. Existem nações em que o menor salário e o maior não ultrapassa dez vezes. Aqui não dá para mensurar quantas vezes ultrapassa. Consequentemente esse distanciamento tão grande faz com que essa elite nossa não seja tão permissiva.

Ela não admite, ela não é democrática. Ela é cruel, mesquinha. No momento em que ela diz “não podem se sentar à mesa”, ela está negando o próprio desenvolvimento. Porque é do acesso dessas pessoas a bens que elas não teriam, e a possibilidade que elas teriam que, inclusive, você tem o maior desenvolvimento do país. Quanto mais gente consumindo, partilhando, mais o país será desenvolvido. Nossa elite nega inclusive o desenvolvimento. O seu próprio desenvolvimento. É predatória, talvez seja o melhor adjetivo para ela.



[…]

Hoje pouca coisa [mudou]. Uma das coisas que persistem é o comportamento das elites. Ainda é muito parecido com o que era em 1964. As elites não evoluíram, não avançaram. Enquanto o Brasil mudou muito, para melhor, um país que inclui muito mais pessoas, e não só por causa dos últimos anos, vem num processo de inclusão muito importante. A realidade que vivemos hoje está a léguas de diferença da realidade de 50 anos atrás. Talvez a única que que persista é uma atitude semelhante das elites, infelizmente.

 […]

Quando você analisa as elites que estavam posicionadas em 1964 elas são claramente golpistas. Elas querem a derrubada do regime democrático. Elas não sabem e não conseguem conviver com o Estado democrático. Portanto, partem, para sua destruição e dissolução, que ocorre através do golpe, ilegal e ilegítimo.

Hoje você tem uma elite que tem um pouco de receio. Ela tem um pouco de receio de dizer “para nós acabou a brincadeira, a bola é minha e não brinco mais” e assumir uma caracterização abertamente golpista. Não que ela não flerte. Não que ela não seja capaz de embarcar em um aventura terrível, pela forma como age, pelas considerações que ela faz.

Um exemplo foi quando a presidenta Dilma se elegeu. Ela teve uma capacidade eleitoral bastante grande no Nordeste. Quando você olha as redes sociais falando dos nordestinos, você vai ver a cara dessa elite. Ela é exatamente aquilo. Ela começa a dizer: “é esse tipo de gente que elegeu, e nós somos melhores”. Ela tem condições, desejo e vontade de flertar abertamente [com o autoritarismo].

Ou seja, hoje você tem um processo ou uma proposta de inclusão social, que de uma maneira ou de outra dá o acesso às pessoas que não teriam a determinadas instâncias, desde a casa própria até o ensino universitário.

Essa proposta descontentava, como descontenta hoje. A proposta de inclusão. Se o Brasil vive um momento de crise, se é que existe a crise, se ela não é fabricada pelos meios de comunicação, essa crise se deve fundamentalmente a esse descontentamento. São os mesmos grupos, a mesma raiz, que não aceita que as pessoas que não têm nem acesso às migalhas passem a se sentar na mesa.

[…]

Uma coisa é pensarmos no Brasil como um país jovem, que está vivendo um processo de ascensão das chamadas classes médias, quanto a isso não há dúvida, mas é um erro achar que nesse mesmo processo progressivo também terá o mesmo processo no sentido de qual leitura eles terão da realidade brasileira. Infelizmente, a leitura que se tem, na média, é conservadora.

Isso se deve à formação do Brasil, uma escolarização muito baixa. Teve o acesso das pessoas ao ensino, mas é um ensino transformador? Quando se pega a escola pública, que atende à vasta maioria, essa educação transforma sua mentalidade, prepara para os novos tempos? Se tivesse uma imprensa que fosse muito mais plural, também contribuiria para que tivéssemos esses debates ampliados.

 Retornando…

 Recentemente Olavo de Carvalho escreveu em uma rede social que um dos motivos pelos quais a esquerda encontra tanto apoio no Nordeste em termos eleitorais por conta do Bolsa Família é porque os ricos deixaram de dar esmola. Lembrei disso ao ler a entrevista de Aquino quando ela diz as elites querem que os pobres vivam de migalhas. É essa a mentalidade da direita. No Brasil, quando os pobres começam a não depender de esmolas isso começa a incomodar. Eu disse em outro texto que o PT deixou de fazer reformas e investimentos importantes e isso contribuiu para o ajuste fiscal que agora pesa sobre os trabalhadores e reflete em um sensível aumento do desemprego.

 Mas a direita não está preocupada com o desemprego. Nunca esteve. A direita jamais foi às ruas protestar quando dezenas de milhares de pessoas se submetiam a condições degradantes em filas quilométricas por um vaga de emprego durante o governo FHC. Também não está preocupada com a corrupção. Jamais se manifestou contra ela. E a corrupção não é exclusiva do PT, ela está presente em toda a nossa política partidária e nas prefeituras dos mais remotos rincões do país. Ela vai às ruas porque não suporta cotas para negros, porque a desigualdade social foi reduzida demais pra seu gosto e porque não consegue mais vencer eleições presidenciais.

 Sua defesa do liberalismo é ranheta. O liberalismo prega o estado mínimo apenas para os pobres, ele prega que o estado não deve investir em políticas sociais mas deve manter os arrochos salariais e proteger os interesses dos banqueiros e das grandes corporações empresariais, livrando-os da bancarrota sempre que necessário. Ora, o PT não deixou de atender a esses interesses também, porém, não deixou de descontentar quem acha que fazer políticas sociais é fazer comunismo.

 Como disse a historiadora da USP, “ela [a direita] não é democrática. Ela é cruel, mesquinha”. E agora sai às ruas para mostrar essa face que por tanto tempo escondeu sob a máscara liberal. Essa direita quer o apoio da sociedade nas ruas. Mas suas medidas econômicas, tão logo implementadas, perdem essa base de apoio e a sociedade se volta novamente para a esquerda. Ela é mesquinha porque seu projeto econômico é reduzir o papel do estado na economia e isso acarreta desemprego, terceirizações, perdas de direitos trabalhistas; e não é democrática porque, não conseguindo vencer eleições, quer criminalizar a esquerda, quer ditadura, cassação de direitos civis e políticos. Em todo caso, a direita representa o retrocesso, o irracionalismo.

PS.: CLIQUE AQUI para acessar ao vídeo onde Marilena Chauí explica a classe média.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Dez coisas que Bertone Sousa ainda precisa aprender



 Bertone de Oliveira Sousa, professor do curso de História da UFT que já teve artigos reproduzidos neste blog, recentemente lançou em seu blog o artigo ''Dez coisas que a esquerda brasileira ainda precisa aprender'', parecido com uma publicação anterior chamado ''Notas avulsas'': um conjunto de teses do autor sobre a nossa realidade. Gostaria de fazer aqui uma crítica às teses divulgadas nesse artigo mais recente.

  1. O PT promoveu inclusão social, mas isso não deveria lhe dar o direito de saquear o país. Em última análise, os mensalões e petrolões foram roubos aos próprios trabalhadores, que agora são forçados a pagar os prejuízos. O PT se mostrou tão patrimonialista quanto qualquer outro partido e somente se mantém no poder porque a direita, apesar de também ser patrimonialista, não quer inclusão nem ascensão social, por isso não consegue ser oposição e vencer eleições. E como não há oposição, o PT se destrói por dentro como vem fazendo. A direita nunca vai querer políticas sociais, por isso sempre vai vociferar contra elas. A crise atual ocorre porque o governo deixou de fazer reformas importantes e agora tem que recuar das políticas sociais e deixar a economia decrescer. Isso não tem a ver com “ódio burguês ou elitista”, isso é resultado apenas de má administração e fisiologismos partidários.

 Que o PT é patrimonialista e corrupto como suas contrapartes mais à direita todos nós sabemos; o elemento diferenciador dessa tese do professor seria a de que a ''crise atual'' ocorre somente porque o governo deixou de fazer as tais reformas, e que essa negligência seria apenas resultado de má administração e fisiologismos partidários. Ok, mas por que houve (e há) má administração e fisiologismos partidários? Talvez convenha dizer que o oligopólio midiático e a estrutura de financiamento das campanhas cerceiam o potencial de conscientização dos partidos à esquerda, gerando uma conjuntura conservadora que dificulta o progressismo. Veja bem, não estou dizendo que nestes anos todos o governo estivesse completamente impedido de fazer reformas mais à esquerda, mas que a conjuntura conservadora, somada ao fato de que o governo negligenciou a conscientização da classe trabalhadora (''Mas classe não existe, e nem luta de classes!'', dirá o professor), são um forte impedimento a essas reformas. O governo federal petista, em 2003, optou por um caminho que buscava conciliar os interesses de classe antagônicos. Por um período de mais ou menos 10 anos esse modelo pôde funcionar devido a um cenário externo favorável, mas caiu por terra recentemente. Eis a real causa da crise. E o ''ódio burguês e elitista'' agora exige austeridade e até mesmo intervenção militar, para jogar mais esta crise do capitalismo -- que, não sabe o professor Bertone, ameaça jogar-nos em mais uma recessão mundial nos próximos 2 ou 3 anos -- na conta dos trabalhadores e dos mais pobres (mais informações sobre o impacto da depressão econômica mundial no Brasil aqui e aqui).

2. Não existe imprensa golpista no Brasil. Quem faz golpe são militares, milícias ou grupos armados tomando as ruas e prédios governamentais. Imprensa faz oposição e oposição não é golpe.

 De fato, a imprensa sozinha não é capaz de derrubar um governo. Esqueceremos, porém, coisas como o apoio dado por tantos e tantos jornais conservadores ao impedimento de João Goulart, ainda que esse estivesse muito mais à esquerda que Dilma? Esqueceremos como a própria emissora que levou o neoliberal Fernando Collor de Melo, recentemente absolvido das acusações utilizadas como justificativa para o impeachment por falta de provas, tirou-lhe do poder?


3. Não existe luta de classes no mundo contemporâneo. Existem, sim, ricos e pobres e suas diferenças não se manifestam mais na forma de luta de classes. Marx usou esse conceito no século XIX como parte de uma filosofia da história em que o desenvolvimento produtivo da sociedade capitalista levaria de forma inevitável à ditadura do proletariado, que seria a passagem para a abolição de todas as classes. O conceito de classe, em Marx, sobrepuja o indivíduo, cujos pensamentos e modos de viver são condicionados por sua posição em uma classe social, compreendida como unidade sólida. Nossa época é a da afirmação do indivíduo, das minorias e da rejeição a ideologias coletivistas. Os pobres não querem revolução social nem são movidos por ideais classistas, eles querem consumir, querem ampliação de direitos e integração. Algumas lideranças de esquerda perceberam a importância disso ainda na década de 1870 e criaram a social-democracia. Hoje, evocar “luta de classes” apenas serve para jornalistas pagos pelo governo polarizarem debates e inflamarem ânimos. Somente. Tirando isso é um conceito fora de tempo.

 Devo dizer que essa é, de todo o texto, minha tese favorita, por apresentar explicitamente a forma pós-moderna de pensar do professor Bertone. Diz ele que já não há luta de classes no mundo contemporâneo; por que então estariam sindicatos lutando por coisas como o aumento do salário mínimo e de outros benefícios trabalhistas, com a oposição dos patrões e proprietários, que querem margens de lucro sempre maiores? Essa oposição de interesses, que não é meramente a oposição de interesses individuais mas sim de interesses de grupos, é simplesmente o antagonismo de classes inseparável do capitalismo. Bertone diz que o conceito de luta de classes era praticamente apenas uma desculpa, uma justificativa para a conclusão da filosofia da história de Marx, e que os pobres de hoje querem simplesmente consumir, ter seus direitos ampliados e aumentar sua integração aos frutos da civilização moderna; o professor inverte Marx, que primeiro partiu da análise da produção material da vida para daí desenvolver sua filosofia da história (ou, em outras palavras, primeiro descobriu a luta de classes no capitalismo para dai então concluir que esta levaria à ditadura do proletariado e então à abolição das classes), e esquece que, para poder consumir e integrar-se, os pobres precisam ganhar mais (um valor a mais que talvez, diria eu, seus empregadores -- donos dos meios de produção -- não estejam afim de pagarem), e que para terem seus direitos ampliados (e aqui eu entendo direitos sociais, como saúde e educação públicas de qualidade, além de emprego), é preciso que o governo aloque recursos do setor capitalista e até mesmo de outros consumidores. Um último adendo: a social-democracia festejada por Bertone no final do parágrafo é a mesma que apoiou a permanência de alguns países na primeira guerra mundial quando estavam em seus governos -- permanência essa combatida pelos ''atrasados'' comunistas e socialistas.

Há algum tempo, aliás, escrevi um texto sobre luta de classes que pode ser lido aqui.

4. É preciso entender que não faz mais sentido colocar os adjetivos “socialista” e “comunista” em siglas de partido, ainda mais quando vêm acompanhados do substantivo “liberdade”. Alguém saberia dizer o que é um socialismo com liberdade? Alguém sabe dizer como construir o socialismo sem que isso resulte no fracasso das experiências do século passado? Por que o partido que reúne esses dois termos apenas defende lugares onde não há liberdade?

 Bertone não justifica o porquê de não ''fazer mais sentido'' colocar os adjetivos ''socialista'' e ''comunista'' em siglas de partido; não é o normal a se fazer quando uma organização política com um projeto de nação socialista ou comunista se forma? É também risível o que Bertone fala a seguir, repetindo como um papagaio a propaganda de certos liberais do Ocidente. O socialismo -- o regime de propriedade pública dos meios de produção com um Estado proletário -- é essencialmente libertário, exatamente pelo fato de que os trabalhadores já não precisam se submeter às condições que a classe capitalista monopolizadora dos meios de produção impõe àqueles para que obtenham seu ganha-pão, e a possibilidade de um planejamento racional e democrático da produção social permite a satisfação das necessidades humanas individuais. Talvez Bertone esteja falando de um Estado autoritário, fortemente repressor, cujos membros teriam absoluto poder sobre a população; diz também ele que as experiências socialistas do passado foram um fracasso. Pois bem, se eu puder usar a Rússia soviética como exemplo de que Bertone está errado, gostaria de apresentar 2 citações do famoso historiador Isaac Deutscher e deixar as conclusões por conta dos leitores:

''No curso desse decênio [1929-1939] a produção de eletricidade por ano elevou-se de 6 para 40 bilhões de kWh; a produção de carvão passou de 30 para 133 milhões de toneladas; a de petróleo, de 11 para 32 bilhões de toneladas; a de automóveis, de 1400 para 211 mil unidades. Antes da revolução, o número de médicos era de 20 mil, em 1937 passou a 105 mil. O número de leitos de hospital passou de 175 para 618 mil. Em 1914, 8 milhões de pessoas frequentavam escolas de todos os níveis; em 1928, 12 milhões de pessoas, em 1938, 31,5 milhões. Em 193, 112 mil pessoas estudavam em estabelecimentos de nível universitário; em 1939, 620 mil. Antes da revolução, as bibliotecas públicas possuíam 640 livros para cada 10 mil habitantes; em 1939, 8610.''

 ''Os deputados dos sovietes não eram escolhidos por um período fixo. O eleitorado tinha o direito de substituí-los por outros a qualquer momento. Sua composição renovava-se, portanto, através de frequentes eleições suplementares. Por isso, eles se transformaram num reflexo perfeito do cambiante estado de espírito popular. Esta era a fonte de uma incomparável autoridade moral. Além de dar representação semi-parlamentar às classes inferiores, eram também o poder executivo de fato, com a qual a administração normal jamais poderiam competir.''

 Lembremos que a URSS foi aquela que conseguiu crescer 2125% nos dois primeiros Planos Quinquenais de Stálin, esmagou o exército nazista, se recuperou rapidamente da destruição causada pela guerra e ainda lançou o primeiro homem ao espaço (além de prover uma logística que pôde proteger os alemães orientais do inverno marcado pela fome com o qual sua contraparte ocidental, enteada dos EUA, sofreu). O gráfico abaixo demonstra o crescimento do PIB (repare na ausência de recessões) na pátria socialista:


O socialismo falhou; reverta para capitalismo!

 Aquele que ainda acreditar na tese direitista da ''impossibilidade de uma economia socialista eficiente'', leia esse texto.

5. Cuba não é um exemplo de saúde e educação que ainda se possa elogiar. Vários países construíram excelentes índices de educação e saúde pública sem sacrificar as liberdades individuais de seus cidadãos e nem abrir mão da democracia, como fez Cuba.

Farei outra citação:

“Cuba é internacionalmente reconhecida por seus êxitos nos campos da educação e da saúde, com um serviço social que supera o da maior parte dos países em vias de desenvolvimento e em certos setores se compara ao dos países desenvolvidos. Desde a Revolução Cubana, em 1959, e do subsequente estabelecimento de um governo comunista com partido único, o país criou um sistema de serviços sociais que garante o acesso universal à educação e à saúde, proporcionado pelo Estado. Esse modelo permitiu a Cuba alcançar a alfabetização universal, erradicar certas doenças, [prover] acesso geral à água potável e salubridade pública de base, [atingir] as taxas mais baixas da região de mortalidade infantil e uma das maiores expectativas de vida. Uma revisão dos indicadores sociais de Cuba revela uma melhora quase contínua de 1960 até 1980. Vários indicadores principais, como a expectativa de vida e a taxa de mortalidade infantil continuaram melhorando durante a crise econômica do país nos anos 90 [...]. Atualmente, os serviços sociais de Cuba são parte dos melhores do mundo em desenvolvimento, como documentam numerosas fontes internacionais, incluindo a Organização Mundial da Saúde, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, além de outras agências da ONU e o Banco Mundial […]. Cuba supera amplamente a América Latina, o Caribe e outros países de renda média nos indicadores principais: educação, saúde e salubridade pública”. (Barbara Bruns & Javier Luque, Profesores excelentes. Cómo mejorar el aprendizaje en América Latina y el Caribe, Washington, Banco Mundial, 2014, pp. 87-88)

''Cuba possui altos índices de saúde e educação, com um alto Índice de Desenvolvimento Humano: de 0,815 em 2014. De acordo com os dados apresentados pelas Nações Unidas, Cuba foi a única nação em todo o mundo que em 2006 atingiu a definição de desenvolvimento sustentável do World Wide Fund for Nature, com uma pegada ecológica de menos de 1,8 hectares per capita, 1,5 hectares, e um Índice de Desenvolvimento Humano de mais de 0,855.''



Mais informações sobre a saúde e educação de Cuba aqui. Sobre o suposto caráter ditatorial de Cuba, sugiro a leitura do texto da professora Anita Leocádia Prestes, ''O sistema político de Cuba: uma democracia autêntica''.

6. A democracia socialista é totalitarismo. Só existia (e só existe) para o partido e sua nomenklatura, que encarna a vontade da coletividade sem consultá-la. Hoje não falamos mais em “democracia burguesa”, falamos genericamente em democracia e pensando o acesso das minorias e a inclusão dos pobres nela. É nessa via que a esquerda ainda pode ser bem-sucedida porque a direita governa para os ricos e em detrimento dos pobres. Por isso, a direita sempre terá os pobres contra ela. A única alternativa que sobrou à democracia ocidental é o radicalismo islâmico.


 Não é preciso me aprofundar nessa tese. A citação de Deutscher sobre o sistema de sovietes na URSS e o texto da professora Leocádia demonstram que a democracia socialista, longe de ser ''totalitarismo'' -- categoria consagrada pro uma pensadora que recebia dinheiro da CIA para escrever suas sobras e que foi destroçada por Domenico Losurdo aqui --, é mil vezes mais democrática que qualquer democracia burguesa.


7. Militar em partidos é abrir mão da inteligência. Partidos existem em função de projetos de poder e, quando precisam, fazem negociatas com seus adversários políticos. Militantes são rebanho, massa de manobra.

 Eis o genial julgamento do professor! Unir-se a outras pessoas por uma causa comum, um projeto de nação, é ''abrir mão da inteligência''. Que tipo de coisas mais nos apresentará o nosso querido pós-moderno?
 8. Antiamericanismo e antissionismo são expressões infantis que não levam a lugar algum, exceto à depreciação da democracia, que é tudo o que a esquerda não precisa fazer. É possível criticar a política externa norte-americana sem jogar no lixo a democracia e a riquíssima herança cultural desta sociedade, com quem ainda temos muito a aprender. O mesmo pode ser dito em relação ao Estado de Israel. Mas neste caso as vergonhosas manifestações da esquerda a favor do Hamas em tempos de conflito na Palestina resultam apenas de muita ignorância histórica e de um dogmatismo ranheta.

 Estaria Bertone aqui acusando a esquerda de antiamericanismo e chamando o regime interno desse país de ''democracia''? A primeira coisa é uma acusação natimorta, pois a esquerda tupiniquim não tem problemas em receber elementos da ''riquíssima herança cultural'' desse país, ou de adotar o progressismo que é lá realizado. Façamos, porém, a ressalva de que um país com tamanha população carcerária (em presidiárias privadas!) e com tantas mortes de negros por uma polícia racista é um tanto quanto difícil de se chamar de democrático.
9. Analisar conjunturas sociais e econômicas a partir de posições apriorísticas, isto é, tomando por base sempre uma formação ideológica, geralmente leva a abordagens reducionistas. Os casos acima citados são exemplos clássicos e muitos outros poderiam ser citados de meios jornalísticos de esquerda ou direita. Nenhuma abordagem social é imparcial, mas pode não ser redutiva e nesse ponto a compreensão histórica e análises de caso são mais importantes do que as categorias ideológicas. Ideologias não interpretam, rotulam; não compreendem nem dialogam, denegam. Por isso as ideologias estão mortas, pois não interpretam mais o mundo. O liberalismo foi a única que sobreviveu e não por acaso é a menos universalista delas.

''Analisar conjunturas sociais e econômicas a partir de posições apriorísticas, isto é, tomando por base sempre uma formação ideológica, geralmente leva a abordagens reducionistas''. Eis algo que, como apontam minhas críticas às teses anteriores, o próprio Bertone deveria levar para a vida. 

10. A esquerda fala de Marx mais do que o lê e quando lê fala de burguesia, capitalismo e imperialismo como se ainda estivessem no início do século 20. Ler Marx e compreender historicamente suas ideias já seria um passo importante para entender uma modernidade que não é mais a nossa e não cometer os equívocos elencados acima.
 

 Espero que não soe como arrogância, mas creio que não sou nenhum ''esquerdista que fala de Marx mais do que o lê'', uma vez que já li, dentre vários textos de introdução e explanação do pensamento do filósofo de Treves, A Ideologia Alemã, Manifesto do Partido Comunista, Manuscritos Econômico-Filosóficos, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, Miséria da Filosofia e o Livro Primeiro de O Capital (cuja continuação estou começando a folhear); tampouco não compreendo historicamente suas ideias: são um reflexo do antagonismo de classes intrínseco à sociedade capitalista tal qual ele se apresentava na época em que Marx era vivo. Se, entretanto, o professor acha que o uso de categorias como ''burguesia'' e ''imperialismo'' são pura infantilidade, apenas faço questão de lembrar-lhe como as medidas neoliberais são exatamente a expressão da vontade de grupos com certos interesses contra a classe trabalhadora, e como os EUA seguem hoje, como antigamente, com suas agressões mundo afora, inclusive dando apoio aos nazistas na Ucrânia, sem falar nos milhares de civis mortos com o uso de drones no Oriente Médio.

 O professor Bertone, que -- para usar as clássicas expressões de Marx em crítica à economia vulgar -- ''se jacta de saber'' que já não existem classes ou luta de classes, que projetos sociais comuns são uma estupidez, que a única e melhor democracia possível é o ato de ir às urnas de 2 em 2 anos escolher aquele que irá nos roubar melhor, ''realmente nada aprendeu''.