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sábado, 13 de junho de 2015

Rumo ao fascismo?


A História revela uma vergonhosa ligação entre a religião e o nazifascismo, a besta da contrarrevolução burguesa nos tempos de crise do capitalismo [1]. 


 A propaganda recente d'O Boticário envolvendo casais (cis-gêneros) homossexuais e a performance da travesti crucificada na Parada LGBT do último domingo em São Paulo suscitaram uma nova onda de debate público sobre liberdade de expressão, direitos civis e, claro, o embate entre religião e a minoria LGBT. No primeiro caso, conhecidos figurões do cenário religioso nacional voltaram com seus tradicionais mimimis sobre o ''apologia ao homossexualismo''; no segundo, os faniquitos se deveram a uma suposta ''intolerância religiosa'' que teria sido praticada no ato de Viviany Beleboni.

 Tudo isso me parece ao mesmo tempo terrivelmente engraçado e terrivelmente angustiante. Engraçado porque demonstra a burrice ou falta de caráter de algumas famosas lideranças religiosas do país, que insistem em afirmar que ''homossexualismo é comportamento e opção do indivíduo'', ignorando o fato simples de que eles mesmos não conseguem lembrar quando foi que optaram por sentir desejo por mulheres (talvez porque nunca o tenham feito...), e que homossexualidade não é comportamento (ou ''ato'', ou ''prática''), mas sim desejo, amor erótico por pessoas do mesmo sexo/gênero. Homossexuais comportam-se de maneiras muito diversas: há gays mais másculos e outros mais efeminados, e lésbicas idem; há aqueles entregues ao amor-livre, há os celibatários; há os extrovertidos e há os tímidos. Há, enfim, uma infinita variedade de comportamentos entre homossexuais (como há entre heterossexuais), exatamente porque a única ligação direta entre essas pessoas é a orientação sexual. Angustiante porque o poder que a bancada parlamentar religiosa (leia-se ''cristã'') está acumulando é tal que pode abalar os alicerces da laicidade de nosso Estado, o que traria uma série de consequências, nenhuma delas boa; e porque o mais recente atentado contra a humanidade projeto dessa bancada é a criminalização da ''cristofobia'', um cavalo de troia que poderá pôr em risco a liberdade de expressão e de livre-pensamento no país como nunca desde o fim da ditadura militar de 1964-1985.

 Os defensores do projeto de criminalização da ''cristofobia'' (segundo eles tão real quanto a homofobia, ou na verdade a única real entre as duas -- ainda que não tenhamos muitas notícias de jovens cristãos sendo expulsos de casa ao revelarem sua religião aos pais ou mesmo de cristãos sendo agredidos e mortos nas ruas por serem cristãos, no Brasil) afirmam que o que Viviany fez foi ''intolerância religiosa'' e um ''profundo desrespeito'' para com o cristianismo, devendo ser penalizado. Mas que intolerância religiosa foi essa? Até onde sei, Viviany não estava impedindo ou proibindo nenhum tipo de culto -- e é exatamente isso que se conhece por intolerância religiosa! Falemos, então, do ''profundo desrespeito'' ao cristianismo. A própria afirmou, em entrevistas, que não tinha a mínima intenção de ''atacar a igreja'', mas  de simbolizar o martírio que a população LGBT sofre em nosso país -- martírio esse cujos dados penso não ser necessário trazer aqui: conhecemos muito bem os casos de agressão física e verbal, expulsão e assassinato contra membros dessa parcela da população, além de coisas como suicídio, evasão escolar e bullying. Mas e se a intenção de Viviany fosse, de fato, ''atacar a Igreja'', criticar o cristianismo? Teria (ou deveria ter) ela esse direito? Para pensar na resposta, talvez seja interessante lermos algumas passagens de livros antigos.

 William Hollowitt, em seu Colonization and Christianity: a popular history of the treatment of the natives by the Europeans in all their colonies (Londres, 1838), diz que

As barbaridades e as implacáveis atrocidades praticadas pelas chamadas nações cristãs, em todas as regiões do mundo e contra todos os povos que elas conseguem submeter, não encontram paralelo em nenhum período da história universal, em nenhuma raça, por mais feroz, ignorante, cruel e cínica que tenha se revelado.

 Bertrand Russel, por sua vez, afirma num artigo intitulado ''Será que a religião capaz de curar nossos problemas?'' (Dagens Nyheter, Estocolmo, novembro de 1954) que

O cristianismo tem se distinguido de outras religiões por sua maior disposição à perseguição. O budismo jamais foi uma religião persecutória. O império dos califas era muito mais gentil para com judeus e cristãos do que os Estados cristãos para com os judeus de maometanos. Não incomodavam os judeus e cristãos, desde que lhe pagassem tributos. O antissemitismo foi promovido pelo cristianismo desde o primeiro instante em que o Império Romano se tornou cristão. O fervor religioso das cruzadas levou a massacres de judeus na Europa Ocidental. Foram cristãos que acusaram Dreyfuss injustamente (...). Em tempos modernos. Em tempos modernos, abominações foram defendidas pelos cristãos, e não apenas quando os judeus eram as vítimas, mas também em outras situações. As abominações do governo do rei Leopoldo no Congo foram escondidas e minimizadas pela Igreja e só tiveram fim devido a agitações causadas principalmente por livres-pensadores. Toda afirmação de que o cristianismo tem exercido influência moral elevada só pode ser mantida pela completa ignorância ou falsificação das evidências históricas.  

 Certamente que não há uma relação de causalidade entre ser cristão e ser um racista pró-colonialismo ou um antissemita doente, ao menos a partir de um certo conceito de cristianismo (as pessoas que creem que Jesus é Deus e o salvador têm ideias bastante diversas sobre ele...); mas tampouco se pode negar que o cristianismo tenha oferecido justificativa para tantas barbáries (nas quais faltaria incluir coisas como as queimas de mulheres acusadas de bruxaria e/ou de ''hereges'', como Giordano Bruno). Isso, por si só, legitima o direito à crítica do cristianismo.

 Engana-se, porém, quem pensa que as causas do direito à crítica do cristianismo (e na verdade de qualquer religião) parem aí. Religiões, como outras formas de ideologia, são conjuntos de ideias sobre como as coisas são (o campo da ciência) e sobre como as coisas devem ser (o campo do direito) -- estas, em boa parte, dependentes daquelas; a realidade objetiva, porém, é uma só (o que invalida aquela máxima de que ''todas as religiões são verdadeiras'', uma verdadeira pérola do relativismo), de forma que se duas pessoas divergem sobre a realidade, e uma delas está certa, a outra TEM de estar errada e, portanto, pode ter suas ideias criticadas por meio do debate científico imparcial. Similar para o direito: as leis que regem nossas vidas individuais e sociais devem estar pautadas na ética e na racionalidade (não exatamente distintas). Não importa com quanto amor e fé se apegue alguém à crença de que o sol gira em torno de nosso planeta (ou que este tem forma plana), sua crença deve ser criticada e falseada, de forma que o conhecimento humano siga progredindo; da mesma forma, se alguém acha que homo/bi/transsexuais devem ser reprimidos, agredidos e talvez mortos, justificando tais opiniões com ideias religiosas, estas devem ser criticadas, uma vez que não são o princípio ideal de referência para a vida coletiva.

 O projeto de criminalização da ''cristofobia'' pode dar margens ao total cerceamento da liberdade de crítica do sistema teológico do cristianismo, assim como a seus postulados morais (o que se estende para as doutrinas das mais diversas igrejas cristãs); é, em suma, um perigoso ataque à liberdade de pensamento da qual o iluminismo, findada uma era de trevas, foi símbolo. É o caminho para a teocracia.

 É claro que, entretanto, como pesquisador marxista, eu não posso deixar de tentar compreender a influência das forças materiais da sociedade no fenômeno do fundamentalismo religioso e da teocracia. Quem são os grandes nomes do fundamentalismo religioso no poder político? Gente como Magno Malta, João Campos e Eduardo Cunha. O primeiro é membro de um partido-fantoche de direita, o segundo é membro do maior partido burguês do país -- conhecido por seu entreguismo privatista e por sua práxis econômica neoliberal -- e ficou famoso por um projeto que tentava dar poderes de competência do Poder Legislativo a Igrejas, e o terceiro é uma raposa velha de nome imundo na justiça, envolvido em corrupção com as empreiteiras, campeão das grandes mídias nacionais, defensor do lobby dos planos de saúde e que pôs em urgência o voto do projeto de criminalização da cristofobia. Lembremos ainda da união da ''bancada religiosa'' com as bancadas ''da bala'' e ''do boi'', duas expressões do grande capital no Brasil.

 Mas por que há essa ligação? Por que o grande capital apoia e encontra apoio no fundamentalismo e no obscurantismo religiosos? A razão é relativamente simples de entender: ideologia. A religião, com seu forte apoio emocional, é capaz de legitimar e proteger as instituições que garantem a manutenção dos privilégios do grande capital, como a propriedade privada. É fácil de imaginar um cristão sentindo aversão a comunistas como o que vos escreve quando lhe é ensinado, por toda a vida, que foi criado por um deus onipotente que ama sua criação e que, entretanto, há um grupo de ''hereges materialistas'' que não creem nele e, ao mesmo tempo, defendem o fim de certas instituições -- que por acaso são as mesmas que garantem os privilégios de certa classe dominante. E mais: não iria ele internalizar que essa divindade é a fonte de toda a moral e a justiça e, portanto, generalizar os ''infiéis'' e ''desobedientes dos desígnios de Deus'' num único grupo, a ser combatido? Não é exatamente isso que os conservadores estão fazendo ao conclamar uma batalha contra ''comunistas-gayzistas-feminazis que querem destruir os valores da família tradicional brasileira''?

 Como disse Eric Hobsbawm em Era dos Extremos (São Paulo: Cia. das Letras, 1995),

 [...] com menos frequência observou-se a considerável ajuda dada após a guerra por pessoas de dentro da Igreja, às vezes em posições importantes, a fugitivos nazistas ou fascistas de vários tipos, inclusive muitos acusados de horripilantes crimes de guerra. O que ligava a Igreja não só a reacionários anacrônicos mas aos fascistas era um ódio comum pelo Iluminismo do século XVIII, pela Revolução Francesa e por tudo o que na sua opinião dela derivava: democracia, liberalismo e, claro, mais marcadamente, o ''comunismo ateu''. 

 Acrescente-se o que falou Paul A. Baran, em sua Economia Política do Desenvolvimento (São Paulo: Nova Cultural, 1986):

 As classes dominantes dos países subdesenvolvidos não poupam energia para aumentar o domínio das superstições religiosas sobre os espíritos das famintas populações desses países. Que importa a tais classes ou aos imperialistas que essas superstições representem grande obstáculo ao progresso? Que importa a eles ou a seus cúmplices ocidentais que o custo da conservação do obscurantismo religioso seja a fome crescente e a multiplicação da morte? (...) A incapacidade do capitalismo de servir como uma estrutura para o progresso econômico e social obriga seus apologistas e políticos a confiar a estabilidade do sistema mais no circo que no pão, mas na arenga ideológica que na razão. 

 A juventude e os trabalhadores como um todo devem compreender que a ascensão do fundamentalismo e do autoritarismo religiosos caminham juntamente com a busca pela busca da manutenção do status quo, da dependência e da sujeição de nosso povo frente às elites locais e estrangeiras, e que o caminho para o progresso e o bem-estar social está na ruptura com o atual modo de produção e na utilização da ética e da racionalidade (não exatamente distintas, como já falei) como referência para nossas atitudes individuais e coletivas, assim como para a legislação. Creio fortemente que nosso povo não é ignorante ao ponto de sentir-se seduzido pelos discursos desses pretensos ''mensageiros de Deus'' (e concretos mensageiros da burguesia), mas, diante dos tristes acontecimentos recentes (e de um medo muito distante, mas ainda sim existente, de que os LGBTs possam repetir por aqui o papel que desempenharam os judeus no desenrolar do nazismo), penso que seja importante reforçar nosso combate pelos ideais da emancipação humana.

 Não às hordas obscuras fascistas! Viva à luz, à razão e à liberdade!



 [1] Sobre a relação do nazismo com a Igreja Católica, ver esse vídeo e esse link; sobre a natureza de classe do nazifascismo, ver esse vídeo.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nietzsche e os sacerdotes



 ''O sacerdote, essa espécie parasitária que existe às custas da toda vida sã, usa o nome de Deus em vão: chama o estado da sociedade humana no qual ele próprio determina o valor de todas as coisas de “o reino de Deus”; chama os meios através dos quais esse estado é alcançado de “vontade de Deus”; com um cinismo glacial, avalia todos povos, todas épocas e todos indivíduos através de seu grau de subserviência ou oposição do poder da ordem sacerdotal. Observemo-lo em serviço: pelas mãos do sacerdócio judaico a grande época de Israel transfigurou-se em uma época de declínio; a Diáspora, com sua longa série de infortúnios, foi transformada em uma punição pela grande época — na qual os sacerdotes ainda não significavam nada. Transformaram, de acordo com suas necessidades, os heróis poderosos e absolutamente livres da história de Israel ou em fanáticos miseráveis e hipócritas, ou em homens totalmente “ímpios”. Reduziram todos grandes acontecimentos à estúpida fórmula: “obedientes ou desobedientes a Deus”. — E foram mais adiante: a “vontade de Deus” (em outras palavras, as condições necessárias para a preservação do poder dos sacerdotes) tinha de ser determinada — e para tal fim necessitavam de uma “revelação”. Dizendo de modo mais claro, uma enorme fraude literária teve de ser perpetrada, “sagradas escrituras” tiveram de ser forjadas — e então, com grandiosa pompa hierática e dias penitência e muita lamentação pelos longos dias de “pecado” agora terminados, foram devidamente publicadas. A “vontade de Deus”, ao que parece, há muito já havia sido estabelecida; o problema foi que a humanidade negligenciou as “sagradas escrituras”… Mas a “vontade de Deus” já havia sido revelada a Moisés… O que ocorreu? Simplesmente isto: os sacerdotes tinham formulado, de uma vez por todas e com a mais estrita meticulosidade, que tributos deveriam ser-lhe pagos, desde o maior até o menor (— não se esquecendo dos mais apetitosos cortes de carne, pois o sacerdote é um grande apreciador de bifes); em suma, ele disse o que desejava ter, qual era a “vontade de Deus”… Desse tempo em diante as coisas se organizam de tal modo que o sacerdote tornou-se indispensável em todos os lugares; em todos os importantes eventos naturais da vida, no nascimento, no casamento, na enfermidade, na morte, para não falar no “sacrifício” (ou seja, na ceia), o sacro-parasita se apresenta para os desnaturalizar — na expressão usada por ele próprio, para “santificá-los”… Para que se entenda isto, é bom salientar o seguinte: que todo hábito natural, toda instituição natural (o Estado, a administração da Justiça, o casamento, os cuidados prestados aos doentes e pobres), tudo que é exigido pelo instinto vital, em suma, tudo que tem valor em si mesmo é reduzido a algo absolutamente imprestável e até transformado no oposto ao que é valoroso pelo o parasitismo dos sacerdotes (ou, se alguém preferir, pela “ordem moral do mundo”). O fato precisa de uma sanção — um poder para criar valores faz-se necessário, e tal poder só pode valorar através da negação da natureza… O sacerdote deprecia e profana a natureza: esse é o preço para que possa existir. — A desobediência a Deus, ou seja, a desobediência ao sacerdote, à lei, agora porta o nome de “pecado”; os meios prescritos para a “reconciliação com Deus” são, é claro, precisamente os que induzem mais eficientemente um indivíduo a sujeitar-se ao sacerdote; apenas ele “salva”. Considerados psicologicamente, os “pecados” são indispensáveis em toda sociedade organizada sobre fundamentos eclesiásticos; são os únicos instrumentos confiáveis de poder; o sacerdote vive do pecado; tem necessidade de que existam “pecadores”… Axioma Supremo: “Deus perdoa a todo aquele que faz penitência” — ou, em outras palavras, a todo aquele que se submete ao sacerdote.''

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Deus está morto?

Por Rafael Trindade, para o blog Razão Inadequada

                   

O Homem Louco – [...] Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmo nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então” (Nietzsche, Gaia Ciência, §125).

Esta talvez seja a frase mais famosa e incompreendida de Nietzsche: “Deus está morto!”. Por que ele disse tais palavras? Para um homem cujo ateísmo era convicto, não fazia sentido anunciar a morte de algo em que não acreditava.

A grande razão para tal declaração tem motivos históricos. Através desta afirmação o filósofo procura condensar o espírito de sua época. Nietzsche faz todo o diagnóstico de sua cultura e denuncia o niilismo de seu tempo. Não interessa se Deus existe ou não, o que Nietzsche afirma é que a influência da religião em nossas vidas é cada vez menor. A igreja, os mitos, as idéias, os ritos, a moral por trás da teologia, tudo isso está desaparecendo. Não temos mais medo de deus, ele é fraco. Não ligamos para as datas religiosas, apenas para o feriado.

Deus está morto como uma verdade eterna, como alguém que controla e conduz o mundo, como um ser bondoso que justifica os acontecimentos. A secularização da civilização prova isso cada vez mais. Deus está morto como um grande ditador divino que exige obediência de seus servos. Ele já não é uma questão importante para se tratar.

A morte dos ideais divinos, o início da morte desta doença chamada cristianismo é uma constatação nietzschiana. O sentido está perdido, a Verdade Eterna está acabada, de agora em diante precisamos encarar o caos do mundo à nossa frente. Todo idealismo e platonismo estão se perdendo. Por isso enfrentamos o grande perigo do niilismo: estamos perdidos sem justificações supra-sensíveis e não sabemos para onde ir.

O primeiro momento da morte de Deus se dá com o niilismo passivo. Não sabemos o que fazer, como proceder, não sabemos mais o que é certo e errado sem um padre ou um livro velho para nos guiar. A falta de referencial externo é desesperador para o homem, ele fica aterrorizado diante do mundo. Passa então a buscar qualquer coisa para se segurar: razão, humanismo, ciência. Deus morreu, mas ainda velamos seu corpo em várias outras práticas que não encontram justificação no próprio mundo, mas em outros lugares. A fé virou razão. Nossa nova religião é o progresso do homem.

A única alternativa frente a esse niilismo passivo é tomarmos as rédeas da situação e fazer deste niilismo um novo modo de vida. “Nietzsche diz que o importante não é a notícia de que deus está morto, mas o tempo que ela leva a dar seus frutos” (Deleuze, Anti-Édipo). É só com a morte de Deus que temos finalmente a chance de criar novos e autênticos valores para nós. Sem ninguém para dizer o que é certo e errado, bem ou mal, temos plena liberdade para decidir por nós mesmos. Adquirimos assim a responsabilidade e a felicidade de sermos autores de nossa própria vida. O niilismo ativo, segundo momento do niilismo, significa que “se o homem não quiser perecer nas dificuldades que o sufocam, será preciso que as desfaça de um só golpe criando os seus próprios valores. A morte de Deus não dá nada por terminado e só pode ser vivida com a condição de preparar uma ressurreição” (Camus, O Homem Revoltado).

Ai está o valor da morte de Deus. Mesmo que ele exista, é importante que nós o matemos, para andar com nossas próprias pernas. Somos o filho que cresceu e quer agora libertar-se. Não podemos mais nos esconder atrás da sombra divina e dizer “Deus quis assim”. A responsabilidade agora é toda nossa, para desfazer as verdades antigas e criarmos novas e melhores formas de dizer sim à vida.

De fato, nós, filósofos e ‘espíritos livres’, ante a notícia de que ‘o Velho Deus morreu” nos sentimos como iluminados por uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, espanto, pressentimento, expectativa – enfim o horizonte nos aparece novamente livre, embora não esteja limpo, enfim os nossos barcos podem novamente zarpar ao encontro de todo perigo, novamente é permitida toda a ousadia de quem busca o conhecimento, o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto ‘mar aberto’“ (Nietzsche, Gaia Ciência, §343).