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sexta-feira, 10 de junho de 2016

Tempo, etnocentrismo e ideologia

 O texto abaixo é um trecho do capítulo IV do livro ''Responsabilidade intelectual e ensino universitário: carta aberta aos que amam a ciência'', do sociólogo e professor da UFRN Alípio de Sousa Filho (que já teve outros textos publicados aqui). O livro foi publicado no ano 2000. 




<<Fala-se da data [a virada do 1999 para o ano 2000, AM] como sendo um evento histórico de valor geral: a entrada no ''terceiro milênio''. O assunto que se transformou em um tema acadêmico -- dá títulos a seminários, artigos, livros etc. -- e, curiosamente, os meios intelectuais e a imprensa vêm transformando-o em algo dado, cujo contorno é o de um evento natural (ainda que se fale em tempo!) e universal. Que os cristãos ignorem que se trata de um evento particular e que o aceitem tacitamente, é natural: submetidos a toda uma longa tradição e a mitos de alta eficácia simbólica, estão, em certa medida, impedidos de saber que se trata de algo circunscrito às suas tradições. Mas o mesmo se torna curioso quando se trata daqueles que lidam com o conhecimento histórico-científico e com a informação. Contudo, ao que parece, sob efeito do clima intelectual dominante, muitos são aqueles que, no meio universitário e na imprensa, vêm dizendo ''terceiro milênio'', ''novo milênio'', etc., como se falassem de algo que, por si só, encerasse definição independente -- independente de toda história? Inconscientemente ou não, naturalizam o que é, em sua essência, uma produção histórico-cultural particular, uma representação do tempo, um mito. Ora, como se sabe, o chamado ''terceiro milênio'' o é apenas para cristãos -- esse é ''terceiro milênio'' da chamada ''era cristã''. Porém, a aceitação tácita de periodização histórica que resulta de convenção de uma única tradição, assim como a aceitação da crença que lhe acompanha, segundo a qual o chamado ''terceiro milênio'' constituirá acontecimento que beneficiará toda a humanidade, com mudanças da maior importância, criam a ilusão de que se trata de evento imanente à história e de valor geral.

 Sabe-se que os calendários, como sendo sistemas de divisão do tempo em dias, meses e anos, são convenções que variam cultural e historicamente, sendo ainda sistemas apoiados em mitologias. Assim como existem sociedades que jamais ouviram falar de sistemas de calendários, é também fato que não existe só um calendário para toda a humanidade -- sobre o assunto, pode-se ler o interessante livro de G. J, Whitrow ''O tempo na história'' (1993), e sobre o significado mítico que os homens atribuem à passagem do tempo e com o qual organizam seus calendários, Mircea Eliade, ''O mito do eterno retorno'' (1988).

 Atualmente, porque diferentes são as tradições e os mitos, os povos se regem por diferentes calendários. Para os judeus, que adotam o sistema lunissolar, o ano 2000 (do calendário gregoriano) corresponde, em seu calendário, ao ano 5760, uma vez que ali os anos são contados a partir da data presumida, nos seus mitos, como sendo a da criação do mundo, ou seja, 3762 a.C. Para os muçulmanos, que adotam o sistema lunar, e que contam os anos considerando ''O hégira'' -- o dia mítico da fuga de Maomé de Meca para Medina em 622 --, estamos no ano 1420. Considerando que, para estas e outras tradições -- como as indianas, chinesas, etc. --, o nosso calendário -- o gregoriano -- lhes é estranho, estariam esses povos excluídos dos benefícios do chamado ''terceiro milênio''?

 O que chamamos ''terceiro milênio'' somente é válido tomando-se como referência a tradição cristã. Convém lembrar, nesta tradição, [que] o aprisionamento do tempo, na forma do calendário, apoia-se em referências não menos míticas que as das demais tradições, sendo o nosso calendário também resultado de convenção: como se sabe, o que é considerado marco, na parte cristianizada do mundo, para determinar o começo da ''era cristã'' é a data presumida do nascimento de sua personagem mítica mais importante, Jesus Cristo -- assunto em torno do qual não reinam a certeza e o consenso, mas o mito. Acrescente-se que interpretações de antropólogos e de historiadores demonstram ser o nascimento, vida e morte de Cristo eventos envoltos em representações que seguem longa tradição mítica anterior -- que vão dos povos mesopotâmicos, egípcios, gregos, celtas e romanos antigos aos índios Zunis americanos e aos indianos de hoje --, pouco podendo-se assegurar sobre datas, fatos históricos, etc. A esse respeito, a leitura de As estruturas antropológicas do imaginário (Durand, 1989: 339 e segs.) é muitíssimo interessante. 

 As fantasias em torno do ano 2000, que tomam a data como de valor universal, e a crença segundo a qual a entrada no ''terceiro milênio'' será acompanhada de mudanças decisivas para a humanidade não são apenas manifestações de etnocentrismo; elas são, principalmente, manifestações da alienação relativamente a uma cultura particular e aos seus mitos. Estamos plenamente no reino da ideologia. Como se sabe, as representações que transformam o particular em universal realizam a operação mais poderosa da ideologia, a operação que lhe dá sustentação.>>



Uma observação não feita por Alípio é a de que, embora os cristãos se assustassem com a virada do ano 1999 para o ano 2000, a chegada ao terceiro milênio só viria, de fato, com o ano 2001...

Para mais sobre a construção social do tempo, leia esse texto

sexta-feira, 11 de março de 2016

A emancipação LGBT e o direito (de todos) à escolha



 O texto abaixo é uma tradução do artigo ''The ideology of compulsory heterosexuality and the abiding pathologization of homosexuality - is it possible to have authentic recognition without the concepts of freedom and choice?'' (''A ideologia da heterossexualidade compulsória e a permanente patologização da homossexualidade - é possível ter um reconhecimento autêntico sem as ideias de liberdade e escolha?''), de autoria do prof.º Alípio de Sousa Filho, doutor em sociologia e docente na UFRN. Embora eu discorde da posição do autor quanto às causas das orientações sexuais (Sousa Filho é um ''construcionista social'' radical [1], enquanto eu não tenho um juízo factual definido sobre isso), concordo plenamente com o mesmo quanto a que, p. ex., a opressão aos LGBTs só terá fim quando se aceite sem indignação moral que alguém escolha sentir atração por outra pessoa do mesmo sexo, assim como que alguém escolha ter uma identidade de gênero diferente daquela que lhe é designada no momento do nascimento e ao longo da vida de aparente cisgênero (ao invés de uma mera aceitação de algo que seria ''de nascença'', semi-imposto, em vez de opção individual dos LGBTs). Isto é, quando se puser a felicidade acima de visões teleológicas (reprodução, obediência a divindades ou outras) na definição do caráter moral das ações. De qualquer forma, o fato de que nem a orientação sexual  nem a identidade de gênero são escolhas (ao menos não uma escolha livre*) torna injusto o constrangimento e a punição de alguém em virtude de qualquer uma das duas.


Símbolo da série americana de 1968 ''The Year of The Sex Olympics''; uma das inspirações desta última era a contracultura que se desenvolvera nos anos 60 nos países ocidentais, que rejeitava padrões tradicionais de vida, inclusive aqueles relacionados à sexualidade (o leitor pode descobrir mais sobre ela conferindo o livro ''Era dos Extremos: o breve século XX'', de Eric J. Hobsbawm, facilmente encontrável para download).


 Este trabalho tem o objetivo de fazer a crítica do discurso de naturalização e psicologização da homossexualidade, que entendemos ser um produto da ideologia do diagnóstico (que define o que é a homossexualidade, suas “causas” etc.), que, entre outros efeitos, produz a sua patologização. Analisando o caso do Brasil (mas não apenas), mesmo quando os agentes desse discurso são homossexuais ou ativistas do movimento LGBT, não é rara a afirmação sobre a existência de uma “homossexualidade inata” ou como “orientação sexual psicológica”, como pretenso argumento contra os estigmas de “anormais” ou “pervertidos” aplicados aos homossexuais, privilegiando-se um argumento despolitizante e refém da própria ideologia do diagnóstico e de patologização. Contrapomos ao argumento da luta por direitos gays como luta por reconhecimento da “identidade gay” (coincidente com a ideologia do diagnóstico) a concepção da luta por reconhecimento como luta por mudanças na valoração cultural/moral do status de sujeitos estigmatizados por suas opções sexuais, quando se lhes nega o direito à autonomia erótica.

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 Embora a causa gay tenha tido algumas vitórias e realizações importantes em muitos lugares, ainda há inúmeras tentativas para manter a homossexualidade na zona da patologização, onde certa vez foi colocada. Embora pareça que a homossexualidade não seja mais entendida como um "desvio" de um assim chamado "desenvolvimento sexual normal" (supostamente desde a sua remoção em 1990, pela OMS, da lista de doenças mentais), e apesar de todos os reivindicados "avanços" feitos até agora em vários países no âmbito dos direitos dos homossexuais, é certo que, nas nossas sociedades, com algumas diferenças entre elas, o estigma da anomalia sexual tem ainda sido impingido à homossexualidade.

 Gays, lésbicas e transexuais ainda veem as suas práticas de sexualidade e gênero serem consideradas como distúrbios, problemas, "um assunto embaraçoso para as famílias", "segredos pessoais", etc. Gays, lésbicas e transexuais ainda são temas de conversas diárias, programas de TV e debates midiáticos ligados ao poder. Nas nossas sociedades, estamos continuamente a ouvir as pessoas dizerem muito naturalmente: "Aceitamos um vizinho gay, mas quando isso acontece em nossa casa, é outro assunto ..."; "Eu não o rejeitei quando ele saiu [do armário], eu o abracei, cuidei dele ... mas eu tive vergonha, eu sofri muito por meu filho ser gay" ou "Se é difícil para jovens gays a aceitar-se por causa de tudo o preconceito, muito menos seus pais" [2]. Para muitas pessoas, talvez a maioria das pessoas -- incluindo as pessoas LGBT --, a homossexualidade continua algo fatídico, um fato na vida de alguém que não pode ser dissociado de dúvidas, consultas, investigações médicas e psicológicas e diagnósticos sobre supostas causas para a homossexualidade [3].

 Ainda hoje em dia, a liberdade de escolha no âmbito do sexo e do desejo erótico não é totalmente reconhecida como uma determinação pessoal para o exercício da própria autonomia, o que seria o que Gayle Rubin chamou de ''justiça erótica'' [4]. A sexualidade dos homossexuais, especialmente, continua a ser objeto de uma série de especulações e patologizações [5].

 Nossa hipótese é que, mesmo quando inseridos em ambientes progressistas e com direitos concedidos, os homossexuais continuam vistos através do prisma de uma ideologia patologizante, que os distingue como portadores de uma especificidade biológica ou emocional, presumida como a causa de uma suposta anormalidade sexual [6]. Neste ideologia, que tornou-se o senso comum social sobre a homossexualidade, o destino de gays, lésbicas e transexuais não será cumprido com o reconhecimento completo de seus direitos, mas na abreviatura de tais direitos por muitos regulamentos (um exemplo claro ocorreu na França, com os fortes protestos contra a legalização do casamento gay e adoção gay) ou na "esperança pela cura" através de tratamento médico ou psicológico (no Brasil, esse debate foi reaberto com a proposição de leis para a criação de políticas e dispositivos para uma "cura gay", por deputado homofóbico a partir de uma plataforma religiosa) ou na brutal opressão e criminalização da homossexualidade como ocorre na Rússia.

 Pode parecer que esta hipótese é datada, dado que a homossexualidade já não é tratada como doença quer pela medicina, quer pela psicologia ou pelas leis de vários países -- que os direitos de gays, lésbicas e transgêneros. De fato, tudo isto se tornou uma realidade, e é inegável que realizações e avanços importantes têm ocorrido, mas o que quero demonstrar é que tudo isso foi conquistado por meio, sim, com certeza, de grande luta! E no entanto a homossexualidade ainda é submetida ao discurso que insiste em tratá-la como um aspecto da vida de alguém que não é naturalmente evidente, e merece ser investigado quanto a suas "causas". Uma espécie de discurso que, interiorizado por gays, lésbicas e transgêneros, fez-lhes acreditam ser portadores de uma sexualidade exclusiva, para além dos outros, com "etologia desconhecida" e que os faz questionar por que se tornaram homossexuais.

 As últimas décadas têm demonstrado várias "pesquisas" sobre a gênese ou psicogênese da homossexualidade. Não passa um dia sem artigos publicados em jornais, exposição em programas de TV, notícias da mídia, etc., sobre "novos estudos sobre a homossexualidade", "descobertas sobre os fatores pré-natais levando os indivíduos a ser sexualmente atraídos pelo mesmo sexo", " pesquisas provam que todos os homossexuais eram sexualmente atípicos quando crianças e adolescentes, e  que todas as crianças e adolescentes sexualmente atípicos se tornarão adultos gays"... se nada for feito a respeito, dias virão em que vamos confundir tais investigações como a descoberta de novas espécies no zoológico humano.

 A ideia de que a homossexualidade pode ser (ou é) biológica, genética, a realidade de um indivíduo desde seu nascimento, sendo assim natural, inata, como se acredita ser a heterossexualidade, é vista por muitos homossexuais como uma tese favorável em suas lutas pela declaração identitária e igualdade de direitos. Mas é preciso dizer que eles estão completamente enganados. A alegação de que a descoberta dos "aspectos biológicos" da homossexualidade é favorável aos gays, lésbicas e transexuais é simplesmente despolitizante.

 A permanência de um senso comum (aliás, a noção de senso comum foi reivindicada pelos conservadores na França como um argumento contra a instituição do casamento gay, que declarou ser oposição a "uma lei que vai contra as leis da biologia e contra o senso comum" [7]), que ainda produz a percepção da homossexualidade que a transforma em um objeto a se aprender, sondar, investigar, torna-se um suporte político de profunda eficiência ideológica. As explicações aceitáveis sobre o que é a homossexualidade acabam por re-situá-la como anormal, incompreensível,  algo a ser visto como um acidente no caminho de gays, lésbicas e transgêneros: um acidente genético, fisiológico e psicológico; nunca vindo de sua liberdade de desejo, liberdade de escolha e autonomia erótica. Ser homossexual ainda é uma situação que inspira preocupação ou cuidado, algo de que a existência, precisão e legitimidade é incerta.

 Mesmo quando o discurso social parece assimilar uma nova noção para o entendimento da homossexualidade, como no caso do conceito de "orientação sexual", nenhuma transformação relevante ocorre. Mais e mais, a crescente substancialização e naturalização da ideia de orientação sexual - o que era suposto ser uma substituição para a patologização da homossexualidade - resultou em nada mais do que um novo diagnóstico para a homossexualidade, ainda de carácter médico, científico, atribuindo à psicologia e sexologia a definição deste sexualidade diferente, isolada.

 Assim é como eu proponho que não estamos livre do discurso de patologização. Tal discurso demonstra sua eficiência quando aqueles que deveriam ser os primeiros a recusá-lo tornam-se cúmplices de sua própria aceitação. Hoje, as pessoas homossexuais acreditam ser politicamente contraproducente, e até mesmo proibido!, compreender as chamadas "orientações sexuais", como escolhas do próprio erotismo, sensualidade e desejo, sempre subjetiva e singulares, sendo assim traduzidas como eleições, opções, preferências do desejo de alguém. Para eles, o método mais fácil "convencer" a sociedade é apelar para o argumento da natureza, segundo a qual a homossexualidade é uma orientação sexual natural, de caráter biológico. O refrão "Eu nasci gay" é pronunciado por alguns como uma alternativa política ao discurso homofóbico.

 Não é demais repetir** uma capitulação ingênua (frente à ideologia sexual hegemônica) que não percebe que, mais uma vez, diagnósticos patologizantes para a homossexualidade são aceitos, disfarçados como "explicações científicas" - Estamos agora na era avançada da "orientação sexual" , a sociedade é agora capaz de entender os homossexuais: a nossa sexualidade é uma "orientação". Não é pecado ou doença! Bem, por que, então, seria esta noção forte o suficiente contra a homofobia? Por sua capacidade de naturalizar a homossexualidade? Por sua essencialização conservadora?

 Nosso objetivo aqui é apresentar um argumento que, para nós, deve tornar-se parte da revogação atualmente urgente do entendimento que tem sido mantido sobre o que constitui a homossexualidade, bem como parte da produção de um outro entendimento, que pode tornar-se um modo geral de compreensão social e se transformar-se em uma base para o reconhecimento social (e a luta política por reconhecimento) de gays, lésbicas e transgêneros. Nossos questionamentos são os seguintes: haverá um reconhecimento [8] autêntico (social, político e de direitos) sem as ideias de sexualidade como escolhas, preferências e opções? Será que a instituição de alguns direitos sem a revogação do conceito de ''homossexualidade'' como uma ''orientação sexual'' separada (causada por algum fato desconhecido ou outra causa dentro da zona das irregularidades psicológicas) representa verdadeira emancipação? O reconhecimento sem as noções de escolha e liberdade no âmbito do desejo e do sexo representará efetivamente uma transformação social?

 A resposta para essas perguntas é NÃO. Para a verdadeira emancipação e o autêntico reconhecimento, o conceito patologizante da homossexualidade deve ser revogado, multiplicado em várias versões,  mesmo quando disfarçado com a ideologia da aceitação liberalizante ou do amor familiar ("que deve colocar o amor acima de todo preconceito"), embora permanecendo prejudicado.***

 Eu poderia contar com o conceito de Nancy Fraser, ao propor que reivindicar o reconhecimento significa reivindicar por justiça. Como destacado pela autora, o reconhecimento de pessoas ou de grupos inteiros, setores sociais, etc., significa subordinação social, o que significa que todos eles sejam privados de participar em pé de igualdade na vida social: "o que faz o não-reconhecimento moralmente aceitável, sob esta perspectiva, é que ele nega a alguns indivíduos a possibilidade de participar como iguais na interação social". E ela prossegue: ''...reparar uma injustiça certamente requer uma política de reconhecimento, mas isso não significa outra política identitária. Pelo contrário, significa uma política que visa superar a subordinação, integrando pessoas que são falsamente reconhecidas como membros da sociedade, capazes de participar com outros membros como iguais. Concebendo o não-reconhecimento como um status de subordinação, eles veem os erros nas estruturas sociais, e não na psicologia individual ou intersubjetiva. Ser falsamente reconhecido, sob essa perspectiva, significa não apenas ser desmerecido ou desvalorizado nas atitudes conscientes e crenças de outras pessoas. [...] Significa, ao invés disso, ser negado a participar como parceiro integral na interação social, e ser 'prevenido' de participar na vida social, como consequência de padrões institucionalizados de valoração cultural que definem alguém como desmerecedor de respeito e estima [9].

 A despatologização definitiva das homossexualidades feminina e masculina exige uma batalha política e uma política de contra-discurso, de modo que (inspirado por Judith Butler) [10], desdiagnosticando as sexualidade, estas estarão de uma vez por todas liberadas de categorizações médicas, psicológicas e pedagógicas. Isso requer que as reflexões e lutas políticas para o reconhecimento dos direitos dos homossexuais joguem fora o discurso combinado de biologia, medicina e psicologia - um ramo da medicina,  extensão do discurso médico. Enquanto a ideia de que a homossexualidade é algo que precisa ser explicado, diagnosticado e/ou revelado for consentida, o desejo gay permanecerá na esfera da patologia.

 O fator inaceitável para a ideologia sexual hegemônica e a homofobia produzida por tal ideologia é a mera ideia de liberdade implícita no conceito de homossexualidade como desejo, uma escolha, uma preferência, uma opção. Nas nossas sociedades, muitos não podem aceitar a ideia de que a homossexualidade é uma escolha, tomada de decisão, embora [não]**** inteiramente consciente e totalmente bem-resolvida. Nas ideias defendidas por vários estudos (antropológicos, sociológicos, históricos e psicanalíticos), o desejo sexual é construído em caminhos pessoais em que numerosos elementos são misturados, seguindo instruções conscientes e inconscientes, sempre culturalmente e historicamente situadas, mas sempre uma escolha na economia de prazeres.

 Entendemos que, para o fim da ideologia sexual atual, sob a batuta de heterossexualidade obrigatória [11], a fonte de homofobia, é primordial a recusar toda ideologia do diagnóstico, que faz com da homossexualidade algo a ser investigado, verificado, sondado, como um objeto de curiosidade médica, psicológica etc.

 Por último, vale a pena notar que a única maneira de alcançar o fim da patologização da homossexualidade e de todas as práticas erótico-sexuais dissidentes  da ideologia sexual hegemônica e a homofobia correlacionada é a afirmação dos desejos sexuais como escolhas emocionais, sexuais  e libidinais, com base na liberdade e no exercício da autonomia erótica - sem relação com determinantes genéticos, fisiológicos, psicológicos ou ambientais.


 Notas

[1] https://docente.ifrn.edu.br/isabeldantas/gestao-desportiva-e-lazer/artigos/por-uma-teoria-construcionista-critica
[2] Palavras retiradas de http://mulher.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2013/09/01/pais-contam-como-encararam-a-noticia-de-que-os-filhos-sao-gays.htm . Acessado em 09/02/2013.
[3] Cf. Michel DORAIS, “La recherche des causes de l’homosexualité : une sciense-fiction ? ». In: WELZER-LANG, Daniel; DUTEY, Pierre ; DORAIS, Michel. La peur d l’autre en soi: du sexisme à l’homophobie. Québec: VLB ÉDITEUR, 1994.
[4] Cf. Gayle RUBIN, "Pensando sobre sexo: notas para uma teoria radical da política da sexualidade". Cadernos Pagu, Campinas: Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, n. 21, p. 1-88, 2003, p.10.
[5] Cf. Judith BUTLER, Judith. Deshacer el género. Barcelona: Paidós, 2006, p. 113-148.
[6] A view of homosexuality which contributed to theorists such as Sigmund Freud. See, e.g., Sigmund Freud Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro, Imago, 1972 (Obras Completas, v. VII) e, igualmente, FREUD, Sigmund. A vida sexual dos seres humanos. Rio de Janeiro, Imago, 1976 (Obras Completas, v. XVI)
[7] Cf. http://www.portugues.rfi.fr/franca/20130524-manifestacao-contra-casamento-gay-no-domingo-acontece-em-clima-de-tensao. Acessado em 03/09/2013.
[8] Aqui, usamos o conceito de reconhecimento de Charles TAYLOR, A política do reconhecimento. In: _____. Argumentos filosóficos. São Paulo: Loyola, 2000. p. 241-2; Axel HONNETH. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Ed. 34, 2003 and Nancy FRASER. “Reconhecimento sem ética?” In: Lua Nova, São Paulo, 70: 101-138, 2007.
[9] Cf. Nancy FRASER. “Reconhecimento sem ética?” In: Lua Nova, São Paulo, 70: 101-138, 2007, p.107.
[10] Cf. Judith Butler, “Desdiagnosticar el género”. In:______. Deshacer el género. Barcelona: Paidós, 2006, p.118.
[11] A expressão "heterossexualidade compulsória" foi usada pela primeira vez em um artigo da ensaísta americana Adrienne Rich, em 1980. Pela expressão, a autora entende a heterossexualidade como uma instituição política, uma agência politicamente motivada, de supervalorização da cultura heterocêntrica e do heterossexismo, institucionalizando não só a eliminação da existência de lesbianismo e feminismo, mas a homossexualidade em geral. As utilizações posteriores de tal expressão, variando de ''heterossexualidade compulsória'' a ''heterossexualidade obrigatória'', como em Judith Butler, Didier Eribon, inter alia, procura ressaltar o predomínio de uma ideologia de consagração e de institucionalização da heterossexualidade como universal, natural, inata e legitimada como "normal".

Referências bibliográficas

BUTLER, Judith. Deshacer el género. Barcelona: Paidós, 2006
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003
ERIBON, Didier. Refléxions sur laquestion gay. Paris : Fayard, 1999
FRASER, Nancy. “Reconhecimento sem ética?” In: Lua Nova, São Paulo, 70: 101-138, 2007
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro, Imago, 1972 (Obras Completas, v. VII)
FREUD, Sigmund. A vida sexual dos seres humanos. Rio de Janeiro, Imago, 1976 (Obras Completas, v. XVI)
HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Ed. 34, 2003
RICH, Adrienne. “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”. In: Bagoas, v.4, n.5, Natal, EdUFRN, jan./jun. 2010, p. 17-44
RUBIN, Gayle. "Pensando sobre sexo: notas para uma teoria radical da política da sexualidade". Cadernos Pagu, Campinas: Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, n. 21, p. 1-88, 2003
TAYLOR, Charles. A política do reconhecimento. In: _____. Argumentos filosóficos. São Paulo: Loyola, 2000. p. 241-2
WELZER-LANG, Daniel ; DUTEY, Pierre ; DORAIS, Michel. La peur d l’autre en soi : du sexisme à l’homophobie. Québec : VLB ÉDITEUR, 1994

*Nem eu nem (provavelmente) você ou qualquer outra pessoa é capaz de sentir desejo por determinado ser simplesmente por ter a vontade de sentir tal desejo. Entretanto, supondo que a orientação sexual é em algum grau influenciada pelo nosso processo de socialização (o que inclui diversos tabus, normas de gênero etc.), procurar novas experiências eróticas ou buscar libertar-se de preconceitos relativos a normas de gênero seriam formas de alterar a própria orientação sexual mediante, de certa maneira, escolha própria.

**Tive problemas com a tradução aqui. O texto original era

It is not too much to repeat a naive capitulation facing the hegemonic sexual ideology which does not realize that, once more, pathologizing diagnoses for homosexuality are accepted, disguised as “scientific explanations” – we are now at the advanced age of “sexual orientation”, society is now able to understand homosexuals: our sexuality is an “orientation”.
Creio que deveria haver um adjetivo ou advérbio logo após ''much''.

***Novamente, problemas com a tradução. O original era

 For true emancipation and authentic recognition, the pathologizing concept of homosexuality must be revoked, multiplied into many versions, even when disguised in the ideology of liberalizing acceptance or family love (“which should put love above all prejudice”), even though remaining prejudiced.

***Aqui, mais uma vez, tive problemas com a tradução. O original está logo abaixo:

In our societies, many cannot accept the idea that homosexuality is a choice, decision-making, although entirely conscientious and totally well-resolved.

Para combinar com a frase logo a seguir [''In the ideas defended by various studies (anthropological, sociological, historical and psychoanalytic), sexual desire is constructed in personal paths in which numerous elements are blended, following conscious and unconscious directions, always culturally and historically situated''], um ''not'' deve ser posto entre ''although'' e ''entirely''.






Um beijo para o Alípio de Sousa Filho!


Alipão falando sobre construcionismo na UESPI em 2014.



 E eis que, na pretensão de traduzir um artigo relativamente recente do prof.º da UFRN (cujos trabalhos já figuraram aqui no blog um bocado de vezes), descubro que o ótimo artigo de Gayle Rubin (que também já apareceu aqui) intitulado Thinking sex: notes for a radical theory of the politics of sexuality, do qual eu já havia começado a traduzir uma parte e o qual eu pretendia traduzir por inteiro em breve, está disponível em PT-BR já há algum tempo (leia-se ''há mais de 10 anos''). Eis aqui.

 Um beijo para os tradutores do texto, também, assim como para o Caio Buni, que disponibilizou a tradução na plataforma passei direto.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Lutas políticas e reificações perigosas: sucumbindo à ilusão essencialista



''Nascido assim'' (?)

No âmbito da discussão sobre gênero e sexualidade, a biologização ou a substancialização da orientação sexual não são assimiladas, tampouco produzidas, apenas pelo discurso cientificista. A aceitação de muitos LGBT (incluindo importantes lideranças do movimento) da ideia segundo a qual a homossexualidade, travestilidade e transexualidade são “orientações sexuais” fixas, fincadas em cada um antes do nascimento, correspondendo a realidades biológicas, ou que seriam substâncias psicológicas absolutas e estáveis, não deixa dúvida do quanto o essencialismo tem sido abraçado.

 Para muitos LGBT, militantes ou não, a legitimação de suas reivindicações passaria por demonstrar que as orientações sexuais seriam inatas, definidas biologicamente, “naturais” ou sorte de essência psicológica, ignorada como tal por cada um que a abriga: assim como alguns “nasceriam heterossexuais”, outros “nasceriam homossexuais, travestis, transexuais”. O bordão “nasce-se gay” é repetido como argumento (pretensamente estratégico) na luta por reconhecimento. “Nascer” gay, lésbica ou trans seria fenômeno com dois sentidos: “desde criança, era gay”, “na infância, já me via como 'mulher' ou 'homem' ”, o que é representado como algo anterior ao nascimento (seria inato) ou algo muito cedo instalado (mas definitivo e invariável) – espécie de teorias hereditaristas.

 A ideia de cérebros sexuados (hétero, homo, trans ou outro) ou outras naturalizações equivalentes são vistas por muitos LGBT como argumentos favoráveis às lutas de afirmação identitária e por direitos. Em certo discurso militante, aparece uma conceituação, menos ou mais consciente, explícita ou implícita, sobre o que seria a orientação sexual homossexual (ou qualquer outra) que a destitui de todos os seus traços de uma construção do desejo e de uma expressão da diversidade das escolhas sexuais, ao torná-la uma essência, uma substância, que a pessoa representada por “homossexual” seria portadora (e do que não poderia escapar). Entendimento que é tomado como válido, em termos estratégicos, para uma “legitimação da homossexualidade” e para as lutas por reconhecimento. Acredita-se que, de algum modo, essa conceituação serviria para combater o preconceito em torno da homossexualidade.

 Aqueles que pensam assim acreditam que é politicamente contraproducente, e torna-se mesmo proibido!, compreender as chamadas orientações sexuais como escolhas do erotismo, da sensualidade, do desejo, sempre subjetivas e singulares, nem estáveis nem absolutas, e, portanto, que podem ser traduzidas como eleições, opções, preferências do desejo individual. A orientação sexual é uma prática no sentido também que cada um, exercitando-se, experienciando, constrói, menos ou mais conscientemente, sua vida erótica, seu regime de prazeres.

 Um exemplo marcante da confiança de militantes da causa LGBT de que uma orientação sexual não é uma construção do desejo foram as reações de diversos participantes da I Conferência Nacional LGBT, ocorrida em abril de 2008, em Brasília, que, a cada vez que palestrantes – referindo-se à homossexualidade – usavam o termo “opção”, incluindo o presidente da República e ministros de Estado, estes eram interrompidos por vozes que soavam em coro: “opção não, orientação!”. Nessa correção linguístico-política, “orientação” é substantivo que pretende exprimir a essência, a qualidade, a propriedade que, existindo por si mesmas, sem ação do sujeito-homossexual, exprimiriam a sua verdade profunda e o fundamento da sua identidade sexual, substância determinada e determinante. Estamos aqui sob os efeitos daquilo que Michel Foucault denunciou como os “dispositivos” de controle das sociedades modernas: neles, a sexualidade se tornou a realidade mais secreta e profunda do indivíduo que abrigaria uma verdade que permitiria descobrir quem o indivíduo é e permitiria revelar o “sexo verdadeiro” que lhe determina (FOUCAULT, 2006). A “orientação sexual” seria o sexo verdadeiro, determinado e determinando a identidade de cada um.

 O discurso militante (ou mesmo um discurso espontâneo de lésbicas, gays e trans) adota(m) o conceito de orientação sexual como algo da ordem de uma realidade dada, que não requer discussão, e mesmo sugere se tratar de assunto sem interesse. E como é hegemônica em nossas sociedades a opinião segundo a qual a realidade do indivíduo “é a soma do biológico e do cultural” – ideia reproduzida por certas correntes teóricas no campo acadêmico, numa espécie de “ciência do meio a meio” (pretendidamente mais “tolerante”, sem “radicalismo”, “mais exata”) –, também no âmbito da discussão sobre a orientação sexual, pretende-se que esta seja em parte “determinada pelo biológico” e, em parte, “pelo cultural” (ou “pelo ambiente”). Essa compreensão é o fundamento para a posição política segundo a qual o que importa é o que “se é”, assim como igualmente importante é a afirmação político-pública das identidades assumidas por cada um, não importando definições conceituais. É a política pragmática contra a política do conceito.

 Ora, trata-se de um engano: abandonar as definições sobre o que seja a “orientação sexual” aos discursos substancialistas (do biologismo, psicologismo ou outro) é esvaziá-la do que pode lhe render maior significado político: seu caráter de uma prática construída na pluralidade do desejo e na diversidade das experiências do prazer. Isso é válido para todas as “orientações sexuais”, e definição que serve ainda para a retirada da heterossexualidade do reino do inato, do natural, inserindo-a também no reino das práticas construídas na diversidade do desejo, situando-a na cultura e na história. O que é politicamente insuportável nas práticas sexuais que não seguem os padrões heteronormativos é sua dissidência na escolha, a transgressão na construção de si por parte daqueles que, com outras preferências, subvertem os ditames da [1] “heterossexualidade obrigatória” – razão pela qual se pretende domesticá-las como “orientações” naturalizadas.

 Todavia, suspeitando da “ fragilidade” do argumento (des)construcionista, que é o nosso, opiniões há que se manifestam assim: “a afirmação político-pública que as orientações sexuais são realidades do campo das práticas, escolhas, construções, preferências, e variáveis e coexistentes, tornará possível que homossexuais, travestis e transexuais sejam questionados quanto a poderem escolher uma outra orientação sexual que não aquela que praticam e com a qual se identificam”. E não poderiam? Efetivamente podem e são muitos os sujeitos que variam suas práticas/orientações sexuais. Por exemplo, homens e mulheres tidos como “heterossexuais” por bom tempo de suas vidas transportam-se, em alguma circunstância, a vivências da homossexualidade, assim como homens e mulheres com experiências duradouras da homossexualidade transportam-se, em algum momento, para práticas heterossexuais. Igualmente como tantos outros praticam alternada ou concomitantemente os diversos prazeres sexuais, sem buscarem qualquer identidade fixa.

 Desse modo, por que gays, lésbicas e trans receiam falar de mudança de “orientação sexual” ou desta como manifestações de desejos e práticas que podem conhecer variações? A questão não é sem importância: acossados pela homofobia e pelo monoteísmo sexual de nossa sociedade, que procura fazer crer que a heterossexualidade (e o que lhe é solidário: casamento, monogamia, sexo reprodutivo etc.) é a via única da existência, gays, lésbicas e trans sabem que, quando se fala de “mudança de orientação sexual”, o que se propala é o “abandono” ou “interrupção” das práticas eróticas, sexuais e afetivas que não seguem os padrões heteronormativos. Isto é, apela-se a gays, lésbicas e trans que abandonem suas práticas, estigmatizadas como “anormais”. Torna-se, pois, compreensível que se tenha produzido no segmento LGBT uma espécie de temor e dificuldade em justificar as escolhas eróticas e de prazer sexual em termos da liberdade de cada um em fazer valer seus desejos e opções. Há ainda aqueles que se sentem ameaçados pelas propaladas “terapias de reorientação sexual”. Teme-se que os homofóbicos e conservadores ganhem o debate porque terão a seu favor o argumento segundo o qual, se a “orientação sexual” é, no âmbito das prática sexuais, escolha, opção, desejo, aqueles que escolhem “desvios” e “perversões” não podem querer institucionalizá-los em forma de direitos, pois “podem escolher orientação sexual natural, normal”.

 Não negligencio o anseio de segurança ontológica de sujeitos marginalizados, discriminados e violentados pelo preconceito e pelo discurso ideológico, que veem no argumento essencialista (do inato, do biológico, do psicológico) um “porto seguro” de suas identidades. Todavia, temos aqui duas questões teórico-políticas importantes: não se torna possível reivindicar o reconhecimento da diversidade sexual em bases conceituais, éticas, filosóficas e políticas sem o recurso ao argumento essencialista do biológico ou do psicológico? Ao dizermos que as orientações sexuais constituem práticas do desejo, construídas nos exercícios do sexo e dos afetos, estamos de fato oferecendo munição aos conservadores e homofóbicos que, contrariados com a diversidade do desejo, divulgam e incentivam pseudoterapias de “mudança de orientação sexual” (sempre da homossexualidade para a heterossexualidade e nunca o contrário), supostamente com o mesmo argumento “construcionista”?

 À primeira questão darei uma resposta positiva e a segunda responderei negativamente. Insistirei com uma tese: o argumento segundo o qual a descoberta de “aspectos biológicos” da homossexualidade favorece a gays e lésbicas contra o preconceito é simplesmente equivocado. Não se torna necessário lançar mão de qualquer forma de essencialismo para o reconhecimento da diversidade sexual e de gênero.

 A ideia essencialista e naturalizadora da orientação sexual é ela própria prisioneira dos discursos heteronormativo e homofóbico. Para estes, não se pode legitimar o que é da ordem do desejo, da escolha, da eleição livre, tratando-se do que foge ao regime da normalidade aceita. A ideia de orientação sexual como essência biológica ou psicológica termina barrando a afirmação das diversas possibilidades do sexual (incluindo a heterossexualidade) como expressão da pluralidade das práticas do desejo, do erotismo, do prazer, ao mesmo título iguais entre si, nenhuma delas sendo natural, inata, biologicamente configurada.

 Aqueles que flertam com as teses de um essencialismo naturalista em matéria de sexualidade não têm consciência da despolitização que a posição representa. O argumento da natureza despolitiza a reflexão sobre gênero e sexualidade e atrela direitos a serem conquistados pela mudança de mentalidade da sociedade ao obscurantismo do apelo ao biológico ou ao psicológico. O que fundamenta a crença essencialista é, no fundo, o temor da ideia de liberdade, o temor do desejo como fator de produção da diversidade, da pluralidade. O temor do próprio desejo como potência criadora.

 Ainda, a corrupção da concepção construcionista sobre sexualidade e gênero pelos conservadores e homofóbicos, como tem sido possível atestar nas atuações de certos setores políticos ou religiosos, não pode ser entendida como uma fragilidade dessa concepção. Não se pode dizer que o (des)construcionismo socioantropológico e filosófico que tem sido praticado nas análises críticas de gênero e sexualidade possa servir aos interesses daqueles que – religiosos, médicos, psicólogos, pedagogos etc. – pretendem submeter todos ao monoteísmo heteronormativo, pela simples razão que são perspectivas radicalmente opostas. Enquanto os diversos agentes desse monoteísmo objetivam o controle do prazer e a normalização do desejo, os estudos e práticas de uma concepção desconstrucionista visam promover a liberdade e a pluralidade do desejo e do prazer.


Notas
[1]  Cf. Adrienne Rich (1980), Judith Butler (2003), Didider Eribon (1999), entre outros autores.


SOUSA FILHO, A.. A política do conceito: subversiva ou conservadora? Crítica à essencialização do conceito de orientação sexual. Bagoas : Revista de Estudos Gays, v. 3, p. 59-77, 2009.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A atual onda de irracionalismo e a ciência como ferramenta de crítica social, por Alípio de Sousa Filho


''O sono da razão produz monstros'', de Francisco Goya.


A universidade e a atual onda de irracionalismo

 Embora se espere que a universidade faça a crítica dessa voga atual de misticismos e irracionalismos, ela não tem sido capaz de fazê-lo. Ao invés, alguns de seus integrantes, sob diferentes considerações e pretextos, têm embarcado de cheio na voga atual de recusa do pensamento científico-crítico. Uma parte dela, por intermédio de alguns de seus professores e alunos, tem levado para aulas, seminários, encontros, etc., visões que são ressacralização da realidade, recusa da teoria e abandono da reflexão crítica -- ainda que tudo isso seja disfarçado em relativismos, holismos etc., seguindo o que Alan Sokal, a propósito de imposturas intelectuais, chamou de ''pout-pourri de ideias, quase sempre mal-formuladas''.

 Ora, não se trata aqui de, criticando os irracionalismos atuais e a recusa da ciência na universidade, fazermos coro com um racionalismo estreito e sectário (estilo, por exemplo, Karl Popper, como em sua Conjecturas e refutações, para quem somente é científico o que se alinha aos parâmetros das ciências experimentais). Nem o esforço geral de crítica (pela iniciativa de intelectuais críticos) a toda essa onda irracionalista na ciência pode ser visto como o ''novo tribunal da inquisição'', como já se disse em alguma parte. Para o pensamento científico-crítico, não se trata de ser a ''inquisição'', mas de combater visões que revestem a realidade de uma aparência em tudo favorável à reprodução da alienação e à reprodução da dominação social-política em suas diversas formas. Pensando-se o caso da universidade e sua função cultural na sociedade, não se pode pretender outra coisa senão a prática da crítica -- trabalhos teóricos críticos, professores críticos, alunos críticos.Contudo, os irracionalismos atuais e a recusa do que é científico e crítico têm entrado na universidade pela porta da frente, com a cumplicidade de quem menos se espera.

 No ambiente universitário, os irracionalismos, os discursos anticiência e anticrítica tornaram-se a forma do palavreado fastidioso que reclama da filosofia e da ciência deixarem para trás o que se tem chamado ''velhos olhos'', ''velhos paradigmas'', etc. Entenda-se por ''velhos'' a tradição filosófica e científica ocidental, dos gregos até nossos dias. O apelo é que nós, universitários, nos integremos na ''conspiração de Aquário''-- como quer Marilyn Ferguson? --, aceitando a teologia da New Age, que reclama o fim da separação entre espírito e matéria, esta que seria uma típica criação da ciência moderna ocidental, o fim dos ''paradigmas reducionistas'' -- entenda-se Marx, Freud, Durheim, Weber, entre outros --, o fim da ''atitude intelectual'', sempre pronta a fazer a análise crítica dos fenômenos da cultura, atitude que teria produzido intolerância frente a tudo -- em certos círculos universitários, a moda é ser ''tolerante'' e, em consequência, ''ignorante'': nada sabemos sobre nada, nada podemos saber. Admiremos o mundo. Sorvemos o vinho da mediocridade. Assim, de Shirley Maclaine e suas 144 vidas, aos repetitivos programas de domingo na TV, tudo é bom e tudo se curte. O pensamento científico-crítico é que é intolerante e chato!

 Não é preciso esperar o ''milênio da paz'': podem-se perceber, entre universitários, embora mais difusas nas falas que sistematizadas, ideias do que se poderia considerar uma antropologia de senso comum -- ou é o senso comum elevado à categoria de teoria?! -- segundo as quais fatos como a acumulação, a exploração, as desigualdades econômicas, sociais e de poder, assim como as desigualdades sociais entre homens e mulheres, e os preconceitos racistas e outros, seriam de base objetiva ou biológica. Teses que não são novas, mas que, de modo impressionante, voltam pouco a pouco. Mas não se pense poder encontrá-las claramente. Aparecem aqui e ali, mais nas falas que por escrito, dissimuladas como rupturas com ''velhos paradigmas'', mas que se vêm difundindo dentro e fora das universidades.

 Por simples exemplo, a leitura de um Heinz R. Pagels, em Os Sonhos da Razão: o computador e ascensão das ciências da complexidade (1990), não deixa dúvida quanto à onda teórica conservadora que ronda a universidade. O livro é um primor de reacionarismo. As desigualdades econômicas e sociais, as hierarquias, a repartição desigual do poder, entre outros aspectos -- e, por extensão, seguindo essa ótica, certamente a existência da pobreza, da delinquência, dos preconceitos raciais e sexistas --, são vistos como resultado de tendências naturais na espécie humana e estas teriam bases biológicas, seriam hereditárias. Conforme a ótica exposta por H. Pagels, os desequilíbrios, as relações de força, as hierarquias, sendo realidades que já encontramos nos outros primatas, caracterizariam também a espécie humana -- tudo sendo bastante evidente, bastando ver que somos como os macacos; nada de humano no mundo humano!

 Não se trata aqui de negarmos nossa parte animal, mas, tratando-se de instituições sociais, hábitos, comportamentos, ideias etc., saímos do reino da natureza para o da cultura -- e isso nos ensina, desde muito cedo, uma antropologia materialista e crítica. Na ótica dos ''novos paradigmas'', contudo, as desigualdade sociais, as hierarquias e os preconceitos sexistas que marcam, por exemplo, as relações entre homens e mulheres, ou que reservam aos que praticam a homossexualidade o estigma de pertencerem a uma espécie à parte, são vistos como resultados de tendências naturais a relações de força, hierarquizações etc. (Se os animais são assim por que não os humanos?), e somente nos restaria aceitá-las -- as feministas e os homossexuais que se calem! Assim, as críticas marxistas, feministas e, em geral, das ciências modernas não teriam qualquer razão de ser, porque quase nada (ou nada), na vida social e no comportamento humano, teria origem histórico-social e cultural. Teorias da socialização do indivíduo humano e da instituição do social, como temos, por exemplo, em Norbert Elias, em A sociedade dos indivíduos, ou em Peter Berger e Thomas Luckmann, em A construção social da realidade, aos olhos destes ''novos paradigmas'', não fazem qualquer sentido. As ideias ideológicas¹ de hereditariedade, tendências inatas, impulsos biológicos e outras voltam à cena e trazem consigo velhas crenças.

 Afastando-se a crítica, passou-se a chamar de ''sociologia dura'', ''certezas'' etc. os esforços teóricos que, na verdade, correspondem à tentativa de ler criticamente a realidade. Em nome da recusa à ''sociologia dura'', muitos são os que vêm admitindo, como exatas, concepções reacionárias, produzidas por crenças sem fundamento, mas que vêm se misturando ao saber científico. Com isso, acreditam beneficiar a universidade e a ciência. Certos grupos universitários têm confundido com ''marxismo'' ou com ''marxização'' da análise da realidade, notadamente em ciências humanas, toda perspectiva crítica. Ora, muitas vezes trata-se de crítica na interpretação -- mas o que já é muito!

 Como observou Paulo Sérgio Rouanet, mais que em outros países, entre nós cresce a ''ressacralização do mundo'', e, poder-se-ia acrescentar, a biologização e a naturalização do social e do cultural. O que se quer de volta? Os deuses e as crenças banidos pela crítica teórico-filosófico-científica? O que teremos com a volta do mistério, do sagrado, da natureza, do inato, aceitos como fatores que explicariam a vida humana, o social e a história? A quem interessa a ideia, a boba ideia, segundo a qual ''a ciência não pode explicar tudo'' -- essa tolice que vem sendo repetida por muitos? Não se percebe que teremos de volta a ignorância e a superstição que, dentre outras coisas, têm condenado pobres, mulheres, homossexuais, negros, deficientes físicos, à opressão, à violência, às representações estigmatizantes, em nossa e em outras sociedades?

 Abriguemo-nos, por fim, nas reflexões do físico Francis Slakey -- a física, que os esotéricos e os adeptos das teses sobre ''crise dos paradigmas'', ''fim das certezas'', ''visão holística'' etc têm apresentado também como aliada no questionamento à ''sociologia dura'': faz-se uso de teorias da física (buraco negro, caos, etc.) para explicações de fenômenos humano-sociais, culturais, históricos --: ''A razão sofre uma morte quase todos os dias. (...) A cada crença fantástica, a objetividade é embolada e a ciência é descartada. Estas fantasias anticientíficas invadem os salões acadêmicos, até mesmo os salões da ciência. (...) Esta é a moda elegante e moderna no campo do pensamento: rejeitar a razão objetiva e questionar o valor da ciência, abraçar a subjetividade e confiar nos sentimentos''. 

A ciência enfrenta os preconceitos morais, religiosos e sociais. A ciência faz a crítica do irracionalismo e do misticismo. Ciência é crítica

 Como não reconhecer a importância do pensamento científico na produção da crítica à ideologia -- esta que se manifesta justo na forma das representações, crenças diárias, superstições infundadas, preconceitos e costumes que mascaram a dominação e a justificam? Para aqueles que têm sistematicamente acusado o pensamento científico-crítico de ''fechado'', ''reducionista'', ''linear'', ''intolerante'' etc., conviria lançar a pergunta de Carl Sagan: ''A que interesses serve a ignorância?'' A ignorância, relativamente ao pensamento científico-crítico, interessa a quais setores da sociedade?

 Até aqui, tem sido o pensamento científico-crítico que tem mantido -- contra os preconceitos e ideias ideológicas diversas, mesmo aquelas que se misturam à ciência -- uma compreensão da realidade que afasta as representações sociais segundo as quais, para ficarmos apenas em alguns exemplos, os dominados e explorados o seriam por ''leis naturais'', ''infortúnios'' ou ''desígnios sagrados'', os negros seriam, por determinações biológicas, ''inferiores'' e ''propensos à violência'', as mulheres seriam ''incapazes'' e ''frágeis'', os homossexuais, ''doentes'' e ''anormais'', etc.

 São a filosofia e as ciências modernas -- entre as quais, as ciências humanas --, insurgindo-se contra essas representações e ideias aceitas, que elaboram uma nova visão do homem, das culturas e da história e que oferecem à sociedade os instrumentos para a crítica superadora de visões que fundamentam costumes, normas, leis e preconceitos injustificáveis, que restam ainda fortes no imaginário social, em diferentes sociedades -- o que não permite aos cientistas, nos diversos domínios, descuidarem de suas responsabilidades sociais e políticas.(Curiosamente, propõe-se abandonar conquistas que, no campo das ciências humanas, por exemplo, têm apenas um século de existência, outras, um pouco mais de um século, num mundo em que boa parte das transformações sociais são recentes e outras que sequer dão sinais de vir a se produzir em tempo próximo: entre outros exemplos, a abolição da escravidão, no Brasil, data apenas do século passado²; a concessão do direito de voto às mulheres, na França, data de 1944; nos anos da Segunda Guerra Mundial, 6 milhões de judeus foram mortos em câmara de gás nos campos de concentração nazistas; a Índia se libertou da dominação inglesa faz pouco mais de cinquenta anos; atualmente, na Argélia, fanáticos, em nome do verdadeiro Islã, diariamente violentam mulheres e assassinam pessoas indefesas -- já se fala em 60000 mortos, num período de seis anos; também em nome da religião, em diferentes partes do mundo, mulheres continuam impedidas de participar da vida pública, etc. -- no Afeganistão, atualmente, as mulheres são submetidas a violências absurdas --, e, com justificativas religiosas, israelenses continuam massacrando palestinos; na maioria das sociedades, os homossexuais continuam estigmatizados pelo preconceito; sobre os negros ainda pesam representações sociais que os oprimem. Propõe-se abandonar conquistas do pensamento científico moderno num mundo em que 1/3 da população do planeta passa fome, 250 milhões de crianças são submetidas a trabalho forçado, 12 mil pessoas se suicidaram na França num só ano, 1997, e 7 mil, na Inglaterra, no mesmo ano, e num mundo em que, nas primeiras décadas deste século, no Brasil, intelectuais ainda discutiam se a miscigenação biológica entre portugueses, indígenas e africanos tinha-nos feito, nós brasileiros, ''inferiores'', ''raça inferior''. E que dizer de se colocar em questão as conquistas do pensamento científico num país, como o Brasil, em que a morte provocada de pessoas é vista como coisa natural -- mortes provocadas pela fome, por atropelamento, por ações da polícia, por ''erros'' médicos, por ações ordenadas por ricos proprietários, justificando a defesa de suas propriedades, sem contar os assassinatos e crimes que a vida cotidiana tem banalizado em muitas cidades (assassinatos de menores, travestis, mulheres, mendigos,etc.)

 Como desprezar o trabalho da crítica científica, como os paladinos dos ''novos paradigmas'' vêm fazendo, dentro e fora do ambiente universitário, trocando ciência por uma mistura de fragmentos de religiões orientais, astrologia, crenças diversas -- e há aqueles que acrescentam a isso o retorno de um enfoque biologista --, para a explicação de cultura e comportamentos humanos, pela visão de que as ciências, tal como as temos hoje, não têm conseguido explicar a realidade, dar respostas às necessidades humanas, etc., porque seriam ''racionalistas'', ''reducionistas'', ''lineares'', ''deterministas''? Mas, a propósito dessas acusações, poder-se-ia perguntar: há visão da realidade mais determinista e linear que a da astrologia, se indivíduos, nações e épocas têm suas vidas e histórias determinadas ''pela posição dos astros'' no momento do nascimento? Ou, sobre bases biológicas de instituições sociais, haverá visão mais reducionista? Ou, ainda, sobre as ideias de reencarnação, carma, etc., poderão existir crenças mais deterministas e também mais reducionistas?

 A importância da ciência para a crítica social é inegável. É o conhecimento teórico-científico que, até aqui, tem tornado possível afastar concepções que justificam a opressão político-social, enfrentado visões e antigas crenças que mantêm indivíduos e sociedades como prisioneiros de representações estigmatizantes, sistemas de poder, etc. É a visão crítico-científica que, acompanhando as transformações históricas, é responsável pela libertação dos indivíduos das cadeias que os mantêm atados, na vida cotidiana e comunitária, a normas, regras, ideias que realizam a dominação social sob diferentes formas.

 Até aqui, as lutas pela emancipação dos indivíduos e sociedades tiveram o modo científico de pensar como contra-discurso crítico ao que se fixou, como ideias, imagens, representações, etc. sobre indivíduos, grupos sociais e povos inteiros.

 A crítica do irracionalismo e do misticismo não é, pois, capricho dos cientistas. Esta é crítica que não pode deixar de ser feita pela ciência.

 Claro, não se trata de tomar o pensamento científico como a forma única da crítica. A literatura, o cinema e as outras artes, em geral, são outras formas de se produzir a crítica. Isso não é ignorado por aqueles que lidam com a ciência. Mas, que se trate de arte ou ciência, o certo é que, tratando-se de reconstruções da realidade que se oponham às representações sustentadas pela ideologia, continuamos no campo da reflexão crítica, no qual a ciência atua com vantagens. Não há, pois, razão de se destacar também que ''a ciência não é a única forma de compreensão crítica da realidade'' -- outra das bobagens que se tem repetido nos salões universitários, como se fosse coisa que já não se soubesse! --, numa espécie de lição relativista para a censura de uma suposta pretensão monopolista do saber.


SOUSA FILHO, Alípio de. Responsabilidade intelectual e ensino universitário: carta aberta aos que amam a ciência. Natal: UFRN, 2000, pp. 123-130.

 Notas

[1] Sobre o conceito de ''ideologia'' em Alípio de Sousa Filho, ver esse post.
[2] Lembro que o livro data do ano 2000 -- último ano do século XX.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Evolução e natureza

por Antônio Cícero, para sua coluna na ''Ilustrada'', da Folha de S. Paulo, sábado, 6 de setembro de 2008 (o autor indicou-o como complemento ao artigo ''Parada gay de São Paulo capitula frente ao discurso conservador", de Alípio de Sousa Filho, que comentei anteriormente aqui).


NORMALMENTE supõe-se que o grande escândalo causado pela teoria da evolução seja devido à descoberta de que o ser humano descende de alguma espécie de macacos. De fato, isso foi sem dúvida um escândalo espetacular, uma enor

me "ferida narcísica", como dizia Freud, infligida ao homem que aprendera ter sido criado à imagem de Deus.

 Mas a teoria da evolução provocou também outros escândalos.

 Quero falar de um que, embora menos espetacular, não é menos importante. Trata-se da relativização das espécies naturais. Desde Aristóteles, supunha-se que, criadas ou não, as espécies naturais fossem imutáveis.

 A espécie à qual um ente qualquer pertencia era considerada a sua natureza. Ora, a natureza de uma coisa se confundia com seu fim, que era seu bem e sua perfeição próprias. Descobria-se essa natureza a partir do estudo dos espécimes que se encontravam, como dizia Aristóteles, num estado natural, em oposição aos espécimes "degenerados".

 Como se pensava saber que um espécime se encontrava no estado natural? Pela observação da sua normalidade, isto é, do fato de que sua constituição física e seu comportamento não desviavam da constituição e do comportamento da maior parte dos indivíduos da mesma espécie. O anormal, ao contrário, era considerado degenerado. Desse modo, a normalidade se tornava normativa. O degenerado era aquele que se constituía ou se comportava contra a sua natureza: "contra naturam".

 Pois bem, observando a natureza humana e a natureza da sociedade humana, Aristóteles concluiu que o natural era que a alma governasse o corpo, a inteligência, os apetites, o homem, os animais, o macho, a fêmea, e o senhor, o escravo. Para ele, essas relações eram naturais, e qualquer supressão ou inversão delas se daria contra a natureza. Do mesmo modo, o velho Platão, na sua última obra, pressupunha que a finalidade do erotismo, no indivíduo natural/normal, era a reprodução; logo, considerava contra a natureza toda relação homossexual. Esta última concepção se consolidou na Idade Média e é até hoje doutrina da Igreja Católica, para a qual toda relação homossexual infringe uma "lei natural".

 Tal "lei" não passa, evidentemente, de um equívoco, pois as leis da natureza, que são descritivas, isto é, que dizem o que realmente acontece, não devem ser confundidas com as leis humanas, que são prescritivas, isto é, dizem o que deve (ou não deve) ser feito. A lei da gravidade, por exemplo, não diz que todos os corpos que têm massa devem se atrair de determinado modo e sim que se atraem desse modo. Se for descoberto que determinados corpos têm massa e, no entanto, não se atraem do modo previsto, não serão esses corpos que estarão errados, mas a lei da gravidade. Assim também, se uma "lei natural" diz que os indivíduos do mesmo sexo não sentem atração erótica uns pelos outros, basta abrir os olhos para ver que essa "lei" está errada, ou melhor, não é lei, não existe.

 A teoria da evolução mostrou que a própria natureza não é algo fixo de uma vez por todas, mas se encontra em transformação. As espécies biológicas mesmas não têm "naturezas" eternas, mas estão em incessante evolução. Isso significa que não se pode considerar como natural exclusivamente a constituição física ou o comportamento "normal", isto é, tradicional. Uma espécie nova surge exatamente a partir das mutações – da "degeneração" – de uma espécie antiga. O indivíduo que, por ser portador de uma mutação está sujeito a ser considerado uma monstruosidade, talvez seja o limiar de uma nova espécie.

 O ser humano é o produto de tais mutações, e sua maior novidade consiste em que não apenas a espécie humana, mas cada espécime humano é infinitamente capaz de mudar a si próprio, capaz de experimentar o que nunca antes se experimentou, capaz de criar o que nunca antes existiu. Toda invenção, toda arte, toda técnica, toda cultura pode ser considerada como o resultado da transformação – poderíamos dizer, da perversão – da natureza pelo homem. O primeiro antropóide a se erguer e usar as patas dianteiras como mãos – abrindo caminho para a aventura humana – estava pervertendo a função "natural" desses membros.


 Não é lícito, portanto, invocar a "natureza" para justificar – ou para condenar – tais ou quais comportamentos, atos ou instituições. Quem o faz inevitavelmente incorre no provincianismo de "naturalizar" comportamentos, atos ou instituições contingentes e históricos, tais como a dominação do homem sobre a mulher, a escravidão ou a condenação da homossexualidade.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Um diálogo crítico com Alípio de Sousa Filho





 Alípio de Sousa Filho, doutor em sociologia e professor da UFRN, publicou um texto no site Carta Potiguar sobre a parada LGBT de 2015 que achei no mínimo interessante; nele, o autor faz uma crítica ao tema escolhido para o evento, chamando-o de capitulação ao conservadorismo religioso que tem tido ascensão em nosso país nos últimos anos. Contra julgamentos que pretendem apenas aceitar ou rejeitar en bloc as ideias de Alípio, pretendo fazer uma análise racional para concluir o que há de aproveitável ou não na obra.

  Alípio diz que

Depois de Freud, Foucault e Deleuze, falar de biologia do sexo ou do gênero (“nasci assim, cresci assim”) é voltar a cair em enganos obscurantistas. O ser humano não se orienta por instintos, direção biológica ou determinantes genéticas. O ser humano, por sua falta de especialização e direção biológicas, é um criador de instituições sociais. Ele é somente social e desejo, e boa parte desse desejo fundado no social que o governa. Quantas vezes mais vão ser necessárias repetir que sexo e gênero não são realidades biológicas mas construções culturais, sociais e históricas e, por isso mesmo, realidades inteiramente modificáveis, substituíveis, revogáveis? 

  Mas isso faz mesmo sentido? A começar, que se quer dizer por ''biologia do sexo'', p. ex.? Seria uma ciência das características morfológicas que diferenciam os corpos sexuados (ou melhor, uma ciência dos fatores determinantes -- genes, hormônios etc. -- das diferenças específicas entre os corpos sexuados)? Ou uma ciência do coito, um estudo da fisiologia da prática sexual? Por ''biologia do gênero'', que se entende também? Uma ciência dos fatores que levam à comportamentos específicos, esses culturalmente identificados como masculinos ou femininos (em nosso modelo binário de gêneros)? Não vejo sentido em dizer que falar de tais coisas seja ''voltar a cair em enganos obscurantistas'', e não é preciso mais que os exemplos tão simples do viagra e da testosterona para isso.

 O autor fala que o ser humano ''é somente social e desejo'', e que ''sexo e gênero não são realidades biológicas mas construções culturais, sociais e históricas''; ao fazer isso, parece querer ignorar estupidamente o aspecto mais material de nós, nossos próprios corpos, cheios de genes e hormônios. Seria racional supor que tais elementos, com profunda influência sobre uma série de características nossas (como a cor dos olhos ou o tamanho dos dedos) não tenha influência alguma sobre a agressividade ou o desejo erótico? Que a socialização de um indivíduo do sexo masculino como menina em nossa sociedade (como na verdade já aconteceu [1]) dar-lhe-á seios, vagina e um desejo erótico direcionado a outros indivíduos do sexo masculino?

 É quase inevitável aí esquecer do que Terry Eagleton falou em seu As Ilusões do Pós-Modernismo:

[Afirmar que x ou y é 'biológico' é o] tipo de declaração que os pós-modernistas tendem a achar assaz problemática, uma vez que acreditam com um dogmatismo de tirar o fôlego que toda referência à natureza, pelo menos nas questões humanas, representa uma ameaça de 'naturalizar'. O natural, segundo essa visão, constitui apenas uma palavra mistificadora para aquelas práticas culturais discutíveis com que acabamos por acostumar-nos. É fácil ver como isso se aplica à visão de que a civilização humana entraria em colapso se não houvesse a parada do dia de São Patrício, mas mais difícil de ver como se aplica a eventos como respirar e sangrar. Também não é verdade que 'naturalizar' se aplica a toda ideologia, como quase todo mundo, de Georg Lukács a Roland Barthes, parece ter presumido. O próprio pós-modernismo invectiva contra 'naturalizar' quando ele mesmo às vezes torna absoluto o sistema atual. Ele se arroga o título de 'materialista' e depois, compreensivelmente cauteloso em relação aos biologismos racistas ou sexistas, passa a suprimir a parte dos seres humanos mais obviamente materialista, sua constituição biológica [2].

 Penso não ser necessário dedicar mais tempo a defender a tese de que, por sermos seres materiais, da matéria sofremos influência (antes fôssemos conceitos rodopiando na história do pensamento humano...).

 Dedico-me, então, a analisar outra tese sua: a de que o tema da Parada LGBT paulista desse ano representou uma concessão ao pensamento conservador e patologizante, sendo ''uma total irresponsabilidade política e profundamente deseducativo quando se trata de pretender a emancipação cultural e política da sociedade brasileira''. Concordo com ele, e explico o porquê: o ''nasci assim'' tenta retirar os julgamentos de valor sobre as identidades LGBT por meio da retirada de uma possível culpa pessoal (por escolha) ou de ''má-criação''; restaria à sociedade, então, apenas aceitar os LGBTs, uma vez que estes seriam ''filhos da pródiga natureza'', ''parte do plano do Criador'' ou algo assim.

 Oras, isso não retira o momento algum o estigma de que sofrem as identidades LGBT! Dizer que a homossexualidade é genética, hormonal ou epigenética não retira das instituições e da opinião popular a noção de que ela é, de alguma forma, moralmente ilegítima ou inferior à heterossexualidade; não elimina o conceito de que a obediência às normas de gênero (i.e., às regras de comportamento para os corpos sexuados) é melhor que sua transgressão, representada pelas transgeneridades. A defesa dos inatismos e do determinismo biológico, por mais cientificamente correta que seja (e é provável que esteja bem melhor nesse quesito que o determinismo social, seu antagonista [3]), não retira dos LGBTs a pecha de anormalidades, gente inferior cuja orientação sexual (no caso de gays, lésbicas bissexuais) talvez deva ser eliminada no futuro da história da humana, por meio de tratamentos epigenéticos ou coisa do tipo, enquanto a própria heterossexualidade (e também a cisgeneridade) segue sem ter pesquisas questionando sobre sua(s) causa(s).

 Em vez (ou pelo menos além) disso, o que se deve fazer é questionar o que tornaria o desejo homossexual inferior, moralmente ilegítimo, ou por que deveriam os indivíduos sexuados comportarem-se de forma a obedecer as teleologias de gênero; e mostrar o direito que todo amor e toda relação consensual têm de serem respeitados e admirados. Como disse o próprio Alípio em outra ocasião,

(...) a aceitação da homossexualidade deve acontecer na sociedade por sua mudança de conceitos, paradigmas, valores e não por acomodação a uma pretendida 'verdade' que estaria na 'própria constituição genética' dos homossexuais... [Sua luta] pela cidadania plena (direito ao reconhecimento pelo Estado e pela lei de suas uniões conjugais, direitos de herança, direito à adoção por casais gays, entre outros direitos que se tem conquistado em diversos países) não é um ingênuo 'desejo de normalização', uma queda na ideologia (burguesa ou outra), mas um nível de luta política em que se questionam as ideias de normalidade e de democracia, quando esta se limita a direitos que excluem significativos segmentos da população em diversos países [4]. 

 E para mais uma vez citar o autor, ''que se danem todos os reacionários (e principalmente os cães de guarda da reação conservadora no Brasil, hoje: esses senhores e senhoras das igrejas e seitas evangélicas!), ao não admitirem a liberdade dos indivíduos!''


Notas 


[1] http://www1.folha.uol.com.br/bbc/2010/11/835267-documentario-conta-drama-de-gemeo-criado-como-menina-apos-perder-penis.shtml
[2] http://www.filoczar.com.br/filosoficos/Eagleton/EAGLETON,%20Terry.%20As%20Ilus%C3%B5es%20do%20P%C3%B3s-Modernismo.pdf
[3] http://climatologiageografica.com/atualizado-biologia-e-psicologia-a-verdadeira-origem-da-homossexualidade/
[4] http://boradiscutir.blogspot.com.br/2015/05/teorias-sobre-genese-da.html

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O assédio ideológico do deputado Rogério Marinho

por Alípio de Sousa Filho, sociólogo e professor da UFRN, para  a Carta Potiguar
Deputado Federal Rogério Marino (PSDB-RN).


 Tramita na Câmara Federal o projeto de lei 1411/2015, de inciativa do deputado federal do RN, Rogério Marinho (PSDB), que criminaliza o que o projeto chama “assédio ideológico” e que presume ser uma prática no ensino no país. Para o projeto de lei, tal assédio seria a prática de professores que visariam impor aos estudantes posicionamentos políticos, partidários, “ideológicos” ou qualquer tipo de “constrangimento” que os obriguem a adotarem posicionamentos diversos aos que sustentam. Como é concebida como uma prática a ser tratada como crime, o projeto estabelece pena de prisão e multa para professores ou outros agentes da educação que o cometerem.

 Vistos muitos projetos bizarros e folclóricos apresentados nas casas legislativas brasileiras, em todos os níveis, não é tão espantoso assim que mais um parlamentar apareça com um projeto dessa natureza. Projeto que, se aprovado, será declarado inconstitucional, logo em seguida, por tão desarrazoado.  Mas, professores e educadores não podem deixar de reagir, manifestando-se contra uma tão absurda ideia.

 Em primeiro lugar, há que se desmascarar a pretensão do deputado em chamar de “ideológico” o pensamento teórico que não difunde as ideias que ele professa e que certamente não as toma por também “ideológicas”. Ele procede como Napoleão Bonaparte: são os adversários que são os ‘ideólogos”, ele próprio, não!

 Ora, desde Marx e Engels, ao escreverem o livro “A ideologia alemã”, o sentido para o termo ideologia é totalmente um outro que essa confusão de conceber todas as ideias como “ideológicas” ou estas como sendo as ideias dos adversários ou inimigos. Esses autores bem definiram a ideologia como o fenômeno pelo qual ideias e representações sociais são capazes de produzir uma inversão na visão humana e social sobre a gênese e o caráter da realidade social e histórica, ao esta adquirir a aparência de autônoma em relação à própria sociedade e aos seus agentes. Isto é, a realidade social ganhar aspecto de algo que existe sem a participação da ação humana, sem história, uma quase-natureza, realidade transcendental ou divina.

 Analisando particularmente a sociedade capitalista, embora o fenômeno seja igual em todas as outras, os autores também destacaram uma relação intrínseca entre ideologia e as ideias e representações de uma classe social particular, a “classe dominante”. Para eles, a ideologia corresponde às ideias dominantes e, como escreveram, essas ideias são, em cada época, as ideias da classe dominante porque é essa classe que detém igualmente o monopólio dos meios de difusão das ideias na sociedade. E quais são as ideias dominantes difundidas por esses meios? São ideias negadoras das relações sociais que imperam na sociedade, por serem a expressão mascarada das relações que tornam possível que a classe que tem poder econômico seja dominante, sendo, portanto, as ideias que disfarçam a dominação social e política dessa classe.  Marx e Engels concluem que são “as ideias de sua dominação”. Assim, conceituada como as ideias da dominação, a ideologia não corresponde a quaisquer ideias e nem a todas as ideias.

 Conquanto a percepção de Marx e Engels traga algo da ideologia que é ser sempre as ideias da dominação, definição a se conservar, após suas análises pioneiras, muitos estudiosos já demonstraram, numa conceituação pós-marxiana do fenômeno da ideologia, que a dominação social e política (e suas ideias) e diversas formas de sujeição social nem sempre têm um conteúdo ou componente de classe, de dominação de classe, qualquer que seja ela ou qualquer que seja o sistema de sociedade. A sujeição social que se sustenta na ideologia adquire formas muito variadas (que vão das discriminações, apoiadas em preconceitos, às exclusões sociais, provocadas por subtração de recursos, subordinações e negação de reconhecimento, passando por sofrimentos emocionais e psíquicos, produzidos por opressões, assédios, violências, repressões e coerções morais), atingindo diferentes indivíduos, sujeitos, grupos e classes.

 A ideologia é responsável pela produção da alienação e do assujeitamento dos indivíduos a subjetividades impostas, instituições, saberes e tecnologias de produção de si, fazendo-os desconhecerem o que funda a realidade à sua volta e a realidade de si próprios. O que caracteriza a ideologia, no fundamental, é sua operação de discurso no sentido de negar a historicidade da realidade, produzindo sua naturalização e eternização.

 Um dos importantes papéis do ensino, em todos os níveis, é possibilitar a formação do pensamento teórico-filosófico-científico que dote a todos de condições intelectuais, epistemológicos e metodológicas para o conhecimento da realidade, esta concebida de modo amplo: o mundo natural, o mundo social-histórico e o mundo da realidade subjetiva humana. Toda a produção do conhecimento teórico-filosófico-científico até aqui na história do pensamento humano voltou-se para esse fim. Produção de um modo de pensar sem neutralidade, pois já lhe é intrínseco ser a crítica e a desconstrução de todas as ideias (ideológicas) que circulam na sociedade que impedem o conhecimento da realidade. Ao ser um saber que torna possível a compreensão do que funda a realidade da sociedade e do mundo, assim como a realidade dos próprios indivíduos enquanto sujeitos sociais, o conhecimento é sempre crítica, esclarecimento, lucidez, desalienação e dessujeição.  Não é por outra razão que, na história de nossas sociedades, o conhecimento conhece também uma história de sua perseguição, proibição, censura.

 Assim, embora ciências possam ser, em diversos casos e ocasiões, veículos do discurso ideológico, no seu ensino e no do modo teórico-filosófico-científico de pensar não é a ideologia, no sentido próprio do termo, que impera, como pretende fazer acreditar o deputado (no uso do termo em seu projeto, com propósito, este sim!, ideológico!), mas inteiramente o seu contrário. Nas escolas e universidades, nós, os professores, educamos para o conhecimento da realidade, para a formação de cientistas, pensadores, pesquisadores e profissionais para diversos áreas de atuação, mas sempre com a ideia que estes devem agir para modificar condições de existência que degradem a pessoa humana, que constituam realidades de exclusão, subordinação, discriminação, sujeição.

 Não são professores, nas escolas ou nas universidades, que praticam assédio ideológico, mas as mídias, as igrejas, as famílias, os discursos moral, religioso e político, ao difundirem ideias que negam o caráter construído da realidade e, por isso mesmo, o caráter revogável de todas as instituições sociais existentes. Tentando fazer crer a todos que a realidade do mundo, das sociedades e de nossas vidas são realidades naturais, universais, imutáveis, transcendentais, divinas, cabendo apenas nossa conformação ao instituído e ao existente, suas práticas tornam-se a de uma polícia dos comportamentos e pensamentos, agindo sobre crianças, jovens e adultos para a manutenção de preconceitos, hábitos e ideias que constroem, sustentam e reproduzem instituições e relações de sujeição ou dominação.

 Ao pretender que aqueles que ensinam o pensamento crítico e reflexivo nas escolas e universidades estariam praticando “assédio ideológico”, com a ameaça de sua criminalização, o deputado potiguar Rogério Marinho age, como verdadeiro capataz da ideologia, em favor de uma educação acrítica, obscurantista, retrógrada e, por isso, impeditiva da formação de verdadeiros cientistas, estudiosos e profissionais capazes de contribuírem com a construção de uma sociedade, no Brasil, culturalmente avançada, politicamente emancipada e sem as misérias que nos sufocam.

 Tomara seu projeto torne-se mais um na prateleira da Câmara Federal onde jaz a pilha do folclore parlamentar nacional!


Outros textos de Alípio Sousa Filho no blog:
Teorias sobre a origem da homossexualidade

sábado, 30 de maio de 2015

Teorias sobre a causa da homossexualidade: ideologia, preconceito e fraude


 O artigo abaixo é de autoria de Alípio de Sousa Filho, Doutor em sociologia pela Sorbonne (Paris V) e professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN, e foi publicado em JUNQUEIRA, Rogério Diniz (Org.). Educação e diversidade sexual: problematizando a homofobia na escola brasileira. Brasília: Ministério da Educação (Coleção Educação para Todos). Dentre os comentários que tenho a fazer sobre ele estão os de que 1) há um uso excessivo de argumentos retirados da psicanálise, que tenho visto ser cada vez mais criticada e relegada à posição de pseudociência 2) não me parecer convincente quanto à não ser haver uma causa específica para a homossexualidade e 3) não ser capaz de responder (ou ignorar) evidências de uma base biológica da homossexualidade, tal como essa aqui (para outras referências de argumentos biológicos sobre a homossexualidade, ver esse artigo).



 A colonização do imaginário e a invenção da causa específica da homossexualidade 


 Pretendemos, neste artigo, tratar do preconceito em torno da homossexualidade, considerando algo de sua lógica interna, nem sempre percebida como tal. Não é desconhecido de ninguém que teorias e “pesquisas” de muitos tipos procuram causas (biológicas, psicológicas, sociais, “espirituais”) para a homossexualidade, deixando entender que os indivíduos concernidos na prática da homossexualidade – ditos homossexuais – têm qualquer coisa a menos (ou a mais) que os outros (um gene, um pedaço do cérebro, hormônios, um instinto congênito ou adquirido, etc), são indivíduos que sofreram algum “desvio” ou “suspensão” no chamado “desenvolvimento sexual normal” ou “inversão quanto ao objeto sexual”. Estas últimas sendo crenças muito difundidas, ainda hoje, entre psicólogos e psicanalistas – confundindo-se aí todas as correntes –, exceções isoladas à parte.

 A tese que sustentaremos aqui é a que uma longa história de colonização pelo preconceito, praticada sobre o imaginário de diversas sociedades, representando a homossexualidade como uma exceção ou como um desvio ou inversão no quadro de uma pretendida normalidade heterossexual, levou a que se buscasse a causa específica que produziria a homossexualidade – e não importando se esta tenha sido pensada, variando as épocas, como vício, pecado, crime, doença, perversão ou como um desvio no desenvolvimento sexual. Evidentemente, uma história que não deixou de marcar os espíritos... mesmo daqueles bem intencionados. E se sabemos que, desde a metade do século XIX, a homossexualidade não é mais tratada como “contrária à natureza” – a não ser em certos tratados de medicina legal, artigos de códigos penais ou discursos religiosos –, permanece, até hoje, a mesma sempiterna visão de que se trata de uma “tendência sexual” para cuja causa certos fatores devem ter influído, tornando-se matéria de etiologia médica, objeto de arqueologias do “inconsciente” ou, como mais recentemente, assunto de especialistas das áreas da biologia, neuroanatomia, neurociência. Num ou noutro caso, estamos no reino das pretendidas causas. O reino da ideologia [1] e do preconceito. As teorias variam – entre ideias propostas por religiões como o espiritismo (a homossexualidade seria cármica) e teses sustentadas por correntes das psicologias, passando por opiniões de biólogos –, mas a conclusão é sempre a mesma: a homossexualidade seria um fato, na vidado indivíduo afetado, que se tornaria possível explicar por alguma causa específica. Nossa reflexão é igual em conclusão à posição dos antropólogos Peter Fry e Edward MacRae, quando, em texto em que trataram do tema “que é a homossexualidade”, referindo-se brevemente ao assunto das “causas”, escreveram: “nenhuma das teorias existentes sobre as causas da homossexualidade nos convence e a nossa tendência é de tratá-las todas, sem exceção, como produções ideológicas” (FRY; MACRAE, 1983:15).

 Neste trabalho, faremos a crítica a teorias, que, de tão difundidas, tornaram-se verdadeiro senso comum social: as teorias das psicologias – a psicanálise aí incluída – e as produzidas na onda contemporânea do determinismo biológico em suas versões mais atuantes: a sociobiologia e a psicologia evolucionista. Trata-se, necessariamente, da visão de um cientista social, mas igualmente subjetiva e que não se esconde como uma visão política do problema. No combate ao preconceito (na ciência ou fora dela) e à violência que ele implica, nenhum cientista pode reivindicar objetividade e neutralidade científicas.

 Poder-se-á objetar nossa crítica dizendo que nenhum preconceito há em se pensar uma gênese específica da homossexualidade – Freud já tratava do assunto, acreditando numa “gênese psíquica da homossexualidade” (FREUD, 1910 [1970: 91 e segs.]) –, assim como se admitiria uma gênese também particular para a heterossexualidade. Nos dois casos, tratar-se-ia sempre de escolha objetal e, igualmente, existiriam aí causas implicadas: para cada um dos casos, as escolhas estariam fundadas em determinações (inconscientes), ignoradas pelo próprio sujeito, que se diferenciariam quanto apenas aos objetivos sexuais, julgamentos de valor não podendo ser aplicados a nenhum dos casos. Em outra ocasião (SOUSA FILHO, 2003b), já nos valemos desse argumento, mas ele é frágil. Ora, a questão que não aparece aí é que, como a priori o preconceito sobreatua em certas visões teóricas, as supostas determinações (inconscientes, sociais, culturais) da homossexualidade já são, de antemão, encaradas como determinações de um “problema”, de uma “inversão”, de um “desvio”, de uma “perversão”, isto é, de uma escolha não conforme a ideologia da “normalidade”. Simples é ver que o preconceito age em círculo: como a homossexualidade é a priori encarada como “inversão”, “desvio”, “anormalidade”, perversão”, etc., suas supostas “determinações” não são compreendidas como determinações de uma escolha objetal normal e saudável (uma escolha entre outras, supostamente quando haveria uma compreensão sem juízo de valor), mas, diferentemente, essas determinações são compreendidas como “causa” de um “problema”, de um “desvio” no âmbito da sexualidade dos indivíduos. Até aqui, de todo modo, é o que se pode depreender do discurso de muitos nos diversos modelos teóricos das psicologias, na pedagogia, e mesmo nas ciências sociais.

 Mas, deve-se saber, as sociedades ocidentais foram as primeiras que, na modernidade, constituíram a homossexualidade num problema clínico e os homossexuais em sujeitos clínicos – para o que, grandemente, contribuíram a psicologia e a psicanálise. Fato que se inscreve na realidade mais ampla da criação do que Michel Foucault chamou de “dispositivo de sexualidade” (FOUCAULT, 1985). Segundo o autor, o que chamamos de sexualidade é um produto histórico de um discurso sobre a sexualidade que se engendrou de muitas formas, uma invenção histórica tardia, data do século XIX. É desse período a criação histórica europeia de uma experiência social pela qual “os indivíduos são levados a reconhecer-se como sujeitos de uma ‘sexualidade’, que abre para campos de conhecimentos bastante diversos, e que se articula num sistema de regras e coerções” (FOUCAULT, 1984:10). Isto é, a ideia da sexualidade como uma substância em si (objeto natural e universal) e a existência de toda uma “produção especulativa”, de um “hiperdesenvolvimento do discurso sobre a sexualidade” (idem, 2004:58-59) são invenções sociais que, no século XIX, articulam-se a engenhos de saber e poder em suas relações também apontadas pelo autor (idem, 1977;1979). Nossa reflexão sobre a homossexualidade insere-se nessa linha de compreensão da sexualidade conforme apontada por Michel Foucault. Autor que, fazendo sua “história da sexualidade”, indicou igualmente o trabalho a se escrever sobre a imagem-tipo desqualificadora do homossexual produzida na história do Ocidente, desde os gregos (FOUCAULT, 1984:21). Descontadas as dificuldades de sua época e não deixando de se reconhecer seus autênticos propósitos emancipatórios, os enredamentos de Freud em torno do tema da homossexualidade (é conferir os seus textos em que o assunto aparece...) deixaram para sempre um legado de ambiguidades e preconceitos, marcando profundamente o imaginário de nossas sociedades modernas e o espírito daqueles que, nas psicologias, ao que parece, não perceberam que estão diante tão somente de um modelo teórico e não diante da verdade plena e objetiva sobre um pretendido fenômeno investigado.


 Em todo caso, sugerir que a gênese da homossexualidade releva de uma “tipicidade” na escolha de objeto, por representada como contrária à pretendida normalidade ou, como 5 ainda querem alguns, não conforme a natureza da divisão sexual, não é mais do que deixar o preconceito falar, mesmo considerando a boa intenção científica ou moral. Em geral, curiosas doutrinas (médicas, psicológicas, religiosas) sobre a sexualidade humana são invocadas para “explicar” a homossexualidade em homens e mulheres. Porém, não se tratando mais do que de preconceito em forma de teoria e ciência, as conclusões dessas doutrinas são não apenas arbitrárias: os “dados” sobre os quais se apoiam são questionáveis ou inexistentes. No caso das psicologias, teóricos que, confundindo casos clínicos individuais com supostas leis gerais de “estrutura”, mas arvorando-se à condição de poder teorizar sobre a homossexualidade, praticam generalizações errôneas e profundamente preconceituosas.

 É recente a crítica teórica e o combate político ao preconceito em torno da homossexualidade. É a partir dos anos 50, e sobretudo depois dos anos 70 do século XX, que se inicia a formulação crítica, apoiada na antropologia e na história, opondo-se ao discurso até então dominante – mesmo no chamado meio científico – que apontava o caráter patológico, marginal e desviante da homossexualidade.

 Como um produto dessa visão que a priori entende a homossexualidade como um desvio a explicar, nascem as “pesquisas” determinadas a explicar a causa específica da homossexualidade – e desde já, anote-se, específica porque, no preconceito, os homossexuais constituem uma “espécie à parte”, é o chamado “terceiro sexo”... não é o específico “o que é próprio de uma espécie”? Como veremos, a procura da causa particular (ou causas) da homossexualidade revela mais os preconceitos de quem fala do assunto do que alguma coisa sobre o “fenômeno” pretensamente estudado. A pergunta que poderíamos fazer é: por que razão se procura a gênese da homossexualidade e não se procura, na mesma medida, a gênese da heterossexualidade? Por que todo um conjunto de estudos e tratados sobre a origem da homossexualidade?

 Não se torna possível compreender o que essas questões envolvem se não consideramos o processo de colonização do imaginário de nossas sociedades pelo preconceito, que foi tomando a forma de “explicações” e “teorias” sempre mais aceitas. No limite deste artigo, contudo, estaremos apenas nos ocupando de nossa intenção central, sabendo-se que bom número de estudiosos se encarregou de levantar os elementos históricos que, nas nossas sociedades, produziram, com relação ao sexual, uma educação moralizante, uma teia simbólica de culpabilizações e punições, dispositivos de regulação e disciplina (FOUCAULT, 1977; 1979; BROWN, 1990; LAQUER, 2001; BOSWELL, s/d) – elementos entre os quais o preconceito (sob diversas formas) pôde sempre ser percebido como exercendo ação destacada.

 É importante ressaltar que, no longo processo de colonização do imaginário de nossas sociedades, ganhou força uma concepção que corresponderia a uma naturalização da sexualidade humana, cujo efeito mais destacado é ter criado a ideia segundo a qual a heterossexualidade seria inata (a natureza daria os exemplos em todas as espécies), sendo então natural e normal, a homossexualidade sendo uma tendência adquirida, não sendo, pois, nem natural nem normal. Indo da opinião popular a pretensas visões científicas, essa ideia da heterossexualidade como inata, constituída na natureza das espécies e, assim, igualmente na natureza animal da espécie humana, tornaria sem razão de ser qualquer questão sobre sua origem. É dessa concepção naturalizadora da sexualidade que decorre igualmente a ideia segundo a qual, nos cromossomos e nos hormônios, estariam pré-fixadas as essências masculina e feminina que marcariam o desejo sexual e o destino social de homens e mulheres. A atração sexual entre homens e mulheres (heterossexual) seria, então, natural, definida biologicamente (seria endocrinológica, inscrita no genoma, etc.), com claros (e benéficos) impulsos voltados à reprodução da espécie – impulsos estabelecidos no processo da seleção natural. A heterossexualidade vista como inata e inerente à biologia do ser sexual humano, restava à homossexualidade a condição de uma “tendência adquirida” a ser explicada por “causas”, um “fenômeno” a ser esclarecido na história da espécie e na vida dos indivíduos: causa hormonal, causa genética, causa neurogenética, causa psicossocial...? As hipóteses são lançadas.

 Todavia, convém lembrar que a classificação da homossexualidade como uma entidade nosológica e sua medicalização remontam à metade do século XIX, quando a medicina e a psiquiatria tendem a substituir a religião e o direito na definição social da normalidade. Embora a religião nunca tenha deixado de ser uma força na produção do preconceito no imaginário de nossas sociedades ditas laicas e modernas, é no contexto, pois, do desenvolvimento da ciência moderna com fins normativos que ganha lugar a importância dada à identificação da homossexualidade como fenômeno a ser averiguadas as causas.

 Ainda que a prática da homossexualidade esteja entre as principais práticas sexuais, ao lado da heterossexualidade e da bissexualidade, na história dos diversos povos, em todas as épocas e em todos os meios sociais, observado já por filósofos como Schopenhauer, e amplamente atestado pelas pesquisas em antropologia e história – e que um meio homossexual masculino tenha se formado nas grandes cidades ocidentais desde o século XVI ao menos –, a representação do homossexual (homem ou mulher) como um tipo clínico, tal como se conhece hoje, somente aparece nas sociedades ocidentais no século XIX. Em 1870, um texto do médico alemão Carl Westphal intitulado "As Sensações Sexuais Contrárias" definiu a homossexualidade como um desvio sexual, abrindo caminho para teóricos da época e seus herdeiros tratarem de descobrir o que, na anatomia ou na história familiar do “doente”, pôde provocar sua “anomalia”. O termo passa a designar um tipo social particular, com pretendidas características psicológicas ou fisiológicas. Assinale-se, contudo, que o termo homossexual (do alemão Homosexualität) aparece, pela primeira vez, em 1869, em artigos de jornais do escritor e advogado húngaro Karol Maria Kertbeny, que, como muito bem esclarece o antropólogo brasileiro Luiz Mott, fazia uso do termo “homossexual” e “homossexualismo” como uma maneira de

lutar contra o parágrafo 175 do Código Penal Alemão, que condenava os praticantes do amor do mesmo sexo à prisão com trabalhos forçados. Para proteger sua pessoa e conferir maior respeitabilidade à defesa desta minoria discriminada, Kertbeny usou o pseudônimo de Dr. Benkert, embora nunca tivesse sido médico (MOTT, www.dhnet.org.br/direitos/militantes/luizmott/mott1.html, s/d, s/p).

 Transformada numa anormalidade, a homossexualidade foi, durante um século, combatida ao mesmo tempo como doença, vício, crime e pecado. Não é senão muito recentemente que a homossexualidade cessou de ser considerada como um problema mental, com a decisão, em 1973, da Associação dos psiquiatras americanos de retirá-la da lista das doenças mentais. Até 1975, as sociedades de psicanálise não aceitavam homossexuais como psicanalistas. E foi apenas em 1991 que a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista das doenças. Convém observar que, no Brasil, já nos anos 80, por esforço do antropólogo Luiz Mott, diversas moções de associações científicas (entre estas a Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência e a Associação Brasileira de Antropologia) foram aprovadas e importantes posições de crítica ao preconceito em torno da homossexualidade foram anunciadas (MOTT, http://br.geocities.com/luizmottbr/artigos08.html, s/d, s/p). Mas, para a maior parte das religiões, notadamente para os três monoteísmos praticados no mundo, a homossexualidade continua sendo um mal. Em 1994, o papa João Paulo II declarava que a homossexualidade era “um comportamento moralmente inaceitável”. Em 2002, o Vaticano publica seu Lexicon – que se pretende um “dicionário dos termos ambíguos” (sic.): poderíamos chamá-lo de dicionário do preconceito –, em que se pode ler a homossexualidade definida como “conflito psíquico não resolvido que a sociedade não pode institucionalizar”.

 A lista das criações preconceituosas, pronunciadas contra a homossexualidade, poderia ser aumentada se acrescentássemos diversos outros exemplos da história. Uma passada rápida de olhos na legislação de certos países, ao longo do tempo, pode também oferecer uma ideia do que o preconceito produziu e de como se constituiu em dispositivo de domesticação do imaginário de nossas sociedades, tornando-se a base histórica que faz emergir o pensamento generalizado que se pergunta pela causa específica da homossexualidade. Quantos bem intencionados não se puseram a teorizar sobre o assunto, mais vítimas do imaginário domesticado de suas épocas do que livres pensadores? Uma prática corrente na Grécia, em Roma e na China antigas, ainda que dentro de suas tradições, a homossexualidade existiu como uma instituição pedagógica entre os povos indo-europeus, base da formação dos povos europeus de hoje, tendo se expandido como uma prática social para além de sua natureza pedagógica inicial (SERGENT, 1986). Após o estabelecimento do cristianismo em Roma, ela se torna passível de condenação à morte em todo o Ocidente cristão até o fim do século XVIII. A partir do século XIII, a homossexualidade é passível da aplicação de penas comparadas às que se aplicavam aos crimes de heresia e lesa-majestade. Nos textos da prática jurídica desse tempo, a homossexualidade é associada à bestialidade. Certas cidades, como Bolonha, tinham leis próprias: no início do século XIII, a pena era o banimento perpétuo. Em Florença, para o caso de reincidência, o “crime” era punido com a fogueira. A Alemanha, em 1871, tinha disposições legais para reprimir a homossexualidade masculina, modificadas somente em 1969. No Reino Unido, ainda em 1885, leis estabeleciam penas de prisão para homens que praticassem relações homossexuais. Leis revogadas apenas entre 1967 e 1982. Na Rússia, antes da revolução socialista de 1917, as penas eram leves e eram raras as perseguições; com Stalin no poder, são previstas penas de prisão. Na França, a restrição legal introduzida em 1942, que reprimia relações homossexuais entre um maior e um menor, somente foi abolida em 1982. Irã, Sudão, Zimbábue e Iraque, entre outros, conservam a pena de morte para o que consideram o “crime de homossexualismo”. No Brasil, os homossexuais foram difamados e perseguidos pela Inquisição em processos que começam já no século XVI e seguem até o século XVIII, e os códigos Manuelino, Filipino e Afonsino, aplicados também em terras brasileiras, prescreviam a pena de morte aos sodomitas (MOTT, 1999; entre outros trabalhos do autor). Até aqui, no Brasil, continuamos como uma sociedade em que o preconceito anti-homossexual é abertamente pronunciado em programas de TV, rádio, nas escolas, por professores, padres, pastores, políticos, estando o país entre aqueles que têm taxas recordes de assassinato de homossexuais (MOTT, 2001).

 Um outro fator histórico contribuiu para reforçar a visão segundo a qual a homossexualidade seria uma exceção na sexualidade humana, retardando a crítica do preconceito, e, acrescentaríamos, retardando a crítica da ideologia das pretendidas causas: a negação da homossexualidade na história dos povos e civilizações. Os notáveis estudos de Bernard Sergent, L’homosexualité dans la mytologie greque (SERGENT, 1984) e L’homosexualité initiatique dans l’Europe ancienne (SERGENT, 1986), são esclarecedores a esse respeito: adulterando os textos originais, adaptando-os de maneira a neutralizar a realidade homoerótica ou desclassificando como bárbaras ou primitivas as sociedades nas quais a homossexualidade era abertamente praticada, bom número de historiadores e antropólogos contribuiu com a transformação da homossexualidade em um tabu e, posteriormente, na ideia de uma exceção dentro de uma suposta normalidade majoritária.

Torna-se importante destacar ainda que, na história de nossas sociedades, entre outras de suas expressões, o preconceito tomou a forma da opinião religiosa, que, misturando às crenças uma visão também naturalista da sexualidade, traduz-se na versão segundo a qual a heterossexualidade sendo a forma sexual herdada da natureza pelo homem e – sendo a natureza uma criação de Deus... Javé, Allah, os termos variam conforme as crenças... – tudo que a essa forma contraria, não apenas contraria a natureza, contraria igualmente a vontade divina. Explica-se porque a homossexualidade é banida nas religiões para o campo dos “pecados”, “atos impuros”, “anomalias”, “vícios”, “depravações” ou, na erudição de seus chefes, representa “quando menos, desordem da identidade de gênero” – os termos são de Joseph Ratzinger, logo após tornar-se Bento XVI.

 Considerando a homossexualidade como um problema (ora congênito, ora adquirido), cuja gênese seria um “mistério” que se deve procurar desvendar, as teses patologizantes e moralistas dominaram longamente sem que se lhes opusessem críticas. Apenas nas últimas décadas do século XX os estudos críticos – adotando uma perspectiva antropológica e histórica – iniciaram a desconstrução do discurso do preconceito. Estudos que vão nascendo e se fortalecendo a partir da entrada em cena dos movimentos feministas, da contracultura e do movimento gay. Em diferentes países, o movimento gay transforma o homossexual, de um (inventado) sujeito clínico, em um sujeito de desejo e em sujeito político – o que prevalece até hoje, como forma de luta contra o preconceito. É fato que – como fruto da ação daqueles que sempre resistiram à dominação em todas as épocas – uma outra concepção rivalizou sempre com o preconceito e com a ideologia naturalista que aprisiona a sexualidade numa suposta realidade natural da divisão e da atração sexual: o que chamamos de concepção histórico-antropológica (cultural, construtivista ou, como proporei chamar aqui, construcionista), antes de constituídas as ciências humanas modernas, já dava sinais de sua existência de muitas maneiras... em filósofos, escritores, poetas e em solitários pesquisadores, de pouca fama, que se pode reconhecer nas entrelinhas das citações e diálogos (explícitos ou implícitos) na obra dos famosos.


 Édipo, ratos, hormônios e genes: da ideologia à fraude das causas 


 Assim é que, situado que se trata de um produto histórico e cultural, o preconceito não deixou de fazer seus estragos. E não deixaremos de sugerir que as formulações sobre a(s) pretendida(s) causa(s) da homossexualidade, que se dissimulam como “teorias”, pretendam ou não ser “científicas”, merecem ser chamadas de fraudes (de ordem intelectual e moral), pois constituem um trabalho do pensamento preconceituoso (social, mas também o de cada um) que, embora se reconhecendo como tal, não cessa de agir. Em muitos casos, trabalho que se crê portador da verdade da homossexualidade, da qual os próprios homossexuais estariam privados, pois ignorariam a razão (desconhecida para eles; inconsciente; genética, psicossocial, etc.) de sua “tendência sexual”. E que se pretenda que no anúncio dessa verdade encontra-se uma posição ética que concorreria para uma maior aceitação social da homossexualidade ou para a liberação dos homossexuais numa maior aceitação de si, a pretensão não é menos produto do imaginário colonizado pela ideologia da heteronormatividade, colonizado pelo preconceito.

 Por efeito da longa memória dessa história de colonização pelo preconceito, pensar que existem causas específicas que produziriam a homossexualidade, estigmatizada como um desvio, tornou-se uma ideia que está na cabeça da maioria, se não de todos. Mesmo às vezes no pensamento daqueles que se creem sem preconceitos. Quando não manifesto, permanece latente, no imaginário social, a crença de que um homem ou mulher cuja identidade sexual é a de homossexual é alguém que, no seu desenvolvimento sexual, carrega algo que se constitui fundamento de uma variação não conforme a tendência sexual majoritária. O homossexual seria sempre alguém que teria uma sexualidade a ser esclarecida, investigada, por ele próprio e pelos outros, pois, não conforme uma pretensa normalidade sexual (que seria também normalidade psíquica, moral, social). Na boa “tradição europeia da confissão, que começa pela confissão católica e desemboca na psicanálise” (FOUCAULT, 2004:30), o homossexual é sempre visto como aquele a quem se deve extrair a confissão de sua sexualidade. A homossexualidade como desvio, para cuja existência pesa uma causa específica (talvez variando conforme o caso), é objeto das mais variadas fantasias... das crendices da opinião popular às dos consultórios médicos e dos divãs, passando pelos laboratórios universitários de pesquisa.

 Na psicologia e na psicanálise, uma vez que a naturalização do sexual é refutada por Freud (FREUD, 1905 [1972]), a homossexualidade aparece como uma concretização dos percalços a que a sexualidade do ser da linguagem pode regularmente ser submetida. Resumidamente, três fatores determinariam a homossexualidade masculina: o forte vínculo do filho com a mãe, a fixação na fase narcísica e problemas na “castração”. No primeiro, a homossexualidade teria início em razão de uma intensa e incomum atração do filho pela mãe, o que impediria a ele de se ligar a outra mulher. O segundo fator, a fixação no narcisismo, faria com que o indivíduo invista menos trabalho (psíquico) em se ligar ao seu igual (mesmo sexo) que a outro sexo (diferente). A homossexualidade representaria uma espécie de “estagnação” na fase narcísica, responsável por tornar o amor-sexual, para o homossexual, uma experiência sempre condicionada a encontrar um órgão genital semelhante ao dele. Terceiro fator, problemas relativos à chamada travessia da castração: isto é, dificuldades emocionais relativas a perdas e à idéia de morte, que deixariam o indivíduo resignado ou acomodado na sua psico(homo)ssexualidade.

 Nesses termos, a homossexualidade ilustraria uma falha no evento psíquico que se sucederia ao momento original no qual, na infância, a fixação libidinal se realizaria a partir da imagem de si – que não distinguiria nenhum outro traço que o igual – que, desde então, funcionaria como o protótipo dos objetos que poderão provocar a atração sexual. Como é sabido, para a teoria freudiana e de seus sucessores, o ser humano, enquanto ser da linguagem e para passar de virtual a qualquer coisa a mais, terá que atravessar uma crise psíquica singular em seus efeitos, que provocaria ordinariamente o abandono da (primeira) imagem de si em proveito de uma imagem substitutiva. Descartado que não se trata da realidade animal, em que não há escolha, mas pré-formatação instintual do sexo, no ser falante, o narcisismo (o amor da imagem de si) se encontraria na origem da escolha e da relação libidinal e manteria uma tensão nostálgica e desvalorizadora com relação aos futuros objetos substitutos da imagem de si. A crise psíquica que causaria o abandono do primeiro objeto e suas substituições foi teorizada por Freud como sendo a do Édipo e, desde aí, a atenção se voltou assim para o acesso à sexualidade humana como uma realidade produzida num processo singular, caso único entre todas as espécies animais, por se produzir a partir de uma realidade não biológica mas psíquica e social. (Sem dúvida, definir o caráter psíquico e social da sexualidade humana é uma importante contribuição de Freud para um tema que o aproxima em quase tudo da antropologia, pois essa sexualidade que é uma realidade psíquica é cultural/social no sentido antropológico, isto é, realidade que é construção de uma configuração cultural particular, nas relações sociais, que coloca cada um no roteiro que terá que seguir no drama das instituições em cada cultura – a própria psicanálise podendo ser inscrita num projeto de uma antropologia geral.) Mas se segue que aquilo que era, em certo sentido, uma teorização revolucionária em Freud – retirar o sexual do campo do biológico e inscrevê-lo na cultura – vai se tornar também o ponto de partida de elaborações de um pensamento sobre a homossexualidade (e já no próprio Freud) que não se distanciaram do preconceito de pensá-la como adquirida por vias que a afastariam do percurso normal da sexualidade, e aquisição que se poderia explicar.

 Dispondo da teoria do Édipo, o modelo freudiano proporá que, se o objeto desejado não encarna a prevalência do objeto substituto – o outro, o diferente (héteros) – sobre o amor de si – o igual, o mesmo (homós) –, algo de errado terá se passado ao nível da referenciação da crise psíquica que provocaria ordinariamente o abandono dos objetos do amor de si (homós) em proveito dos objetos do amor do outro (héteros). Conforme esse argumento, a homossexualidade seria o caso de indivíduos que não alcançariam, na sexualidade, o amor do objeto culturalizado – nem instintual, nem narcísico –, permanecendo no amor (primário) do igual, do mesmo (hómos). Por outro lado, a heterossexualidade seria o caso bem sucedido da passagem de um estado a outro da escolha objetal no psiquismo, em que sairia ganhando a reprodução da espécie e a organização social humana, baseada na diferença entre os sexos. Daí porque a heterossexualidade corresponderia a uma sexualidade perfeitamente cultural, civilizatória, própria do ser da linguagem, e resultado de uma intervenção humana (na forma do Édipo, do complexo de castração e quejandos), assinalando o acesso do indivíduo à cultura, sob o império da Lei (do Pai) da diferença sexual. Para a ideologia (no discurso freudiano e no de seus seguidores), a homossexualidade estaria para a natureza assim como a heterossexualidade estaria para a cultura?

 Ainda no modelo teórico das psicologias, a homossexualidade (masculina) seria efeito de uma mensagem da mãe, recebida pelo filho, na rivalidade com o marido. Tratarse-ia, assim, de um lado, da figura do pai, que, desde a aurora dos tempos freudianos, é identificado com a lei, e, de outro, da figura da mãe, que seria uma mulher que nutriria uma queixa essencial com relação a essa lei, pois lei que parece dispensá-la da castração e do seu reconhecimento. Mãe, ela espera do seu filho uma vingança decisiva contra a instância demasiada injusta para fazê-la submissa e demasiado absurda para separar uma mãe de seu produto. Ora, como se sabe que esse pai não está aí senão por procuração – ele é o pai simbólico –, a mãe (do homossexual), nessa fábula, o que tem é um problema com a lei (do pai) e oferece ao filho uma alternativa de ser a outra versão – (per)versão? sub-versão? – da lei do pai. A mãe, transferindo – inconsciente – o desejo de ser uma outra versão da lei do pai, deixa ao filho o combate a uma lei patriarcal que, introduzindo o pai no centro de tudo, 14 também a subjuga e oprime: “A mãe faz lei no lugar do pai”, “a mãe dita a lei ao pai” (LACAN, 1957-1958 [1999]). O homossexual seria aquele que, levado a negar a castração, terminaria riscando do seu programa a diferença entre os sexos (observar que Freud já concluía pela mesma curiosa ideia em 1915; FREUD, 1975 [1976: 356]). Nos termos propostos por Jacques Lacan, em um de seus célebres Seminários, o homossexual seria aquele que conservaria uma “relação profunda e perpétua com a mãe”, manteria “identificação com a posição da mãe”, mãe diretiva, “que cuidou mais do filho que o pai”, etc etc.

A mãe que mostra ter sido a lei para o pai num momento decisivo... no momento que a intervenção proibidora do pai deveria ter introduzido o sujeito na fase de dissolução de sua relação com o objeto do desejo da mãe, e cortado pela raiz qualquer possibilidade de ele se identificar com o falo, o sujeito encontra na estrutura da mãe, ao contrário, o suporte, o reforço... que faz com que essa crise não ocorra (LACAN, 1957-1958 [1999: 215]). 

 Não identificados com a posição do pai, os homossexuais conservariam para sempre – “não são curados” (ibid: 214]). – um “medo pavoroso de ver o órgão da mulher (...), pela suposição de que a vagina [perigosa] ingeriu o falo do pai: (...) o que é temido na penetração [homem/homossexual – mulher] é justamente o encontro com esse falo” (ibid:218). Mais ainda:

a exigência do homossexual de encontrar em seu parceiro o órgão peniano corresponde precisamente a que, na posição primitiva, aquela ocupada pela mãe que dita a lei ao pai, o que é questionado – não resolvido, mas posto em questão – é saber se, na verdade, o pai tem ou não tem, e é exatamente isso que é exigido pelo homossexual a seu parceiro, acima de qualquer outra coisa, e de um modo preponderante em relação às outras coisas (ibid: 217]).

 Tais eventos psíquicos constituem o homossexual como aquele que “agarra-se extremante à sua posição homossexual”, como aquele que tem “dificuldade de abalar sua posição” – é ler Lacan... e conferir (para todas as citações: LACAN, 1957-1958 [1999: 214-220]).

 Tais generalizações ignoram a diversidade das culturas (já MALINOWSKI, 1927 [1973], apontava críticas a Freud sobre as generalizações de sua teoria, embora críticas consideradas ingênuas por estudos posteriores (entre outros, DUVEREUX, 1972; ORTIGUES e ORTIGUES, 1989)), a variabilidade das famílias, mesmo apenas no interior das sociedades ocidentais, assim como a amplitude, variabilidade e dinamismo das relações humanas que engendram a biografia de cada indivíduo, incluindo aí a sua sexualidade – esta seguramente não sendo construída apenas pelas relações que se produzem no microcosmo familiar e na infância. Acrescente-se, igualmente, as generalizações de um tal modelo teórico (que se pretende validado pela clínica) tornam-se responsáveis pela reificação do preconceito, ao traduzir, mais uma vez, a homossexualidade como “problema”, que se quer intrínseco à sua própria natureza como orientação ou variante sexual, embora a realidade demonstre o contrário: o número daqueles que são homossexuais, para os quais a homossexualidade não é um “problema”, é muito maior do que o preconceito (da opinião popular ou do senso comum douto) é capaz de admitir.

 Convém anotar, entretanto, que nossa crítica à abordagem da homossexualidade pela psicologia e pela psicanálise não ignora a importante contribuição dessas áreas ao estudo de diversos outros fenômenos humanos. E não podemos deixar de ressaltar o importante papel que a psicanálise desempenha hoje, por exemplo, no combate às tentativas de biologização dos atos humanos, no que ela se reúne à crítica das demais ciências sociais à nova vaga do determinismo biológico. Foi exatamente esse combate que inspirou a psicanalista e historiadora das idéias Elisabeth Roudinesco a escrever seu ensaio “Por que a psicanálise?”, no qual diz:

 violentamente atacada hoje em dia pelos que pretendem substituí-la por tratamentos químicos, julgados mais eficazes porque atingiriam as chamadas causas cerebrais das dilacerações da alma (...) [a psicanálise] restaura a idéia de que o homem é livre por sua fala e de que seu destino não se restringe a seu ser biológico (ROUDINESCO, 2000: 9).

 É com a crítica ao determinismo biológico e sua tentativa de igualmente definir a gênese própria da homossexualidade que nos ocuparemos daqui por diante. A procura por explicar os fenômenos humanos a partir de bases biológicas não é um fato de hoje na história da ciência. Mas, não resta dúvida, que a onda atual do determinismo biológico tem permitido retornar com força, nas últimas décadas, explicações biologizantes de fatos sociais e fenômenos culturais, com ampla aceitação e difusão pelas mídias. Destacam-se, 16 entre outras expressões, a atuação da sociobiologia (e desde Edward Wilson) – com variações entre os autores, que podem ir de comentários mais ou menos comprometidos (ROSE, 2000), hibridismos teóricos entre antropologia cultural e sociobiologia (PARÍS, 2002) ou formulações fortemente comprometidas (WINSTON, 2006) – e a atuação do seu subproduto correspondente: a chamada psicologia evolucionista (WRIGHT, 1996; PINKER, 2004).

  Acreditando que a subjetividade humana possui fundamentos biológicos, autores dessa vertente afirmam a existência de um “componente genético” para a homossexualidade. E o fazem, ao que parece, pretendendo fundamentar uma visão “não preconceituosa”, não baseada em juízos morais, que concorreria para se ter uma compreensão (justa?) da homossexualidade. Esta definida como uma prática para cujas razões (na espécie humana e na vida do indivíduo homossexual) a natureza teria concorrido. Como escreve Robert Winston, em Instinto Humano:

Do ponto de vista da seleção natural, a homossexualidade deveria ser um beco sem saída. Não pode haver nenhuma vantagem evolucionista em ser exclusivamente gay ou lésbica. Contudo, os seres humanos não são os únicos com comportamento homossexual: os bonobos – chimpanzés pigmeus – freqüentemente são vistos se agarrando com parceiros do mesmo sexo (WINSTON, 2006: 120). 

 E mais adiante, diz o autor: a homossexualidade pode parecer ir de encontro à adaptação evolucionista, mas isto não significa que seja uma prática moralmente ruim (Ibid, 2006: 122). Uma posição semelhante parece ser a de Simon Le Vay, especialista norte-americano em neuroanatomia e autor do livro The Sexual Brain, publicado em 1991, ele próprio homossexual, que procurou enraizar a homossexualidade num “cérebro gay”, certamente por acreditar que a naturalização da homossexualidade poderia ajudar a diminuir o preconceito contra homossexuais. Essa posição não nos parece, contudo, afastarse do preconceito. Mais adiante, voltaremos ao assunto.

 As teses da sociobiologia e da psicologia evolucionista retomam a chamada controvérsia “natureza versus cultura”, conhecida de antropólogos, sociólogos, psicólogos, pedagogos. Controvérsia iniciada, no final do século XIX até as primeiras décadas do século XX, nas disputas entre biólogos e psicólogos, ao discutirem os fundamentos dos chamados “traços comportamentais”, gerando uma polêmica na qual se considerava, de um lado, que certos padrões de comportamento eram herdados, inatos, inscritos nos genes (etólogos, psicólogos fisicalistas) e, de outro, que os comportamentos eram aprendidos (psicólogos behavioristas), sendo moldados ou pela seleção natural (biólogos e fisicalistas) ou pelas experiências do indivíduo (psicólogos comportamentalistas, behavioristas).

 Essa dicotomia foi retomada por Edward O.Wilson, um entomologista e biólogo de Harvard, considerado o fundador da sociobiologia (ROSE, 2000; PARÍS, 2002), para quem, mesmo numa sociedade mais igualitária, as desigualdades e hierarquias sociais continuariam a existir, como os homens dominando as mulheres, pelo peso da herança biológica animal sobre o comportamento social humano. Somos (machistas) como os macacos (PINKER, 2004). Seu projeto, apresentado no livro Sociobiologia: a nova síntese, publicado em 1975, estabelecia que “a sociobiologia, assim como as outras ciências sociais e as humanidades, são os últimos ramos da Biologia e esperam ser incluídas na moderna síntese” (apud PARÍS, 2002: 42). Nessa “ciência unificada do comportamento”, como assinala Michael Rose, “o comportamento humano deveria passar a ser estudado como o comportamento da mosca das frutas e dos gansos, num esforço sistemático de resolver ou revelar todas as motivações darwinianas inerentes a ele.” (ROSE, 2000: 195). Tese que, de lá para cá, tem ganhado cada vez mais força e adeptos, mesmo no interior das ciências humanas nas universidades.

 A sociobiologia pretende explicar as sociedades humanas (instituições sociais, padrões culturais) a partir de uma teoria evolucionista que se pretende baseada nas conclusões da biologia sobre origem e evolução das espécies animais. Uma espécie de neodarwinismo, aceito por certos darwinianos, contestado por outros [2]. Os sociobiólogos sugerem, com pequenas variações de ênfases entre eles, que os comportamentos sociais humanos, de algum modo, são determinados geneticamente e sua manutenção deve-se à seleção natural no processo da evolução da espécie (WINSTON, 2006; WRIGHT, 1996; PINKER, 2004). Nas últimas décadas, a sociobiologia e a psicologia evolucionista têm se fortalecido com a expansão da biologia molecular e com os desdobramentos do Projeto Genoma. Igualmente, sem que seja estranho à episteme de nossa época, a neurociência tem assumido a dianteira das explicações sobre comportamento humano centradas somente na biologia, na genética.

 No tocante às orientações sexuais e à homossexualidade, em particular, as teses do determinismo biológico vão variando mais ou menos conforme o tempo e os “avanços” que estabelecem. Já se falou de comparecimento de algum gene (ou grupo de genes) no zigoto do indivíduo, levando-o a apresentar um traço correspondente de comportamento sexual, sem relação com o ambiente (relações sociais, padrões culturais) no qual se desenvolve. Já se atribuiu aos hormônios funções determinantes na orientação sexual: testosterona, progesterona e estrógenos concorreriam para definir as tendências sexuais dos indivíduos. Homens homossexuais seriam “feminilizados” e mulheres homossexuais seriam “masculinizadas” pelos hormônios, estes conformando suas tendências sexuais. Por fim, mais recentemente, seguidores das ciências que estudam o cérebro acreditam que os genes, alterando a estrutura cerebral, gerariam a orientação sexual correspondente. O exemplo mais conhecido é a tentativa de reputar aos genes de certa região cerebral a responsabilidade pelas diferenças no hipotálamo e de se concluir que este fenômeno determinaria a orientação sexual. No cérebro, estaria definido se somos homossexuais ou heterossexuais.  

 Diversas críticas podem ser feitas ao determinismo biológico e não apenas quanto à sua tentativa de definir a “causa” da homossexualidade. Destacaremos rapidamente algumas delas. Como discurso científico, o determinismo biológico é uma reificação reducionista de processos e realidades (mesmo biológicas), em termos de uma natureza humana biológica fixa, que não podem ser compreendidos se não se considera suas relações com práticas culturais, históricas e sociais, que são dinâmicas e diversas. Constitui um procedimento igualmente reducionista por pretender a existência de “genes” ou “hormônios” específicos para cada gesto, emoção, atitude, desejo, eliminando a complexidade de fatores envolvida na produção dos atos humano-sociais. O mais curioso de observar, tratando-se de trabalhos no campo científico, é a inversão na ordem das coisas: o efeito torna-se a causa. É comum a descrição de fenômenos tomados como desencadeados por “ações do cérebro”, à simples vista fenômenos que são reflexos ou reações fisiológicas provocadas por situações emocionais, subjetivas, sociais. O uso das 19 imagens feitas com ressonância magnética talvez seja, hoje, o melhor exemplo dessa inversão (A edição de 31/01/07, da revista Veja, traz matéria sobre as “bases cerebrais” da atitude de compradores compulsivos, atestadas por imagens produzidas com a técnica da ressonância: são o nucleus accumbens, o córtex insular e o córtex pré-frontal médio que nos fazem comprar o carro da propaganda na TV, a camisa que está na vitrine ou o perfume que adoramos!).

 O determinismo biológico é também uma extrapolação questionável à esfera da realidade humano-social de estudos realizados com animais, tornando-se uma ampliação de modelos que se tornam válidos apenas para certos tipos de fenômenos e não para todos. Um exemplo dessa extrapolação é Gunther Dörner, que, trabalhando na Universidade Humboldt, em Berlim, e estudando cérebros de ratos, concluiu que a identidade de gênero dos bichinhos podia ser modificada, quando se interferia em partes de seu cérebro. Gunther Dörner partiu daí para fazer afirmações sobre a homossexualidade humana... Outro exemplo de extrapolação é Simon Le Vay, a quem já nos referimos: estudando cérebros de cadáveres, com tecidos naturalmente modificados pela morte, afirma ter encontrado uma diferença estrutural de tamanho nos hipotálamos de gays e lésbicas: nos homossexuais, seria de menor tamanho. O neuroespecialista estudou os cérebros de 41 cadáveres, incluindo 6 mulheres, 19 homens homossexuais e 16 outros que supôs serem heterossexuais. No seu estudo, afirma ter encontrado uma pequena área do cérebro, o INAH-3, que era de medida menor e similar em mulheres e homens homossexuais e maior em homens que supôs serem heterossexuais. Para o determinismo biológico, ratos e cadáveres servem para definir aspectos da subjetividade humana, o desejo, a gênese da homossexualidade.

 Por fim, por seus termos, o determinismo biológico corresponde a uma elisão do social, do cultural, da história e da política na vida de nossas sociedades. A constatar pelos “estudos” divulgados pela mídia, sempre com muito estardalhaço, as diversas expressões dessa corrente de pensamento estão prontas a estabelecer uma sociedade humana inteiramente dominada por genes, neurônios, hormônios, e sem instituições culturais, padrões sociais, classes, Estado, relações de poder, sujeições à ideologia, conflitos, lutas políticas, etc. Em outros termos, uma ciência do social sem sociedade.

 Mas o determinismo biológico não segue sem críticas. As ciências sociais, através de diferentes autores, nunca deixaram de realizar a crítica às tentativas de biologização e naturalização do social (SAHLINS, 1980; BOURDIEU, 1989; 1998; 1999; HÉRITIER, 1996; GODELIER, 1982; KURZ, 1997, entre outros exemplos). Hoje, diversas vozes têm se levantado para denunciar os significados conservadores de suas teses e advertir que algumas delas representam ameaças a conquistas emancipatórias importantes. Nomeando a vaga biologizante atual de “pretensões obscurantistas”, valeria mais uma vez citar Elisabeth Roudinesco, ao acusar as tentativas de biologização do social de pretenderem “reduzir o pensamento a um neurônio ou confundir o desejo com uma secreção química” (ROUDINESCO, 2000:9). A crítica ao determinismo biológico na ciência não deve ser confundida, entretanto, com o combate à ciência como tal, empreendida por religiosos conservadores e outros.


 Homossexualidade: uma orientação sexual, uma expressão sexual como outra


 O que o preconceito oculta? O que para o preconceito se torna insuportável quando se trata de pensar a homossexualidade? Que é a homossexualidade?

 Não é mais desconhecida a formulação teórica (na psicologia, antropologia, sociologia, pedagogia, etc.) que define a homossexualidade como uma orientação sexual para pessoa do mesmo sexo. Deve-se evitar, contudo, a confusão de pensar que apenas a homossexualidade é uma orientação sexual (com talvez mais a bissexualidade), sendo a heterossexualidade outra coisa diferente de uma orientação. Que é uma orientação sexual? Em geral, define-se a orientação sexual como a atração e o desejo sexuais (paixões, fantasias) do indivíduo por um outro de um gênero particular. O gênero é a conformação física, orgânica, celular, particular que permite distinguir, nas espécies, os machos e as fêmeas e, na espécie humana, o homem e a mulher, o sexo masculino e o sexo feminino. Mas, nesses termos, uma definição ainda muito limitada, pois, para homens e mulheres, o gênero é uma construção social que se configura numa relação com o que, em cada cultura e época histórica, se define como sendo a identidade sexual, os papéis sexuais, idéias de masculinidade, feminilidade, etc. (BUTLER, 2003; HÉRITIER, 1996; BADINTER, 1985; 21 1986; 1993; BOURDIEU, 1999; CECCARELLI, 1998b). Em geral, ao gênero se vincula uma identidade sexual, mas, como advertem os estudiosos do assunto, essa relação entre gênero e identidade é uma realidade bem mais complexa: “o modelo biológico do masculino e do feminino é válido para a definição celular; mas seria ilusório pensar que a identidade sexuada poderia ser definida a partir do biológico” (CECCARELLI, 1998a, s/p) A orientação sexual, na maior parte dos casos, não interfere na identidade sexual. Ficam de fora os casos de transexualismo (CECCARELLI, 1998b) Assim, contrariamente ao que imagina a opinião popular, um homossexual masculino não se identifica como “feminino”, não se sente “mulher”. Conceber a sexualidade do indivíduo em termos de orientação sexual (e esta como atração, fantasias e desejo direcionados a indivíduos de outro, do mesmo ou de ambos os gêneros) é quase um consenso entre especialistas hoje (SUPLICY, 1983).

 Não resta a menor dúvida, o conceito de orientação sexual é válido para pensar a homossexualidade. Deve-se saber, todavia, que a orientação sexual é algo complexo, cuja compreensão envolve entender a relação sui generis de elementos diversos, que desconhecemos e deformamos ao querer captá-los em sua totalidade e como causação, alguns deles que permanecerão para sempre insondáveis. Porém, para um uso mais crítico do conceito e para evitar possíveis apropriações preconceituosas e conservadoras, torna-se importante dessubstancializar a orientação sexual, relativizando o papel que as variáveis psicológicas e pedagógicas ocupam no conceito, que tornam a orientação sexual uma substância em si (um objeto natural e universal), levando a crer, mais uma vez, que os indivíduos portam algo identificável a uma sexualidade fixa, inteligível, coerente, inteira, um conjunto de atributos idêntico a si mesmo, provavelmente também “com uma gênese específica”. Para evitar a substancialização da orientação sexual, é importante trazer a reflexão sobre o assunto para o terreno da reflexão antropológica e sociológica: a orientação sexual é uma construção subjetiva, certo!, como desejo é singular e em grande medida inconsciente, mas é igualmente uma construção de caráter social. Constituída de prazeres, sensações, fantasias, imaginação, práticas eróticas, etc., a orientação sexual é construída nos embates subjetivos e sociais, produzidos nas interações, sob padrões culturais, relações de poder, idéias sociais, configurando-se como um fenômeno individual tanto quanto coletivo. Constitui uma expressão sexual, uma manifestação das possibilidades sexuais e eróticas humanas, sempre contextualizadas e socialmente comuns a muitos indivíduos.

 Uma orientação sexual expressa a plasticidade e as possibilidades humanas no terreno da sexualidade, como em outros. Expressões das capacidades criativas e variáveis humanas. Os estudos em antropologia e sociologia, alguns deles já citados neste trabalho, demonstram que, na espécie humana, as orientações sexuais podem assumir várias formas. Os estudos também mostram que a variedade de orientações sexuais é encontrada em todas as culturas e em diferentes épocas, embora não se constituam necessariamente nas identidades sociais como conhecemos, hoje, nas sociedades ocidentais modernas.

 Definida em termos de orientação ou expressão sexual, a homossexualidade não é uma opção que depende da vontade do indivíduo, como uma deliberação consciente, mas nenhuma orientação sexual o é, assim como não é algo da ordem de uma causa específica (como pretendem as tentativas de explicação criticadas logo acima). Se há que se falar de causa, a causa da homossexualidade é a mesma de toda orientação/expressão sexual, a mesma da sexualidade humana como tal: a pulsão sexual, sobre a qual se estrutura o desejo, que, como Freud a caracterizou, não tem objeto nem fixo nem único, não se determina nenhum objetivo como natural ou normal, e que faz suas escolhas segundo uma economia cujo único princípio é o prazer (FREUD, 1905 [1972], entre outros textos do autor). Assim, heterossexualidade, homossexualidade ou bissexualidade são nomenclaturas usuais (todas com sentidos culturais e históricos) para expressões sociais do desejo sexual humano, calcadas na pulsão. A sexualidade ligada à pulsão e ao desejo não se estrutura por uma disposição orgânica ou em dados fisiológicos. Assim,

Ao buscar o prazer, a sexualidade escapa à ordem da natureza e age a serviço próprio "pervertendo" seu suposto objetivo natural: a procriação. Subordinar a sexualidade à função reprodutora é "um critério demasiadamente limitado", adverte Freud. Isto vem mostrar à biologia, à moral, à religião e à opinião popular, o quanto elas se enganam no que diz respeito à natureza da sexualidade humana: a sexualidade humana é, sem si, perversa - entendida aqui em seu sentido primeiro: desvio de uma finalidade específica. Ou seja, em se tratando de sexualidade, não existe "natureza humana" pois a pulsão sexual não tem um objeto específico, único e muito menos pré-determinado biologicamente (CECCARELLI, 2000, s/p).

 Desestabilizando ingenuidades e confrontando à opinião comum, as esferas do desejo e da sexualidade são possibilidades abertas e sempre mais surpreendentes, superando toda predeterminação e naturalismo. As diversas orientações/expressões sexuais são construtos da mesma estrutura da pulsão e dos mesmos desígnios insondáveis do desejo. A nosso favor, citaremos mais uma vez o psicanalista Paulo Roberto Ceccarelli:

Tanto a heterossexualidade quanto a homossexualidade são posições libidinais e identificatórias que o sujeito alcança dentro da particularidade de sua história: as duas formas de manifestação da sexualidade são igualmente legítimas (CECCARELLI, 2000, s/p).

 E, no âmbito do desejo e da sexualidade, toda procura de inteligibilidade – causas específicas – está fadada a cair em preconceitos, nos discursos de poder, na ideologia, porque buscarão determinações sempre arbitrárias, reducionistas, e sob o domínio dos discursos de normalidade social. Foi o próprio Freud quem escreveu que

a pesquisa psicanalítica se opõe com o máximo de decisão que se destaquem os homossexuais, colocando-os em um grupo à parte do resto da humanidade, como possuidores de características especiais. Estudando as excitações sexuais, além das que se manifestam abertamente, descobriu que todos os seres humanos são capazes de fazer uma escolha-de-objeto homossexual e que na realidade o fizeram no seu inconsciente” (FREUD, 1905 [1972:146]) E mais adiante: “assim, do ponto de vista da psicanálise, o interesse sexual exclusivo de homens por mulheres também constitui um problema que precisa ser elucidado, pois não é fato evidente em si mesmo (ibid: 146).

 O que toda uma abordagem histórico-sócio-antropológica tem demonstrado até aqui é que, por sobre o prazer e por sobre o desejo, a intervenção da cultura (por meio de diversas formas) elege sempre uma expressão sexual como a forma normal (ou natural) – escolha da ordem do que sociólogos e antropólogos, depois de Pierre Bourdieu, chamam de “arbitrário cultural” (BOURDIEU, 1982:20) –, foracluindo várias outras como anormalidades. Isto é, uma ordem social-cultural (em qualquer tempo e lugar), na medida em que é uma construção de caráter convencional, elege, aleatoriamente – não inteiramente consciente, e num acontecer anônimo, coletivo e impessoal –, suas instituições, padrões, crenças, etc. que se integrarão à ordem (enquanto também uma “máquina simbólica” (BOURDIEU, 1999:18)) como uma realidade única, universal e necessária, invalidando 24 todas as demais alternativas por ela não ratificadas. A sexualidade não fica menos fora desse processo, que em ciências sociais chamamos de “institucionalização” do social (BERGER E LUCKMANN, 1985) - assunto para cuja reflexão se pode igualmente mencionar Freud (FREUD, 1929 [1974]).

 Na história das nossas sociedades, o que ocorreu é que a história da heterossexualidade é a de um notável privilégio, mas não menos sustentado pela eficácia da ideologia. Sendo o sexual polimorfo, variegado, diverso, o que ocorreu, até aqui na história, é que a institucionalização social procura reduzi-lo a uma única forma, tendo sido a heterossexualidade a forma consentida e legitimada nas nossas sociedades. Fato que não guarda nenhum mistério, nem se deve a qualquer razão alheia às razões humanas: o consentimento da heterossexualidade, construída ao lado da negação da homossexualidade, não se deve a qualquer razão indiferente aos fatos que produzem a cultura, a história. Não é a heterossexualidade uma forma inata da sexualidade; como uma prática sexual ela é social e historicamente construída, e sua naturalização e hegemonia ocorreram por efeito de um longo trabalho de domesticação do imaginário social das sociedades humanas, que se fez invalidando, ao mesmo tempo, a prática da homossexualidade, excluída como uma “inversão” da sexualidade “normal”. Vê que o próprio Freud considera essa hipótese da domesticação e da “proibição terminante pela sociedade” como fator de exclusão da homossexualidade na sexualidade dos indivíduos (FREUD, 1905 [1972: 236]; 1929 [1974: passim]). Sendo uma instituição histórico-social como outra, a heterossexualidade se estabeleceu estigmatizando a homossexualidade, fato que se deu com a mesma semelhança e força com que a dominação masculina emergiu em todas as culturas. Aliás, a prevalência da dominação masculina e a supremacia da heterossexualidade são fatos que guardam relações entre si na história cultural das sociedades humanas. Porém, como assinalam diversos estudos (ROSALDO E LAMPHERE, 1979; GODELIER, 1996), o fato de não encontrarmos, nas diversas sociedades conhecidas, casos em que a dominação masculina não seja um dado antropológico, e conseqüentemente a submissão feminina seja sempre uma realidade, isso nada revela sobre uma pretendida inferioridade natural da mulher, mas, ao contrário, revela tão somente a longa história de dominação social dos homens que se estabeleceu nos modelos de sociedade que a humanidade construiu até aqui.

 O mesmo se deu com a valorização da heterossexualidade em detrimento da homossexualidade: um puro fato da história humana, que não possui nenhuma razão imanente (de qualquer ordem), mas que não foi sem conseqüência para o pensamento humano, como tem sido o caso também da questão da desigualdade entre homens e mulheres. Vale lembrar, o que toda uma perspectiva crítica – que volto a chamar construcionista [3] – tem procurado demonstrar é que a sexualidade é um construto social como outro e que sua existência se deve a um processo de construção que em nada difere de todo o processo de institucionalização da realidade. Não havendo sexualidade natural, mas social, o que ocorre com o sexual é o mesmo que ocorre com todas as demais esferas da vida social: algo que é uma construção arbitrária, uma instituição de caráter convencional e histórico, ganha, no curso histórico, a aparência de uma realidade natural, universal, necessária e irreversível, tornando inválidas todas as demais formas que ficaram foracluídas no processo da institucionalização. A homossexualidade é uma das formas foracluídas do sexual nas nossas sociedades, estigmatizada pelo discurso da instituição social da sexualidade.

 Do ponto de vista de uma constante antropológica e psíquica, ninguém está afastado da possibilidade de práticas eróticas com pessoas do mesmo sexo, de relações homossexuais. Conforme o Relatório Kinsey, já em 1948, um quarto dos jovens americanos tinham tido relações homoeróticas. Não há o que se possa chamar de pré-disposição (inata ou adquirida) à homossexualidade em alguns e sua inexistência absoluta em outros, como algo determinado por movimentos internos do psiquismo ou como fenômeno enzimático-endocrinológico. De novo aqui, Freud, por mais que tenha fechado algumas vezes a via crítica aberta por ele próprio, deve ser lembrado entre os autores que indicaram a existência de uma “bissexualidade psíquica originária” no ser humano (FREUD, 1972, 1974; cf. também ROUDINESCO, 2002: 41), o que torna possível pensar que é somente à custa de prolongada domesticação cultural que essa disposição psíquica desaparece para dar lugar à heterossexualidade ratificada como “normal” e “em conformidade com a natureza”. O preconceito inverteu as razões e apresentou a homossexualidade como um desvio de um suposto desenvolvimento normal, quando se trata de uma variante da sexualidade existindo em todos, mas inibida pela sujeição cultural – através da ideologia da heteronormatividade. A própria normalidade não sendo mais do que uma construção simbólica reversível, mas que, para se perpetuar, procura todos os meios de sua naturalização e divinização. O horror à homossexualidade manifestado por muitos sistemas de sociedade e religiões deve ser visto como expressão de uma ordem simbólica em seu temor (metafísico-ideológico) de desaparecer enquanto ordem reversível, que tem na heterossexualidade sua base.

 Assim, se a sexualidade humana como um todo tem sido objeto de visões preconceituosas, a homossexualidade, dentre as suas expressões, tem sido historicamente e incomparavelmente a que a mais ataques tem sido submetida pelos preconceitos produzidos em religiões, moral, ciência e no direito em todas as partes. Preconceito que tem constituindo fonte de opressão para milhares de homens e mulheres em todas as idades, classes sociais e nos diversos países.


Desfazendo enganos

 Por fim, quando o preconceito crê como certo que a homossexualidade é um fenômeno a ser esclarecido em sua causa específica, devemos deslocar a questão sobre a sua pretendida causa para uma outra: assim, ao invés de se querer saber “qual a causa da homossexualidade?”, deve-se perguntar: por que e qual a origem do preconceito em torno da homossexualidade?

 Muito ainda resta a ser feito. É a própria compreensão da sexualidade humana que deve ser revista ou a própria ideia de uma substância chamada sexualidade que deve desaparecer. Após séculos de condenação pela religião, pelo Estado e pela ciência (ou pseudociência?), um conhecimento livre de preconceito na compreensão da sexualidade, do desejo sexual, permanece uma construção a ser continuamente desenvolvida e um desafio a ser assumido por aqueles que tenham compromisso com a crítica do preconceito e com a emancipação e a felicidade humanas.

 A crítica ao preconceito tem sempre novas lutas a empreender. E uma delas é desfazer o engano de correntes entre os próprios homossexuais que, caídos também no determinismo biológico que criticamos antes, acreditam que encontraram nos favores da genética uma maneira de enfrentar o preconceito: admitindo a tese segunda a qual a homossexualidade é um fenômeno enzimático, endocrinológico ou genético, teria se chegado, assim, ao patamar no qual se poderia impor a verdade de uma “homossexualidade natural”, seguindo o engano de uma “heterossexualidade natural”. Poder-se-ia, assim, combater os preconceituosos, o discurso religioso, alegando a natureza natural da homossexualidade – espécie de apelo à sociedade para que aceite os homossexuais, pois tratar-se-ia de algo da ordem do nascimento (estaria, pois, nos planos do Criador) com relação ao que “não se pode ir contra”. Mais uma vez o preconceito vencerá caso se caia nessa armadilha: a aceitação da homossexualidade deve acontecer na sociedade por sua mudança de conceitos, paradigmas e valores, não por acomodação a uma pretendida “verdade” que estaria na “própria constituição genética” dos homossexuais. A invenção do “gene da homossexualidade” é outra vez o trabalho do preconceito e da ideologia na história.  

 Uma outra batalha a se empreender é fazer que se compreenda que as lutas dos homossexuais pela cidadania plena (direito ao reconhecimento pelo Estado e pela lei de suas uniões conjugais, direitos de herança, direito à adoção por casais gays, entre outros direitos que se tem conquistado em diversos países) não é um ingênuo “desejo de normalização”, uma queda na ideologia (burguesa ou outra), mas um nível de luta política em que se questionam as idéias de normalidade e de democracia, quando esta se limita a direitos que excluem significativos segmentos da população em diversos países – os homossexuais entre os mais excluídos (MOTT, s.d.).

 Por fim, poderíamos assinalar o fracasso, mais uma vez, de teses que pretendem aprisionar os homossexuais numa espécie à parte, pois as lutas pela cidadania plena desconstroem até mesmo aquelas teses que se apresentam com o charme libertário que destina aos homossexuais o papel de “sublimes perversos” da cultura, subversivos marginais da ordem, tese que, como assinalou Elisabeth Roudinesco, “está prestes a desaparecer” (ROUDINESCO, 2002: 46), com a atitude dos homossexuais que, sabendo que toda normalidade é uma construção social e histórica, procuram redefinir uma nova normalidade social, em que a homossexualidade não seja estigmatizada como exceção, desvio, inversão, patologia, anormalidade, mas seja vista como uma expressão da sexualidade humana, uma orientação sexual, entre outras, em torno da qual se pode organizar afetos, laços, famílias. Aqui quando os homossexuais questionam os próprios conceitos de normalidade social, democracia e cidadania nas sociedades nas quais vivemos.

 Amanhã, teremos superado todo o preconceito se não tivermos mais questões a colocar sobre a causa própria da homossexualidade. 


 Notas

[1] Neste artigo, estarei utilizando o termo ideologia no sentido próprio de “inversão da realidade” e de “idéias da dominação”, sentido outorgado ao termo desde Marx (MARX, 1845 [1986]). Contudo, deve-se assinalar, nas reflexões deste último, como inversão e dominação, a ideologia corresponderia ao modo particular do imaginário da sociedade capitalista. A ideologia seria a representação da realidade que a classe dominante nesta sociedade produz e procura impor a todas as demais classes, com o objetivo de garantir sua posição de classe dominante. Objetivo que realiza, ao dissimular, justo através da representação ideológica que oferece da realidade, a dominação que pratica sobre as outras classes. Embora o fenômeno da ideologia tome essa forma específica, e não há que se esquecer isso, é importante assinalar que se torna necessário, hoje, acrescentar à elaboração pioneira de Marx novas considerações sobre o fenômeno da ideologia. Em meus textos, somando à minha própria reflexão as contribuições de Louis Althusser (ALTHUSSER, 1974; 1985), Maurice Godelier (GODELIER, 1980; 1996), John Thompson (THOMPSON, 1995) e Marilena Chauí (CHAUÍ, 1980; 1981), tenho insistido em formulações na direção de um conceito de ideologia que não fique restrito à dimensão da dominação de classe, e que torne possível pensar o dado antropológico da dominação que sempre-já implica a sujeição do indivíduo humano à Cultura, através de sua sujeição a normas, costumes, padrões, crenças, mitos, instituições. Nesse sentido, deve-se entender que a ideologia torna possível a dominação pela via simbólica, desde já a sumpção do indivíduo pela linguagem, via pela qual ocorre de toda estruturação social se constituir, tornando-se uma ordem que se ratifica no simbólico, e constituindo-se ela própria numa ordem simbólica. A ideologia, assim, responde a uma exigência anterior à necessidade da reprodução das relações de produção (capitalistas ou outras) e da dominação política de classe, como ainda entendem diversos autores (marxistas ou não). Anterior a toda outra coisa, a ideologia assegura, em todo sistema de sociedade, mesmo naqueles nos quais não há classes, que a ordem social não desabe enquanto também uma Ordem Simbólica, ratificando-a, por meio de representações imaginárias, crenças coletivas e certas idéias sociais, como uma ordem natural, única, universal, imutável, divina. Resultado que a ideologia procura obter invertendo e ocultando o caráter de coisa construída, arbitrária e convencional de toda ordem social e suas instituições, e cujo efeito é a eficácia de sua dominação sobre os indivíduos, engendrada e reproduzida sem o recurso da força. A ideologia constitui o modo de operar de toda cultura (enquanto sistema de sociedade), ao procurar naturalizar-se e eternizar-se, e atua por meio dos discursos sociais (variando do mito à ciência moderna) que oferecem as significações legitimadoras do que em cada cultura está instituído. Podemos apontar que a eficácia da ideologia, entre outras formas, realiza-se na sua ancoragem nas esferas psíquica, emocional e cognitiva (a subjetividade de cada um; uma parte dela inconsciente) dos indivíduos. O estigma da homossexualidade como prática cuja causa específica deve-se desvendar, ainda perdurante em muitas cabeças, que transforma os homossexuais em indivíduos-portadores-de-um-enigma-a-esclarecer (e, assim, objetos a dominar no trabalho da ciência, das religiões, da lei, etc.) é um entre vários exemplos que se pode oferecer da dominação dos indivíduos por meio do trabalho da ideologia no espaço da cultura. Na ideologia, a homossexualidade é um fenômeno estranho a esclarecer na vida dos indivíduos e o homossexual é portador de uma causa determinante que o torna sujeito de uma sexualidade particular. Sobre o conceito de ideologia, ver meus “Medos, mitos e castigos” (SOUSA FILHO, 2001); “Cultura, ideologia e representações” (SOUSA FILHO, 2003) e “Mito e ideologia” (SOUSA FILHO, 2006).

[2] Michael Rose, em O Espectro de Darwin, traz alguns dos problemas que aplicações do darwinismo têm acarretado. E como demonstra o autor, embora alguns chamados neodarwinistas adotem posições claramente reacionárias e de direita, o darwinismo, como concepção da origem e evolução das espécies e do ser humano, é crítico e revolucionário. Não é por outra razão que é violentamente combatido pelas diversas religiões (ROSE, 2000)

[3] Situaremos como construcionistas os estudos do configuracionismo ou de cultura e personalidade em antropologia (Ruth Benedict, Margareth Mead, Melville Herskovits), a antropologia do simbólico (LéviStrauss, Geertz), a abordagem da aprendizagem social (G. Robert Mead, Peter Berger) e os estudos socioantropológicos (Pierre Bourdieu, Maurice Godelier, Françoise Héritier, Elisabeth Badinter, Michel Foucault, Michel Maffesoli, entre outros). 



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