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sexta-feira, 18 de julho de 2014
Nietzsche e os sacerdotes
''O sacerdote, essa espécie parasitária que existe às custas da toda vida sã, usa o nome de Deus em vão: chama o estado da sociedade humana no qual ele próprio determina o valor de todas as coisas de “o reino de Deus”; chama os meios através dos quais esse estado é alcançado de “vontade de Deus”; com um cinismo glacial, avalia todos povos, todas épocas e todos indivíduos através de seu grau de subserviência ou oposição do poder da ordem sacerdotal. Observemo-lo em serviço: pelas mãos do sacerdócio judaico a grande época de Israel transfigurou-se em uma época de declínio; a Diáspora, com sua longa série de infortúnios, foi transformada em uma punição pela grande época — na qual os sacerdotes ainda não significavam nada. Transformaram, de acordo com suas necessidades, os heróis poderosos e absolutamente livres da história de Israel ou em fanáticos miseráveis e hipócritas, ou em homens totalmente “ímpios”. Reduziram todos grandes acontecimentos à estúpida fórmula: “obedientes ou desobedientes a Deus”. — E foram mais adiante: a “vontade de Deus” (em outras palavras, as condições necessárias para a preservação do poder dos sacerdotes) tinha de ser determinada — e para tal fim necessitavam de uma “revelação”. Dizendo de modo mais claro, uma enorme fraude literária teve de ser perpetrada, “sagradas escrituras” tiveram de ser forjadas — e então, com grandiosa pompa hierática e dias penitência e muita lamentação pelos longos dias de “pecado” agora terminados, foram devidamente publicadas. A “vontade de Deus”, ao que parece, há muito já havia sido estabelecida; o problema foi que a humanidade negligenciou as “sagradas escrituras”… Mas a “vontade de Deus” já havia sido revelada a Moisés… O que ocorreu? Simplesmente isto: os sacerdotes tinham formulado, de uma vez por todas e com a mais estrita meticulosidade, que tributos deveriam ser-lhe pagos, desde o maior até o menor (— não se esquecendo dos mais apetitosos cortes de carne, pois o sacerdote é um grande apreciador de bifes); em suma, ele disse o que desejava ter, qual era a “vontade de Deus”… Desse tempo em diante as coisas se organizam de tal modo que o sacerdote tornou-se indispensável em todos os lugares; em todos os importantes eventos naturais da vida, no nascimento, no casamento, na enfermidade, na morte, para não falar no “sacrifício” (ou seja, na ceia), o sacro-parasita se apresenta para os desnaturalizar — na expressão usada por ele próprio, para “santificá-los”… Para que se entenda isto, é bom salientar o seguinte: que todo hábito natural, toda instituição natural (o Estado, a administração da Justiça, o casamento, os cuidados prestados aos doentes e pobres), tudo que é exigido pelo instinto vital, em suma, tudo que tem valor em si mesmo é reduzido a algo absolutamente imprestável e até transformado no oposto ao que é valoroso pelo o parasitismo dos sacerdotes (ou, se alguém preferir, pela “ordem moral do mundo”). O fato precisa de uma sanção — um poder para criar valores faz-se necessário, e tal poder só pode valorar através da negação da natureza… O sacerdote deprecia e profana a natureza: esse é o preço para que possa existir. — A desobediência a Deus, ou seja, a desobediência ao sacerdote, à lei, agora porta o nome de “pecado”; os meios prescritos para a “reconciliação com Deus” são, é claro, precisamente os que induzem mais eficientemente um indivíduo a sujeitar-se ao sacerdote; apenas ele “salva”. Considerados psicologicamente, os “pecados” são indispensáveis em toda sociedade organizada sobre fundamentos eclesiásticos; são os únicos instrumentos confiáveis de poder; o sacerdote vive do pecado; tem necessidade de que existam “pecadores”… Axioma Supremo: “Deus perdoa a todo aquele que faz penitência” — ou, em outras palavras, a todo aquele que se submete ao sacerdote.''
terça-feira, 3 de junho de 2014
A função social da religião em Durkheim, por Bertone Sousa
''[...] a verdadeira função da religião não é nos fazer pensar, enriquecer nosso conhecimento, [...] mas sim nos fazer agir, nos ajudar a viver.'' - Durkheim
Grande parte das discussões entre ateus e religiosos na internet tem como plano de fundo a ignorância e mútua incompreensão. Da parte dos ateus, isso começa com a convicção de muitos deles de que as religiões são “irracionais”. As ciências sociais não trabalham com essa perspectiva. Elas são compreensivas. E as religiões, já reconhecia Durkheim, somente podem ser compreendidas historicamente. Desde o século 19, entendemos que fazer história é reconstituir contextos, épocas culturais, mentalidades. A história então monta o modelo do conhecimento das coisas humanas, que vai ser usado pela antropologia, economia, sociologia. Qualquer dimensão da ação humana deve ser entendida historicamente.
Foi o que Durkheim tentou fazer em “As formas elementares da vida religiosa”, onde extraí a epígrafe deste texto. A obra clássica publicada originalmente em 1912, é uma proposta de estudar o totemismo como sistema de culto em algumas tribos australianas. Embora fosse positivista, Durkheim divergia da teoria de Auguste Comte acerca do progresso da humanidade. Embora também acreditasse na objetividade da ciência social, também rompeu com a ideia de linearidade, tão presente na cultura ocidental, para argumentar que a história não é como uma linha geométrica nem a humanidade caminha em direção aos mesmos valores ou ao mesmo modelo de desenvolvimento tecnológico. Essa concepção foi bastante profícua para sua formulação de um conceito de religião e da função social da religião.
Sua famosa frase logo no início de que não existem religiões falsas porque todas correspondem a determinada condição da existência humana já sintetiza o olhar das ciências sociais sobre os fenômenos religiosos. A primeira parte, onde ele tenta chegar a uma definição de religião, também é particularmente importante. Uma das maiores dificuldade pra quem quer compreender ou estudar determinado sistema religioso é definir religião.
Sabemos que o sentido etimológico vem do latim re-ligare. Mas a questão é: a religião é um religar de quê? Inicialmente do homem com seus mortos. A religião não começa como uma crença em divindades, mas a partir do sentimento de continuidade da vida, a partir do momento em que o homem começa a sepultar seus mortos, com a realização de enterros e ritos fúnebres. Dessa forma, o sentimento religioso nasce de uma consciência da insuficiência humana e admissão da fragilidade e efemeridade da condição humana. No sistema totêmico, diz ele, a ideia de divindade é completamente estranha. Ele diz que a religião não se originou de cultos a divindades pessoais, mas de cultos a forças anônimas e poderes indefinidos.
Se a religião não se define por uma crença em uma divindade, Durkheim busca um ponto de convergência entre elas. E, pra ele, esse ponto consiste nos dois domínios em que as religiões dividem o mundo: o sagrado e o profano. Essas duas esferas definem determinado pensamento como religioso. Os templos teriam a função de separar os dois mundos. Para ele, a ideia de sagrado evoca a superioridade da coletividade sobre o indivíduo, sua autoridade moral e sua proteção. O sagrado e o profano também são dois temas sobre os quais Mircea Eliade discutiu amplamente em suas obras. Eliade considera que a necessidade da religião está ligada a um desejo ontológico, isto é, o desejo do ser, oriundo do temor do caos, do espaço desconhecido, não consagrado, que caracteriza, para o homem religioso, o não-ser absoluto.
O sagrado é composto de crenças e ritos, ou pensamento (no casos das crenças) e movimento (no caso dos ritos). Os ritos tem a função de prescrever comportamentos. A pluralidade de crenças religiosas evidenciam o impulso criador da sociedade e também a permanente tentativa do homem de elevar-se a uma vida superior à realidade cotidiana. As crenças, enquanto representações coletivas, atribuem significados a essa outra vida, enquanto os ritos estabelecem os regulamentos que garantem o funcionamento do culto religioso. Os ritos são formas de reafirmação periódica do grupo.
Por este motivo, para Durkheim, a vida religiosa é voltada para ação. E Weber iria adiante ao dizer que toda ação é racional, portanto as religiões não podem ser irracionais. Mas em Durkheim o simbolismo religioso também atua com a função de reproduzir as hierarquias sociais.
A caracterização das religiões como sistemas de crenças irracionais, embora seja um equívoco, evidencia a tensão entre esses sistemas e nosso pensamento científico. A ciência nos ensinou a contemplar a natureza de outra forma, afastou a necessidade de um criador e da crença em mundos espirituais e tornou os ritos inúteis para aplacar as forças da natureza, que aprendemos a controlar a manipular a nosso favor. Contudo, não possuímos a totalidade do conhecimento, o que nos impede, por exemplo, de termos certeza se estamos ou não sozinhos no universo ou se existe algo parecido com um criador escondido em algum canto ou dimensão que não conhecemos.
Hoje, podemos viver confortavelmente sem nenhuma crença religiosa e com o direito de não sermos molestados por quem segue qualquer sistema de crença. Podemos ter espiritualidade sem precisarmos frequentar um templo ou acreditar em um Deus, podemos explicar o mundo sem o recurso a forças invisíveis e sobrenaturais. Isso também não suprimiu a religião como força cultural criadora. O fato de a religião ter sido legitimadora de diversas formas de poder arbitrários ao longo de milênios não anula seu potencial criador, seu impulso para a ação coletiva. Por isso Durkheim compreendia que, em última instância, a religião ensina as pessoas a viver melhor e fornece (especialmente para sociedades não modernas) o chão para a estabilidade das relações sociais.''
Bertone Sousa é professor do curso de História da UFT.
Grande parte das discussões entre ateus e religiosos na internet tem como plano de fundo a ignorância e mútua incompreensão. Da parte dos ateus, isso começa com a convicção de muitos deles de que as religiões são “irracionais”. As ciências sociais não trabalham com essa perspectiva. Elas são compreensivas. E as religiões, já reconhecia Durkheim, somente podem ser compreendidas historicamente. Desde o século 19, entendemos que fazer história é reconstituir contextos, épocas culturais, mentalidades. A história então monta o modelo do conhecimento das coisas humanas, que vai ser usado pela antropologia, economia, sociologia. Qualquer dimensão da ação humana deve ser entendida historicamente.
Foi o que Durkheim tentou fazer em “As formas elementares da vida religiosa”, onde extraí a epígrafe deste texto. A obra clássica publicada originalmente em 1912, é uma proposta de estudar o totemismo como sistema de culto em algumas tribos australianas. Embora fosse positivista, Durkheim divergia da teoria de Auguste Comte acerca do progresso da humanidade. Embora também acreditasse na objetividade da ciência social, também rompeu com a ideia de linearidade, tão presente na cultura ocidental, para argumentar que a história não é como uma linha geométrica nem a humanidade caminha em direção aos mesmos valores ou ao mesmo modelo de desenvolvimento tecnológico. Essa concepção foi bastante profícua para sua formulação de um conceito de religião e da função social da religião.
Sua famosa frase logo no início de que não existem religiões falsas porque todas correspondem a determinada condição da existência humana já sintetiza o olhar das ciências sociais sobre os fenômenos religiosos. A primeira parte, onde ele tenta chegar a uma definição de religião, também é particularmente importante. Uma das maiores dificuldade pra quem quer compreender ou estudar determinado sistema religioso é definir religião.
Sabemos que o sentido etimológico vem do latim re-ligare. Mas a questão é: a religião é um religar de quê? Inicialmente do homem com seus mortos. A religião não começa como uma crença em divindades, mas a partir do sentimento de continuidade da vida, a partir do momento em que o homem começa a sepultar seus mortos, com a realização de enterros e ritos fúnebres. Dessa forma, o sentimento religioso nasce de uma consciência da insuficiência humana e admissão da fragilidade e efemeridade da condição humana. No sistema totêmico, diz ele, a ideia de divindade é completamente estranha. Ele diz que a religião não se originou de cultos a divindades pessoais, mas de cultos a forças anônimas e poderes indefinidos.
Se a religião não se define por uma crença em uma divindade, Durkheim busca um ponto de convergência entre elas. E, pra ele, esse ponto consiste nos dois domínios em que as religiões dividem o mundo: o sagrado e o profano. Essas duas esferas definem determinado pensamento como religioso. Os templos teriam a função de separar os dois mundos. Para ele, a ideia de sagrado evoca a superioridade da coletividade sobre o indivíduo, sua autoridade moral e sua proteção. O sagrado e o profano também são dois temas sobre os quais Mircea Eliade discutiu amplamente em suas obras. Eliade considera que a necessidade da religião está ligada a um desejo ontológico, isto é, o desejo do ser, oriundo do temor do caos, do espaço desconhecido, não consagrado, que caracteriza, para o homem religioso, o não-ser absoluto.
O sagrado é composto de crenças e ritos, ou pensamento (no casos das crenças) e movimento (no caso dos ritos). Os ritos tem a função de prescrever comportamentos. A pluralidade de crenças religiosas evidenciam o impulso criador da sociedade e também a permanente tentativa do homem de elevar-se a uma vida superior à realidade cotidiana. As crenças, enquanto representações coletivas, atribuem significados a essa outra vida, enquanto os ritos estabelecem os regulamentos que garantem o funcionamento do culto religioso. Os ritos são formas de reafirmação periódica do grupo.
Por este motivo, para Durkheim, a vida religiosa é voltada para ação. E Weber iria adiante ao dizer que toda ação é racional, portanto as religiões não podem ser irracionais. Mas em Durkheim o simbolismo religioso também atua com a função de reproduzir as hierarquias sociais.
A caracterização das religiões como sistemas de crenças irracionais, embora seja um equívoco, evidencia a tensão entre esses sistemas e nosso pensamento científico. A ciência nos ensinou a contemplar a natureza de outra forma, afastou a necessidade de um criador e da crença em mundos espirituais e tornou os ritos inúteis para aplacar as forças da natureza, que aprendemos a controlar a manipular a nosso favor. Contudo, não possuímos a totalidade do conhecimento, o que nos impede, por exemplo, de termos certeza se estamos ou não sozinhos no universo ou se existe algo parecido com um criador escondido em algum canto ou dimensão que não conhecemos.
Hoje, podemos viver confortavelmente sem nenhuma crença religiosa e com o direito de não sermos molestados por quem segue qualquer sistema de crença. Podemos ter espiritualidade sem precisarmos frequentar um templo ou acreditar em um Deus, podemos explicar o mundo sem o recurso a forças invisíveis e sobrenaturais. Isso também não suprimiu a religião como força cultural criadora. O fato de a religião ter sido legitimadora de diversas formas de poder arbitrários ao longo de milênios não anula seu potencial criador, seu impulso para a ação coletiva. Por isso Durkheim compreendia que, em última instância, a religião ensina as pessoas a viver melhor e fornece (especialmente para sociedades não modernas) o chão para a estabilidade das relações sociais.''
Bertone Sousa é professor do curso de História da UFT.
domingo, 1 de junho de 2014
O que é secularismo?, por Robert G. Ingersoll
''Várias pessoas têm me perguntado sobre o significado deste termo.
Secularismo é a religião da humanidade; ele abrange os assuntos deste mundo; está interessado em tudo que toca o bem-estar de um ser senciente; advoga a atenção para o planeta particular em que nós por acaso vivemos; significa que cada indivíduo conta para algo; é uma declaração de independência intelectual; significa que os bancos da igreja são superiores ao púlpito, que os que carregam os fardos colherão os frutos e que aqueles que enchem a sacola segurarão as rédeas. É um protesto contra a opressão teológica, contra a tirania eclesiástica, contra ser o servo, o súdito ou o escravo de qualquer fantasma, ou do sacerdote do fantasma. É um protesto contra o desperdício desta vida por uma da qual não sabemos. Ele propõe que deixemos os deuses tomar conta de si mesmos. É um nome alternativo para o bom senso; isto é, a adaptação dos meios para tais fins como são desejados e entendidos.
O secularismo acredita na construção de um lar aqui, neste mundo. Ele confia no esforço individual, na energia, na inteligência, na observação e na experiência em vez de no desconhecido e no sobrenatural. Ele deseja ser feliz neste lado do túmulo.
Secularismo significa comida e lareira, teto e vestimenta, trabalho razoável e lazer razoável, o cultivo dos gostos, a aquisição do conhecimento, o gozo das artes, e promete à raça humana conforto, independência, inteligência e acima de tudo liberdade. Significa a abolição das rixas sectárias, dos ódios teológicos. Significa o cultivo da amizade e da hospitalidade intelectual. Significa o viver por nós mesmos e uns pelos outros; pelo presente ao invés do passado, por este mundo ao invés de outro. Significa o direito de expressar seu pensamento a despeito dos papas, pastores e deuses. Significa que a ociosidade impudente não mais viverá do trabalho de homens honestos. Significa a destruição do negócio daqueles que comercializam medo. Propõe dar serenidade e conteúdo à alma humana. Ele apagará as chamas da dor eterna. Ele batalha para nos livrar da violência e do vício, da ignorância, da pobreza e da doença. Vive pelo sempre presente hoje, e o sempre vindouro amanhã. Ele não acredita em rezar e receber, mas em auferir e merecer. Considera trabalho como adoração, a lida como oração, e sabedoria como a salvadora da raça humana. Ele diz para todo ser humano 'Tome conta de si mesmo para que possa ajudar os outros; adorne sua vida com as joias chamadas bons atos; ilumine seu caminho com a luz chamada amizade e amor'.
Secularismo é uma religião, uma religião que é entendida. Ele não tem mistério algum, murmúrio nenhum, nem padres, cerimônias, falsidades, milagres ou perseguições. Ele considera os lírios do campo e pensa no amanhã. Ele diz ao mundo inteiro 'Trabalhe para que possa comer, beber e vestir-se; trabalhe para que possa usufruir; trabalhe para que possa não querer; trabalhe para que possa dar e nunca necessitar'.''
___________________________________________________________________________
domingo, 11 de maio de 2014
Teocracia e totalitarismo, parte 2
O texto abaixo é a continuação do capítulo 17 do livro ''god is not Great: how religion poisons everything'', de Christopher Hitchens, publicado aqui com o título 'Teocracia e totalitarismo'.
''Deus está conosco'', dizia a inscrição no cinturão dos soldados nazistas.
Costuma-se esquecer que a tríade do Eixo incluía outro membro - o Japão -, que tinha como chefe de Estado não apenas uma pessoa religiosa, mas na verdade uma divindade. Se a chocante heresia de acreditar que o imperador era Deus algum dia foi denunciada em algum púlpito alemão ou italiano por qualquer prelado, eu fui incapaz de descobrir. No sagrado nome desse mamífero ridiculamente sobreavaliado enormes áreas da China, da Indochina e do Pacífico foram saqueadas e escravizadas. Também em seu nome milhões de japoneses foram martirizados e sacrificados. O culto a esse deus-rei era tão obrigatório e histérico que se acreditava que todo o povo japonês poderia apelar ao suicídio caso sua pessoa fosse ameaçada ao final da guerra. Assim chegou-se a um acordo de que ele poderia ''permanecer'', mas que dali por diante teria de alegar ser apenas um imperador, e talvez de alguma forma divino, mas não estritamente falando de um deus. Essa deferência à força de opinião religiosa deve implicar o reconhecimento de que a fé e a adoração podem fazer as pessoas se comportarem realmente muito mal.
Assim, aqueles que invocam a ''tirania secular'' em comparação com a religião esperam que esqueçamos duas coisas: a ligação entre as igrejas católicas e o fascismo e a capitulação das igrejas ao nacional-socialismo. Essa afirmação não é apenas minha: ela foi admitida pelas próprias autoridades religiosas. Sua consciência pesada nessa questão é ilustrada por um fragmento de má fé que ainda precisa ser combatido. Em sites religiosos e na propaganda religiosa é possível se deparar com uma afirmação supostamente feita por Albert Einstein em 1940:
Sou um amante da liberdade, quando a revolução chegou à Alemanha eu esperei
que as universidades a defendessem, sabendo que elas sempre tinham alardeado
sua devoção à causa da verdade; mas não, as universidades foram imediatamente
silenciadas. Então eu esperei pelos grandes editores dos jornais cujos editoriais
inflamados nos dias passados tinham proclamado seu amor à liberdade; mas eles,
como as universidades, foram silenciados em algumas semanas. (...) Apenas a Igreja
permaneceu firmemente no caminho da campanha de Hitler para eliminar a verda-
de. Eu nunca antes tinha tido qualquer interesse especial pela Igreja, mas hoje sinto
grande afeto e admiração, porque apenas a Igreja teve a coragem e a persistência
de defender a verdade intelectual e a liberdade moral. Assim, sou obrigado a con-
fessar que o que eu antes desprezei hoje louvo sem reservas.
Originalmente publicado na revista Time (sem qualquer fonte verificável), essa suposta declaração foi certa vez citada em uma transmissão nacional de rádio do famoso porta-voz católico americano e clérigo Fulton Sheen, e continua a circular. Como destacou o analista William Waterhoose, ela de modo algum soa como Albert Einstein. Sua retórica é floreada demais, para começar. E não faz qualquer menção à perseguição dos judeus. E faz o Einstein sereno e cuidadoso parecer tolo, por alegar ter um dia ''desprezado'' algo pelo qual ele ''nunca teve especial interesse''. Há ainda outra dificuldade, por essa declaração nunca aparecer em nenhuma antologia das observações escritas ou ditas por Einstein. Finalmente, Waterhoose conseguiu descobrir uma carta não-publicada nos arquivos Einstein de Jerusalém, na qual o velho homem se queixava em 1947 de ter um dia feito uma observação louvando alguns ''religiosos'' (não ''igrejas''), que tinha desde então sido exagerada a ponto de se tornar irreconhecível.
Qualquer um que queira saber o que Einstein realmente disse nos primeiros dias da barbárie de Hitler pode descobrir facilmente. Por exemplo:
Eu espero que condições saudáveis logo se imponham na Alemanha, e no futuro gran-
des homens como Kant e Goethe não sejam simplesmente festejados de tempos em
tempos, mas que os princípios que eles ensinaram prevaleçam na vida pública e na
consciência geral.
Fica muito claro que com isso ele colocava sua ''fé'', como sempre, na tradição iluminista. Aqueles que buscavam representar erroneamente o homem que nos deu uma teoria alternativa para o universo (bem como aqueles que permaneceram silenciosos, ou pior ainda, enquanto seus colegas judeus estavam sendo deportados e destruídos) traem os escrúpulos de suas consciências pesadas.
Quanto ao stalinismo soviético e chinês, com seu exorbitante culto à personalidade e sua indiferença pervertida para com a vida e os direitos humanos, não se pode esperar descobrir grandes coincidências com as religiões pré-existentes. Para começar, a Igreja Ortodoxa Russa tinha sido a principal impulsionadora da autocracia czarista, enquanto o próprio czar era visto como o líder formal de uma fé e algo um pouco mais que meramente humano. Na China, as igrejas cristãs eram fundamentalmente identificadas como as ''concessões'' estrangeiras arrancadas por poderes imperiais, que estavam entre as principais causas da própria revolução. Isso não explica ou desculpa o assassinato de padres e freiras e a violação de Igrejas - não mais do que se deveria desculpar o incêndio de igrejas e o assassinato do clero na Espanha durante a luta da república espanhola contra o fascismo católico -, mas a longa associação da religião com o poder secular corrupto significou que a maioria das nações precisa passar por pelo menos uma fase anticlerical, de Cromwell ao Risorgimento, passando por Henrique VIII e a Revolução Francesa, e nas condições de guerra e colapso que havia na Rússia e na China esses interlúdios foram particularmente brutais. (Devo acrescentar, porém, que nenhum cristão sério deveria esperar a restauração da religião como era em nenhum dos dois países: a Igreja na Rússia era defensora da escravidão e autora de pogrons antijudaicos, e na China os missionários, os comerciantes e concessionários avarentos eram sócios o crime.)
Lenin e Trotsky certamente eram ateus convictos que acreditavam que as ilusões da religião podiam ser destruídas por atos políticos e que nesse meio tempo as propriedades obscenamente ricas da Igreja podiam ser confiscadas e nacionalizadas. Também havia nas fileiras bolcheviques, como entre os jacobinos de 1789, aqueles que viam a revolução como uma religião alternativa, ligada a mitos de redenção e messianismo. Para Josef Stalin, que tinha se preparado para ser padre em um seminário na Geórgia, toda a coisa não passava de uma questão de poder. ''Quantas divisões tem o papa?'' foi a famosa pergunta idiota que ele fez. (A verdadeira resposta a esse sarcasmo cansativo era: ''Mais do que você pensa.'') Depois, Stalin pedantemente repetiu a rotina papal de fazer a ciência se ajustar ao dogma, insistindo que o xamã e charlatão Trofim Lysenko tinha revelado o segredo da genética e prometendo safas extras de vegetais particularmente inspirados. (Milhões de inocentes morreram de doses internas suplicantes em consequência dessa ''revelação''.) Esse César a quem todas as coisas eram devidamente atribuídas se preocupou, à medida que seu regime foi se tornando mais nacionalista e estatista, em manter pelo menos uma igreja-marionete que podia ligar seu tradicional apelo ao dele. Isso foi verdade especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando a ''Internacional'' foi substituída como hino nacional russo pelo tipo de propaganda musical que havia derrotado Bonaparte em 1812 (isso em uma época em que ''voluntários'' de vários Estados fascistas europeus estavam invadindo o território russo sob a sagrada bandeira de uma cruzada contra o comunismo ''sem deus''.) Em uma passagem muito negligenciada de A revolução dos Bichos, George Orwell permite que Moses, o corvo, havia muito o defensor crocitante de um paraíso além do céu, retorne à fazenda para pregar ás criaturas mais crédulas após Napoleão ter derrotado Bola-de-Neve. Sua analogia com a manipulação da Igreja Ortodoxa Russa por Stalin foi, como sempre, muito precisa. (Os stalinistas poloneses do pós-guerra tinham recorrido à mesma tática, legalizando uma organização católica chamada Pax Christi e dando a ela assentos no Parlamento de Varsóvia, para encanto de comunistas católicos colegas de jornada como Brian Greene.) A propaganda anti-religiosa na União Soviética era do tipo materialista mais banal: um santuário a Lenin frequentemente tinha vitrais, enquanto no museu oficial do ateísmo havia o testemunho de um cosmonauta russa que não tinha visto nenhum deus no espaço sideral. Essa cretinice expressava no mínimo tanto desprezo pelos caipiras simplórios quanto por qualquer ícone realizador de maravilhas. Como colocou o grande laureado da Polônia, Czeslaw Milosz, em seu clássico antitotalitário The Captive Mind, lançado em 1953:
Eu conheci muitos católicos - poloneses, franceses, espanhóis - que eram rígidos stalinistas
no campo da política mas que mantinham certas reservas internas, acreditando que Deus
faria correções assim que as sentenças sanguinárias dos todo-poderosos da História fossem
cumpridas. Eles levaram esse raciocínio ainda mais longe. Argumentam que a História se
desenvolve de acordo com as leis imutáveis que existem pela vontade de Deus; uma delas
é a luta de classes; o século XX marca a vitória do proletariado, que é liderado pelo Partido
Comunista; Stalin, o líder do Partido Comunista, cumpre a vontade de Deus, portanto é
preciso obedecer a ele. A humanidade só pode ser renovada segundo o padrão russo; por
isso nenhum cristão pode se opor à ideia - cruel, é verdade - que irá criar um novo tipo de
homem sobre todo o planeta. Tal raciocínio é frequentemente utilizado por clérigos que são
ferramentas do Partido. ''Cristo é um novo homem. O novo homem é o homem soviético.
Portanto, Cristo é um homem soviético!'', disse Justinian Marina, o patriarca romeno.
Homens como Marina sem dúvida eram odiosos e patéticos, simultaneamente odiosos e patéticos, mas isso em princípio não é pior do que os inúmero pactos feitos entre Igreja e Império, Igreja e monarquia, Igreja e fascismo e Igreja e Estado, todos eles justificados pela necessidade de o fiel fazer alianças temporais pelo bem de objetivos ''superiores'', enquanto se entrega a César (a palavra da qual deriva ''czar''), mesmo quando ele for ''sem deus''.
Um cientista político ou antropólogo teria pouca dificuldade em reconhecer o que os editores e colaboradores de O deus que falhou apresentaram naquela prosa imortal: absolutistas comunistas não tentavam tanto negar a religião, em sociedades que se sabiam saturadas de fé e superstição, quanto substituí-la. A solene elevação de líderes infalíveis que eram fonte de infinita recompensa e bênção; a busca permanente de hereges e cismáticos; os horrendos julgamentos espetaculares que produzem confissões inacreditáveis por intermédio da tortura... nada disso era muito difícil de interpretar em termos tradicionais. Nem a histeria em tempos de peste e fome, quando as autoridades iniciavam uma busca ensandecida a qualquer culpado, menos o real. (A grande Doris Lessing certa vez me disse que deixou o Partido Comunista ao descobrir que os inquisidores de Stalin tinham pilhado os museus da ortodoxia russa e do czarismo e reutilizado os antigos instrumentos de tortura.) Também não o era a incessante invocação de um ''Futuro Radiante'', cuja chegada um dia iria justificar todos os crimes e dissolver todas as pequenas dúvidas. ''Extra ecclesiam, nulla sallus'', como costumava dizer a antiga fé. ''Na revolução, tudo'', como Fidel Castro gostava de lembrar. ''Fora da revolução, nada''. De fato, na periferia de Castro se desenvolveu uma bizarra mutação conhecida, em um oxímoro, como ''teologia da libertação'', cujos padres e até mesmo bispos desenvolveram liturgias ''alternativas'' louvando a noção enganosa de que Jesus de Nazaré na verdade era um socialista militante. Por uma combinação de bons e maus motivos (o arcebispo Romero El Salvador era um homem de coragem e princípios, de uma forma que alguns clérigos de ''comunidades de base'' nicaraguenses não eram), o papado acabou com isso como sendo heresia. Que bom teria sido se ele tivesse condenado o nazismo e o fascismo com o mesmo tom firme e claro.
Em muitos poucos casos, como o da Albânia, o comunismo tentou extirpar a religião inteiramente e proclamar um Estado por completo ateu. Isso apenas levou a cultos ainda mais extremados de seres humanos medíocres, como o ditador Enver Hoxha, e a batismos e cerimônias secretas que comprovaram a absoluta alienação das pessoas comuns do regime. Não há nada no moderno argumento secular que de longe sugira a proibição da observância religiosa. Sigmund Freud estava certo de descrever o impulso religioso, em O futuro de uma ilusão, como essencialmente inextinguível até, ou a não ser, que a espécie humana consiga vencer seu medo da morte ou sua tendência ao wishful thinking. Nenhuma das duas situações parece provável. Tudo o que os totalitários demonstraram é que o impulso religioso - a necessidade de venerar - pode assumir formas ainda mais monstruosas se reprimido. Isso não necessariamente deve ser um cumprimento à nossa tendência à veneração.
Nos primeiros meses deste século eu fiz uma visita à Coreia do Norte. Ali, contido em um quadrilátero hermético de território limitado pelo mar ou por fronteiras quase impenetráveis, há uma terra inteiramente devotada à bajulação. Todos os momentos despertos do cidadão - o súdito - são consagrados a louvar o Ser Supremo e seu Pai. Toda sala de aula ressoa com isso, todos os filmes, as óperas e as peças são dedicados a isso, todas as transmissões de rádio e televisão são voltadas para isso. Assim como todos os livros, todos os locais de trabalho. Eu costumava tentar imaginar em como seria ter de cantar louvores infinitos, e hoje eu sei. Nem o demônio é esquecido: o mal vigilante dos estrangeiros e descrentes é evitado por uma vigilância perpétua, que inclui momentos diários de ritual no trabalho nos quais é inculcado o ódio ao ''outro''. O Estado norte-coreano nasceu aproximadamente na mesma época em que 1984 estava sendo publicado, e quase se pode acreditar que o pai sagrado do Estado, Kim Il Sung, recebeu um exemplar do romance e foi questionado se poderia colocá-lo em prática. Mas mesmo Orwell não tentou dizer que o nascimento do ''Grande Irmão'' foi cercado de sinais e prodígios milagrosos - como pássaros louvando o acontecimento milagroso cantando com vozes humanas. Nem o Partido Interno de Pista Número 1/Oceania gastou bilhões de escassos dólares, em uma época de fome terrível, para provar que o mamífero enganoso Kim Il Sung e seu filho mamífero patético Kim Jong Il eram duas encarnações da mesma pessoa. (Nessa versão da heresia ariana tão condenada por Atanásio, a Coreia do Norte é única por ter um homem morto como Chefe de Estado: Kim Jong Il é o chefe do partido e do exército, mas a presidência é exercida perpetuamente por seu pai morto, o que faz do país uma necrocracia ou uma mausoleucracia, além de um regime que está a apenas uma pessoa da Trindade.) A vida após a morte não é mencionada na Coreia, porque a ideia de deserção em qualquer direção é fortemente desencorajada, mas em compensação não é dito que os dois Kim continuarão a dominá-lo depois que você tiver morrido. Estudiosos do tema podem ver facilmente que o que temos na Coreia do Norte não é tanto uma forma extrema de comunismo - o termo mal é mencionado em meio às tempestades de dedicação extasiada -, mas uma forma pervertida, embora refinada, de confucionismo e veneração aos ancestrais.
Quando eu deixei a Coreia do Norte, com uma sensação mista de alívio, ultraje e pena tão grande que ainda continuo com ela, estava deixando um Estado totalitário, e também religioso. Desde então eu tenho conversado com muitas das valorosas pessoas que estão tentando minar esse sistema atroz interna e externamente. Admito desde já que alguns dos resistentes mais valorosos são cristãos fundamentalistas e anticomunistas. Um desses homens corajosos concedeu há pouco tempo uma entrevista na qual foi honesto o bastante para dizer que tinha dificuldade em pregar a ideia de um salvador para os poucos esfaimados e aterrorizados que tinham conseguido escapar de seu estado-prisão. A própria ideia de um redentor infalível e todo-poderoso, diziam, era conhecida demais deles. Uma tigela de arroz, alguma exposição a uma cultura mais ampla e algum alívio do fardo hediondo do entusiasmo compulsório eram o máximo que eles pediam por hora. Aqueles que têm sorte o bastante de chegar à Coreia do Sul ou aos Estados Unidos podem se ver confrontados por um outro Messias. O criminoso inveterado e sonegador de impostos Sun Myung Moon, líder inconteste da ''Igreja da Unificação'' e grande financiador da extrema-direita nos Estados Unidos, é um dos patronos do golpe do ''design inteligente''. Um personagem importante nesse dito movimento e um homem que nunca deixa de dar a esse guro homem-deus seu adequado nome de ''Pai'' é Jonathan Wells, autor de uma risível diatribe antievolucionista intitulada The icons of evolution. Como o próprio Wells diz de forma tocante: ''As palavras do Pai, meus estudos e minhas preces me convenceram de que eu deveria dedicar minha vida a destruir o darwinismo, assim como muitos de meus colegas unificacionistas já dedicaram suas vidas a destruir o marxismo. Quando o pai me escolheu (junto com cerca de outros 12 outros formados no seminário) para participar de um programa de doutorado em 1978, eu agradeci a oportunidade de combater''. É improvável que o livro do Sr. Wells consiga sequer uma nota de pé de página na história das baboseiras, mas tendo visto o ''paternalismo'' em ação nas duas Coreias, eu tenho uma ideia de como deveria ser o Distrito Consumido do estado de Nova York quando os crentes faziam tudo do seu jeito.
Mesmo resignadamente, a religião tem de admitir que o que está propondo é uma solução ''total'' na qual a fé deve ser de certa forma cega, e na qual todos os aspectos da vida pública e privada devem ser submetido s a uma constante supervisão. Essa vigilância constante e essa sujeição contínua, normalmente implementadas pelo medo na forma de vingança infinita, não despertam invariavelmente as melhores características dos mamíferos. Certamente é verdade que a emancipação da religião nem sempre produz o melhor mamífero. Dois grandes exemplos: um dos maiores e mais iluminados cientistas do século XX, J. D. Bernal, foi um abjeto partidário de Stalin e passou grande parte da vida defendendo os crimes de seu líder. H. L. Mencken, um dos melhores satiristas da religião, era muito entusiasmado com Nietzsche e advogava uma forma de ''darwinismo social'' que incluía a eugenia e o desprezo pelos fracos e doentes. Ele também teve uma quedinha por Adolf Hitler e escreveu uma resenha imperdoavelmente indulgente de Minha luta. O humanismo tem muitos crimes pelos quais se desculpar. Mas ele pode se desculpar por eles, e também corrigi-los, em seus próprios termos e sem ter de abalar ou questionar as bases de qualquer sistema de crenças inalterável. Sistemas totalitários, quaisquer que sejam suas formas externas, são fundamentalistas e como dissemos agora, ''baseados na fé''.
Em seu estudo magistral do fenômeno totalitário, Hannah Arend não estava apenas sendo tribal quando atribuiu um lugar especial ao antissemitismo. A ideia de que um grupo de pessoas - seja ele definido como uma nação ou uma religião - possa ser condenado para todos os tempos, e sem possibilidade de recurso, era (e é) essencialmente totalitária. É terrivelmente fascinante que Hitler tenha começado como propagador desse preconceito enlouquecido, e que Stalin tenha acabado sendo ao mesmo tempo vítima e defensor dele. Mas o vírus foi durante séculos mantido vivo pela religião. Santo Agostinho definitivamente usou o mito do Judeu Errante e o exílio dos judeus em geral como prova da justiça divina. Os judeus ortodoxos não são isentos de culpa. Alegando terem sido ''escolhidos'' em um acordo especial e exclusivo com o Todo-Poderoso, eles provocaram o ódio e a suspeita, e produziram sua própria forma de racismo. Contudo, são acima de tudo os judeus seculares que foram e são odiados pelos totalitários, portanto não há sentido em qualquer ''culpe a vítima''. A Ordem Jesuíta, até o século XX, se recusava, por estatuto, a admitir um homem a não ser que ele pudesse provar que não tinha ''sangue judeu'' por várias gerações. O Vaticano pregou que todos os judeus herdavam a responsabilidade pelo teicídio. A Igreja francesa insuflou a multidão contra Dreyfus e ''os intelectuais''. O islamismo nunca perdoou ''os judeus'' por encontrarem Maomé e decidirem que ele não era o verdadeiro mensageiro. Por enfatizar tribo, dinastia e origem racial em seus livros sagrados, a religião precisa aceitar a responsabilidade de transmitir uma das ilusões mais primitivas da humanidade através das gerações.
A ligação entre religião, racismo e totalitarismo também pode ser encontrada na outra odiosa ditadura do século XX: o sistema vil do apartheid da África do Sul. Aquela não era apenas a ideologia de uma tribo de língua holandesa disposta a extorquir trabalho forçado de povos de um diferente padrão de pigmentação; era também uma forma de calvinismo na prática. A Igreja Reformada Holandesa pregava como dogma que negros e brancos eram biblicamente proibidos de se misturar, quanto mais de coexistir em termos de igualdade. Racismo é totalitário por definição: ele marca a vítima perpetuamente e nega a ela até mesmo o direito de um farrapo de dignidade ou privacidade, até mesmo o direito elementar de fazer amor, casar ou ter filhos com um ente querido da tribo ''errada'' sem ter seu amor anulado pela lei... E essa era a vida de milhões que viviam no ''Ocidente cristão'' em nossos próprios dias. O Partido Nacional, do governo, que também estava altamente contaminado por antissemitismo e que tinha ficado do lado dos nazistas na Segunda Guerra Mundial, se baseava nos delírios do púlpito para justificar seu próprio mito de sangue de um ''Êxodo'' bôer que deu a eles direitos exclusivos em uma ''terra prometida''. Consequentemente, uma transmutação africânder do sionismo produziu um Estado atrasado e despótico no qual os direitos de todos os outros povos foram abolidos e no qual a sobrevivência dos próprios africânderes acabou ameaçada pela corrupção, pelo caos e pela brutalidade. Nesse momento os anciãos bovinos da Igreja tiveram uma revelação que permitiu o fim gradual do apartheid. Mas isso de modo algum pode admitir o perdão pelo mal que a religião causou enquanto se sentia forte o bastante para fazê-lo. São os muitos cristãos e judeus seculares, e os muitos ateus e agnósticos do Congresso Nacional Africano, que merecem o crédito pela sociedade sul-africana ter sido salva da barbárie total e da implosão.
O último século viu muitos outros improvisos sobre a velha ideia de uma ditadura que podia cuidar de problemas mais que apenas seculares ou cotidianos. Eles variaram de levemente ofensivos - a Igreja Ortodoxa Grega batizou a junta militar golpista de 1967, com as suas viseiras e seus capacetes de aço, de ''a Grécia para os cristãos gregos'' - até o escravizador ''angka'' do Khmer Vermelho no Camboja, que buscou sua autoridade em templos e lendas pré-históricos. (Seu algumas vezes amigo, algumas vezes rival, o já mencionado rei Sihanouk, que conseguiu um abrigo de playboy sob a proteção de stalinistas chineses, também era adepto de ser um deus-rei quando interessava a ele.) Entre um extremo e outro está o xá do Irã, que alegava ser ''a sombra de Deus'', bem como ''a luz dos arianos'', que reprimiu a oposição secular e tomou o cuidado de ser representado como guardião dos santuários xiitas. Sua megalomania foi sucedida por uma de suas primas próximas, a heresia de Khomeini da velayet-i-faqui, ou o completo controle social pelos mulás (que também exibem seu falecido líder como seu fundador e afirmam que suas palavras sagradas nunca podem ser apagadas). No extremo pode ser encontrado o purismo medieval do Talibã, que se dedicou a descobrir novas coisas a proibir (tudo, de música a papel reciclado, que podia conter um pequeno fragmento de polpa de um Corão jogado fora) e novos métodos de punição (homossexuais queimados vivos). A alternativa a esses fenômenos grotescos não é a quimera da ditadura secular, e sim a defesa do pluralismo secular e o direito a não acreditar ou ser obrigado a acreditar. Essa defesa agora se tornou uma responsabilidade urgente e inevitável: uma questão de sobrevivência.
''Deus está conosco'', dizia a inscrição no cinturão dos soldados nazistas.
Costuma-se esquecer que a tríade do Eixo incluía outro membro - o Japão -, que tinha como chefe de Estado não apenas uma pessoa religiosa, mas na verdade uma divindade. Se a chocante heresia de acreditar que o imperador era Deus algum dia foi denunciada em algum púlpito alemão ou italiano por qualquer prelado, eu fui incapaz de descobrir. No sagrado nome desse mamífero ridiculamente sobreavaliado enormes áreas da China, da Indochina e do Pacífico foram saqueadas e escravizadas. Também em seu nome milhões de japoneses foram martirizados e sacrificados. O culto a esse deus-rei era tão obrigatório e histérico que se acreditava que todo o povo japonês poderia apelar ao suicídio caso sua pessoa fosse ameaçada ao final da guerra. Assim chegou-se a um acordo de que ele poderia ''permanecer'', mas que dali por diante teria de alegar ser apenas um imperador, e talvez de alguma forma divino, mas não estritamente falando de um deus. Essa deferência à força de opinião religiosa deve implicar o reconhecimento de que a fé e a adoração podem fazer as pessoas se comportarem realmente muito mal.
Assim, aqueles que invocam a ''tirania secular'' em comparação com a religião esperam que esqueçamos duas coisas: a ligação entre as igrejas católicas e o fascismo e a capitulação das igrejas ao nacional-socialismo. Essa afirmação não é apenas minha: ela foi admitida pelas próprias autoridades religiosas. Sua consciência pesada nessa questão é ilustrada por um fragmento de má fé que ainda precisa ser combatido. Em sites religiosos e na propaganda religiosa é possível se deparar com uma afirmação supostamente feita por Albert Einstein em 1940:
Sou um amante da liberdade, quando a revolução chegou à Alemanha eu esperei
que as universidades a defendessem, sabendo que elas sempre tinham alardeado
sua devoção à causa da verdade; mas não, as universidades foram imediatamente
silenciadas. Então eu esperei pelos grandes editores dos jornais cujos editoriais
inflamados nos dias passados tinham proclamado seu amor à liberdade; mas eles,
como as universidades, foram silenciados em algumas semanas. (...) Apenas a Igreja
permaneceu firmemente no caminho da campanha de Hitler para eliminar a verda-
de. Eu nunca antes tinha tido qualquer interesse especial pela Igreja, mas hoje sinto
grande afeto e admiração, porque apenas a Igreja teve a coragem e a persistência
de defender a verdade intelectual e a liberdade moral. Assim, sou obrigado a con-
fessar que o que eu antes desprezei hoje louvo sem reservas.
Originalmente publicado na revista Time (sem qualquer fonte verificável), essa suposta declaração foi certa vez citada em uma transmissão nacional de rádio do famoso porta-voz católico americano e clérigo Fulton Sheen, e continua a circular. Como destacou o analista William Waterhoose, ela de modo algum soa como Albert Einstein. Sua retórica é floreada demais, para começar. E não faz qualquer menção à perseguição dos judeus. E faz o Einstein sereno e cuidadoso parecer tolo, por alegar ter um dia ''desprezado'' algo pelo qual ele ''nunca teve especial interesse''. Há ainda outra dificuldade, por essa declaração nunca aparecer em nenhuma antologia das observações escritas ou ditas por Einstein. Finalmente, Waterhoose conseguiu descobrir uma carta não-publicada nos arquivos Einstein de Jerusalém, na qual o velho homem se queixava em 1947 de ter um dia feito uma observação louvando alguns ''religiosos'' (não ''igrejas''), que tinha desde então sido exagerada a ponto de se tornar irreconhecível.
Qualquer um que queira saber o que Einstein realmente disse nos primeiros dias da barbárie de Hitler pode descobrir facilmente. Por exemplo:
Eu espero que condições saudáveis logo se imponham na Alemanha, e no futuro gran-
des homens como Kant e Goethe não sejam simplesmente festejados de tempos em
tempos, mas que os princípios que eles ensinaram prevaleçam na vida pública e na
consciência geral.
Fica muito claro que com isso ele colocava sua ''fé'', como sempre, na tradição iluminista. Aqueles que buscavam representar erroneamente o homem que nos deu uma teoria alternativa para o universo (bem como aqueles que permaneceram silenciosos, ou pior ainda, enquanto seus colegas judeus estavam sendo deportados e destruídos) traem os escrúpulos de suas consciências pesadas.
Quanto ao stalinismo soviético e chinês, com seu exorbitante culto à personalidade e sua indiferença pervertida para com a vida e os direitos humanos, não se pode esperar descobrir grandes coincidências com as religiões pré-existentes. Para começar, a Igreja Ortodoxa Russa tinha sido a principal impulsionadora da autocracia czarista, enquanto o próprio czar era visto como o líder formal de uma fé e algo um pouco mais que meramente humano. Na China, as igrejas cristãs eram fundamentalmente identificadas como as ''concessões'' estrangeiras arrancadas por poderes imperiais, que estavam entre as principais causas da própria revolução. Isso não explica ou desculpa o assassinato de padres e freiras e a violação de Igrejas - não mais do que se deveria desculpar o incêndio de igrejas e o assassinato do clero na Espanha durante a luta da república espanhola contra o fascismo católico -, mas a longa associação da religião com o poder secular corrupto significou que a maioria das nações precisa passar por pelo menos uma fase anticlerical, de Cromwell ao Risorgimento, passando por Henrique VIII e a Revolução Francesa, e nas condições de guerra e colapso que havia na Rússia e na China esses interlúdios foram particularmente brutais. (Devo acrescentar, porém, que nenhum cristão sério deveria esperar a restauração da religião como era em nenhum dos dois países: a Igreja na Rússia era defensora da escravidão e autora de pogrons antijudaicos, e na China os missionários, os comerciantes e concessionários avarentos eram sócios o crime.)
Lenin e Trotsky certamente eram ateus convictos que acreditavam que as ilusões da religião podiam ser destruídas por atos políticos e que nesse meio tempo as propriedades obscenamente ricas da Igreja podiam ser confiscadas e nacionalizadas. Também havia nas fileiras bolcheviques, como entre os jacobinos de 1789, aqueles que viam a revolução como uma religião alternativa, ligada a mitos de redenção e messianismo. Para Josef Stalin, que tinha se preparado para ser padre em um seminário na Geórgia, toda a coisa não passava de uma questão de poder. ''Quantas divisões tem o papa?'' foi a famosa pergunta idiota que ele fez. (A verdadeira resposta a esse sarcasmo cansativo era: ''Mais do que você pensa.'') Depois, Stalin pedantemente repetiu a rotina papal de fazer a ciência se ajustar ao dogma, insistindo que o xamã e charlatão Trofim Lysenko tinha revelado o segredo da genética e prometendo safas extras de vegetais particularmente inspirados. (Milhões de inocentes morreram de doses internas suplicantes em consequência dessa ''revelação''.) Esse César a quem todas as coisas eram devidamente atribuídas se preocupou, à medida que seu regime foi se tornando mais nacionalista e estatista, em manter pelo menos uma igreja-marionete que podia ligar seu tradicional apelo ao dele. Isso foi verdade especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando a ''Internacional'' foi substituída como hino nacional russo pelo tipo de propaganda musical que havia derrotado Bonaparte em 1812 (isso em uma época em que ''voluntários'' de vários Estados fascistas europeus estavam invadindo o território russo sob a sagrada bandeira de uma cruzada contra o comunismo ''sem deus''.) Em uma passagem muito negligenciada de A revolução dos Bichos, George Orwell permite que Moses, o corvo, havia muito o defensor crocitante de um paraíso além do céu, retorne à fazenda para pregar ás criaturas mais crédulas após Napoleão ter derrotado Bola-de-Neve. Sua analogia com a manipulação da Igreja Ortodoxa Russa por Stalin foi, como sempre, muito precisa. (Os stalinistas poloneses do pós-guerra tinham recorrido à mesma tática, legalizando uma organização católica chamada Pax Christi e dando a ela assentos no Parlamento de Varsóvia, para encanto de comunistas católicos colegas de jornada como Brian Greene.) A propaganda anti-religiosa na União Soviética era do tipo materialista mais banal: um santuário a Lenin frequentemente tinha vitrais, enquanto no museu oficial do ateísmo havia o testemunho de um cosmonauta russa que não tinha visto nenhum deus no espaço sideral. Essa cretinice expressava no mínimo tanto desprezo pelos caipiras simplórios quanto por qualquer ícone realizador de maravilhas. Como colocou o grande laureado da Polônia, Czeslaw Milosz, em seu clássico antitotalitário The Captive Mind, lançado em 1953:
Eu conheci muitos católicos - poloneses, franceses, espanhóis - que eram rígidos stalinistas
no campo da política mas que mantinham certas reservas internas, acreditando que Deus
faria correções assim que as sentenças sanguinárias dos todo-poderosos da História fossem
cumpridas. Eles levaram esse raciocínio ainda mais longe. Argumentam que a História se
desenvolve de acordo com as leis imutáveis que existem pela vontade de Deus; uma delas
é a luta de classes; o século XX marca a vitória do proletariado, que é liderado pelo Partido
Comunista; Stalin, o líder do Partido Comunista, cumpre a vontade de Deus, portanto é
preciso obedecer a ele. A humanidade só pode ser renovada segundo o padrão russo; por
isso nenhum cristão pode se opor à ideia - cruel, é verdade - que irá criar um novo tipo de
homem sobre todo o planeta. Tal raciocínio é frequentemente utilizado por clérigos que são
ferramentas do Partido. ''Cristo é um novo homem. O novo homem é o homem soviético.
Portanto, Cristo é um homem soviético!'', disse Justinian Marina, o patriarca romeno.
Homens como Marina sem dúvida eram odiosos e patéticos, simultaneamente odiosos e patéticos, mas isso em princípio não é pior do que os inúmero pactos feitos entre Igreja e Império, Igreja e monarquia, Igreja e fascismo e Igreja e Estado, todos eles justificados pela necessidade de o fiel fazer alianças temporais pelo bem de objetivos ''superiores'', enquanto se entrega a César (a palavra da qual deriva ''czar''), mesmo quando ele for ''sem deus''.
Um cientista político ou antropólogo teria pouca dificuldade em reconhecer o que os editores e colaboradores de O deus que falhou apresentaram naquela prosa imortal: absolutistas comunistas não tentavam tanto negar a religião, em sociedades que se sabiam saturadas de fé e superstição, quanto substituí-la. A solene elevação de líderes infalíveis que eram fonte de infinita recompensa e bênção; a busca permanente de hereges e cismáticos; os horrendos julgamentos espetaculares que produzem confissões inacreditáveis por intermédio da tortura... nada disso era muito difícil de interpretar em termos tradicionais. Nem a histeria em tempos de peste e fome, quando as autoridades iniciavam uma busca ensandecida a qualquer culpado, menos o real. (A grande Doris Lessing certa vez me disse que deixou o Partido Comunista ao descobrir que os inquisidores de Stalin tinham pilhado os museus da ortodoxia russa e do czarismo e reutilizado os antigos instrumentos de tortura.) Também não o era a incessante invocação de um ''Futuro Radiante'', cuja chegada um dia iria justificar todos os crimes e dissolver todas as pequenas dúvidas. ''Extra ecclesiam, nulla sallus'', como costumava dizer a antiga fé. ''Na revolução, tudo'', como Fidel Castro gostava de lembrar. ''Fora da revolução, nada''. De fato, na periferia de Castro se desenvolveu uma bizarra mutação conhecida, em um oxímoro, como ''teologia da libertação'', cujos padres e até mesmo bispos desenvolveram liturgias ''alternativas'' louvando a noção enganosa de que Jesus de Nazaré na verdade era um socialista militante. Por uma combinação de bons e maus motivos (o arcebispo Romero El Salvador era um homem de coragem e princípios, de uma forma que alguns clérigos de ''comunidades de base'' nicaraguenses não eram), o papado acabou com isso como sendo heresia. Que bom teria sido se ele tivesse condenado o nazismo e o fascismo com o mesmo tom firme e claro.
Em muitos poucos casos, como o da Albânia, o comunismo tentou extirpar a religião inteiramente e proclamar um Estado por completo ateu. Isso apenas levou a cultos ainda mais extremados de seres humanos medíocres, como o ditador Enver Hoxha, e a batismos e cerimônias secretas que comprovaram a absoluta alienação das pessoas comuns do regime. Não há nada no moderno argumento secular que de longe sugira a proibição da observância religiosa. Sigmund Freud estava certo de descrever o impulso religioso, em O futuro de uma ilusão, como essencialmente inextinguível até, ou a não ser, que a espécie humana consiga vencer seu medo da morte ou sua tendência ao wishful thinking. Nenhuma das duas situações parece provável. Tudo o que os totalitários demonstraram é que o impulso religioso - a necessidade de venerar - pode assumir formas ainda mais monstruosas se reprimido. Isso não necessariamente deve ser um cumprimento à nossa tendência à veneração.
Nos primeiros meses deste século eu fiz uma visita à Coreia do Norte. Ali, contido em um quadrilátero hermético de território limitado pelo mar ou por fronteiras quase impenetráveis, há uma terra inteiramente devotada à bajulação. Todos os momentos despertos do cidadão - o súdito - são consagrados a louvar o Ser Supremo e seu Pai. Toda sala de aula ressoa com isso, todos os filmes, as óperas e as peças são dedicados a isso, todas as transmissões de rádio e televisão são voltadas para isso. Assim como todos os livros, todos os locais de trabalho. Eu costumava tentar imaginar em como seria ter de cantar louvores infinitos, e hoje eu sei. Nem o demônio é esquecido: o mal vigilante dos estrangeiros e descrentes é evitado por uma vigilância perpétua, que inclui momentos diários de ritual no trabalho nos quais é inculcado o ódio ao ''outro''. O Estado norte-coreano nasceu aproximadamente na mesma época em que 1984 estava sendo publicado, e quase se pode acreditar que o pai sagrado do Estado, Kim Il Sung, recebeu um exemplar do romance e foi questionado se poderia colocá-lo em prática. Mas mesmo Orwell não tentou dizer que o nascimento do ''Grande Irmão'' foi cercado de sinais e prodígios milagrosos - como pássaros louvando o acontecimento milagroso cantando com vozes humanas. Nem o Partido Interno de Pista Número 1/Oceania gastou bilhões de escassos dólares, em uma época de fome terrível, para provar que o mamífero enganoso Kim Il Sung e seu filho mamífero patético Kim Jong Il eram duas encarnações da mesma pessoa. (Nessa versão da heresia ariana tão condenada por Atanásio, a Coreia do Norte é única por ter um homem morto como Chefe de Estado: Kim Jong Il é o chefe do partido e do exército, mas a presidência é exercida perpetuamente por seu pai morto, o que faz do país uma necrocracia ou uma mausoleucracia, além de um regime que está a apenas uma pessoa da Trindade.) A vida após a morte não é mencionada na Coreia, porque a ideia de deserção em qualquer direção é fortemente desencorajada, mas em compensação não é dito que os dois Kim continuarão a dominá-lo depois que você tiver morrido. Estudiosos do tema podem ver facilmente que o que temos na Coreia do Norte não é tanto uma forma extrema de comunismo - o termo mal é mencionado em meio às tempestades de dedicação extasiada -, mas uma forma pervertida, embora refinada, de confucionismo e veneração aos ancestrais.
Quando eu deixei a Coreia do Norte, com uma sensação mista de alívio, ultraje e pena tão grande que ainda continuo com ela, estava deixando um Estado totalitário, e também religioso. Desde então eu tenho conversado com muitas das valorosas pessoas que estão tentando minar esse sistema atroz interna e externamente. Admito desde já que alguns dos resistentes mais valorosos são cristãos fundamentalistas e anticomunistas. Um desses homens corajosos concedeu há pouco tempo uma entrevista na qual foi honesto o bastante para dizer que tinha dificuldade em pregar a ideia de um salvador para os poucos esfaimados e aterrorizados que tinham conseguido escapar de seu estado-prisão. A própria ideia de um redentor infalível e todo-poderoso, diziam, era conhecida demais deles. Uma tigela de arroz, alguma exposição a uma cultura mais ampla e algum alívio do fardo hediondo do entusiasmo compulsório eram o máximo que eles pediam por hora. Aqueles que têm sorte o bastante de chegar à Coreia do Sul ou aos Estados Unidos podem se ver confrontados por um outro Messias. O criminoso inveterado e sonegador de impostos Sun Myung Moon, líder inconteste da ''Igreja da Unificação'' e grande financiador da extrema-direita nos Estados Unidos, é um dos patronos do golpe do ''design inteligente''. Um personagem importante nesse dito movimento e um homem que nunca deixa de dar a esse guro homem-deus seu adequado nome de ''Pai'' é Jonathan Wells, autor de uma risível diatribe antievolucionista intitulada The icons of evolution. Como o próprio Wells diz de forma tocante: ''As palavras do Pai, meus estudos e minhas preces me convenceram de que eu deveria dedicar minha vida a destruir o darwinismo, assim como muitos de meus colegas unificacionistas já dedicaram suas vidas a destruir o marxismo. Quando o pai me escolheu (junto com cerca de outros 12 outros formados no seminário) para participar de um programa de doutorado em 1978, eu agradeci a oportunidade de combater''. É improvável que o livro do Sr. Wells consiga sequer uma nota de pé de página na história das baboseiras, mas tendo visto o ''paternalismo'' em ação nas duas Coreias, eu tenho uma ideia de como deveria ser o Distrito Consumido do estado de Nova York quando os crentes faziam tudo do seu jeito.
Mesmo resignadamente, a religião tem de admitir que o que está propondo é uma solução ''total'' na qual a fé deve ser de certa forma cega, e na qual todos os aspectos da vida pública e privada devem ser submetido s a uma constante supervisão. Essa vigilância constante e essa sujeição contínua, normalmente implementadas pelo medo na forma de vingança infinita, não despertam invariavelmente as melhores características dos mamíferos. Certamente é verdade que a emancipação da religião nem sempre produz o melhor mamífero. Dois grandes exemplos: um dos maiores e mais iluminados cientistas do século XX, J. D. Bernal, foi um abjeto partidário de Stalin e passou grande parte da vida defendendo os crimes de seu líder. H. L. Mencken, um dos melhores satiristas da religião, era muito entusiasmado com Nietzsche e advogava uma forma de ''darwinismo social'' que incluía a eugenia e o desprezo pelos fracos e doentes. Ele também teve uma quedinha por Adolf Hitler e escreveu uma resenha imperdoavelmente indulgente de Minha luta. O humanismo tem muitos crimes pelos quais se desculpar. Mas ele pode se desculpar por eles, e também corrigi-los, em seus próprios termos e sem ter de abalar ou questionar as bases de qualquer sistema de crenças inalterável. Sistemas totalitários, quaisquer que sejam suas formas externas, são fundamentalistas e como dissemos agora, ''baseados na fé''.
Em seu estudo magistral do fenômeno totalitário, Hannah Arend não estava apenas sendo tribal quando atribuiu um lugar especial ao antissemitismo. A ideia de que um grupo de pessoas - seja ele definido como uma nação ou uma religião - possa ser condenado para todos os tempos, e sem possibilidade de recurso, era (e é) essencialmente totalitária. É terrivelmente fascinante que Hitler tenha começado como propagador desse preconceito enlouquecido, e que Stalin tenha acabado sendo ao mesmo tempo vítima e defensor dele. Mas o vírus foi durante séculos mantido vivo pela religião. Santo Agostinho definitivamente usou o mito do Judeu Errante e o exílio dos judeus em geral como prova da justiça divina. Os judeus ortodoxos não são isentos de culpa. Alegando terem sido ''escolhidos'' em um acordo especial e exclusivo com o Todo-Poderoso, eles provocaram o ódio e a suspeita, e produziram sua própria forma de racismo. Contudo, são acima de tudo os judeus seculares que foram e são odiados pelos totalitários, portanto não há sentido em qualquer ''culpe a vítima''. A Ordem Jesuíta, até o século XX, se recusava, por estatuto, a admitir um homem a não ser que ele pudesse provar que não tinha ''sangue judeu'' por várias gerações. O Vaticano pregou que todos os judeus herdavam a responsabilidade pelo teicídio. A Igreja francesa insuflou a multidão contra Dreyfus e ''os intelectuais''. O islamismo nunca perdoou ''os judeus'' por encontrarem Maomé e decidirem que ele não era o verdadeiro mensageiro. Por enfatizar tribo, dinastia e origem racial em seus livros sagrados, a religião precisa aceitar a responsabilidade de transmitir uma das ilusões mais primitivas da humanidade através das gerações.
A ligação entre religião, racismo e totalitarismo também pode ser encontrada na outra odiosa ditadura do século XX: o sistema vil do apartheid da África do Sul. Aquela não era apenas a ideologia de uma tribo de língua holandesa disposta a extorquir trabalho forçado de povos de um diferente padrão de pigmentação; era também uma forma de calvinismo na prática. A Igreja Reformada Holandesa pregava como dogma que negros e brancos eram biblicamente proibidos de se misturar, quanto mais de coexistir em termos de igualdade. Racismo é totalitário por definição: ele marca a vítima perpetuamente e nega a ela até mesmo o direito de um farrapo de dignidade ou privacidade, até mesmo o direito elementar de fazer amor, casar ou ter filhos com um ente querido da tribo ''errada'' sem ter seu amor anulado pela lei... E essa era a vida de milhões que viviam no ''Ocidente cristão'' em nossos próprios dias. O Partido Nacional, do governo, que também estava altamente contaminado por antissemitismo e que tinha ficado do lado dos nazistas na Segunda Guerra Mundial, se baseava nos delírios do púlpito para justificar seu próprio mito de sangue de um ''Êxodo'' bôer que deu a eles direitos exclusivos em uma ''terra prometida''. Consequentemente, uma transmutação africânder do sionismo produziu um Estado atrasado e despótico no qual os direitos de todos os outros povos foram abolidos e no qual a sobrevivência dos próprios africânderes acabou ameaçada pela corrupção, pelo caos e pela brutalidade. Nesse momento os anciãos bovinos da Igreja tiveram uma revelação que permitiu o fim gradual do apartheid. Mas isso de modo algum pode admitir o perdão pelo mal que a religião causou enquanto se sentia forte o bastante para fazê-lo. São os muitos cristãos e judeus seculares, e os muitos ateus e agnósticos do Congresso Nacional Africano, que merecem o crédito pela sociedade sul-africana ter sido salva da barbárie total e da implosão.
O último século viu muitos outros improvisos sobre a velha ideia de uma ditadura que podia cuidar de problemas mais que apenas seculares ou cotidianos. Eles variaram de levemente ofensivos - a Igreja Ortodoxa Grega batizou a junta militar golpista de 1967, com as suas viseiras e seus capacetes de aço, de ''a Grécia para os cristãos gregos'' - até o escravizador ''angka'' do Khmer Vermelho no Camboja, que buscou sua autoridade em templos e lendas pré-históricos. (Seu algumas vezes amigo, algumas vezes rival, o já mencionado rei Sihanouk, que conseguiu um abrigo de playboy sob a proteção de stalinistas chineses, também era adepto de ser um deus-rei quando interessava a ele.) Entre um extremo e outro está o xá do Irã, que alegava ser ''a sombra de Deus'', bem como ''a luz dos arianos'', que reprimiu a oposição secular e tomou o cuidado de ser representado como guardião dos santuários xiitas. Sua megalomania foi sucedida por uma de suas primas próximas, a heresia de Khomeini da velayet-i-faqui, ou o completo controle social pelos mulás (que também exibem seu falecido líder como seu fundador e afirmam que suas palavras sagradas nunca podem ser apagadas). No extremo pode ser encontrado o purismo medieval do Talibã, que se dedicou a descobrir novas coisas a proibir (tudo, de música a papel reciclado, que podia conter um pequeno fragmento de polpa de um Corão jogado fora) e novos métodos de punição (homossexuais queimados vivos). A alternativa a esses fenômenos grotescos não é a quimera da ditadura secular, e sim a defesa do pluralismo secular e o direito a não acreditar ou ser obrigado a acreditar. Essa defesa agora se tornou uma responsabilidade urgente e inevitável: uma questão de sobrevivência.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Teocracia e totalitarismo
George Orwell introduziu, em um chamado livro 1984, o conceito de ''crimideia'': a noção de que um indivíduo pode ser condenado e penalizado não (só) pelo que ele faz, mas até mesmo pelo que ele pensa. Essa noção extremamente autoritária (e essencialmente totalitária) foi percebida em regimes como o socialismo stalinista, quando milhares foram presos acusados de ter ''delírios reformistas''. Isso certamente revolta qualquer cidadão com um mínimo de senso comum: nós não somos culpados pelo que pensamos, por nossas opiniões, mas sim por nossos atos. No entanto, os velhos sistemas metafísicos (as ''boas'' e velhas religiões) estão repletas desse totalitarismo. A marcante frase de Jesus, ''Somente aquele que crê em mim e for batizado'', é uma boa prova disso: pessoas condenadas ao inferno pela eternidade por não crerem, por não terem determinada ideia em suas mentes, ainda que tenham praticado boas ações por toda a vida.
O texto abaixo, de autoria de Christopher Hitchens, corresponde à primeira metade do capítulo 17 do livro ''god is not Great: how religion poisons everything'', ''Uma objeção antecipada: o 'argumento' desesperado contra o secularismo'', e está relacionado a esse tema. Boa leitura.
''Uma fé que despreza a mente e o indivíduo livre, que prega a submissão e a resignação e que considera a vida algo pobre e transitório está mal equipada para a autocrítica.'' - C. Hitchens
Se eu não posso provar definitivamente que o sentido da religião desapareceu no passado, que seus livros fundamentais são fábulas transparentes, que é uma imposição criada pelo homem, que tem sido inimiga da ciência e da pesquisa e que sobreviveu principalmente de mentiras e medos e foi cúmplice da ignorância e da culpa, bem como da escravidão, do genocídio, do racismo e da tirania, eu quase certamente posso afirmar que a religião hoje está plenamente consciente dessas críticas. Também está plenamente consciente das provas cada vez mais numerosas, referentes às origens do universo e à origem das espécies, que a relegam à marginalidade, quando não à irrelevância. Eu tentei lidar com as objeções na fé à medida que foram surgindo ao longo da discussão (no livro), mas há um último ponto que não pode ser evitado.
Quando já foi dito o pior sobre a Inquisição, os julgamentos das bruxas, as cruzadas, as conquistas imperiais islâmicas e os horrores do Velho Testamento, não é verdade que os regimes seculares e ateus cometeram crimes e massacres que são, na escala das coisas, pelo menos tão ruins, quando não piores? E o corolário não é de que homens livres da reverência religiosa irão agir da forma mais desabrida e abandonada? Em seu Os irmãos Karamazóv, Dostoiévski foi extremamente crítico em relação à religião (e vivia sob o despotismo que era santificado pela Igreja) e também representou seu personagem Smerdiakov como uma figura vã, crédula e idiota, mas a máxima de Smerdiakóv - de que ''Se deus não existe, tudo está permitido'' - compreensivelmente encontra eco naqueles que veem a Revolução Russa do prisma do século XX.
É possível ir além e dizer que o totalitarismo secular de fato nos deu um resumo do mal humano. Os exemplos mais utilizados - os regimes de Hitler e Stálin - nos mostram com terrível clareza o que acontece quando os homens usurpam o papel dos deuses. Quando eu consulto meus amigos seculares e ateus, descubro que essa se tornou a objeção mais comum e frequente que escutam de plateias religiosas. O ponto merece uma réplica detalhada.
Para começar devagar, é interessante descobrir que as pessoas de fé hoje buscam dizer defensivamente que não são piores que fascistas, nazistas ou stalinistas. Seria de esperar que a religião tivesse preservado um pouco mais de dignidade. Não diria que as fileiras do secularismos e ateísmo estão abarrotadas de comunistas ou fascistas, mas pelo bem do debate pode-se considerar certo que, assim como os secularistas e ateus resistiram às tiranias clericais e teocráticas, os crentes religiosos resistiram às pagãs e materialistas. Mas isso seria apenas dividir a diferença.
A palavra 'totalitário' provavelmente foi usada pela primeira vez pelo dissidente marxista Victor Serge, que ficou chocado com os frutos do stalinismo na União Soviética. Ela foi popularizada pela intelectual judia secular Hannah Arendt, que escapou do inferno do Terceiro Reich e escreveu Origens do Totalitarismo. É um termo útil, porque ele distingue as formas ''comuns'' de despotismo - aqueles que se limitam a exigir obediência de seus súditos - dos sistemas absolutistas que exigem que os cidadãos se transformem inteiramente em súditos e entreguem suas vidas e suas personalidades ao Estado, ou ao líder supremo.
Se aceitarmos essa última definição, então o primeiro ponto a ser abordado também é fácil. Durante a maior parte da história humana, a ideia o Estado total ou absoluto esteve intimamente ligada à religião. Um barão ou rei podia obrigar você a pagar impostos ou a servir em seu exército, e normalmente podia garantir ter sacerdotes à mão para lembrar você que essa era sua obrigação, mas os despotismos verdadeiramente assustadores foram aqueles que também queriam o conteúdo do seu coração e da sua cabeça. Quer estudemos as monarquias orientais da China, da Índia ou da Pérsia, os impérios asteca ou inca ou as cortes medievais da Espanha, da Rússia e da França, quase invariavelmente descobrimos que esses ditadores também eram deuses, ou líderes das igrejas. Devia-se a eles mais do que a mera obediência: qualquer crítica a eles era por definição profana, e milhões de pessoas viveram e morreram de medo de um governante que podia escolher você para um sacrifício ou condená-lo à punição eterna por um capricho. A menor infração - de um dia santo, um objeto sagrado ou uma regra acerca de sexo, comida ou casta - podia produzir calamidades. O princípio totalitário, que frequentemente é representado como ''sistemático'', também está intimamente relacionado ao capricho. As regras podem mudar ou ser flexibilizadas a qualquer momento, e os governantes têm a vantagem de saber que seus súditos nunca estarão seguros sobre estar obedecendo ou não à lei mais recente. Hoje valorizamos algumas poucas exceções da antiguidade - como a Atenas de Péricles, com todas as suas deformações - exatamente porque havia alguns poucos momentos em que a humanidade não viveu em terror permanente de um faraó, Nabucondonosor ou Dário, cuja menor palavra era lei sagrada.
Isso continuou a ser verdade mesmo quando o direito divino dos déspotas começou a dar lugar a versões da modernidade. A ideia de um Estado utópico na Terra, moldado a partir de algum ideal celestial, é muito difícil de eliminar, e levou pessoas a cometer crimes terríveis em nome do ideal. Uma das primeiras tentativas de criar uma sociedade edênica ideal como essa, baseada no conceito de igualdade humana, foi o Estado socialista totalitário estabelecido por jesuítas no Paraguai. Ele conseguiu combinar o máximo de igualitarismo com o máximo de falta de liberdade, e só pôde ser sustentado pelo máximo de medo. Isso deveria ser um alerta para aqueles que buscam aperfeiçoar a espécie humana. Mas o objetivo de aperfeiçoar a espécie - que é a própria raíz e fonte do impulso totalitário - é essencialmente religioso.
George Orwell, o descrente ascético cujos romances nos deram um retrato indelével de como realmente é a vida num Estado totalitário, não tinha dúvidas sobre isso. Escreveu ele em ''The Prevention of Literature'', de 1946: ''Do ponto de vista totalitário, a história é algo a ser criado, mais que ser aprendido. Um estado totalitário é na verdade uma teocracia, e sua casta governante, de modo a manter sua posição, tem de ser considerada infalível.'' (Você perceberá que ele escreveu isso em um ano em que, tendo combatido o fascismo por mais de uma década, ele estava voltando suas armas cada vez mais contra os simpatizantes do comunismo.)
Para ter uma disposição totalitária, não é preciso vestir um uniforme nem carregar um porrete ou um chicote. Só é preciso desejar sua própria sujeição e se dedicar com a sujeição dos outros. O que é um sistema totalitário senão aquele em que a glorificação abjeta do líder perfeito é acompanhada da renúncia a toda a privacidade e individualidade, especialmente em questões de sexualidade, e da denúncia e punição - ''para seu próprio bem'' - daqueles que transgridem? O elemento sexual provavelmente é decisivo, no sentido de que a mente mais embotada pode perceber o que Nathaniel Hawthorne capturou em A Letra Escarlate: a profunda relação entre repressão e perversão.
No começo da história da humanidade, o princípio totalitarista era o que reinava. A religião estatal oferecia uma resposta completa e ''total'' a todas as perguntas, da posição de alguém na hierarquia social às regras concernentes à dieta e ao sexo. Escravo ou não, o ser humano era propriedade, e o clero garantia a implementação do absolutismo. A projeção mais criativa que Orwell fez para a ideia totalitária - a acusação de ''crime imaginado'' (crimideia) - era lugar-comum. Um pensamento impuro, quanto mais um herético, podia fazer com que você fosse esfolado vivo. Ser acusado de possessão demoníaca ou de contato com o Diabo era ser condenado por isso. Orwell se deu conta dessa infernização pela primeira vez ainda jovem, ao ser trancada em uma escola hermética gerida por cristãos sádicos na qual não era possível saber quando você tinha violado as regras. Independentemente do que você fizesse, e por mais que tomasse precauções, os pecados dos quais não tinha consciência sempre podiam ser lançados sobre você.
Era possível deixar aquela escola medonha (traumatizado por toda a vida, como milhares de crianças ficaram), mas não é possível, na visão religiosa totalitária, escapar deste mundo de pecado original, culpa e dor. Uma infinidade de punições espera por você mesmo depois da morte. De acordo com os totalitaristas religiosos realmente radicais, como João Calvino, que tomou sua doutrina medonha de Agostinho, uma infinidade de punições pode estar esperando por você antes mesmo do nascimento. Há muito tempo foi escrito que as almas seriam escolhidas ou ''eleitas'' quando chegasse o momento de separar as ovelhas das cabras. Não é possível nenhum recurso a essa sentença primordial, e não há boas ações ou profissões de fé que possam salvar aqueles que não tiveram a sorte de serem escolhidos. A Genebra de Calvino era um Estado totalitário típico, e o próprio Calvino era um sádico, torturador e assassino, que queimou Servetus ( um dos grandes pensadores e questionadores da época) com o homem ainda vivo. A infelicidade a que foram induzidos os seguidores de Calvino, obrigados a desperdiçar suas vidas se preocupando em se teriam sido ''eleitos'' ou não, foi bem captada no Adam Bede de George Elliot e em uma antiga sátira plebeia inglesa contra as outras seitas, das Testemunhas de Jeová à Irmandade Plymouth, que ousam dizer que são os eleitos e que só eles sabem o número exato dos que serão poupados da fogueira:
Nós somos os poucos puros e escolhidos, todos vocês estão condenados.
Há bastante espaço para vocês no inferno - não queremos o céu lotado.
Eu tive um tio inofensivo mas de espírito fraco cuja vida foi arruinada e tornada infeliz exatamente dessa forma. Calvino pode parecer um personagem distante para nós, mas aqueles que costumavam agarrar e usar o poder em seu nome ainda estão entre nós e usam os nomes mais suaves de presbiterianos e batistas. O apelo a proibir e censurar livros, silenciar dissidentes, condenar estrangeiros, invadir a esfera privada e invocar uma salvação exclusiva é a própria essência do totalitarismo. O fatalismo do islamismo, que acredita que tudo está antecipadamente definido por Alá, tem algumas semelhanças com essa completa negação da autonomia e da liberdade humanas, bem como sua crença arrogante e intolerável de que sua fé inclui tudo o que qualquer um precisa saber.
Assim, quando a grande antologia antitotalitarista do século XX foi publicada em 1950, seus dois editores se deram conta de que ela só podia ter um nome. Eles a chamaram de O deus que falhou. Eu conheci ligeiramente e trabalhei com um desses dois homens - o socialista britânico Richard Crossman. Como ele descreveu em sua introdução do livro:
O texto abaixo, de autoria de Christopher Hitchens, corresponde à primeira metade do capítulo 17 do livro ''god is not Great: how religion poisons everything'', ''Uma objeção antecipada: o 'argumento' desesperado contra o secularismo'', e está relacionado a esse tema. Boa leitura.
''Uma fé que despreza a mente e o indivíduo livre, que prega a submissão e a resignação e que considera a vida algo pobre e transitório está mal equipada para a autocrítica.'' - C. Hitchens
Se eu não posso provar definitivamente que o sentido da religião desapareceu no passado, que seus livros fundamentais são fábulas transparentes, que é uma imposição criada pelo homem, que tem sido inimiga da ciência e da pesquisa e que sobreviveu principalmente de mentiras e medos e foi cúmplice da ignorância e da culpa, bem como da escravidão, do genocídio, do racismo e da tirania, eu quase certamente posso afirmar que a religião hoje está plenamente consciente dessas críticas. Também está plenamente consciente das provas cada vez mais numerosas, referentes às origens do universo e à origem das espécies, que a relegam à marginalidade, quando não à irrelevância. Eu tentei lidar com as objeções na fé à medida que foram surgindo ao longo da discussão (no livro), mas há um último ponto que não pode ser evitado.
Quando já foi dito o pior sobre a Inquisição, os julgamentos das bruxas, as cruzadas, as conquistas imperiais islâmicas e os horrores do Velho Testamento, não é verdade que os regimes seculares e ateus cometeram crimes e massacres que são, na escala das coisas, pelo menos tão ruins, quando não piores? E o corolário não é de que homens livres da reverência religiosa irão agir da forma mais desabrida e abandonada? Em seu Os irmãos Karamazóv, Dostoiévski foi extremamente crítico em relação à religião (e vivia sob o despotismo que era santificado pela Igreja) e também representou seu personagem Smerdiakov como uma figura vã, crédula e idiota, mas a máxima de Smerdiakóv - de que ''Se deus não existe, tudo está permitido'' - compreensivelmente encontra eco naqueles que veem a Revolução Russa do prisma do século XX.
É possível ir além e dizer que o totalitarismo secular de fato nos deu um resumo do mal humano. Os exemplos mais utilizados - os regimes de Hitler e Stálin - nos mostram com terrível clareza o que acontece quando os homens usurpam o papel dos deuses. Quando eu consulto meus amigos seculares e ateus, descubro que essa se tornou a objeção mais comum e frequente que escutam de plateias religiosas. O ponto merece uma réplica detalhada.
Para começar devagar, é interessante descobrir que as pessoas de fé hoje buscam dizer defensivamente que não são piores que fascistas, nazistas ou stalinistas. Seria de esperar que a religião tivesse preservado um pouco mais de dignidade. Não diria que as fileiras do secularismos e ateísmo estão abarrotadas de comunistas ou fascistas, mas pelo bem do debate pode-se considerar certo que, assim como os secularistas e ateus resistiram às tiranias clericais e teocráticas, os crentes religiosos resistiram às pagãs e materialistas. Mas isso seria apenas dividir a diferença.
A palavra 'totalitário' provavelmente foi usada pela primeira vez pelo dissidente marxista Victor Serge, que ficou chocado com os frutos do stalinismo na União Soviética. Ela foi popularizada pela intelectual judia secular Hannah Arendt, que escapou do inferno do Terceiro Reich e escreveu Origens do Totalitarismo. É um termo útil, porque ele distingue as formas ''comuns'' de despotismo - aqueles que se limitam a exigir obediência de seus súditos - dos sistemas absolutistas que exigem que os cidadãos se transformem inteiramente em súditos e entreguem suas vidas e suas personalidades ao Estado, ou ao líder supremo.
Se aceitarmos essa última definição, então o primeiro ponto a ser abordado também é fácil. Durante a maior parte da história humana, a ideia o Estado total ou absoluto esteve intimamente ligada à religião. Um barão ou rei podia obrigar você a pagar impostos ou a servir em seu exército, e normalmente podia garantir ter sacerdotes à mão para lembrar você que essa era sua obrigação, mas os despotismos verdadeiramente assustadores foram aqueles que também queriam o conteúdo do seu coração e da sua cabeça. Quer estudemos as monarquias orientais da China, da Índia ou da Pérsia, os impérios asteca ou inca ou as cortes medievais da Espanha, da Rússia e da França, quase invariavelmente descobrimos que esses ditadores também eram deuses, ou líderes das igrejas. Devia-se a eles mais do que a mera obediência: qualquer crítica a eles era por definição profana, e milhões de pessoas viveram e morreram de medo de um governante que podia escolher você para um sacrifício ou condená-lo à punição eterna por um capricho. A menor infração - de um dia santo, um objeto sagrado ou uma regra acerca de sexo, comida ou casta - podia produzir calamidades. O princípio totalitário, que frequentemente é representado como ''sistemático'', também está intimamente relacionado ao capricho. As regras podem mudar ou ser flexibilizadas a qualquer momento, e os governantes têm a vantagem de saber que seus súditos nunca estarão seguros sobre estar obedecendo ou não à lei mais recente. Hoje valorizamos algumas poucas exceções da antiguidade - como a Atenas de Péricles, com todas as suas deformações - exatamente porque havia alguns poucos momentos em que a humanidade não viveu em terror permanente de um faraó, Nabucondonosor ou Dário, cuja menor palavra era lei sagrada.
Isso continuou a ser verdade mesmo quando o direito divino dos déspotas começou a dar lugar a versões da modernidade. A ideia de um Estado utópico na Terra, moldado a partir de algum ideal celestial, é muito difícil de eliminar, e levou pessoas a cometer crimes terríveis em nome do ideal. Uma das primeiras tentativas de criar uma sociedade edênica ideal como essa, baseada no conceito de igualdade humana, foi o Estado socialista totalitário estabelecido por jesuítas no Paraguai. Ele conseguiu combinar o máximo de igualitarismo com o máximo de falta de liberdade, e só pôde ser sustentado pelo máximo de medo. Isso deveria ser um alerta para aqueles que buscam aperfeiçoar a espécie humana. Mas o objetivo de aperfeiçoar a espécie - que é a própria raíz e fonte do impulso totalitário - é essencialmente religioso.
George Orwell, o descrente ascético cujos romances nos deram um retrato indelével de como realmente é a vida num Estado totalitário, não tinha dúvidas sobre isso. Escreveu ele em ''The Prevention of Literature'', de 1946: ''Do ponto de vista totalitário, a história é algo a ser criado, mais que ser aprendido. Um estado totalitário é na verdade uma teocracia, e sua casta governante, de modo a manter sua posição, tem de ser considerada infalível.'' (Você perceberá que ele escreveu isso em um ano em que, tendo combatido o fascismo por mais de uma década, ele estava voltando suas armas cada vez mais contra os simpatizantes do comunismo.)
Para ter uma disposição totalitária, não é preciso vestir um uniforme nem carregar um porrete ou um chicote. Só é preciso desejar sua própria sujeição e se dedicar com a sujeição dos outros. O que é um sistema totalitário senão aquele em que a glorificação abjeta do líder perfeito é acompanhada da renúncia a toda a privacidade e individualidade, especialmente em questões de sexualidade, e da denúncia e punição - ''para seu próprio bem'' - daqueles que transgridem? O elemento sexual provavelmente é decisivo, no sentido de que a mente mais embotada pode perceber o que Nathaniel Hawthorne capturou em A Letra Escarlate: a profunda relação entre repressão e perversão.
No começo da história da humanidade, o princípio totalitarista era o que reinava. A religião estatal oferecia uma resposta completa e ''total'' a todas as perguntas, da posição de alguém na hierarquia social às regras concernentes à dieta e ao sexo. Escravo ou não, o ser humano era propriedade, e o clero garantia a implementação do absolutismo. A projeção mais criativa que Orwell fez para a ideia totalitária - a acusação de ''crime imaginado'' (crimideia) - era lugar-comum. Um pensamento impuro, quanto mais um herético, podia fazer com que você fosse esfolado vivo. Ser acusado de possessão demoníaca ou de contato com o Diabo era ser condenado por isso. Orwell se deu conta dessa infernização pela primeira vez ainda jovem, ao ser trancada em uma escola hermética gerida por cristãos sádicos na qual não era possível saber quando você tinha violado as regras. Independentemente do que você fizesse, e por mais que tomasse precauções, os pecados dos quais não tinha consciência sempre podiam ser lançados sobre você.
Era possível deixar aquela escola medonha (traumatizado por toda a vida, como milhares de crianças ficaram), mas não é possível, na visão religiosa totalitária, escapar deste mundo de pecado original, culpa e dor. Uma infinidade de punições espera por você mesmo depois da morte. De acordo com os totalitaristas religiosos realmente radicais, como João Calvino, que tomou sua doutrina medonha de Agostinho, uma infinidade de punições pode estar esperando por você antes mesmo do nascimento. Há muito tempo foi escrito que as almas seriam escolhidas ou ''eleitas'' quando chegasse o momento de separar as ovelhas das cabras. Não é possível nenhum recurso a essa sentença primordial, e não há boas ações ou profissões de fé que possam salvar aqueles que não tiveram a sorte de serem escolhidos. A Genebra de Calvino era um Estado totalitário típico, e o próprio Calvino era um sádico, torturador e assassino, que queimou Servetus ( um dos grandes pensadores e questionadores da época) com o homem ainda vivo. A infelicidade a que foram induzidos os seguidores de Calvino, obrigados a desperdiçar suas vidas se preocupando em se teriam sido ''eleitos'' ou não, foi bem captada no Adam Bede de George Elliot e em uma antiga sátira plebeia inglesa contra as outras seitas, das Testemunhas de Jeová à Irmandade Plymouth, que ousam dizer que são os eleitos e que só eles sabem o número exato dos que serão poupados da fogueira:
Nós somos os poucos puros e escolhidos, todos vocês estão condenados.
Há bastante espaço para vocês no inferno - não queremos o céu lotado.
Eu tive um tio inofensivo mas de espírito fraco cuja vida foi arruinada e tornada infeliz exatamente dessa forma. Calvino pode parecer um personagem distante para nós, mas aqueles que costumavam agarrar e usar o poder em seu nome ainda estão entre nós e usam os nomes mais suaves de presbiterianos e batistas. O apelo a proibir e censurar livros, silenciar dissidentes, condenar estrangeiros, invadir a esfera privada e invocar uma salvação exclusiva é a própria essência do totalitarismo. O fatalismo do islamismo, que acredita que tudo está antecipadamente definido por Alá, tem algumas semelhanças com essa completa negação da autonomia e da liberdade humanas, bem como sua crença arrogante e intolerável de que sua fé inclui tudo o que qualquer um precisa saber.
Assim, quando a grande antologia antitotalitarista do século XX foi publicada em 1950, seus dois editores se deram conta de que ela só podia ter um nome. Eles a chamaram de O deus que falhou. Eu conheci ligeiramente e trabalhei com um desses dois homens - o socialista britânico Richard Crossman. Como ele descreveu em sua introdução do livro:
Para o intelectual o conforto material é relativamente desimportante; ele se
preocupa principalmente com a liberdade espiritual. A força da Igreja Ca-
tólica sempre foi o fato de que ela exige o completo sacrifício dessa liberda-
de, e condena o orgulho espiritual como um pecado mortal. O noviço comu-
nista, sujeitando sua alma à lei canônica do Kremlin, sente um pouco do alí-
vio que o catolicismo também dá ao intelectual, extenuado e preocupado com
a liberdade.
O único livro que tinha alertado antecipadamente para tudo isso, trinta anos antes, foi uma obra pequena mas brilhante publicada em 1919 e intitulada Prática e teoria do bolchevismo. Muito antes de Arthur Koestler e Richard Crossman terem começado a pesquisar os destroços retrospectivamente, todo o desastre estava sendo previsto em termos que ainda despertam admiração por sua presciência. O analista cáustico dessa nova religião era Bertrand Russel, cujo ateísmo o tornou ainda mais previdente do que muitos ''socialistas cristãos'' ingênuos que alegaram identificar na Rússia o início de um novo paraíso na Terra. Ele também era mais previdente do que o establishment cristão anglicano de sua Inglaterra natal, cujo principal jornal, o Times de Londres, assumiu o ponto de vista de que a Revolução Russa podia ser explicada pelo Protocolo dos Sábios de Sião. Essa falsificação revoltante feita por agentes secretos ortodoxos russos foi publicada por Eyre and Spottiswood, impressora oficial da Igreja da Inglaterra.
Dado seu próprio histórico de sucumbir a ditaduras na Terra e ao controle absoluto da próxima vida e ainda sim promulgá-los, como a religião enfrentou os totalitarismos ''seculares'' de nossa época? É preciso inicialmente considerar, por ordem, fascismo, nazismo e stalinismo.
O fascismo - precursor do modelo do nacional-socialismo - foi um movimento que acreditava em uma sociedade orgânica e corporativa, presidida por um líder ou guia. (As ''fasces'' - símbolo dos lictores, ou guardas da roma antiga - eram feixes de varas amarrados a uma machadinha, sinal de unidade e autoridade.) Surgindo da miséria e da humilhação da 1ª Guerra Mundial, os movimentos fascistas defendiam os valores tradicionais contra o bolchevismo e pregavam o nacionalismo e a piedade. Provavelmente não é coincidência que a Igreja Católica em geral fosse simpática ao fascismo como ideia.
Não apenas a Igreja via o comunismo como inimigo mortal, mas também via seu inimigo judeu mais antigo nas altas fileiras do partido de Lênin. Benito Mussolini mal tinha tomado o poder na Itália e o Vaticano já estava fazendo com ele um tratado oficial, conhecido como Tratado de Latrão de 1929. Pelos termos do acordo, o catolicismo se tornou a única religião reconhecida na Itália, com monopólio em questão de nascimento, casamento, morte e educação, e em troca conclamava seus seguidores a votar no partido de Mussolini. O papa Pio XI descreveu Il Duce (''o líder'') como ''um homem enviado pela Providência''. Eleições não seria uma característica da vida italiana por muito tempo, mas a igreja ainda sim levou à dissolução dos partidos leigos de centro e ajudou a financiar um pseudopartido chamado ''Ação Católica'', que foi copiado em muitos países. Por todo o sul da Europa, a Igreja foi uma aliada confiável na instalação de regimes fascistas na Espanha, em Portugal e na Croácia. Na Espanha, o general Franco foi autorizado a chamar a sua invasão do país e destruição da república eleita pelo título terrível de La Crujada, ou ''A Cruzada''. O Vaticano apoiou ou se recusou a criticar as tentativas operísticas de Mussolini de recriar um pastiche do Império Romano com suas invasões da Líbia, da Abissínia (hoje Etiópia) e da Albânia: territórios que eram habitados principalmente por não-cristãos ou pelo tipo errado de cristãos orientais. Mussolini chegou mesmo a dar como uma de suas justificativas para a utilização de gás venenoso e outros métodos horripilantes na Abissínia a insistência de seus habitantes na heresia do monofisismo, um dogma incorreto da Encarnação que tinha sido condenado pelo papa Leão e pelo Concílio de Calcedônia de 451.
Na Europa central e oriental o quadro não era melhor. O golpe militar de extrema direita na Hungria, liderado pelo almirante Horthy, foi calorosamente endossado pela Igreja, assim como movimentos fascistas semelhantes na Áustria e na Eslováquia. (O regime-fantoche nazista da Eslováquia na verdade era comandado por um homem de votos sacerdotais chamado padre Tiso.) O cardeal da Áustria proclamou seu entusiasmo com a tomada de seu país por Hitler quando do Anschluss.
Na França, a extrema-direta adotou o lema de ''Meilleur Hitler que Blum'' - em outras palavras, melhor ter um ditador racista alemão que um socialista francês judeu eleito. Organizações fascistas católicas como a Action Française, de Charles Murras, e a Croix de Feu fizeram violentas campanhas contra a democracia e não tentaram de modo algum esconder seu ressentimento pelo modo como a França estava decaindo desde o veredicto de Inocência para o capitão judeu Alfred Dreyfuss em 1899. Quando houve a conquista da França pela Alemanha, essas forças colaboraram ativamente com a prisão e o assassinato de judeus franceses, assim como a deportação para trabalhos forçados de um enorme número de outros franceses. O regime de Vichy se curvou ao clericalismo eliminando o lema de 1989 - ''Liberté, Egualité, Fraternité'' - da moeda nacional e substituindo pelo lema cristão ideal de ''Familie, Travail, Patrie''. Mesmo em um país como a Inglaterra, onde as simpatias fascistas eram menores, eles ainda conseguiram uma plateia em círculos respeitáveis com a atuação de intelectuais católicos como T. S. Elliot e Evelyn Waugh.
Na vizinha Irlanda, o movimento Blue Shirt do general O'Duffy (que enviou voluntários para lutar por Franco na Espanha) era pouco mais do que um ramo da Igreja Católica. Mesmo em abril de 1945, ao receber a notícia da morte de Hitler, o presidente Eamon de Valera colocou sua cartola, chamou a carruagem oficial e foi à embaixada alemã de Dublin para apresentar suas condolências. Atitudes como essas significaram que vários Estados dominados por católicos, da Irlanda à Espanha e à Portugal, eram inelegíveis para ingresso nas Nações Unidas quando elas foram criadas. A Igreja se esforçou para se desculpar por isso tudo, mas sua cumplicidade com o fascismo é uma marca indelével de sua história, e não foi um compromisso de curto prazo ou precipitado, mas uma aliança de trabalho que não foi rompida até depois de o próprio período fascista ter passado para a história.
O caso da rendição da Igreja ao nacional-socialismo alemão é consideravelmente mais complicado, mas não muito mais elevado. Apesar de partilhar dois importantes princípios com o movimento de Hitler - o antissemitismo e o anticomunismo -, o Vaticano podia ver que o nazismo representava também um desafio a ele próprio. Para começar, era um fenômeno quase pagão que a longo prazo buscava substituir o cristianismo por ritos de sangue e sinistros mitos raciais pseudonórdicos, baseados na fantasia da superioridade ariana. Em segundo lugar, defendia uma política de extermínio para os doentes, os desajustados e os insanos, e rapidamente começou a aplicar essa política não a judeus, mas a alemães. Em benefício da Igreja deve ser dito que seus púlpitos alemães denunciaram essa hedionda seleção eugênica logo de início.
Mas se os princípios étnicos fossem a regra, o Vaticano não teria de passar os 50 anos seguintes tentando se desculpar por sua desprezível passividade e inação. ''Passividade'' e ''inação'' na verdade podem ser uma escolha de palavras errada. Decidir não fazer nada é em si uma política e uma decisão, e é lamentavelmente mais fácil registrar e explicar o alinhamento da Igreja em termos de uma realpolitik que buscava não uma derrota do nazismo, mas um ajuste a ele.
O primeiro acordo diplomático fechado pelo governo de Hitler foi consumado em 8 de Julho de 1933, poucos meses após a tomada do poder, e teve a forma de um tratado com o Vaticano. Em troca de controle inquestionável da educação de crianças católicas na Alemanha, o fim da propaganda nazista dos abusos infligidos em escolas e orfanatos católicos e a concessão de outros privilégios, a Santa Sé instruiu o Partido Centro Católico a se dissolver, e bruscamente determinou que os católicos se abstivessem de qualquer atividade política em qualquer tema que o regime resolvesse definir como fora dos limites. Na primeira reunião de gabinete depois dessa capitulação ter sido assinada, Hitler anunciou que as novas circunstâncias seriam ''especialmente significativas na luta contra o judaísmo internacional''. Ele não estava equivocado em relação a isso. De fato, ele podia ser desculpado por não acreditar em sua própria sorte. Os 22 milhões de católicos que vivam no Terceiro Reich, muitos dos quais tinham demonstrado grande coragem resistindo à ascensão do nazismo, tinam sido estripados e castrados como força política. Seu próprio Santo Padre tinha de fato dito a eles para entregar tudo ao pior César da história humana. A partir de então, os registros das paróquias foram colocados à disposição do Estado nazista de modo a estabelecer quem era e quem não era suficientemente ''racialmente puro'' para sobreviver à interminável perseguição sob as leis de Nuremberg.
A consequência não menos chocante dessa rendição moral foi o paralelo colapso moral dos protestantes alemães, que buscavam conseguir um status especial para os católicos publicando seu próprio acordo com o Fuhrer. Porém, nenhuma das igrejas protestantes foi tão longe quanto a hierarquia católica ordenando uma celebração anual no aniversário de Hitler, em 20 de abril. Nessa data auspiciosa, por instrução do papa, o cardeal de Berlim regularmente transmitia ''calorosas congratulações ao Fuhrer em nome dos bispos e das dioceses da Alemanha'', sendo essas louvações acompanhadas de ''orações fervorosas que os católicos da Alemanha estão enviando aos céus a partir de seus altares''. A ordem era obedecida, e fielmente executada.
Para ser justo, essa tradição abjeta só foi iniciada em 1939, ano em que houve uma mudança no papado. E, sendo justo mais uma vez, o papa Pio XI sempre tinha acalentado as mais profundas apreensões quanto ao sistema de Hitler e a sua evidente capacidade de mal radical. (Durante a primeira visita de Hitler a Roma, por exemplo, o Santo Padre deixou a cidade de forma bem clara para o retiro papal de Castelgandolfo.) Contudo, essa papa frágil e doente foi constantemente manobrado, ao longo da década de 1930, por seu secretário de Estado, Eugenio Pacelli. Temos bons motivos para acreditar que pelo menos uma encíclica papal, expressando pelo menos uma mínima preocupação com o tratamento dispensado aos judeus da Europa, fora preparada por Sua Santidade mas eliminada por Pacelli, que tinha em mente outra estratégia. Nós hoje conhecemos Pacelli como o papa Pio XII, que ocupou o posto depois da morte de seu antigo superior em 1939. Quatro dias depois de sua eleição pelo colégio de cardeais, Sua Santidade produziu a seguinte carta para Berlim:
Ao ilustre Herr Adolf Hitler, Fuhrer e chanceler do Reich alemão! Aqui, no início
de Nosso Pontificado, queremos assegurar que Nós permanecemos dedicados ao
bem-estar espiritual do povo alemão confiado à sua liderança. (...) Durante os mui-
tos anos que passamos na Alemanha, fizemos tudo ao nosso alcance para estabelecer
relações harmoniosas entre a Igreja e o Estado. Agora que as responsabilidades de
nossa função pastoral aumentaram as nossas oportunidades, de forma ainda mais
ardente rezamos para atingir nossa meta. Que a prosperidade do povo alemão e seu
progresso em todas as áreas se realizem, com a ajuda de Deus, para a fruição!
Seis anos depois dessa mensagem maldosa e vaidosa, um dia o próspero e civilizado povo alemão podia olhar ao redor e dificilmente ver um tijolo sobre o outro, enquanto o Exército Vermelho sem deus marchava rumo a Berlim. Mas eu menciono essa conjuntura por outra razão. Espera-se que os crentes sustentem que o papa é o Vigário de Cristo na Terra e guardião das chaves de São Pedro. Eles, claro, são livres para acreditar nisso, e para acreditar que Deus decide quando encerrar o mandato de um papa ou (mais importante ainda) iniciar o mandato de outro. Isso implicaria acreditar na morte de um papa antinazista e na ascensão de um papa pró-nazista como desejo divino, poucos meses antes da invasão da Polônia por Hitler e o início da Segunda Guerra Mundial. Estudando aquela guerra, talvez seja possível acreditar que 25 por cento dos SS eram católicos praticantes e que nenhum católico foi sequer ameaçado de excomunhão por participação em crimes de guerra. (Joseph Goebbels foi excomungado, mas isso se deu antes e, afinal, ele tinha sido responsável por isso pelo crime de ter se casado com uma protestante.) Seres humanos e instituições são imperfeitos, certamente, mas não poderia haver prova mais clara e vívida de que as instituições sagradas são feitas pelo homem.
O conluio continuou mesmo depois da guerra, com criminosos nazistas procurados levados para a América do Sul pela ''linha do rato''. Foi o próprio Vaticano, com sua capacidade de providenciar passaportes, documentos, dinheiro e contatos, que organizou a rede de fuga e também a necessária proteção e ajuda no outro extremo. Por mais que isso fosse ruim em si, também envolvia cooperação com outras ditaduras de extrema direita no hemisfério sul, muitas delas organizados segundo o modelo fascista. Torturadores e assassinos fugitivos como Klaus Barbie frequentemente se viam em uma segunda carreira como empregados desses regimes, que até começarem a desmoronar nas últimas décadas do século XX também desfrutaram de firme apoio do clero católico local. A ligação da Igreja com o fascismo e o nazismo de fato resistiu ao próprio Terceiro Reich.
Muitos cristãos deram suas vidas para proteger seus próximos naquela meia noite do século, mas a chance de que eles o tenham feito por ordem de qualquer sacerdote é estatisticamente nula, Por isso referenciamos a memória daqueles poucos crentes, como Dietrich Boenhoffer e Martin Niemoller, que agiram de acordo apenas com o que determinavam suas consciências. O papado demorou até os anos 1980 para encontrar um candidato à santidade no contexto da ''solução final'', e mesmo então só conseguiu encontrar um padre muito dúbio que - após um longo histórico de antissemitismo político na Polônia - aparentemente tinha se comportado de forma nobre em Auschwitz. Um candidato anterior - um simples austríaco chamado Franz Jagerstatter - infelizmente foi desclassificado. Ele de fato tinha se recusado a ingressar no exército de Hitler alegando obedecer à lei. A esquerda secular da Europa se saiu bem melhor em sua luta contra o nazismo.
Dado seu próprio histórico de sucumbir a ditaduras na Terra e ao controle absoluto da próxima vida e ainda sim promulgá-los, como a religião enfrentou os totalitarismos ''seculares'' de nossa época? É preciso inicialmente considerar, por ordem, fascismo, nazismo e stalinismo.
O fascismo - precursor do modelo do nacional-socialismo - foi um movimento que acreditava em uma sociedade orgânica e corporativa, presidida por um líder ou guia. (As ''fasces'' - símbolo dos lictores, ou guardas da roma antiga - eram feixes de varas amarrados a uma machadinha, sinal de unidade e autoridade.) Surgindo da miséria e da humilhação da 1ª Guerra Mundial, os movimentos fascistas defendiam os valores tradicionais contra o bolchevismo e pregavam o nacionalismo e a piedade. Provavelmente não é coincidência que a Igreja Católica em geral fosse simpática ao fascismo como ideia.
Não apenas a Igreja via o comunismo como inimigo mortal, mas também via seu inimigo judeu mais antigo nas altas fileiras do partido de Lênin. Benito Mussolini mal tinha tomado o poder na Itália e o Vaticano já estava fazendo com ele um tratado oficial, conhecido como Tratado de Latrão de 1929. Pelos termos do acordo, o catolicismo se tornou a única religião reconhecida na Itália, com monopólio em questão de nascimento, casamento, morte e educação, e em troca conclamava seus seguidores a votar no partido de Mussolini. O papa Pio XI descreveu Il Duce (''o líder'') como ''um homem enviado pela Providência''. Eleições não seria uma característica da vida italiana por muito tempo, mas a igreja ainda sim levou à dissolução dos partidos leigos de centro e ajudou a financiar um pseudopartido chamado ''Ação Católica'', que foi copiado em muitos países. Por todo o sul da Europa, a Igreja foi uma aliada confiável na instalação de regimes fascistas na Espanha, em Portugal e na Croácia. Na Espanha, o general Franco foi autorizado a chamar a sua invasão do país e destruição da república eleita pelo título terrível de La Crujada, ou ''A Cruzada''. O Vaticano apoiou ou se recusou a criticar as tentativas operísticas de Mussolini de recriar um pastiche do Império Romano com suas invasões da Líbia, da Abissínia (hoje Etiópia) e da Albânia: territórios que eram habitados principalmente por não-cristãos ou pelo tipo errado de cristãos orientais. Mussolini chegou mesmo a dar como uma de suas justificativas para a utilização de gás venenoso e outros métodos horripilantes na Abissínia a insistência de seus habitantes na heresia do monofisismo, um dogma incorreto da Encarnação que tinha sido condenado pelo papa Leão e pelo Concílio de Calcedônia de 451.
Na Europa central e oriental o quadro não era melhor. O golpe militar de extrema direita na Hungria, liderado pelo almirante Horthy, foi calorosamente endossado pela Igreja, assim como movimentos fascistas semelhantes na Áustria e na Eslováquia. (O regime-fantoche nazista da Eslováquia na verdade era comandado por um homem de votos sacerdotais chamado padre Tiso.) O cardeal da Áustria proclamou seu entusiasmo com a tomada de seu país por Hitler quando do Anschluss.
Na França, a extrema-direta adotou o lema de ''Meilleur Hitler que Blum'' - em outras palavras, melhor ter um ditador racista alemão que um socialista francês judeu eleito. Organizações fascistas católicas como a Action Française, de Charles Murras, e a Croix de Feu fizeram violentas campanhas contra a democracia e não tentaram de modo algum esconder seu ressentimento pelo modo como a França estava decaindo desde o veredicto de Inocência para o capitão judeu Alfred Dreyfuss em 1899. Quando houve a conquista da França pela Alemanha, essas forças colaboraram ativamente com a prisão e o assassinato de judeus franceses, assim como a deportação para trabalhos forçados de um enorme número de outros franceses. O regime de Vichy se curvou ao clericalismo eliminando o lema de 1989 - ''Liberté, Egualité, Fraternité'' - da moeda nacional e substituindo pelo lema cristão ideal de ''Familie, Travail, Patrie''. Mesmo em um país como a Inglaterra, onde as simpatias fascistas eram menores, eles ainda conseguiram uma plateia em círculos respeitáveis com a atuação de intelectuais católicos como T. S. Elliot e Evelyn Waugh.
Na vizinha Irlanda, o movimento Blue Shirt do general O'Duffy (que enviou voluntários para lutar por Franco na Espanha) era pouco mais do que um ramo da Igreja Católica. Mesmo em abril de 1945, ao receber a notícia da morte de Hitler, o presidente Eamon de Valera colocou sua cartola, chamou a carruagem oficial e foi à embaixada alemã de Dublin para apresentar suas condolências. Atitudes como essas significaram que vários Estados dominados por católicos, da Irlanda à Espanha e à Portugal, eram inelegíveis para ingresso nas Nações Unidas quando elas foram criadas. A Igreja se esforçou para se desculpar por isso tudo, mas sua cumplicidade com o fascismo é uma marca indelével de sua história, e não foi um compromisso de curto prazo ou precipitado, mas uma aliança de trabalho que não foi rompida até depois de o próprio período fascista ter passado para a história.
O caso da rendição da Igreja ao nacional-socialismo alemão é consideravelmente mais complicado, mas não muito mais elevado. Apesar de partilhar dois importantes princípios com o movimento de Hitler - o antissemitismo e o anticomunismo -, o Vaticano podia ver que o nazismo representava também um desafio a ele próprio. Para começar, era um fenômeno quase pagão que a longo prazo buscava substituir o cristianismo por ritos de sangue e sinistros mitos raciais pseudonórdicos, baseados na fantasia da superioridade ariana. Em segundo lugar, defendia uma política de extermínio para os doentes, os desajustados e os insanos, e rapidamente começou a aplicar essa política não a judeus, mas a alemães. Em benefício da Igreja deve ser dito que seus púlpitos alemães denunciaram essa hedionda seleção eugênica logo de início.
Mas se os princípios étnicos fossem a regra, o Vaticano não teria de passar os 50 anos seguintes tentando se desculpar por sua desprezível passividade e inação. ''Passividade'' e ''inação'' na verdade podem ser uma escolha de palavras errada. Decidir não fazer nada é em si uma política e uma decisão, e é lamentavelmente mais fácil registrar e explicar o alinhamento da Igreja em termos de uma realpolitik que buscava não uma derrota do nazismo, mas um ajuste a ele.
O primeiro acordo diplomático fechado pelo governo de Hitler foi consumado em 8 de Julho de 1933, poucos meses após a tomada do poder, e teve a forma de um tratado com o Vaticano. Em troca de controle inquestionável da educação de crianças católicas na Alemanha, o fim da propaganda nazista dos abusos infligidos em escolas e orfanatos católicos e a concessão de outros privilégios, a Santa Sé instruiu o Partido Centro Católico a se dissolver, e bruscamente determinou que os católicos se abstivessem de qualquer atividade política em qualquer tema que o regime resolvesse definir como fora dos limites. Na primeira reunião de gabinete depois dessa capitulação ter sido assinada, Hitler anunciou que as novas circunstâncias seriam ''especialmente significativas na luta contra o judaísmo internacional''. Ele não estava equivocado em relação a isso. De fato, ele podia ser desculpado por não acreditar em sua própria sorte. Os 22 milhões de católicos que vivam no Terceiro Reich, muitos dos quais tinham demonstrado grande coragem resistindo à ascensão do nazismo, tinam sido estripados e castrados como força política. Seu próprio Santo Padre tinha de fato dito a eles para entregar tudo ao pior César da história humana. A partir de então, os registros das paróquias foram colocados à disposição do Estado nazista de modo a estabelecer quem era e quem não era suficientemente ''racialmente puro'' para sobreviver à interminável perseguição sob as leis de Nuremberg.
A consequência não menos chocante dessa rendição moral foi o paralelo colapso moral dos protestantes alemães, que buscavam conseguir um status especial para os católicos publicando seu próprio acordo com o Fuhrer. Porém, nenhuma das igrejas protestantes foi tão longe quanto a hierarquia católica ordenando uma celebração anual no aniversário de Hitler, em 20 de abril. Nessa data auspiciosa, por instrução do papa, o cardeal de Berlim regularmente transmitia ''calorosas congratulações ao Fuhrer em nome dos bispos e das dioceses da Alemanha'', sendo essas louvações acompanhadas de ''orações fervorosas que os católicos da Alemanha estão enviando aos céus a partir de seus altares''. A ordem era obedecida, e fielmente executada.
Para ser justo, essa tradição abjeta só foi iniciada em 1939, ano em que houve uma mudança no papado. E, sendo justo mais uma vez, o papa Pio XI sempre tinha acalentado as mais profundas apreensões quanto ao sistema de Hitler e a sua evidente capacidade de mal radical. (Durante a primeira visita de Hitler a Roma, por exemplo, o Santo Padre deixou a cidade de forma bem clara para o retiro papal de Castelgandolfo.) Contudo, essa papa frágil e doente foi constantemente manobrado, ao longo da década de 1930, por seu secretário de Estado, Eugenio Pacelli. Temos bons motivos para acreditar que pelo menos uma encíclica papal, expressando pelo menos uma mínima preocupação com o tratamento dispensado aos judeus da Europa, fora preparada por Sua Santidade mas eliminada por Pacelli, que tinha em mente outra estratégia. Nós hoje conhecemos Pacelli como o papa Pio XII, que ocupou o posto depois da morte de seu antigo superior em 1939. Quatro dias depois de sua eleição pelo colégio de cardeais, Sua Santidade produziu a seguinte carta para Berlim:
Ao ilustre Herr Adolf Hitler, Fuhrer e chanceler do Reich alemão! Aqui, no início
de Nosso Pontificado, queremos assegurar que Nós permanecemos dedicados ao
bem-estar espiritual do povo alemão confiado à sua liderança. (...) Durante os mui-
tos anos que passamos na Alemanha, fizemos tudo ao nosso alcance para estabelecer
relações harmoniosas entre a Igreja e o Estado. Agora que as responsabilidades de
nossa função pastoral aumentaram as nossas oportunidades, de forma ainda mais
ardente rezamos para atingir nossa meta. Que a prosperidade do povo alemão e seu
progresso em todas as áreas se realizem, com a ajuda de Deus, para a fruição!
O conluio continuou mesmo depois da guerra, com criminosos nazistas procurados levados para a América do Sul pela ''linha do rato''. Foi o próprio Vaticano, com sua capacidade de providenciar passaportes, documentos, dinheiro e contatos, que organizou a rede de fuga e também a necessária proteção e ajuda no outro extremo. Por mais que isso fosse ruim em si, também envolvia cooperação com outras ditaduras de extrema direita no hemisfério sul, muitas delas organizados segundo o modelo fascista. Torturadores e assassinos fugitivos como Klaus Barbie frequentemente se viam em uma segunda carreira como empregados desses regimes, que até começarem a desmoronar nas últimas décadas do século XX também desfrutaram de firme apoio do clero católico local. A ligação da Igreja com o fascismo e o nazismo de fato resistiu ao próprio Terceiro Reich.
Muitos cristãos deram suas vidas para proteger seus próximos naquela meia noite do século, mas a chance de que eles o tenham feito por ordem de qualquer sacerdote é estatisticamente nula, Por isso referenciamos a memória daqueles poucos crentes, como Dietrich Boenhoffer e Martin Niemoller, que agiram de acordo apenas com o que determinavam suas consciências. O papado demorou até os anos 1980 para encontrar um candidato à santidade no contexto da ''solução final'', e mesmo então só conseguiu encontrar um padre muito dúbio que - após um longo histórico de antissemitismo político na Polônia - aparentemente tinha se comportado de forma nobre em Auschwitz. Um candidato anterior - um simples austríaco chamado Franz Jagerstatter - infelizmente foi desclassificado. Ele de fato tinha se recusado a ingressar no exército de Hitler alegando obedecer à lei. A esquerda secular da Europa se saiu bem melhor em sua luta contra o nazismo.
terça-feira, 16 de julho de 2013
As justificativas dos homofóbicos contra a aprovação do casamento gay
No Brasil, muito se tem discutido a legalidade da união homo-afetiva. De um lado, pessoas defendendo seus direitos e outras que as apoiam; de outro, pessoas defendendo suas opiniões e suas crenças.
Uma das justificativas mais citadas por aqueles que se opõem à aprovação do casamento gay é a suposta incapacidade de dois homossexuais de constituírem uma família. Segundo alguns deles (os que se opõem), jamais houve um modelo de família baseado na união de dois indivíduos do mesmo sexo. Primeiro, e como Karl Popper poderia dizer, como é possível afirmar categoricamente que jamais houve tal modelo, na enorme história da humanidade? Seria preciso conhecer todas as sociedades que já existiram, e isso é, senão impossível, no mínimo improvável. E já na Grécia antiga, pessoas como o filósofo Zenão de Cítio, fundador do estoicismo, acreditavam que nós deveríamos procurar nossos parceiros e conjugues antes por características como empatia e afetividade do que por condição financeira ou gênero (sexo) do indivíduo. Estudiosos sugerem que a união homo-afetiva é tão (ou mais) estável que a união heteroafetiva. Pesquisas [1] sugerem também que as crianças criadas por casais gays são tão felizes quanto as criadas por casais de pessoas de sexos opostos. Segundo os pesquisadores, ''As preocupações sobre os efeitos potencialmente negativos para as crianças de serem criados com pais gays parecem ser, pelo nosso estudo, improcedentes''. Há rumores de que os casais gays são inclusive mais exigentes com o desempenho escolar de seus filhos que os casais ''comuns''. Uma união estável, com crianças felizes e bem educadas. Isso não é uma família?
A oposição evoca também sua crença de que a homossexualidade seria uma opção, um comportamento, que não seria ''de nascença''. A hipótese de que alguém escolheria ser gay em uma sociedade como a nossa é ridícula, e isso é auto-evidente. Entretanto, assim como a hipótese de que homossexualidade é comportamento, a da opção ainda perdura na mente das pessoas. Oras, poderiam adeptos de uma simples escolha ou comportamento terem, graças à tais, cérebros fisicamente mais parecidos com os do sexo oposto? [2] Poderiam eles apresentar diferenças cruciais no funcionamento do cérebro para com suas contrapartes heterossexuais? [3] Poderiam os gays masculinos, se homossexualidade fosse escolha ou comportamento, ser mais sensíveis à androsterona (um elemento do odor masculino) do que homens heterossexuais? [4] Sobre a frase ''homossexualidade não é de nascença'', é difícil entender o que ela quer dizer. Os canhotos, por exemplo, não nascem canhotos, mas o ''canhotismo'' tem fatores genéticos.
A legalização da união homoafetiva é, sim, uma questão de direitos iguais, e por mais que pessoas como Feliciano e Malafaia gritem e esperneiem, não conseguirão evitar o progresso. As justificativas para seus preconceitos, de bases tão frágeis, desabam por conta própria.
[1] https://www.childwelfare.gov/pubs/f_gay/f_gay.pdf, http://cms.bsu.edu/-/media/WWW/DepartmentalContent/CounselingCenter/PDFs/SAFEZONE%20Resources/Children%20of%20gays%20and%20Lesbians.pdf, http://www.cambridge-news.co.uk/Health/Family/Children-as-happy-with-gay-parents-research-06032013.htm
[2] http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL602802-5603,00-HOMEM+GAY+TEM+CEREBRO+FEMININO+COMPROVA+ESTUDO.html,
http://veja.abril.com.br/250608/p_168.shtml
[3] http://www.pnas.org/content/105/27/9403.abstract, Bocklandt, Sven, and Eric Vilain. "Sex Differences in Brain and Behavior: Hormones Versus Genes." Advances in Genetics 59 (2007): 245--266. doi:10.1016/S0065-2660(07)59009-7.
[4] Lübke, Katrin, Sylvia Schablitzky, and Bettina M. Pause. "Male Sexual Orientation Affects Sensitivity to Androstenone." Chemosensory Perception 2, no. 3 (September 1, 2009): 154--160. doi:10.1007/s12078-009-9047-3.
Uma das justificativas mais citadas por aqueles que se opõem à aprovação do casamento gay é a suposta incapacidade de dois homossexuais de constituírem uma família. Segundo alguns deles (os que se opõem), jamais houve um modelo de família baseado na união de dois indivíduos do mesmo sexo. Primeiro, e como Karl Popper poderia dizer, como é possível afirmar categoricamente que jamais houve tal modelo, na enorme história da humanidade? Seria preciso conhecer todas as sociedades que já existiram, e isso é, senão impossível, no mínimo improvável. E já na Grécia antiga, pessoas como o filósofo Zenão de Cítio, fundador do estoicismo, acreditavam que nós deveríamos procurar nossos parceiros e conjugues antes por características como empatia e afetividade do que por condição financeira ou gênero (sexo) do indivíduo. Estudiosos sugerem que a união homo-afetiva é tão (ou mais) estável que a união heteroafetiva. Pesquisas [1] sugerem também que as crianças criadas por casais gays são tão felizes quanto as criadas por casais de pessoas de sexos opostos. Segundo os pesquisadores, ''As preocupações sobre os efeitos potencialmente negativos para as crianças de serem criados com pais gays parecem ser, pelo nosso estudo, improcedentes''. Há rumores de que os casais gays são inclusive mais exigentes com o desempenho escolar de seus filhos que os casais ''comuns''. Uma união estável, com crianças felizes e bem educadas. Isso não é uma família?
A oposição evoca também sua crença de que a homossexualidade seria uma opção, um comportamento, que não seria ''de nascença''. A hipótese de que alguém escolheria ser gay em uma sociedade como a nossa é ridícula, e isso é auto-evidente. Entretanto, assim como a hipótese de que homossexualidade é comportamento, a da opção ainda perdura na mente das pessoas. Oras, poderiam adeptos de uma simples escolha ou comportamento terem, graças à tais, cérebros fisicamente mais parecidos com os do sexo oposto? [2] Poderiam eles apresentar diferenças cruciais no funcionamento do cérebro para com suas contrapartes heterossexuais? [3] Poderiam os gays masculinos, se homossexualidade fosse escolha ou comportamento, ser mais sensíveis à androsterona (um elemento do odor masculino) do que homens heterossexuais? [4] Sobre a frase ''homossexualidade não é de nascença'', é difícil entender o que ela quer dizer. Os canhotos, por exemplo, não nascem canhotos, mas o ''canhotismo'' tem fatores genéticos.
A legalização da união homoafetiva é, sim, uma questão de direitos iguais, e por mais que pessoas como Feliciano e Malafaia gritem e esperneiem, não conseguirão evitar o progresso. As justificativas para seus preconceitos, de bases tão frágeis, desabam por conta própria.
[1] https://www.childwelfare.gov/pubs/f_gay/f_gay.pdf, http://cms.bsu.edu/-/media/WWW/DepartmentalContent/CounselingCenter/PDFs/SAFEZONE%20Resources/Children%20of%20gays%20and%20Lesbians.pdf, http://www.cambridge-news.co.uk/Health/Family/Children-as-happy-with-gay-parents-research-06032013.htm
[2] http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL602802-5603,00-HOMEM+GAY+TEM+CEREBRO+FEMININO+COMPROVA+ESTUDO.html,
http://veja.abril.com.br/250608/p_168.shtml
[3] http://www.pnas.org/content/105/27/9403.abstract, Bocklandt, Sven, and Eric Vilain. "Sex Differences in Brain and Behavior: Hormones Versus Genes." Advances in Genetics 59 (2007): 245--266. doi:10.1016/S0065-2660(07)59009-7.
[4] Lübke, Katrin, Sylvia Schablitzky, and Bettina M. Pause. "Male Sexual Orientation Affects Sensitivity to Androstenone." Chemosensory Perception 2, no. 3 (September 1, 2009): 154--160. doi:10.1007/s12078-009-9047-3.
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