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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

''Promessa razoável de pobreza'' ou ''mentira populista'': o dilema do reformismo social-democrata nos países subdesenvolvidos




''Os dois ingredientes inerentes a toda dominação burguesa -- isto é, a violência física e a manipulação ideológica -- não podem ser dosados à vontade em qualquer parte do sistema, pois o índice de predomínio de um ou outro elemento corresponde a uma lei estrita: a do desenvolvimento desigual das contradições do capitalismo.'' 
- Agustín Cueva 
''Desenvolvendo sua economia mercantil, em função do mercado mundial, a América Latina é levada a reproduzir em seu seio as relações de produção que se encontravam na origem da formação desse mercado e que determinavam seu caráter e sua expansão. Mas esse processo foi mercado por uma profunda contradição. Chamada a coadjuvar a acumulação de capital com base na capacidade produtiva do trabalho, nos países centrais, a América Latina teve que fazê-lo mediante uma exploração fundada na superexploração do trabalhador.'' 
- Ruy Mauro Marini
''A luta de classes não é um processo que age em um marco estrutural: a luta de classes é a síntese das condições em que os homens produzem sua existência e se acha, por isso, regida por leis que determinam seu desenvolvimento.'' 
- Idem 


I. Riqueza (ou Economia)

 O nível da capacidade produtiva de riqueza de uma sociedade, como fluxo de bens e serviços que ela é capaz de produzir, é determinada pela sua dotação de meios de produção (meios de trabalho, i. e., máquinas e ferramentas, e objetos de trabalho, i. e., matérias-primas) e força de trabalho, bem como a qualidade dos mesmos, além do conhecimento científico e tecnológico; juntos, tais elementos determinam a produtividade social do trabalho ou produtividade do trabalho social, i. e., o que o trabalho daquela sociedade pode produzir, e o ''produto potencial'', ou seja: o seu nível máximo de produção. A regra é: quanto mais desenvolvidas aquelas forças produtivas sociais, maior a riqueza que pode ser produzida.

 A distribuição dessa produção é determinada pelas instituições desta sociedade. Por exemplo: pelo regime e pela distribuição da propriedade dos meios de produção, legislação sobre remunerações, acordos, impostos e tributos, etc. Trata-se de um processo conflituoso, no qual indivíduos e grupos disputam por uma maior parcela do produto social para si. Para um dado nível de produto, estes indivíduos ou grupos usarão tanto menos a tentativa de convencimento e tanto mais a força quanto maior for a parcela do produto social que desejarem para si.

 Embora a humanidade tenha até hoje, passado por diversos modos de produção social, o que vigora na maior parte do mundo atual é o capitalismo. Neste, uma reduzida parte da população detém os meios de produção como propriedade privada e/ou ativos que lhes fornecem rendimentos permitindo-lhes viver consumindo a riqueza (bens e serviços) que foi produzida por aqueles que precisam vender sua força de trabalho por um salário para sobreviver e que são a maior parte da humanidade -- os trabalhadores. A este ''parasitismo'' social, Marx chamou ''exploração'', e notou que ele não é exclusivo do modo de produção capitalista: a escravidão antiga, a servidão, a escravidão de negros e indígenas na modernidade foram todas relações sociais através dos quais uma parte da população, detentora dos meios de produção, extraíam do trabalho dos produtores diretos (escravos ou servos) um trabalho excedente materializado em produto excedente que lhes servia de meio de consumo ou de investimento (isto é, para aumento do aparelho produtivo). O próprio processo produtivo é, portanto, conflituoso, na medida em que a classe social detentora dos meios de produção impõe o esforço produtivo sobre os produtores diretos, os trabalhadores.

 Na economia mundial, diversas sociedades nacionais distintas realizam intercâmbio material, sob a forma social de comércio. Mas tais sociedades não têm forças produtivas homogêneas: alguns países são muito mais dotados de recursos naturais úteis na produção, por exemplo; outros têm ciência e tecnologia muito mais avançados -- e, consequentemente, meios de produção mais eficientes e uma maior produtividade social do trabalho. Historicamente, países europeus e alguns não-europeus, como Canadá, EUA e Japão, concentraram em si forças produtivas altamente desenvolvidas quando comparadas ao resto do mundo; um processo sem dúvida relacionado com a prática do colonialismo e do imperialismo, através do qual a riqueza dos países periféricos era transferida a tais países centrais (pela estrutura de preços do mercado mundial, pela prática financeira dos países centrais, pela participação direta de investidores estrangeiros em nossas economias ou pela pilhagem pura e simples). O fato é: graças a essa sucção de riqueza e a um maior desenvolvimento das forças produtivas, os países centrais apresentam um maior ''bolo de riqueza'' (o produto social) a ser distribuído entre seus habitantes, divididos em classes, extratos de classes etc.

 Os países da periferia mundial, por seu lado, vivem situação bastante diferente. Sua produtividade social do trabalho é bem mais baixa e eles sofrem a transferência de riqueza mencionada anteriormente. Assim, com um produto social por habitante (grosso modo, o PIB per capita) muito menor, as classes proprietárias locais, caso desejem um grau de opulência material similar às suas contrapartes nos países desenvolvidos, precisam concentrar relativamente muito mais renda em suas mãos, e portanto a dominação que exercem sobre os trabalhadores de seus países se dá de forma a empregar a força mais intensa e extensamente que a dominação de classe exercida nos países centrais. Os sistemas políticos de tais países são, também, muito mais fechados à participação e à satisfação das demandas da vasta maioria da população (os trabalhadores), como forma de manter o montante ''adequado'' da riqueza social nas mãos das classes proprietárias. Esses trabalhadores, por outro lado e consequentemente, têm condições de vida profundamente inferior às de seus companheiros de classe nos países centrais: acumulação capitalista de riqueza, aqui, se dá sob a forma de jornadas de trabalho longas e intensas e de salários incapazes de satisfazer as necessidades sociais da classe trabalhadora.

 (Ressalte-se: sob a base de uma condição de vida muito pior para as massas de seus países, garantida pela violência de seus Estados e demais braços armados e por suas democracias restringidas, as classes proprietárias dos países periféricos conseguem uma vida que lhes satisfaz, sem precisar estressar-se com o desenvolvimento econômico nacional e/ou os problemas da concorrência nos mercados dos bens tecnologicamente superiores cuja maior parte do ''valor adicionado'' é pertence aos países centrais. Seu parasitismo social, pouco frutífero para as populações que exploram, é-lhes uma posição cômoda e satisfatória.)

 Se a dominação de classe em nossos países periféricos, subdesenvolvidos, com inferior produtividade social do trabalho e que sofrem transferência de riqueza para os países centrais se dá então de forma muito mais violenta que nos países centrais, os trabalhadores precisam de formas e níveis de organização de classe e ofensiva classista superiores às dos trabalhadores dos países centrais para obter, digamos, o mesmo padrão de bem-estar material (ou, o que é mais factível, um padrão de bem-estar relativamente menor) em termos de poder de consumo e condições de trabalho e de vida, no geral. E isto nos leva a outra discussão.


II. Poder (ou Política)

 Os trabalhadores, produtores diretos da riqueza, sempre reagiram à sua exploração; revoltas de escravos, por exemplo, são conhecidas há milênios. Na atualidade, os trabalhadores, dentre outras formas de organização para resistir à exploração, criaram sindicatos e partidos que, ao menos a priori, deveriam lutar pelo interesse de suas categorias e/ou classe. Uma grande contribuição para essa organização sem dúvida se deu com a obra de Karl Marx, o qual produziu uma obra que ainda é a maior referência intelectual para a compreensão do modo de produção capitalista. Essa obra, entretanto, também inclui a orientação política de que a classe trabalhadora -- os proletários, explorados em todo o mundo -- deveriam, para libertar-se (e à humanidade) da exploração e da pobreza, transformar revolucionariamente o mundo, tomando o poder do Estado e estabelecendo uma ditadura de classe -- a ditadura do proletariado -- contra as classes proprietárias, socializando os meios de produção que antes eram propriedade privada e desenvolvendo as forças produtivas para construir o futuro comunista.

 A partir da contribuição de Marx, trabalhadores em todo o mundo organizaram-se com a finalidade de realizar a revolução socialista em seus países e continentes. Mas nem todas as organizações supostamente proletárias ou de inspiração dita marxista afirmaram ou afirmam o objetivo de realizar a transição para o modo superior, comunista, de produção, e de fazê-lo através da revolução socialista. Uma parte considerável delas, na verdade, assumiu-se como reformista, isto é: negou a necessidade da revolução socialista e declarou sua submissão aos sistemas eleitorais nacionais. As eleições, e não o conflito violento contra a classe proprietária e seus braços armados, dizem, seriam o canal através dos quais tais organizações melhorariam as condições de vida dos trabalhadores. Não á violência, mas sim a busca pacífica pelo consentimento da população! Estas organizações, particularmente no século XX, ficaram conhecidas como social-democratas, defensoras de um Estado de Bem-Estar Social que foi praticado nos países centrais (mais intensamente na Europa que nos EUA) durante o que ficou conhecido como a Era de Ouro (1945-1970).

 Todavia, se nos países centrais, ricos, como dissemos, a organização e atuação dos trabalhadores sob um horizonte reformista pode render às suas classes trabalhadoras ganhos de bem-estar consideráveis, a depender de certas condições, nos países periféricos -- onde, como dissemos, o conflito distributivo é muito mais acirrado e a dominação de classe exige muito mais violência e restrições à democracia --  o reformismo social-democrata, ao condenar e rejeitar a organização revolucionária dos trabalhadores, só pode ser duas coisas: uma promessa razoável ('reasonable'), ''aceitável'', de pobreza, haja visto que nega aos trabalhadores a forma suprema de pressionar a classe dominante e retirar de suas mãos a riqueza que nelas se concentra, ou uma ''mentira populista'', i. e., uma promessa, feita aos trabalhadores, de que sua vida irá melhorar consideravelmente -- quiçá se equiparar ao nível daquela dos habitantes dos países centrais! -- através da atuação de governos eleitos periodicamente.

 Em ambos os casos, têm-se uma atitude que um marxista não pode julgar senão como indigna perante os trabalhadores dos países subdesenvolvidos: prometer e entregar a eles migalhas, quando podem conquistar um mundo, ou enganá-los pura e simplesmente e ainda mantê-los sob as terríveis condições de pobreza e exploração em que se encontram.

 Poder-se-ia argumentar, porém, que um governo reformista social-democrata poderia ser promover o desenvolvimento acelerado das forças produtivas e, assim, garantir que as condições de disputa pela riqueza socialmente produzida permitissem um grau cada vez mais alto de ''civilidade''. Caso os trabalhadores preferissem as virtudes da ''paz'' social a uma vinda mais rápida, porém ao custo de um conflito de classe mais violento, dos benefícios de uma maior parcela na riqueza socialmente produzida e tivessem paciência, a estratégia revolucionária socialista seria portanto dispensável.

 A resposta comunista revolucionária a esse discurso é que, dentre outras coisas, a suposta ''paz'' social já faz muitas vítimas entre nossa classe -- vítimas das balas dos braços armados do Estado, vítimas da atenção insuficiente do poder público em termos de provisão de bens e serviços públicos, vítimas da incapacidade de desenvolver seus potenciais devido à pobreza e/ou o excesso de trabalho; que a nossa classe dominante está muito satisfeita com sua condição de classe-piloto de uma economia nacional subdesenvolvida e precária, não desejando os estresses e cuidados necessariamente ligados com o processo de desenvolvimento econômico; que foi uma brutal ditadura capitalista, que empobreceu os trabalhadores, concentrou a renda e perseguiu e matou militantes trabalhistas e socialistas (dentre outros), quem promoveu o desenvolvimento das forças produtivas nacionais sob a forma social capitalista; e, finalmente, que o governo dos trabalhadores pelos trabalhadores e para os trabalhadores, sob o sistema de propriedade socialista dos meios de produção, já provou sua capacidade de desenvolver rapidamente as forças produtivas, como mostra o exemplo da industrialização ultra-rápida realizada pela União Soviética para se preparar para a Segunda Guerra Mundial e possíveis ofensivas das potências imperialistas -- além da possibilidade de realizar mudanças para superar e corrigir os erros presentes nesse modelo histórico.

 Enfim, contra a subordinação do destino da classe trabalhadora, dos explorados de todo o mundo e particularmente dos países subdesenvolvidos da periferia mundial, ao projeto e à liderança dos parasitas exploradores do trabalho alheio, nós, os comunistas, declaramos sem pestanejar: viva à revolução socialista mundial e ao autogoverno dos trabalhadores! 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Sobre capitalismo e socialismo


 Meu objetivo nesse texto é apresentar as razões pelas quais eu sou um animado defensor do projeto socialista, o que passará por uma apresentação resumida da natureza do modo de produção capitalista (do qual o socialismo é uma ''negação'') e uma breve caracterização do socialismo. Espero que apreciem a leitura!



1. A produção capitalista


 A sociedade capitalista, como alguém pode perceber facilmente, não possui nenhum tipo de ''regulação social direta'' da produção. Esta, pelo contrário, é efetivada através de decisões autônomas de produtores formalmente independentes. Como tais produtores não são capazes de produzir tudo aquilo que querem e de que necessitam, tentam obter tais coisas através da permuta de seus produtos: eis o que chamamos de mercado, onde os produtos obterão, além do seu valor de uso (a utilidade que representam para cada consumidor, derivada de suas propriedades materiais), um valor de troca: uma determinada proporção quantitativa pela qual se permuta com outras mercadorias. Através do mercado, os produtores autônomos relacionam seus trabalhos privados, convertem-lhes em trabalho social. Com o desenvolvimento da produção, a troca de produto por produto torna-se um travão, e esse problema é solucionado com a ''eleição'' de uma mercadoria como mercadoria-dinheiro, que servirá de ''equivalente geral'' das mercadorias -- isto é, todas as outras mercadorias serão trocadas por tal mercadoria. Posteriormente, há o surgimento do dinheiro fiduciário, que já não é mercadoria. Assim, o objetivo de cada produtor autônomo torna-se obter, através do mercado, a maior quantidade possível de dinheiro em troca de seus produtos -- porque é o dinheiro que o permitirá obter, no mercado, aquilo que deseja. Desnecessário dizer que a produção (e também o emprego, pois que este consiste na contratação de força-de-trabalho, que nada mais é do que um insumo da produção)  torna-se então quantitativamente limitada pelo ''poder de compra'' existente na sociedade, pois nenhum produtor produzirá (tendo, portanto, custos de produção) acima do nível que crê poder vender (isto é, acima do nível esperado de demanda efetiva).

 É preciso lembrar, porém, algo essencial: a sociedade capitalista não é exatamente composta de ''produtores autônomos'', senão que de classes sociais. Em maior extensão, de duas classes: trabalhadores assalariados e burgueses, sendo aqueles os que, pela não-posse de outra mercadoria, vendem sua força de trabalho -- sua capacidade de trabalhar, sua energia física e mental -- periodicamente, e os últimos aqueles que, por meio do controle dos meios de produção e do emprego de trabalho assalariado (isto é, os instrumentos, máquinas e matérias-primas que, assim como a força de trabalho -- ''mão de obra'' -- são necessários à produção), ampliam o seu capital.

 Mas o que é capital? Bem, dissemos mais acima que o mercado é onde os produtores autônomos relacionam os seus trabalhos privados, corporificados em produtos que se tornam/adquirem a forma de mercadoria, a qual caracteriza-se por ter, ao mesmo tempo, valor de uso e valor de troca. E esse valor de troca nada mais é do que a forma de manifestação do ''valor'', a forma abstrata de riqueza que a riqueza concreta, os bens e os serviços, tomam sob a vigência daquelas relações (sociais) de produção. Mas a existência da propriedade privada dos meios de produção significa que os trabalhadores, os produtores diretos, não têm a posse integral do produto de seu trabalho -- que fica com os proprietários dos meios de produção. Os trabalhadores ficam somente com aquela parte que corresponde aos seus salários, os quais são determinados por um certo nível de subsistência e também pela força sociopolítica relativa da classe trabalhadora -- expressa, por exemplo, na legislação trabalhista. Desta maneira, o tempo de trabalho dos trabalhadores como um todo divide-se em um ''tempo de trabalho necessário'', no qual produzem o valor equivalente ao seus próprios rendimentos (salários) e portanto ao seu consumo, e um ''tempo de trabalho excedente'', na qual produzem -- dã -- valor excedente, o qual é apropriado pelos diversos capitalistas; este valor excedente é o que o que se chama, na teoria marxista, de mais-valia. A apropriação de massas crescentes de mais-valia, transformadas em lucro monetário, transforma os proprietários dos meios de produção em capitalistas: sujeitos que controlam um valor que tornou-se capaz de se reproduzir, de produzir um valor a mais que é posteriormente apropriado por ele.

 É necessário adicionar também que, para os capitalistas, o único custo que há na produção é o custo monetário, o custo em dinheiro, ao passo que o custo real da produção se dá em trabalho: é preciso trabalho para transformar tudo que já não está pronto para ser utilizado como insumo na produção em tal coisa, e é preciso mais trabalho para converter os insumos no produto final. Por isso, os capitalistas particulares não estão exatamente preocupados com a quantidade de trabalho ''cristalizada'' em seus produtos e tampouco os preços dos produtos refletem de maneira direta essas quantidades de trabalho -- de maneira que não existe uma relação direta entre o lucro de cada capitalista individual e o trabalho realizado no processo de produção pelos trabalhadores que ele emprego. Em vez disso, os capitalistas concorrem pelas melhores remunerações, isto é, pelas melhores, portanto maiores taxas de lucro, de maneira que sua concorrência e movimentação entre os diversos ramos de produção tende a gerar uma taxa média/geral de lucro. Com isso, cada capitalista busca obter, na venda, uma renda/receita monetária que, além de cobrir os custos prévios (monetários) de produção, garanta um lucro que corresponda ao lucro médio, à taxa média/geral de lucro multiplicada pela totalidade de seu capital/custos prévios de produção. Assim, sendo, os preços de mercado tendem ao que chamamos de ''preços de produção'': os preços que correspondem à soma do custo total médio (determinado pelos custos prévios -- digamos, o salário real -- e pelos coeficientes técnicos de produção) + o lucro médio.

2. A produção socialista 


 E quanto ao socialismo? Bem, podemos caracterizá-lo com 2 coisas principais:

I) o controle coletivo dos meios de produção, portanto a propriedade social destes, em oposição à propriedade privada;
II) a produção voltada às necessidades socialmente estabelecidas.

A primeira característica implica que não é mais possível ampliar a própria riqueza através da apropriação do trabalho alheio, como acúmulo de capital. Neste caso, o trabalho excedente -- acima do nível necessário para produzir aquilo que será consumido pela população -- pode destinar-se ao outros objetivos que não o consumo de luxo: acumulação de meios de produção, construção de escolas, de hospitais etc. A segunda característica implica que, em vez de voltada à multiplicação e acumulação de uma forma fetichista de riqueza -- o dinheiro --, a produção passa a ter, como objetivo direto, a satisfação direta das necessidades socialmente estabelecidas (a qual não é, na sociedade capitalista, mais do que um meio para o acúmulo de capital, de maneira que não raro várias pessoas não têm moradia, educação, atendimento médico ou alimentação nos níveis básicos adequados).

 Desta maneira, surgem como possibilidades de uma possível ''socialização da produção'' no Brasil de agora:

 1) a elevação imediata elevação dos níveis de consumo da maioria da atualmente pobre população (lembremos que 79% dos trabalhadores brasileiros recebem até 3 salários mínimos, e da enorme concentração de renda no país);
 2) concomitantemente a isso, uma redução generalizada da jornada de trabalho (cujo nível dependerá do esforço necessário à produção dos bens de consumo e do excedente);
 3) a alocação de recursos -- melhor dizendo, de força de trabalho e outros insumos -- em ramos de produção de interesse vital para a nação, mas que são relegados na sociedade capitalista em virtude da questão da rentabilidade. Ex. indústria de alta tecnologia;
 4) o aumento do número de artistas e cientistas, dentre outras categorias, na população, uma vez que se garante a satisfação das necessidades básicas de consumo da população e a provisão da educação necessária para tais atividades, por meio do controle social e consciente do excedente econômico;
 5) a abolição do ''desemprego'' e do horror a ele ligado -- não exatamente pela promoção do ''pleno emprego'' à moda keynesiana, mas pelo fato de que a produção é regulada de modo a garantir a satisfação das necessidades de todos, com a contraparte ocorrendo através da regulação do trabalho, o que pode prescindir da necessidade de todos estarem efetivamente envolvidos na produção (como crianças e idosos certamente não estarão). Além disso, as ocupações perdem o caráter de ''emprego'', visto que este supõe um caráter mercantil para a força de trabalho;
 6) Redução dos níveis de produção e, portanto, da poluição, bem como substituição de técnicas produtivas atualmente utilizadas por questão de ''rentabilidade'' por outras que seja mais ecologicamente sustentáveis.

domingo, 9 de outubro de 2016

Marcelo Carcanholo: Límites del progresismo en América Latina y el golpe en Brasil

Que futuro terão os pequenos latino-americanos em meio à reviravolta neoliberal no subcontinente?

Artigo do economista marxista brasileiro Marcelo Dias Carcanholo recentemente (01/10/2016) publicado em documento do CLACSO - Conselho Latino-Americando de Ciências Sociais.



Los gobiernos progresistas en América Latina se presentaron como alternativas al neoliberalismo que se aplicaba de forma contundente en los años 90 del siglo pasado. El neoliberalismo profundizó la condición dependiente de nuestras economías, una vez que incremenó el proceso de transferencia de valor producido en nuestras economías pero apropiado por el capitalismo central.

 ¿Cuales son las alternativas de desarrollo al neoliberalismo, por lo menos en las economías dependientes? La primera es modificar la composición de la forma de apropiacion de la plusvalía producida de forma expandida. Así, reducir las tasas de interés, para niveles por debajo de las tasas de ganancia, incentivaria al capital a apropiarse de la plusvalía de una forma que garantizaría la reproducción del capital de forma ampliada, con una dinámica de crecimiento sostenido. Esta define lo que se pasó a denominar estrategia neodesarrollista, característica de los gobiernos progresistas que no se propusieron cambios más estructurales, como Argentina y Brasil. Pero, ella constituye una falsa alternativa al neoliberalismo, porque no se proponía revertir las reformas ni disminuir la necesidad de superexplotación del trabajo.

 La otra alternativa, dentro del capitalismo, sería romper con las reformas neoliberales. Esto implica, además de un cambio en la política económica, revertir los procesos de liberalización y apertura de los mercados, retroceder en las privatizaciones, renacionalizando sectores estrategicos de la economía. Esta alternativa, al romper con las reformas neoliberales, reduciria el peso de los mecanismos de transferencia de  valor, disminuyendo la necesidad de elevar la superexplotación de la fuerza de trabajo y, por tanto, posibilitando una redistribución de los ingresos y de la riqueza. Esta redistribución, a su parte, aún contribuiria para la creación/ampliación de un mercado interno, necesario para compensar la reducción del mercado externo (via exportaciones) como patrón de acumulación de las economías dependientes.

 En términos de economía política, lo que esta alternativa promueve es una contraposición extremadamente radical con intereses internos y externos de clases y franjas de clases que se benefician del actual patrón de acumulación del capitalismo dependiente. Esto implicaría una fuerte reacción de esos sectores, tanto económica como política, lo que exigiría de los campos alternativos  y críticos una fuerza política constituida para enfrentar la reacción, una base popular fuerte  y consciente; en síntesis, una acumulación de fuerzas y conciencia para enfrentar la lucha de clases que eso provocaría. Esta alternativa más estructural puede caracterizar los procesos del progresismo en países como Venezuela, Bolivia y Ecuador, sin desconsiderar todas las diferencias, contradicciones y matices de cada uno de ellos. Lo que importa marcar es que más allá de la radicalidad en su enfrentamiento al neoliberalismo, los gobiernos progresistas se apoyaron en un escenario externo favorable de la economía mundial, donde los precios de las commodities exportadas por estas economías subieron demasiado, al mismo tiempo en que las cantidades exportadas elevaban sus volúmenes. La expansión de las exportaciones y la fuerte entrada de capitales permitió fuentes de financiamiento para el crecimiento y para alguna redistribución de los ingresos generados, además de políticas sociales compensatorias y focalizadas. Pero, con la crisis de la economía mundial que estalla en el 2007, ese escenario externo favorable se hunde. El requisito para una política de conciliación de clase es que abunden los recursos. Cuando estos recursos escasean los gobiernos son obligados a elegir con cual clase social se quedan. Suele ser, en el capitalismo, que se mantiene la base con la clase capitalista. Es el fin del progresismo.

 El golpe que ocurrió recientemente en Brasil es ilustrativo de las disyuntivas en la región. De hecho, el ajuste y las reformas neoliberales ya estaban planteadas en Brasil, durante el gobierno Dilma, por lo menos desde el 2012. La retomada del neoliberalismo más duro es, por lo tanto, anterior al golpe. ¿Si es así, por qué entonces los sectores más reaccionarios del país implementaron el golpe? En esto hay varios elementos, de los cuales destacamos dos. Por un lado, se requiere una nueva ronda de privatizaciones y el grupo en el poder que las maneje puede orientar quienes serán los nuevos propietarios de esos espacios de valorización. Por otro lado, la revancha conservadora, en el momento en que la economía demuestre señales de recuperación, no está más dispuesta a conceder ningún tipo de conciliación de clase, de redistribución del crecimiento, por menor que sea, como lo fue durante los gobiernos del PT. El neoliberalismo, en esta etapa, no desea ningún tinte reformista. Es el fin del progresismo, incluso como posibilidad.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O socialismo será chato?



 O texto abaixo é o capítulo 10 do livro ''Socialism... serisouly - A brief guied to human liberation'', do jornalista, ativista e comediante Danny Katch. Ele foi publicado no sítio jacobin.mag, mas parece estar inacessível em território brasileiro (e pelo que pude verificar, igualmente em território lusitano), ou melhor: só é possível acessá-lo se se tiver uma conta em Jacobin. Estou-o traduzindo e realizando uma adaptação, que desejo publicar em breve aqui no blog, mas gostaria de publicá-lo já agora no blog -- ainda na língua inglesa -- para compartilhar com os camaradas. 




The year was 2081, and everybody was finally equal. They weren’t only equal before God and the law. They were equal every which way. Nobody was smarter than anybody else. Nobody was better looking than anybody else. Nobody was stronger or quicker than anybody else. All this equality was due to the 211th, 212th, and 213th Amendments to the Constitution, and to the unceasing vigilance of agents of the United States Handicapper General.




This is not my version of 2081, but Kurt Vonnegut’s in the opening lines of his “Harrison Bergeron,” a short story about a future in which everyone is the same. Attractive people are forced to wear masks, smart people have earpieces that regularly distract their thoughts with loud noises, and so on.



As one would expect with Vonnegut, there are some darkly hilarious moments — such as a ballet performance in which the dancers are shackled with leg weights — but unlike most of his stories, “Harrison Bergeron” is based on a reactionary premise: equality can only be achieved by reducing the most talented down to the mediocre ranks of the masses.



Socialism has often been portrayed in science fiction in these types of gray dystopian terms, which reflect the ambivalence that many artists have toward capitalism. Artists are often repulsed by the anti-human values and commercialized culture of their society, but they are also aware that they have a unique status within it that allows them to express their creative individuality — as long as it sells. They fear that socialism would strip them of that status and reduce them to the level of mere workers, because they are unable to imagine a world that values and encourages the artistic expression of all of its members.



Of course there’s another reason that socialist societies are imagined to be grim and dreary: most of the societies that have called themselves socialist have been grim and dreary. Shortly after the revolutions in Eastern Europe that ended the domination of the Soviet Union, the Rolling Stones played a legendary concert in Prague in which they were welcomed as cultural heroes.



The catch is that this was 1990, Mick and Keith were almost fifty, and it had been years since their most recent hit, a song called “Harlem Shuffle” that is god-awful. Forget about the censored books and the bans on demonstrations. If you want to understand how boring Stalinist society was, watch the video for “Harlem Shuffle” and then think about one of the coolest cities in Europe going out of its mind with joy at the chance to see those guys.



Does it really matter if socialism is boring? Perhaps it seems silly, even offensive, to be concerned about such a trivial matter compared to the horrors that capitalism inflicts all the time. Think about the dangers of increasing hurricanes and wildfires caused by climate change, the trauma of losing your home or your job, or the insecurity of not knowing if the man sitting next to you sees you as a target for date rape. We like watching movies about the end of the world or people facing adversity, but in our actual lives most of us prefer predictability and routine.



Worrying that socialism might be boring can seem like the ultimate “white people problem,” as the Internet likes to say. ''Sure it would be nice to eliminate poverty, war, and racism . . . but what if I get bored?'' 

But it does matter, of course, because we don’t want to live in a society without creativity and excitement, and also because if those things are being stifled then there must be a certain ruling clique or class that is doing the stifling — whether or not they think it’s for our own good. Finally, if socialism is stale and static, it will never be able to replace capitalism, which can accurately be called many nasty things, but boring is not one of them.



Capitalism has revolutionized the world many times over in the past two hundred years and changed how we think, look, communicate, and work. Just in the past few decades, this system adapted quickly and effectively to the global wave of protests and strikes in the ’60s and ’70s: unionized factories were closed and relocated to other corners of the world, the stated role of government was shifted from helping people to helping corporations help people, and finally all these changes and others as well were sold to us as what the protesters had been fighting for all along — a world in which every man, woman, and child is born with the equal right to buy as many smartphones and factory-ripped jeans as they want.



Capitalism can reinvent itself far more quickly than any previous economic order. “Conservation of the old modes of production in unaltered form,” write Marx and Engels in The Communist Manifesto, is “the first condition of existence for all earlier industrial classes. Constant revolutionizing of production, uninterrupted disturbance of all social conditions, everlasting uncertainty and agitation distinguish the capitalist epoch from all earlier ones.” While earlier class societies desperately tried to maintain the status quo, capitalism thrives on overturning it.



The result is a world in constant motion. Yesterday’s factory district is today’s slum is tomorrow’s hipster neighborhood. All that is solid melts into air. That’s another line from the Manifesto and also the name of a wonderful book by Marshall Berman, who writes that to live in modern capitalism is “to find ourselves in an environment that promises us adventure, power, joy, growth, transformation of ourselves and the world — and at the same time, that threatens to destroy everything we have, everything we know, everything we are.”



Yet most of our lives are far from exciting. We work for bosses who want us to be mindless drones. Even when a cool, new invention comes to our workplace, we can count on it to eventually be used to make us do more work in less time, which might arouse the passions of management, but will only fill our days with more drudgery.



Outside of work, it’s the same story. Schools see their primary role as providing “career readiness,” which is an inoffensive phrase that means getting kids prepared to handle the bullshit of work. Even the few hours that are supposed to be our own are mostly spent on laundry, cooking, cleaning, checking homework, and all the other necessary tasks to get ourselves and our families ready for work the next day.



Most of us only experience the excitement of capitalism as something happening somewhere else: new gadgets for rich people, wild parties for celebrities, amazing performances to watch from your couch. On the bright side, at least most of it is better than “Harlem Shuffle.”



Even worse, when we do get to directly touch the excitement, it’s usually because we’re on the business end of it. It’s our jobs being replaced by that incredible new robot, our rent becoming too expensive ever since the beautiful luxury tower was built across the street. Adding insult to injury, we are then told if we complain that we are standing in the way of progress.



The sacrifice of individuals in the name of societal progress is said to be one of the horrors of socialism, a world run by faceless bureaucrats supposedly acting for the common good. But there are plenty of invisible and unelected decision-makers under capitalism, from health insurance officials who don’t know us but can determine whether our surgery is “necessary” to billionaire-funded foundations that declare schools they have never visited to be “failures.”



Socialism also involves plenty of change, upheaval, and even chaos, but this chaos, as Hal Draper might have said, comes from below. During the Russian Revolution, the Bolshevik-led Soviet government removed marriage from the control of the church one month after taking power and allowed couples to get divorced at the request of either partner.



These laws dramatically changed family dynamics and women’s lives, as evidenced by some of the song lyrics that become popular in rural Russian villages:



Time was when my husband used his fists and force. But now he is so tender. For he fears divorce. I no longer fear my husband. If we can’t cooperate, I will take myself to court, and we will separate.



Of course, divorce can be heartbreaking as well as liberating. Revolutions cast everything in a new light, from our leaders to our loved ones, which can be both exciting and excruciating. “Gigantic events,” wrote Trotsky in a 1923 newspaper article, “have descended on the family in its old shape, the war and the revolution. And following them came creeping slowly the underground mole — critical thought, the conscious study and evaluation of family relations and forms of life. No wonder that this process reacts in the most intimate and hence most painful way on family relationships.”



In another article, Trotsky described daily experience in revolutionary Russia as “the process by which everyday life for the working masses is being broken up and formed anew.” Like capitalism, these first steps toward socialism offered both the promise of creation and the threat of destruction, but with the crucial difference that the people Trotsky wrote about were playing an active role in determining how their world was changing.



They were far from having complete control, especially over the mass poverty and illiteracy that the tsar and world war had bequeathed to them. But even in these miserable conditions, the years between the October Revolution and Stalin’s final consolidation of power demonstrated the excitement of a society in which new doors are open to the majority classes for the first time.



There was an explosion of art and culture. Cutting-edge painters and sculptors decorated the public squares of Russian cities with their futurist art. For the record, Lenin hated the futurists, but this didn’t stop the government from funding their journal, Art of the Commune. Ballets and theaters were opened up to mass audiences. Cultural groups and workers’ committees came together to bring art and artistic training into factories. The filmmaker Sergei Eisenstein gained world renown for the groundbreaking technique of his movies depicting the Russian Revolution.



The silly premise of “Harrison Bergeron” was refuted. Socialism didn’t find talented artists to be a threat to “equality” or find a contradiction between appreciating individual artists and opening up the previously elitist art world to the masses of workers and peasants.



The possibilities of socialism that the world glimpsed in Russia for a few years were not a sterile experiment controlled by a handful of theorists but a messy and thrilling creation of tens of millions of people groping toward a different way of running society and treating one another, with all the skills, impediments, and neuroses they had acquired through living under capitalism, in the horrible circumstances of a poor, war-torn country. They screwed up in all sorts of ways, but they also showed that socialism is a real possibility, not a utopian dream that doesn’t fit the needs of real human beings.



And the society they were pointing toward was a place where equality meant not lowering but raising the overall cultural and intellectual level of society. In the many novels, movies, and other artistic renderings of socialism, there is little mention of rising divorce rates and heated debates about art. Most of them imagine societies without conflict, which is why they seem so creepy — including the ones intending to promote socialism.



A similar problem exists inside many protest movements today, in which some activists want to organize movements and meetings around a consensus model, which means that almost everybody present has to agree on a decision for it to get passed. Consensus can sometimes be an effective way to build trust among people who don’t know and trust one another, especially because most people in this supposedly democratic society have almost no experience participating in the democratic process of discussion, debate, and then a majority-rule vote.



When organizers view consensus not only as a temporary tactic but as a model for how society should be run, however, there is a problem. I want to live in a democratic society with conflicts and arguments, where people aren’t afraid to stand up for what they believe in and don’t feel pressured to soften their opinions so that, when a compromise is reached, we can pretend that we all agreed in the first place. If your case for socialism rests on the idea that people will stop getting into arguments and even occasionally acting like jerks, you should probably find another cause.



Socialism isn’t going to be created, Lenin once wrote, with “abstract human material, or with human material specially prepared by us, but with the human material bequeathed to us by capitalism. True, that is no easy matter, but no other approach to this task is serious enough to warrant discussion.”



To be an effective socialist, it is extremely helpful to like human beings. Not humanity as a concept but real, sweaty people. In All That Is Solid Melts into Air, Berman tells a story about Robert Moses, the famous New York City public planner who flattened entire neighborhoods that stood in the way of the exact spots where he envisioned new highways. Moses, a friend once said, “loved the public, but not as people.” He built parks, beaches, and highways for the masses to use, even as he loathed most of the working-class New Yorkers he encountered.



Loving the public but not people is also a feature of elitist socialists, whose faith rests more on five-year development plans, utopian blueprints, or winning future elections than on the wonders that hundreds of millions can achieve when they are inspired and liberated. That is why their visions for socialism are so lifeless and unimaginative.



By contrast, Marx, who is often presented as an isolated intellectual, was a rowdy, argumentative, funny, passionate person who once declared that his favorite saying was the maxim: “I am a human being, I consider nothing that is human alien to me.” I find it hard to see how a world run by the majority of human beings, with all of our gloriously and infuriatingly different talents, personalities, madnesses, and passions, could possibly be boring.




sábado, 26 de março de 2016

Crise econômica mundial, movimento social e socialismo

12 teses

por Robert Kurz



1. Segundo a actual “formação de opinião” nos média, na política e na ciência económica, a crise económica mundial já não deve existir. Os discursos de fim de alarme sucedem-se diariamente. Gostaria de se acreditar que, aconteça o que acontecer, dentro de um ano tudo vai pertencer ao passado. Talvez não tenha sido assim tão grave; há que esquecer o grande susto geral nos meses após o colapso do Lehman Brothers e as ondas de choque que se lhe seguiram. Ao mesmo tempo, tem de se admitir que o novo crescimento esperado após o colapso global começa a um nível muito mais baixo; levaria muitos anos até se chegar outra vez ao nível de acumulação de antes da crise. As consequências disto raramente são discutidas. Nesta situação, é apropriado pôr em evidência a base epistémica para a "formação de opinião". Base que é constituída por um pensamento positivista, o qual reconhece apenas factos imediatos, dissociados do seu contexto social mundial e do seu devir histórico. O método consiste numa "projecção" (extrapolação) de dados empíricos isolados e de sondagens de "opinião". Esta forma de abordagem falhou grandiosamente no passado recente. Ainda no início do Verão de 2008 se extrapolava com optimismo profissional o suposto crescimento da economia mundial até 2020. Aparentemente, a crise desabou do céu limpo. Podemos, pois, concluir que a percepção e a metodologia positivistas não podem dizer nada sobre o desenvolvimento real. O que também se aplica ao actual discurso de fim de alarme. Se a maioria da esquerda académica e política nem sequer conseguiu prever a crise económica mundial, isso indica que ela já há muito tempo adaptou momentos do pensamento positivista e que está pouco a par da teoria da crise.


2. Um componente importante da actual formação de opinião positiva é a esperança de uma dinâmica de acumulação na Ásia (sobretudo na China), pela qual agora a economia mundial há-de ser impulsionada. Ignora-se aqui a estrutura dessa dinâmica. O crescimento record da China na primeira década do século XXI baseou-se 60 por cento nas exportações, especialmente para os Estados Unidos. Em contrapartida, o crescimento nos Estados Unidos baseou-se 70 por cento no consumo. Tratava-se de uma conjuntura económica de deficit unilateral no Pacífico, pela qual foi impulsionado o crescimento global. Este volante paralisou. Embora a quebra do consumo nos Estados Unidos ainda não esteja plenamente consumada, as exportações chinesas nos três primeiros trimestres de 2009 caíram 25 por cento. Nada indica que a China possa alternar para um consumo interno, susceptível de compensar esta diminuição quantitativa ainda que aproximadamente, ou até mesmo de trazer uma dinâmica de crescimento global. O consumo alargado da classe média chinesa era apenas o produto residual do fluxo das exportações de sentido único. A crise do crescimento da China tem sido compensada nos últimos meses apenas por um gigantesco plano público de recuperação económica, que vai numa pequena parte para o consumo e na maior parte para investimentos em infra-estruturas (aeroportos e portos, estradas e ferrovias etc.) bem como para a especulação imobiliária. Este programa é financiado a crédito pelo Estado e pelos privados, com a particularidade de os bancos serem forçados a assumir todo o risco, contra a sua racionalidade empresarial própria, ao contrário do que acontece no Ocidente. Supõe-se que a conjuntura económica de deficit unilateral do Pacífico voltará a subir e que o nível anterior voltará a ser rapidamente atingido e ultrapassado. Mas isso é extremamente improvável. Ora, se essa expectativa não ocorrer, revelar-se-ão como ruínas de investimento não só os actuais programas de infra-estruturas, mas também as capacidades excedentárias construídas por módulos nas zonas económicas de exportação. Então também a China será apanhada pelo megacrash financeiro, apenas com algum atraso. Também neste aspecto se pode observar que grande parte da esquerda se entrega à mesma ingénua expectativa que a opinião pública burguesa, sem conseguir apresentar um fundamento analítico para tal.


3. Não só na China, mas em todo o mundo a suposta recuperação dos últimos meses baseou-se exclusivamente em programas públicos de apoio à conjuntura económica, ou seja, afinal, em consumo público financiado a crédito. Estes programas podem ser facilmente operados com as capacidades construídas durante a conjuntura de deficit. Eles não requerem novos investimentos do capital privado, pois as capacidades existentes continuam altamente subutilizadas, apesar destes programas. É de esperar, pelo contrário, uma pressão para a redução do excesso de capacidades instaladas em todas as áreas-chave. Por tudo isto os programas conjunturais não dão qualquer ajuda para o muito invocado crescimento auto-sustentado. Para tanto seria necessária uma conjuntura de investimento privado para a qual não existem quaisquer bases. O inflado consumo público, cujo financiamento é alimentado directamente na área monetária, contém no entanto um enorme potencial inflacionário, se tiver que substituir a longo prazo a acumulação autónoma de capital. No dilema do crescimento forçado não mais viável, os Estados aceitam uma inflação galopante, com o objectivo de aguentar a conjuntura bem artificialmente por algum tempo e desendividar-se depois via inflação. Mas isso iria acabar por ter, uma vez mais, consequências devastadoras para a própria acumulação de capital. E mais uma vez é de notar que boa parte da esquerda, tal como da opinião pública burguesa inclinada para a opinião formada pela esquerda, gostaria de considerar o Estado com capacidades superiores, como deus ex machina e lender of last resort (financiador de última instância), sem terem pensado suficientemente esta opção e as suas consequências.


4. Uma análise puramente fenomenológica da crise económica mundial já mostra que as suas causas não estão a ser eliminadas pelas manobras de recuperação até agora adoptadas. Uma análise histórica que vá mais fundo pode demonstrar que estas causas remontam aos anos oitenta do século passado. Depois de se ter esgotado a dinâmica de acumulação fordista do pós-guerra, não se concretizou o esperado potencial de valorização real em novas áreas tecnológicas (tecnologias da informação, biotecnologia etc.). A tentativa de adiar os problemas de valorização em primeiro lugar através do consumo público já então fracassou e resultou em inflação. A política neo-liberal de desregulamentação limitou-se a transferir o problema do crédito público para os mercados financeiros transnacionais. Formaram-se as célebres bolhas financeiras que, durante mais de duas décadas, pareciam gerar uma acumulação virtual insubstancial. Esta acumulação aparente foi acompanhada por uma cerrada cadeia de crises financeiras parciais, em diferentes países, regiões e sectores (da crise da dívida dos países do Terceiro Mundo, passando pelo crash financeiro nos E.U.A. e no Japão no final dos anos oitenta e início dos anos noventa, pela crise das economias dos Tigres Asiáticos, pela crise russa, pela crise bancária escandinava e pela crise da Argentina, até ao crash das dotcom depois da viragem do século), crises que não foram percebidas em sua coerência interna e pareceram susceptíveis de serem dominadas com a maré cheia de dinheiro dos bancos centrais. A nova crise financeira mundial é a primeira global, que já não pode ser contida com os meios habituais. O modelo oficial de explicação resume-se a designar como um "erro histórico" a desregulamentação neoliberal e a reduzir a crise a "excessos" dos banqueiros no céu financeiro os quais, infelizmente, se teriam repercutido na “economia real” saudável. Na verdade, verificou-se exactamente o contrário. Desde os anos noventa ocorreu uma reciclagem das bolhas financeiras na chamada economia real, que alimentou o poder de compra, já sem substância de valor real, para o consumo e o investimento na reprodução capitalista e, desde então, produziu as conjunturas de deficit. O potencial inflacionário deste “keynesianismo do mercado financeiro", foi distribuído pelas zonas monetárias globais e só começou a manifestar-se no auge da conjuntura de deficit (quase 20 por cento na China, esperados seis por cento nos E.U.A.), mas foi ofuscado pelo choque da desvalorização do capital financeiro, para se restabelecer agora com os programas públicos. Porque o padrão de explicação oficial é falso, também a ambicionada re-regulamentação não arranca, tendo sido, pelo contrário, adiada para um tempo imaginário "depois da crise". Não existe qualquer "acumulação real" saudável e a sua dinâmica há muito tempo esgotada já só pode ser prorrogada através de precários programas de simulação, em que as bolhas financeiras possíveis após o choque da desvalorização já não têm força para a reciclagem numa nova conjuntura de deficit, e em que o crédito público já esbarra nos seus limites a curto prazo. Está neste contexto o pior erro de grande parte da esquerda. Mesmo antes do colapso global, os movimentos de crítica da globalização e a esquerda política, numa "crítica reduzida do capitalismo", tinham maioritariamente responsabilizado a especulação financeira pelas manifestações de crise sociais e económicas, pondo assim de pernas para o ar a relação entre causa e efeito. Portanto, não é a esquerda que segue aqui o falso modelo de explicação da opinião pública burguesa; pelo contrário, esta é que foi buscar o seu modelo de explicação ao mainstream da esquerda.


5. Mesmo a análise histórica da dependência recíproca entre a falta de dinâmica de acumulação real do capital global e a formação de uma economia de bolhas financeiras transnacionais ainda fica limitada às aparências. Uma explicação adequada só é possível com referência à crítica da economia política de Marx. Marx analisou a dinâmica histórica do capital e o seu “limite interno” num plano conceptual abstracto. A sua exposição categorial afasta-se do pensamento positivista, porque argumenta no plano da substância do valor insusceptível de reconhecimento empírico imediato, plano que não se confunde com o conceito de criação de valor da economia nacional ou da economia empresarial, em cujas contas não aparece a conexão de quantidades de trabalho abstracto, substância de valor real, ciclos de giro do capital físico e do capital-mercadoria, criação de moeda e sistema de crédito, ou seja, o movimento real só é reproduzido de forma distorcida. A análise categorial de Marx da dinâmica de acumulação mostra a auto-contradição interna do modo de produção capitalista baseada na crescente composição orgânica do capital. A proporção crescente de capital constante (o capital físico "morto", que transmite valor, mas não cria valor) em comparação com o capital variável (a força de trabalho que cria valor e mais-valia) em cada capital-dinheiro aplicado leva à queda tendencial (histórica) da taxa de lucro. Esta expressão relativa da auto-contradição pode ser compensada pelo impacto no conjunto da sociedade de um aumento relativo da mais-valia por força de trabalho (redução do valor desta através do desenvolvimento das forças produtivas), mas só se, ao mesmo tempo, a utilização de capital-dinheiro e, portanto, a aplicação de força de trabalho aumentar em conformidade e levar a uma massa de lucro crescente, apesar da queda da taxa de lucro. Aqui também se faz notar a auto-contradição, na medida em que os custos prévios sempre crescentes do capital físico já não podem ser adequadamente financiados pelos lucros do passado, mas obrigam ao recurso também crescente ao sistema de crédito. Deste modo, o capital tem de recorrer cada vez mais à antecipação da mais-valia futura, para manter em funcionamento a produção de mais-valia actual. Daqui se pode concluir por um limite interno histórico da valorização, se o uso adicional de força de trabalho, mesmo com aplicação crescente de capital-dinheiro, já não tem sucesso suficiente, e se as cadeias de crédito por antecipação do futuro distante se rompem, caindo também assim a massa do lucro. O desenvolvimento na base da terceira revolução industrial desde a década de oitenta pode ser explicado neste sentido, ainda que, pelas razões apresentadas acima, não exista nenhuma evidência empírica, em termos de uma extrapolação positivista. Trata-se, porém, do "poder de abstracção" conceptual (Marx), para explicar os fenómenos reais, em vez de percebê-los como factos descontextualizados, que se possam interpretar arbitrariamente. As insuficiências apontadas de grande parte da esquerda podem ser atribuídas em última instância ao facto de se ter recorrido à teoria de Marx apenas de modo fragmentário. O nível categorial, na medida em que foi sequer tematizado, foi curto-circuitado com diagnósticos positivistas, pressupondo a eterna capacidade de produção de mais-valia relativa e de expansão do capital.


6. O cerne do problema é a categoria do trabalho abstracto, que é definida por Marx de modo claramente negativo, mas foi ligada a uma ontologia do trabalho positiva no marxismo tradicional. Deste modo, "o trabalho" não surgia como abstracção real especificamente capitalista, mas a substância do capital, que é o trabalho, surgia ao mesmo tempo como eterna condição humana. Sendo assim, o trabalho seria naturalmente inesgotável. Isso significava, para a teoria de crise, que era impensável um limite interno da própria substância da valorização, sendo a crise definida apenas ao nível das metamorfoses e desproporcionalidades na circulação do capital; nomeadamente como a chamada "crise de limpeza", que apenas repõe o equilíbrio perturbado da reprodução capitalista. Também a nova crise económica mundial assim é percebida, e aqui se baseia em última análise a sintonia com o horizonte de expectativa burguês. Daqui resulta também uma opção de acção que apenas pretende assumir influência sobre a reestruturação do processo de acumulação, pressupondo já este e excluindo à partida a possibilidade do seu esgotamento histórico.


7. Assim, a esquerda encontra-se numa sintonia com a consciência das massas absolutamente equivocada e insustentável na realidade, consciência esta que permanece passiva e sem força de mobilização. A internalização das categorias capitalistas como condições de vida inquestionáveis já fez um longo percurso. O movimento operário clássico, na fixação dos seus objectivos, manteve-se no terreno da forma de ser capitalista, e fez da substância deste ser, que é o trabalho abstracto, a base da sua legitimação. Mas esta auto-legitimação rompeu-se na terceira revolução industrial. O recuo global da classe operária criadora de mais-valia é apenas o reverso da crise substancial do capital. Os sectores de exportação chineses não constituem qualquer contraprova quantitativa, porque não têm como ponto de partida qualquer produção real de mais-valia, mas foram gerados apenas pelas bolhas financeiras, a partir dos anos noventa. Portanto, a invocação de uma “consciência de classe” baseada na criação de mais-valia real roda em falso. O "trabalho" perdeu a sua pretensa segurança ontológica. Ele está desmoralizado; e tanto relativamente à quantidade produtiva de capital em desaparecimento, como também por causa do seu carácter cada vez mais destrutivo e já não fundado nos conteúdos das necessidades vitais, e ainda por causa da sua precarização. Uma expressão dessa desmoralização é que o slogan oficial "qualquer emprego é melhor do que nada" está, ele próprio, inscrito na consciência das massas por força da ontologia do trabalho. Daqui deriva a esperança desesperadamente reduzida apenas a que a reanimação da dinâmica de acumulação possa ainda trazer melhorias. Assim se explica também a força eleitoral dos partidos liberais-conservadores até no núcleo remanescente da força de trabalho efectiva, e mesmo entre a população desempregada e supérflua.


8. Contramovimentos capazes de intervenção com o tradicional potencial de greve já só existem para os interesses particulares em posições-chave (maquinistas dos caminhos de ferro, controladores de tráfego aéreo), ficando pelo caminho os outros, como representantes de lobbys fracos (produtores de leite). Os movimentos de protesto com motivação de esquerda, com a sua crítica truncada do capitalismo, não vão além de acções simbólicas, com carácter de evento. Por outro lado, a orientação estatista da esquerda política corre o risco vir a dar na partilha da administração capitalista da crise (Linkspartei [Partido da Esquerda], em Berlim e noutros lugares). A tendência inevitável para o declínio é mais provavelmente digerida em formações ideológicas anti-semitas, racistas e sexistas. Também o feminismo da história recente é triturado pelo desenvolvimento da crise, porque o carácter estruturalmente androcêntrico das categorias capitalistas permanece obnubilado e já nem no movimento operário clássico fora objecto de qualquer reflexão. Simultaneamente, as novas classes médias tornadas quantitativamente dominantes sabem que o interesse do seu capital humano qualificado precarizado está dependente de que surja alguma produção de mais-valia real e, perante o desaparecimento desta, está dependente do crédito público e das bolhas financeiras. Por um lado, eles tornam-se assim portadores da crítica truncada do capitalismo reduzida ao capital financeiro; por outro lado, mantêm a esperança precisamente na reanimação deste.


9. Uma resistência generalizada contra a administração da crise, que até agora não está à vista, só é possível se for quebrada até certo ponto a concorrência universal. Sem dúvida que as reivindicações imanentes têm de constituir o ponto de partida. Isso inclui, por exemplo, um salário mínimo legal geral suficiente, um aumento drástico dos valores mínimos das transferências sociais e a paragem das privatizações de serviços públicos, na saúde e noutros campos. Mas, em primeiro lugar, tais reivindicações, dada a situação, já não se conseguem obter nos canais oficiais da política. A orientação estatizante na consciência das massas, tal como na esquerda, constitui um travão nesta questão, porque desta forma o problema é delegado no Estado. Seria necessário, em vez disso, um movimento social de massas já não meramente simbólico, com vontade e capacidade de paralisar a empresa capitalista mesmo na crise. Em segundo lugar, e verdadeiramente decisivo, tal movimento não pode mais ficar dependente do critério da capacidade de financiamento capitalista, o qual pressupõe uma acumulação de capital com êxito. Ele tem de explicar que os interesses vitais são inegociáveis e assumir-se conscientemente como "não responsável" perante o critério sistémico da financiabilidade. Se, de qualquer modo, o resultado da política da administração da crise é a inflação, só assim se pode conseguir capacidade de acção. Isto é condição para se perceber que a política tradicional de reforma com base na acumulação de capital, ou invocando o seu sucesso ("participação no êxito do crescimento"), se tornou obsoleta e, não por acaso, virou em contra-reformas socialmente repressivas. Assim fica excluída também uma política de esquerda como parteira e equipa reformadora de uma acumulação de capital reestruturada. Só pode tratar-se de um movimento de transição, que desenvolva uma nova consciência da inconsistência das condições capitalistas de vida e pretenda ir para além delas.


10. Assim fica também na ordem do dia a reinvenção do socialismo. Na realidade, a ameaça de que nós “também podemos fazer diferente" e lutar por uma sociedade para além do capitalismo foi sempre o catalisador e a força penetrante das reivindicações imanentes. No passado, uma crise económica mundial da dimensão da actual teria sido inevitavelmente motivo de actualização da passagem para o socialismo. Se esse objectivo, hoje, parece inconcebível para a maioria da esquerda, isso tem a ver, naturalmente, com a queda do socialismo real burocrático de Estado. Esta final foi celebrada mesmo na véspera do carnaval da abertura para a “liberdade”, cuja inverdade a esquerda não quer reconhecer. Já na ideologia do movimento operário clássico e, por maioria de razão, sob as coerções da "modernização atrasada", na periferia do mercado mundial, o conceito de socialismo se reduziu à nacionalização das categorias capitalistas, em vez de fixar como objectivo a sua abolição. O fracasso desta redução historicamente condicionada, porém, não foi processado criticamente, mas sim afirmativamente. Agora envergonha-se esta "chegada" ao capitalismo, cujos critérios (como a independência das “empresas”, as concessões à concorrência, a "liberdade” de formação de preços etc.) já tinham sido objecto de reformas no socialismo real e, muito antes do fim desta formação, já há muito tempo se tinham tornado paradigma do carácter inultrapassável das categorias capitalistas entre a esquerda ocidental.


11. Portanto, a orientação estatista da esquerda também não tem nada a ver com o objectivo historicamente falhado de um Estado dos trabalhadores, na base do trabalho abstracto ontologizado; pelo contrário, a esquerda está completamente obstinada com o Estado actual, tal como já antes o fizera a social-democracia nos anos vinte do século passado, para acabar aterrando em Godesberg e depois, com Schröder, no plano Hartz IV. O que resta é, por um lado, um keynesianismo de esquerda enfeitado com um pseudo-marxismo, que nunca passou de um “pacote de salvamento” ideológico da valorização do capital e que foi posto de parte pelas instituições capitalistas na década de oitenta. Se a sua revitalização é reclamada por partes da esquerda, na alegre esperança de renovação de uma reforma da política, tal não passa de uma ilusão, porque o novo keynesianismo de crise apenas pode executar a administração repressiva da crise e mais não representa que a continuação do neoliberalismo por outros meios. A questão premente do planeamento social dos recursos só aparece de uma forma perversa, como nacionalização da crise. Por outro lado, apresenta-se como complementar do keynesianismo de crise da "esquerda" o programa de uma “economia solidária” que, ultrapassando o contexto da socialização capitalista em estruturas alternativas particulares (pequenas cooperativas, comunas de auto-exploração, ajudas de bairro, hortas de subsistência, moedas alternativas regionais, etc.) propaga a ilusão num modo de vida e de produção “diferente” sobre a terra queimada do capital, programa este que poderá vir a ser assumido pela administração de crise. Outro aspecto das orientações alternativas de vistas curtas consiste em retomar a velha ideia de uma "democratização” empresarial. Mas uma co-gestão sob condições de crise mais não é do que tornar os empregados co-responsáveis pela subsistência na concorrência (fracasso no mercado das empresas ocupadas pelos trabalhadores na Argentina, corte voluntário de salários na Opel e na Arcandor).


12. Todos esses sucedâneos da transformação, ou do socialismo, falham basicamente o problema da "síntese social", feita pela forma geral da reprodução como forma do valor e da mercadoria, a qual só existe por causa da forma de mercadoria da força de trabalho. Um novo conceito de socialismo só pode ser conseguido na medida em que for rompida a internalização das formas de vida capitalistas através da forma de mercadoria da força de trabalho, do trabalho abstracto, da lógica de valorização e da forma de mercadoria da reprodução. Historicamente está na ordem do dia uma auto-administração social, para lá deste contexto social e formal, como planeamento consciente da aplicação dos recursos de toda a sociedade (recursos naturais, tecnologia, conhecimento), já não baseada na contabilização de unidades de trabalho abstracto; incluindo as infra-estruturas e os momentos da reprodução que não assumem a forma de mercadoria e que têm sido delegados nas mulheres. Tal objectivo de transformação socialista que vai mais longe precisa dum período histórico para se estabelecer; mas, simultaneamente, também é um pré-requisito para se poder mobilizar a resistência às restrições da administração de crise. Tal objectivo pode tornar-se compreensível na prática à medida que o decurso da crise económica mundial leve à desactivação de recursos vitais, em proporções nunca vistas, por falta de rentabilidade e de capacidade de concorrência ou de financiamento, apesar de existirem os meios materiais necessários. Se a crítica de esquerda do capitalismo quiser sair do desmoralizado combate de retaguarda e recuperar a ofensiva, ela precisa de quebrar essa casca e saltar por acima da própria sombra histórica.


Original Weltwirtschaftskrise, soziale Bewegung und Sozialismus. 12 Thesen em www.exit-online.org. Comunicação apresentada na Conferência do Fórum Marxista da Saxónia em 14.11.2009

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A mulher trabalhadora

Rosa Luxemburgo (1871-1919) entrou para o movimento revolucionário ainda estudante. Em 1893, colaborou na fundação do Partido Social Democrata Polaco. Entrou para o Partido Social Democrata Alemão em 1898. Em 1907, em Londres, na conferência do Partido Social Democrata Russo, apoiou os bolcheviques contra os mencheviques em todos os problemas mais importantes da Revolução russa. No mesmo ano, no Congresso de Stuttgart da II Internacional, juntamente com Lenin, apresentou a proposta revolucionária contra a guerra e que foi adotada, na essência, pelo Congresso. Após a Revolução de Novembro de 1918 na Alemanha, juntou-se a Karl Liebknecht e fundaram o Partido Comunista Alemão. Seu texto ''A proletária'' (que significa trabalhadora assalariada) foi escrito em 1914, ano da 1ª guerra mundial.


 O dia da trabalhadora assalariada inaugura a semana da Social-Democracia [1]. O partido dos deserdados coloca a sua coluna feminina no front ao partir para a dura luta pela jornada de oito horas, a fim de espalhar a semente do socialismo sobre novas terras. E a igualdade de direitos políticos das mulheres é o primeiro mote que ela levanta, ao se prestar a recrutar novas seguidoras em prol das reivindicações de toda a classe trabalhadora.

 Hoje, a trabalhadora assalariada moderna pisa no palco público tanto como a protagonista da classe trabalhadora quanto, ao mesmo tempo, de todo o gênero feminino, a primeira protagonista em milhares de anos.

 A mulher do povo teve de trabalhar pesado desde sempre. Na horda bárbara ela carrega o peso, coleta alimentos; no povoado primitivo, planta e mói o cereal, faz panelas; na Antiguidade, como escrava, serve os senhores e amamenta os rebentos; na Idade Média, fiava para o senhor feudal. Mas, desde que existe a propriedade privada, na maioria das vezes a mulher do povo trabalha separada da grande oficina na produção social, ou seja, separada também da cultura, encurralada na estreiteza doméstica de uma pobre existência familiar. Foi apenas capitalismo que a arrancou da sua família e a colocou sob o fardo da produção social, empurrou-a para as lavouras de outrem, para as oficinas, construções, escritórios e lojas. Como mulher burguesa, a mulher é uma parasita da sociedade, sua função consiste apenas em auxiliar no consumo dos frutos da exploração; como pequeno-burguesa, ela é o animal de carga da família. E apenas na trabalhadora moderna que a mulher se toma um ser humano, pois é apenas a luta que produz o ser humano, a participação no trabalho cultural, na história da humanidade.

 Para a mulher burguesa proprietária, sua casa é o mundo. Para trabalhadora, todo o mundo é a sua casa, o mundo com o seu sofrimento e sua alegria, com sua atrocidade fria e seu tamanho. A trabalhadora vaga com o trabalhador do túnel que liga a Itália a Suíça, acampa em barracas e seca, enquanto cantarola, a roupa dos bebês ao lado de rochas explodindo. Como trabalhadora sazonal do campo, no início do ano, ela encontra-se no barulho das estações de trem, sentada sobre os seus humildes pertences, um lencinho cobrindo o penteado simples aguarda pacientemente para ser transportada do leste para o oeste No deque do navio a vapor ela se desloca com as ondas que levam a mi séria da crise da Europa para a América, em um amontoado de e idiomas de proletários famintos, para, quando a onda de ref1uxo uma crise americana se fizer presente, retomar para a miséria familiar da Europa, para novas esperanças e decepções, para uma nova caça por trabalho e pão.

 A mulher burguesa não tem nenhum interesse real em direitos políticos pois não exerce uma função econômica na sociedade, pois usufrui dos frutos acabados da dominação de classe. A reivindicação, por igualdade de direitos femininos é, onde ela se manifesta nas mulheres burguesas, mera ideologia de alguns grupos fracos, sem raízes materiais, um fantasma da oposição entre a mulher e o homem, uma esquisitice. Por isso, o caráter anedótico do movimento das sufragistas [2].

 A trabalhadora precisa de direitos políticos, pois exerce a mesma função econômica que o proletário masculino na sociedade, se sacrifica igualmente para o capital, mantém igualmente o Estado, e igualmente sugada e subjugada por ele. Ela tem os mesmos interesses e, precisa, para sua defesa, das mesmas armas. Suas reivindicações políticas estão profundamente enraizadas no abismo social que separa a classe dos explorados da classe dos exploradores; não na oposição entre o homem e a mulher, mas na oposição entre o capital e o trabalho.

 Formalmente, o direito político da mulher insere-se harmonicamente no Estado burguês. O exemplo da Finlândia, dos Estados americanos, de comunidades isoladas, prova que a igualdade de direitos das mulheres ainda não derruba o Estado, não toca na dominação do capital. Mas como o direito político da mulher é, hoje, uma reivindicação de classe puramente proletária, então, para a atual Alemanha capitalista, ele é como o sopro do juízo final. Como a república, como a milícia, como a jornada de oito horas, o direito de voto das mulheres apenas pode vencer ou sucumbir junto com toda a luta de classes do proletariado, apenas pode ser defendido com os métodos proletários de luta e os seus meios de poder.

 Defensoras burguesas dos direitos das mulheres querem adquirir direitos políticos para então tomarem parte na vida política. A mulher trabalhadora apenas pode seguir o caminho da luta trabalhadora, que, inversamente, conquista cada palmo de poder efetivo para, apenas assim, adquirir os direitos escritos. No princípio de toda ascensão social era a ação. As mulheres trabalhadoras precisam fincar pé na vida política por meio de sua participação em todos os domínios, apenas assim e que elas criam um fundamento para os seus direitos. A sociedade dominante lhes recusa o acesso aos templos de seus fóruns deliberativos, outra potência dessa época lhes escancara as portas — o Partido Social-Democrata. Aqui, em fileiras e membros da organização, estende-se diante da mulher trabalhadora um campo incalculável de trabalho político e poder político. Apenas aqui a mulher e um fator no que se refere a igualdade de direitos. Ela é introduzida na oficina da história por meio da social-democracia, e aqui, onde agem forças ciclópicas, ela alcança a igualdade de direitos efetiva, ainda que o direito escrito de uma constituição burguesa lhe seja negado. Aqui, ao lado do homem, a mulher trabalhadora sacode as colunas da ordem social vigente e, antes que esta lhe conceda um direito aparente, ela irá ajudar a pôr em ruínas essa ordem social.

 A oficina do futuro necessita de muitas mãos e de bastante fôlego. Um mundo de lamúria feminina aguarda libertação. A mulher do pequeno camponês suspira à beira do colapso sob o fardo da vida. Ali, na África alemã, no deserto do Kalahari, permanecem os ossos de mulheres Hereros indefesas, que foram levadas pelos soldados alemães a pavorosa morte de fome e sede. Do outro lado do oceano, nos altos rochedos de Putumayo, perdem-se, inaudíveis para o mundo, gritos de morte de mulheres indígenas torturadas nas plantações de borracha de capitalistas internacionais.

 Trabalhadora, a mais pobre dos pobres, a mais injustiçada dos injustiçados, vá a luta pela libertação do gênero das mulheres e do gênero humano do horror da dominação do capital. A social-democracia concedeu a você um lugar de honra. Corra para o front, para a trincheira!

Notas
[1] No ano de 1914 o Dia Internacional da Mulher, 8 de março esteve sob o signo da luta pelo direito de voto e pela igualdade de direitos da mulher. Com esse dia da mulher social-democrata, foi inaugurada a "Semana Vermelha" do partido de 8 a 15 de março de 1914, que serviu à agitação da social-democracia e da sua imprensa. Como resultado, pôde ser registrado um crescimento significativo de membros e de um aumento do número de assinantes da imprensa. (retornar ao texto)

[2] Como "sufragistas" ficaram conhecidas, na Grã-Bretanha, em primeiro lugar, as lutadoras pela igualdade politica de direitos das mulheres e, também, as seguidoras do movimento de direito de voto das mulheres. (retornar ao texto)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A vida em outro planeta

Do blog de Luiz Lima:

 Um álbum da vida no Estado proletário. Há, sem dúvida, as imagens de filas para comprar pão e carne, tão caras aos olhos dos anticomunistas militantes (talvez porque nós nunca tenhamos dado a resposta certa: só havia fila porque o povo tinha dinheiro e o que comprar...). Há um belíssimo exemplo do internacionalismo proletário -- que falta anda fazendo, não? -- no apoio ao povo vietnamita em sua luta pela libertação. Há uma foto emblemática de Leonid Brejnev, o burocrata quintessencial, incapaz de compreender que a URSS teria, mais uma vez, de se reinventar para fazer frente aos desafios de (mais uma) ofensiva do capital. Há, ainda, a dolorosa imagem dos veteranos de guerra, em muletas, penando para levar adiante suas vidas nos corpos mutilados pelo agressor fascista. Há o estudante em seu quarto, inspirado, quem sabe, pelo olhar vigilante de Lenin, na parede. E há crianças. Muitas crianças, às quais se ensinava que o futuro - que nunca chegou - a elas, e aos pequenos de todo o mundo, pertenceria. Um futuro em que a Humanidade seria enfim única -- e livre.

 As fotos são todas familiares -- e ao mesmo tempo parecem irreconhecíveis. São ecos de um mundo distante, não no tempo nem no espaço -- mas no espírito.



domingo, 16 de agosto de 2015

Renascendo das cinzas: o socialismo no século XXI


O artigo abaixo foi escrito por E. J. Hobsbawm, provavelmente o maior historiador do século XX e autor da coletânea das Eras  do século XIX (das revoluções, do capital, dos impérios), além de uma obra sobre a história do século passado e várias outras, como uma história do nacionalismo e do banditismo. Encontra-se no livro organizado por Rubin Blackburn e lançado no Brasil sob o título ''Depois da queda: o fracasso do comunismo e o futuro do socialismo'' (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992). 



 Qual é o futuro do socialismo? Como historiador, meu primeiro instinto, pode-se dizer a minha deformação profissional, é perguntar: qual o seu passado e como esse passado afeta a sua situação presente e suas possibilidades futuras? E esta é uma abordagem plausível, pois o termo, o conceito, o programa, as realizações do socialismo e das políticas socialistas não constituem simples dados objetivos como, por exemplo, a localização de Londres no tio Tâmisa, geograficamente oposta aos Países Baixos, mas sim construções mentais. São nomes, modelos, rótulos que usamos para procurar compreender a situação na qual se encontra a humanidade desde a era das revoluções no final do século XIX e no começo do XX e que damos a certas tentativas de transformar e/ou melhorar a sociedade.

 Inicialmente o termo ''socialismo'' não era um termo político e não conotava nenhuma forma específica da organização da sociedade; diferente do termo mais antigo ''comunismo'', que desde o começo designava basicamente uma sociedade baseada na propriedade coletiva e não-privada, administrada como tal -- e, desde Babeuf, o movimento político para transformá-la em realidade. ''Socialismo'' e ''socialista'' eram simplesmente derivados da palavra ''social'' e significavam pouco além de que o ser humano é por natureza um ser social e sociável. Começou a adquirir algo parecido com o sentido que conhecemos apenas nos anos 30 do século passado*, quando começou a fazer parte do vocabulário social e político, espalhando-se a partir da Grã-Bretanha e da França. É claro que já existia anteriormente sob outros nomes, mas não por muito tempo: chamava-se ''cooperação'' e ''cooperativa'' na Grã-Bretanha ou ''coletivo'' ou ''coletismo'' na França -- mais tarde virou ''coletivismo'' e conhecido por nomes como ''mutualismo''. Temos que fazer duas observações a respeito.

 Em primeiro lugar, o oposto do ''socialismo'' ainda não era o ''capitalismo'' mas sim o ''individualismo''. O que tornou o ''socialismo'' anticapitalista foi simplesmente que parecia lógico, no começo do século XX, afirmar que a essência de uma sociedade individualista era a competição, isto é, o mercado, e consequentemente a base e uma sociedade social(ista) tinha que ser a cooperação e a solidariedade. Isto abria caminho para um variado leque de possibilidades. Qualquer coisa que variava de uma mera modificação do laissez-faire nos interesses da previdência social a colônias inteiramente sem propriedade privada ou dinheiro contava como ''socialismo''. Na Grã-Bretanha, este sentido original do socialismo permaneceu central até o final do século XIX e o surgimento das greves trabalhistas socialistas. Por este motivo os fabianos pensavam que podiam converter o Partido Liberal em socialista sem que ninguém percebesse.

 Em segundo lugar, o socialismo originalmente não tinha quaisquer conotações políticas (aqui novamente diferia do comunismo). Podia ser instituído pelo Estado ou por qualquer outro tipo de autoridade eficaz, mas podia, principalmente, ser estabelecido por comunidades voluntárias; por aquilo que Bernard Shaw chamou de ''socialismo por iniciativa privada''. Isto, aliás, provavelmente explica porque havia mais socialismo -- isto é, mais colônias socialistas -- nos Estados Unidos da década de 1840 que em qualquer outra parte do mundo. Na verdade, até 1880, quando as pessoas pensavam em socialismo pensavam em socialismo dos trabalhadores pensavam no socialismo através de cooperativas voluntárias e outras formas de ação voluntária mútua e coletiva. Foi apenas quando os movimentos trabalhistas, seguindo tanto a tradição jacobina de democracia como os marxistas, adotaram a ação política coletiva que o socialismo se associou à conquista do poder do Estado. Naturalmente o Estado passou a ser o elemento central na construção do socialismo.

 Mas lembrem-se de uma coisa. O objetivo deste exercício era principalmente uma forma particular de organizar a produção, a distribuição e o comércio. Citando um antissocialista inteligente dos anos de 1880, John Rae, era ''no fundo uma exigência de justiça social''. Eis porque, diferente dos construtores de utopias das colônias voluntárias, os novos partidos socialistas e seus pensadores e escritores prestaram surpreendente pouca atenção ao que fariam  uma vez que estivessem no poder -- antes de realmente chegarem lá no final da Primeira Guerra Mundial. Os marxistas de fato recusavam-se a pensar sobre o futuro. ''O partido socialista'', afirmou Kautsky, ''pode fazer propostas positivas apenas para a ordem social existente. Além disso, as sugestões não podem lidar com os fatos, mas originam de suposições; são portanto fantasias e sonhos'' [1]. O teor real do socialismo até 1917-18 era o capitalismo virado de ponta-cabeça: o que era ruim agora seria bom no futuro. Os detalhes não interessavam. Mesmo os que se importavam com os detalhes, como os fabianos britânicos, não pensavam seriamente que uma economia socializada pudesse funcionar. Era apenas óbvio que tinha de funcionar melhor que o capitalismo.

 Durante a maior parte da primeira metade do século XX, o próprio capitalismo parecia dar razão aos socialistas. Entre 1914 e 1950 (aproximadamente), tudo quanto podia dar errado com o capitalismo deu errado. Atravessou duas guerras mundiais e dois surtos de revolução nacional e social que eliminou, ou pelo menos condenou à morte, os grandes impérios coloniais e acabou com um terço da humanidade do sistema capitalista. Os regimes políticos típicos da sociedade burguesa, as democracias liberais, foram depostos em todo o mundo. Em 1940-1 mal sobreviviam fora dos Estados Unidos, uma orla da Europa e das Américas e na Australásia. Acima de tudo, a economia capitalista estava adoecida e quase desabou da pior baixa jamais sofrida, a única que realmente pareceu capaz de levá-la ao colapso total. Qualquer tipo de socialismo tinha que ser melhor que isso. Nada nos é mais óbvio hoje que insuficiência econômica de uma economia de comando primitiva sob planejamento central estatal como a que se proclamava o socialismo na União Soviética. Mas há sessenta anos** políticos e intelectuais formavam filas para ir a Moscou descobrir os segredos do ''planejamento'' que aparentemente tornava os soviéticos imunes ao declínio que devastava seus próprios países.

 Os socialistas, é claro, haviam sido forçados a considerar o que significava concretamente o socialismo, ao invés de considerá-lo apenas um slogan;em 1917, os bolcheviques assumiram o poder e de 1918 em diante os importantes partidos sociais-democratas tornaram-se o governo ou juntaram-se a ele e portanto exigiam políticas reais. Mas, não havendo dado atenção sintomática àquilo que queriam, muito menos a como deveria ser uma sociedade socialista, tiveram que pensar suas políticas a curto prazo ou trabalhá-las sob a pressão dos problemas mais imediatos. Em suma, reagiram a situações específicas. E a maioria dos problemas atuais do socialismo hoje surgiu do fato de que as políticas socialistas elaboradas para enfrentar a situação de crise e colapso capitalista -- aproximadamente de 1914 a 1950 -- não mais se adequam às situações do final do século XX. Ou melhor, nunca determinamos o que é anacrônico e obsoleto nelas e o que não é.

 Referi-me ao ''socialismo'' no singular. Mas após 1917 devemos referir-nos a pelo menos duas vertentes de socialismo, uma que no momento está em colapso ou que já ruiu, isto é, a democracia social e os sistemas comunistas soviéticos ou de inspiração soviética. Os sistema soviéticos são os únicos que realmente alegavam ter implantado economias e sociedades verdadeiramente socialistas. Pelo que conheço, jamais algum governo ou partido social-democrata, não importa quão radical ou duradouro, fez tal alegação e vale lembrar que nem mesmo a União Soviética alegava ter alcançado o socialismo até 1936. Talvez devesse ter esperado um pouco mais...

 O socialismo do tipo soviético era essencialmente dominado por condições nas quais os soviéticos se encontraram depois da Revolução de Outubro: um país pobre e incrivelmente atrasado, cuja única tradição política havia sido a autocracia, faltando-lhe todas as condições conhecidas para o socialismo, totalmente isolado e sob constante ameaça. O desenvolvimento econômico e tecnológico rápido, ou seja, a industrialização vertiginosa, era a principal prioridade. O bolchevismo tornou-se uma ideologia do desenvolvimento econômico rápido para países nos quais não existiam as condições para o desenvolvimento capitalista -- e por algum tempo teve tanto êxito que se tornou um modelo econômico para muitos países no Terceiro Mundo, como a Índia, mesmo para aqueles que não simpatizavam com a sua ditadura cruel. Operava essencialmente como uma economia de guerra, na qual certas prioridades são aceitas como dadas -- como a necessidade de vencer a guerra -- e na qual não se calcula o preço; ou melhor, onde todos os outros objetivos são subordinados a um objetivo principal. Embora a economia de comando centralizada tenha sido, em seu melhor momento, um instrumento pronto, bastante bruto e enormemente desperdiçador, obteve algumas realizações impressionantes. Enquanto agonizava o capitalismo, essas realizações pareciam ainda mais impressionantes do que eram na verdade. O que a economia soviética não conseguiu fazer, como ficou claro, era acompanhar o ritmo do capitalismo,  uma vez que este se recuperou nos anos 50. No que se refere à vida das pessoas comuns, podia fornecer as necessidades básicas -- alimentação, habitação, roupas e lazer em nível muito baixo -- mas não muito além disso. Por outro lado, era muito melhor que o capitalismo no que diz respeito à educação de massa e (até a economia começar a paralisar nos anos 70 ou 80) era muito melhor que outros países do Terceiro Mundo no que dizia respeito à saúde e à previdência social.

   A comparação com uma economia de guerra não é casual. Pois o único modelo real de políticas públicas que tinham os socialistas, que nunca antes haviam pensado o que fariam se estivessem no poder, era uma economia de guerra, começando por aquelas da Primeira Guerra Mundial. Isto não se aplica apenas aos bolcheviques, mas também aos sociais-democratas do Ocidente, pelo menos nos países beligerantes. Pois uma economia de guerra exigia planejamento e administração ou operacionalização pública de grandes partes da economia -- e não menos a mobilização do trabalhismo, preferivelmente com o auxílio de organizações trabalhistas e de algum elemento de previdência pública sistemática. Um resultado desta influência do modelo de guerra -- e a ideia de planejamento de Lênin teve especificamente a economia de guerra alemã como inspiração -- foi a intensificação da propensão socialista em favor da ação estatal centralizada. Quando tanto bolcheviques como sociais-democratas pensavam no socialismo, pensavam quase que exclusivamente no conflito entre prioridades do planejamento estatal e de mercado.

  Se a ideia comunista do socialismo foi determinada pela necessidade de países atrasados chegarem ao crescimento econômico o mais rapidamente possível, qualquer que fosse o custo, as políticas sociais-democratas foram dominadas por outra situação histórica especial, isto é, a recessão do entre-guerras, a crise do capitalismo; mais precisamente, pelo desemprego em massa. Foram influenciados, é claro, por outras preocupações. Além da experiência das economias de guerra, não contestavam a política da democracia eleitoral, porque era ela que permitia e eles transformassem em movimentos de massa; ademais, foram às vezes os principais arquitetos das democracias que eles conquistaram depois de longas agitações e greves gerais na Suécia, Bélgica e na Áustria. Curiosamente, enquanto a social-democracia entusiasticamente aceitou o que veio a ser conhecido como ''estado de bem-estar social'' depois de 1945, não foram eles que o criaram e o estado de bem-estar social não desempenhou nenhum papel relevante em seu pensamento. Na Grã-Bretanha foi elaborado principalmente pelos liberais, na França pelos sociais-católicos e na Alemanha por burocratas socialmente conscientes. A contribuição socialista (ou mesmo comunista ocidental) para seu desenvolvimento veio principalmente por meio do governo local, que autoridades esquerdistas frequentemente controlavam mesmo sob governos nacionais anti-esquerdistas. Daí a importância da habitação popular que se originou com os conselhos socialistas: como em Viena e Londres. E também devemos dizer que a experiência não-socialista ofereceu-lhes modelos de organização econômica socialista (como também foi o caso dos bolcheviques).

 A própria palavra trusts era usada na Rússia soviética para os órgãos que coordenavam todas as fábricas que produziam mercadorias semelhantes. Isto revela a fonte de toda a inspiração: o empreendimento capitalista-monopolista. E não há dúvida de que na Grã-Bretanha o modelo para as nacionalizações do Partido Trabalhista após 1945 não era o ministério governamental, que o capitalismo vitoriano havia usado simplesmente para quaisquer partes da economia que precisavam ser dirigidas publicamente -- em particular os serviços postais --, mas uma corporação pública e de certa forma autônoma. O desemprego em massa, entretanto, foi a chave para a política social-democrata do pós-guerra, como também a política do capitalismo keynesiano e do New Deal que se integrou a ela: seu imperativo político principal era o ''pleno emprego''.

  Esta política de fato teve êxito brilhante, senão do ponto de vista socialista, então do ponto de vista de restaurar a dinâmica de um capitalismo de bem-estar social reformado e baseado no consumo de massa -- tão bem sucedido que o pleno emprego encontrou suas próprias dificuldades nos anos 70 e 80 do século XX, por razões que não nos ocuparão aqui. Quando isto aconteceu, desmoronou o consenso do capitalismo reformista e a democracia social. O neoliberalismo de livre-mercado e a crítica ao estado de bem-estar social ganharam terreno, embora triunfassem apenas em um ou dois países infelizes -- principalmente nos Estados Unidos de Reagan e na Grã-Bretanha de Thatcher. Bem, não foi exatamente um triunfo. Provou ser politicamente impossível, mesmo sob extremistas, liquidar ou mesmo reduzir de forma significativa as despesas com a previdência social. De outro lado, os sociais-democratas encontraram-se sobrecarregados por um conjunto de políticas que sem dúvida não funcionavam tão bem como havia funcionado nos anos dourados de 1950 a 1973. E não tinham nenhum apoio além de Keynes e a nacionalização. A experiência de Miterrand no começo dos anos 1980 foi amarga mas decisiva.

 Assim, tanto comunistas como sociais-democratas descobriram nos anos 70 e 80 que não podiam simplesmente seguir as políticas que eles haviam mais ou menos improvisado ou adaptado após a Primeira Guerra Mundial, por não terem jamais pensado seriamente sobre elas. A história lhes havia dado um impressionante período de sucesso, ou pelo menos de um relativo ou aparente sucesso por algum tempo. Este sucesso havia se extinguido. Pela primeira vez, os socialistas tiveram que pensar sobre o socialismo.

 O que nos tem ensinado a segunda metade do século XX, este período mais revolucionário da história da humanidade? Em 1950 pessoas que viviam da agricultura constituíam a maioria da população mesmo em alguns dos países mais industrializados da atualidade: Japão, Itália e Espanha. Hoje constituem  uma minoria, às vezes uma minoria muito pequena, em quase toda a Europa, no mundo islâmico ocidental e no hemisfério ocidental. Uma era de mudanças tão dramáticas e sem precedentes deve inevitavelmente levar socialistas a rever as suas premissas e expectativas. E tornou-se claro que um número delas não pode ser mantido.

  Primeiro, tornou-se claro que o capitalismo produziu uma abundância de bens e serviços além das expectativas de nossos pais e que a maioria das pessoas comuns no Ocidente goza de um padrão de vida muito além do que se poderia conceber há cinquenta anos. E graças ao estado de bem-estar social, os pobres possuem um abrigo mais amplo contra os ventos do infortúnio. O argumento de que o socialismo é necessário para eliminar a fome e a pobreza já não convence mais. Até mesmo o argumento de que apenas o socialismo poderia acabar com o desemprego em massa, que parecia tão persuasivo quando eu era mais jovem, já não é mais persuasivo. O Ocidente tem vivenciado uma geração de pleno emprego sob o capitalismo e apesar de nos encontrarmos novamente em uma era de desemprego em massa na Europa, não é, de fato, sentido como tão intolerável quanto nos anos 30 e também não há muitos que acreditem que possa ser eliminado por um sistema econômico totalmente diferente. Em suma, o argumento material a favor do socialismo enfraqueceu.

 Segundo, muito do que foi visto como típico de uma economia socialista tem, desde os anos 30, sido cooptado e assimilado por sistemas não-socialistas, principalmente por uma economia planejada e a propriedade estatal ou pública de indústrias e serviços. Isto pode ser surpreende, uma vez que o tema dos últimos dez anos, aproximadamente, tem sido o triunfo do livre mercado, o desmantelamento do Estado e a vitória ideológica do neoliberalismo, mas o fato de os ideólogos e colegas de Thatcher terem estado convictos de que era necessário retornar ao passado demonstra, na verdade, o quanto o tema havia sido promovido na maioria dos Estados capitalistas após a guerra. E, em termos estruturais, não tem sido possível voltar tanto ao passado. O Bando Mundial calculou que de 1980 a 1987, no mundo inteiro, ocorreram poucas mais de 400 privatizações e que metade delas se realizou nem cinco países: Brasil, a Grã-Bretanha de Thatcher, Chile, Itália e Espanha. Se somarmos todas as privatizações nas três maiores economias, os Estados Unidos, o Japão e a Alemanha, somam o total de 14 casos. Em suma, as economias capitalistas que emergiram da Segunda Guerra Mundial e que experimentaram o maior surto de crescimento econômico da história não eram economias de mercado puro, mas economias mistas com substancial setor público e considerável planejamento público. Isto não as transformou em economias socialistas, mas tornou mais difícil dizer exatamente o que eram economias socialistas e como diferiam estruturalmente das economias não-socialistas.

 Suponha, por exemplo, que olhássemos para dois países vizinhos, um que alegava ser socialista e o outro não, a saber, a Hungria e a Áustria nos anos 70 (ou seja, antes da crise na Europa Oriental). Ambos, incidentalmente, eram muito bem sucedidos segundo o padrão de seus sistemas. Na Áustria capitalista, por razões históricas, todos os grandes bancos foram nacionalizados, junto com virtualmente toda a indústria pesada e a produção de energia, bem como uma grande parte dos setores de engenharia, eletricidade, eletrônica e armamentos; ou seja, o que se chamava de ''segmentos de ponta'' da economia. Na Hungria socialista, como sabemos, a economia havia sido substancialmente liberalizada com considerável espaço para o (mínimo) empreendimento não-estatal. Em que lugar, nestes dois casos, devemos traçar a linha entre sistemas capitalistas e socialistas? Ou seja, o critério estrutural do socialismo enfraqueceu.

 Exceto -- e este é meu terceiro ponto -- no tipo soviético de economias dirigidas 100% pelo Estado e com planejamento central. Mas desde os anos 60 tornou-se cada vez mais claro, não menos para seus próprios governos, que este tipo de economia socialista funcionava mal e crescentemente com problemas: e isto porque lhe faltava qualquer critério de racionalidade econômica, isto é, de custos comparativos; sem se fazer referência a coo os consumidores poderiam indicar o que desejavam. Em suma, faltava-lhe o elemento de mercado. Todas as tentativas de reforma desse sistema pretendia introduzir esse elemento. Assim, enquanto as economias capitalistas do pós-guerra introduziram elementos que outrora, antes da guerra, eram vistos como caracteristicamente socialistas, as economias socialistas procuraram introduzir elementos considerados caracteristicamente capitalistas. O Ocidente teve mais êxito que o Leste, mas as distinções simplistas do tipo 8 ou 80 entre os sistemas estavam tornando-se menos nítidas.

 Uma coisa, entretanto, não mudou: tornou-se de fato mais óbvia que anteriormente. Este é meu quarto ponto. Uma coisa é ver o mercado como um guia para a eficiência e eficácia econômica. Ver o mercado como o único mecanismo de distribuição de recursos em uma economia, como veem os fanáticos do reaganismo e do thatcherismo ou o Institute of Economic Affairs e outros centros de pensamento ultracapitalistas, é inteiramente outra. O mercado produz desigualdade tão naturalmente como combustíveis fósseis produzem poluição do ar. E, como há muito tempo ressaltou Adam Smith, existem certas coisas -- essencialmente bens públicos -- que o mercado não produz de forma alguma, uma vez que não trazem lucro a ninguém, ou não tanto quanto se poderia lucrar com outras coisas. Nenhum sistema de transporte moderno, nacional ou de um grande centro urbano, pode ser adequadamente financiado por uma empresa que visa ao lucro, mesmo que esta não chegue a perder dinheiro. Nas ''economias de mercado social'' (segundo a expressão alemã) ou nas economias keynesianas ou influenciadas pela social-democracia ocidental, essas tendências são até certo ponto controladas pela política e pela administração pública. Mas podemos ver o que ocorre quando, nos Estados Unidos de Reagan ou na Grã-Bretanha de Thatcher, é deixada inteiramente nas mãos do mercado a construção de moradias. Somente se constroem casas para os que podem pagar por elas e hoje somam 70000 os sem-tetos em Nova Iorque. Além do mais, sob tais circunstâncias, os ricos tornam-se muito mais ricos e a brecha entre eles e os pobres torna-se constantemente maior. Isto também tem ocorrido visivelmente tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos. Nos países ricos e desenvolvidos as pessoas se consolam com o pensamento de que os que são largados no ralo da sociedade são, afinal, uma minoria de no máximo um terço da população. E eles até mesmo possuem televisão e realmente não morrem de fome. Dois terços estão se ajeitando bem. A terrível palavra ''subclasse'' (underclass) surgiu nos anos 80 para caracterizar as vítimas do mercado. Vivem sob os pavimentos da sociedade respeitável e para vê-los precisamos procurá-los por baixo desses pavimentos -- até que apareçam abertamente como em Nova Iorque, onde não é possível não enxergar um exército de sem-etos revirando as latas de lixo ou não cheirar o odor característico da maior e mais esplêndida cidade do globo, o odor da urina velha daqueles que não têm onde morar senão na rua.

 Poder-se-ia afirmar que tudo isso é um argumento não pelo socialismo, mas a favor de uma economia mista humanizada, variando do mercado social (que é o capitalismo com um pouco de influência social cristã) a Estados sociais-democratas como os escandinavos e a Áustria, que constituem um capitalismo com um pouco mais de influência socialista. Não direi que não. Concordo com John Kenneth Galbraith que ''em um sentido muito real, tanto no Ocidente quanto no Leste, a nossa tarefa é a mesma: buscar um sistema que combine o melhor da ação orientada pelo mercado e a ação socialmente motivada''. E também concordo com ele que não é necessariamente uma questão de princípio básico se uma indústria ou serviço particular seja fornecido por uma empresa pública ou privada. Atualmente, por exemplo, há séria exigência por parte de grandes corporações por algo parecido com o British National Health Service, simplesmente porque o sistema de seguro de saúde particular se tornou incrivelmente burocratizado e absurdamente caro. Mas em alguns outros países europeus, como na França por exemplo, o seguro-saúde patrocinado pelo governo parece funcionar bastante bem.  A questão crucial não é a de detalhes técnicos, mas se um país aceita a obrigação de proporcionar atendimento médico e de saúde adequado para todos os seus cidadãos e de garantir-lhes o acesso a ele.

 Mas não esqueçamos nunca que, enquanto que resultados ruins de mercados podem ser e de fato têm sido até certo ponto  controlados -- com mais e mais êxito em países como a Áustria e a Escandinávia, onde partidos trabalhistas e sociais-democratas têm integrado o governo -- há, no entanto, pelo menos três grandes consequências do desenvolvimento capitalista que escaparam ao controle. Estas nos ajudam a definir a plataforma socialista para o século XXI.

 A primeira é a ecologia. A humanidade atingiu agora o ponto em que pode de fato destruir a biosfera -- a habitação de plantas, animais e humanos no globo -- ou pelo menos mudá-la para pior de formas imprevisíveis e dramáticas. O ''efeito estufa'' é algo com que todos nós temos que aprender a conviver. Isto é o resultado de crescimento econômico desmedido em passo acelerado. É verdade, a teoria socialista sempre foi a favor disto e a prática socialista, especialmente no Leste Europeu, produziu poluição maciça. Mas o capitalismo, diferentemente do socialismo, compromete-se pela sua natureza ao crescimento sem limites. E o crescimento de agora em diante precisa ser controlado de alguma forma. O ''desenvolvimento sustentável'' não pode operar através do mercado, mas contra ele. Não pode funcionar por meio da livre escolha do consumidor, mas através do planejamento e, onde for necessário, contra a livre escolha. Neste momento a Comunidade Europeia decidiu proibir a pesca no Mar do Norte durante uma semana a cada mês para não acabarem os peixes.

 A segunda é a forma terrível com que vêm aumentando a brecha entre os habitantes dos países ricos e desenvolvidos e aqueles de países pobres, com exceção de um ou dois ''países de industrialização recente'' e um punhado de Estados bilionários da OPEP. O ''mundo desenvolvido'', que representava um terço da humanidade em 1900, representa hoje entre 15 e 20 por cento -- aproximadamente o mesmo que em 1750. E enquanto que o mundo desenvolvido em 1900 tinha um PIB aproximadamente três vezes maior per capita  que o resto da humanidade, em 1950 era cinco vezes mais, em 1970 sete vezes mais e -- segundo a Unctad -- em meados dos anos 80, 12 e 1/2 vezes mais. Quanto aos dez por cento dos países mais ricos do mundo, seu PIB per capita é de 58 vezes aquele dos dez por cento mais pobres. Não há nenhum ''efeito cascata'' quando o mundo se torna mais rico. Pelo contrário, sem ação sistemática essa situação explosiva tornar-se-á ainda mais explosiva.

 A terceira é que, ao subordinar a humanidade à economia, o capitalismo mina e corrói as relações entre seres humanos que formam as sociedades e cria um vácuo moral em que nada contra a não ser o desejo do indivíduo, aqui e agora. No topo, homens sacrificam cidades inteiras à lucratividade, como no filme Roger and Me, que demonstra o que aconteceu com a cidade de Flint quando a General Motors fechou suas fábricas. Na base, meninos e adolescentes se matam uns aos outros por seus casacos de pelo de carneiro ou moletons da moda, como ocorre todo dia em Nova Iorque. Porque, percebe-se, os seres humanos não se encaixam no capitalismo. O capitalismo exige um crescimento de produtividade sem fim. Diferentemente das máquinas e de seus produtos, que se tornam cada vez mais eficientes e baratos, os seres humanos permanecem obstinadamente humanos. No melhor dos casos seriam demitidos e substituídos por robôs, como na indústria automobilística. Onde não podem ser substituídos por máquinas, como em hospitais ou nos serviços sociais de maneira geral, eles também têm que ser dispensados porque, diferentemente das máquinas, os seus salários sobem como o de outras pessoas e todos nós sabemos, dos economistas empresariais, que os salários não devem subir mais do que a produtividade. Seria mais simples se não precisássemos deles. Bem, a economia pode sobreviver sem eles a um grau extraordinário, mas eles não desaparecem. Continuam ali. Mas o que acontece com eles?

 Deixe-me dar um exemplo do que acontece com eles: a indústria automobilística americana outrora proporcionava empregos. Trabalhar nas linhas de montagem das fábricas de Henry Ford em Wilson Run ou River Rouge não era muito divertido, mas era bem pago e oferecia uma infinidade de empregos para negros e brancos pobres do sul dos Estados Unidos. Não eram trabalhadores qualificados, não tinham educação, frequentemente talvez não muito inteligentes, mas estavam dispostos a trabalhar e trabalhar na linha de montagem dava-lhes a chance de criar uma família decentemente, com um pouco de auto-respeito e um pouco de dignidade, como cidadãos e como membros da United Auto-workers Union. Hoje a indústria automobilística não precisa mais deles. O único órgão que oferece ao pobre negro americano um trabalho que traga auto-respeito deste tipo é o exército, o que explica por que um terço das tropas no Golfo era de negros. E o que aconteceu com as comunidades abandonadas porque se decidiu que seu trabalho não era mais necessário? Tornaram-se os guetos anárquicos e amargurados, impregnados pelo medo, pelas drogas e pelas armas, onde homens e mulheres vivem da previdência social ou do crime.

 Os socialistas estão aqui para lembrar que em primeiro lugar devem vir as pessoas e não a produção. As pessoas não podem ser sacrificadas. Nem tipos especiais de pessoas -- os espertos, os fortes, os ambiciosos, os belos, aquelas que podem um dia vir a fazer grandes coisas, ou mesmo os aquelas que sentem que seus interesses não estão sendo levados em conta nesta sociedade -- nem qualquer outra. Especialmente aquelas que são apenas pessoas comuns, não muito interessantes, ''apenas para fazer número'', como dizia a mãe de um dos meus amigos. Como diz uma personagem em uma das linhas mais emocionantes de Death of a Salesman, de Arthur Miller, que trata justamente de uma tal pessoa indefinida e relativamente inútil: ''Deve-se prestar atenção. Deve-se prestar atenção a esse tipo de homem''. É delas que trata o socialismo; são elas que o socialismo defende.

 O futuro do socialismo assenta-se no fato de que continua tão necessário quanto antes, embora os argumentos a seu favor já não sejam os mesmos em muitos aspectos. A sua defesa assenta-se no fato de que o capitalismo ainda cria contradições e problemas que não consegue resolver e que gera tanto a desigualdade (que pode ser atenuada através de reformas moderadas) como a desumanidade (que não pode ser atenuada). Se o colapso merecido e miserável de sistemas socialistas do tipo soviético não tivesse ocupado as manchetes em 1989 e 1990, haveria menos propaganda sobre quão maravilhosamente funciona o capitalismo hoje. Não é verdade. Está de volta o mundo de fome e guerra. E mesmo onde não está criando a ruína visível, como em partes da América Latina e da África, não é tudo o que dizem ser. Como disse Galbraith enquanto o Leste europeu ainda era nominalmente socialista: ''É um fato desagradável mas totalmente inegável que ninguém que procure uma vida melhor mudar-se-ia de Berlim Oriental para a área do sul do Bronx''.

 Os problemas do mundo não podem ser resolvidos nem por uma social-democracia -- ou ao menos o tipo de social-democracia existente na Suécia e talvez na Áustria, que ainda está à altura do nome que tem -- ou por uma ''economia de mercado social'' -- o tipo de empreendimento moralizado e socialmente consciente que, se me permito uma previsão, a Igreja Católica favorecerá na próxima encíclica papal deste ano. Pois se nós nos esquecemos, o Santo Papa não se esqueceu que 1991 é o centenário da primeira encíclica social da Igreja, a Rerum Novarum. Estas coisas são melhores que o reaganismo e o thatcherismo, e muito melhor no caso da social-democracia, e provavelmente, na prática, é a melhor aposta para quem acredita no azarão socialista no momento. Mas os problemas do globo que hoje pode tornar-se inabitável pelo mero crescimento exponencial em produção e poluição, sem mencionar a capacidade tecnológica de destruição demonstrada pela guerra do Golfo, e os problemas de um mundo dividido em uma vasta maioria de povos famintos e uma minoria de Estados extraordinariamente ricos, não podem ser resolvidos desta maneira. Mais cedo ou mais tarde exigirão ação sistemática e planejada nacional e internacionalmente e uma investida contra as fortalezas centrais da economia de mercado de consumo. Exigirão não apenas uma sociedade melhor que a do passado, mas, como sempre sustentaram os socialistas, um tipo diferente de sociedade. Uma sociedade que não é apenas capaz de salvar a humanidade de um sistema produtivo que perdeu o controle, mas em que as pessoas possam viver vidas dignas de seres humanos: não apenas no conforto, mas juntas e com dignidade.

 É por esse motivo que o socialismo ainda tem um programa 150 anos após o manifesto de Marx e Engels. É por esse motivo que está no programa.  


[1] The Class Struggle (Erfurt Program), Chicago, 1910, p. 125.

''O futuro do socialismo assenta-se no fato de que continua tão necessário quanto antes, embora os argumentos a seu favor já não sejam os mesmos em muitos aspectos. A sua defesa assenta-se no fato de que o capitalismo ainda cria contradições e problemas que não consegue resolver e que gera tanto a desigualdade (que pode ser atenuada através de reformas moderadas) como a desumanidade (que não pode ser atenuada).'' - E. J. Hobsbawm