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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A geopolítica do declínio global americano: Washington contra a China do século XXI

por Alfred McCoy(*)


"O conceito de geopolítica não é oriundo do marxismo. É, pelo contrário, resultante da teorização burguesa acerca da expansão imperialista. Mas isso não impede que este artigo contenha uma muito interessante reflexão e análise das tendências em curso de rearrumação de forças no plano mundial."


 Mesmo para os maiores impérios a geografia é frequentemente o destino. Não saberão disso em Washington, embora as elites políticas americanas, da segurança nacional, da política internacional, continuem a ignorar o básico da geopolítica que formou o destino dos impérios mundiais nos últimos 500 anos. Consequentemente, não entendem o significado das rápidas mudanças globais da Eurásia que estão a minar a grande estratégia para o domínio do mundo que, Washington tem tentado nos últimos setenta anos.

 Uma rápida visão do que se considera uma visão intimista em Washington actualmente revela um mundo de insularidade estonteante. Segundo o cientista político Joseph Nye, de Harvard, conhecido pelo seu conceito de «poder suave», como exemplo, oferecendo uma lista simples da maneira como ele acredita que o poder americano militar, económico e cultural permanece singular e superior, afirmou recentemente que não existe força interna ou global capaz de eclipsar o futuro da América como a primeira potência mundial.

 Para aqueles que apontam Pequim e a sua economia crescente e definem este como o século chinês, Nye oferece um plano de negativas: o rendimento per capita da China «vai levar décadas para se actualizar (se o conseguir) com a América; de uma forma míope «centraliza a sua política primeiramente na sua região»; e não desenvolveu quaisquer capacidades significativas para projecção de uma força global. Acima de tudo, afirma Nye, a China sofre de desvantagens geopolíticas na balança de poder interna asiática, em comparação com a América.

 Ou de outro modo (e nisso Nye é típico da maneira de pensar de Washington) com mais aliados, guerreiros, mísseis, dinheiro, patentes, e filmes de blockbuster do que qualquer outra potência, Washington ganha de olhos fechados.

 Se o Professor Nye pinta o poder por números, o último volume do antigo Secretário de Estado Henry Kissinger, modestamente intitulado Ordem Mundial e apresentado nada menos do que como uma revelação, adopta uma perspectiva nietzschiana. Kissinger em desafio à idade apresenta a política global como plasticina pronta a moldar-se à vontade dos grandes líderes. Assim, na tradição dos grandes diplomatas europeus Charles de Talleyrand e Príncipe Metternick, o Presidente Theodore Roosevelt foi um visionário audaz que iniciou «um papel americano no equilíbrio da Ásia-Pacífico» Por outro lado, Woodrow Wilson com o seu sonho idealista da autodeterminação americana tornou-se geopoliticamente inapto e Franklin Delano Roosevelt não viu a «estratégia global» de aço do dirigente soviético Joseph Stalin. Harry Truman, pelo contrário, venceu a ambivalência nacional ao comprometer a América na formação de uma nova ordem internacional, uma política sabiamente seguida pelos doze presidentes seguintes.

 Entre os mais corajosos, afirma Kissinger, o líder da «coragem, dignidade e convicção» foi George W. Bush, cuja vontade férrea obrigou à «transformação do Iraque do estado mais repressivo do Médio Oriente numa democracia multipartidária» que teria tido êxito se não fosse a subversão «feroz» do seu trabalho pela Síria e o Irão. Numa visão destas a geopolítica não tem espaço; só a visão corajosa de «estadistas» e reis realmente interessa.

 E talvez seja uma perspectiva reconfortante em Washington no momento em que a hegemonia da América está visivelmente a deteriorar-se sob a mudança teutónica no poder global.

 Com os profetas de Washington numa teimosia obtusa no caso do poder geopolítico, talvez esteja na hora de voltar ao básico. Isso significa voltar ao texto fundamental da geopolítica moderna, que continua a ser um guia indispensável, embora fosse publicado num jornal geográfico obscuro há mais de um século.

Sir Halford inventa a geopolítica

 Numa noite fria de Londres em Janeiro de 1904, Sir Halford Mackinder, o director da Escola Londrina de Economia, «encantou» a audiência na Real Sociedade de Geografia em Saville Row com um artigo audazmente intitulado «O Pivot Geográfico da História». Esta apresentação foi, segundo o presidente da sociedade, «um deslumbramento de descrição… raras vezes algo se lhe comparou nesta sala.»

 Mackinder garantia que o futuro do poder global não está, como muitos britânicos na altura imaginavam, no controlo do mar global, mas sim no controlo de um vasto território chamado «Euro-Ásia». Girando o globo da América para colocar a Ásia central no epicentro do planeta e depois levando o eixo da terra para norte um pouco para lá da projecção equatorial de Mercator, Mackinder refez e depois reconceptualizou o mapa mundial.

 O seu novo mapa apresentava a Africa, Ásia e Europa não como continentes separados, mas como uma unidade de terra, uma verdadeira «ilha mundial». O seu conteúdo imenso e profundo — 4000 milhas do Golfo Pérsico ao Mar da Sibéria — era tão grande que só podia ser dominado pelas suas margens na Europa Central ou como ele dizia «a sua marginal marítima» nos mares que a rodeavam.

 A «descoberta da rota do Cabo para as Índias» no século dezasseis, de acordo com Mackinder, «permitiu à Cristandade a maior mobilidade possível de poder… estendendo a sua influência à volta do solo euro-asiático que até aí ameaçara a sua verdadeira existência. Esta maior mobilidade, explicou depois, deu aos marinheiros europeus a superioridade por mais de quatrocentos anos sobre os homens da Africa e da Ásia.

 Mas o «coração» desta vasta massa de terra, uma área «pivot» que se estendia do Golfo Pérsico ao rio Yangtze na China, continuava a ser nada menos que o fulcro de Arquimedes do futuro poder mundial. «Quem dominar o coração domina a ilha-mundo foi o resumo final de Mackinder sobre a situação. Para lá da vasta massa dessa ilha-mundo, que perfaz quase 60% da Terra, fica um hemisfério pouco importante coberto de enormes oceanos e algumas pequenas ilhas. De certeza referia-se à Austrália e à América.

 Para uma geração anterior a abertura do Canal de Suez e o advento dos barcos a vapor aumentou «a mobilidade do poder marítimo» (em relação ao poder da terra). Mas as futuras linhas de caminho-de-ferro farão as maiores maravilhas na estepe, garantiu Mackinder, baixando o custo dos transportes marítimos e mudando o poder da geopolítica. No decorrer do tempo o «estado pivot» da Rússia podia aliado a outro poder como o da Alemanha, expandir-se para além das terras marginais da Eurásia permitindo a utilização de vastos recursos continentais para a construção naval e estaria à vista o domínio do mundo.

 Nas duas horas seguintes, enquanto ele lia um texto denso com referências sintácticas e clássicas próprias de um antigo perfeito de Oxford, a sua audiência sentia que estavam a assistir a algo extraordinário. Várias pessoas ficaram para trocar opiniões. Por exemplo, o famoso analista militar Spencer Willinson, o primeiro a dirigir uma cátedra de História militar em Oxford, declarou que não acreditava na «expansão moderna da Rússia» insistindo que o poder naval dos britânicos e japoneses continuaria a sua função histórica de manter o «equilíbrio entre as forças divididas… na área continental».

 Pressionado pelos seus ouvintes intelectuais a considerar outros factos ou factores, incluindo «o ar como meio de locomoção», Mackinder respondeu: «O meu alvo não é predizer um grande futuro para este ou aquele país, mas apresentar uma fórmula geográfica em que se pode colocar qualquer equilíbrio político. Em vez de acontecimentos específicos, Mackinder procurava uma teoria geral sobre as ligações causais entre a manutenção de uma balança de poder entre o poder do mar como os britânicos ou os japoneses que operavam da marginal marítima e «as dispendiosas forças internas» dentro da terra da Eurásia que tentavam conter.

 Não apenas afirmou Mackinder o que muitos pensavam que iria influenciar a política externa da Inglaterra por várias décadas, mas naquele momento, criara a ciência moderna da geopolítica» — o estudo de como a geografia pode em certas circunstâncias formar o destino de povos, nações e impérios.

 Essa noite em Londres fora há muito tempo. Noutra era. A Inglaterra chorava ainda a morte da Rainha Vitória. Teddy Roosevelt era presidente. Henry Ford acabara de abrir uma pequena fábrica em Detroit para fabricar o seu modelo-A, um carro com uma velocidade de 28 milhas por hora. Apenas há um mês, o «Flyer» dos irmãos Wright subira aos ares pela primeira vez — a 120 pés para ser exacto.

 Sim, nos 110 anos seguintes, as palavras de Sir Halford Mackinder iam oferecer um prisma de precisão excepcional quando procuramos entender a geopolítica tantas vezes obscura a influenciar os maiores conflitos mundiais — duas guerras mundiais, uma guerra-fria, as guerras asiáticas da América (Coreia e Vietname), duas guerras do Golfo Pérsico, e até a infinita pacificação do Afeganistão. O problema hoje é: como pode Sir Halford ajudar-nos a entender não apenas os séculos passados, mas o meio século que ainda está para vir?

A Grã-Bretanha é senhora dos mares

 Na era do poder marítimo que durou cerca de 400 anos — de 1602 até à Conferência de Desarmamento de 1922 — as grandes potências lutaram por dominar a Eurásia através dos mares adjacentes que se estendiam de Londres a Tóquio em 15 000 milhas. O instrumento de poder era, claro, o navio — primeiro de homens, depois navios de guerra, submarinos e porta-aviões, enquanto os exércitos terrestres se afundavam na lama da Manchúria ou na França em batalhas com números terríveis de perdas de vida, os navios imperiais rasgavam os mares, e procuravam dominar as costas e os continentes.

 No pico do poder imperial cerca de 1900, a Grã-Bretanha dominava os mares com uma frota de 300 navios principais e 30 bastiões navais, bases que envolviam a ilha mundo do Atlântico Norte em Scapa Flow através do Mediterrâneo em Malta e Suez até Bombaim, Singapura e Hong Kong. Assim como o Império Romano dominava no Mediterrâneo, fazendo dele o Mare Nostrum (O Nosso Mar), o poderio britânico faria do Oceano Índico o seu «mar privado», garantindo os seus flancos com forças armadas na fronteira nordeste da Índia e impedindo tanto os Otomanos como os Persas de construir bases navais no Golfo Pérsico.

 Assim, Os Britânicos também mantiveram o domínio sobre a Arábia e a Mesopotâmia, terreno estratégico que Mackinder denominava «a passagem terrestre da Europa para as Índias» e a abertura para o coração da ilha mundo. Desta perspectiva geopolítica, o século XIX foi, essencialmente, uma rivalidade estratégica, muitas vezes «o grande jogo» entre a Rússia no comando de quase todo o coração…quase a chegar às fronteiras das Índias, e a Inglaterra «a avançar das portas do mar da Índia para enfrentar a ameaça do nordeste. Por outras palavras Mackinder concluiu, «as realidades finais geográficas» da era moderna eram o poder marítimo contra o poder terrestre ou a Ilha Mundo e o Coração.

 Rivalidades intensas, primeiro entre a Inglaterra e a França, depois Inglaterra e Alemanha, ajudaram a conduzir a uma corrida às armas europeia desenfreada que elevou o preço do poder marítimo a níveis insustentáveis. Em 1805, o Victory com a flâmula do almirante Nelson, com o seu bojo de carvalho de 3 500 toneladas, entrou na batalha de Trafalgar contra a marinha de Napoleão a 9 nós, os seus 100 canhões a disparar balas de 42 libras num alcance não superior a 400 jardas.

 Em 1906, só um século mais tarde, os Britânicos lançaram o primeiro navio de guerra moderno, o HMS Dreadnought, o seu bojo de aço a pesar 20 000 toneladas, as turbinas de vapor que permitiam velocidades acima de 21 nós, e as metralhadoras mecanizadas rápidas de 12 polegadas a disparar bombas de 850 libras a 12 milhas. O custo deste leviatã foi de 1.8 milhões, equivalente a quase 300 milhões de hoje. Dentro de uma década meia dúzia de potências esvaziavam os seus tesouros para fabricar frotas desses navios de guerra letais, extremamente caros.

 Graças a uma combinação de superioridade tecnológica, alcance global e alianças navais com os Estados Unidos e o Japão, a Pax Britanica conseguiu durar um século, de 1815 a 1914. Mas, no final, este sistema global ficou marcado por uma corrida às armas acelerada, diplomacia de grande poder volátil, e uma competição amarga pelo domínio dos oceanos que implodiram numa matança louca da Primeira Guerra Mundial, deixando 16 milhões de mortos em 1918.

O século de Mackinder

 Como o eminente historiador imperial Paul Kennedy observou, «o resto do século vinte provou certa a tese de Mackinder», com duas guerras mundiais vindas da Europa de leste através do Médio Oriente para a Ásia de Leste. Na verdade, a I Guerra Mundial foi, como o próprio Mackinder afirmou mais tarde, «um verdadeiro duelo entre o poder da terra e do mar». No fim da guerra em 1918, o poder do mar — Inglaterra, América e Japão fizeram expedições navais a Arcangelsk, no Mar Negro, e à Sibéria para manter a revolução russa dentro do seu «território».

 Reflectindo a influência de Makinder no pensamento geopolítico na Alemanha, Adolf Hitler arriscou o seu Reino num esforço perdido para capturar o interior da Rússia como «Lebensraum», ou espaço vital, para a sua «raça superior». O trabalho de Sir Halford ajudou a formar as ideias do geógrafo alemão Karl Haushofer, fundador do jornal Zeitschrift für Geopolitik, proponente do conceito de «Lebensraum», e conselheiro de Adolf Hitler e de Rudolf Hess. Em 1942, o Führer enviou um milhão de homens, 10 000 peças de artilharia, e 500 tanques para galgar o Volga em Stalinegrado. No fim, as suas forças sofreram 850 000 feridos, mortos e prisioneiros numa tentativa vã de varar as fronteiras da Europa de Leste para a região pivot da ilha-mundo.

 Um século após o tratado seminal de Mackinder, outro erudito britânico, historiador imperial John Darwin, arguiu no seu resumo magistral Depois de Tamerlão que os Estados Unidos tinham conseguido o seu «império colossal… numa escalada improcedente no dealbar da II Guerra tornando-se a primeira potência na história a controlar os pontos estratégicos sociais «nas duas extremidades da Eurásia» (abreviatura da Euro-Asia de Mackinder). Com receio da expansão chinesa e russa a servir como catalisador para a colaboração» os Estados Unidos ganharam bastiões imperiais na Europa Ocidental e no Japão. Com estes pontos axiais como ancoras, Washington ergueu um arco de bases militares que seguiram o padrão marítimo da Inglaterra e se destinavam abertamente a sitiar a ilha mundo.

A geopolítica axial da América

 Tendo sitiado as extremidades axiais da ilha mundo da Alemanha nazi e do Japão imperial em 1945, nos setenta anos seguintes os Estados Unidos descansaram em camadas cada vezes mais espessas de poder militar para manter a China e a Rússia dentro do território da Eurásia. Separada do seu tronco ideológico, a grande estratégia de Washington da guerra-fria anticomunista da «contenção» era quase um processo de sucessão imperial. Uma Inglaterra esvaziada foi afastada das margens marítimas, mas as realidades estratégicas mantiveram-se essencialmente na mesma.

 Na verdade, em 1943, dois anos antes de acabar a II Guerra Mundial, um Macinder envelhecido publicou o seu último artigo, «A guerra global e a conquista da paz», no influente jornal americano Foreign Affairs. Nele, lembrava aos americanos que aspiravam a uma grande estratégia» uma versão improcedente de hegemonia militar que até o seu «sonho de um poder aéreo global» não mudaria a base geopolítica. «Se a União Soviética emergir dessa guerra como vencedora da Alemanha» avisou, «vai ter o maior poder terrestre do globo, controlando a «maior fortaleza natural na terra.»

 Quando se estabeleceu uma nova Pax Americana, no pós-guerra, a primeira barreira a sério para contenção do poder da União Soviética foi conseguida pela Marinha norte-americana. Os seus navios rodearam o continente euro-asiático, suplementando e depois ultrapassando a marinha britânica: a Sexta Armada atracada em Nápoles em 1946 para controlar o Oceano Atlântico e o Mediterrâneo, a Sétima Armada em Subuc Bay nas Filipinas, em 1947, para o Oceano Pacífico, e a Quinta Armada no Bahrain no Golfo Pérsico desde 1995.

 A seguir, os diplomatas americanos aumentaram muito as alianças militares — o Tratado da Organização Atlântica Norte (1949), O Tratado da Organização do Médio Oriente (1955), o Tratado da Organização do Sudoeste da Ásia (1954), e o Tratado de Segurança dos Estados Unidos-Japão (1951).

 Em 1955, os Estados Unidos teceram uma rede global de 450 bases militares em 36 países, destinada em grande parte, a conter o bloco sino-soviético atrás de uma cortina de ferro que coincidiu num grau surpreendente com o «território» de Mackinder em volta da terra da Eurásia. No fim da Guerra Fria em 1990, o cerco à China comunista e à Rússia mantinha 700 bases no exterior, uma força aérea de 1763 bombardeiros a jacto, um vasto arsenal nuclear, mais de 1000 mísseis balísticos e uma frota de 600 vasos, incluindo 15 navios de guerra nucleares – todos ligados pelo único sistema global de comunicações por satélite.

 No fulcro do perímetro estratégico de Washington em volta da ilha-mundo, a região do Golfo Pérsico tem sido há quase quarenta anos local de constantes intervenções americanas, abertas e secretas. Em 1979 a revolução no Irão significou a perda de um país chave na arcada de poder norte-americano em volta do Golfo e deixou Washington a lutar para restabelecer a sua presença na região. Para esse fim, apoiaria simultaneamente Saddam Hussein no Iraque, na sua guerra contra o Irão revolucionário e armaria os mais extremistas dos mujahedins do Afeganistão contra a ocupação soviética do Afeganistão.

 Foi nesse contexto que Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional do presidente Jimmy Carter, lançou a sua estratégia para a derrota da União Soviética com uma agilidade geopolítica fantástica pouco compreendida até hoje. Em 1979, Brzezinski, um aristocrata polaco singularmente ligado às realidades políticas do seu continente nativo, persuadiu Carter a lançar a Operação Ciclone com fundos maciços que chegaram a 500 milhões ao ano nos finais de 1980. A sua ideia: mobilizar militantes muçulmanos para atacar a parte macia do ventre da União Soviética na Ásia Central e implantar o Islão radical dentro do território da União Soviética. Era para infligir simultaneamente uma derrota desmoralizante ao exército vermelho no Afeganistão e «libertar a terra da Europa Oriental da órbita de Moscovo. «Não forçamos os Russos a intervir no Afeganistão, afirmou Brzezinski em 1998, explicando o seu golpe de mestre geopolítico nesta edição da guerra fria do Grande Jogo, «mas aumentamos grandemente a probabilidade de que o fizessem… Essa operação secreta foi uma ideia excelente. O seu efeito era atrair os Russos para a armadilha do Afeganistão.

 Interrogado sobre a legalidade desta operação para criar um Islão militante hostil aos Estados Unidos, Brzenzinski, que estudou e citou frequentemente Mackinder, respondeu friamente: «O que é mais importante para a história do mundo? perguntou. «Os talibãs ou o colapso do império soviético? Uns tantos muçulmanos irrequietos ou a libertação da Europa central e o fim da guerra-fria?

 Mesmo a vitória retumbante sobre a guerra-fria com a implosão da União Soviética não transformou os fundamentos geopolíticos da ilha mundo. Como resultado, depois da queda do Muro de Berlim em 1989, o primeiro esforço de Washington no estrangeiro numa nova era envolveria uma tentativa de restabelecer a sua posição dominante no Golfo Pérsico, utilizando a ocupação do Kuwait por Saddam Hussein, como pretexto.
Em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, o historiador imperial Paul Kennedy voltou ao tratado de Mackinder para explicar o insucesso também inexplicável. «Mesmo agora, com centenas de milhares de tropas americanas nas fronteiras da Eurásia, escreveu Kennedy no Guardian, parece que Washington esta a levar a sério a ideia de Mackinder para garantir o controle do pivot geográfico da história». Se interpretarmos estas anotações de modo sério, a súbita proliferação das bases americanas através do Afeganistão e do Iraque devem ser vistas como mais uma tentativa imperial para uma posição privilegiada à beira da Eurásia, semelhante aos antigos fortes britânicos ao longo da fronteira noroeste da Índia.

 Nos anos seguintes, Washington tentou substituir algumas das suas tropas ineficientes no terreno por drones no ar. Em 2011, a Força Aérea e a CIA rodearam a Eurásia com 60 bases para a sua armada de drones. Então, com o Reaper, armado com mísseis Hellfire e bombas GBU-30 conseguiu um alcance de 1150 milhas, o que significava que dessas bases podiam alcançar alvos na Africa ou na Ásia.

 Significativamente, surgem bases de drones à volta da ilha mundo — de Signonela, Sicília, a Icerlik, Turquia; Djibuti no Mar Vermelho; Qatar e Abu Dhabi no Golfo Pérsico; Ilhas Seicheles no Oceano Índico; Jalalabad, Khost, Kandahar e Sindand no Afeganistão, e no Pacífico, Zamboanga nas Filipinas e a Base Aérea Andersen na ilha de Guam, entre outros. A patrulhar esta periferia, o Pentágono gasta 10 mil milhões numa armada de 99 drones Hawk equipados com câmaras de alta resolução capazes de vigiar tudo num raio de cem milhas, sensores electrónicos que podem comandar comunicações, e máquinas eficientes capazes de voo contínuo de 35 horas e de um alcance de 8.700 milhas.

A estratégia da China

 Os movimentos de Washington, por outras palavras, representam algo velho, mesmo a uma escala inimaginável. Mas a subida da China como a maior economia do mundo, inconcebível há um século, representa algo novo e assim ameaça mudar a geopolítica marítima que formou o poder do mundo nos últimos 400 anos. Em vez de se concentrarem simplesmente em construir uma marinha de águas azuis como a Inglaterra ou uma armada global aérea semelhante aos Estados Unidos a China aproxima-se cada vez mais da ilha mundo numa tentativa de reformar inteiramente os fundamentos geopolíticos do poder global. Está a usar uma estratégia subtil que tem iludido até agora as elites do poder de Washington.

 Após décadas de preparação serena, Pequim começou recentemente a revelar a sua grande estratégia para o poder global, a passos lentos. O seu plano em duas etapas destina-se a construir uma infra-estrutura transcontinental para integração económica da ilha mundo por dentro, enquanto mobiliza forças militares para cortar cirurgicamente o cerne de Washington.

 O primeiro passo foi um projecto estonteante para erguer uma infra-estrutura para a integração económica do continente. Construindo uma elaborada e imensamente dispendiosa rede de linhas férreas de alta velocidade, e alto volume assim como gasodutos e oleodutos através de toda a Eurásia, a China pode realizar a visão de Mackinder de uma maneira diferente. Pela primeira vez na história, o rápido movimento transcontinental de cargas criticas — petróleo, minérios, e produtos manufacturados — será possível a uma escala maciça, interligando potencialmente os vastos territórios numa única zona económica de 6500 milhas de Xangai a Madrid. Deste modo, a liderança em Pequim espera afastar o foco do poder geopolítico da periferia marítima para dentro do coração do continente.

«Os caminhos-de-ferro transcontinentais estão agora a mudar as condições do poder global», escreveu Mackinder em 1904 quando se construiu uma «precária» linha do comboio transiberiano, o mais longo do mundo, que atravessava o continente indo de Moscovo até Vladivostok com 7000 milhas. «Mas antes do fim do século toda a Ásia estará coberta de linhas férreas, acrescentou «os espaços dentro do Império Russo e na Mongólia são tão vastos, as suas potencialidades em petróleo e metais tão incalculavelmente grandes que um vasto mundo económico mais ou menos afastado, tornar-se-á inacessível ao comércio marítimo».

 Mackinder foi um pouco prematuro na sua predição. A revolução russa de 1917, a revolução chinesa de 1949 e os 40 anos subsequentes da guerra fria atrasaram o desenvolvimento real durante décadas, Deste modo o coração da Eurásia não recebeu o crescimento económico e a integração, em parte graças a barreiras artificiais ideológicas — a cortina de ferro e a separação sino-soviética — que impediram a construção de infra-estruturas através da vasta Eurásia. Isso acabou.

 Só alguns anos depois do fim da guerra fria, o antigo Conselheiro da Segurança Nacional Brzezinski, nessa altura um crítico feroz da visão global da política tanto das elites Republicanas como das Democratas, começou a agitar bandeiras vermelhas sobre ao estilo ineficiente da geopolítica de Washington. «Desde que os continentes começaram a interagir politicamente, há cerca de quinhentos anos, escreveu em 1998, essencialmente a parafrasear Mackinder, a «Eurásia tem sido o centro do poder mundial. Um poder que domina a «Eurásia» controla duas das mais avançadas e mais produtivas regiões do mundo… tornando o hemisfério ocidental e a Oceânia geopoliticamente periféricas do continente central global.

 Enquanto tal geopolítica tem iludido Washington, em Pequim foi bem compreendida. Na realidade, na última década a China lançou o maior investimento de infra-estruturas, já mais de três mil milhões de dólares e em aumento desde que Washington começou o sistema de estradas interestaduais americanas nos anos 50. O numero de vias-férreas e oleodutos que foram construídos são inumeráveis. Entre 2007 e 2014, a China cobriu o país com 9000 milhas de novos comboios ultra-rápidos, mais do que no mundo inteiro. O sistema transporta agora 2,5 milhões de passageiros diariamente a alta velocidade, 240 milhas à hora. Quando o sistema estiver completo em 2030, subirá para 16 000 milhas de trilhos de alta velocidade a um custo de 300 mil milhões, ligando todas as maiores cidades da China.

Simultaneamente, a liderança da China, começou a colaborar com os estados próximos num projecto maciço para integrar a rede ferroviária nacional numa grelha transcontinental. Iniciando em 2008, os Alemãs e os Russos juntaram-se aos Chineses para o lançamento da Ponte da Eurásia. Duas rotas, a antiga Transiberiana no norte e uma nova rota a sul ao longo da antiga rota da China através de Kazakhstan vão ligar toda a Eurásia. Na rota a sul mais rápida, contentores de produtos manufacturados de alto custo, computadores, e peças de automóveis começaram a viajar 6.700 milhas de Leipzig na Alemanha, para Chongqing, China, em 20 dias, quase metade dos 35 dias que leva agora por barco.

 Em 2013, a Deutsche Bahn (Comboios Alemães) começou a preparar uma terceira rota entre Hamburgo e Zhengzhou que corta o tempo de viagem para 15 dias, enquanto O Caminho-de-Ferro de Kazakh abriu uma ligação Chongqing-Duisburg com fins semelhantes. Em Outubro de 2014, a China anunciou planos para a construção da via férrea de alta velocidade mais longa que vai atravessar as 4.300 milhas entre Pequim e Moscovo em apenas dois dias.

 Além disso, a China está a construir dois ramais para sueste e sul para as margens da ilha mundo. Em Abril, o presidente Xi Jinpping assinou um acordo com o Paquistão para despender 46 mil milhões num corredor económico China-Paquistão. Auto-estradas, linhas férreas e oleodutos vão estender-se quase 2000 milhas de Kashgar em Xinjang, a província mais ocidental da China, num empreendimento conjunto em Gwadar, no Paquistão, que se iniciou em 2007. A China investiu mais de 200 mil milhões na construção deste porto estratégico em Gwadar no Mar da Arábia, a 370 milhas do Golfo Pérsico. Em 2011 a China também começou a alargar o seu caminho de férreo através do Laos no sudoeste da Ásia com um custo inicial de 6.2 mil milhões. No final, uma linha de alta velocidade levará passageiros e produtos numa viagem de 10 horas de Kunming a Singapura.

 Nesta mesma década dinâmica, a China construiu uma rede intensa de gasodutos e oleodutos transcontinental para importar petróleo de toda a Eurásia dos seus centros populacionais para o norte, centro e sudeste. Em 2009, após uma década de construção, a Corporação Petrolífera Nacional da China, empresa estatal abriu a primeira linha do Cazaquistão-China. Estende-se por 1.400 milhas do Mar Cáspio a Xinjiang.

 Simultaneamente, a CNPC colaborou com o Turquemenistão para inaugurar o gasoduto Ásia Central-China. Cobre 1.200 milhas quase paralela à Kazahstan China o oleoduto, é o primeiro a trazer o gás natural da região para a China. Para passar o Estreito de Malaca controlado pela Marinha Norte-Americana a CNPC abriu um oleoduto Sino-Myanmar em 2013 para transportar tanto o petróleo do médio oriente e o gás natural birmanês a 1.500 milhas da baía de Bengala para as remotas regiões ocidentais da China. Em Maio de 2014, a companhia assinou um acordo de 400 mil milhões, por 30 anos com o gigante russo privado Gazprom para fornecer 38 mil milhões de metros cúbicos de gás natural por ano em 2018 por uma rede ainda a completar para norte de oleodutos através da Sibéria e para a Manchúria.

 Embora maciços esses projectos são apenas parte de uma construção crescente, que nos últimos cinco anos, juntou oleodutos e gasodutos pela Ásia Central e do Sul para o Irão e Paquistão. O resultado será em breve uma infra-estrutura integrada de energia, incluindo as redes da Rússia, estendendo-se pelo centro da Eurásia, do Atlântico ao Mar do Sul da China.

 Para capitalizar esses planos fantásticos de crescimento regional, em Outubro de 2014 Pequim anunciou o estabelecimento de um banco de investimentos de infra-estrutura asiática. Os líderes da China vêem esse banco, esta instituição como um futuro regional, e na realidade a alternativa euro-asiática ao banco mundial norte-americano. Assim, apesar da pressão de Washington de não adesão, 14 países chave, incluindo aliados amigos dos Estados Unidos como a Alemanha, Grã-Bretanha, Austrália e Coreia do Sul assinaram. Simultaneamente, a China começou a estabelecer relações a longo prazo com áreas ricas em recursos na Africa, assim como na Austrália e Sudeste da Ásia, como parte do seu plano de integrar economicamente a ilha-mundo.

 Finalmente, Pequim só agora revelou uma estratégia habilmente designada, para neutralizar as forças militares que Washington colocará à volta do perímetro do continente. Em Abril, o presidente Xi Jinping anunciou a construção desse corredor de pipelines maciço directo da China ocidental ao seu novo porto em Gwadar, no Paquistão, criando a logística para futuros desenvolvimentos navais no Mar da Arábia cheio de petróleo.

 Em Maio, Pequim proclamou o seu exclusivo controle do Mar de Sul da China, expandindo a base naval de Longpo nas ilhas Hainan para a região da primeira fábrica nuclear, acelerando a dragagem para criar novos atóis que se podem transformar em aeroportos militares nas disputadas Ilhas Spratley, e invalidando os voos da Marinha Norte-Americana. Construindo a infra-estrutura de bases militares no Sul da China e nos mares da Arábia, Pequim forja as capacidades futuras para destruir estratégica e cirurgicamente as forças norte-americanas.

 Ao mesmo tempo, Pequim desenvolve planos para desafiar o domínio de Washington sobre o espaço e o ciberespaço em 2020. Espera por exemplo completar o seu sistema próprio de satélite, oferecendo o primeiro desafio ao domínio de Washington sobre o espaço desde que os Estados Unidos lançaram o seu sistema de 26 satélites de comunicação de defesa em 1967. Simultaneamente, Pequim está a desenvolver uma capacidade imensa para a ciberguerra.

 Numa década ou duas caso venha a ser necessário, a China estará pronta a cortar cirurgicamente o cerco continental nalguns pontos estratégicos sem ter de confrontar o poderio global das forças americanas, tornando potencialmente obsoletas vastas armadas americanas de transportadores, cruzadores, drones, aviões de combate e submarinos.

 Desdenhando a visão geopolítica de Mackinder e a sua geração de imperialistas britânicos, a actual liderança norte-americana não entendeu o significado de uma mudança global radical sob a massa da Eurásia. Se a China conseguir ligar a sua indústria crescente com os grandes recursos naturais do coração da Eurásia, então muito possivelmente, como Sir Halford Mackinder predisse naquela noite fria em Londres em 1904, «estará à vista o império do mundo».

Tradução: Manuela Antunes

(*) Alfred W. McCoy, jornalista do TomDispacth, é regente da cadeira Harrington na Universidade Wisconsin-Madison. É editor de ”Império Infinito: Retirada de Espanha, Eclipse da Europa, Declínio da América” e autor de “Vigiando o Império Americano: os Estados Unidos, as Filipinas e o Surgimento do Estado de Vigilância”, entre outros. Realizou um notável trabalho de investigação acerca das ligações entre o crime organizado, os serviços secretos franceses, e norte-americanos e a intervenção imperialista no sudoeste asiático.

domingo, 31 de maio de 2015

Vinte e seis coisas sobre o ISIS e a al-Qaeda que não querem que você saiba


por Michel Chossudovsky, do Global Research (publicado anteriormente no portal O Diário e no Café Socialista)




1-Os EUA apoiaram a al-Qaeda e as suas organizações filiadas durante quase meio século, desde o apogeu da guerra afegã-soviética.

2-A CIA criou campos de treino para a al-Qaeda no Paquistão. Num período de dez anos, desde 1982 até 1992, uns 35.000 jihadistas procedentes de 43 países islâmicos foram recrutados pela CIA para lutar na jihad afegã contra a União Soviética.

3- Desde a época da Administração Reagan que Washington tem apoiado a rede terrorista islâmica. Ronald Reagan qualificou esses terroristas como “lutadores pela liberdade”.

Os EUA forneceram armas às brigadas islâmicas. Era tudo para “uma boa causa”: a luta contra a União Soviética e a mudança de regime, o que levou à desaparição de um governo secular no Afeganistão. Apenas necessitamos de recordar filmes de propaganda da época, como o célebre Rambo III…

4-Os livros de texto jihadistas foram publicados pela Universidade de Nebrasca. Os EUA gastaram milhões de dólares para fornecer livros de texto repletos de imagens violentas e ensinamentos islâmicos militantes aos estudantes afegãos.

5- Osama bin Laden, fundador da al-Qaeda e homem mais odiado pelos EUA, foi recrutado pela CIA em 1979, mesmo no início da guerra jihadista no Afeganistão contra a União Soviética. Bin Laden tinha na altura 22 anos e foi treinado num campo de treino de guerrilha patrocinado pela CIA.

Segundo o Professor Chossudovsky, a al-Qaeda estava por detrás dos ataques do 11 de Setembro. De facto, o ataque terrorista de 2001 proporcionou uma justificação para desencadear uma guerra contra o Afeganistão, sob o argumento de que Afeganistão era um estado patrocinador do terrorismo da al-Qaeda.

6- O Estado Islâmico ou ISIS era originalmente uma entidade filiada na al-Qaeda, criada pelos serviços de informações dos EUA com o apoio do MI6 Britânico, a Mossad Israelita, os serviços de informações do Paquistão e da Presidência Geral de Informações da Arabia Saudita (GIP ou Ri’āsat Al-Istikhbarat Al-‘Amah (رئاسة الاستخبارات العامة).

7- As brigadas de ISIS estiveram envolvidas no apoio à insurgência que os EUA e a NATO dirigiram contra o governo sírio de Bashar al Assad no decurso da guerra civil na Síria.

8 – A NATO o Estado-Maior da Turquia foram os responsáveis pela contratação de mercenários para ISIS e Al Nusrah desde os inícios da insurgência síria, em Março de 2011. Segundo fontes dos serviços de informações israelitas, publicadas na web DEBKA, esta iniciativa consistiu em: “Uma campanha para recrutar milhares de voluntários muçulmanos em países do Médio Oriente e do mundo muçulmano para lutar juntamente com os rebeldes sírios. O exército turco aloja estes voluntários, treina-os e assegura a sua entrada na Síria”.

9- Há membros das forças especiais ocidentais e agentes dos serviços secretos ocidentais dentro das fileiras do ISIS. Membros das Forças Especiais Britânicas e do MI6 participaram no treino dos rebeldes jihadistas na Síria.

10- Especialistas militares ocidentais contratados pelo Pentágono treinaram os terroristas no uso de armas químicas. “Os EUA e alguns aliados europeus estão utilizando agentes contratados para treinar os rebeldes sírios sobre como assegurar arsenais de armas químicas na Síria, segundo informaram à CNN um alto funcionário dos EUA e vários diplomatas de alto nível”.

11- As brutais decapitações realizadas pelos terroristas de ISIS integram os programas de treino patrocinados pela CIA em campos da Arabia Saudita e Qatar, cujo objectivo é causar pavor e comoção.

12- Muitos dos criminosos recrutados por ISIS são presidiários condenados libertados dos cárceres da Arabia Saudita, país aliado do Ocidente. Entre eles encontram-se cidadãos Sauditas condenados à morte que foram recrutados para se juntar às brigadas terroristas.

13- Na sua luta contra o governo de Al-Assad e as forças shiítas do Hezbollah, Israel tem apoiado as brigadas de ISIS e Al Nusrah dos Montes Golã. Combatentes jihadistas têm-se reunido regularmente com oficiais das Forças de Defesa Israelitas (FDI), bem como com o primeiro-ministro Netanyahu.
O alto comando das FDI reconhece tacitamente que: “elementos da jihad global dentro da Síria, membros de ISIS e Al Nusrah, são apoiados por Israel”.

14- Os soldados de ISIS dentro da Síria trabalham às ordens da aliança militar ocidental. O seu mandato tácito é causar estragos e destruição na Síria e Iraque.

15- Uma prova disso é a foto que ilustra esta matéria, em que o senador estado-unidense John McCain se reúne com líderes terroristas jihadistas na Síria.

16- As milícias de ISIS, que atualmente são o proclamado alvo de uma campanha de bombardeamentos por parte dos EUA e da NATO sob o mandato da “luta contra o terrorismo”, continuam a ser secretamente apoiadas pelo Ocidente. Forças xiitas que lutam contra ISIS no Iraque, tal como membros do próprio exército iraquiano, têm denunciado repetidamente as ajudas militares fornecidas pelos EUA aos terroristas de ISIS, ao mesmo tempo que combatem contra eles.

17- Os bombardeamentos estado-unidenses e aliados não estão apontados contra ISIS, mas têm sim o objectivo de bombardear a infra-estrutura econômica de Iraque e Síria, incluindo as suas fábricas e refinarias de petróleo.

18- O projecto de ISIS de criar um califado faz parte de uma agenda de política externa dos EUA que pretende dividir Iraque e Síria em territórios separados: um califado islamita sunita, uma República Árabe xiita e a República do Curdistão.

19- “A Guerra Global contra o Terrorismo” apresenta-se perante a opinião pública como um “choque de civilizações”, uma guerra entre valores e religiões, quando na realidade se trata de uma guerra de conquista, guiada por objetivos estratégicos e econômicos.

20- Brigadas terroristas de al-Qaeda, patrocinadas secretamente pelos serviços de informação ocidentais, instalaram-se já no Mali, Níger, Nigéria, República Centro-africana, Somália e Iémen para levar o caos a esses países e justificar uma intervenção militar ocidental.

21- Boko Haram na Nigéria, al-Shabab na Somália, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia, (apoiado pela NATO em 2011), al-Qaeda no Magreb Islâmico e Jemaah Islamiya na Indonésia, entre outros, são grupos filiados na al-Qaeda que são secretamente apoiados pelos serviços de informações ocidentais.

22- Os EUA estão também a apoiar organizações terroristas filiadas com al-Qaeda na região autônoma Uigure da China. O seu objectivo é desencadear a instabilidade política no oeste da China.

23- ''Os terroristas ''somos nós''': ao mesmo tempo que os EUA são o oculto arquiteto do Estado Islâmico, o sagrado mandato de Obama é de proteger os EUA dos ataques do ISIL.

24- A ameaça terrorista local, como a que temos visto nos EUA ou na Europa, é uma fabricação promovida pelos governos ocidentais e apoiada pelos meios de comunicação com o objectivo de criar uma atmosfera de medo e intimidação que leve a uma anulação das liberdades civis e favoreça a instalação de um estado policial. Por seu lado, as prisões, julgamentos e condenações de “terroristas islâmicos” servem para sustentar a legitimidade do Estado de Segurança Interna dos EUA e a crescente militarização das suas forças de segurança. O objectivo final é inculcar na mente de milhões de estado-unidenses que o inimigo é real e que a Administração dos EUA protegerá a vida dos seus cidadãos. O mesmo podemos dizer de países como França, Reino Unido ou Austrália.

25- A campanha “antiterrorista” contra o Estado islâmico contribuiu para a demonização dos muçulmanos, que aos olhos da opinião pública ocidental se associam cada vez mais com os jihadistas, assentando desse modo as bases para um choque de religiões e civilizações.

26- Qualquer um que se atreva a questionar a validade da “Guerra Global contra o Terrorismo” é qualificado de terrorista vê-se sujeito às leis antiterroristas.

Imprensa obediente e entusiasta

 Com isso estabelece-se um primeiro instrumento para perseguir qualquer tipo de dissidente ideológico, associando-o com o terrorismo. Esta ferramenta poderá ser posteriormente alargada a qualquer outro tipo de dissidência ideológica. Como vemos, a administração Obama impôs finalmente um consenso diabólico com o apoio dos seus aliados e o papel cúmplice do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A imprensa ocidental abraçou esse consenso de forma obediente e entusiasta; o Estado Islâmico é descrito como uma entidade independente, surgida do nada, um inimigo exterior que ameaça os valores “pacíficos e democráticos” do mundo ocidental.

 Foi criado um inimigo que pode aparecer e atuar em qualquer momento, como um fantasma com o qual, quando for mais conveniente, se assusta a população impelindo-a a aceitar qualquer tipo de política repressiva das liberdades e qualquer tipo de ação militarista ao serviço dos grandes poderes ocidentais.

 E, pelo visto, este drama ainda está no seu início…

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A ofensiva global da OTAN


por Manlio Dinucci




 A Organização do Tratado do Atlântico Norte não tem mais fronteiras. Na Europa - após de ser estendida a sete países do antigo Pacto de Varsóvia, três da antiga União Soviética e dois da ex-Jugoslávia (destruída pela guerra [movida pela própria OTAN] em 1999) - a organização está a incorporar a Ucrânia. As forças armadas de Kiev, que há alguns anos têm participado em operações da  OTAN em diversas regiões (nos Bálcãs, Afeganistão, Iraque, Mediterrâneo, Oceano Índico), estão a ser cada vez mais integradas à aliança comandada pelos Estados Unidos.

 Em 24 de abril último, firmou-se um acordo que enquadra de facto essas forças na rede de comando, controle e comunicações da  OTAN. Isto ocorre no momento em que o parlamento de Kiev aprova por unanimidade uma lei que exalta como "heroico" o passado nazista da Ucrânia e, ao mesmo tempo torna "criminosa" qualquer referência ao comunismo, põe na ilegalidade o PC ucraniano e declara "combatentes pela independência" os nazistas que massacraram dezenas de milhares de judeus daquele país.

 Na Lituânia e na Polónia, a OTAN tem colocado caças-bombardeiros que "patrulham" os céus das três repúblicas bálticas, nos limites do espaço aéreo russo: a Itália, depois de liderar a "missão" no primeiro trimestre de 2015, permanecerá pelo menos até 4 de agosto com seus aviões Eurofighter Typhoon.

 Na Ásia Central, "região estrategicamente importante",  OTAN está incorporando a Geórgia, que, já integrada às suas operações ,"aspira a tornar-se membro da Aliança". Também continua a "aprofundar a cooperação" com o Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão, para enfrentar a União Económica da Eurásia (que inclui a Rússia, Belarus [Bielorrússia], Cazaquistão, Arménia e, a partir de maio, o Quirguistão).

 A organização permanece "profundamente comprometida" no Afeganistão (que, para a geografia imperial, é parte do "Atlântico Norte"), país de grande importância geoestratégica em relação à Rússia e China, onde a guerra continua com forças especiais da  OTAN, drones e caças-bombardeiros (52 ataques aéreos somente em março).

 Na Ásia Ocidental, a  OTAN continua com sua operação militar encoberta contra a Síria e prepara outra (o Irã sempre está no visor), como evidenciado pela mudança para Izmir (Turquia) do LANDCOM, o comando-geral das forças terrestres da aliança. Ao mesmo tempo, a  OTAN está a reforçar a parceria (testada na "campanha da Líbia") com quatro monarquias do Golfo - Bahrain, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar - e a cooperação militar com a Arábia Saudita, que, conforme denuncia "Human Rights Watch", está a se lançar sobre o Iêmen com bombas de fragmentação fornecidas pelos EUA.

 No leste da Ásia, a  OTAN concluiu um acordo estratégico com o Japão que "amplia e aprofunda a parceria de longa data", o qual se reúne a um acordo semelhante firmado com a Austrália, com finalidades anti-chinesas e anti-russas. Com o mesmo fim, os principais países da  OTAN (incluindo-se a Itália) participam, a cada dois anos no Pacífico, daquilo que o comando da Marinha dos EUA chama de "o maior exercício marítimo do mundo".

 Na África, depois de demolir a Líbia, a  OTAN está a reforçar a assistência militar para a União Africana, e fornece ainda "planejamento e transporte aeronaval", no quadro estratégico do Comando para a África dos Estados Unidos (AFRICOM).

 Finalmente, na América Latina, a  OTAN firmou um "Acordo de Segurança" com a Colômbia que, já engajada em programas militares da Aliança (incluindo a formação de forças especiais), pode em breve tornar-se um membro da aliança. Não será surpresa se, em pouco tempo, a Itália enviar seus bombardeiros para "patrulhar" os céus da Colômbia em alguma "missão" da OTAN contra a Venezuela.

Originalmente publicado em: http://www.marx21.it/internazionale/pace-e-guerra/25559-loffensiva-della-nato-globale.html

domingo, 15 de março de 2015

O fascismo está outra vez em ascensão

Artigo de John Pilger publicado em resistir.info

''Pravy Sektor'' é a tradução ucraniana para ''setor Direita''

 O recente 70.º aniversário da libertação de Auschwitz foi uma evocação do grande crime do fascismo, cuja iconografia nazi está entranhada na nossa consciência. O fascismo está preservado na história, em filmes com ondas de camisas negras em passo de ganso, com a sua criminalidade terrível e clara. Porém, nessas mesmas sociedades liberais, cujas elites que fazem as guerras nos aconselham a nunca o esquecer, não se fala do perigo acelerado dum tipo de fascismo moderno; porque é o fascismo delas.

"Iniciar uma guerra de agressão…", disseram os juízes do Tribunal de Nuremberga em 1946, "não é só um crime internacional, é o supremo crime internacional, que apenas difere de outros crimes de guerra porque contém em si o mal acumulado de todos eles".

 Se os nazis não tivessem invadido a Europa, não teria acontecido Auschwitz e o Holocausto. Se os Estados Unidos e os seus satélites não tivessem iniciado a sua guerra de agressão no Iraque em 2003, ainda hoje viveria quase um milhão de pessoas; e o Estado Islâmico, ou o ISIS, não nos manteria reféns da sua selvajaria. Eles são a prole do fascismo moderno, desmamados pelas bombas, pelos banhos de sangue e pelas mentiras que são o teatro surrealista conhecido por "noticiários".
Tal como o fascismo dos anos 30 e 40, as grandes mentiras são proferidas com a precisão dum metrónomo: graças aos media omnipresentes, repetitivos e graças à sua virulenta censura por omissão. Vejam a catástrofe na Líbia.

 Em 2011, a NATO desencadeou 9700 ataques contra a Líbia, dos quais mais de um terço foram dirigidos contra alvos civis. Usaram ogivas de urânio; as cidades de Misurata e Sirte foram atapetadas com bombas. A Cruz Vermelha identificou sepulturas em massa e a Unicef noticiou que "a maior parte [das crianças mortas] tinha menos de dez anos".

 A sodomização pública do presidente líbio Muammar Gaddafi com uma baioneta "rebelde" foi saudada pela então secretária de Estado, Hillary Clinton, com as palavras: "Chegámos, vimos e ele morreu" ('We came, we saw, he died"). O seu assassínio, tal como a destruição do seu país, foi justificado por uma grande mentira já bem conhecida: ele estaria a planear um "genocídio" contra o seu próprio povo. "Sabíamos… que se esperássemos mais um dia", disse o presidente Obama, "Benghazi, uma cidade do tamanho de Charlotte, podia ser vítima de um massacre que se reflectiria por toda a região e mancharia a consciência do mundo".


  Foi esta a maquinação das milícias islamitas que enfrentavam a derrota frente às forças governamentais líbias. Disseram à Reuters que ia haver "um verdadeiro banho de sangue, um massacre como o que se vira no Ruanda". Transmitida a 14 de Março de 2011, a mentira foi a primeira faísca para o inferno da NATO, descrito por David Cameron como uma "intervenção humanitária".

 Abastecidos e treinados secretamente pelos SAS da Grã-Bretanha, muitos dos "rebeldes" passaram para o ISIS, cujo último vídeo mostra a decapitação de 21 trabalhadores cristãos coptas capturados em Sirte, a cidade destruída pelos bombardeiros da NATO.

 Para Obama, para Cameron e para Hollande, o verdadeiro crime de Khadafi era a independência económica da Líbia e a sua intenção declarada de cessar a venda em dólares americanos das maiores reservas petrolíferas de África. O petrodólar é um pilar do poder imperial americano. Kadhafi planeava atrevidamente promover uma divisa africana comum com base no ouro, instituir um banco para toda a África e promover uma união económica entre países pobres com recursos valiosos.

 Mesmo que isso não viesse a acontecer, só essa ideia era intolerável para os EUA, que se preparavam para "entrar" em África e subornar os governos africanos com "parcerias" militares.

 Na sequência do ataque da NATO, ao abrigo de uma resolução do Conselho de Segurança, Obama, como escreveu Garikai Chengu :
"confiscou 30 mil milhões de dólares ao Banco Central da Líbia, que Khadafi havia destinado ao estabelecimento de um Banco Central Africano e para a divisa dinar sustentada pelo ouro africano". [NR]
 A "guerra humanitária" contra a Líbia assentou num modelo querido dos corações liberais ocidentais, em especial dos media. Em 1999, Bill Clinton e Tony Blair mandaram a NATO bombardear a Sérvia, porque, mentiram eles, os sérvios estavam a praticar um "genocídio" contra os albaneses étnicos na província secessionista de Kosovo. David Scheffer, o embaixador americano itinerante para crimes de guerra [sic], afirmou que podiam ter sido mortos "225 mil albaneses étnicos entre os 14 e os 59 anos". Clinton e Blair evocaram o Holocausto e "o espírito da Segunda Guerra Mundial". Os heróicos aliados do Ocidente eram o Exército de Libertação do Kosovo (ELK), cujo registo criminal foi ignorado. O secretário do Foreign Office, Robin Cook, disse-lhes para lhe ligarem por telemóvel, sempre que quisessem.

 Com os bombardeamentos da NATO e grande parte das infraestruturas da Sérvia em ruínas, juntamente com escolas, hospitais, mosteiros e a estação nacional da TV, equipas forenses internacionais avançaram para Kosovo a fim de arranjar provas do "holocausto". O FBI não conseguiu encontrar uma única sepultura em massa e voltou para casa. A equipa forense espanhola fez o mesmo, e o seu chefe denunciou irritado "uma pirueta semântica feita pelas máquinas de propaganda da guerra". Um ano depois, um tribunal das Nações Unidas na Jugoslávia anunciou o total de mortos no Kosovo: 2788. Isto incluía combatentes dos dois lados e sérvios e romenos assassinados pelo ELK. Não houvera qualquer genocídio. O "holocausto" tinha sido uma mentira. O ataque da NATO fora fraudulento.


 Por detrás da mentira, havia um objectivo importante. A Jugoslávia era uma federação singularmente independente, multiétnica, que se tinha mantido como uma ponte política e económica durante a Guerra-fria. A maior parte das suas instalações e fábricas principais eram de propriedade privada. Isso não era aceitável para a Comunidade Europeia em expansão, especialmente para a Alemanha recém unida, que tinha começado a avançar para leste a fim de captar o seu "mercado natural" nas províncias jugoslavas da Croácia e da Eslovénia. Na altura em que os europeus se encontraram em Maastricht em 1991 para traçar planos para a desastrosa eurozona, foi feito um acordo secreto: a Alemanha iria reconhecer a Croácia. A Jugoslávia estava condenada.

 Em Washington, os EUA viam que à debilitada economia jugoslava foi recusado um empréstimo do Banco Mundial. A NATO, na altura praticamente uma relíquia quase defunta da Guerra-fria, foi reinventada como polícia imperial. Numa conferência de "paz" do Kosovo, em 1999, em Rambouillet, França, os sérvios foram submetidos às tácticas traiçoeiras dessa polícia. O acordo de Rambouillet incluía um Anexo B secreto, que a delegação dos EUA inseriu no último dia. Este exigia a ocupação militar de toda a Jugoslávia – um país com recordações amargas da ocupação nazi – e a implementação de uma "economia de mercado livre" e a privatização de todos os activos governamentais. Nenhum estado soberano podia assinar uma coisa daquelas. A punição seguiu-se rapidamente: as bombas da NATO caíram sobre um país indefeso. Foram as precursoras das catástrofes no Afeganistão e no Iraque, na Síria e na Líbia, e na Ucrânia.

 A partir de 1945, mais de um terço dos membros das Nações Unidas – 69 países – sofreram parte ou tudo aquilo que se segue às mãos do moderno fascismo da América. Foram invadidos, os seus governos foram derrubados, os movimentos populares suprimidos, as eleições subvertidas, as populações bombardeadas e as economias despojadas de toda a protecção, as sociedades sujeitas a um cerco debilitante designado por "sanções". O historiador britânico Mark Curtis avalia o total de mortes em milhões. Em todas as situações, foi montada uma enorme mentira.

"Esta noite, pela primeira vez desde o 11 de Setembro, terminou a nossa missão de combate no Afeganistão". Foram estas as palavras de Obama, na abertura do discurso de o Estado da União, em 2015. Na realidade, mantêm-se no Afeganistão 10 mil efectivos e 20 mil contratados militares (mercenários) em missões indefinidas. "A guerra americana mais longa da história está a chegar a uma conclusão responsável", disse Obama. Na verdade, foram mortos mais civis no Afeganistão em 2014 do que em qualquer outro ano desde que as Nações Unidas passaram a manter registos. A maioria foi morta – civis e soldados – durante a presidência de Obama.

 A tragédia do Afeganistão só tem igual no crime monstruoso da Indochina. No seu livro elogiado e muito citado "O grande tabuleiro de xadrez: o primado americano e os seus imperativos geoestratégicos (The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives), Zbigniew Brzezinski, o padrinho das políticas dos EUA desde o Afeganistão até aos dias de hoje, escreve que, se a América quiser controlar a Eurásia e dominar o mundo, não pode sustentar uma democracia popular porque "a busca do poder não é um objectivo que comande a paixão popular… A democracia é inimiga da mobilização imperialista". Tem toda a razão. Como a WikiLeaks e Edward Snowden revelaram, o estado de vigilância e policial está a usurpar a democracia. Em 1976, Brzezinski, na altura conselheiro de Segurança Nacional do presidente Carter, demonstrou o seu ponto de vista desferindo um golpe mortal contra a primeira e única democracia do Afeganistão. Quem conhece esta história vital?

 Nos anos 60, uma revolução popular varreu o Afeganistão, o país mais pobre da terra, acabando por derrubar os vestígios do regime aristocrático em 1978. O Partido Popular Democrático do Afeganistão (PPDA) formou um governo e declarou um programa de reformas que incluía a abolição do feudalismo, a liberdade de todas as religiões, direitos iguais para as mulheres e justiça social para as minorias étnicas. Foram libertados mais de 13 mil prisioneiros políticos e os arquivos policiais foram queimados em público.

 O novo governo instituiu cuidados médicos gratuitos para os mais pobres; foi abolida a servidão, foi lançado um amplo programa de alfabetização. Para as mulheres, os ganhos foram inauditos. No final dos anos 80, metade dos alunos da universidade eram raparigas e as mulheres eram quase metade dos médicos do Afeganistão, um terço dos funcionários públicos e a maioria dos professores. "Todas as raparigas", recorda Saira Noorani, uma cirurgiã, "podiam entrar na universidade. Podíamos ir onde quiséssemos e usar o que quiséssemos. Costumávamos ir aos cafés e ao cinema ver o último filme indiano à sexta-feira e ouvir as últimas músicas. Tudo começou a correr mal quando os mujaheddin começaram a ganhar. Matavam professoras e queimavam escolas. Ficámos aterrorizadas. Era cómico e triste pensar que eram estas as pessoas que o Ocidente apoiava".

 O governo do PPDA era apoiado pela União Soviética, apesar de, conforme posteriormente o antigo secretário de Estado Cyrus Vance reconheceu, "não haver provas de qualquer cumplicidade soviética [na revolução]". Alarmados pela crescente confiança dos movimentos de libertação em todo o mundo, Brzezinski decidiu que, se o Afeganistão conseguisse ter êxito com o PPDA, com a sua independência e progresso, isso iria constituir a "ameaça de um exemplo promissor".

 A 3 de Julho de 1979, a Casa Branca, secretamente, autorizou o apoio aos grupos tribais "fundamentalistas", conhecidos por mujaheddin, um programa que acabou por aumentar para 500 milhões de dólares por ano em armamento norte-americano e outro tipo de apoios. O objectivo era o derrube do primeiro governo laico e reformista do Afeganistão. Em Agosto de 1979, a embaixada dos EUA em Cabul, noticiou que "o principal interesse dos Estados Unidos… seria atingido com a queda [do governo do PPDA], apesar de quaisquer recuos que isso pudesse significar para as futuras reformas sociais e económicas no Afeganistão". Os itálicos são meus.

 Os mujaheddins eram os antecessores da al-Qaeda e do Estado Islâmico. Incluíam Gulbuddin Hekmatyar, que recebeu dezenas de milhões de dólares em dinheiro da CIA. A especialidade de Hekmatyar era o tráfico do ópio e atirar ácido à cara das mulheres que se recusavam a usar o véu. Convidado em Londres, foi elogiado pela primeira-ministra Thatcher como um "combatente pela liberdade".

 Estes fanáticos podiam ter-se mantido no seu mundo tribal se Brzezinski não tivesse desencadeado um movimento internacional para promover o fundamentalismo islâmico na Ásia Central e corroer assim uma libertação política secular e "desestabilizar" a União Soviética, criando, conforme ele escreveu na sua autobiografia, "alguns muçulmanos conflituosos". O seu grande plano coincidia com as ambições do ditador paquistanês, o general Zia ul-Hag, para dominar a região. Em 1986, a CIA e a agência de inteligência do Paquistão, o ISI, começaram a recrutar pessoas de todo o mundo para aderirem à jihad afegã. O multimilionário saudita, Osama bin Laden foi um deles. Operacionais que acabaram por se juntar aos talibãs e à al-Qaeda, foram recrutados numa faculdade islâmica em Brooklyn, Nova Iorque, e receberam formação militar num campo da CIA na Virgínia. Chamaram-lhe a "Operação Ciclone" . O seu êxito foi festejado em 1996, quando o último presidente PPDA do Afeganistão, Mohammed Najibullah – que fora pessoalmente à Assembleia Geral das Nações Unidas para pedir ajuda – foi enforcado num candeeiro pelos talibãs.



 O "ricochete" da Operação Ciclone e dos seus "muçulmanos conflituosos" foi o 11 de Setembro de 2001. A Operação Ciclone passou a ser a "guerra contra o terrorismo", em que perderiam a vida inúmeros homens, mulheres e crianças no mundo muçulmano, do Afeganistão ao Iraque, ao Iémen, à Somália e à Síria. A mensagem dos "polícias" foi e continua a ser: "Ou estão connosco ou são contra nós".

 A habitual ameaça do fascismo, no passado e no presente, é o assassínio em massa. A invasão americana do Vietname teve as suas "zonas livres de fogo", "contagem de corpos" e "danos colaterais". Na província de Quang Ngai, de onde enviei notícias, muitos milhares de civis ("gooks") foram assassinados pelos EUA; mas só se recorda um massacre, em My Lai. No Laos e no Camboja, o maior bombardeamento da história provocou uma época de terror marcado hoje pelo espectáculo de crateras unidas por bombas que, vistas do ar, parecem monstruosos colares. O bombardeamento deu ao Camboja o seu ISIS, chefiado por Pol Pot.

 Actualmente, a maior campanha de terror do mundo envolve a execução de famílias inteiras, de convidados em casamentos, de acompanhantes em funerais. Estas são as vítimas de Obama. Segundo o New York Times, Obama faz a sua selecção a partir de uma "lista de matança" da CIA que lhe é apresentada todas as terças-feiras na Sala da Situação da Casa Branca. Ele então decide, sem uma ponta de justificação legal, quem viverá e quem morrerá. A sua arma de execução é o míssil Hellfire transportado por um avião sem piloto conhecido por "drone"; estes assam as vítimas e engalanam a área com os seus despojos. Cada "ataque" ("hit") é registado num ecrã duma longínqua consola conhecida por "esmagador de insetos" (bugsplat).

"Os passos-de-ganso", escreveu o historiador Norman Pollock, "foram substituídos pela militarização aparentemente mais inócua da cultura total. Para o líder bombástico, temos o reformista falhado, a trabalhar jovialmente, planeando e executando assassínios, sorrindo todo o tempo".

 O que une o antigo fascismo e o novo é o culto da superioridade. "Acredito na excelência americana com todas as fibras do meu ser", disse Obama, fazendo lembrar declarações de fetichismo nacional dos anos 30. Como assinalou o historiador Alfred W. McCoy, foi Car Schmitt, admirador de Hitler, quem disse; "O soberano é ele que decide a excepção". Isto resume o americanismo, a ideologia dominante do mundo. Que isso continue a não ser reconhecido como uma ideologia predatória é a façanha duma igualmente não reconhecida lavagem ao cérebro. Insidiosa, não declarada, apresentada inteligentemente como uma iluminação, este conceito insinua-se na cultura ocidental. Eu cresci no meio duma dieta cinéfila da glória americana, quase toda ela uma distorção. Não tinha a menor ideia de que fora o Exército Vermelho que destruíra a maior parte da máquina de guerra nazi, com um custo de 13 milhões de soldados. Em contraste, as perdas dos EUA, incluindo as do Pacífico, foram de 400 mil. Holywood virou tudo ao contrário.

 A diferença agora é que as audiências do cinema são convidadas a retorcer as mãos com a "tragédia" de psicopatas americanos terem que matar pessoas em locais distantes – tal como o próprio Presidente as mata. A encarnação da violência de Hollywood, o actor e director Clint Eastwood, foi nomeado para um Óscar este ano pelo seu filme, "Sniper Americano", que é sobre um assassino paranóico autorizado. O New York Times descreveu-o como um "filme patriótico, pró-família que bateu todos os recordes de assistência nos primeiros dias de exibição".

 Não há filmes heróicos sobre a adesão da América ao fascismo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a América (e a Grã-Bretanha) foram para a guerra contra os gregos que se tinham batido heroicamente contra o nazismo e estavam a resistir à progressão do fascismo grego. Em 1967, a CIA ajudou a subida ao poder duma junta militar fascista em Atenas – tal como no Brasil e na maior parte da América Latina. Os alemães e os europeus de leste que se haviam conluiado com a agressão nazi e com os crimes contra a humanidade receberam um porto de abrigo seguro nos EUA; muitos deles foram apaparicados e os seus talentos recompensados. Wernher von Braun foi o "pai" da bomba terrorista nazi V-2 e do programa espacial dos EUA.

 Nos anos 90, quando as antigas repúblicas soviéticas, a Europa do leste e os Balcãs passaram a ser postos militares avançados da NATO, os herdeiros dum movimento nazi na Ucrânia tiveram a sua oportunidade., Responsável pelas mortes de milhares de judeus, polacos e russos, durante a invasão nazi da União Soviética, o fascismo ucraniano foi reabilitado e a sua "nova vaga" saudada pelo braço armado como "nacionalista".

 Isso atingiu o seu apogeu em 2014, quando a administração Obama gastou cinco mil milhões de dólares num golpe contra o governo eleito. As tropas de choque eram neonazis conhecidos como o Setor de Direita e Svoboda. Os seus líderes incluíam Oleh Tyahnybok, que apelou a um expurgo da "máfia moscovita-judaica" e "outra escumalha", incluindo homossexuais, feministas e os da esquerda política.

 Estes fascistas estão hoje integrados no governo golpista de Kiev. O primeiro presidente do parlamento ucraniano, Andriy Parubiy, líder do partido do governo, é cofundador do Svoboda. A 14 de Fevereiro, Parubly anunciou que ia a Washington pedir que "os EUA nos dêem armamento moderno de precisão". Se o conseguir, isso será considerado um ato de guerra pela Rússia.



 Nenhum líder ocidental comentou o reacender do fascismo no coração da Europa – com excepção de Vladimir Putin, cujo povo perdeu 22 milhões numa invasão nazi que entrou pela fronteira da Ucrânia. Na recente Conferência de Segurança de Munique, a subsecretária de Estado dos EUA para os Assuntos Europeus e Euro-asiáticos, Victoria Nuland, considerou uma ofensa que os líderes europeus se opusessem a que os EUA fornecessem armamento ao regime de Kiev. Referiu-se ao ministro alemão da Defesa como "o ministro para o derrotismo". Foi Nuland quem arquitectou o golpe em Kiev. Mulher de Robert D. Kagan, uma importante luminária neoconservadora e cofundadora do Projecto para um Novo Século Americano, da ala de extrema-direita, foi conselheira de política externa de Dick Cheney.

 O golpe de Nuland não correu conforme o planeado. A NATO foi impedida de se apoderar da base naval, histórica, legítima, de águas tépidas, da Rússia, na Crimeia. A população da Crimeia, de maioria russa – anexada ilegalmente à Ucrânia por Nikita Krushchev em 1954 – votou esmagadoramente pelo regresso à Rússia, conforme tinham feito nos anos 90. O referendo foi voluntário, popular e observado internacionalmente. Não houve qualquer invasão.

 Simultaneamente, o regime de Kiev virou-se contra a população de etnia russa no Leste com a ferocidade da limpeza étnica. Colocou milícias neonazis ao estilo das Waffen-SS, que bombardearam e cercaram vilas e cidades. Usaram a fome como arma, cortando a electricidade, congelando contas bancárias, suspendendo a segurança social e as pensões. Mais de um milhão de refugiados atravessaram a fronteira em direcção à Rússia. Nos media ocidentais, foram tratados como pessoas que fugiam da "violência" provocada pela "invasão russa". O comandante da NATO, general Breedlove – cujo nome e acções podiam ter sido inspirados pelo Dr. Strangelove de Stanley Kubrik – anunciou que estavam a "reunir-se" 40 mil tropas russas. Na era de provas forenses por satélite, não apresentou nenhuma.

 As pessoas de língua russa e as bilingues da Ucrânia – um terço da população – há muito que procuram uma federação que reflicta a diversidade étnica do país e seja autónoma e independente de Moscovo. A maior parte não são "separatistas" mas apenas cidadãos que querem viver em segurança na sua pátria e se opõem à tomada de poder verificada em Kiev. A sua revolta e a instituição de "estados" autónomos são uma reacção aos ataques de Kiev contra eles. Poucas destas coisas têm sido explicadas às audiências ocidentais.

 A 2 de Maio de 2014, em Odessa, 41 cidadãos de etnia russa foram queimados vivos na sede dos sindicatos, guardada por polícias. O líder do Sector de Direita, Dmytro Yarosh considerou o massacre como "mais um dia de glória na nossa história nacional". Nos media americanos e britânicos, foi noticiado como uma "tragédia sombria" resultante dos "choques" entre "nacionalistas (neonazis) e "separatistas" (pessoas que recolhiam assinaturas para um referendo sobre uma Ucrânia federal).
O New York Times enterrou a notícia e reduziu a "propaganda russa" os alertas sobre as políticas fascistas e anti-semitas dos novos clientes de Washington. O Wall Street Journal condenou as vítimas – "Fogo ucraniano mortal provavelmente ateado por rebeldes, diz o Governo". Obama felicitou a Junta pelo seu "comedimento".

 Se Putin puder ser provocado a ir em auxílio deles, o seu papel de "pária" pré-encomendado no Ocidente justificará a mentira de que a Rússia está a invadir a Ucrânia. A 29 de Janeiro, o supremo comandante militar da Ucrânia, o general Viktor Muzhemko, quase destruiu inadvertidamente a base das sanções dos EUA e da UE à Rússia, quando disse enfaticamente numa conferência de imprensa: "O exército ucraniano não está a combater contra unidades regulares do Exército russo". Havia "cidadãos individuais" que eram membros de "grupos armados ilegais", mas não havia nenhuma invasão russa. Não era novidade nenhuma. Vadym Prystaiko, o vice-ministro dos Estrangeiros de Kiev, apelara a uma "guerra em grande escala" contra a Rússia com armamento nuclear.

 A 21 de Fevereiro, o senador americano James Inhofe, um Republicano de Oklahoma, apresentou um projeto-de-lei que autorizaria armas americanas para o regime de Kiev. Na apresentação ao Senado, Inhofe usou fotografias que afirmou serem de tropas russas a entrar na Ucrânia, que há muito tinham sido denunciadas como falsificações. Fez recordar as fotos falsas de Ronald Reagan de uma instalação soviética na Nicarágua, e as provas falsas de Colin Powell à ONU de armas de destruição maciça no Iraque.

 A intensidade da campanha de calúnias contra a Rússia e a apresentação do seu presidente como o vilão duma pantomina não tem paralelo com nada do que já vi até hoje enquanto repórter. Robert Parry, um dos mais conhecidos jornalistas de investigação da América, que revelou o escândalo Irão-Contra, escreveu há pouco: "Nenhum governo europeu, desde a Alemanha de Adolfo Hitler, achou justo enviar tropas de choque nazis para entrar em guerra com uma população interna, mas o regime de Kiev fez isso e fê-lo reconhecidamente. No entanto, por todo o espectro media/político do Ocidente, tem sido feito um esforço brutal para esconder esta realidade, chegando ao ponto de ignorar factos que já estão solidamente estabelecidos… Se ficarem a pensar como é que o mundo pode encontrar-se numa terceira guerra mundial – tal como se encontrou na primeira guerra mundial há cem anos – basta olhar para a loucura na Ucrânia que se tem mostrado impenetrável aos factos ou à razão".

 Em 1946, o promotor público do Tribunal de Nuremberga afirmou quanto aos media alemães: "É bem conhecido o uso que os conspiradores nazis fizeram da guerra psicológica. Antes de cada agressão principal, com algumas excepções com base na conveniência, iniciavam uma campanha de imprensa, destinada a enfraquecer as suas vítimas e a preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque… No sistema de propaganda do Estado de Hitler, as armas mais importantes foram a imprensa diária e a rádio". No Guardian de 2 de Fevereiro, Timothy Garton-Asg apelou mesmo à guerra mundial. "É preciso fazer parar Putin", dizia o cabeçalho. "Por vezes só canhões podem fazer calar canhões". Reconhecia que a ameaça de guerra podia "alimentar uma paranóia russa de cerco", mas tudo bem. Ele mencionava o equipamento militar necessário para a tarefa e esclareceu os leitores de que "a América tinha o melhor equipamento".

 Em 2003, Garton-Ash, professor em Oxford, repetia a propaganda que levou à chacina no Iraque. "Saddam Hussein", escreveu, "armazenou, conforme [Colin] Powell documentou, grandes quantidades de terríveis armas químicas e biológicas e está a esconder o que resta delas. Continua a tentar arranjar as nucleares". Elogiava Blair como um "intervencionista gladstoniano, liberal cristão". Em 2006, escreveu: "Agora enfrentamos o maior teste do Ocidente, depois do Iraque: o Irão".
As explosões [de entusiasmo] – ou, como Garton-Ash prefere, a sua "torturada ambivalência liberal" – são típicas daqueles que pertencem à elite liberal transatlântica que fizeram um acordo faustiano. O criminoso de guerra Blair é o seu líder perdido. O Guardian, onde apareceu o artigo de Garton-Ash, publicou um anúncio de página inteira para um bombardeiro Stealth americano. Numa imagem ameaçadora do monstro de Lockheed Martin havia as palavras: "O F-35. ÓTIMO para a Grã-Bretanha". Este "equipamento" americano custará aos contribuintes britânicos 1,3 mil milhões de libras esterlinas, depois de os seus antecessores modelo-F terem chacinado por todo o mundo. Em coro com o anunciante, o editorial do Guardian defendia um aumento nas despesas militares.
Mais uma vez, há um objectivo profundo. Os dirigentes do mundo não querem a Ucrânia só como uma base de mísseis. Querem a sua economia. A nova ministra das Finanças de Kiev, Natalie Jaresko, é uma antiga funcionária sénior do Departamento de Estado dos EUA, encarregada do "investimento" dos EUA no ultramar. Foi-lhe concedida à pressa a cidadania ucraniana. Querem a Ucrânia por causa do gás abundante. O filho do vice-presidente Joe Biden faz parte da administração da maior empresa de petróleo, de gás e de refinação da Ucrânia. Os fabricantes de sementes geneticamente modificadas, empresas como a pérfida Monsanto, querem o rico solo agrícola da Ucrânia.

 Sobretudo, querem o poderoso vizinho da Ucrânia, a Rússia. Querem balcanizar ou desmembrar a Rússia e explorar a maior fonte de gás natural do planeta. Enquanto o gelo do Árctico se derrete, querem controlar o Oceano Árctico e as suas riquezas energéticas, e a longa fronteira terrestre do Árctico na Rússia. O seu homem em Moscovo era Boris Yeltsin, um bêbado, que entregou a economia do país ao Ocidente. O seu sucessor, Putin, restabeleceu a Rússia como uma nação soberana; o seu crime é esse.

 A responsabilidade de todos nós é clara, É identificar e denunciar as mentiras incessantes dos defensores da guerra e nunca pactuar com elas. É reacender os grandes movimentos populares que trouxeram uma frágil civilização aos modernos estados imperialistas. Mais importante ainda, é impedir a conquista de nós mesmos: dos nossos espíritos, da nossa humanidade, do nosso auto-respeito. Se nos mantivermos calados, a vitória sobre nós é garantida e um holocausto nos acena.
[NR] Não é caso único. Os EUA, após o golpe de Fevereiro de 2014 em Kiev, também roubaram as reservas-ouro do Banco Nacional da Ucrânia (40 t).