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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A vida em outro planeta

Do blog de Luiz Lima:

 Um álbum da vida no Estado proletário. Há, sem dúvida, as imagens de filas para comprar pão e carne, tão caras aos olhos dos anticomunistas militantes (talvez porque nós nunca tenhamos dado a resposta certa: só havia fila porque o povo tinha dinheiro e o que comprar...). Há um belíssimo exemplo do internacionalismo proletário -- que falta anda fazendo, não? -- no apoio ao povo vietnamita em sua luta pela libertação. Há uma foto emblemática de Leonid Brejnev, o burocrata quintessencial, incapaz de compreender que a URSS teria, mais uma vez, de se reinventar para fazer frente aos desafios de (mais uma) ofensiva do capital. Há, ainda, a dolorosa imagem dos veteranos de guerra, em muletas, penando para levar adiante suas vidas nos corpos mutilados pelo agressor fascista. Há o estudante em seu quarto, inspirado, quem sabe, pelo olhar vigilante de Lenin, na parede. E há crianças. Muitas crianças, às quais se ensinava que o futuro - que nunca chegou - a elas, e aos pequenos de todo o mundo, pertenceria. Um futuro em que a Humanidade seria enfim única -- e livre.

 As fotos são todas familiares -- e ao mesmo tempo parecem irreconhecíveis. São ecos de um mundo distante, não no tempo nem no espaço -- mas no espírito.



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A URSS em 1947








 A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, fundada em 1922, foi fruto da revolução russa; a Rússia tinha ainda, em fins da segunda década do século passado, uma população formada por mais de 80% de camponeses e uma massa absoluta de analfabetos, com um governo imperial. Mal-treinado e mal-tratado, o exército russo (ao lado da Inglaterra e da França e contra a Alemanha) foi lançado no 1º grande conflito do imperialismo, a 1ª Guerra Mundial. A revolta aos poucos instalou-se nele e, organizada nos sovietes -- assembleias de delegados diretamente eleitos -- e canalizada pelos bolcheviques de Lênin (que compreendiam e aceitaram as demandas do seu povo pelas ''teses de Abril'', pão, terra e paz; não sem motivo, portanto, passando de uns poucos milhares em março de 1917 para um quarto de milhão de membros no início do verão daquele ano), pôs abaixo o regime czarista e a república liberal o substituiu no épico outubro de 1917 (diz-se que, quando chegou a hora, mais que tomado, o poder foi colhido). A rebelião contra a guerra (Lênin imediatamente assinou um tratado de paz com a Alemanha) adquiriu concentração e atuação. Não admira que os censores austro-húngaros, controlando a correspondência de seus soldados, passaram a notar uma mudança de tom: ''Se ao menos o bom Deus nos trouxesse a paz'' tornou-se ''Para nós já chega'' ou ''Dizem que os socialistas vão trazer a paz''.

 Vários exércitos e regimes contra-revolucionários levantaram-se contra os russos vermelhos, financiados pelos aliados, que enviaram tropas britânicas, francesas, americanas, japonesas, sérvias, polonesas, romenas e gregas para o solo russo. Nos piores momentos da brutal e caótica guerra civil de 1918-20, a Rússia Soviética foi reduzida a uma faixa de território sem saída para o mar, no norte e no centro da Rússia, em algum ponto entre a região dos Urais e os atuais Estados bálticos, a não ser pelo estreito dedo exposto de Leningrado, apontado para o golfo da Finlândia. As únicas vantagens importantes com que o novo regime contava, enquanto improvisava do nada um Exército Vermelho eventualmente vitorioso, eram a incompetência e a divisão das briguentas forças contrarrevolucionárias, a capacidade destas de antagonizar o campesinato da Grande Rússia, e a bem fundada desconfiança entre as potências ocidentais de que não podiam ordenar com segurança a seus soldados e marinheiros rebeldes que combatessem os bolcheviques. Em fins de 1920, os bolcheviques haviam vencido; a Rússia soviética sobrevivera (mais que os 2 meses e quinze dias da Comuna de Paris, para o alívio e o orgulho de Lênin).

Os bolcheviques puseram-se a reconstruir o país: contra os anos de interrupta crise e catástrofe, conquista alemã e imposição de paz punitiva, separações regionais, intervenção estrangeira, colapso econômico e fome, adotaram a NEP (''New Economic Policy''), da qual pode se tomar como consequência a recuperação da produção industrial soviética ao seu nível pré-guerra em 1926, embora isso não significasse muita coisa: a URSS continuava tão esmagadoramente rural quanto em 1913 (82% da população nos dois casos), e na verdade só 7,5% estavam empregados fora da agricultura. A ''economia planejada'' dos Planos Quinquenais tomou então seu lugar, mais com o objetivo de de criar novas indústrias do que dirigi-las, e preferindo dar prioridade imediatamente aos setores básicos da indústria pesada e da produção de energia que eram a fundação de qualquer grande economia industrial: carvão, ferro e aço, eletricidade, petróleo etc. A excepcional riqueza da URSS em matérias-primas tornava essa opção ao mesmo tempo lógica e conveniente. Além disso, ocorreu a coletivização compulsória das terras cultiváveis.

 Épico e trágico que tenha sido o trajeto (e a industrialização soviética jogou o consumo de sua população lá embaixo -- em 1940 a economia produziu apenas pouco mais de um calçado para cada habitante), para um país atrasado e primitivo, isolado de ajuda estrangeira, com todos os seus desperdícios e ineficiências, ele funcionou de modo impressionante:

- os 22 milhões de toneladas colhidas em 1930-1 representaram mais que o dobro da colheita obtida pelo governo em em 1928-9;
- a taxa média anual de crescimento da produção industrial na década de 1930 girou em torno de 16% (a dos EUA, entre 1889 e 1929, foi de 5%, e a da Inglaterra entre 1885 e 1913, 3%);
- a produção de eletricidade por ano elevou-se de 6 para 40 bilhões de kWh, a de carvão, de 30 para 133 milhões de toneladas, e a de automóveis, de 1400 para 211 mil unidades;
- antes da revolução, o número de médicos era de 20 mil, em 1937 passou a 105 mil;
- o número de leitos de hospital passou de 175 mil para 618 mil;
- em 1914, o número de pessoas que frequentavam escolas de todos os níveis era de 8 milhões, em 1928, 12 milhões, e em 1938, 31.5 milhões;
- em 1913, 112 mil pessoas estudavam em estabelecimentos de nível universitário, e em 1939, 620 mil;
- antes da revolução, as bibliotecas públicas possuíam 640 livros para cada 10 mil habitantes, e em 1939, 8610;
- antes de 1928, a taxa de analfabetismo era de 80%, mas em 1938, 90% da população sabia ler e escrever;
- a economia deu pleno emprego, comida, roupa e habitação a preços controlados (ou seja, subsidiados), alugueis, pensões e assistência médica: o padrão de vida em 1937 era provavelmente mais elevado do que o de qualquer outro ano desde 1928 (ano em que iniciou o Primeiro Plano Quinquenal) e, de acordo com certas informações, pode mesmo ter superado o daquele ano.

 A transformação de um país em grande parte analfabeto na moderna URSS foi, por quaisquer padrões, um feito impressionante, e para milhões de habitantes das aldeias para as quais, mesmo nos tempos mais difíceis, o desenvolvimento soviético significou a abertura de novos horizontes, a fuga das trevas e da ignorância para a cidade, a luz e o progresso, sem falar em avanço pessoal e carreiras, a defesa da nova sociedade era inteiramente convincente. De qualquer forma, não conheciam nenhuma outra.

 Ao mesmo tempo, no Ocidente, o que se dava era a catástrofe social. Nos EUA, entre 1929 e 1932 se registraram mais de 85 mil falências empresariais, quando a economia mergulhou numa devastadora depressão. Nesses 3 anos, mais de cinco mil bancos suspenderam suas ações; o valor das ações negociadas na bolsa de NY caiu de US$87 bilhões pra US$19 bilhões; 12 milhões de trabalhadores perderam o emprego e um quarto da população ficou sem meios de sustento; a renda agrícola caiu mais da metade e a produção da indústria de transformação caiu quase 50%. Sua produção industrial caiu cerca de um terço entre 1929 e 1931, suas importações e exportações entre 1929 e 1932 declinaram 70% e a Westinghouse, grande empresa de eletricidade, perdeu dois terços de suas vendas, enquanto sua renda líquida caiu 7% em dois anos. Houve uma crise na produção básica, tanto de alimentos como de matérias-primas, porque os preços, não mais mantidos pela formação de estoques como antes, entraram em queda livre. O preço do chá caiu 2/3, e o seda bruta, 3/4. Isso deixou prostrados -- para citar apenas os nomes relacionados pela Liga das Nações em 1931 -- Argentina, Austrália, países balcânicos, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Egito, Equador, Finlândia, Hungria, Índia, Malásia britânica, México, Índias holandesas (atual Indonésia), Nova Zelândia, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, cujo comércio internacional dependia em peso de uns poucos produtos primários. Em suma, tornou a depressão global num sentido literal -- sendo sua consequência mais básica o desemprego em escala inimaginável e sem precedentes, e por mais tempo do que qualquer um imaginara.

 No pior período da Depressão (1932-3), 22 a 23% da força de trabalho britânica e belga, 24% da sueca, 27% da americana, 29% da austríaca, 31% da norueguesa, 32% da dinamarquesa e nada menos que 44% da alemã não tinha emprego. E o que é igualmente relevante, mesmo a recuperação após 1933 não reduziu o desemprego médio da década de 1930 abaixo de 16 a 17% na Grã-Bretanha e Suécia e 20% no resto da Escandinávia. A imagem predominante da época era a das filas de sopa, de ''marchas da fome'' saindo de comunidades industriais sem fumaça nas chaminés onde nenhum aço ou navio era feito e convergido para as capitais das cidades, para denunciar aqueles que julgavam responsáveis.

 O grande trauma da Grande Depressão foi realçado pelo fato de que um país que rompera clamorosamente com o capitalismo estava imune a ela: a União Soviética. Enquanto o capitalismo liberal estagnava, a URSS entrava numa industrialização ultra-rápida e maciça sob seus novos Planos Quinquenais. De 1929 a 1940, a produção soviética triplicou, no mínimo. Subiu de 5% dos produtos manufaturados no mundo em 1929 para 18% em 1938, enquanto no mesmo período a fatia conjunta dos EUA, Grã-Bretanha e França caía de 59 para 52% do total do mundo.

 Mas a burguesia mundial via com péssimos olhos o Estado proletário e o possível alvorecer da revolução mundial. O fascismo, até então visto sobretudo como um movimento identificado com a Itália, tornou-se o principal veículo internacional da direita política, e, em vários países multiplicaram-se e cresceram movimentos políticos fascistas ou que, não sendo fascistas, desejavam associar-se ao prestígio e ao poder dos dois importantes países europeus sob regimes fascistas. Outros movimentos reacionários militantes ligaram-se a grupos fascistas em seus países ou nos estrangeiros, buscaram apoio junto ao fascismo estrangeiro ou no mínimo viram a a ascensão do fascismo internacional -- principalmente do nazismo alemão -- como uma defesa contra sua própria esquerda nacional. Como diziam na época, ''antes Hitler do que Léon Blum''.

 Num discurso pronunciado em 1931, Stálin (desde 1935 defensor de uma aliança entre França, Inglaterra e URSS contra as potências fascistas) lembrou que a Rússia "foi derrotada pelos beis turcos. Foi vencida pelos nobres poloneses e lituanos. Foi derrotada pelos capitalistas ingleses e franceses. Foi superada pelos barões japoneses. Todos a venceram – devido ao seu atraso... Estamos 50 ou 100 anos atrás dos países adiantados. Devemos superar essa distância em 10 anos. Ou fazemos isso ou eles nos esmagam".

Em junho de 1941, a Alemanha nazista invadia a URSS. Estimativas dos cidadãos soviéticos mortos na 2ª Guerra Mundial se situam no geral nos 20 milhões, embora alguns especialistas consideram que chegaram aos 30 milhões. No início da guerra, Hitler conquistou rapidamente a área onde se concentrava mais da metade da capacidade de produção da União Soviética. O território ocupados pelas alemães era responsável por 70% das minas de carvão, 60% da produção de minério de ferro, 50% da produção siderúrgica e 30% da colheita de cereais. Quando o exército soviético recuou, destruiu grande parte das instalações produtivas para impedir que fossem utilizadas pelos alemães. Quando, mais tarde, estes foram repelidos, também eles adotaram uma política de ''terra arrasada'', destruindo na sua retirada qualquer coisa de valor que encontrassem. Além de matarem mais de 20 milhões de soviéticos, os nazistas destruíram os lares de outros 25 milhões, arrasando totalmente cerca de 2 mil cidades e 70 mil aldeias.

 A destruição desses milhões de pessoas, casas, fábricas, animais sem conta e dos sistemas de ferrovias, transportes e comunicações fez da URSS um ''vencedor'' -- e a vitória da Alemanha de Hitler foi, como só poderia ter sido, uma vitória do Exército Vermelho: quatro quintos dos combates na Segunda Guerra Mundial aconteceram no front do Leste, dois terços do exército alemão estavam no Leste mesmo depois do Dia D -- quase totalmente devastado na 2ª Guerra Mundial. O progresso econômico da década de 1930, obtido com alto custo social e humano, foi em larga medida apagado pela tentativa nazista de conquistar a União Soviética. Contudo, apesar dessas perdas os soviéticos mantiveram sua organização econômica e capacidades gerais, e com a experiência adquirida do planejamento dos anos 30, se recuperaram com velocidades miraculosa (os planejadores soviéticos provavelmente não teriam tido esse sucesso se o plano que os chefes do Estado-maior norte-americano para lançar bombas atômicas sobre suas vinte principais cidades dez semanas após o fim da guerra tivesse sido concretizado). Em 1950, a produção industrial bruta era muito mais alta do que antes da guerra e a agricultura voltara aos níveis anteriores àquela. A taxa de crescimento de seu PIB na década de 1950 foi mais veloz que a de qualquer país ocidental, e as economias da Europa Oriental cresceram quase com a mesma rapidez -- mais depressa em países até então atrasados, mais devagar nos já industrializados ou parcialmente industrializados. Embora o bloco oriental perdesse o ritmo na década de 1960, seu PIB per capita em toda a Era de Ouro (1945-1973) continuou crescendo ligeiramente mais rápido que o dos grandes países industriais capitalistas.

A mais importante conquista da economia soviética foi a abolição do desemprego. A União Soviética não apenas proveu emprego para todos como o trabalho era considerado uma obrigação social, de tanta importância que foi consagrado na constituição. A constituição de 1936 estipulara que ''os cidadãos da URSS têm o direito de trabalhar, ou seja, são garantidos o direito ao emprego e ao pagamento por seu trabalho de acordo com a qualidade e quantidade.'' Por outro lado, viver de meios que não o trabalho era proibido. Consequentemente, tirar riqueza de rentismo, lucros, especulação ou mercado negro — parasitismo social — era ilegal (Szymanski, 1984). Achar um emprego era fácil, porque normalmente havia baixa oferta de trabalho. Consequentemente, os funcionários tinham um alto poder de negociação no trabalho, com evidentes benefícios em segurança do trabalho e a gestão prestando muita atenção á satisfação do empregado (Kotz, 2003).

O artigo 41 da constituição de 1977 estabeleceu a semana de trabalho em 41 horas. Trabalhadores do turno da noite trabalhavam 7 horas mas recebiam a remuneração total (correspondente a 8 horas). Os trabalhadores empregados em empregos perigosos (por exemplo, mineradores) ou onde a vigilância mantida era crítica (por exemplo, médicos), trabalhavam 6 ou 7 horas mas recebiam salário integral. Trabalho em hora-extra foi proibido, exceto em circunstâncias especiais (Szymanski, 1984).

A partir dos anos 60, os trabalhadores receberam em média um mês de férias (Keeran e Kenny, 2004; Szymanski, 1984), que poderiam ser tomadas em resorts subsidiados (Kotz, 2003).

 A todos os cidadãos soviéticos era fornecida uma renda de aposentadoria, aos homens com 60 anos de idade e às mulheres com a idade de 55 (Lerouge, 2010). O direito à pensão (assim como benefícios por invalidez) foi garantido pela constituição soviética (artigo 43, constituição de 1977), ao invés de ser revogável e sujeita a caprichos momentâneos de políticos, como é o caso nos países capitalistas.

 Às mulheres era garantida licença maternidade totalmente remunerada desde 1936, além de muitos outros benefícios, pela constituição soviética (artigo 122, 1936). Simultaneamente, a constituição de 1936 provia uma ampla rede de maternidades, creches e jardins de infância, enquanto a constituição de 1977 obrigava o Estado a ajudar ''a família, proporcionando e desenvolvendo um amplo sistema de assistência à infância... mediante o pagamento de subvenções sobre o nascimento de uma criança, fornecendo subsídios às crianças e benefícios para as grandes famílias'' (artigo 35). A União Soviética foi o primeiro país a criar creches públicas (Szymanski, 1984).

 Também lhes foi garantida a igualdade de direitos em relação aos homens, em todas as esferas da vida econômica, política, cultural e social (artigo 122, 1936), incluindo o direito ao emprego, descanso e lazer, segurança social e educação. Entre seus muitos pioneirismos, a URSS foi o primeiro país a legalizar o aborto, que estavam disponíveis sem custo algum (Sherman, 1969). Também foi o primeiro país a trazer as mulheres para os cargos superiores do governo. Uma intensa campanha foi realizada na Ásia central soviética para libertar as mulheres da opressão misógina do islamismo conservador. Isso produziu uma transformação radical das condições de vida das mulheres nestas áreas (Szymanski, 1984).

 O direito à moradia foi garantido por uma disposição constitucional de 1977 (artigo 44). O espaço urbano para habitação foi, entretanto, reduzido à metade do que era por cabeça na Áustria e na Alemanha Ocidental, por exemplo. As razões eram construção inadequada na era czarista, a destruição massiva de moradias durante a 2ª Guerra Mundial e a ênfase soviética na indústria pesada. Depois da revolução, novas moradias foram construídas, mas seu ''estoque'' permaneceu insuficiente. A construção de habitações pesava fortemente sobre o capital, de que o governo necessitava urgentemente para a construção da indústria. Além disso, os invasores nazistas destruíram de 1/3 a 1/2 das habitações soviéticas durante a 2ª Guerra Mundial (Sherman 1969).

Cidadãos urbanos soviéticos vivam tipicamente em edifícios de apartamentos de propriedade da empresa em que trabalhavam ou do governo local. Os aluguéis eram baratíssimos por lei, cerca de 2 a 3% do orçamento familiar, enquanto os utilitários ocupavam de 4 a 5% (Szymanski, 1984; Kenny & Keeran, 2004). Isso difere nitidamente dos Estados Unidos, onde os aluguéis consumiam uma parcela significativa do orçamento familiar médio (Szymanski, 1984) e ainda o fazem.

 Produtos alimentares e outras necessidades eram subsidiados, enquanto itens de luxo eram vendidos bem acima de seus custos.

 O transporte público era eficiente, extenso e praticamente gratuito. A tarifa de metrô era cerca de 8 centavos nos anos 70, inalterada desde 1930. Nada comparável existiu nos países capitalistas. Isto porque um serviço público eficiente, acessível e extenso limitaria severamente as oportunidades de lucro de fabricantes de automóveis, companhias de petróleo e empresas de engenharia civil. A fim de salvaguardar seus lucros, essas empresas usam sua riqueza, conexões e influência para impedir o desenvolvimento de eficientes, extensas e baratas alternativas públicas ao transporte privado. Os governos, que precisam manter a indústria privada feliz para que esta possa gerar empregos, são obrigados a jogar seu jogo. A única maneira de mudar isto é pôr o capital sob o controle público, a fim de usá-lo para atender às metas de políticas públicas estabelecidas em um plano conscientemente construído.

 A União Soviética deu maior ênfase à saúde do que seus adversários capitalistas. Nenhum outro país teve mais médicos ou leitos hospitalares por cabeça que a URSS. Em 1977, esta tinha 35 médicos e 212 leitos hospitalares a cada 10.000 habitantes, em comparação com 18 médicos e 63 leitos hospitalares nos EUA (Szymanski, 1984). O mais importante: a saúde era gratuita. Que cidadãos dos EUA tivessem que pagar por atendimento médico foi considerado extremamente bizarro na URSS, e os cidadãos soviéticos ''frequentemente questionavam os visitantes estadunidenses de forma bastante incrédula quanto a isso'' (Sherman, 1969).

 A educação superior também era gratuita, e bolsas estavam disponíveis para estudantes de pós-graduação, adequadas para pagar livros-texto, hospedagem e alimentação, dentre outras despesas (Sherman, 1969; Szymanski, 1984).

 A desigualdade de renda na União Soviética era leve em comparação com os países capitalistas. A diferença entre a maior renda e o salário médio era equivalente à diferença entre a renda mensal de um médico e um trabalhador comum nos EUA, cerca de 8 a 10 vezes maior (Szymanski, 1984). Os rendimentos mais elevados da elite proporcionou privilégios não maiores que a capacidade de se adquirir uma casa modesta e um carro (Kotz, 2000). Para comparar, em 2010, os 100 CEO's mais bem pagos do Canadá tinham rendimentos 155 vezes que os salários médios de tempo integral. Este era de US$43.000 (Canadian Centre for Policy Alternatives, 2011). Um rendimento 10 vezes maior seria de US$430.000 — mais ou menos o que os membros da elite capitalista ganham em uma semana. Um fator que mitigou a desigualdade de renda na União Soviética foi o acesso de todos os cidadãos soviéticos a serviços essenciais, sem nenhum ou quase nenhum custo. Assim, o grau de desigualdade material era ainda menor que o grau de desigualdade de renda (Szymanski, 1984).

 Também lhes foi garantida a igualdade de direitos em relação aos homens, em todas as esferas da vida econômica, política, cultural e social (artigo 122, 1936), incluindo o direito ao emprego, descanso e lazer, segurança social e educação. Entre seus muitos pioneirismos, a URSS foi o primeiro país a legalizar o aborto, que estavam disponíveis sem custo algum (Sherman, 1969). Também foi o primeiro país a trazer as mulheres para os cargos superiores do governo. Uma intensa campanha foi realizada na Ásia central soviética para libertar as mulheres da opressão misógina do islamismo conservador. Isso produziu uma transformação radical das condições de vida das mulheres nestas áreas (Szymanski, 1984).

 O direito à moradia foi garantido por uma disposição constitucional de 1977 (artigo 44). O espaço urbano para habitação foi, entretanto, reduzido à metade do que era por cabeça na Áustria e na Alemanha Ocidental, por exemplo. As razões eram construção inadequada na era czarista, a destruição massiva de moradias durante a 2ª Guerra Mundial e a ênfase soviética na indústria pesada. Depois da revolução, novas moradias foram construídas, mas seu ''estoque'' permaneceu insuficiente. A construção de habitações pesava fortemente sobre o capital, de que o governo necessitava urgentemente para a construção da indústria. Além disso, os invasores nazistas destruíram de 1/3 a 1/2 das habitações soviéticas durante a 2ª Guerra Mundial (Sherman 1969).

Cidadãos urbanos soviéticos vivam tipicamente em edifícios de apartamentos de propriedade da empresa em que trabalhavam ou do governo local. Os aluguéis eram baratíssimos por lei, cerca de 2 a 3% do orçamento familiar, enquanto os utilitários ocupavam de 4 a 5% (Szymanski, 1984; Kenny & Keeran, 2004). Isso difere nitidamente dos Estados Unidos, onde os aluguéis consumiam uma parcela significativa do orçamento familiar médio (Szymanski, 1984) e ainda o fazem.

Produtos alimentares e outras necessidades eram subsidiados, enquanto itens de luxo eram vendidos bem acima de seus custos.

O transporte público era eficiente, extenso e praticamente gratuito. A tarifa de metrô era cerca de 8 centavos nos anos 70, inalterada desde 1930. Nada comparável existiu nos países capitalistas. Isto porque um serviço público eficiente, acessível e extenso limitaria severamente as oportunidades de lucro de fabricantes de automóveis, companhias de petróleo e empresas de engenharia civil. A fim de salvaguardar seus lucros, essas empresas usam sua riqueza, conexões e influência para impedir o desenvolvimento de eficientes, extensas e baratas alternativas públicas ao transporte privado. Os governos, que precisam manter a indústria privada feliz para que esta possa gerar empregos, são obrigados a jogar seu jogo. A única maneira de mudar isto é pôr o capital sob o controle público, a fim de usá-lo para atender às metas de políticas públicas estabelecidas em um plano conscientemente construído.

 A União Soviética deu maior ênfase à saúde do que seus adversários capitalistas. Nenhum outro país teve mais médicos ou leitos hospitalares por cabeça que a URSS. Em 1977, esta tinha 35 médicos e 212 leitos hospitalares a cada 10.000 habitantes, em comparação com 18 médicos e 63 leitos hospitalares nos EUA (Szymanski, 1984). O mais importante: a saúde era gratuita. Que cidadãos dos EUA tivessem que pagar por atendimento médico foi considerado extremamente bizarro na URSS, e os cidadãos soviéticos ''frequentemente questionavam os visitantes estadunidenses de forma bastante incrédula quanto a isso'' (Sherman, 1969).

 A educação superior também era gratuita, e bolsas estavam disponíveis para estudantes de pós-graduação, adequadas para pagar livros-texto, hospedagem e alimentação, dentre outras despesas (Sherman, 1969; Szymanski, 1984).

 A desigualdade de renda na União Soviética era leve em comparação com os países capitalistas. A diferença entre a maior renda e o salário médio era equivalente à diferença entre a renda mensal de um médico e um trabalhador comum nos EUA, cerca de 8 a 10 vezes maior (Szymanski, 1984). Os rendimentos mais elevados da elite proporcionou privilégios não maiores que a capacidade de se adquirir uma casa modesta e um carro (Kotz, 2000). Para comparar, em 2010, os 100 CEO's mais bem pagos do Canadá tinham rendimentos 155 vezes que os salários médios de tempo integral. Este era de US$43.000 (Canadian Centre for Policy Alternatives, 2011). Um rendimento 10 vezes maior seria de US$430.000 — mais ou menos o que os membros da elite capitalista ganham em uma semana. Um fator que mitigou a desigualdade de renda na União Soviética foi o acesso de todos os cidadãos soviéticos a serviços essenciais, sem nenhum ou quase nenhum custo. Assim, o grau de desigualdade material era ainda menor que o grau de desigualdade de renda (Szymanski, 1984).

Em 1913, o império czarista, com 9,4% da população mundial, produzia 6% do total mundial de ''rendas nacionais'' e 3,6% de sua produção industrial. Em 1986, a URSS, com menos de 6% da população mundial, produzia 14% da ''renda nacional'' do globo e 14,6% de sua produção industrial. A melhoria do padrão de vida de 1940 à 1970 fora deveras impressionante Em 1980, tinha uma proporção nitidamente menor de seus habitantes na cadeia do que os EUA (268 prisioneiros por 100 mil habitantes, contra 426 por 100 mil prisioneiros nos EUA) e se tornou uma sociedade em que o cidadão comum provavelmente corria menos risco de ser deliberadamente morto por crime, conflito civil ou pelo Estado do que em um número substancial de outros países na África, Ásia e Américas. Os emigrantes judeus da URSS para Israel lá reviveram o cenário musical clássico, pois vinha de um país onde ir a concertos ainda fazia parte do comportamento culto, pelo menos para judeus. Os habitantes de Moscou e Varsóvia se preocupavam menos com o que preocupavam os de Nova York ou Londres: taxa de crime em visível ascensão, insegurança e violência imprevisível de jovens anômicos.

 O regime soviético não era apenas autóctone e com raízes internas, mas as próprias pessoas, de forma difíceis de especificar, se encaixavam nele, à medida que o regime a elas se adaptava. Como observou o satirista dissidente Zinoviev, realmente havia um 'novo homem soviético' (ou mulher): ele/ela estava à vontade no sistema, que lhe assegurava um meio de vida e uma abrangente seguridade social, em nível modesto mas real, uma sociedade social e economicamente igualitária e pelo menos uma das aspirações tradicionais do socialismo, o 'direito ao ócio', de Paul Lafargue. Além disso, para a maioria dos cidadãos soviéticos, a era de Brejnev significou não 'estagnação', mas os melhores dias que eles e seus pais, ou mesmo seus avós, já haviam conhecido.

 Social e politicamente, a maior parte da URSS era uma sociedade estável, sem dúvida, em parte graças à ignorância em relação a outros países mantida pela autoridade e a censura, mas de modo algum só por esse motivo. Será por acaso que não houve um equivalente da rebelião estudantil de 1968 na URSS, Polônia, Tchecoslováquia e Hungria? Que mesmo sob Gorbachev o movimento de reforma não mobilizou os jovens em nenhuma medida importante? Que tenha sido, como se dizia, 'uma rebelião dos 30 e 40 anos', ou seja, da geração nascida após o fim da guerra mas antes do confortável torpor dos anos Brejnev? De onde quer que tenha vindo a pressão pela mudança na URSS, das bases não foi (76% dos eleitores num referendo de março de 1991 votaram pela manutenção do país).

 A URSS foi -- e é -- a prova de que um mundo diferente (e melhor) é possível.

Fontes e bibliografia:

BARAN, P. ''Desenvolvimento econômico rápido''. In: _____. A economia política do desenvolvimento. São Paulo: Abril Cultural, 1986.
GOWANS, Stephen. ''Do publicy-owned, planned economies work?''. Disponível em: http://boradiscutir.blogspot.com.br/…/uma-economia-socialis…
HOBSBAWM, E. J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das letras, 1995.
__________. ''Ressurgindo das cinzas''. In: BLACKBURN, Rubin. Depois da queda: o fracasso do comunismo e o futuro do socialismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
HUNT, E. K. História do pensamento econômico: uma perspectiva crítica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
MAKAVELLI, Jones. ''Ser negro na União Soviética e nos Estados Unidos: uma comparação histórica''. Disponível em: http://boradiscutir.blogspot.com.br/2015/03/ser-negro-na-uniao-sovietica-e-nos.html
MEDVEDOVSKY, Aleksander. ''No dia da vitória, um lugar para a bandeira russa''. Disponível em: http://br.sputniknews.com/opiniao/20150504/928159.html#ixzz3ZEGTqaCC

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A queda da URSS e o mito do colapso econômico

O artigo baixo é a versão traduzida deste artigo, que, por sua vez, é o resumo de um artigo (citado ao fim do texto) de David Kotz e Fred Wair.


 Mais e mais intelectuais, especialistas em suas áreas, estão repensando visões generalizadas sobre a União Soviética. Um dos mitos mais difundidos é o do colapso econômico, e é também dos que mais vem sendo contestado. De acordo com este mito, a queda da URSS teria sido devido principalmente a uma crise econômica brutal (pela ineficiência do sistema). Mas na Rússia, como em outros lugares, muitos pensam que a queda da URSS não teve muito a ver com uma suposta crise econômica, mas que foi um processo iniciado pelas elites da própria URSS, e a crise econômica não seria a causa da reforma, mas sua consequência, embora tenha sido usado como uma desculpa. Esta é uma crença bastante difundida na Rússia (ver por exemplo, os estudos de Kara-Murza e outros, alguns deles até mesmo traduzidos em espanhol), mas também compartilhada por outros. Aqui, por exemplo, eu apresento um resumo de um artigo de David Kotz e Fred Wair, publicado na revista húngara à esquerda"Eszmélet" ("Consciência"). O artigo é um resumo de seu livro "Revolução de cima: o desaparecimento do sistema soviético" (você pode ler parcialmente online aqui, em Inglês, eu não tenha feito ainda). Em relação ao artigo, eu não concordo com tudo o que os dois autores discutiram, mas no geral acho que é uma análise muito interessante.


Vista do Kremlim, em Moscou.

 Os autores partem da ideia, que tentam demonstrar no texto, que, embora a URSS tivesse graves problemas econômicos, não havia nenhuma indicação de que houvesse qualquer perigo de colapso econômico, e este não ocorreu até que a elite do país destruiu o sistema econômico existente.

 Foi a estrutura não-democrática do país que causou o desastre, e não a economia planificada.

 Eles começam falando da planificação soviética e de sua história:

 Desde 1917 os bolcheviques testaram várias estratégias quanto à estrutura econômica do país;apenas na década de 1920 é que surgiu o chamado sistema soviético. Se caracterizava pelo fato de que todas as empresas agrícolas eram de propriedade pública e eram dirigidas, em última instância, por uma instituição central de Moscou.


Usina hidrelétrica de Dniépr (construída entre 1927 e 1932). A foto é de 1947.

Apesar disso, a economia soviética teve um forte crescimento e um desenvolvimento rápido. Muitos pensam que este rápido crescimento foi alcançado pelas medidas de repressão contra certos setores da sociedade, bem como pelas condições de vida difíceis. Mas os autores dizem, muito pelo contrário, que o regime stalinista desacelerou o crescimento econômico, que poderia ter sido muito maior do que realmente era.

Entre 1928 e 75 a economia soviética cresceu a uma taxa de 5,1% ao ano. Entre 1950 e 75, quando a economia já havia se industrializado,  o crescimento econômico soviético permaneceu elevado, ainda mais do que os EUA.

 O sistema soviético teve muitas vantagens sobre o capitalismo: o pleno emprego, a possibilidade de utilizar os lucros das empresas maciçamente no desenvolvimento da educação e da formação e o fato de não ser afetado pelas crises periódicas do capitalismo.

 Nem tudo pode ser medido pelo PIB ou crescimento econômico, mas, em 1975, o país atrasado que havia sido a URSS havia se tornado uma potência econômica que de muitas maneiras competia com os EUA, e estes chegavam a estar em desvantagem numérica em alguns casos (veja o exemplo da corrida espacial).

Quebra-gelo atômico "Lenin", o primeiro navio de superfície no mundo alimentado por energia nuclear (1959-1989).

 Se, em 1960, metade de todas as famílias soviéticas tinham rádio, 10% televisão e 1 em cada 25 freezer, em 1985 todas as famílias tinham esses aparelhos. Em 1980, a URSS tinha mais médicos e leitos hospitalares do que os EUA. Na década de 70 o desenvolvimento científico, tecnológico e econômico da URSS foi seguido com alarme pelas potências ocidentais. Muitos pensaram que o futuro pertencia ao regime soviético, com suas grandes conquistas, apesar de seus traços negativos.

 No entanto, desde 1975, a economia soviética interrompeu o rápido desenvolvimento que teve até então. E o progresso tecnológico também parara. Pela primeira vez em décadas a economia americana crescia mais rápido que a soviética. Além disso, a corrida armamentista, reforçada pela administração Reagan, afeta-a seriamente.

 Em 1985 Gorbachev chega ao poder, e a elite dirigente da URSS reconhece que reformas são necessárias. Mas suas reformas não trouxeram uma melhoria da situação, e a produção seguiu sem decolar. Entre 1985 e 1989, o crescimento econômico soviético médio foi de 2,2%, em vez dos 1,8% entre 1975 e 1985. Mas, desde 1975, nunca houve um crescimento negativo, enquanto que nos EUA ocorreu ao longo de três anos.

Até o fim dos anos 80, a escassez de mercadorias se acentua. Para analistas ocidentais isso significavam os primeiros sinais de colapso, mas a explicação era outra; a razão era que a renda das famílias aumento muito mais do que a produção de artigos de consumo. As culpadas disto eram as reformas econômicas, que haviam descentralizado a produção e deixado de regular a renda.

 Assim, se a meados dos anos 80 a renda familiar cresceu 3-4% ao ano, em 1988 saltou a 9,1% e em 1989 a 12,8%. No entanto, os preços, que ainda não tinham sido estabelecidos pelas instituições centrais, não mudaram quase nada. Então as pessoas viram-se com um monte de dinheiro nas mãos, dos quais queriam se livrar o mais rápido possível. Em seguida, viu-se as lojas ficarem completamente vazias. O consumo, na realidade, continuava a crescer.

 É verdade que a economia soviética não conseguiu um crescimento notável nos anos 80, mas a imagem do colapso econômico é falsa.

 Porém a coisa muda entre 1990 e 1991. Gorbachev está perdendo poder para Yeltsin. Em maio de 1990 Yeltsin ganhou poder na Federação Russa, e tentou concentrá-lo todo em suas mãos, tirando-o das autoridades soviéticas. Assim, as instituições de planificação econômica encontraram-se sem qualquer poder real, e a economia soviética, que era um todo homogênea, começou a desabar lentamente. É importante destacar: a crise não veio da incapacidade da economia planificada, mas do seu desmonte, que levou a uma ausência de meios de coordenação eficazes.

O operário e a camponesa (1937), de Vera Mukhina, na era soviética.


 A elite escolhe o capitalismo


 Como é possível que o regime soviético tenha caído sem oposição aparente?

 Gorbachev e seu círculo pensavam que o principal defeito do regime soviético era a falta de democracia; por isso, desenvolveram a Perestroika (reestruturação). Formam-se 3 grandes grupos de opinião: os partidários da reforma, os partidários da manutenção do sistema como estava e os que rejeitavam o comunismo (''ultrapestroikistas''). Os anticomunistas, liderados por Yeltsin, se impôs a todos, porque conseguiu o apoio das elites do país.

 Os estudos de Alec Nove, Farmer e Matthews e outros mostram que após a Segunda Guerra Mundial a elite soviética era uma casta ambiciosa e sem princípios definidos; só se importava com poder e ganhos pessoais. Em 1991, muitos membros desta elite reconheciam abertamente que não eram comunistas, embora estivessem no Partido Comunista. Esta raça de oportunistas avaliou as suas opções com a chegada das reformas de Gorbachev: não lhes beneficiava o socialismo democrático de Gorbachev e muitos poucos membros dessa elite apoiavam o retorno ao sistema anterior. Ainda que esse sistema tivesse-lhes dado poder, era limitado, uma vez que não possuíam a propriedade privada e, portanto, o acúmulo de bens. Quando, em 1991, há uma tentativa de golpe contra as reformas, a mesma falha porque a elite se posiciona a favor de Yeltsin. Esta elite estava ansiosa para obter a posição de que gozaria no ocidente. E compreendeu que sua posição no país como novos capitalistas oferecer-lhes-iam muitas vantagens.

 Assim aconteceu, por exemplo, com Viktor Chernomirdin, primeiro ministro do governo russo entre 1992 e 1998, que tinha sido ministro de produção e tratamento de gás durante a era soviética. Hoje é um dos homens mais ricos do mundo e maior acionista da GAZPROM. Segundo uma análise, entre os 100 mais destacados homens de negócios da Rússia, 62 eram membros da elite comunista e 38 vêm do mercado negro e do mundo do crime.

 Um estudo de junho de 1991 da cientista política norte-americana Judith Kullberg mostra que 77% da classe alta soviética era partidária do capitalismo, 12% do socialismo democrático e 10% do comunismo ou nacionalismo.

 De acordo com um estudo realizado em 1991 por uma fundação americana na Rússia europeia, 10% da população queria voltar para o sistema anterior às reformas, 36% eram a favor do socialismo democrático, 23% do modelo social-democrata sueco e apenas 17% queriam um sistema similar ao capitalismo americano ou alemão. Ou seja, 69% queriam alguma forma de socialismo.

 Outros estudos e pesquisas mostram taxas ainda mais baixas de apoio ao capitalismo ocidental.

 Os reformistas dominavam as estruturas do poder soviético, mas os partidários do capitalismo dominavam as russas, por isso seu principal objetivo era destruir de alguma maneira a URSS. O referendo de março de 1991, entretanto, mostrara que a maioria da população era contra algo do tipo.



 No artigo também se mencionam dados interessantes sobre a economia da URSS:

 Crescimento econômico entre 1928 e 1985:

1928-40: URSS- 5,8% EUA- 1,7%
1940-50: URSS- 2,2% EUA- 4,5%
1950-70: URSS- 4,8% EUA- 2,9%
1975-85: URSS- 1,8% EUA- 2,9%

 Fonte: The Real National Income of Soviet Russia since 1928, Abraham Bergson, 1961; Measures of Soviet National Product in 1982 Prices, Joint Economic Committee, U.S. Congress.

 Crescimento da economia soviética entre 1986-1991:

1986: 4,1%
1987: 1,3%
1988: 2,1%
1989: 1,5%
1990: -2,4%
1991: -12,8%

 Fontes: Measures of Soviet National Product in 1982 Prices, Joint Economic Committee, U.S. Congress.

Lada ''Niva'', o famoso quadriciclo desenvolvido na URSS nos anos 70.

Fonte do artigo:

Nota: O artigo foi escrito originalmente para o Fórum Comunista.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

70 anos da vitória soviética sobre os nazistas e a manipulação da opinião pública francesa





 Nada como o poder da indústria cinematográfica hollywoodiana para falsificar a História.

 Em maio de 1945, o IFOP, Instituto Francês de Opinião Pública, realizou uma pesquisa com a seguinte pergunta: "Qual, para você, foi a nação que mais contribuiu para a derrota da Alemanha nazista em 1945?"; os resultados, à época, foram 57% para URSS, 20% para os EUA e 12% para o Reino Unido. Em 1994, quase 50 anos depois, a pesquisa foi refeita e teve resultados bem diferentes: 25% para a URSS, 49% para os EUA e 16% para o Reino Unido. A pesquisa foi novamente realizada em 2004, obtendo a URSS 20% dos votos, os EUA, 58%, e o Reino Unido, 16%. Neste ano repetiu-se a pesquisa, com uma pequena mudança, pouquíssimo significativa: 23% para a URSS, 54% para os EUA e 18% para o Reino Unido [1].



 O território ocupado no interior da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas pelos alemães era responsável por 70% das minas de carvão, 60% da produção de minério de ferro, 50% da produção siderúrgica e 30% da colheita de cereais. Quando o exército soviético recuou, destruiu grande parte das instalações produtivas para impedir que fossem utilizadas pelos alemães. Quando, mais tarde, os alemães foram repelidos, também eles adotaram uma política de terra arrasada, destruindo na sua retirada qualquer coisa de valor que encontrassem. As fábricas e casas foram especialmente atingidas. Além de matarem mais de 20 milhões de soviéticos -- por volta de 9 milhões de soldados e 16 milhões de civis --, os alemães destruíram os lares de outros 25 milhões, arrasando totalmente cerca de 2 mil cidades e 70 mil aldeias [2]. E entretanto, foi a URSS quem destruiu a maior parte do exército nazista -- quatro quintos dos combates na Segunda Guerra Mundial aconteceram no front do Leste, dois terços do exército alemão estavam no Leste mesmo depois do Dia D [3].

 O feito heroico da primeira pátria socialista não deve jamais ser esquecido.

"Na nossa época, com a fabricação total de fotografias, filmes e videoteipes realistas tecnologicamente ao nosso alcance, com a televisão em cada casa e o espírito crítico em declínio, parece possível reestruturar as memórias sociais... O que estou imaginando não é que cada um de nós venha a ter um estoque de lembranças implantadas em sessões terapêuticas especiais indicados pelo Estado, mas antes que um pequeno número de pessoas terá um controle tão grande sobre as notícias, os livros de história e as imagens profundamente influentes que poderá efetuar enormes mudanças nas atitudes coletivas." - Carl Sagan, em "O mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela no escuro"


"Sem os sacrifícios da União Soviética e de seus povos, o capitalismo liberal ocidental provavelmente teria sucumbido a esta ameaça [a do nazifascismo] e o mundo ocidental contemporâneo (fora os Estados Unidos) agora consistiria de um conjunto de variações de regimes autoritários e fascistas, ao invés de um conjunto de variações de regimes liberais. Sem o Exército Vermelho, as chances de derrotar os poderes do Eixo eram inexistentes." - Eric J. Hobsbawm, "Adeus a tudo aquilo", em "Depois da Queda"

Fontes


[1] https://www.les-crises.fr/la-fabrique-du-cretin-defaite-nazis/
[2] HUNT, E. K. História do pensamento econômico: uma perspectiva crítica. Rio de Janeiro: Campus, 2005.
[3] http://br.sputniknews.com/opiniao/20150504/928159.html#ixzz3ZEGTqaCC

sábado, 7 de março de 2015

''Nós vivíamos melhor naqueles tempos''






 Mais de duas décadas atrás, Vaclav Havel, o herdeiro mimado de uma família rica de Praga, ajudou a inaugurar um período de reação no qual as explorações e propriedades dos ex-proprietários de terra e capitães da indústria foram restauradas para seus proprietários anteriores, enquanto o desemprego, a falta de moradia e insegurança — abolidos pelos comunistas — voltaram à rotina. Havel é elogiado pelos suspeitos costumeiros, mas não por suas inumeráveis vítimas, que foram empurradas para trás em um abismo de exploração pela revolução de veludo e outras erupções reacionárias. Com a queda do socialismo permitindo a Havel e seu irmão recuperarem várias propriedades, suas vidas — ele trabalhou em uma fábrica de cerveja durante o socialismo — tornou-se muito mais rica. O mesmo não pode ser dito de incontáveis outros, cujas vidas melhore sob o socialismo foram varridas por uma fraude que, nos próximos dias, será tratada como celebridade por ocasião dos 20 anos da demolição da União Soviética [artigo originalmente publicado em 2011]. Tal aniversário não é momento de celebração, exceto para a minoria que lucrou com isso. Para a maior parte de nós deveria ser uma ocasião para refletir sobre o que os 99% de baixo da humanidade foram capazes de conseguir para nós mesmos fora das estruturas, instabilidades e crueldades desnecessárias do capitalismo.

 Ao longo das suas 7 décadas de existência, e apesar de ter que gastar tanto tempo preparando, lutando e se recuperando de guerras, o socialismo soviético conseguiu criar uma das grandes conquistas da história da humanidade: uma sociedade industrial de massas que eliminou a maior parte das desigualdades na distribuição de riqueza, renda, educação e oportunidade que assolaram o que o precedeu, o que veio depois e o que competiu com ele; uma sociedade em que os cuidados de saúde e educação universitária eram gratuitos (e estudantes universitários recebiam bolsas para se manter); onde aluguel, serviços públicos e transporte eram subsidiados, além de livros, periódicos e eventos culturais; onde a inflação foi eliminada, as pensões eram generosas e o cuidado infantil era subsidiado. Em 1933, com o mundo capitalista profundamente imerso em uma devastadora crise econômica, o desemprego foi abolido, e assim permaneceu durante as próximas 5 décadas e meia, até que o socialismo foi derrubado. Excetuando-se os anos de guerra, a partir de 1928, quando o socialismo foi introduzido, até que Mikhail Gorbachev começou a desmontá-lo no final dos anos 80, o sistema soviético de planejamento central e propriedade pública produziu crescimento econômico constante, sem as recessões e crises que assolaram as economias capitalistas da América do Norte, da Europa ocidental e do Japão. E na maior parte desses anos, as economias soviética e da Europa oriental cresceram mais rápido.

 Os comunistas produziram crescimento econômico uma segurança econômica tão robusta quanto (e muitas vezes mais que) a dos países mais ricos, mas com menos recursos e um menor nível de desenvolvimento e apesar dos esforços incansáveis do mundo capitalista para sabotar o socialismo. O socialismo soviético foi, e continua sendo, um modelo para a humanidade do que pode ser realizado fora dos limites e contradições do capitalismo. Entretanto, no fim da década de 1980, a contrarrevolução estava varrendo a Europa oriental e Mikhail Gorbachev desmantelava os pilares do socialismo soviético. Ingenuamente, cegamente, estupidamente, alguns esperavam que o projeto de demolição de Gorbachev levasse a uma sociedade de consumo próspera, em que os cidadãos soviéticos, com suas contas bancárias esbugalhadas com rendimentos auferidos de novos postos de trabalho obtidos em uma economia de mercado robusta, habitaria coloridos e luxuosos shoppings, para escolher prateleiras limpas e repletas de mercadorias. Outros imaginavam uma nova era de democracia multipartidária e liberdades civis expandidas, coexistindo com a propriedade pública dos setores chave da economia, um modelo que parecia se dever a projetos utópicos que à realidade concreta.

 Óbvio, nenhuma das promessas da contrarrevolução foram mantidas. Embora no momento o fim do socialismo na União Soviética e na Europa Oriental tenha sido declarado uma grande vitória da humanidade, não menos importante por intelectuais de esquerda dos EUA, duas décadas depois há pouco a se comemorar. O desmantelamento do socialismo, em uma palavra, foi uma catástrofe, uma grande fraude que não só não entregou nada do que foi prometido como também causou um dano irreparável, não só nos países ex-socialistas, mas em todo o mundo ocidental. Incontáveis milhões mergulharam na pobreza, o imperialismo recebeu mão livre e os salários e benefícios no Ocidente se curvaram sob a pressão de uma concorrência acrescida por emprego e indústria desencadeados por uma avalanche de desemprego nos antigos países socialistas, onde o desemprego, com razão, era considerado uma obscenidade. Inúmeras vozes na Rússia, Romênia, Alemanha Oriental e em outros lugares lamentavam o que foi roubado deles — e da humanidade como um todo: ''Nós vivíamos melhor sob o socialismo. Tínhamos emprego. Tínhamos segurança''. E com a ameça de os empregos migrarem para os países com baixa remuneração e altas taxas de desemprego da Europa Oriental, os trabalhadores da Europa Ocidental têm sido forçados a aceitar mais dias de trabalho, salários mais baixos e benefícios degradados. Hoje, eles lutam numa desesperada ação de retaguarda, onde as vitórias são poucas e as derrotas, muitas. Eles também viviam melhor — em outros tempos.

 Mas isso é apenas parte da história. Para outros, para os investidores e as empresas, que encontraram novos mercados e oportunidades de investimento rentável, e podem colher os benefícios de custos trabalhistas mais baixos que provocam a intensificação da concorrência por emprego, a derrubada do socialismo tem, de fato, sido algo para comemorar. Igualmente, tem sido bem recebida pelos proprietários de terras e elites industriais dos regimes pré-socialismo cujas propriedades e empresas industriais foram recuperadas e privatizadas. Mas eles são uma minoria. Por que o resto de nós comemora o assalto a si próprio?

 Antes do desmantelamento do socialismo, a maioria das pessoas no mundo foi protegida das vicissitudes do mercado capitalista global pelo planejamento central e as tarifas alfandegárias elevadas. Mas uma vez que o socialismo caiu na Europa Oriental e na União Soviética e com a China tendo marchado resolutamente no caminho capitalista, a reserva do trabalho sem proteção disponível para corporações transnacionais expandiu-se muitas vezes. Hoje, uma força de trabalho mundial muito maior do que a piscina inteira de trabalhadores norte-americanos — e disposta a trabalhar a preços baixíssimos — aguarda as corporações globais. Você não tem que ser um cientista espacial para descobrir quais são as implicações para os trabalhadores norte-americanos e seus homólogos na Europa Ocidental e no Japão: uma intensa competição de todos contra todos para o emprego e a indústria. Inevitavelmente, as rendas caem, os benefícios são erodidos, as horas de trabalho se estendem. Previsivelmente, com os custos trabalhistas caindo, os lucros sobem, os capitais excedentes se acumulam e criam bolhas, as crises financeiras entram em erupção e as guerras de rapina para garantir oportunidades de investimento irrompem.

 A crescente competição por empregos e indústria tem forçado os trabalhadores da Europa Ocidental a aceitar menores remunerações. Eles trabalham mais horas e, em alguns casos, para receber menos e sem aumento de benefícios, para impedir seus empregos de migrarem para a República Tcheca, Eslováquia e outros países ex-socialistas — que, sob o governo dos vermelhos, proviam empregos para todos. Mais trabalho por menos dinheiro é um resultado agradável para a classe empresarial, e acaba por ser exatamente os resultados que os fascistas prepararam para os capitalistas de seus países na década de 1930. Os métodos, com certeza, eram diferentes, mas o anti-comunismo de Mussolini e Hitler, em outras mãos, mostrou-se tão útil quanto para garantir os mesmos fins retrógrados. Ninguém que está sujeito aos caprichos do mercado de trabalho — quase todos nós — deve estar contente de o socialismo ter sido abolido.

 Talvez alguns de nós não saibam que fomos assaltados. E alguns de nós talvez não tenham sido. Pegue o historiador radical norte-americano Howard Zinn, por exemplo, que, juntamente com a maioria dos outros intelectuais proeminentes de esquerda, cumprimentou a derrubada do socialismo com alegria [1]. Eu, não menos do que outros, admiro os livros, os artigos e o ativismo de Zinn, embora eu tenha vindo a tomar seu ardente anti-comunismo como típico dos intelectuais de esquerda estadunidenses. Que fique claro que, em um ambiente hostil ao comunismo, não deve ser nenhuma surpresa que exibições notáveis de anti-comunismo tornem-se uma estratégia de sobrevivência para aqueles que procuram estabelecer um relacionamento, e salvaguardar suas reputações, com uma maior (e mais anti-comunista) audiência.

 Mas pode haver outra razão para o anticomunismo daqueles cujos pontos de vista deixam-lhes vulneráveis a críticas de indulgência para com o comunismo, e portanto de ter chifres. Como dissidentes em sua própria sociedade, sempre houve uma tendência natural para eles a se identificar com os dissidentes em outros lugares — e a propaganda ocidental pró-capitalista e antissocialista elevou os dissidentes nos países socialistas ao status de heróis, especialmente aqueles que foram presos, amordaçados ou reprimidos de outra forma pelo Estado. Para essas pessoas, a abreviação das liberdades civis em qualquer lugar se agiganta, uma vez que que a diminuição de suas próprias liberdades civis seria um evento de grande importância pessoal. Em compensação, a conquista dos comunistas no fornecimento de uma frugalidade confortável e seguridade econômica a todos, enquanto reconhecida intelectualmente como conquista de alguma importância, é menos apta a agitar a imaginação de alguém que tem uma renda confortável, o respeito de seus pares e muitas pessoas a lerem seus livros e participarem de suas palestras. Eles não têm que limpar o carvão descartado em lixões para ganhar a existência vazia, desolada e ingrata. Alguns têm de fazê-lo.

 Karol, de 14 anos, e sua irmã Alina, de 12, marcham todos os dias para o lixão, onde resíduos industriais misturados são descartados, nos arredores de Swietochlowice, na Polônia ex-socialista. Lá, junto com seu pai, elas procuram por sucata e carvão de segundo nível, qualquer coisa para obter alguns dólares para comprar um pequeno suprimento de mantimentos. ''A vida era melhor no socialismo'', diz o pai de Karol, 49 anos de idade, repetindo um refrão ouvido diversas vezes, não só na Polônia mas também ao longo dos países ex-socialistas da Europa Oriental e da antiga União Soviética. ''Eu trabalhei por 25 anos na mesma empresa e agora eu não consigo achar um emprego — qualquer emprego. Eles só querem trabalhadores jovens e qualificados''[2]. De acordo com Gustav Molnar, um analista político aliado com o Instituto Teleki Lazlo, ''a realidade é que quando as empresas estrangeiras vêm aqui, elas estão interessadas apenas na contratação de pessoas com menos de 30 anos. Isso significa que metade da população está fora do jogo''[3]. Isso pode se adequar às linhas de fundo de empresas estrangeiras — e a derrubada do socialismo pode ter sido um resultado agradável para os intelectuais confortáveis e bem alimentados de Boston — mas dificilmente combina com que parte da população polonesa que deve escalar montanhas de resíduos industriais — ou morrer. Maciel Gdula, 34 anos, um dos membros fundadores do grupo Krytyka Polityczna, ou Crítica Política, reclama que muitos poloneses ''estão desiludidos com as promessas incumpridas do capitalismo. Eles nos prometeram um mundo de consumo, estabilidade e liberdade. Em vez disso, temos uma geração inteira de poloneses que emigraram para ir lavar pratos'' [4]. Sob o socialismo ''sempre houve trabalho para todos'' [5] — no próprio país. E sempre um lugar para morar, escolas gratuitas para frequentar e médicos para se consultar, sem custos. Então por que Howard Zinn ficou tão contente de o socialismo ter sido derrubado?

 Que a derrubada do socialismo não entregou nenhum benefício para a maioria é fácil de ver. Uma década depois que a contrarrevolução cruzou toda a Europa Oriental, 17 nações ex-socialistas eram imensamente mais pobres. Na Rússia, a pobreza havia triplicado. Uma criança em cada dez — 3 milhões de crianças russas — viviam como animais, mal alimentadas, vestidas em trapos e vivendo, se tivessem sorte, em flats imundos e miseráveis. Só em Moscou, 30 a 50 mil crianças viviam nas ruas. A expectativa de vida, educação, alfabetismo dos adultos e renda diminuíram. Um relatório da European Children Trust, escrito em 2000, revelou que 40% da população dos países ex-socialistas — um número igual a 1 a cada 2 cidadãos norte-americanos — viviam na pobreza. A mortalidade infantil e a tuberculose estavam em alta, aproximando-se dos níveis do Terceiro Mundo. A situação, de acordo com a ONU, era catastrófica. E em toda parte a história foi a mesma [6, 7, 8].

 Paul Cockshot afirma que

''A restauração dos mecanismos de mercado na Rússia era uma vasta experiência controlada. A nação, o caráter nacional e a cultura, os recursos naturais e o potencial produtivo permanecerem os mesmos, apenas o mecanismo econômico mudou. Se os economistas ocidentais estavam certos, então deveríamos ter esperado o crescimento e um salto do padrão de vida depois do choque econômico de Yeltsin. Em vez disso, o país se tornou uma economia de exportação primária. A produção industrial caiu, indústrias tecnologicamente avançadas atrofiaram e os padrões de vida caíram tanto que a taxa de mortalidade aumentou em mais de um terço levando a cerca de 7,7 milhões de mortes extras.''

 Para muitos russos, a vida tornou-se mensuravelmente pior.

''Se você fosse velho, se você fosse um camponês, se você fosse um trabalhador manual, o mercado era muito pior do que a economia soviética relativamente estagnada de Brejnev. A recuperação com Putin, tal como foi, veio quase que inteiramente como um efeito colateral do aumento dos preços mundiais do petróleo, o próprio processo que havia operado na gestão de Brejnev'' [10].

 Ao mesmo tempo em que o retorno do capitalismo tornou a vida mais difícil para uns, foi letal para outros. De 1991 a 1994, a expectativa de vida na Rússia caiu 5 anos. Até 2008, havia caído para menos de 60 anos para os homens russos, um total de 7 anos mais baixo que em 1985, quando Gorbachev chegou ao poder e começou a desmontar o socialismo soviético. Hoje ''apenas um pouco mais da metade dos países ex-socialistas recuperaram seus níveis de expectativa de vida pré-transição'', de acordo com um estudo publicado na revista médica The Lancet [11].

 ''A vida era melhor sob os comunistas'', conclui Aleksandr. ''As lojas estão cheias de coisas, mas elas são muito caras''. Victor fala com tristeza da ''estabilidade de uma era anterior com de cuidados médicos acessíveis, educação superior gratuita, moradia e a promessa de uma confortável aposentadoria — as coisas agora estão fora do seu alcance'' [12]. Um relatório de 2008 no Globe and Mail, um jornal canadense, observou que ''muitos russos entrevistados ainda sofrem por seu grande país perdido''. Entre os entrevistados está Zhanna Sribnaya, 37, um escritor moscovita. Sribnaya lembra dos ''acampamentos de Pioneiros quando todos poderiam ir para o Mar Negro para as férias de verão. Agora, apenas as pessoas com dinheiro podem tirar aquelas férias'' [13].

 Ion Vancea, um romeno que luta para sobreviver em uma quantia de US $ 40 por mês de pensão diz: "É verdade que não havia muito para comprar naquela época, mas agora os preços são tão altos que não temos dinheiro para comprar alimentos, bem como o pagamento de eletricidade. "Ecoando as palavras de muitos romenos, Vancea acrescenta:" A vida era 10 vezes melhor  com Ceausescu (líder do Partido Comunista romeno Nicolae) ". [14] Uma pesquisa de opinião realizada no ano passado constatou que Vancea não é a minoria. Conduzida pela organização romena polling CSOP, a pesquisa constatou que quase metade dos romenos achava que a vida era melhor sob Ceausescu, em comparação com menos de um quarto que achava que a vida é melhor hoje. E enquanto Ceauşescu é lembrado no Ocidente como um diabo vermelho, apenas sete por cento disseram que sofreu sob o comunismo. Por que metade dos romenos acham que a vida era melhor sob com os vermelhos? Eles apontam para o pleno emprego, condições de vida digna para todos, e de habitação garantidos - vantagens que desapareceram com a queda do comunismo. [15]

 Ao lado, na Bulgária, 80 por cento dizem que estão em situação pior agora que o país fez a transição para uma economia de mercado. Apenas cinco por cento dizem que seu padrão de vida melhorou. [16] Mimi Vitkova, que foi brevemente ministro da Saúde da Bulgária por dois anos em meados dos anos 90, resume a vida após a derrubada do socialismo: "Nós nunca fomos um país rico, mas quando tivemos socialismo nossos filhos eram saudáveis e bem alimentados”. Todos eles eram imunizados. Os aposentados e deficientes recebam cuidados e tinham medicamentos gratuitos. Nossos hospitais estavam gratuitos. “Mas as coisas mudaram, diz ela”. “Hoje, se uma pessoa não tem dinheiro, ela não tem o direito de ser curada”. E a maioria das pessoas não tem dinheiro. A nossa economia estava arruinada. [17] Em 2009, uma pesquisa conduzida pelo Pew Global Attitudes Project descobriu que um em cada nove búlgaros acredita que as pessoas comuns estão em melhor situação, como resultado da transição para o capitalismo. E poucos consideram que o Estado como representa os seus interesses. Apenas 16 por cento dizem que ele é executado em benefício de todas as pessoas. [18]

 Na antiga Alemanha Oriental um novo fenômeno surgiu: Ostalgie, uma nostalgia da RDA. Durante a Guerra Fria, a pobreza relativa da Alemanha Oriental foi atribuída à propriedade pública e planejamento central - serragem nas engrenagens do motor econômico, segundo a mitologia antissocialista. Mas a propaganda convenientemente ignora o fato de que a parte oriental da Alemanha tinha sido sempre menos desenvolvida do que o Ocidente, que tinha sido saqueado dos seus ativos humanos fundamentais no final da II Guerra Mundial pelas forças de ocupação estadunidenses, que a União Soviética tinha carregado tudo de valor para indenizar-se por suas perdas de guerra, e que a Alemanha Oriental suportou o peso das reparações da guerra da Alemanha à Moscou. [19] Além disso, aqueles que fugiram da Alemanha Oriental disseram ter escapar da repressão de um regime brutal, e enquanto alguns podem de fato ter sido ardentes anticomunistas  fugindo da repressão do Estado, a maioria eram refugiados econômicos, buscando o abraço de um Oeste mais próspero, cujas riquezas dependia, em grande medida, de uma história de escravidão, colonialismo e imperialismo em processos de acumulação de capital , os países comunistas evitaram e gastaram recursos preciosos lutando contra.

 Hoje, ninguém de mente sem preconceitos diria que a riqueza prometida a alemães orientais se concretizaram. O desemprego, uma vez inédito, é executado na casa dos dois dígitos e aluguéis dispararam. A infraestrutura da região industrial - mais fraca do que a Alemanha Ocidental durante a Guerra Fria, mas em expansão - agora tem tudo, mas desapareceu. E a população está diminuindo, como refugiados econômicos, seguindo os passos de refugiados da Guerra Fria antes deles fazerem o seu caminho para o oeste em busca de empregos e oportunidades. [20] "Fomos ensinados que o capitalismo era cruel", lembra Ralf Caemmerer, que trabalha para Otis Elevator. "Você sabe, não vir a ser um absurdo." [21] Quanto à alegação de que os alemães orientais têm "liberdade" Heinz Kessler, um ex-ministro da Defesa da Alemanha Oriental responde com sarcasmo: “Milhões de pessoas na Europa Oriental são agora livre de emprego, livre de ruas seguras, livre de cuidados de saúde, livre de segurança social”. “[22] Ainda assim, Howard Zinn ficou contente que o comunismo tenha colapsado”. Mas então, ele não viveu na Alemanha Oriental.

 Então, quem está fazendo o melhor? Vaclav Havel, o dramaturgo tcheco virou presidente, veio de uma proeminente, família veementemente antissocialista de Praga, que teve  extensivas explorações", incluindo as empresas de construção, imobiliário e os estúdios de cinema Barrandov Praque". [23] A joia da coroa das explorações familiares de Havel foi o Palácio de Lucerna ", um palácio do prazer, de galerias, teatros, cinemas, casas noturnas, restaurantes e salões de baile," de acordo com Frommer. “Tornou-se “um local popular para novos ricos da cidade para se reunirem”, incluindo o jovem Havel que foi criado a pão de ló por uma governanta, adorado pelos empregados, e com motorista em torno da cidade em automóveis caros “, passou seus primeiros anos de vida em pisos de mármore polido do Lucerna "Então, a tragédia se abateu - pelo menos, do ponto de vista de Havel. Os vermelhos expropriaram Lucerna e outras explorações da família, e colocou-os para usar para o bem comum, ao invés de com a finalidade de proporcionar aos jovens Havel com mais servos. Havel foi enviado para trabalhar em uma cervejaria.

"Eu era diferente dos meus colegas cujas famílias não tinham empregadas domésticas, enfermeiras ou chauffeurs", Havel escreveu uma vez. "Mas eu experimentei essas diferenças como desvantagem. Eu me senti excluído da companhia dos meus colegas. "[24] No entanto, a companhia de seus pares não deve ter sido do agrado de Havel, pois, como presidente, ele foi rápido em recuperar o Silver Spoon que os comunistas tinham levado de sua boca. Celebrado em todo o Ocidente como um herói da liberdade intelectual, ele era, em vez disso um herói da restauração capitalista, presidindo sobre um retorno em massa de bens nacionalizados, incluindo Lucerna e outras posses de sua família.

 A Igreja Católica Romana é outra vencedora. O governo húngaro pró-capitalista devolveu para a Igreja Católica Romana grande parte da propriedade nacionalizada pelos comunistas que colocaram o imóvel sob propriedade comum para o bem público. Com a recuperação de muitas das propriedades do leste europeu e Europa Central  uma vez possuído, a Igreja é capaz de recuperar o seu papel pré-socialista de parasita - raking em vastas quantidades de riqueza fácil de alugada, um privilégio concedido por nenhuma outra razão do que ser é dona do título para a terra. Hungria também paga o Vaticano anuidade 9,2 milhão dólares para a propriedade tem sido incapaz de retornar. [25] (Note-se que a pesquisa de 2008 de 1.000 húngaros pela empresa de pesquisas húngaro Gif Piackutato descobriu que 60 por cento descreveu a era do regime comunista sob a liderança do comunista Janos Kadar como Hungria a mais feliz, enquanto apenas 14 por cento disseram o mesmo sobre a era pós-comunista . [26])

 A Igreja, os ex-proprietários das terras e CEOs de lado, a maioria das pessoas do antigo bloco socialista não estão satisfeitas que os ganhos das revoluções socialistas foram invertidos. Três quartos dos russos, de acordo com uma pesquisa [27] de 1999 lamentam o fim da União Soviética. E a sua avaliação do status quo é agradavelmente lúcida. Quase 80 por cento reconhecem a democracia liberal como fachada para um governo controlado pelos ricos. A maioria (corretamente) identifica a causa de seu empobrecimento como um sistema econômico injusto (capitalismo), que, de acordo com 80 por cento, produz "desigualdades excessivas e ilegítimas". [28] A solução, na opinião da maioria, é voltar para o socialismo, mesmo que isso signifique regime de partido único. Os russos lamentam  pelo historiador anticomunista Richard Pipes que eles não tenham gosto para a democracia multipartidária dos estadunidenses, e parecem incapazes de serem curados de sua predileção por líderes soviéticos. Em uma pesquisa, os russos foram convidados a listar os 10 maiores pessoas de todos os tempos, de todas as nações. Lênin ficou em segundo lugar, Stálin quarto e Pedro, o Grande veio primeiro. Pipes parece genuinamente chateado por eles não terem escolhidos o seu antigo chefe, Ronald Reagan, e está farto de que depois de anos da antissocialista  propaganda pró-capitalista, os russos continuam comprometidos com a ideia de que a atividade econômica privada deve ser restrita, e "a governo [precisa] se envolver mais na vida econômica do país ". [29] Uma pesquisa de opinião que perguntou aos russos qual sistema socioeconômico são a preferem produziu estes resultados:

• O planejamento estatal e distribuição, 58%;

• Com base na propriedade privada e de distribuição, 28%;

• É difícil dizer, 14%. [30]

 Assim, se os povos empobrecidos dos países outrora socialistas sentem falta dos atrativos antigos do socialismo, por que os comunistas não voltam? O socialismo não pode ser ligado com o apertar de um botão. As antigas economias socialistas foram privatizadas e colocadas sob o controle do mercado. Aqueles que aceitam as metas e os valores do capitalismo foram recrutados para ocupar escritórios centrais do Estado. E as estruturas econômicas, jurídicas e políticas foram alteradas para acomodar a produção privada com fins lucrativos. É verdade que há vagas para os partidos comunistas para operar dentro das novas democracias liberais multipartidárias, mas os comunistas agora competem com muito mais generosamente financiados partidos nas sociedades em que seus inimigos tenham restaurado a sua riqueza e os privilégios e usá-los para inclinar o campo de jogo fortemente em seu favor. Eles são donos dos meios de comunicação e, portanto, estão em condições de moldar a opinião pública e dar aos partidos da propriedade privada o apoio crítico durante as eleições. Eles gastam muito dinheiro em fazer lobby junto ao Estado e os políticos e gerenciando think-tanks que produzem séries de recomendações políticas e abastecem os meios de comunicação social com comentário de ''expert" pró-capitalistas. Eles definem a agenda nas universidades através de doações, subvenções e financiamento de cadeiras especiais para estudar questões de interesse para os seus lucros. Eles trazem os políticos sob seu domínio  distribuindo generosas contribuições de campanha e promessas de lucrativas oportunidades de emprego pós-carreira política. É de se admirar que os comunistas não são votados para voltar ao poder? Democracia capitalista significa democracia para uns poucos, — os capitalistas — e não uma igualdade de condições em que a riqueza, propriedade privada e privilégio, não importam.

 E quem pensa que comunistas podem ser eleitos para cargos devem familiarizar-se com a política externa dos EUA vis-a-vis Chile por volta de 1973. Os Estados Unidos armou um golpe para derrubar o socialista Salvador Allende, com o fundamento de que os chilenos não poderiam ser autorizados a fazer a escolha "irresponsável" de eleger um homem Cold Warriors considerado como um comunista. Mais recentemente, os Estados Unidos, União Europeia e Israel, se recusaram a aceitar a eleição do Hamas nos territórios palestinos, o tempo todo, hipocritamente, apresentaram-se como campeões e guardiães da democracia.

 É claro que nenhum passo em frente serão tomados, podem ser tomadas, até que uma parte decisiva da população fique descontente e rejeite o que existe hoje, e esteja convencida que algo melhor é possível e está disposta a tolerar os levantes de transição. Algo melhor do que a insegurança econômica incessante, privado (e para muitos, inacessíveis) cuidados de saúde e educação, e grande desigualdade, isto é possível. Os comunistas provaram isso. Era a realidade na União Soviética, na China (por um tempo), na Europa Oriental, e hoje, paira sobre em Cuba e Coréia do Norte, apesar do incessante e longo alcance dos esforços dos Estados Unidos para esmagá-lo.


 Não deve ser nenhuma surpresa que Vaclav Havel, como outros cuja supremacia econômica e política foram destruídas pelos comunistas, foi um lutador incansável contra o socialismo, e que ele e outros  que buscavam reverter os ganhos da revolução foram reprimidos, e às vezes amordaçados e presos pelos novos regimes. Esperar o contrário é fechar os olhos para a luta determinada que fosse exercida pelos inimigos do socialismo, mesmo depois que as forças socialistas tomaram o poder.
As forças da reação conservam o seu dinheiro, seus bens móveis, as vantagens da educação, e acima de tudo, as suas ligações internacionais. Para conceder-lhes total liberdade é conceder-lhes uma mão livre para organizar a queda do socialismo, para receber assistência material do exterior para reverter a revolução, e para elevar o mercado e a propriedade privada, mais uma vez com os princípios de regulação da economia. Poucos campeões das liberdades civis argumentam que, no interesse da liberdade de expressão, liberdade de reunião e de liberdade de imprensa, que os alemães deveriam ser autorizados a realizar comícios pró-nazistas, estabelecer uma imprensa pró-nazista, e organizar partidos políticos fascistas, para voltar aos dias do Terceiro Reich. Para sobreviver, qualquer governo socialista, deve, necessariamente, ser repressiva em relação aos seus inimigos, que, como Havel, buscará sua derrota e do retorno de suas posições privilegiadas. Este é demonizado como totalitarismo por aqueles que têm interesse em que prevalecem as forças antissocialistas, consideramos as liberdades civis e políticos (como a um mundo de abundância para todos) como o ápice da realização humana, ou têm uma visão exageradamente otimista das possibilidades para a sobrevivência das ilhas socialistas em um mar de Estados capitalistas predadores.

 Onde os comunistas têm prevalecido, o resultado tem sido de grande alcance ganho material para o grosso da população: o pleno emprego, cuidados de saúde gratuitos, educação gratuita até a universidade, puericultura gratuito e subsidiado, acomodações de vida baratos e transporte público barato. A expectativa de vida aumentou, o analfabetismo foi dizimado, e falta de moradia, desemprego e insegurança econômica foram abolidos. Conflitos raciais e tensões étnicas foram reduzidos a quase o ponto de fuga. E as desigualdades de riqueza, renda, oportunidade e educação têm sido muito reduzidas. Onde comunistas foram derrubados, o desemprego em massa, o subdesenvolvimento, a fome, as doenças, o analfabetismo, a falta de moradia, e os conflitos raciais vem recrudescendo como as propriedades, explorações e privilégios dos antigos gatos gordos foram restaurados. Comunistas produziram ganhos no interesse de toda a humanidade, alcançado em face de condições muito difíceis, incluindo a hostilidade incessante do Ocidente e do esforço incessante de antigos exploradores para restaurar o status quo de antes.



Notas e fontes


1. Howard Zinn, “Beyond the Soviet Union,” Znet Commentary, September 2, 1999.

2. “Left behind by the luxury train,” The Globe and Mail, March 29, 2000.

3. “Support dwindling in Czech Republic, Hungary, Poland,” The Chicago Tribune, May 27, 2001.

4. Dan Bilefsky, “Polish left gets transfusion of young blood,” The New York Times, March 12, 2010.

5. “Support dwindling in Czech Republic, Hungary, Poland,” The Chicago Tribune, May 27, 2001.

6. “An epidemic of street kids overwhelms Russian cities,” The Globe and Mail, April 16, 2002.

7. “UN report says one billion suffer extreme poverty,” World Socialist Web Site, July 28, 2003.

8. Associated Press, October 11, 2000.

9. “UN report….

10. Paul Cockshott, “Book review: Red Plenty by Francis Spufford”, Marxism-Leninism Today, http://mltoday.com/en/subject-areas/books-arts-and-literature/book-review-red-plenty-986-2.html

11. David Stuckler,  Lawrence King  and Martin McKee, “Mass Privatization and the Post-Communist Mortality Crisis:  A Cross-National Analysis,”   Judy Dempsey, “Study looks at mortality in post-Soviet era,” The New York Times, January 16, 2009.

12. “In Post-U.S.S.R. Russia, Any Job Is a Good Job,” New York Times, January 11, 2004.

13. Globe and Mail (Canada), June 9, 2008.

14. “Disdain for Ceausescu passing as economy worsens,” The Globe and Mail, December 23, 1999.

15. James Cross, “Romanians say communism was better than capitalism”, 21st Century Socialism, October 18, 2010. http://21stcenturysocialism.com/article/romanians_say_communism_was_better_than_capitalism_02030.html “Opinion poll: 61% of Romanians consider communism a good idea”, ActMedia Romanian News Agency, September 27, 2010. http://www.actmedia.eu/top+story/opinion+poll%3A+61%25+of+romanians+consider+communism+a+good+idea/29726

16. “Bulgarians feel swindled after 13 years of capitalism,” AFP, December 19, 2002.

17. “Bulgaria tribunal examines NATO war crimes,” Workers World, November 9, 2000.

18. Matthew Brunwasser, “Bulgaria still stuck in trauma of transition,” The New York Times, November 11, 2009.

19. Jacques R. Pauwels, “The Myth of the Good War: America in the Second World War,” James Lorimer & Company, Toronto, 2002. p. 232-235.

20. “Warm, Fuzzy Feeling for East Germany’s Grey Old Days,” New York Times, January 13, 2004.

21. “Hard lessons in capitalism for Europe’s unions,” The Los Angeles Times, July 21, 2003.

22. New York Times, July 20, 1996, cited in Michael Parenti, “Blackshirts & Reds: Rational Fascism & the Overthrow of Communism,” City Light Books, San Francisco, 1997, p. 118.

23. Leos Rousek, “Czech playwright, dissident rose to become president”, The Wall Street Journal, December 19, 2011.

24. Dan Bilefsky and Jane Perlez, “Czechs’ dissident conscience, turned president”, The New York Times, December 18, 2011.

25. U.S. Department of State, “Summary of Property Restitution in Central and Eastern Europe,” September 10, 2003. http://www.state.gov/p/eur/rls/or/2003/31415.htm

26. “Poll shows majority of Hungarians feel life was better under communism,” May 21, 2008, www.politics.hu

27. Cited in Richard Pipes, “Flight from Freedom: What Russians Think and Want,” Foreign Affairs, May/June 2004.

28. Ibid.

29. Ibid.

30. “Russia Nw”, in The Washington Post, March 25, 2009.

terça-feira, 3 de março de 2015

A URSS comparada aos EUA

Artigo de Antônio Santos retirado do jornal Avante!






Há pouco tempo, quando falava num debate sobre os problemas sociais dos EUA (o país em que vivo), perguntaram-me se achava o sistema soviético melhor que o americano.

A ratoeira estava montada: depois das derrotas do socialismo no Leste da Europa, a cultura dominante proibiu a esquerda afiançada de ''democrática'' de falar da URSS sem primeiro, a título de portagem, a condenar ou renegar. E mesmo assim, nem depois da costumeira demonização em piloto-automático, ouvimos falar dos enormes marcos civilizacionais soviéticos.

É óbvio que os EUA não podem ser, em rigor, comparados à URSS. Quando em 1917 os EUA eram um dos países mais avançados do mundo, a Rússia era um obscuro império feudal. De resto, quando se trata de comparar o socialismo ao mundo capitalista, é este último que define os termos, confrontando a realidade do capitalismo com o seu passado efectivo e a realidade do socialismo com o seu prospectivo futuro.

Mas qual seria o resultado se o critério fossem as conquistas sociais? Aceitemos pois, com esta justíssima condição, a pergunta armadilhada de saber «qual era o melhor sistema» e, sobretudo, «para quem».

O que nunca te disseram sobre a URSS


Em 50 anos, a produção industrial soviética passou de 12 para 85% da alcançada pelos EUA e a pátria de Lenine logrou patamares inéditos de igualdade, segurança, saúde, habitação, emprego, educação e cultura. O socialismo pôs fim à inflação, à discriminação racial e à pobreza extrema. A esperança média de vida duplicou e a mortalidade infantil caiu 90%. Segundo a UNESCO, nunca uma sociedade tinha elevado tanto o nível de vida da população em tão pouco tempo. Ao contrário dos Estados Unidos, perpetuamente assolados por epidemias de desemprego, em apenas 20 anos o país dos sovietes atingiu o pleno emprego.

Os direitos laborais nos EUA continuam hoje 80 anos atrás dos soviéticos: os norte-americanos trabalham em média quase 9 horas diárias. Já os soviéticos trabalhavam 7 horas por dia desde 1936. Os norte-americanos gozam em média 8 dias de férias, amiúde não remunerados. Já os soviéticos tinham direito a um mês de férias inteiramente pagas. Os EUA são o único país da OCDE que não contempla um único dia de licença de maternidade. Na URSS, as mulheres tinham direito a 20 meses de licença paga.

Os EUA não dispõem de um sistema público de saúde, o que condena diariamente 125 trabalhadores à morte. Tal não se passaria na URSS, que oferecia cuidados médicos gratuitos a toda a população. Os jovens norte-americanos contraem uma dívida média de 80 mil dólares durante a licenciatura. Na URSS, todos os graus de ensino, do pré-escolar ao pós-doutoramento, eram gratuitos. Na terra do Tio Sam os trabalhadores gastam metade do seu salário em habitação e serviços básicos. Na URSS, a renda da casa representava 2% do orçamento familiar e os serviços básicos 4%.

A URSS era também uma sociedade mais culta que os EUA. Em 1917, na Quirguízia, menos de 0,2% da população sabia ler e escrever. Em 1970 esse número chegava aos 97%. Nessa década, a URSS foi reconhecida pela UNESCO como o país do mundo onde se liam mais livros e viam mais filmes. As famílias soviéticas assinavam em média quatro publicações periódicas, o número de visitantes de museus representava metade da população e a frequência de teatros ultrapassava o seu total. Nos EUA cerca de 25% da população são tecnicamente «iletrados» (incapaz de compreender textos simples).

Anões aos ombros de gigantes


Como agora a direita europeia reconhece, o próprio Estado Previdência foi uma cedência arrancada a ferros pelos trabalhadores à burguesia, em parte pela necessidade de competir com a URSS em matéria de conquistas sociais.

Bernardo de Chartres, um filósofo do século XII, comparou os feitos da sua geração à figura de «anões aos ombros de gigantes». Também nós devemos reconhecer os benefícios duradouros que colhemos da experiência soviética, afinal, a URSS destruiu sozinha 70% do exército de Hitler e libertou o mundo do genocídio nazi, pagando-o com mais de 24 milhões de vidas e 70 mil cidades e vilas em escombros.

Uma terra sem amos


Com o fim da URSS, o número de pobres aumentou mais de 150 milhões, a economia e os salários encolheram mais de 50%. 75% dos russos caíram na miséria e doenças antes erradicadas atingiram proporções epidémicas. A esperança média de vida caiu para os níveis do século XIX.

Os EUA venceram a guerra fria, mas são todos os dias derrotados pela pobreza de 50 milhões, pela maior taxa de população prisional do mundo e por dois milhões de crianças sem tecto. Na URSS, as crianças não dormiam na rua e a democracia não ficava à entrada da fábrica. Foi o mais perto que a humanidade chegou de construir uma terra sem amos.

A URSS foi uma flor rara, de beleza extraordinária e difícil cultivo, que já antes tinha sido arrancada, com apenas dois meses de vida, quando a Comuna de Paris foi esmagada. E mesmo assim voltou a crescer, mais viçosa e resiliente num improvável sulco russo. Extinta a União Soviética, sobrevivem sementes que um dia darão flores novas

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O socialismo funciona?

O texto abaixo é a tradução (precária) que fiz do artigo ''Do publicy owned, planned economies work?'', de Stephen Gowans, publicado em seu blog. Boa leitura.

Economias planificadas e de propriedade pública funcionam?


Comparada com o capitalismo, a economia planificada funcionou muito bem.

 A União Soviética foi um exemplo concreto do que uma economia planificada pôde produzir: pleno emprego, pensões garantidas, licença maternidade paga, limites de horas de trabalho, cuidados médicos e educação (incluindo ensino superior) gratuitos, férias pagas, moradia barata, cuidado infantil a baixo custo, transporte público subsidiado e baixa desigualdade de renda. A maioria de nós deseja tais benefícios. Entretanto, eles são alcançáveis permanentemente? É largamente acreditado que embora a União Soviética tenha produzido tais benefícios, no fim a economia de propriedade pública e planificada provou-se um fracasso. Caso contrário, como explicar o fim do país? Ainda sim, quando a economia soviética foi pública e planificada, de 1928 a 1989, esta cresceu de forma sólida ano a ano, exceto durante os anos de guerra. Para ser claro, enquanto as economias capitalistas mergulharam em uma depressão profunda e solidamente caíram em recessões de poucos em poucos anos, a economia soviética infalivelmente não o fez, expandindo-se incessantemente e proporcionando emprego a todos. Longe de ser um fracasso, a economia pública e planificada da União Soviética funcionou notavelmente bem. O que não funcionava era o capitalismo, com suas ocasionais depressões, regulares recessões, desempregos em massa e extremos de riqueza e pobreza, tanto mais evidente hoje quando as economias capitalistas contraem ou mancam juntas, condenando inúmeras pessoas à inatividade. O que eventualmente levou à queda da União Soviética foi  o pedágio acumulado sobre a economia soviética para derrubá-la, a intensificação da Guerra Fria pelo governo Reagan e a inabilidade da liderança soviética para achar uma maneira de escapar do prejuízo que tais coisas causaram.

 Nos anos 80, a URSS estava demonstrando as estirpes da Guerra Fria. Sua economia crescia, mas a um ritmo menor que no passado. A competição militar com seu adversário ideológico, os EUA, atrasou seu crescimento de várias maneiras. Primeiro, recursos R&D (pesquisa e desenvolvimento, ''research and development'') foram monopolizados pelos militares, privando a economia civil dos melhores cientistas, engenheiros e ferramentas. Segundo, gastos militares aumentaram para se responder ao abandono da trégua em favor de uma nova corrida armamentista por parte do governo Reagan que tinha claramente como objetivo prejudicar a economia soviética. Para impedir a agressão estadunidense, os soviéticos utilizaram uma punitiva porcentagem de seu PIB no setor militar enquanto os EUA, com uma economia maior, investiam mais em termos absolutos porém em uma cota menor e mais gerenciável da renda nacional. Em terceiro lugar, para se proteger contra os perigos de depender de importações estrangeiras de matérias-primas importantes que poderiam ser cortadas para deixar o país de joelhos, a União Soviética escolheu extrair matérias-primas de seu próprio vasto território. Ao mesmo tempo em que fez a URSS autossuficiente, o abastecimento interno enredou o país numa armadilha Ricardiana*. O custo de produzir matérias-primas aumentou, à medida que fontes mais novas e difíceis de alcançar precisavam ser exploradas enquanto as mais velhas e de fácil alcance se esgotavam. Em quarto lugar, a fim de melhor defender o país, os soviéticos procuraram aliados no leste europeu e no terceiro mundo. Porém, porque a URSS era mais rica que os países e movimentos com que se aliou, esta se tornou a âncora e financiadora oficial dos outros países socialistas, movimentos de libertação e estados que buscavam libertar-se da espoliação por parte das potências ocidentais. Como seu número de aliados, aumentou, e Washington manobrou para armar, financiar e apoiar as revoltas anti-comunistas em uma tentativa de impôr pressão adicional ao tesouro soviético, os custos de Moscou para auxiliar seus aliados. Esses fatores — corolários da necessidade de prover defesa para a União Soviética — combinaram-se para empurrar custos até o ponto que eles impediram seriamente o crescimento soviético.


Por todos os anos entre 1928 a 1989, exceto durante os de guerra, a economia planificada e de propriedade pública soviética expandiu-se de forma segura, proporcionando empregos, moradia e uma grande variedade de serviços públicos de baixo ou nenhum custo para todos, enquanto que as economias capitalistas afundavam regularmente em recessão e tinham de lutar entre si em meio aos destroços de vidas humanas.


 Com a desaceleração do crescimento e os custos de defender o país aumentando, parecia que era apenas uma questão de tempo até que a URSS se achasse entre a Scylla de um posicionamento militar insustentável e a Caríbdis de uma falência impulsionada pela corrida armamentista. Mikhail Gorbatchev, o último líder do país, enfrentou um dilema: ele poderia falir a economia tentando manter o ritmo com os gastos armamentistas americanos ou retirar-se completamente da corrida. Gorbatchev escolheu a última opção. Ele agiu pelo fim da Guerra Fria, retirando auxílio militar aos aliados e comprometendo-se à cooperação com os Estados Unidos. No plano econômico, ele agiu para transformar a União Soviética em uma social-democracia ocidental. Entretanto, ao invés de resgatar o país de um futuro de crescimento econômico ainda mais lento, as capitulações de Gorbatchev em política econômica e externa levaram a um desastre. Sem a mão restritiva da União Soviética, os Estados Unidos iniciaram uma série de agressões ao redor do mundo, a começar pelo Iraque, prosseguindo à Iugoslávia, Afeganistão, Iraque de novo e então Líbia, com numerosas intervenções menores entre essas. O abandono do planejamento econômico e os esforçar para limpar o caminho para a implementação de uma economia de mercado empurrou o país para uma crise. Dentro de 5 anos, a Rússia mostrou-se um desastre econômico. O desemprego, a falta de moradia, a falta de segurança e o parasitismo social (viver do trabalho dos outros) retornaram como uma vingança.

 No dia de natal de 1991, data em que a URSS oficialmente acabou, Gorbatchev disse: ''Vivemos em mundo novo. A Guerra Fria está terminada. A corrida armamentista e a militarização louca dos Estados, que deformaram nossa economia, sociedade e valores, foram parados. A ameaça de uma guerra mundial foi eliminada'' (Roberts, 1999). Isso fez de Gorbatchev bastante popular no ocidente. Os russos  estavam bem menos entusiasmados. Contida nas palavras de Gorbatchev estava a verdade de que a primeira tentativa consciente do mundo de construir uma alternativa ao capitalismo havia chegado ao fim. Não foi porque o sistema soviético provou-se ineficiente; pelo contrário, ele mostrou funcionar melhor que o capitalismo. A verdadeira razão para o fim da URSS foi que seu líder capitulou diante de um inimigo americano, que, desde a 2º Guerra Mundial, e com vigor crescente durante a era Reagan, promoveu uma corrida armamentista para eliminar a economia soviética. Esta foi uma economia que funcionou para 99% da população, e, portanto, se lhe tivesse sido permitido prosperar, teria desacreditado as economias privadas e reguladas pelo mercado de que 1% da população se favorece e beneficia. Foi esse modelo de livre iniciativa e desregulamentação do mercado que gerou vasta riqueza, conforto e segurança as prerrogativas dos capitães da indústria e titãs financeiros e desemprego, pobreza, fome, insegurança econômica e indignidade — condições necessárias para a existência dos 1% mais ricos — para o resto de todo mundo.

 Os 21 anos desde o fim da URSS não têm sido fáceis. Stálin, sob cuja tutela a primeira economia pública e planificada do mundo foi construída, deu certa vez uma advertência profética: ''O que aconteceria se o capitalismo conseguisse esmagar as repúblicas soviéticas? Isto iniciaria uma era da mais negra reação nos países capitalistas e coloniais. A classe trabalhadora e os povos oprimidos seriam pegos pela garanta, as posições do comunismo mundial estariam perdidas'' (Stalin, 1954). E da forma como Stálin havia precisamente profetizado 10 anos antes da operação Barbarossa, a invasão nazista da União Soviética, que seu país tinha apenas 10 anos para se preparar para um ataque, também previu ele com precisão as consequências da queda da União Soviética perante as forças do capitalismo. Uma era da mais negra reação, de fato, iniciou-se. Washington tem agora mais liberdade para força militar para prosseguir com sua agenda reacionária em todo o mundo. A posse pública e a planificação mantém-se em Cuba e na Coreia do Norte, porém os Estados Unidos e seus aliados usam sanções, isolamento diplomático e assédio militar para sabotar as economias dos sobreviventes (tal como fizeram com a economia soviética), de modo que as consequências podem ser falsamente atribuídas às deficiências da propriedade pública e da planificação. Elas são, na verdade, fruto de um programa metódico de guerra de baixo nível. Estimulados a acreditar que o sistema econômico soviético tinha falhado, muitas pessoas, incluindo tanto os defensores e detratores comunistas da União Soviética, concluíram que um sistema de propriedade pública e planificação é inerentemente defeituoso. Comunistas bandearam-se de partidos comunistas para social-democratas, ou abandonaram a política radical logo. Os social-democratas deslocaram-se à direita, evitando a reforma e abraçando o neoliberalismo. Além disso, os governos ocidentais, não precisando mais barrar o apelo da propriedade pública e da planificação, abandonaram a política de pleno emprego e declararam não serem mais acessíveis serviços públicos robustos (Kotz, 2001). Ao mesmo tempo, a privatização na antiga União Soviética e países ex-comunistas expandiu a oferta global de força de trabalho, com consequências previsíveis para os níveis de salários em todo o mundo. A derrota da União Soviética deu início a uma era áurea para o capital. O resto de nós, como advertiu Stálin, fomos pegos pelas gargantas...

 As maiores economias do mundo estão em crise desde 2008. Algumas estão presas em uma espiral fatal de austeridade, algumas nas garras da recessão, a maioria crescendo lentamente na melhor das hipóteses. Austeridade — na realidade a eliminação de serviços públicos — é a pseudo-solução prescrita. Não há fim à vista. Em algumas partes da Europa, o desemprego oficial chega a 2 dígitos; o desemprego entre os jovens, ainda mais. Na Grécia, um país de 11 milhões, há apenas 3,7 milhões empregados (Walker e Kakaounaki, 2012). Além disso, a crise não pode, de forma alguma, ser atribuída a um poder externo trabalhando sistematicamente para trazer a derrubada do capitalismo, tal qual os EUA e seus aliadas fizeram para com a propriedade pública e a planificação na URSS. Ainda sim, livre para se desenvolver sem o ônus de um esforço organizado para sabotá-lo, o capitalismo não está funcionando. Poucos deixam isso claro. Em contraste, o modelo soviético de propriedade e planejamento — que, desde o início, foi alvo de um esforço concentrado para derrubá-lo — jamais, exceto os anos de 2ª Guerra Mundial, caiu em recessão, nem deixou de oferecer pleno emprego. Entretanto entende-se, até mesmo por alguns ex-partidários da União Soviética, ter sido ineficiente. Ao contrário do engano geral, a experiência soviética não demonstrou que uma fraqueza inerente existiu dentro da propriedade pública, que a levou ao fracasso. Ela demonstrou, pelo contrário, o oposto - que a propriedade pública e a planificação puderam fazer o que o capitalismo não pode: produzir um crescimento econômico constante, pleno emprego, uma ampla gama de gratuitos e semi-gratuitos serviços públicos e uma distribuição bastante igualitária da renda. Além disso, pôde fazê-lo ano após ano e continuou a fazê-lo até que a liderança soviética puxou a tomada. Demonstrou, também, que a elite dos 1% iria defender a propriedade privada usando meios militares, econômicos e ideológicos para esmagar um sistema que funcionou contra eles mas fê-lo esplendidamente pelos outros 99% (um esforço que continua hoje contra Cuba e Coreia do Norte).

 A derrota da União Soviética, de fato, marcou o início de um período negro de reação. A saída permanece sendo, como sempre, a propriedade pública e a planificação — que a experiência soviética de 1928 a 1989 demonstrou funcionar muito bem — e a luta contra aqueles que tentam desacreditá-la, degradá-la ou destruí-la.

O que a propriedade pública e a planificação fizeram pelos cidadãos comuns da URSS

 Os benefícios do sistema econômico soviético encontraram-se na eliminação dos males do capitalismo - o fim do desemprego, da inflação, das recessões e depressões, os extremos de riqueza e pobreza; o fim da exploração, ou seja, de viver do trabalho dos outros; e a prestação de um vasto leque de gratuitos ou semi-gratuitos serviços públicos.

 A mais importante conquista da economia soviética foi a abolição do desemprego. A União Soviética não apenas proveu emprego para todos como o trabalho era considerado uma obrigação social, de tanta importância que foi consagrado na constituição. A constituição de 1936 estipulara que ''os cidadãos da URSS têm o direito de trabalhar, ou seja, são garantidos o direito ao emprego e ao pagamento por seu trabalho de acordo com a qualidade e quantidade.'' Por outro lado, viver de meios que não o trabalho era proibido. Consequentemente, tirar riqueza de rentismo, lucros, especulação ou mercado negro — parasitismo social — era ilegal (Szymanski, 1984). Achar um emprego era fácil, porque normalmente havia baixa oferta de trabalho. Consequentemente, os funcionários tinham um alto poder de negociação no trabalho, com evidentes benefícios em segurança do trabalho e a gestão prestando muita atenção á satisfação do empregado (Kotz, 2003).

 O artigo 41 da constituição de 1977 estabeleceu a semana de trabalho em 41 horas. Trabalhadores do turno da noite trabalhavam 7 horas mas recebiam a remuneração total (correspondente a 8 horas). Os trabalhadores empregados em empregos perigosos (por exemplo, mineradores) ou onde a vigilância mantida era crítica (por exemplo, médicos), trabalhavam 6 ou 7 horas mas recebiam salário integral. Trabalho em hora-extra foi proibido, exceto em circunstâncias especiais (Szymanski, 1984).

 A partir dos anos 60, os trabalhadores receberam em média um mês de férias (Keeran e Kenny, 2004; Szymanski, 1984), que poderiam ser tomadas em resorts subsidiados (Kotz, 2003).

 A todos os cidadãos soviéticos era fornecida uma renda de aposentadoria, aos homens com 60 anos de idade e às mulheres com a idade de 55 (Lerouge, 2010). O direito à pensão (assim como benefícios por invalidez) foi garantido pela constituição soviética (artigo 43, constituição de 1977), ao invés de ser revogável e sujeita a caprichos momentâneos de políticos, como é o caso nos países capitalistas.

 Às mulheres era garantida licença maternidade totalmente remunerada desde 1936, além de muitos outros benefícios, pela constituição soviética (artigo 122, 1936). Simultaneamente, a constituição de 1936 provia uma ampla rede de maternidades, creches e jardins de infância, enquanto a constituição de 1977 obrigava o Estado a ajudar ''a família, proporcionando e desenvolvendo um amplo sistema de assistência à infância... mediante o pagamento de subvenções sobre o nascimento de uma criança, fornecendo subsídios às crianças e benefícios para as grandes famílias'' (artigo 35). A União Soviética foi o primeiro país a criar creches públicas (Szymanski, 1984).


Que os cidadãos americanos tivessem de pagar por sua saúde foi considerado extremamente bárbaro na União Soviética, e cidadãos soviéticos ''frequentemente questionavam os visitantes estadunidenses de forma bastante incrédula quanto a isso''. 

 Também lhes foi garantida a igualdade de direitos em relação aos homens, em todas as esferas da vida econômica, política, cultural e social (artigo 122, 1936), incluindo o direito ao emprego, descanso e lazer, segurança social e educação. Entre seus muitos pioneirismos, a URSS foi o primeiro país a legalizar o aborto, que estavam disponíveis sem custo algum (Sherman, 1969). Também foi o primeiro país a trazer as mulheres para os cargos superiores do governo. Uma intensa campanha foi realizada na Ásia central soviética para libertar as mulheres da opressão misógina do islamismo conservador. Isso produziu uma transformação radical das condições de vida das mulheres nestas áreas (Szymanski, 1984).

 O direito à moradia foi garantido por uma disposição constitucional de 1977 (artigo 44). O espaço urbano para habitação foi, entretanto, reduzido à metade do que era por cabeça na Áustria e na Alemanha Ocidental, por exemplo. As razões eram construção inadequada na era czarista, a destruição massiva de moradias durante a 2ª Guerra Mundial e a ênfase soviética na indústria pesada. Depois da revolução, novas moradias foram construídas, mas seu ''estoque'' permaneceu insuficiente. A construção de habitações pesava fortemente sobre o capital, de que o governo necessitava urgentemente para a construção da indústria. Além disso, os invasores nazistas destruíram de 1/3 a 1/2 das habitações soviéticas durante a 2ª Guerra Mundial (Sherman 1969).

 Cidadãos urbanos soviéticos vivam tipicamente em edifícios de apartamentos de propriedade da empresa em que trabalhavam ou do governo local. Os aluguéis eram baratíssimos por lei, cerca de 2 a 3% do orçamento familiar, enquanto os utilitários ocupavam de 4 a 5% (Szymanski, 1984; Kenny & Keeran, 2004). Isso difere nitidamente dos Estados Unidos, onde os aluguéis consumiam uma parcela significativa do orçamento familiar médio (Szymanski, 1984) e ainda o fazem.

 Produtos alimentares e outras necessidades eram subsidiados, enquanto itens de luxo eram vendidos bem acima de seus custos.

 O transporte público era eficiente, extenso e praticamente gratuito. A tarifa de metrô era cerca de 8 centavos nos anos 70, inalterada desde 1930. Nada comparável existiu nos países capitalistas. Isto porque um serviço público eficiente, acessível e extenso limitaria severamente as oportunidades de lucro de fabricantes de automóveis, companhias de petróleo e empresas de engenharia civil. A fim de salvaguardar seus lucros, essas empresas usam sua riqueza, conexões e influência para impedir o desenvolvimento de eficientes, extensas e baratas alternativas públicas ao transporte privado. Os governos, que precisam manter a indústria privada feliz para que esta possa gerar empregos, são obrigados a jogar seu jogo. A única maneira de mudar isto é pôr o capital sob o controle público, a fim de usá-lo para atender às metas de políticas públicas estabelecidas em um plano conscientemente construído.

 A União Soviética deu maior ênfase à saúde do que seus adversários capitalistas. Nenhum outro país teve mais médicos ou leitos hospitalares por cabeça que a URSS. Em 1977, esta tinha 35 médicos e 212  leitos hospitalares a cada 10.000 habitantes, em comparação com 18 médicos e 63 leitos hospitalares nos EUA (Szymanski, 1984). O mais importante: a saúde era gratuita. Que cidadãos dos EUA tivessem que pagar por atendimento médico foi considerado extremamente bizarro na URSS, e os cidadãos soviéticos ''frequentemente questionavam os visitantes estadunidenses de forma bastante incrédula quanto a isso'' (Sherman, 1969).

 A educação superior também era gratuita, e bolsas estavam disponíveis para estudantes de pós-graduação, adequadas para pagar livros-texto, hospedagem e alimentação, dentre outras despesas (Sherman, 1969; Szymanski, 1984).

 A desigualdade de renda na União Soviética era leve em comparação com os países capitalistas. A diferença entre a maior renda e o salário médio era equivalente à diferença entre a renda mensal de um médico e um trabalhador comum nos EUA, cerca de 8 a 10 vezes maior (Szymanski, 1984). Os rendimentos mais elevados da elite proporcionou privilégios não maiores que a capacidade de se adquirir uma casa modesta e um carro (Kotz, 2000). Para comparar, em 2010, os 100 CEO's mais bem pagos do Canadá tinham rendimentos 155 vezes que os salários médios de tempo integral. Este era de US$43.000 (Canadian Centre for Policy Alternatives, 2011). Um rendimento 10 vezes maior seria de US$430.000 — mais ou menos o que os membros da elite capitalista ganham em uma semana. Um fator que mitigou a desigualdade de renda na União Soviética foi o acesso de todos os cidadãos soviéticos a serviços essenciais, sem nenhum ou quase nenhum custo. Assim, o grau de desigualdade material era ainda menor que o grau de desigualdade de renda (Szymanski, 1984).

 Líderes soviéticos não vivam nas opulentas mansões que são as residências comuns de presidentes, primeiros-ministros e monarcas na maioria das capitais do mundo (Parenti, 1997). Gorbatchev, por exemplo, vivia num prédio de apartamentos para 4 famílias. Um alto funcionário da construção em Leningrado viva numa apartamento de um quarto, enquanto o funcionário político do topo em Minsk, sua esposa, sua filha e seu filho adotado moravam num apartamento de dois quartos (Kortz e Weir, 1997). Críticos da União Soviética acusam sua elite de ser uma classe dominante exploradora, mas os rendimentos modestos e as circunstâncias materiais humildes desta levantam sérias dúvidas sobre esta avaliação. Se foi de fato uma classe dominante exploradora, foi a mais estranha da história.

O recorde de crescimento da economia soviética sob a propriedade pública e a planificação


 A partir do momento que, em 1928, a economia soviética tornou-se propriedade pública e planificada, até o ponto em 1989 no qual a economia foi empurrada em direção ao livre-mercado, o crescimento do PIB per capita soviético foi superior ao de qualquer outro país exceto Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Ele cresceu a uma taxa de 5,2% contra 4% para a Europa Ocidental e 3,3% para as ramificações da Europa Ocidental (EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia). Em outras palavras, no tempo em que a economia planificada e de propriedade pública estava em prática, o registro de aumento das riquezas na URSS foi melhor que a dos principais países capitalistas industrializados. O robusto crescimento da União Soviética durante esse período é ainda mais impressionante considerando que o período inclui os anos de guerra, quando um grande ataque da Alemanha nazista deixou um rastro de destruição no caminho. Os invasores alemães destruíram mais de 1500 cidades e vilas, mais de 70000 aldeias, 31000 fábricas e 100 milhões de cabeças de gado (Leffler, 1994). O crescimento foi máximo até 1970, ponto em que a economia soviética começou a ocorrer mais devagar. No entanto, mesmo durante esse período chamado (erroneamente) de estagnação pós-1970, o PIB per capita cresceu 27% (Allen, 2003).


 Enquanto as taxas de crescimento do PIB per capita soviético se mostram positivas em comparação com a das principais economias capitalistas, uma comparação ainda mais relevante é a com o resto do mundo. Em 1929, a União Soviética ainda era em grande parte um país agrário, e a maioria das pessoas trabalhava na agricultura, comparado com uma minoria na Europa Ocidental e na América do Norte. Assim, a economia da URSS no momento de sua transição para a propriedade pública e a planificação era muito diferente da dos países ocidentais industrializados. Por outro lado, o resto do mundo se parecia com a União Soviética, sendo também, em grande parte, agrário (Allen, 2003). É, por conseguinte, com o resto do mundo e não os Estados Unidos e outros países industrializados avançados que a URSS deve ser comparada. De 1928 a 1989, o PIB per capita soviético não só ultrapassou o crescimento dos países ricos como também excedeu o crescimento em todas as outras regiões do mundo combinadas, bem como em maior grau. Assim, a economia planificada de propriedade pública não só ultrapassou o desenvolvimento das economias capitalistas mais ricas como também cresceu ainda mais rápido que os países; ela cresceu ainda mais rápido que as economias dos países que eram parecidos com ela em 1928. Por exemplo, fora do seu núcleo sul, o PIB per capita da América Latina era de US$1332 (dólares de 1990), quase igual aos US$1370 da URSS. Em 1989, o mesmo dado alcançou, na América Latina, US$4486, mas a renda média da União Soviética havia alcançado um nível muito maior, US$7078 (Allen, 2003). A propriedade público e a planificação havia elevado nível de vida a um patamar mais alto do que o capitalismo na América Latina havia feito, apesar do mesmo ponto de partida. Além disso, enquanto a economia soviética nos tempos de paz crescia seguramente, a economia latino-americana crescia aos trancos e barrancos, com empresas regularmente fechando as portas e demitindo seus funcionários.

O i-Phone. Produzido pela ''livre iniciativa''? Pense de novo. 

 Talvez o melhor exemplo de como a planificação e a propriedade pública se saiu melhor em elevar o padrão de vida venha de uma comparação dos rendimentos da Ásia Central soviética com o dos vizinhos no Oriente Médio e Sul da Ásia. Em 1928 essas áreas estavam em um estado pré-industrial. Sob a propriedade pública e a planificação, a renda média na Ásia Central soviética cresceu para US$5257 em 1989, 32% maior que na vizinha capitalista Turquia, 44% maior que no vizinho capitalista Irã e 241% maior que no vizinho capitalista Paquistão (Allen, 2003). Para os asiáticos centrais, ficou claro que o padrão de vida do lado soviético da fronteira era mais alto.


A emulação do financiamento público de pesquisa e desenvolvimento por parte dos EUA


 Os defensores de uma economia de livre iniciativa querem nos fazer acreditar que a propriedade pública e a planificação sufocam a inovação, enquanto a livre iniciativa estimula-o. Se for esse o caso, como é que vamos explicar:



  • Que a União Soviética superou os EUA alcançando o espaço em 1950, acumulando um recorde de pioneirismos na exploração do espaço e, consequentemente, desencadeando um pânico em Washington?
  • Que a maioria das inovações nos EUA, da internet ao algoritmo do mecanismo de pesquisa do Google passando pelos medicamentos avançados e o iPhone sejam baseados não em investimento privado, mas em financiamento público?

 Na realidade, a verdade sobre a inovação é o exato oposto do que os apologistas do livre-mercado querem nos fazer crer. Não é a iniciativa, mas a planificação e o financiamento público que a dirigem.

 As conquistas soviéticas no espaço, se consideradas à luz da ideia equivocada de que a URSS sempre foi uma pobre segunda-melhor para o supostamente mais dinâmico EUA, são verdadeiramente surpreendentes. As conquistas soviéticas constituem o primeiro satélite, o primeiro homem em órbita, a primeira mulher em órbita, a primeira caminhada espacial, o primeiro pouso lunar, a primeira imagem do lado mais distante da lua, a primeira aterrissagem suave não tripulada na lua, o primeiro veículo lunar, a primeira estação espacial e a primeira sonda interplanetária. O pânico criado em Washington depois que a economia soviética supostamente sufocadora-de-inovações permitiu à URSS bater seu adversário ideológico muito mais rico no espaço galvanizou os Estados Unidos para pegar uma folha do livro soviético. Assim como os soviéticos estavam fazendo, Washington usaria fundos públicos para fortalecer a pesquisa em inovações. Isso seria feito por meio da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada em Defesa, a DARPA. Esta viria a canalizar dinheiro público para cientistas e engenheiros para pesquisa militar e espacial, entre outras. Muitas das inovações que sairiam da DARPA viriam a fazer o caminho para os investidores privados, que os usariam para lucro próprio (Mazzucato, 2011). Desta forma, os investidores privados foram poupados de arriscar seu próprio capital, como a mitologia da livre-iniciativa quer nos fazer crer que eles fazem. Nessa mitologia, perspicazes e ousados capitalistas colhem grandes lucros por arriscar seu capital em uma pesquisa que poderia nunca ser paga. Exceto que não é assim que funciona. É muito melhor para os investidores investir seu capital em empreendimentos com menos riscos e retornos imediatos, enquanto o público arca com o ônus do financiamento de pesquisa e desenvolvimento e seus muitos riscos e inseguranças. Usando sua riqueza, influência e conexões, os investidores têm pressionado com sucesso os políticos para manter este agradável arranjo no lugar. A realidade da livre-iniciativa, portanto, baseia no sistema-otário: o risco é socializado (ou seja, bancado pelo público, os otários), enquanto os benefícios são ''privatizados'' (por investidores que manipularam políticos para impôr ao público o ônus de financiar a pesquisa e o desenvolvimento).

 Um estudo realizado por Block e Keller (2008) constatou que, entre 1971 e 2006, 77 das 88 melhores inovações em pesquisa e desenvolvimento tinham sido totalmente financiadas pelo governo dos EUA. Resumindo uma pesquisa da economista Mariana Mazzucato, o colunista do Guardian Seumas Milne (2012) aponta que

''Os algoritmos que sustentaram o sucesso do google foram financiados pelo setor público. A tecnologia no iPhone da Apple foi inventada no setor público. Em ambos EUA e Reino Unido foi o Estado, e não a indústria farmacêutica, que financiou os mais inovadores medicamentos 'nova entidade molecular', com o setor privado desenvolvendo, então, pequenas variações. E na Finlândia, foi o setor público que financiou o desenvolvimento precoce da Nokia — e fez um retorno desse investimento.''

 A energia nuclear, a tecnologia para satélites e foguetes e a internet são outros exemplos de inovações que foram produzidas com dinheiro público, e têm sido usadas desde então para lucro privado. O presidente estadunidense Barack Obama reconheceu a natureza da fraude em um pronunciamento sobre o estado da nação de 2011: ''Nosso sistema de livre-iniciativa'', começou o presidente, ''é o que impulsiona a inovação.'' No entanto ele imediatamente se contradisse ao dizer que ''mas porque nem sempre é rentável às empresas investir em pesquisa básica, ao longo da história o nosso governo tem proporcionado cientistas e inventores de ponta e o suporte de que eles necessitam.''

 Tudo isso aponta para dois fatos importantes: (1) os Estados Unidos deram o ponta-pé inicial na inovação de sua economia pela simulação do modelo soviético de pesquisa dirigida pelo Estado porque a iniciativa privada não estava à altura da tarefa e (2) em vez de imitar o modelo soviético para o beneficiamento público, os EUA canalizaram o financiamento público em pesquisa e desenvolvimento para o lucro privado. A partir do segundo ponto pode inferir-se um terceiro: o fato de que os soviéticos socializaram os benefícios que fluem dos riscos socializados, enquanto os EUA ''privatizaram-lhes'', reflete a natureza antagônica dessas duas sociedades: uma delas, uma sociedade orientada pelo coletivo e organizada para beneficiá-lo; a outra, uma sociedade de negócios organizada para beneficiar uma minoria de proprietários e donos de empresas. O capitalismo, como o presidente dos EUA reconhece, não promove a inovação, porque ''nem sempre é rentável para as empresas investir em pesquisa básica.'' Por outro lado, o financiamento dirigido pelo Estado é fonte de inovação. Claramente, então, uma agenda política tem alimentado dois mitos: (a) que um sistema de propriedade pública e planificação impede a inovação e (b) que o sistema de lucro a estimula.

Por que o crescimento desacelerou

 Embora a economia soviética tenha crescido rapidamente entre 1928 e 1989, esta nunca ultrapassou as economias da América do Norte, Europa Ocidental e Japão. Consequentemente, a renda perca pita da URSS sempre foi menor que a das economias capitalistas industrializadas. A desvantagem comparativa dos rendimentos e condições de vida foi falsamente atribuída às supostas ineficiências da propriedade pública e da planificação, em vez da realidade de que, tendo iniciado ainda mais para trás que os países capitalistas ricos, a União Soviética tinha mais estrada para percorrer. Quando a corrida começou, em 1928, a União Soviética ainda era em grande parte um país agrário enquanto os EUA já era industrializado. Por isso a União Soviética tinha de percorrer o terreno que os EUA já haviam percorrido quando a Rússia estava sob o domínio sufocante da tirania czarista. Além disso, tinha que fazê-lo sem riquezas extraídas de outros países, como os EUA, Grã-Bretanha, França e Japão que haviam baseado parte de sua prosperidade em explorar seus próprios impérios formais e informais (Murphy, 2000). É verdade que a URSS possuía um grupo de países satélites na Europa Oriental — sobre os quais exerceu hegemonia, mas, exceto nos primeiros anos do pós-2ª Guerra Mundial, esses países nunca foram economicamente explorados pela União Soviética. Se qualquer coisa, os soviéticos, que exportavam matérias-primas em troca de bens manufaturados, saíram perdendo no final de sua relação comercial com seus satélites. Enquanto eles permaneceram membros do Pacto de Varsóvia — uma aliança defensiva formada depois e em resposta à OTAN — e mantiveram alguma aparência de propriedade pública e planejamento, Moscou permitiu aos países do Leste Europeu traçar seu próprio curso. A hegemonia soviética, então, limitou-se a dar cumprimento a essas duas condições (Szymanski, 1979).

 Em meados da década de 1970 havia uma série preocupação em Washington de que a economia soviética estava em rumo de ultrapassar a dos Estados Unidos. Uma vez que Washington sempre apontou para a maior renda média e o padrão de vida mais elevado dos Estados Unidos para mobilizar a fidelidade de sua população, a liderança soviética (no campo da economia) seria um golpe mortal à legitimidade do capitalismo estadunidense. Estimativas cuidadosas preparadas nos EUA mostraram que o PIB soviético estava ganhando do estadunidense. Em 1950, a economia soviética era apenas um terço da economia estadunidense, mas cresceu para quase metade 8 anos depois (Sherman, 1969). Do ponto de vista dos estrategistas em Washington no final dos anos 1950, o perigo que se aproximava era que, no ritmo corrente, a economia soviética ultrapassasse a economia dos EUA por volta de 1982. Nesse momento, todo o fundamento da crença da população dos EUA na necessidade da livre-iniciativa — que esta produziu um padrão de vida mais elevado do que a propriedade pública e a planificação — desmoronaria. Alguma coisa tinha de ser feita.

 Em 1975, a CIA estimou que a economia soviética era cerca de 60% da economia estadunidense (Kotz  e Weir, 1997). No entanto, o crescimento econômico soviético começava a desacelerar. De acordo com dados fornecidos por Allen (2003), o PIB per capita soviético cresceu a uma taxa de 3,4% de 1928 a 1970, mas a menos de metade dessa taxa, 1,3%, de 1970 a 1989. Teria os Estados Unidos, alarmado por ter sido batido na corrida espacial e agitado por aquilo que parecia a perspectiva bem real de ser economicamente ultrapassado pela URSS, manobrado para sabotar o progresso soviético?

 A guerra fria nunca foi gentil com as perspectivas soviéticas de crescimento. Os líderes soviéticos reconheceram que uma economia planificada e de propriedade pública era uma anátema para os capitães da indústria e das finanças que usam sua riqueza e conexões para dominar a política nos países capitalistas. A URSS tinha sido invadida várias vezes, e em duas ocasiões por potências capitalistas agressivas com o intuito de varrer o sistema soviético para fora do mapa. A fim de deter futuras agressões, foi necessário manter o ritmo militarmente. Portanto, a União Soviética lutava da melhor forma que podia para obter uma paridade militar áspera para manter uma convivência pacífica com os seus vizinhos capitalistas (Szymanski, 1979).

 No entanto, o tamanho menor da economia soviética em relação a seus concorrentes ideológicos gerou problemas. A necessidade de manter a paridade militar áspera significou gastar um percentual muito mais elevado do PIB com os militares em comparação com o que os EUA e outros países da OTAN gastavam em suas forças armadas. Recursos que poderiam ter sido mobilizados para a expansão industrial para ajudar o país a elevar-se economicamente tiveram de ser alocados para a auto-defesa (Murphy, 1999). Desde a década de 1950 até a de 1970, os soviéticos gastaram de 12 a 14% do seu PIB com o exército (Szymanski, 1984; Allen, 2003), um número que iria crescer muito mais depois, quando o governo Reagan elevou os gastos militares, antecipando um esforço soviético para manter-se que poderia prejudicar a economia da URSS.

 Outra restrição imposta à economia soviética pela necessidade de deter a agressão militar foi a monopolização dos recursos de pesquisa e desenvolvimento por parte dos militares.

 Mantendo o ritmo militarmente envolvido numa batalha incessante para alcançar a inovação militar estadunidense. Quando os EUA Explode a primeira bomba atômica em 1945, a URSS correu para igualar a façanha científica dos EUA. O que fez isso quatro anos depois. A introdução dos Estados Unidos da bomba de hidrogênio em 1952 foi rapidamente seguido pelos soviéticos explodindo  sua própria bomba de hidrogênio, um ano depois. O primeiro submarino estadunidense lançador de mísseis nucleares foi acompanhado pela URSS um ano depois. Nenhuma arma importante foi primeiro desenvolvida pela URSS, com uma única exceção — A ICBM. Ao contrário dos EUA, a URSS não tinha bases militares perto do seu rival ideológico. E, portanto, precisava de uma maneira de transportar ogivas nucleares em longas distâncias. No entanto, o objetivo foi em legítima defesa, e que a União Soviética era normalmente em modo de recuperação em sistemas de armas demonstrou que os Estados Unidos estavam estimulando a Guerra Fria adiante, não a URSS. Para os soviéticos, a Guerra Fria era um veneno econômico. Para os estadunidenses, a Guerra Fria foi uma forma de arruinar a economia soviética. Devido a autodefesa ter sido a prioridade, os cientistas e engenheiros da URSS foram canalizados para o setor militar. Os bens de consumo soviéticos foram, frequentemente, ditos terem sido de baixa qualidade, mas ninguém diz o mesmo sobre os equipamentos militares soviéticos. A razão é clara: Os militares tinham a primazia sobre as melhores mentes e os melhores equipamentos e nunca teve falta de financiamento. Há um ponto subsidiário: armas soviéticas de alta qualidade por um sistema de propriedade e planejamento público, apesar do mito de que tal sistema é incapaz de produzir produtos de alta qualidade (Kotz,2008). A necessidade de canalizar a maior parte e melhores recursos de pesquisa de desenvolvimento para a área militar fez com que os outros setores sofressem, e o crescimento do PIB foi interrompido. Por exemplo, os soviéticos fracassaram em seus esforços para aumentar a produção de petróleo, por causa dos metais, máquinas, cientistas e engenheiros necessários para aumentar a produção de óleo que foram enviados para o setor militar (Allen,2003). Metade de produção de máquina- ferramentas produzidas e, pelo menos, metade dos gastos em Pesquisas e desenvolvimento estavam indo para indústria da defesa.

 Outra razão para a desaceleração pós-1975 na economia soviética era que a URSS tinha se ficado enrolada numa armadilha ricardiana (Allen, 2003). A União Soviética tinha uma oferta abundante de todas as matérias-primas de uma economia industrial necessária e, a princípio, eles eram fáceis de alcançar e, portanto, poderiam ser obtidos a baixo custo. Por exemplo, no início dos anos de industrialização da URSS, minas a céu aberto foram escavadas perto de centros industriais. Minerais estavam perto da superfície e poderiam ser transportados em distâncias curtas para fábricas próximas. Portanto, os custos de produção e transporte eram mínimos. No entanto, ao longo do tempo, os minerais que estavam perto da superfície foram escavados para fora e poços tornou-se mais profundo e mais estreito. Em grandes profundidades, a quantidade de minerais que puderam ser extraídos e os custos diminuídos para alcançá-los, aumentaram.

 Eventualmente as minas foram esgotadas, e novas minas tiveram de ser abertas, mas bem longe dos centros industriais, o que significa custos mais elevados para o transporte de matérias- primas para as fábricas. A indústria do petróleo soviético ficou igualmente presa numa armadilha ricardiana. No início da década de 1970, a União Soviética foi perdendo $ 4.6 bilhões de dólares por ano para manter sua indústria petrolífera. Como o petróleo tornou-se mais difícil de alcançar, os soviéticos tinham que ir mais profundamente e através das rochas mais duras. Os custos aumentaram atingindo $6.0 bilhões de dólares até o final da década. No início da década de 1980, os custos haviam subido para $ 9,0 bilhões por ano (Schwizer.1994). Os soviéticos poderiam ter escapado da armadilha ricardiana procurando por importados mais baratos. Porém, isso os teria deixado vulneráveis a problemas de fornecimento. Os Estados Unidos e seus aliados — aqueles que sempre seriam hostis à União Soviética, exceto quando a conveniência ditava alianças temporárias ou abrandamento das tensões, poderiam interditar matérias-primas importantes para URSS para deixar a economia soviética de joelhos ou extorquir concessões. Em outras palavras, dada a elevada probabilidade de que os Estados Unidos iriam explorar oportunidades para colocar a União Soviética em desvantagem, comprando importados mais baratos, em vez de implementar uma política de recursos de autossuficiência, não era uma opção realista.


Conquistas soviéticas no espaço: O primeiro satélite, primeiro animal em órbita, primeiro homem em órbita, primeira mulher em órbita, primeira caminhada espacial, impacto primeira lua, primeira imagem do lado mais distante da Lua, o primeiro não-tripulado lunar aterragem suave, primeiro rover espacial , primeira estação espacial e primeira sonda interplanetária.



 Outra razão de a economia soviética ter desacelerado foi o fato de que os custos para a União Soviética apoiar os seus aliados começaram a alcançar níveis insustentáveis. Uma forma de reforçar a autodefesa é encontrar amigos que partilham o mesmo inimigo, e a União Soviética começou a expandir sua aliança de países amigos, prestando assistência econômica e militar a países e movimentos hostis às forças reacionárias. Ao fazê-lo, tornou-se o banqueiro para os movimentos de libertação nacional, os países socialistas do Leste Europeu, e vários países do Terceiro Mundo, que procuraram escapar e permanecerem livres da dominação dos poderosos estados capitalistas.



 Em 1981, a União Soviética e seus aliados europeus orientais tiveram 96.000 conselheiros econômicos em 75 países e 16.000 conselheiros militares em 34 países, em conjunto com um contingente de 39.000 tropas cubanas na África, um exército que Moscou acabou pagando a conta. Ao mesmo tempo, os soviéticos foram pegar bolsa de estudos para 72.000 estudantes do Terceiro Mundo matriculados em universidades soviéticas e do Leste Europeu (Miliband, 1989). Em 1980, Moscou estava gastando 44 bilhões de dólares por ano com seus aliados (Keeran e Kenny, 2004). Ele deu US $ 4,5 bilhões em ajuda para Varsóvia a partir de agosto de 1980 a agosto 1981 sozinho para ajudar a conter o movimento Solidariedade apoiado pelos EUA (Schweizer, 1994). Enquanto isso, a guerra no Afeganistão estava drenando o tesouro Soviético até a quantia de US $ 3 a US $ 4 bilhões por ano. Em outras palavras, os custos para sustentar aliados tinham crescido enormemente, os custos das matérias-primas foram aumentados, os melhores cientistas, engenheiros e máquinas-ferramentas estavam sendo monopolizado pelos militares e gastos militares estavam consumindo uma grande porcentagem da renda nacional.

 Uma grande parte da situação em que os soviéticos se encontravam deveu-se a uma decisão da administração Reagan que tinha tomado para tentar paralisar a economia soviética. Em Outubro de 1983, o presidente estadunidense Ronald Reagan lançou o que se tornaria conhecido como a Doutrina Reagan ‘‘O objetivo do mundo livre não deve mais ser indicado em negativo, isto é, como resistência ao expansionismo soviético,” disse o presidente dos EUA.  ''o  objetivo do mundo livre deve, em vez disso, ser indicado no positivo. Nós temos de ir para a ofensiva com uma estratégia progressiva para a liberdade''. A guerra começou.

 De modo mais formal, a Doutrina Reagan foi exposta numa série de decisões diretivas de segurança nacional, ou NSDDs (sigla em inglês). NSDD-66 foi anunciado que seria a política dos EUA para perturbar a economia soviética, enquanto que o NSDD-75 comprometeu os EUA a tentar elevar os custos da economia soviética a fim de mergulhar a URSS numa crise. A economia soviética era para ser espremida, e uma das medidas era induzir Moscou a aumentar seu orçamento de defesa (Schmweizer 1994). A alta tecnologia na corrida armamentista, seria a chave.Ela não só forçaria Moscou a desviar mais recursos para o setor militar, mas canalizaria ainda mais cientistas, engenheiros, máquinas-ferramentas  e orçamento para pesquisa e desenvolvimento militar, reduzindo investimentos produtivos e travando a economia civil ainda mais do que a Guerra Fria já havia feito. O objetivo era forçar a União Soviética "a gastar sangue precioso para disputar uma corrida contra um inimigo mais atlético" (Schweizer, 1994), um inimigo que tinha uma economia maior e mais recursos para durar a corrida, porque tinha começado a um nível superior de desenvolvimento e foi saqueando vários países ao redor do mundo de suas riquezas.

 Durante os primeiros seis anos de sua presidência, Reagan mais do que duplicou gastos militares dos EUA, a compra de 3.000 aviões, 3.700 mísseis estratégicos, e perto de 10.000 cisternas (Schweizer, 1994). Para acompanhar, os gastos militares Soviéticos, anteriormente em 12 a 14 por cento do PIB, começou a subir. Já duas vezes maior que o dos Estados Unidos como uma percentagem do rendimento nacional (Silber, 1994) o orçamento de defesa cresceu mais ainda. Os gastos militares aumentaram 45 por cento em cinco anos, superando consideravelmente o crescimento da economia soviética. Em 1990, os soviéticos estavam gastando mais do que 20 por cento do PIB do país em matéria de defesa (Englund, 2011). Ao mesmo tempo, Moscou aumentou seus gastos  militares em pesquisa e desenvolvimento quase duas vezes. Na primavera de 1984, o líder soviético Konstantin Chernenko anunciou que "a complexa situação internacional nos obrigou a desviar uma grande quantidade de recursos para reforçar a segurança do nosso país" (Schweizer, 1994).


A Doutrina Reagan foi posta em prática em uma série de decisões diretivas sobre a segurança nacional, as NSDDs. A NSDD-66 anunciou que seria uma política estadunidense quebrar a economia soviética, enquanto a NSDD-75 comprometeu os Estados Unidos a tentar elevar os custos da economia soviética, a fim de mergulhar a URSS em uma crise.




 Enquanto isso, a administração Reagan tinha tomado uma página do livro de Che Guevara. O revolucionário argentino havia chamado por não um, não dois, mas três Vietnãs, para drenar o Tesouro dos EUA. Voltando a doutrina de Che contra o comunismo, o diretor da CIA Bill Casey chamado por não um, não dois, mas uma meia dúzia de Afeganistãos . Para atolar os soviéticos no "seu próprio Vietnã", os mujahedin afegãos foram regados com dinheiro e armas. Na Polônia, apoio financeiro, inteligência e apoio logístico foram vertidos para o movimento Solidariedade, forçando Moscou a aumentar o apoio ao governo polaco (Schweizer, 1994).

 Os meios de comunicação soviéticos se queixaram de que os Estados Unidos queriam impor "uma corrida armamentista ainda mais ruinosa", acrescentando que Washington esperava que a economia soviética estaria esgotada (Izvestiya, 1986). Ministro soviético das Relações Exteriores,  Andrei Gromyko, reclamou que reforço militar dos Estados Unidos teve como objetivo esgotar os recursos materiais da URSS e forçar Moscou para se render. Gorbachev ecoou Gromyko, dizendo que os cidadãos soviéticos sobre isso,

“Os EUA querem esgotar a União Soviética economicamente através de uma corrida nas armas espaciais mais modernas e caras. O país quer criar vários tipos de dificuldades para a liderança soviética, para destruir os seus planos, inclusive na esfera social, no âmbito da melhoria do nível de vida do nosso povo, assim despertando a insatisfação entre as pessoas com a sua liderança” (Schweizer de 1994 ).


 Em meados da década de 1980, era claro em Washington e Moscou, que a União Soviética estava em apuros. Não era que o sistema de propriedade e planejamento público não estava funcionando. Pelo contrário, reconhecendo as vantagens do sistema soviético, os próprios Estados Unidos haviam emulado para estimular a inovação em sua própria economia. Além disso, a economia soviética ainda estava se expandindo de forma confiável, como tinha feito todos os anos em tempo de paz desde que Stalin tinha trazido sob o controle público, em 1928. No entanto, a defesa do país em face de uma intensificada Guerra Fria estava ameaçando sufocar o crescimento econômico completamente. Ficou claro que as perspectivas de Moscou para manter o ritmo com os Estados Unidos militarmente, e, ao mesmo tempo sustentando aliados sob ataque de insurgentes anticomunistas, estadunidenses alimentando e derrubando movimentos, estavam longe de ser otimista. Os Estados Unidos haviam manobrado a União Soviética em uma armadilha. Se Moscou continuasse a tentar se igualar aos EUA militarmente, isso acabaria por levá-la a falência e sua capacidade de deter os EUA ficaria perdida. Se não se tentou manter o ritmo, já não se poderia deter a agressão estadunidense. Não importa o caminho que Moscou tomou, o resultado seria o mesmo. A única diferença seria o tempo que levaria para o inevitável acontecer.



 Gorbachev escolheu atender o inevitável, mais cedo ou mais tarde. Seu assessor de Relações Exteriores, Anatoly Chernayaev, lembra que foi "um imperativo para a Gorbachev que tivemos que colocar um fim à Guerra Fria, que tivemos que reduzir nosso orçamento militar de forma significativa, que tivemos de limitar nosso complexo industrial militar, de algum jeito "(Schweizer, 1994). A necessidade de frear o orçamento de defesa foi ecoado por outro consultor de Gorbachev, Aleksandr Yokovlev, que mais tarde recorda que "Ficou claro que o nosso gasto militar era enorme e tivemos que reduzi-lo" (Blum, 1995). Gorbachev, portanto, retirou o apoio de aliados e prometeu cooperação com os Estados Unidos. Esta foi uma rendição. A capitulação foi escondida por trás de frases melosas sobre promoção da cooperação internacional e promoção dos valores humanos universais, mas a retórica não escondeu o fato de que Gorbachev estava jogando a toalha. Ele descreveu a rendição como uma vitória para a humanidade, declarando que ele havia evitado "a ameaça de guerra nuclear", terminou a "corrida armamentista nuclear," reduzido "forças armadas convencionais," resolvido "inúmeros conflitos regionais que envolvam a União Soviética e os Estados Unidos ", e substituído" a divisão do continente europeu em campos hostis com ... uma casa comum europeia "(Gorbachev, 2011). Ao reduzir a ameaça de uma guerra nuclear global, Gorbachev tinha realmente conseguido uma vitória para a humanidade. No entanto, a vitória foi provocada por ceder aos Estados Unidos, que agora estava livre para passar por cima países que eram fracos demais para recusar as exigências dos EUA que produzem para a dominação política, militar e econômica.

 Por questões domésticas, Gorbachev-que se identificou com a posição democrático-social, principalmente, do Partido Comunista Italiano (Hobsbawm, 1994) tentou transformar a União Soviética num estilo ocidental de democracia social (Roberts, 1999). Ele citou a necessidade de inverter a desaceleração da economia soviética como sua justificativa para a transição (Gorbachev, 1988). O crescimento econômico certamente tinha abrandado, e realmente havia o perigo de que a continuação do crescimento lento iria ameaçar a posição frente aos rivais capitalistas do seu país. No entanto, a solução de Gorbachev totaliza, "Se você não pode vencê-los, junte-se a eles." O aparato de planejamento, que infalivelmente traçava o percurso para o crescimento incessante em tempo de paz, foi desmantelado, a fim de levar a economia à regulação pelas forças de mercado. Ao invés de impulsionar o crescimento econômico, como Gorbachev esperava, o abandono do planejamento fez exatamente o oposto. A economia caiu de cabeça em um abismo, a partir do qual os países sucessores da URSS não sairiam por anos. Como um engraçadinho colocou, "Stalin encontrou a União Soviética um naufrágio e deixou uma superpotência; Gorbachev achou uma superpotência e deixou um naufrágio. "Gorbachev ainda é muito admirado no Ocidente, mas sua popularidade termina na fronteira com a Rússia.  Em março de 2011, uma pesquisa constatou que apenas um em cada 20 russos admiram o último líder da União Soviética, e que "perestroika", o nome para o movimento de Gorbachev em direção a uma economia de mercado ", tem quase puramente conotações negativas" (Applebaum, 2011).

Gorbachev ainda é largamente admirado no Ocidente, mas sua popularidade para nas fronteiras da Rússia. Uma pesquisa em março de 2011 verificou que apenas um em vinte russos admiram ao último líder da URSS, e que a ''perestroika'', o nome da guinada de Gorbachev para uma economia de mercado, tem na maioria dos casos conotações negativas.


O sistema superior



 Com poucas exceções, o que dizem numa discussão séria sobre URSS está cheio de preconceito, distorção e equívoco. Trancada em batalha com a União Soviética, durante décadas, Washington deliberadamente promoveu equívocos sobre o seu inimigo ideológico. O objetivo era fazer com que a URSS parecesse sombria, brutal, repressiva, economicamente lenta e ineficiente, e não o tipo de lugar que ninguém em sã consciência iria querer imitar ou viver. Hoje, acadêmicos, jornalistas, políticos, funcionários do Estado, e até mesmo alguns comunistas repetem a  velha propaganda da Guerra Fria. A economia soviética, na opinião deles, nunca funcionou muito bem. No entanto, a verdade sobre a questão é que ela funcionou muito bem. Ela cresceu mais rápido ao longo do período que foi de propriedade pública e planejada do que a economia dos EUA, supostamente dinâmica, para não falar das economias dos países que eram tão subdesenvolvidas como a URSS era em 1928, quando a economia soviética foi trazida sob o controle público. A economia soviética era inovadora o suficiente para permitir que a URSS ultrapassasse os Estados Unidos na exploração espacial, apesar de os Estados Unidos "terem mais recursos, um evento que inspirou os estadunidenses a imitar o apoio público da União Soviética para pesquisa e desenvolvimento. Além disso, o sistema soviético de propriedade pública e do planejamento empregava de forma eficiente todos os seus recursos de capital e humano, ao invés de manter exércitos de trabalhadores desempregados e ineficiente funcionando abaixo de sua capacidade, como as economias capitalistas regularmente fazem. Todos os anos, 1928-1989, exceto durante os anos de guerra, a economia soviética se expandido de forma confiável, proporcionando empregos, abrigo e uma grande variedade de serviços públicos de baixo custo ou gratuito para todos, enquanto que as economias capitalistas afundaram regularmente em recessão e que tiveram de  lutar continuamente em meio aos destroços de vidas humanas.

 O Conselho Nacional de Inteligência estadunidense faz um alerta preocupante de que a economia mundial tendente à crise poderia produzir o caos e angústia numa escala ainda maior do que a última crise (Shanker, 2012). Oferecendo um "prognóstico sombrio" sobre a economia mundial, a ONU adverte que "uma nova recessão global que afunda muitos países em um ciclo de austeridade e desemprego durante anos" (Gladstone, 2012). Mas, ao mesmo tempo, somos informados de que a economia soviética nunca funcionou, e que o capitalismo, com suas crises regulares, falha em não promover emprego, comida, roupas e abrigo a todos, é ao mesmo tempo a única opção e o sistema superior. Claramente, não é um sistema superior, ao contrario, é claramente inferior e tampouco a  única opção. Não só podemos fazer melhor, temos feito melhor. É hora de derrubar o muro de equívocos politicamente engendrados sobre a propriedade pública e do planejamento. Por muito tempo, o muro nos impediu de ver um modelo alternativo viável ao capitalismo, cujo histórico de pontos de sucesso inigualável para um futuro realista e possível aos “99 por cento”, um futuro livre de desemprego, recessão, extremos de riqueza e pobreza, e onde bens e serviços essenciais estão disponíveis sem nenhum custo para todos.


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* ''Uma agricultura primitiva, de baixa produtividade (tanto em termos de rendimentos por hectare quanto de produtividade por trabalhador), é incapaz de produzir um excedente de alimentos para atender às necessidades de uma população urbana crescente e de oferecer matérias primas agrícolas necessárias às industriais.'' (SACHS, Ignacy. Desenvolvimento: includente, sustentável, sustentado. Rio de Janeiro: Garamond, 2008, pp.77-78)