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sábado, 12 de março de 2016

Algumas coisinhas para ler sobre previdência e aposentadoria

Dizia-se que, com o desenvolvimento do capitalismo e o progresso técnico, a qualidade de vida da humanidade iria melhorar continuamente -- e os tolos acreditaram. No gráfico, a idade de aposentadora para homens (linha amarela) e mulheres (linha roxa) no Reino Unido, de 1984 a 2012. Animador, não?



1. A tese de doutorado de Eduardo Fagnani
2. A tese de doutorado de Denise Lobato Gentil
3. Esta publicação de Michael Roberts
4. O texto abaixo, de Robert Kurz

ECONOMIA DA POBREZA DOS IDOSOS


 O capitalismo só quer o melhor das pessoas: a sua energia vital, que tem de ser absorvida como “trabalho” criador de mais-valia. E o ideal seria 24 horas por dia, se possível fosse. As crianças, ainda não aptas para a valorização, são toleradas como potencial força de trabalho futura; mas os idosos já retirados são por princípio mera carga. Nos tempos do milagre econômico parecia que os sistemas de segurança social penosamente conquistados iam humanizar duradouramente esta lógica brutal, embora não para todos. Sobretudo as mulheres, devido aos “tempos sem desconto” para a reforma, por terem de ficar em casa a cuidar dos filhos, ou devido ao trabalho em tempo parcial, ficaram sujeitas à ameaça de pobreza na velhice, se não puderem contar com as reformas dos maridos. Sob as condições de valorização do capital marcadas pela crise na terceira Revolução Industrial e no decurso da globalização, há anos que todas as regalias sociais são agora desmanteladas, e em primeiro lugar a garantia das reformas. A fórmula para contagem das pensões já há muito que foi de tal modo reelaborada que deixou de acompanhar a inflação. Desde 2004 que a perda de poder de compra é mais acentuada para os reformados do que para os ativos. Mesmo o recente aumento extraordinário de 1,1 % nas reformas está muito aquém da taxa de inflação; com o seu contra-valor nem sequer uma salsicha se pode comprar.

 Não obstante, esta medida foi atacada pelos economistas e por parte da classe política, como “populismo” eleitoral táctico. O rendimento real dos pensionistas em queda ainda se mantém atualmente a um nível médio relativamente alto, graças aos anos com mais descontos. Mas no futuro próximo a situação vai ser dramaticamente alterada. Que este facto se deva à evolução demográfica, devido às fracas taxas de natalidade, nem sequer é meia verdade. A quebra de contribuições para a segurança social deve-se realmente ao desemprego em massa, concertado a longo prazo, e à também politicamente deliberada rápida expansão dos baixos salários. O aumento, ano após anos, da pobreza das pessoas “aptas para o trabalho” acarreta obrigatoriamente consigo, no futuro próximo, uma maior pobreza da velhice. O já acordado aumento da idade da reforma para os 67 anos de idade é uma medida sem pés nem cabeça no que respeita à política de emprego; já para nem falar da recente exigência do Bundesbank de elevar a idade da reforma para os 68,5 anos. Mas, uma vez que nos tempos que aí vêm o capital só está interessado no material humano jovem apto para a valorização, esta medida conduzirá sobretudo a um maior absentismo e, consequentemente, a um agravamento da pobreza da velhice.

 Contudo, mesmo para o futuro longínquo, não se pode contar que a diminuição da natalidade venha a provocar a falta de mão-de-obra. Descida de poder de compra implica descida de produção e a menor oferta de mão-de-obra será sobrecompensada pela racionalização tecnológica, ainda longe de esgotar. Porque o sistema de contribuição para as reformas está dependente da capacidade de emprego em massa do processo de valorização, o capitalismo regressa à brutalização contra os reformados. A advertência do antigo Presidente Federal, Herzog, contra uma “democracia dos reformados”, na qual “os mais idosos despojam literalmente os mais jovens”, segue esta lógica e pretende atirar jovens pobres contra idosos pobres. As potências materiais de riqueza já há muito que poderiam garantir bens alimentares e culturais suficientes para todos. Mas, porque o último naco de pão tem de passar por uma bem sucedida valorização do dinheiro, o capitalismo, neste sentido, não tem futuro.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A crise dos mercados emergentes retorna


por Michael Roberts para seu blog pessoal

 A mídia comercial está repleta de notícias sobre o colapso do mercado chinês de ações, a bolha de crédito e a queda iminente da economia chinesa. Bem menos anunciada é a perigosa desaceleração econômica e a já em desdobramento crise da dívida nas ''economias emergentes'' em geral.



 Pela primeira vez desde a crise dos mercados emergentes em 1998, todos os assim chamados BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estão em apuros. E também o estão toda a próxima série de economias ''em desenvolvimento'', como Indonésia, Tailândia, Turquia, Argentina, Venezuela etc.

 Anteriormente o aumento dos preços de commodities em petróleo, metais de base e alimentos levou a um crescimento rápido em muitas destas economias. Este, por sua vez, levou a uma enxurrada de capitais das economias capitalistas avançadas à procura de lucros mais elevados que aqueles disponíveis em suas economias de origem. 

 Mas o boom das commodities acabou. Os preços globais das commodities continuam a cair. O índice de preços de commodities da |Bloomberg, marcando ouro, óleo-cru e outras matérias-primas, está no seu ponto mais baixo desde 2002. Ele caiu 40% desde 2011. É mais um indicador de uma longa depressão e pressões deflacionistas na economia mundial (veja meu post, O espectro da deflação [e também Oil, the rouble and the spectre of deflation - A. M.]).  

 Isso ocorre em parte porque a Grande Recessão e a fraca recuperação posterior reduziram a demanda por energia e materiais industriais, e em parte porque o maior consumidor desses bens, a China tem visto o crescimento de sua economia desacelerar de dois dígitos para (''apenas'') 7% ao ano ou mesmo menos. A inflação em várias economias desenvolvidas na verdade deu lugar à deflação de preços (Europa e Japão). 

 A mais recente estimativa 'flash' da atividade empresarial a nível mundial, com base nos chamados índices de gerentes de compras, mostra que as economias emergentes estão em contração pela primeira vez por mais de 2 anos.



 O desemprego nos mercados emergentes aumento acentuadamente esse ano, revertendo uma tendência de queda de 6 anos, mesmo tempo em que caíra nos países desenvolvidos. Em todos os mercados emergentes, o desemprego aumentou para 5,7%, a partir de uma baixa cíclica de 5,2% em janeiro, o maior aumento desde a crise financeira global segundo dados compilados pelo J. P. Morgan.



 Durante o boom dos mercados emergentes, o capital fluiu para as economias emergentes e as empresas da Ásia e da América Latina se endividaram severamente. Agora o dinheiro está fluindo para fora, não entrando, e os lucros estão caindo como os preços de commodities e até mesmo as vendas de produtos high-tech. Investidores retiraram um valor líquido de 4,5 bilhões de dólares de fundos em moeda eletrônica na semana a partir de 30 de julho, de acordos com dados do EPFR, em comparação com 3.3 bilhões da semana anterior. Um total de 14,5 bilhões já havia sido resgatado dos fundos de ME nas três semanas anteriores sozinhas.



 As moedas em toda a Ásia estão caindo como pedrinhas.



  E os EUA estão preparados para aumentar sua taxa básica de juros em setembro, portanto os mercados emergentes podem sofrer mais instabilidade com o custo do serviço da dívida que se ergue em dólares. Uma crise de dívida está por vir.

 Os dados mais recentes sobre as reservas mundiais demonstram uma queda acentuada das reservas em dólares. As reservas de governos de mercados emergentes caíram enquanto esses governos experimentavam declínios em superávits comerciais e e economias domésticas fracas, levando a uma fuga de dinheiro.

 Os números Cofer do FMI, a medida para dados de reserva FX,  mostram que as reservas de mercados emergentes caíram por três trimestres consecutivos, a partir de um pico de 8.06 trilhões de dólares no final do segundo quadrimestre de 2014 para  7.5 trilhões por fim do primeiro quadrimestre de 2015.  Esses analistas calculam que em mercados emergentes as reservas caíram em 575 bilhões de dólares desde meados do ano passado, o maior declínio em 20 anos. O capital está fugindo dessas "economias emergentes" enquanto seus crescimentos reais do PIB abrandam e suas rendas caem.



 
 O banco de investimentos J. P. Morgan calcula que a dívida das sociedades não-financeiras em economias emergentes subiu de cerca de 73% do PIB antes da crise financeira (2008/9) para 106% no 4º quadrimestre de 2014. Este aumento de 34 pontos percentuais é enorme, com uma média de quase 5% a.a. desde 2007. Em pesquisa anterior, o FMI concluiu que um aumento da taxa de crédito em 5% ou mais em um único ano sinaliza o risco eventual de uma eventual crise financeira. Muitas economias emergentes registraram tal aumento desde 2007.  Daí a conclusão dos analistas de crédito, a Standard & Poor, que "chegamos a um ponto de inflexão no ciclo de crédito corporativo".

 Juntamente com o aumento da dívida estão caindo a rentabilidade e a demanda de consumo em mercados emergentes fora da China.



 A queda dos preços das commodities para as economias emergentes, o aumento da dívida corporativa, rentabilidade e demanda em queda, fugas significativas de capital e a probabilidade de que o FED vai aumentar sua taxa de juros neste outono/inverno vão aumentar os custos de serviço da dívida. É a mistura para um grave acidente/recessão na grande história de ''crescimento'' das economias ''emergentes''.




segunda-feira, 8 de junho de 2015

Rumo ao ''crash''?


Michael Roberts comenta sobre a especulação em torno dos últimos números de crescimento da China (artigo originalmente publicado aqui); tradução realizada pela página Café Socialista.



O crescimento reduz a marcha


 Há cerca de um mês, o Banco do Povo da China anunciou um corte em sua taxa de juros de referência, para algo ligeiramente acima de 5% ao ano. Esta foi a terceira redução da taxa desde novembro de 2014. O governo está claramente preocupado com a possibilidade de que a economia chinesa esteja reduzindo sua taxa de crescimento de tal forma que isso esteja a ameaçar a sua capacidade de prover emprego e rendimento suficientes para as multidões que seguem a fluir para as movimentadas cidades do país. Um falhanço na produção de crescimento e empregos poderia pôr em risco a condução que a elite chinesa impõe ao país.

 A economia chinesa cresce atualmente ao ritmo mais baixo desde o fim da crise financeira global e da Grande Recessão de 2009. Segundo os números oficiais, o crescimento no primeiro trimestre se reduziu para 7% ao ano sobre os doze últimos meses, contra 7,3% no trimestre anterior; e a maioria das estimativas não-oficiais apontam para um crescimento ainda menor. Além disso, tomava-se como dado que o produto chinês deveria crescer 8% ao ano, de forma a absorver a expansão e a migração da força de trabalho das zonas rurais para as cidades e fábricas. Afinal, por trás da impressionante ascensão econômica da está a maior migração humana da História. Até 2013, algo em torno de 269 milhões de habitantes das zonas rurais já haviam emigrado para as cidades, oferecendo mão-de-obra a custo reduzido e sustentando o crescimento urbano.

 A baixa no ritmo de crescimento é particularmente visível nos setores industriais. O valor adicionado na indústria, que é uma medida da produção manufatureira, atingiu os níveis da crise financeira [de 2009]. A produção industrial cresceu 5,6% em março, ante o mesmo mês do ano anterior - muito abaixo das expectativas dos economistas, de 6,9%. E o consumo também abrandou. As vendas a retalho cresceram 10,2% em março. Parece muito comparado com os padrões das principais economias capitalistas, mas é uma taxa menor do que a registrada durante a crise financeira.

 Acima de tudo, o principal indutor do crescimento - o investimento em ativo fixo, que é a medida dos recursos invertidos em grandes fábricas e projetos - cresceu 13,5% nos doze meses encerrados em março, depois de passar por um pico de 30% em 2009, muito embora a taxa atual ainda seja superior à registrada a princípios da década passada.

 Esta desaceleração é em parte o resultado de uma recuperação letárgica da economia mundial na Europa, no Japão e nos Estados Unidos - os destinos principais das exportações chinesas. Mas também é o resultado de uma política governamental deliberada de enfrentamento de uma imensa bolha imobiliária que se formou desde 2009. Esta bolha foi causada pelas baixas taxas de juros locais, pela imensa poupança acumulada pelos chineses ricos e pelo arrendamento e venda de terras, pelos governos locais, para a construção de habitações e cidades para a população urbana que brota por toda parte.

 Os bancos chineses, em busca de lucros, e administradores públicos corruptos, deram curso à uma imensa bolha imobiliária. O resultado foi uma elevação da dívida, tanto pública, oculta nos livros contábeis pelos governos locais, quanto privada, entre os incorporadores. A dívida, no momento, alcança 282% do PIB, segundo a McKinsey - uma taxa mais alta que a observada nos EUA. (1)

 Com o desmanche da bolha imobiliária, os chineses mais ricos se voltaram para a especulação no mercado bursátil. A Bolsa chinesa disparou. Mas isso já havia ocorrido antes. Entre 2005 e 2007, subiu 800%, para colapsar durante o "crash" financeiro global. Agora, subiu "apenas" 200% - pode, portanto, subir ainda mais.

 As bolhas chinesas - imobiliária e de ações - mostram que a grande expansão da indústria e do investimento ao longo dos últimos dez anos não foi repartida com equanimidade. Durante todo o período, a desigualdade de rendimento e riqueza subiu mais que em qualquer outra economia de porte, e a China apresenta um coeficiente de Gini superior a 0,40 - tão alto quanto o estadunidense e maior que o da maioria dos grandes países capitalistas.

 Há ampla evasão de impostos e fortunas são amealhadas em contas secretas pelos chineses super-ricos - mais uma vez revelada em relatórios vazados sobre os "pequenos príncipes chineses" (princelings), entre outros. Mais de uma dúzia de familiares dos mais altos líderes políticos e militares da China estão a fazer uso de empresas "offshore" localizadas nas Ilhas Virgens Britânicas, conforme revelam documentos oficiais divulgados. O cunhado do atual presidente chinês, Xi Jinping, e o afilhado do ex-primeiro-ministro Wen Jiabao estão entre os apadrinhados políticos que se servem desses paraísos fiscais. (2)

 Na verdade, enquanto o mundo se espanta com a subida de preço das ações chinesas, o dinheiro está a fugir silenciosamente do país no maior ritmo em pelo menos uma década Louis Kuijs, economista-chefe para a China do Royal Bank of Scotland, estima que a China perdeu US$300 mil milhões com as saídas financeiras ocorridas nos últimos seis meses encerrados em março passado. A Deltec International, uma empresa de investimentos das Bahamas, diz que as somas são ainda maiores. Isto expressa o temor que a elite chinesa tem da campanha anticorrupção posta em marcha pela liderança do Partido Comunista, bem como o medo dos investidores estrangeiros de que a bolha creditícia venha a estourar e a China faça uma "aterragem forçada" semelhante ao observado em 2008 no "capitalismo ocidental".

 Com US$ 3,73 milhões de milhões em reservas, não há risco da China ficar sem dinheiro. Mas a economia "mainstream" está confusa sobre os rumos da economia chinesa. Alguns media e economistas creem que a China está a caminhar para uma grande crise ou queda devido ao "superinvestimento" ("overinvestment"), uma reversão da bolha imobiliária impulsionada pelo crédito e uma espiral de créditos podres ocultos no sistema bancário. Por outro lado, alguns economistas acreditam que as autoridades chinesas serão capazes de engendrar uma "aterragem suave" por meio da facilitação do crédito e o financiamento da retirada das dividas do caixa nos balanços ("writing-off"), acumuladas ao longo dos anos.


Capitalismo?


 Por trás do debate sobre o futuro imediato há um outro: poderá a China continuar a crescer rapidamente através do investimento industrial, em infraestrutura e mais exportações, ou terá de migrar para uma economia de consumo, a importar mais e a fornecer produtos para uma "classe média ascendente", como as economias avançadas capitalistas supostamente o fazem? Os economistas do "mainstream" acham que isso não pode ser feito sem o desenvolvimento de uma economia "baseada no mercado", isto é, capitalismo - pois a "complexidade" duma sociedade de consumo somente pode funcionar sob o capitalismo e não sob a "mão-pesada" do planejamento econômico centralizado e com industrias estatais.

 Em minha opinião isto é uma incompreensão da natureza das tendências econômicas da China. Se examinamos as decisões do Terceiro Pleno do Partido Comunista Chinês, explicam-se melhor as coisas. (3) O Pleno emitiu uma resolução detalhada sobre o que a elite pretende fazer com o país nos próximos cinco a dez anos.(4) E esta não se comprometeu com nada parecido ao "capitalismo de livre mercado". Na melhor das hipóteses, acordaram-se alguns passos limitados voltados ao desenvolvimento das forças do mercado no sistema bancário (mais competição entre os bancos estatais) e na agricultura (algumas transações comerciais de propriedades); uma conversa vaga sobre "liberalização" de controles monetários e de capital mais à frente; algumas zonas econômicas especiais para o desenvolvimento de negócios das empresas estrangeiras; e permissão para companhias estrangeiras operar em alguns setores de serviços. E, é claro, haverá um relaxamento muito limitado da terrível política do filho único para as famílias e dos controles de movimentação das áreas rurais para as cidades (hukou), permitindo-se uma maior mobilidade rumo a cidades de menor porte.

 É tudo. Duas coisas chamaram a atenção por terem deixado de acontecer. Não houve qualquer mudança na filosofia geral do "socialismo com características chinesas" e, em consequência, na manutenção da hegemonia do setor estatal. Os elementos pró-capitalistas da elite chinesa pressionaram pela implementação das propostas contidas no extenso relatório do Banco Mundial sobre a China.(5) A primeira e mais enfática recomendação de "reforma" foi a privatização de empresas estatais. O Terceiro Pleno não deu em absoluto qualquer passo nessa direção. A outra mensagem clara é a de que não haverá mais democracia, tal como a transferência do controle de sistemas legais e de decisões, mesmo que locais, para o povo. Ao contrário: a liderança está a estabelecer serviços de segurança ainda mais repressivos, para monitorar e controlar a população e isolar qualquer dissidência.

 Portanto, nada há realmente, nas metas e políticas acordadas pela elite chinesa, que venha a alterar a natureza do modelo econômico, social e político do país A maior parte da liderança seguirá com um modelo econômico que é dominado por companhias estatais, conduzidas, em todos os níveis gerenciais, por funcionários graduados comunistas. Os mercados não ditarão as regras, e a lei do valor não dominará os preços, os salários ou o comércio doméstico. É óbvio que a lei do valor opera na China, mas principalmente através do comércio exterior, dos fluxos de capital (investimentos) e monetários, porém mesmo isso ocorre sob limites estritos, com movimentos apenas graduais para a ampliação desses limites.

 Poderá a elite continuar essa política "nem carne nem peixe" sem provocar uma crise ou um tropeço que a forçará a seguir pela "estrada do capitalismo", como o Banco Mundial e os elementos pró-capitalistas desejam? Terá de enfrentar uma erupção vinda de baixo, à medida que a classe trabalhadora urbana em rápida expansão comece a flexionar seus músculos para fazer valer sua voz na condução da sociedade?

 Bem, eu creio que não, pelo menos por enquanto. O FMI aparentemente pensa que a tendência da taxa de crescimento do produto chinês declinará gradualmente a apenas 6,3% em 2019 Outros são mais pessimistas. O Conference Board dos EUA previu, esta semana, que a tendência de crescimento do país após 2020 será tão-somente de 4% ao ano. Porém, mesmo essas previsões reconhecem que o PIB chinês continuará a crescer à taxa de 7% ao ano, pelo menos pelos próximos cinco anos. A população economicamente ativa ainda é crescente, embora deva atingir o pico por volta de 2020. Ainda há centenas de milhões de camponeses e trabalhadores rurais que terão de ser incorporados à indústria; e a China cada vez mais trata de absorver tanta matéria-prima quanto necessário para sustentar sua expansão industrial.

 John Ross, da Universidade de Xangai, assinalou que o crescimento industrial da China continua a ser verdadeiramente espantoso:

"Nos dados do Banco Mundial, a produção industrial chinesa e 2007 era apenas 60% da registrada nos Estados Unidos. Em 2011, correspondia a 121%. Assim, em apenas seis anos a China partiu de um produto industrial correspondente a menos de dois terços do produto dos EUA, ultrapassando-o por uma margem substancial. Em seis anos, o produto industrial chinês praticamente dobrou, enquanto a produção industrial nos EUA, Europa e Japão sequer atingiu os níveis pré-crise." (6)

 O grande "milagre econômico" chinês ainda não se esgotou.

Notas

(1) The McKinsey Institute, ‘Debt and (not much) deleveraging’, February 2015.
(2) Estas são as últimas revelações feitas por ‘Offshore Secrets’, um esforço de reportagem de dois anos, conduzido pelo Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo (ICIJ, em inglês), que obteve mais de 200 gigabytes de dados financeiros vazados de duas empresas das Ilhas Virgens Britânicas e dividiu a informação com o jornal The Guardian e outros provedores internacionais de notícias. Os documentos também revelam o papel central de grandes bancos e empresas de auditoria ocidentais, incluindo PricewaterhouseCoopers, Credit Suisse e UBS no mundo das companhias offshore, atuando como intermediários no estabelecimento dessas empresas. Entre US$ 1 e US$4 milhões de milhões em ativos não rastreados deixaram a China desde 2000, segundo estimativas (http://www.icij.org/offshore/leaked-records-reveal-offshore-holdings-chinas-elite).
(3) http://wiki.china.org.cn/wiki/index.php/Third_Plenum.
(4) http://chinacopyrightandmedia.wordpress.com/2013/11/15/ccp-central-committee-resolution-concerning-some-major-issues-in-comprehensively-deepening-reform.
(5) World Bank China 2030: www.worldbank.org/en/news/2012/02/27/china-2030-executive-summary.
(6) http://ablog.typepad.com/keytrendsinglobalisation/2013/09/china-has-overtaken-the-us.htm.

O blog de Michael Roberts: https://thenextrecession.wordpress.com.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Thatcher: não havia alternativa


Artigo do economista marxista britânico Michael Roberts para seu blog, The Next Recession



 A era Thatcher durou de 1979 a  1990. Muito se fala do ''thatcherismo'' como algum tipo de força contrarrevolucionária a serviço do capital, largamente aclamada por seus apoiadores como salvadora da Grã-Bretanha para o capitalismo, ou ao menos de livrá-la do desastre. A verdade, porém, é que o thatcherismo foi apenas um fio de uma mudança geral na estratégia econômica forçada sobre o capital pela crise em que as principais economias capitalistas haviam entrada até o final da década de 1970. Essas economias tinham experimentado uma redução constante e acentuada da rentabilidade (taxa média de lucro) do capital a partir de meados dos anos 1960 em diante. Isso foi resultado da retração dos mercados de trabalho -- já não fornecidos com influxos de mão-de-obra barata de desempregados após a guerra ou uma rapidamente crescente população trabalhadora ''baby-boomer''. E também houve um aumento do nível de investimento em tecnologia em relação ao trabalho que  menos bem no aumento da produtividade do trabalho.

 De acordo com meus próprios cálculos, entre 1963 e 1975 a taxa média de lucro para a economia inteira do Reino Unido caiu de 28% a partir de cerca de 26% para 19%. A taxa de exploração [da força de trabalho i.e. taxa de mais-valia] caiu 20%, enquanto a composição orgânica do capital (a relação entre o custos de equipamento e tecnologia e os do trabalho) aumentou 20%. Esse foi um clássico período de crise para o capitalismo, explicado pela teoria econômica marxista. Veja meu livro, A Grande Recessão, para mais detalhes.







 Ocorreu o mesmo fenômeno nos Estados Unidos, no Japão e em muitas partes da Europa. Algo tinha de ser feito -- como a própria Thatcher disse: ''não há alternativa'' [There Is No Alternative -- TINA]. A única saída era destruir o poder do trabalho e mudar a distribuição do valor criado pelo trabalho para o capital, ou seja, aumentar a taxa de mais-valia como compensação para a queda na taxa de lucro. Além disso, em muitas das principais economias houve uma necessidade de destruir o valor de antigos capitais e indústrias. Eles seriam muito mais produtivos e rentáveis com novas tecnologias e com mão de obra mais barata em outros lugares. O objetivo era acabar com a produção de muitas indústrias pesadas e de transformação nas economias capitalistas maduras e transferi-las para aqueles como o Leste asiático e a China, onde a rentabilidade era muito maior (em outras palavras, a globalização).

 Essa estratégia requereu uma nova ideologia baseada nos assim chamados ''livres mercados'' e um rompimento com a ''economia mista'' de tipo keynesiano, onde os governos provinham algum nível de bem-estar e serviços públicos e ''intervinham'' na produção capitalista pelo ''bem comum''. Mas como Thatcher infamemente disse, ''não há sociedade''. Acima de tudo, acabar com o poder do trabalho, reduzir o custo do Estado por meio de privatizações e, no caso do Reino Unido e EUA, desenvolver uma economia baseado em serviços financeiros (rentista) eram as tarefas. Isso exigiu líderes com nervo e compromisso -- Thatcher foi uma, mas Reagan também o foi a seu próprio modo.

 Mas o que é frequentemente esquecido é que essa contrarrevolução para salvar as economias capitalistas maduras começou mais cedo que com Thatcher ou Reagan. A era neoliberal, ao menos para o Reino Unido, começou em meados dos anos 70. Os dados confirmam isso. A taxa de lucro do Reino Unido chegou ao fundo em 1975, durante a primeira recessão mundial simultânea de 1974-1975. O governo trabalhista sob PM Callaghan e a Chanceller Healey reagiram a esta crise que forçou o Reino Unido a pedir ajuda do FMI em 1976 iniciando a longa luta para reduzir os gastos do governo, espremer salários e reduzir a indústria. Como Callaghan pôs sem rodeios para à conferência trabalhista na época: ''Nós costumávamos pensar que você poderia atravessar o caminho para sair de uma recessão e aumentar o emprego cortando impostos e aumentando os gastos do governo. Digo-vos com toda a franqueza que esta opção não existe mais e que, até agora, uma vez que já existiu, só funcionou em cada ocasião desde a guerra injetando uma dose maior de inflação na economia, seguido por um nível maior de desemprego no próximo passo''. A economia keynesiana foi rejeitada primeiro pelo Partido Trabalhista e não por Thatcher.

 A terrível crise global de 1980-2 fez, ainda melhor do que Thatcher, o trabalho de aumentar o desemprego a novos níveis, reduzindo salários reais e fechando velhas e improdutivas (ou seja, não lucrativas) indústrias e instalações. Em 1982, a fabricação no Reino Unido foi dizimada. Thatcher meramente presidiu o colapso e, em seguida, deu continuidade ao processo durante o boom subsequente ao privatizar o que restou. Ela garantiu que isso acontecesse esmagando qualquer resistência do trabalho por meio da abolição do salário minimo e a introdução de uma legislação antissindical draconiana imposta por uma força policial cínica e corrupta. Essas transformações no mercado de trabalho, concluiu Thatcher, ''liberaram a gestão mais uma vez para gerenciar e assim garantiu que o investimento fosse novamente considerado como a primeira chamada para os lucros, ao invés da última''.

 Ao mesmo tempo, a desregulamentação dos serviços financeiros (que ficou conhecido como ''Big Bang'') mudou o foco da indústria para as finanças. Isso fez de Londres a capital financeira da Europa, senão do mundo, embora o setor bancário inglês fosse dizimado, uma vez que a maioria das principais instituições financeiras operando agora na cidade são norte-americanas ou europeias.

 Então, de 1975 a 1996 a taxa de lucro no Reino Unido subiu 50% e mesmo a composição orgânica do capital tendo subido 17% (especialmente nos anos 90), a taxa de exploração da força de trabalho aumentou 66%! Se isolarmos apenas os dias de Thatcher, é a mesma história: a taxa de lucro subiu 22%, tecnologia e instalações foram dizimadas (caindo a composição orgânica em 3%), mas a taxa de exploração aumentou 20%. Os anos Thatcher foram devastadores para o trabalho, mas o processo já havia começado sob os trabalhistas e continuou até meados de 1990.

 Há dois mitos que os apoiadores do capitalismo gostam de proclamar sobre os anos de Thatcher. O primeiro é que o crescimento foi muito melhor sob sua gestão que antes ou depois e permitiu ao Reino Unido competir com outras economias capitalistas. Mesmo Paul Krugman parece aceitar isso em seu último post: ''Eu penso que é um fato que as alterações de Thatcher nos impostos, regulação do trabalho etc. criaram uma economia mais flexível, que tornou os bons anos sob Blair possíveis''. Bem, é verdade que entre 1982 e 1997 o Reino Unido teve um crescimento real do PIB melhor que entre 1965 e 1982, quando a taxa média de lucro estava despencando. Mas o crescimento econômico (e a rentabilidade) estava longe de ser tão alto quanto entre 1946 e 1965, no Reino Unido e em todas as economias capitalistas avançadas.

 A ''Era de Ouro'' para o capitalismo foi na década de 1960 e não na de 1980 -- e a Era de Ouro também foi quando as taxas de imposto de renda progressivas estavam operando (uma taxa máxima de 99% nos Estados Unidos sob Eisenhower em fins da década de 1950); havia bolsas de estudo no Reino Unido para o ensino superior (sem taxas e empréstimos); as pensões foram equiparadas aos salários médios; setores importantes da economia, como água e energia, estavam sob o controle do Estado (incluindo o Banco da Inglaterra) e o desemprego era relativamente baixo. Os anos Thatcher não alcançaram tais conquistas de forma alguma.




 Na verdade, se não fosse por um golpe de sorte, a descoberta e aproveitamento de petróleo do Mar do Norte e do gás no final de 1970, a economia do Reino Unido teria se saído muito pior e não teria feito melhor que na década de 1970.  Foi uma pequena janela de boom do petróleo que permitiu ao Reino Unido competir com aqueles como EUA e Alemanha. Mais uma vez isso começou antes de Thatcher, mas o governo dela foi o que mais se beneficiou já que os preços do petróleo aumentaram fortemente até 1986. Houve um crescimento insignificante da produção industrial entre 1973 e 1993. E, claro, a indústria de energia elevada de capital intensivo, criou poucos empregos, apenas grandes lucros. O setor primário como um todo foi responsável por 4,3% do PIB em 1973. O crescimento na extração do petróleo no Mar do Norte na década de 1980 resultou em um aumento de 6,7%.



 

  Outro mito é o controle dos gastos públicos. Nesses dias de ''austeridade'', é irônico que a era Thatcher na verdade não tenha visto muito de uma redução de uma redução nos gastos do governo ou da tributação, ao menos em relação ao PIB. Na verdade, este fato é lamentado por estrategistas da direita hoje. Como mostra a tabela abaixo, os impostos como proporção do produto interno bruto na Grã-Bretana de fato aumentaram acentuadamente durante os sete primeiros anos da Sra. Thatcher no poder, antes de caírem em seus últimos anos. Mesmo no final eles eram significativamente maiores do que quando ela assumiu o cargo. Os gastos também aumentaram durante seus primeiros sete anos antes de cair em seus últimos. Redução da carga fiscal, o mantra do atual governo, nunca foi aplicada sob Thatcher.





 Embora o governo Thatcher tenha cortado a taxa de imposto de renda pessoal superior de 83% para 60% imediatamente após ocupar o gabinete, a alíquota do imposto de base só foi reduzida de 33% para 30%. E em 1980, a taxa básica de tributação de 25% foi eliminada, de forma que 30% tornou-se a taxa de imposto mais baixa. E a sra. Thatcher pagou por seu corte de impostos em 1979 praticamente dobrando o IVA de 8 para 15%. Como um comentador de direita pôs, ''o efeito do programa Thatcher tem sido um aumento substancial na tributação sobre praticamente todos os contribuintes''.

 O resultado real da redução das taxas de imposto de renda para pessoas com renda superior e abolição de impostos sobre ganhos de capital, redução da tributação sobre patrimônio mas aumento dos impostos sobre o consumo foi o aumento das desigualdades de renda e riqueza. Mas a principal razão para o aumento da pobreza e os níveis elevados de desigualdade agora, apenas acompanhados pelos dos EUA, foi a dizimação de empregos seguros bem-pagos na indústria e na sua substituição por empregos inseguros e de baixa remuneração no setor de serviços. E claro, houve o aumento maciço de dos rendimentos e da riqueza para a elite no setor de serviços financeiros. E todos nós sabemos como isso terminou em lágrimas.

 Thatcher fez seu trabalho destruindo milhões de empregos britânicos, rendas e vidas com entusiasmo, dedicação e arrogância. Mas, nos interesses do capitalismo, não há alternativa.




*Alguns dados adicionais sobre a gestão Thatcher:

''Nos dois primeiros anos do novo governo, os impostos aumentaram, os salários reais caíram e o PIB reduziu-se em 3,5%. O que é pior, a produção manufatureira caiu em 14% no mesmo período e a taxa de emprego caiu na mesma proporção... Depois da queda inicial, a recuperação foi lenta, especialmente na indústria manufatureira. A produção não alcançou os níveis daquela de 1979 até 1987 e a taxa de emprego continuou a cair. A taxa de desemprego geral cresceu, de cerca de 4% para mais de 10%, e continuou em tal nível até 1987-1988, quando começou a declinar lentamente.'' (Humprey, in: Soares, R. M. (org.). Gestão da empresa, automação e competitividade. Brasília, IPEA/IPLAN, 1990 [p.216]. 

 Margaret Thatcher nunca ganhou mais que 40% dos votos em qualquer eleição e a maioria dos eleitores votaram contra ela em todas as eleições.

domingo, 15 de março de 2015

O espectro da deflação




Michael Roberts
–  A desaceleração na maioria das economias junto de uma forte queda dos preços energéticos aumentou a ameaça da deflação nas principais economias mundiais.

A queda brutal dos preços da energia e de outras matérias-primas no final de 2014 derrubou a taxa geral de inflação dos preços de todos os produtos. Junto de um crescimento mais rápido do PIB e do emprego nos EUA, parece surgir um cenário mais otimista em 2015 para o capitalismo. A redução dos preços da gasolina significa que os lares norte-americanos e de outros países podem gastar mais dinheiro em outros produtos e, assim, impulsionar a demanda.

Este é o argumento dos otimistas entre a maioria dos analistas. Um argumento que tem em Gavyn Davies, ex-economista chefe do Goldman Sachs e agora colunista do Financial Times um dos expoentes mais notáveis. Conforme ele afirma: “Depois de vários anos nos quais uma demanda insuficiente limitou seriamente a atividade na economia mundial, forçando repetidas reduções das previsões de crescimento, 2015 deveria ser melhor. Preços do petróleo mais baixos e um pacote de política econômica fiscal/monetária mais favorável à demanda deveriam produzir um crescimento mais rápido do que a demanda agregada… Este será o ano em que se começará a absorver o excesso de capacidade da economia mundial”.

Davies apoia este prognóstico na aparente recuperação da demanda e do emprego nos EUA. Com um crescimento “potencial” em longo prazo nos EUA, de mais ou menos de 1,7%, Davies espera que a economia norte-americana cresça de alguma forma acima dessa cifra em 2015. Reconhece que a zona do euro e o Japão estão lutando para evitar uma nova recessão, mas espera que o Banco Central Europeu (BCE), aplique a flexibilização quantitativa, apesar de ser “muito duvidoso que seja suficiente para reestabelecer as expectativas de inflação até o objetivo do BCE, tendo em conta que a inflação geral se reduzirá a zero à medida que os efeitos do preço do petróleo se ampliem através do sistema.”

Entretanto, o crescimento do PIB real deveria melhorar em 2015. Quanto às economias emergentes, é possível que a China esteja desacelerando, mas ainda consegue crescer em 6-7% ao ano, razão por que o crescimento global mundial alcançaria 3%, acima de 2014.

A única consideração sobre este prognóstico que posso fazer é que está cheio de falhas. Um crescimento do PIB real mundial de somente 3% não pode exatamente ser chamado de boom. E depende de a China não reduzir seu crescimento, de a Europa e o Japão evitaram uma depressão deflacionários e de os Estados Unidos continuarem aumentando seu crescimento à medida que os consumidores gastem uma parte de suas rendas adicionais que obtêm graças à queda dos preços da gasolina.

Se levarmos em conta que os dados publicados na primeira semana do ano em todo o mundo, a imagem não é nada alentadora para os prognósticos de Davies. Por exemplo, a Alemanha é o único motor do crescimento na zona do euro. Os pedidos das fábricas caíram 2,4% em novembro, muito mais do que o esperado. A produção industrial da Alemanha também é muito mais fraca do que os economistas haviam prognosticado em novembro, caindo 0,1% em relação ao mês anterior. Agora está caindo a uma taxa de 0,5% ao ano.

A produção industrial e a construção do Reino Unido também diminuíram inesperadamente em novembro, caindo 2% ao mês, muito longe das expectativas de um rebote depois da contração de outubro. A construção está crescendo 3,6% ao ano – muito abaixo da expectativa de 6,7%. É um sinal de que o motor do crescimento no Reino Unido em 2014, o boom imobiliário, está se esgotando.  A produção industrial francesa também caiu no ano passado em novembro 0,3%, depois de uma diminuição de 0,8% em outubro.

A economia dos Estados Unidos é agora o motor do crescimento mundial. No ano passado, seu PIB real cresceu em termos absolutos mais do que qualquer outra economia, incluindo a da China. Contribuiu em 18% do crescimento do PIB real mundial, mais do que qualquer outra economia. Mas o crescimento dos Estados Unidos será suficiente para estimular o resto do mundo? Bem, as últimas cifras de pedidos de bens manufaturados não foram promissoras. Em novembro, caíram 0,7%, razão por que a cifra interanual se reduziu em 1% em comparação com um aumento de 2,1% em outubro.

Os números do emprego de dezembro nos EUA foram publicados recentemente. A cifra total de 252 mil parece bastante boa e, em 2014, o número de postos de trabalho aumentou mais do que em qualquer outro ano desde 1999. A taxa de desemprego encerrou o ano em 5,6%, o número mais baixo desde a Grande Recessão. Mas se for comparado com a população economicamente ativa, a porcentagem de norte-americanos com emprego ou que procuram emprego caiu para a cifra mais baixa das últimas três décadas, 62,7% em dezembro.


E o nível de desempregados de longa duração permanece bem acima que antes da Grande Recessão.



Mais importante ainda, a renda média por ano aumentou somente em 2,3% em 2014. Em comparação, os salários dos trabalhadores cresceram 3,7% em 1999, após 4% em 1998. De forma que mais postos de trabalho não trouxeram melhores salários e melhores ingressos reais para os trabalhadores. De fato, em novembro, a renda por hora para os empregados do setor privado foram reduzidas em cinco centavos, ficando em 24,57 dólares, marcando a maior queda mensal desde 2006. O que parece estar acontecendo é que os novos postos de trabalho foram criados em setores de baixa remuneração, como o comércio de varejo e o trabalho de meia jornada nos períodos de férias. Estes novos trabalhadores recebem menores salários.


Entretanto, as horas trabalhadas semanalmente pelos empregados alcançou seu nível mais alto após a recessão, de forma que a renda semanal se recuperou. Em suma, há mais emprego, mas se paga menos, e então as pessoas querem fazer hora extra para conseguir mais dinheiro.

Em todo o mundo, os últimos índices de atividade econômica sugerem uma desaceleração, não uma aceleração. No seguinte gráfico, construiu-se um índice composto a partir dos Índice de Gerente de Compras Industrial (PMI).

Parece-me que as economias capitalistas desenvolvidas ainda estão se expandindo (acima do nível 50), mas em um ritmo muito mais lento do que no verão passado, enquanto as economias emergentes (incluindo a China) não estão se desacelerando. Ocorre que a economia mundial avança com um ritmo mais baixo do que há um ano.



Apesar de Gavyn Davies estar otimista em relação ao crescimento econômico mundial em 2015 graças a uma demanda “superior”, Tim Adam, presidente do Instituto de Finanças Internacionais, um grupo que representa os bancos, fundos de pensões e as maiores companhias de seguros do mundo, afirma: “A pergunta é ‘pode o efeito da riqueza alimentado pela liquidez da economia dos Estados Unidos proporcionar o motor do crescimento da economia mundial?’… Pode se chegar a ter uma perspectiva bastante pessimista sobre o crescimento mundial se levarmos em conta todas estas considerações”.

A desaceleração na maioria das economias junto de uma forte queda dos preços energéticos aumentou a ameaça da deflação nas principais economias capitalistas, pela primeira vez desde a Grande Depressão da década de 1930. Em dezembro, a zona do euro caiu em deflação pela primeira vez em mais de cinco anos. O Japão está quase nela e as taxas anuais de inflação dos Estados Unidos e do Reino Unido está muito abaixo dos objetivos de seus bancos centrais de 2% ao ano!



A revista The Economist está preocupada (http://www.economist.com/news/briefing/21627625-politicians-and-central-bankers-are-not-providing-world-inflation-it-needs-some). Seu texto explica: “a queda dos preços do petróleo se deve em parte a uma maior oferta, mas também é resultado da desaceleração do crescimento em todo o mundo. A falta de apetite da China para as matérias-primas afetou os provedores dos mercados emergentes com uma especial dureza. E uma queda dos preços induzida pela energia, apesar de positiva para o poder aquisitivo para os consumidores, corre o risco de reforçar as expectativas de menos inflação em geral; é parte da natureza perniciosa da ameaça que tais expectativas se confirmem por si só facilmente”.

Apesar de os preços mais baixos da energia poderem beneficiar os lares médios reduzindo suas despesas, permitindo que gastem mais com outras coisas, isso exerce uma pressão para reduzir a rentabilidade da produção capitalista. O que poderia alentar a introdução de novas tecnologias para reduzir os custos. Mas há poucos indícios disso nas principais economias capitalistas. Os produtores de energia estão reduzindo o investimento em nível mundial (cerca de 40% do investimento total de capital), mas outros setores não estão compensando isso com aumentos em novos investimentos.

Pelo contrário, a maioria das empresas capitalistas continua tentando aumentar a rentabilidade mediante o aumento das margens de benefício, reduzindo e congelando salários. Um recente documento de trabalho do Banco da Reserva Federal de São Francisco defende que a “rigidez dos salários” teria obstacularizado a capacidade das empresas norte-americanas de ajustar seus custos durante a Grande Recessão (http://www.frbsf.org/economic-research/publications/economic-letter/2015/january/unemployment-wages-labor-market-recession/). O documento defende que os salários foram mantidos “muito altos”, e por isso as empresas preferem não aumentar os salários em momentos de recuperação.

Mas, se a demanda de vendas e os aumentos de preço precisarem ser freados de novo, isso poderia implicar em uma demanda “contida” para diminuir mais postos de trabalho. O que poderia paralisar a melhora no mercado de trabalho nos Estados Unidos.

O outro problema da baixa inflação e/ou da deflação é que o valor real da dívida existente acumulada pelas empresas e lares aumenta, e se o FED continuar com seu plano de elevar as taxas de juros no final deste ano, o custo dos juros do serviço da dívida se elevará, afetando a capacidade de investir das empresas e de gastar dos lares. Desde que a crise financeira eclodiu em 2008, o mundo se moveu muito mais; a dívida pública e privada total chegou a 272% do PIB do mundo desenvolvido em 2013, segundo documento “Relatório Anual de Genebra sobre a Economia Mundial”.

O Banco Central Europeu anunciará em breve uma nova rodada de injeções de crédito planejada para proporcionar dinheiro para investir ou gastar praticamente grátis aos bancos e às grandes corporações. Até agora, a flexibilização quantitativa no Japão, Europa e até nos EUA não conseguiu convencer como uma arma capaz de evitar que as economias caiam em deflação o se desacelerem. O espectro da deflação continua sendo uma ameaça real.





Michael Roberts
é um renomado economista marxista britânico que trabalhou por 30 anos na City Londinense como analista econômico. Escreve em seu blog The Next Recession.

Tradução de Daniella Cambaúva

Texto postado originalmente em:

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/O-espectro-da-deflacao/7/32708

quarta-feira, 11 de março de 2015

O BCE, a QE e a fuga à estagnação



Artigo de Michael Roberts para seu blog, The Next Recession; tradução do site resistir.info


 O anúncio de Mário Draghi na reunião do conselho de administração de 22/Janeiro do Banco Central Europeu (BCE) de que este e os bancos centrais nacionais da zona Euro injetariam €1,1 milhão de milhões de crédito novo ao longo dos próximos 18 meses nos bancos da área certamente teve um resultado rápido. O Euro caiu numa queda de onze anos contra o dólar estadunidense.





 O BCE finalmente aderiu ao Federal Reserve, ao Banco da Inglaterra e ao Banco do Japão naquilo que é chamado sem rodeios como facilidade quantitativa (quantitative easing, QE). Isto é, a compra direta pelos bancos centrais de títulos de governos, corporações e imobiliários pagos por meio de "impressão de dinheiro", ou mais precisamente criando eletronicamente reservas de dinheiro em bancos.

 Até agora, o BCE evitara fazer esta QE e, ao invés, meramente emprestava dinheiro ou crédito aos bancos por períodos de tempo cada vez maiores (agora de até três anos) a taxas de juro virtualmente de zero. O governo alemão e os da Europa do Norte opunham-se à compra de títulos da Irlanda, Espanha, Portugal, Itália e Grécia, os governos perdulários. Eles temiam que tais compras permitissem a estes governos gastarem como quisessem e colocarem em risco o contribuinte alemão em decorrência de quaisquer incumprimentos sobre esta dívida.

 Mas tamanha tem sido a estagnação da maior parte das economias da zona Euro e a perspectiva crescente de deflação absoluta que os alemães, holandeses e finlandeses foram persuadidos, a patear e a gritar, a que o BCE deve arriscar e comprar títulos italianos e espanhóis detidos por bancos, companhias de seguros, fundos de pensões e hedge funds e esperam que isto ajude a por em movimento a economia da zona Euro e evitar a deflação.

 Como expliquei na minha mensagem anterior ( https://thenextrecession.wordpress.com/2015/01/11/the-spectre-of-deflation/ ) e também agora num artigo para o Weekly Worker desta semana ( http://www.weeklyworker.co.uk/worker/1042/the-spectre-of-deflation/ ), há o espectro da deflação a pairar sobre a Europa, o qual poderia arrastar toda a região a uma depressão profunda e a uma euro crise renovada. Assim, esta ação era necessária.

 O pacote de Draghi é muito maior do que o esperado, injetando a cada mês fundos equivalentes a 0,6% do PIB da zona Euro. Isto é muito mais, em termos relativos, do que qualquer outro programa QE do Fed, do BdI ou do BdJ.



Para os dubitativos São Tomés alemães houve uma folha de parreira: que 80% do suposto risco das novas compras de dívidas governamentais seria remetida a bancos centrais nacionais e não partilhada pelo Eurosistema. Mas isso é uma ilusão: se qualquer banco central nacional entrar em perturbação devido a perdas com a compra dos títulos do seu próprio governo, o BCE teria de salvá-los de qualquer forma.

Assim, a pergunta real é: será que esta enorme QE levantará a economia da zona Euro da sua depressão quase deflacionária? Bem, ela certamente está a conduzir Euro para baixo. Isso ajudará exportadores da zona Euro a competirem nos mercados mundiais contra os da Suíça, EUA e alguns produtores asiáticos. Mas como a maior parte das exportações de cada estado membro da União Monetária Europeia (UME) são diferentes uns dos outros, um euro mais fraco não será suficiente para fazer com que as coisas andem.

A menos que os salários reais (os quais têm estado a cair na maior parte das economias da zona Euro) e o investimento em negócios (os quais permanecem estagnados na maior parte das economia da zona Euro) comecem a subir, não haverá escapatória à estagnação e à depressão. E a QE não fará isso, como expliquei com mais pormenor numa mensagem anterior ( http://thenextrecession.wordpress.com/2014/11/02/the-story-of-qe-and-the-recovery/ ). Desde a utilização do QE a partir de 2010 por vários bancos centrais, o crescimento global tem permanecido fraco e com tendência baixa e a recuperação no emprego e no investimento tem sido fraca apesar de uma enorme impressora eletrônica de dinheiro. O crescimento econômico real não tem correspondido.

É a procura por crédito ou dinheiro que conduz a oferta monetária, não a oferta a criar a procura. E a procura por moeda tem sido fraca porque a atividade econômica é fraca. Para utilizar outro cliché: você pode levar um cavalo à água, mas não pode fazê-lo beber. O "multiplicador da moeda", o rácio do montante de moeda impresso pelo Fed em relação ao montante de moeda a circular na economia caiu como uma pedra.





 A QE não funcionou para elevar as taxas de crescimento econômico de volta aos níveis anteriores à crise. Assim, para onde tem ido todo o dinheiro? Ele tem ido para dentro do sistema bancário para escorar seus balanços e restaurar seus lucros. E isto engendrou uma bolha maciça em ativos financeiros; e os preços de títulos do governo e corporativos e, acima de tudo, de ações, tem-se elevado a alturas recorde.



 Os únicos beneficiários têm sido os 1% de topo dos detentores de riqueza que por toda a parte possuem o grosso dos ativos financeiros.

 Quando a QE principiou, em 2010, economistas convencionais (mainstream), tanto monetaristas como o antigo presidente do Fed, Ben Bernanke, como os keynesianos, como Paul Krugman, consideraram a QE como a principal arma econômica para por economias em movimento. Krugman argumentou mesmo que o programa QE do Banco do Japão retiraria o Japão da sua estagnação.
Quão errado podia estar? O objectivo do BoJ de uma taxa de inflação de 2% permanece uma quimera cerca de quatro anos depois, enquanto a economia real do Japão paira perto da recessão apesar de um programa QE que representou uma ascensão nos haveres de títulos do governo equivalente a 50% do PIB e em crescimento. ( http://thenextrecession.wordpress.com/2014/10/13/japan-the-failure-of-abenomics/). Haverá o mesmo resultado para o programa QE do BCE: o Euro pode cair, como aconteceu com o yen depois de o BoJ iniciar o seu programa. Mas não haverá recuperação significativa do crescimento econômico.

 Os keynesianos continuam a insistir em ainda mais QE. Mas também procuram mais ação orçamental, nomeadamente incorrendo em défices orçamentais mais altos de modo a que os governos comecem a gastar mais em infraestrutura, serviços governamentais e mesmo defesa. Isto pode proporcionar algum apoio limitado ao crescimento. Mas tomadas de empréstimos extra por parte do governo são anátema para os estrategas do capital porque isso acabaria por resultar em taxas de juro mais altos e possivelmente maior tributação mais adiante, e portanto menor lucratividade num momento em que a lucratividade na maior parte das economias ainda está abaixo do nível de antes da Grande recessão (ver, thenextrecession.wordpress.com/... e o estudo conjunto de G. Carchedi e eu sobre a eficácia do gasto orçamental de tipo keynesiano, The long roots of the present crisis).

 Na verdade, longe de procurar um aumento da QE ou da despesa do governo, o Fed dos EUA prepara-se para aumentar sua "política de taxa" no fim deste ano. E o risco é de que se o Fed implementar um aumento das taxas de juro em 2015, então o boom financeiro também entrará em colapso e os lucros começarão a cair, aumentando o risco de um novo declínio (slump) (ver, thenextrecession.wordpress.com/…/…/the-risk-of-another-1937/ ).

 Economistas convencionais [mainstream] começaram a reconhecer que as principais economias capitalistas não estão a retornar ao normal, mas sim trancadas em algo a que eles agora chamam "estagnação secular", o tema principal da recente reunião anual da American Economics Association. Como pode as economias escapar?

 Um novo relatório da OCDE tenta apresentar algumas respostas ( escaping-the-stagnation-trap-policy-options-for-the-euro-area-and-japan-1 ). A OCDE é absolutamente clara: "A economia global continua a atuar a baixa velocidade e muitos países, particularmente na Europa, parecem incapazes de ultrapassar o legado da crise. Com alto desemprego, alta desigualdade e baixa confiança ainda a pesarem fortemente, é imperioso implementar rapidamente reformas que promovam a procura e o emprego e despertem o potencial de crescimento. O tempo para atuar é agora. Há um risco crescente de estagnação persistente, em que a fraca procura e o fraco crescimento do produto potencial reforçam-se mutuamente num círculo vicioso".

 Ainda mais sombriamente, o relatório chega a dizer: "Os motores da economia mundial continuam a atuar só a meia velocidade. O crescimento é baixo e desigual e algumas partes do mundo, tais como a área Euro, estão em risco de cair dentro de uma armadilha de estagnação persistente, um período extenso de baixa atividade econômica geral e baixo emprego apesar de estímulos monetários extraordinários. Um círculo vicioso está a desenvolver-se, com procura fraca a minar o crescimento potencial (ex. através de uma deterioração do stock de capital, desemprego estrutural e desigualdade mais alta) e fraco crescimento potencial mais uma vez reduzindo a procura (ex. ao desencorajar investimento em capacidade de expansão)".

 Realmente nada podia ser pior, excepto um outro declínio global. Então o que deve ser feito?
A OCDE apoia a política atual da QE e fala de gastos em investimento. "Com o lançamento das "três setas" do Japão em 2013, o recente lançamento da UE de um plano de investimento e o esperado movimento da área Euro em direção à facilidade quantitativa, a probabilidade de escapar à armadilha da estagnação está a aumentar". Mas não será suficiente: "é necessária nova ação para sustentar este momento de reforma positiva".

 E o que podia ser isto? "Reformas estruturais são urgentemente necessárias para remover obstáculos regulamentares ao investimento, reduzir o fardo administrativo para os negócios e facilitar reestruturações das empresas". Com efeito, a OCDE quer ainda mais desregulamentação nas práticas de negócios, completa "flexibilidade" nos mercados de trabalho e mais livre comércio, particularmente em serviços: "reduzindo barreiras regulamentares ... Novos desmantelamentos de barreiras de fronteiras e para além de fronteiras aos movimentos internacionais de bens e serviços servirão tanto à expansão da procura como tornarão os mercados mais competitivos e dinâmicos". Por outras palavras, a OCDE quer mais políticas "neoliberais" para permitir às "forças de mercado" trabalharem. Com efeito, ela quer "mercados livres" no trabalho para manter baixos os custos do trabalho e livre movimento de capital internacionalmente para elevar a lucratividade. Aparentemente, o problema é que não se está a permitir o capitalismo de funcionar, não que ele não funcione.

 A QE nos últimos quatro anos não conseguiu que as principais economias capitalistas avançassem; os gastos orçamentais deficitários tão pouco funcionaram no Japão; assim os estrategas do capital olham para a "terceira seta" do enfraquecimento do trabalho e da extensão do "livre" movimento do capital como sendo a resposta. Mas o caminho mais provável de saída é outro declínio que destrua valores de capital e eleve a lucratividade média.





domingo, 15 de fevereiro de 2015

Yanis Varoufakis: mais errático que marxista

 Artigo originalmente publicado no blog do economista marxista britânico Michael Roberts


Yanis Varoufakis, o ultimamente famosíssimo ministro de finanças da Grécia.

 Enquanto o 'enfant terrible' da mídia financeira, o novo ministro das finanças grego Yanis Varoufakis, inicia negociações-chave com outros ministros de finanças da zona do Euro sobre um acordo em relação à dívida grega e a recuperação econômica, eu estive me informando sobre as ideias econômicas e filosóficas de Varoufakis.

 Como um economista experiente que já ocupou vários cargos acadêmicos em diversas universidades importantes, YV se considera marxista, mas um marxista 'errático'. Como ele pôs em seu blog em 2013, ''enquanto um marxista sem remorsos, eu acho que é importante resistir apaixonadamente a ele de diversas maneiras. Ser, em outras palavras, errático em seu marxismo''.

 Em seu post confessional, YF explica que, apesar de ele se considerar marxista, ele evitou estudar a economia marxista na universidade porque queria entender e assumir as premissas básicas da economia burguesa tradicional. ''Quando eu escolhi minha tese de doutorado, em 1982, eu escolhi um tema altamente matemático e um tema no qual o pensamento de Marx era irrelevante, pela forma''. Ele é, aparentemente, um especialista sobre o papel da teoria dos jogos nos mercados e do comportamento econômico dos 'agentes de mercado', tendo sido empregado certa vez por uma empresa de jogos para sua perícia.

 Mas ele reconheceu que a teoria econômica burguesa tinha pouco a ver com a realidade. ''Quando chamado a comentar sobre o mundo em que vivemos, em oposição à ideologia dominante sobre o funcionamento do mundo, eu não tinha alternativa a não ser recorrer à tradição marxista''.

 E quais foram os méritos fundamentais da tradição marxista, aos olhos de YF? Primeiro, foi o insight de Marx de que o mundo estava cheio de contradição:  riqueza e pobreza, crescimento e colapso, democracia e governo da elite. ''Esta perspectiva dialética, onde tudo está grávido com o seu oposto, e os olhos espertos com os quais Marx o potencial de mudança nas aparentemente mais constantes e imutáveis estruturas sociais, ajudou-me a compreender as grandes contradições da era capitalista. Ele dissolveu o paradoxo de uma período que gerou a riqueza mais notável e, no mesmo fôlego, a pobreza mais visível''.

 Foi o pensamento dialético de Marx que lhe permitiu fazer sua descoberta mais importante sobre o modo de produção capitalista, ou seja, a ''oposição binária dentro do trabalho humano, entre duas naturezas bastante diferentes do trabalho: I) trabalho enquanto atividade criadora de valor que nunca pode ser especificado e quantificado com antecedência (e, portanto, impossível de mercantilizar) e II) o trabalho como quantidade (por exemplo, número de horas trabalhadas), que está à venda e tem um preço''.

 Portanto o ''brilhante insight (de Marx) sobre a essência das crises capitalistas era precisamente esse: quanto maior for o sucesso do capitalismo em transformar trabalho em mercadoria, menor é o valor de cada unidade que ele gera, menor é a taxa de lucro e, finalmente, mais próxima estará a terrível recessão da economia como um sistema''.

 Assim, YF captura corretamente a lei fundamental da contradição do capitalismo: a acumulação do capital através da exploração da força de trabalho tem uma tendência de diminuir a lucratividade e gerar crises regulares e recorrentes na produção. Como YF coloca: ''O capital nunca pode vencer em sua luta para transformar o trabalho em uma entrada infinitamente elástica e completamente mecanizada em destruir a si mesmo. Isso é o que nem os neoliberais nem os keynesianos nunca vão entender! 'Se toda a classe de trabalhadores assalariados for aniquilada pela maquinaria', escreveu Marx, 'quão terrível que seria para o capital, que, sem o trabalho assalariado, deixa de ser capital!' ''

 Para YV, Marx expõe a ''falsa consciência'' da economia burguesa que reconhece a riqueza como ''produzida privadamente e apropriada por um Estado quase ilegítimo'' quando o oposto é a realidade: ''a riqueza é produzida coletivamente e depois apropriada privadamente através de relações sociais de produção e direitos de propriedade''. Além disso, YV reconhece que Marx argumenta que o que está errado com o capitalismo não é a desigualdade (que existe em todas as sociedades de classes), mas que esse é sacudido com crises contínuas que são ''irracionais, habitualmente condenando gerações inteiras ao desemprego e à privação''.

 Tudo isso parece fazer de YV um marxista pela maior parte das definições. Mas YV dirá que ele é na verdade um 'errático', porque, na sua opinião, Marx estava errado em duas áreas-chave.

 Primeiro, ele era muito dogmático e fechado em seus pontos de vista. Como resultado, criou marxistas depois dele que adotaram políticas e ações autoritárias. Marx ''não conseguiu dar pensamento suficiente, e manteve um silêncio prudente, sobre o impacto de própria sua teorização acerca do mundo sobre o qual ele estava teorizando... Ele simplesmente não considerou a possibilidade da criação de um Estado operário forçaria o capitalismo a se tornar mais civilizado, enquanto o Estado dos trabalhadores seria infectado pelo vírus do totalitarismo enquanto a hostilidade do resto do mundo (capitalista) cresce progressivamente''.

 Dessa forma, YV concorda com a visão superficial dos artigos da direita populista e de intelectuais conservadores de que há uma linha reta de Marx a Stálin e Pol Pot. Não há espaço aqui para lidar com essa calúnia absurda contra Marx e o marxismo. Deixo ao leitor considerar quão justificado é o argumento de YV.

 Isso porque, de acordo com ele, o outro grande erro de Marx é ainda pior que a geração de regimes autoritários e totalitários que se autodenominam marxistas. ''Foi sua suposição de que a verdade sobre o capitalismo poderia ser descoberta na matemática de seus modelos (os chamados 'esquemas de reprodução'). Esse foi o pior desserviço que Marx poderia ter feito ao seu próprio sistema teórico''.

 De acordo com YV, Marx estava determinado em seu determinismo (minha frase). Marx queria encontrar modelos econômicos e leis que provavam que o capitalismo iria cair ou ser sujeito a crises, quando não podem existir tais provas. Por ''brincar ao redor com modelos algébricos simplistas, em que as unidades de trabalho foram, naturalmente, totalmente quantificadas, esperando contra toda a esperança de evidenciar a partir dessas equações alguns insights adicionais sobre o capitalismo.'' Como resultado, nós, os epígonos da economia marxista, temos ''desperdiçado longas carreiras entregando um tipo similar de mecanicismo escolástico... totalmente imerso em debates irrelevantes sobre o problema da transformação'' e assim sido ignorados pelo consenso econômico.

 O argumento de YV cheira a empiricismo e oposição à teoria. Na verdade, os debates ''escolásticos'' sobre o ''problema da transforamação''  por marxistas nos anos de 1980 e 1990 culminaram eventualmente em um importante avanço na teoria econômica marxista que defendeu com sucesso a lei da taxa de lucro de Marx contra as tentativas da economia neoclássica e neo-ricardiana de jogarem-na na lata de lixo (veja o livro seminal de Andrew Kliman, Reclaiming Marx's Capital). É disso que se trata o debate teórico: avançar nosso conhecimento de forma rigorosa.

 No entanto YV continua em ''Foi essa determinação de 'ter o completo', uma história 'fechada', ou modelo, a 'palavra final', é algo que eu não posso perdoar em Marx. Provou-se, afinal, responsável por uma grande quantidade de erros e, mais significativamente, de autoritarismo. Erros e autoritarismo que são em grande parte responsável pela incompetência da esquerda como uma força para o bem e como um controle sobre os abusos da razão e da liberdade que a tripulação neoliberal estava supervisionando. Portanto Marx era um pensador de mente fechada, um determinista que não tinha espaço para erros e dúvidas e, assim, perdeu o tempo de marxistas posteriores em debates inúteis e, assim, perdeu o tempo de marxistas posteriores em debates úteis e ele era tão duro com que criticaram esta visão determinista que ele criou atitudes autoritárias em seus seguidores.

 Sérios crimes, é verdade, se fossem verdadeiros. Mas YV está falando coisas sem sentido. Ele critica o volume 2 d'O Capital por tentar encontrar uma fórmula matemática para tentar demonstrar que a acumulação capitalista pode crescer sem problemas, quando o mundo real é indeterminado, cheio de oportunidade e mudanças. Mas, como muitos outros, YV deixa de reconhecer que os esquemas de reprodução de Marx no volume 2 não pretendem retratar a liberdade do capitalismo com todas as suas verrugas. Eles são um modelo ''capital em geral'', onde o capitalismo é reduzido para as forças básicos da criação do valor e de reprodução, excluindo-se a concorrência entre os capitais, crédito, dinheiro, a equalização das taxas de lucro entre os capitais e as diferenças engendradas entre valores e preços de produção, para não falar das cotações diárias de mercado.

 Os esquemas de reprodução de Marx no volume 2 d'O Capital não eram um 'modelo fechado do capitalismo'. O que eles mostram é que a acumulação capitalista não vai tropeçar por causa da 'falta de demanda efetiva'. Acumulação pode ter lugar com a demanda por bens de capital e bens de consumo. É um equilíbrio. Mas, na realidade, isso quase nunca acontece, exceto por acidente. É tão indeterminado quanto YV quer. Marx reconheceu e defendeu que o modo de produção capitalista era um sistema dinâmico e incerto, mas ele mergulhou abaixo do nível da incerteza e de aparências para a essência do capital em geral e, em seguida, adicionando de volta cada estágio da realidade ao nível de muitos capitais (volume 3) e, em seguida, a preços de mercado.

 Como Henryk Grossman explica em seu artigo sobre valor e preços de produção, ao nível de muitos capitais, são os preços de produção que atuam para estabelecer a taxa média de lucro, e não os valores (veja aqui). E é aqui que a cruz das crises descansa -- no movimento da taxa média de lucro (volume 3), não nos esquemas de reprodução do valor (volume 2). Este é um erro chave na [in]compreensão de Luxemburgo e Bauer acerca dos esquemas de reprodução de Marx -- e parece que na de YV também.

 Tendo convencido a si mesmo que Marx tinha um sério hálito de determinismo autoritário, ele contrasta isso com o seu gosto na indeterminação eclética de John Maynard Keynes. Sim, Keynes estava do lado da burguesia, era um esnobe etc., e deu suporte às ideias do arqui-pensador conservador da economia clássica, (o pastor Thomas) Malthus, mas ''Keynes abraçou o ceticismo de Malthus em relação a a) a sabedoria de buscar uma teoria do valor que é consistente com a dinâmica e complexidade do capitalismo, e b) a convicção de Ricardo, que Marx posteriormente herdou, de que a depressão permanente é incompatível com o capitalismo''.

 Veja, YV diz, o problema com a teoria das crises de Marx é que essa é muito generosa com o capitalismo. Uma vez que valores de capital suficientes são destruídos e a taxa de lucro é restaurada, capitalismo pode se recuperar em um novo ciclo de de acumulação e crescimento. Mas Keynes (e Malthus aparentemente) viram que isso estava errado porque o capitalismo pode ficar preso em grandes e longas depressões das quais pode não sair. ''Marx contou a história de recessões redentoras ocorrendo graças à natureza dupla do trabalho e dando origem a períodos de crescimento que guardam no ventre com a próxima recessão que, por sua vez, engendra a próxima recuperação, e assim vai. Entretanto, não havia nada de redentor sobre a Grande Depressão. A grande crise de 1930 foi simplesmente isso: uma queda que se comportou tal qual um equilíbrio estático -- um estado da economia que parecia perfeitamente capaz de se perpetuar, com a recuperação prevista obstinadamente se recusando a comparecer ao longo do horizonte, mesmo depois que a taxa de lucro se recuperou em resposta ao colapso nos salários e nas taxas de lucro''. 

 Portanto, a ''joia da descoberta de Keynes sobre o capitalismo era dupla: a) Este era um sistema inerentemente indeterminado, com o que os economistas podem se referir nos dias de hoje como equilíbrios múltiplo, alguns dos quais foram consistentes com o desemprego em massa permanente, e B) poderia cair em um desses equilíbrios terríveis na queda de um chapéu, imprevisivelmente, sem pé nem cabeça, só porque uma parcela significativa dos capitalistas temiam que ele pudesse fazê-lo''.

 A visão de YV de que a teoria marxiana das crises sob o capitalismo não pode abranger depressões longas e duradouras e só pode explicar recessões regulares e normais é novamente tolice. Na verdade, este blog tem gasto grande quantidade de palavras argumentando que a teoria das crises de Marx oferece a melhor explicação para a Grande Depressão [2007-8] e a atual Longa Depressão, ao contrário das respostas keynesianas (veja meu post, Why is there a long depression). E o meu livro por vir, provavelmente em junho, lida exatamente com esse tema.

  YV exalta o conceito keynesiano de 'espíritos animais', i.e., que o que guia a acumulação capitalista não é o movimento da rentabilidade/taxa de lucro [profitability] mas a 'confiança' emocional dos capitalistas individuais. De acordo com YV, esta é uma ideia ''profundamente radical'' porque capta a ''indeterminação radical enterrada no DNA do capitalismo'', um conceito que Marx abandonou ''de modo a estabelecer seus teoremas matemáticos, como provas inquestionáveis''. Mais uma vez eu não tenho espaço para lidar com as falácias da incerteza keynesiana e dos espíritos animais como uma explicação das crises capitalistas (veja meu artigo sobre o keynesianismo, APPENDIX TWO).

 Mas o mais irregular são as visões de YV sobre a atual crise econômica mundial e, em particular, a crise na zona do Euro. Ele dramaticamente aponta que ''a atual crise presente na Europa não é apenas uma ameaça para os trabalhadores para os despossuídos, para os banqueiros, para determinados grupos, classes sociais ou mesmo nações. Não, a posição atual da Europa representa uma ameaça para a civilização como a conhecemos''. Caramba, o fim da civilização! Talvez isso sugira algumas medidas socialistas radicais antes que seja tarde demais...

 Mas não. Veja, a longa depressão que está sendo experimenta na Europa (e eu concordo com a interpretação) ''coloca radicais em um terrível dilema''. Veja, não é um ambiente para medidas socialistas radicais, afinal. Em vez disso, ''é um dever histórico da esquerda, neste momento particular, estabilizar o capitalismo; salvar o capitalismo europeu de si mesmo e dos manipuladores fúteis da crise inevitável da zona do Euro''.

 Assim, diz YV, suas intervenções no debate público sobre Grécia e a Europa [por exemplo, a proposta modesta para resolver a crise na Europa (ver http://yanisvaroufakis.eu/euro-crisis/modest-proposal/) que ele, Stuart Holland e James Galbraith (veja meu post, From establishment to anti-establishment)] -- escreveram em co-autoria e têm militado a favor ''não tem sequer um sopro de marxismo em si''. Modesto, de fato!

 YV diz que preferiria promover políticas socialistas para resolver a crise do Euro, mas que isso seria irrealista. Políticas radicais não conseguiram nada contra as forças do neoliberalismo e do thatcherismo na década de 1980: ''Que bem conseguimos na Grã-Bretanha no início de 1980, através da promoção de uma agenda de mudança socialista que a sociedade britânica desprezava enquanto caía de cabeça na armadilha neoliberal de Margaret Thatcher? Precisamente nenhum''. Aparentemente, era um desperdício de tempo defender políticas socialistas (assumindo que o fizemos) na década de 1980, porque o povo da Grã-Bretanha acabava de engolir o anzol, linha e chumbada do thatcherismo (Só um ponto: Thatcher nunca ganhou mais que 40% dos votos em qualquer eleição e a maioria dos eleitores votaram contra ela em todas as eleições). Então, quando políticas socialistas devem ser defendidas, segundo YV -- depois de salvar o capitalismo? Eu não acompanho a lógica.

 Esse marxista errático, agora negociando com os lideres neoliberais do Euro, visa ''salvar o capitalismo de si mesmo'', de modo a ''minimizar o custo humano desnecessário desta crise; as inúmeras vidas cujas perspectivas serão ainda mais esmagadas, sem qualquer benefícios para as futuras gerações de europeus''. Aparentemente, o socialismo não é capaz de fazer isso. YV diz que ''nós simplesmente não estamos prontos para ligar o abismo que um capitalismo europeu em colapso vai abrir com um sistema socialista funcionando''.

 Em vez disso, de acordo com YV, ''a análise marxista de ambos, o capitalismo europeu e a condição atual da esquerda, nos obriga a trabalhar no sentido de uma ampla coalizão, mesmo com direitistas, o objetivo que deveria ser a resolução da crise da zona do Euro e a estabilização europeia... Ironicamente, aqueles de nós que detestam a zona do Euro têm a obrigação moral de salvá-la!'' Assim, YV  fez campanha por sua modesta proposta para a Europa com ''gente como Bloomberg e os jornalistas do New York Times, os membros conservadores do parlamento, financistas que estão preocupados com o estado lamentável da Europa''.

 Um marxista errático, de fato!




segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Paul Krugman, Steve Keen e o misticismo da economia keynesiana

*Artigo de Michael Roberts, economista marxista britânico, originalmente publicado em seu blog.

 Como prometido, deixe-me voltar ao debate dentro do keynesianismo entre Paul Krugman, ganhador do prêmio nobel e guru do keynesianismo ortodoxo e Steve Keen, o iniciante 'minsky-keynesiano' radical, sobre quais são os processos chave do capitalismo moderno e as causas da Grande Recessão.

 Steve Keen recentemente revisou e expandiu seu excelente livro, Debunking Economics , e seus ataques à economia mainstream, a natureza da crise capitalista e o que fazer acerca disso provocaram o grande colunista do New York Times e flagelo dos republicanos, Paul Krugman, a respondê-lo. Krugman não perdeu tempo em descartar as ideias de Keen em seu blog como sendo ''misticismo''. Keen respondeu de maneira agressiva e então um longo debate seguiu-se com participações de outros economistas em seus respectivos blogs entrando na briga. Você pode acompanhar as voltas e reviravoltas aqui.

 Acho que agora é minha vez de fazê-lo. Mas, primeiro: esse debate é importante e interessante? Bem, eu acho que sim, porque as diferenças demonstradas ajudam a demonstrar o esforço que a economia mainstream tem para tentar explicar a recessão que o capitalismo mundial acaba de atravessar e o porquê de a recuperação ser tão fraca. Esse debate em particular não é entre keynesianos e partidários da austeridade (veja meu post, O debate sobre a austeridade). É entre o que chamo de keynesianismo ortodoxo e uma variedade mais radical que considera a maioria dos keynesianos ainda presos em muitos teoremas neoclássicos que não lhes permitem entender o moderno capital financeiro e o sistema bancário. Se os keynesianos ortodoxos entendessem, dizem os heterodoxos, então eles veriam mais claramente por que o capitalismo entra em crise e o que fazer quanto a isso. Steve Keen se inclina sobre as ideias desses keynesianos radicais, como um seguidor de Hyman Minsky e a Teoria Monetária Moderna (MMT, Modern Monetary Theory), que tenta explicar o papel do comércio bancário como a causa-mór das crises econômicas.

 Então, quais são os temas em debate? Bem, depois de ler milhares e milhares de palavras dos participantes, eu creio que são 3: A primeira é a de saber se, em uma economia capitalista moderna, o dinheiro é criado de forma endógena, ou seja, a demanda por dinheiro dirige a sua oferta, em vez de exógena, pela impressão ou absorção de dinheiro por um banco central. A segunda é se a expansão da dívida, particularmente de crédito privado, acrescenta à demanda em uma economia, de forma que ele pode ficar fora de sincronia com a expansão da produção de coisas e serviços; e se essa é a chave para a crise capitalista. Em terceiro lugar, se é a instabilidade inerente do sistema financeiro que é o 'kernel' da crise e não apenas a falta de 'demanda efetiva', como keynesianos ortodoxos argumentam. 

 Vamos começar com o primeiro tema: dinheiro exógeno, isto é, a necessidade de fazer empréstimos por parte de empresas, famílias, instituições financeiras e governo dirige os empréstimos bancários, e não o contrário. A MMT diz que os bancos emprestam em primeiro lugar e que isso gera depósitos, um simples processo de escrituração de casal [a simple double bookkeeping process]. Assim, bancos podem criar dinheiro do nada. Bancos não esperam por depósitos de clientes e dinheiro do banco central antes de realizar empréstimos. Keynesianos ortodoxos como Krugman não reconhecem isso, dizem os caras da MMT (e Keen). Os bancos podem conduzir quantias de empréstimo, ou criar dinheiro por empréstimo, mas eles estão restrito em tanto por 3 fatores: as taxas de juros (os custos de seus empréstimos, em parte definidos pelo Banco Central), as reservas necessárias de dinheiro que eles devem manter (como imposta por um regulamento do BC) e da quantidade de capital próprio que deve ter (mais uma vez uma questão de regulação). Mas essas restrições de crédito afetam a rentabilidade dos empréstimos para os bancos, não a quantidade que eles podem fazer.

 A questão em debate aqui é saber se os bancos centrais têm qualquer controle real sobre a oferta de dinheiro e crédito em uma economia. Com efeito, os caras da MMT sugerem que (o controle) é pouco e que os keynesianos ortodoxos estão enganando a si mesmos de que a economia pode ser controlada pelos bancos centrais, ao tentarem estes controlar exogenamente a oferta de dinheiro ou mesmo manipulando as taxas de juros. Eles [the MMT guys] estão afirmando que as autoridades não podem controlar o ''ciclo de negócios'', o ciclo de expansão e recessão, pela política monetária, porque o dinheiro é criado de forma endógena. Os keynesianos ortodoxos gostam de pensar que eles podem e assim a sua política de restrição das taxas de juros ou aperto de reservas bancárias vão funcionar na regulação do capitalismo.

 O que Marx diz sobre isso? Embora ele não tenha detalhado sua teoria da moeda e do crédito claramente em um livro (como sempre!), é evidente a partir de seus escritos que ele achava que a oferta de crédito é endógena ao sistema capitalista e que os bancos podem criar crédito como exigido pela produção capitalista, sem esperar por algum agente exógeno para fornecê-la. Diz ele:

''O crédito dado por um banqueiro pode assumir várias formas, por exemplo, letras e cheques contra outro banco ou aberturas de crédito a outro banco, e por fim bilhetes de banco, no caso de bancos emissores. O bilhete de banco nada mais é que uma letra contra o banqueiro, pagável ao portador a qualquer momento, e que para o banqueiro faz as vezes de letra de câmbio particular. Tal forma de crédito impressiona o leigo e lhe parece de grande importância, primeiro porque essa espécie de dinheiro de crédito sai da mera circulação comercial e entra na circulação geral, funcionando aí como dinheiro; depois, porque, na maioria dos países, os principais bancos, emissores de bilhetes -- estranha mistura de banco nacional e banco privado -- na verdade têm o crédito nacional para apoiá-los, e seus bilhetes têm curso mais ou menos legal. Assim, fica evidente que a função do banqueiro é negociar com o crédito mesmo, pois o bilhete de banco somente simboliza crédito em circulação.'' (Marx, 1984, pp.403-404)

 O que dirige o crédito bancário não é a oferta de dinheiro, mas as demandas da produção capitalista:

''A quantidade de notas em circulação é regulada pelos requisitos do volume de negócios (de acumulação do capital - MR), e cada bilhete supérfluo segue seu caminho de volta imediatamente ao emitente.'' (Marx, 1984, p.524)

 Crédito gera depósitos.

 Mas a teoria marxista do dinheiro faz uma importante distinção para com os caras da MMT. O capitalismo é uma economia monetária. Capitalistas começam com um capital em dinheiro para investir na produção e capital comercial, que, por sua vez, por meio do dispêndio de força de trabalho, eventualmente oferece um novo valor que se realiza em mais capital monetário. Assim a demanda por capital monetário impulsiona a demanda por crédito. Os bancos criam dinheiro ou crédito como parte deste processo de acumulação capitalista, não como algo que faz o capital financeiro separado da produção capitalista.

 Ambos Marx e os caras da MMT concordam que a chamada teoria quantitativa da moeda, tal como exposta pelo economista de Chicago Milton Friedman e outros, que dominou a política dos governos nos anos 1980, está errada. Os governos e os bancos centrais não podem melhorar as expansões e recessões no capitalismo tentando controlar a oferta de moeda. Os péssimos desempenhos dos atuais programas de flexibilização quantitativa (QE) adotadas pelos principais bancos centrais para tentar impulsionar a economia confirmam isso. Os balanços do banco central dispararam desde a crise de 2008, mas o crescimento do crédito bancário não o fez.





 E, no mesmo período, o chamado multiplicador monetário (proporção da massa monetária na economia para o dinheiro no banco central), sobre o qual os teóricos da quantidade se confiam para julgar se a quantidade de dinheiro é a correta (M3/M1), afundou. Em outras palavras, os bancos centrais têm tentado aumentar a oferta de dinheiro por impressão de dinheiro, mas isso teve o mínimo ou nenhum efeito sobre a economia real, porque a demanda por empréstimos caiu longe.




 Os keynesianos ortodoxos como Krugman diriam que o colapso do multiplicador monetário comprova o fenômeno da ''armadilha de liquidez''. Isto acontece quando a demanda agregada em uma economia é tão fraca que as pessoas acumulam o seu dinheiro e os bancos deixam de emprestar, por isso ainda que as taxas de juro são reduzidas a zero (mais ou menos como elas estão agora), isso não desencadeia uma recuperação econômica. Logo, precisamos de políticas exógenas para lançá-lo. Os caras da MMT diriam que, porque a criação de moeda é endógena, políticas puramente monetárias como flexibilização quantitativa nunca vão funcionar. Marxistas concordarão, desde que seja reconhecida que enquanto os bancos podem criar dinheiro do nada, eles não o farão se a acumulação de capital declinou. O crescimento do crédito depende da acumulação de capital, mesmo que este nunca esteja alinhado (portanto a moeda nunca é neutra).

 Isso me leva à segunda questão: de crédito ou endividamento excessivo. Um dos argumentos principais da escola austríaca é que o crédito pode se tornar excessivo porque ele é criado artificialmente pelos bancos centrais. Se não existissem bancos centrais, o ''livre mercado'' acabaria por trazer crédito alinhado com a produção através de uma mudança para uma taxa de juros equilibrada. O dinheiro teria um efeito neutro sobre a produção e não poderia haver crises monetárias, se não fosse pela intervenção do banco central.

 Steve Keen também argumenta que a chave para as crises no capitalismo é o excesso de crédito ou débito privado. Mas não se trata da explicação austríaca. Em vez disso, ele se inclina sobre as ideias de Hyman Minsky, o keynesiano radical da década de 1980. Keen-Minsky argumenta que o sistema financeiro moderno está inerentemente tentando expandir o crédito para obter retornos mais elevados. Isto leva a uma categoria ''minskyana'' de especulação financeira (para mais detalhes acerca da visão de Minsky sobre a especulação, veja meu artigo The causes of the Great Recession). O crédito privado dispara quando bancos especulam em formas cada vez mais arriscadas de ativos (ações, títulos de propriedade). Isso cria demanda extra em uma economia, que pode eventualmente não ser satisfeita. Cada vez mais, o endividamento é gerado apenas para cobrir empréstimos anteriores, tal como em um esquema de Ponzi. Eventualmente, todo o baralho de cartas desmorona em um ''momento Minsky'' e capitalismo tem uma recessão.

 Keen diz que a melhor maneira de olhar para a 'demanda agregada' ao modo keynesiano em uma economia moderna é adicionar ao rendimento nacional o montante da dívida ou empréstimo privado. Se você alterar Keynes desta forma, obtém um melhor indicador de quando a crise está chegando. Keen ganhou o prêmio Real Economics Review por prever a crise de crédito. Ele diz que isto veio a ele como uma revelação, porque de repente percebeu como o aumento da dívida privada norte-americana estava preparando uma crise. Keen disse que o gráfico da dívida privada dos EUA em relação ao seu produto interno bruto parecia o gráfico ''bastão de hóquei'' para o aquecimento global.




 Os keynesianos ortodoxos não consideram isto e Krugman descarta a ideia em seu debate com Keen. Para ele, a crise, um ''colapso na 'demanda efetiva''', é devido ao término do que Keynes chamou de ''espíritos animais'', uma perda de confiança de empresários que se alimenta através de um colapso dos investimentos e uma ausência de vontade de gastar. Não é devido à dívida privada excessiva. A recessão segue e pode ficar por um longo tempo, se a economia está bloqueada por uma armadilha de liquidez. Ela precisa de uma intervenção do governo para sair.

 O que Marx diz? A teoria marxista concorda com Keen que o crédito privado pode se tornar excessivo. Na verdade, isto flui a partir da visão marxista de que a moeda não é neutra na economia capitalista, mas central para ela. O crédito pode e irá se desalinhar com a produção capitalista. Crédito é, realmente, capital fictício, isto é, capital dinheiro adiantado para títulos de propriedade de capital produtivo e improdutivo, isto é, ações, obrigações [shares, bonds], derivados etc. O preço de tais ativos antecipa futuros retornos sobre o investimento em ativos reais e financeiros. Mas a realização destes retornos depende, em última análise, da criação de um novo valor e de mais-valia no setor capitalista produtivo. Assim, grande parte desse capital dinheiro pode facilmente vir a ser fictício.

 O ponto-chave para os marxistas aqui é o lucro. O enorme aumento da dívida privada (medida contra o PIB) é claramente um bom indicador de que uma bolha de crédito está se desenvolvendo. Mas isso por se só não é um bom indicador de quando ela irá se romper. Alguns economistas da escola austríaca tentaram quando pode ser o ponto de inflexão através da medição da divergência entre o crescimento do crédito e o crescimento do PIB (ver Borio and White, Asset prices, financial and monetary stability, BIS 2002). Mas a teoria marxista oferece um guia muito melhor. É quando a taxa de lucro começa a cair; em seguida, mais imediatamente, quando a massa de lucros vira para baixo. Em seguida a enorme expansão do crédito projetada para manter a rentabilidade [profitability] já não pode remerter [deliver].

 Esse é o modelo de crise que adotei em 2006 para o meu livro, The Great Recession. Levou-me a prever uma recessão maior para 2009-10 (eu estava errado, uma vez que veio um ano antes). A evidência estava lá para os EUA, onde a recessão global estourou. A taxa de lucro média nos EUA atingiu o pico em 1997. No início de 2006, a massa de lucros começou a cair e o mercado imobiliário caiu [turned down].

 Uma forma de demonstrar como a queda na taxa de lucro combinou-se com o endividamento para trazer o capitalismo estadunidense abaixo é medir a taxa de lucro não apenas convencionalmente contra ativos corporativos tangíveis, mas também contra os ativos financeiros (capital fictício), que havia subido tanto. Eu tenho feito isso em vários lugares (incluindo o meu artigo The profit cycle and economic recession e vários posts). Aqui está o gráfico novamente para enfatizar o ponto.




 Isso mostra que a taxa de lucro corporativa dos EUA, medida contra todos os ativos, foi menor em 2002 do que era em 1982, enquanto subiu contra ativos apenas físicos. Uma vez que a rentabilidade convencional também caiu [turned down] em 2006, a crise começou e o impacto foi muito maior por causa do tamanho do capital fictício. Agora, em todos os lugares, o capitalismo continuar a tentar 'desalavancar' [try and 'deleverage'] para limpar não somente o capital morto da economia real, mas também para se livrar do capital fictício.

 Isso me leva à questão final: a causa da crise. Para os keynesianos ortodoxos, é devido ao colapso da demanda agregada ou efetiva na economia (como expresso em uma queda do investimento e do consumo). Esta queda do investimento leva a uma queda do emprego e, assim, a menos renda. A demanda efetiva é a variável independente e os rendimentos e emprego são as variáveis dependentes. Não há menção ao lucro ou à rentabilidade [profit or profitability] neste esquema. Esta é a visão de Keynes:
''Nada, obviamente, pode restaurar o emprego, que não primeiro restaurar os lucros das empresas. No entanto nada, na minha visão, pode restaurar os lucros das empresas sem antes restaurar o volume de investimento.'' (Collected Writing Vol 13, p.343)

 Como argumentei anteriormente (veja meu post, Double dips, deficit and debt, 24  de agosto de 2011), esses esquemas estão ''de trás para frente'' para explicar as leis de movimento do capitalismo. O esquema de Marx é o oposto. Uma mudança nos lucros produz uma mudança nos investimentos, o que, por sua vez, afeta emprego e renda e portanto demanda efetiva.

 Mas se o investimento é a variável independente, de acordo com Keynes, Krugman e Minsky-Keen, o que provoca uma queda no investimento? É o encerramento do 'espírito animal' entre os empresários ou a 'falta de confiança'. Como Minsky coloca-o, o investimento depende da ''natureza subjetiva das expectativas sobre o curso futuro dos investimentos, bem como a determinação subjetiva de banqueiros e seus clientes de negócios da estrutura de responsabilidade apropriada para o financiamento de posições em diferentes tipos de bens de capital''. Assim, os lucros depende de expectativas e as crises são o resultado de mudanças de expectativas por especuladores financeiros. Investimento e crédito crescem enquanto houver confiança: o que outros têm chamado de 'pó mágico da fada Sininho', uma crença de que as coisas só vão melhorar.

 Este é o verdeiro misticismo da economia keynesiana. Para Keen e os seguidores de Minsky, a identidade entre ortodoxos keynesianos e Kalecki ainda se aplica. Instabilidade em finanças e/ou crédito excessivo leva a um colapso do investimento ou da 'demanda efetiva', e em seguida do emprego e dos rendimentos/lucros. Para os marxistas, a instabilidade no setor financeiro não seria suficiente para causar uma grande crise se a rentabilidade [profitability] está aumentando. A abordagem Keynes/Minsky é subjetiva, com base em expectativas. A abordagem marxista é objetiva e baseada na lei do valor.

 Dependendo do seu ponto de vista, as políticas para a recuperação econômica também são diferentes. Keen defende controlar o nível de dívida privada como solução principal. Krugman defende regulação das finanças e dinheiro fácil. Se isso falhar, ele quer intervenção fiscal para estimular o setor privado. Marxistas atentam para a substituição do sistema de lucro.

 A explicação marxista é a mais abrangente, uma vez que integra dinheiro e crédito no modo de produção capitalista. Ela reconhece que a moeda e o crédito não são neutros, como os austríacos acreditam, e  argumenta que o dinheiro pode ser fator-chave na instabilidade e crise, como os keynesianos acreditam, mas também mostra que não é a falha decisiva no modo de produção capitalista e que lançar fora o capital financeiro não é suficiente [and that sorting out finance is not enough]. Assim, pode explicar por que as soluções keynesianos também não funcionam.