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sexta-feira, 29 de abril de 2016

O pleno emprego (e por que ele é importante)


Tradução de ''Full employment, why it is important'', no blog Naked Keynesianism, do prof.º Matías Vernengo






 Em minhas aulas intermediárias de macroeconomia na universidade de Utah, eu sempre começo por perguntar se é um problema mais socialmente relevante um acréscimo de 1% na inflação ou um aumento de 1% no desemprego. Embora as respostas variem um pouco de acordo com as circunstâncias macroeconômicas, é quase sempre verdadeiro que a vasta maioria dos alunos pensem que a inflação é o verdadeiro problema.

 Quando questionados sobre por que eles pensam que a inflação é um problema pior que o desemprego eles raramente sugerem que a inflação pode prejudicar aos pobres mais que aos opulentos, o que revelaria uma preocupação com a distribuição de renda, ou parecem compreender que uma inflação moderada pode ser boa. Além disso, eles não têm ideia de que a deflação é consideravelmente pior que a inflação, e que a razão para isso é que a deflação causa desemprego severo. O ponto é que eles parecem pensar que a inflação não lhes prejudica mais do que o desemprego; afinal de contas, eles estão obtendo uma graduação de nível superior (o que não é muita garantia nos dias de hoje, mas eu vou deixar isso para outra publicação).

 Eu conto então uma estória pessoal sobre inflação e desemprego e por que alguém deveria se preocupar com o nível deste. No outono de 1999, recém-saído da graduação, eu fui empregado como diretor assistente de um think tank. Como descobri depois, havia outros 5 candidatos para o cargo. A taxa de desemprego médio em 1999, eu acrescentaria, era de aproximadamente 4.2% (veja aqui). Acontece que eu tinha outra informação interessante que alguém raramente tem sobre um cargo particular, isto é: o número de candidatos para o mesmo cargo na primeira vez em que este foi aberto, em 1995. 

 Eu sempre pergunto meus alunos, então, sabendo que a taxa de desemprego era por volta de 5.6% (aqui, novamente) -- isto é, 1.4% maior que em 1999 --, quantas pessoas eles acham que se candidataram que se candidataram ao mesmo cargo em 1995. Eles nunca dizem algo próximo aos 300 ou algo assim que competiram para o posto. Em outras palavras, nesse caso particular, uma taxa de desemprego 1.4% mais alta implicou uma esmagadora diferença em termos de concorrência. É claro que alguém não pode, e não deve, generalizar a partir de uma observação, mas a informação anedótica se encaixa na evidência mais substancial para um mercado de trabalho apertado nos últimos anos da década de 1990, nos quais de fato vimos acréscimos nos salários reais para trabalhadores médios nos Estados Unidos.

 Se não por qualquer outro motivo, os estudantes e todo o mundo mais deveriam estar preocupados com a taxa de desemprego porque 1% a mais na taxa pode prejudicar consideravelmente mais do que a equivalente alteração em preços [e é por isso que o Índice de Miséria de Okun, que soma as taxas de desemprego e de inflação, faz pouco sentido; ele mistura coisas que não têm a ver]. Mas ainda mais, é importante lembrar que ao passo que a inflação atinge todo mundo mais ou menos equivalentemente -- mesmo se as pessoas têm diferentes cestas de consumo --, o desemprego é um problema social divisivo, que faz de alguns 'vencedores' e de outros 'perdedores', causando divisões profundas na sociedade (p. ex. ''imigrantes roubam nossos empregos'').

 E é por essa razão que o pleno emprego é a mais importante política econômica e social, a base sobre a qual construir outras políticas. O trabalho define nossas vidas em grande extensão e dá dignidade às pessoas. E eu não falo somente dos pobres. Como falo aos meus alunos, eu sou um profundo crente na ética do trabalho duro, e é por isso que eu penso que renda e riqueza devem ser pesadamente tributadas, de maneira que todo mundo tenha que trabalhar para ganhar a vida. Isso é pleno emprego para todos! 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Da falsidade das ideias monetaristas


Milton Friedman (o segundo da esquerda para a direita), pai do monetarismo e um dos principais nomes do chamado ''neoliberalismo'', em visita assistencial ao ditador chileno Augusto Pinochet (o terceiro no mesmo sentido).


 Matías Vernengo, em seu excelente blog Naked Keynesianism, sobre o irrealismo da teoria monetarista da economia: aqui, aqui e aqui. 


sábado, 2 de janeiro de 2016

As estranhas e mal-compreendidas causas da crise brasileira



''(...) as razões para a austeridade não estão de fato conectadas com um medo de descumprimento com as obrigações financeiras domésticas. A austeridade pode ser usada para resolver um problema de conta-corrente -- o que não é o caso do Brasil, como vimos -- ou pode ser uma maneira de levar a uma recessão, aumentando o desemprego e reduzindo o poder de barganha dos trabalhadores, como Kalecki notara muito tempo atrás. É uma forma de disciplinar a classe trabalhadora. E é o que está ocorrendo no Brasil.''


 O Brasil está uma bagunça. A economia está colapsando, com uma queda estimada de 3.5% do PIB este ano (talvez pior) [lembrando: o texto foi escrito no final de 2015], e a inflação têm acelerado para um nível de dois dígitos, bem acima do que costumava ser o limite superior da banda da meta de inflação. Pior, politicamente o país está paralisado, com um processo de impeachment em curso e sem um resultado previsível.

 A visão convencional está como que dividida sobre por que isso aconteceu. Alguns sugerem que foi o desaceleramento da economia internacional e o declínio dos preços das commodities que forçaram o Brasil a fazer o ajuste (por exemplo, essa seria a narrativa de Simon Romero no NY Times, se você adicionar corrupção à mistura; mais sobre isso abaixo). A alternativa é mais explícita sobre os efeitos negativos das políticas do Partido dos Trabalhadores, sugerindo que eles reduziram a confiança e, consequentemente, o investimento (algo nessa linha pode ser visto nas páginas de opiniões de Wall Street; veja aqui, inscrição exigida).

 No versão da variação de confiança/política o argumento é que o governo gastou demais, particularmente no segundo mandato de Lula e ainda mais no período posterior à crise financeira global. Houve uma tentativa de reduzir os gastos fiscais com a eleição de Dilma Roussef (nessa interpretação disfarçando os gastos com contabilidade criativa; mais sobre isso abaixo), mas isso fora temporário, e imediatamente após a reeleição de Dilma os problemas fiscais tornaram-se insustentáveis e exigiram ajuste.

 Ambas as narrativas são falhas. Primeiro, mesmo a economia internacional crescendo lentamente, e algumas economias periféricas como a China também estão desacelerando, o Brasil não tem nenhum problema externo claro. A conta-corrente está negativa, mas o país não está sob perigo de uma crise externa ou descumprimento de suas obrigações estrangeiras, em particular porque está assentado num enorme monte de reservas internacionais. Como eu notei anteriormente, Standard & Poor's na verdade concordam com essa visão na justificativa que eles usaram para reduzir o status de classificação do Brasil (semana passada, a Fitch seguiu a onda e também reduziu o status de classificação da dívida brasileira), uma vez que eles não citam a situação externa como um problema.

 Portanto a noção de que o Brasil necessitava de um ajuste fiscal -- para lançar o país na recessão, reduzir as importações e resolver os [supostos] problemas externos -- parece sem fundamentos. O mesmo é verdadeiro para a noção de que uma profunda desvalorização do Real era necessária. De fato, a depreciação só tem contribuído para a aceleração da inflação, sem impacto nas contas externas. As exportações estão paradas (uma vez que a economia global não está indo bem), e como tal estão as importações (dada a recessão). A inflação também terá um impacto significativo sobre os salários reais, e vai piorar a distribuição de renda (que havia melhorado durante a gestão petista).

 Mas e quanto aos problemas internos? (Tanto a S&P como a Fitch de fato puseram a culpa nos problemas fiscais.) Esse argumento é ainda pior, e tem alguns sérios problemas lógicos. Note que ele sugere que déficits fiscais na moeda nacional podem ser insustentáveis e que a inflação resulta de excesso de demanda associado a gasto em demasia por parte do governo. Já discuti isso várias vezes neste blog, portanto não vou me aprofundar muito nisso.

 Não há como um país poder ser incapaz de pagar dívidas em sua própria moeda. Por definição você pode sempre imprimir dinheiro. E sim, a inflação pode se seguir disso, mas não porque imprimir dinheiro causa inflação. Esse argumento implica que a economia está sempre, e a brasileira certamente não está, em pleno emprego [dos fatores de produção, ou no mínimo do fator trabalho]. Consequentemente, a impressão de dinheiro pode levar a mais gastos e mais produção, não inflação. Entretanto, outro efeito pode ser um medo de depreciação da moeda e uma corrida por dólares, e a depreciação pode ter um efeito inflacionário.

 Em outras palavras, as razões para a austeridade não estão de fato conectadas com um medo de descumprimento com as obrigações financeiras domésticas. A austeridade pode ser usada para resolver um problema de conta-corrente -- o que não é o caso do Brasil, como vimos -- ou pode ser uma maneira de levar a uma recessão, aumentando o desemprego e reduzindo o poder de barganha dos trabalhadores, como Kalecki notara muito tempo atrás. É uma forma de disciplinar a classe trabalhadora. E é o que está ocorrendo no Brasil (sobre o desaceleramento da economia seguindo essencialmente o mesmo argumento, veja Serrano e Summa).

 O governo na verdade poderia gastar e pôr-se fora da recessão (não se preocupe, ele não irá). E assim, uma vez que a renda responde ao nível de atividade econômica, o panorama fiscal melhoraria. Mas então, se a crise brasileira não é externa e nem fiscal, o que a causou? Trata-se de uma auto-imposta crise política. A pergunta relevante é por que de essa política ser implementada por um governo de centro-esquerda [aqui acho que talvez Vernengo tenha posto a si próprio um problema desnecessário; talvez o governo petista esteja um pouco mais à direita do espectro político do que ele pensa...].

 Tem-se primeiro de lembrar que em certos nível o PT sempre aceitou o pensamento convencional quando se tratava de assuntos fiscais. Lula famosamente disse em sua Carta aos Brasileiros que ele desejava ''equilíbrio fiscal para estar apto a crescer'', sugerindo que ele havia incorporado a noção de ajuste fiscal expansionista. Porém, com toda a justiça, havia algum dissenso dentro do partido, e com o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e, em particular, depois da crise de 2008, pareceu que o PT estava pronto para usar o gasto governamental para promover o desenvolvimento econômico. Então por que depois de ganhar a apertada eleição do ano passado, na qual Dilma desacreditou o programa econômico do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), aceitou-o ela essencialmente?

 Está claro que parte do governo passou a defender que a expansão fiscal havia ido longe demais, e que as demandas dos trabalhadores e os salários reais estavam altos demais. A pressão política certamente foi sentida, e em adição o assunto incômodo da corrupção também desempenho um papel. Além disso, por algum motivo a Nova Matriz Econômica (que, em minha visão -- posso estar errado -- era bem convencional), tentando reduzir a taxa de juros e promover um moderado ajuste fiscal, foi vista como uma falha pelos motivos errados. As taxas de juros mais baixas e a moeda mais depreciada deveriam ter estimulado o crescimento, enquanto o ajuste deveria ter controlado os preços. Obviamente essa ideia neo-desenvolvimentista falhou, uma vez que a depreciação levou à inflação (que não era alta, precisamente no limite da meta de 6.5%) e a economia desacelerou.

 Entretanto, a lição sugerida desse experimento é de que o governo perdeu credibilidade, uma vez que o ajuste fiscal não foi forte o suficiente e os atrasos no pagamentos aos bancos públicos(as infames ''pedaladas''), em particular ao BNDES, estão pro detrás da crise. Isto é, a falta de confiança reduziu o investimento doméstico e abaixou o crescimento. Um terrível efeito colateral da aceitação dessa visão  é que agora o uso político pela oposição dos atrasos de pagamentos aos bancos públicos, algo que não era novo, nos procedimentos do impeachment criará um legado permanente, reduzindo a capacidade dos governos futuros tentando adotar políticas expansionistas.

 Por fim, uma palavrinha sobre corrupção. Sim, há um significante escândalo de corrupção no Brasil, e antes que qualquer um reclame, eu espero que peguem todo mundo e que as pessoas que forem provadas culpadas acabem por pagar o preço -- na cadeia, presumivelmente; aliás, se eles tivessem algo quanto à presidente isso já teria sido usado para o impeachment, mais que um tema burocrático de orçamento. Eu só quero denotar que não há evidência (eu mesmo não vi nenhuma confiável, pelo menos) que a corrupção está pior agora do que com os militares nos anos 60 e 70, quando a maior parte das conexões com as grandes empresas empreiteiras começaram. Além disso, o problema de a Petrobrás estar sob investigação vai pelo menos de volta ao governo de FHC. E a corrupção não é um problema da coalização governamental somente. Membros da oposição também estão envolvidos, e um impeachment na verdade traria ao poder um dos mais evidentemente corruptos políticos do país. Nesse sentido, se a corrupção não mudou, dificilmente pode ser concebida como a causadora da situação econômica. A corrupção é somente um dos elementos usados pelos grupos políticos para obter vantagens.

 Os problemas de corrupção que mais importam no Brasil estão associados ao fato de que alguém não pode governar sem basicamente pagar favores políticos no Congresso, e isso significa pagar a principal força política lá, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). É bem sabido, por exemplo, que Cardoso pagou pela mudança na Constituição que permitiu sua reeleição, para citar um exemplo que é antigo o suficiente, e não conectado ao atual governo. Mas o país cresceu significativamente no passado, apesar da corrupção.

 E, pelo jeito, a substituição do ministro da Fazenda, com a indicação de meu ex-colega de classe (em todos os níveis: graduação, mestrado e doutorado) Nelson Barbosa, não irá levar a nenhuma mudança significativa na política. O ajuste fiscal continuará, como ele claramente anunciou. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Causas e tendências da crise econômica brasileira


Nada de texto(s) original(is) aqui, apenas links (de gente muito mais capacitada para falar sobre isso).

Franklin Serrano e Ricardo Summa: ''Demanda agregada e a desaceleração do crescimento econômico de 2011 a 2014''
Franklin Serrano: ''A súbita guinada neoliberal do Brasil''
Matías Vernengo: ''As estranhas e mal-compreendidas causas da crise brasileira''¹ (em inglês)
Franklin Serrano e Luiz Eduardo Melin: ''Aspectos políticos do desemprego: a guinada neoliberal do Brasil''²³ (em inglês)

 Matías Vernengo é economista formado pela UFRJ, mestre pela mesma instituição, e doutor pela New School for Social Research. Sua pesquisa é na área de macroeconomia, economia brasileira e história do pensamento. Foi consultor da OIT e do PNUD, e professor em universidades no Brasil e nos EUA. Atualmente é professor adjunto na Bucknell University.

Franklin Serrano é  Professor Associado no Instituto de Economia da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, Brasil e pesquisador associado sênior do Center for Economic and Policy Research.

Ricardo Summa é Professor Adjunto do Instituto de Economia da Universidade Federal de
Rio de Janeiro, Brasil.

Luiz Eduardo Melin ensina História Política e Desenvolvimento Econômico na Pontífice Universidade Católica do Rio de Janeiro -- PUC-RJ.


[1] Fiz uma tradução aqui.
[2] O título é uma referência ao clássico artigo de 1943 do grande economista marxista polonês Michael Kalecki, ''Aspectos políticos do pleno emprego''.
[3] O artigo foi traduzido: http://www.excedente.org/wp-content/uploads/2016/04/Aspectos-Pol%C3%ADticos-do-Desemprego-_MELIN-SERRANO-_12-2015_.pdf

domingo, 1 de novembro de 2015

Sobre o livre comércio (e vantagens comparativas)


Traduzo logo abaixo um texto de Matias Vernengo, professor titular da Bucknell University e coeditor da Review of Keynesian Economics, sobre o tema do comércio externo e sua liberalização ou regulamentação, retirado do blog Naked Keynesianism



Sobre comércio ''livre'' e comércio gerido (modelo ricardiano) 

 Em um de meus últimos posts eu prometi falar sobre ''livre comércio''. Como eu disse, o próprio nome está equivocado, assim como ''livre mercado''. Não apenas porque sugere que aqueles que se opõem a ele são de alguma forma adversários da liberdade, mas principalmente porque ele vagamente sugere que comércio e mercado são como fenômenos naturais, que floresciam somente se as restrições governamentais fossem eliminadas. 

 Na verdade, é bem sabido que, ao menos desde o clássico de Polanyi, que os mercados essenciais numa economia capitalista (os de terra, trabalho e dinheiro) foram lentamente criados por meio da interação de conflitos sociais articulados através de processos políticos e que sua própria existência resulta, em parte, do poder do  Estado. Logo, visões simplistas e maniqueístas acerca da relação entre o Estado e o ''livre'' mercado ignoram o fato de como Estados e mercados co-evoluíram historicamente.

 Por exemplo, o Banco da Inglaterra, criado em 1694, obteve o monopólio da criação de dinheiro apenas após Bank Charter Act de 1844, algo que resultou da vitória do City of London (interesses financeiros) sobre os bancos do país (mais próximos aos interesses comerciais). O monopólio da emissão de dinheiro seria impossível sem o suporte do governo (e seu monopólio da violência). O mesmo pode ser dito sobre transações comerciais internacionais. Por exemplo: é bem conhecido que o período chamado ''primeira globalização'' (1870-1914) viu um significante acréscimo no volume de comércio global. Entretanto, várias regiões na verdade se tornaram mais ''protecionistas'', i. e., aumentaram as tarifas sobre importações (veja Paul Bairoch para um boa discussão sobre o tópico). 

 Na América Latina as tarifas mais altas permitiram aos governos incrementar sua receita, o que, por sua vez, criou as condições para os exércitos nacionais reduzirem conflitos domésticos -- e centralizar a administração, fornecer garantias para os credores estrangeiros e financiar a construção de ferrovias e portos.

 Isso não significa que todo mundo na América Latina (ou em outras regiões para as quais o tema importa) se beneficiaram do acréscimo no comércio global durante o período [vale a pena lembrar que no México, no final do período, os camponeses fizeram revolta contra o Porfiriato na chamada Revolução Mexicana de 1910]. Não foi o ''livre'' comércio que produziu crescimento, mas a gestão do comércio para produzir mercadorias para os países centrais (um projeto particular apoiado por elites locais e grupos comerciais e financeiros internacionais) que levou ao crescimento (com altos níveis de desigualdade).

 Uma discussão mais lógica, por todos esses motivos, deveria ser não sobre ''livre'' comércio vs protecionismo, mas sobre que tipo de comércio gerido uma determinada sociedade deseja, e quem se beneficia dos diferentes arranjos comerciais. Por exemplo: em discussões correntes sobre acordos comerciais bi ou multilaterais os temas do investimento e cláusulas de propriedade são fundamentais. A disputa é principalmente sobre aqueles que querem proteger os interesses das corporações [e. g. (''a título de exemplificação'') direitos de propriedade, acesso às cortes estrangeiras, eliminação de regulações financeiras proibindo remessas de lucro ao exterior, etc.] e aqueles que podem ter interesses alternativos (e. g. a proteção dos empregos domésticos, criação de capacidade nacional para inovação industrial, o meio-ambiente, etc). De fato, para casos específicos, como defesa ou regras sanitárias e fitosanitárias, está bem estabelecido que o comércio deve ser regulado, ou seja, não ''livre'' mas sim gerido (para discussões sobre alguns problemas correntes envolvendo a agenda do ''livre'' comércio, olhe aqui e aqui).

 Mas os problemas para os defensores do ''livre'' comércio não estão limitados às inconsistências de suas posições políticas. Na verdade, apesar do consenso geral de economistas acadêmicos (convencionais) em favor do ''livre'' comércio, os fundamentais teóricos para a posição dos mesmos são bastante trêmulos. O argumento remonta aos Princípios de David Ricardo (veja também o trabalho paralelo de Robert Torrens). Ricardo argumentou que se Inglaterra e Portugal comercializassem sem a imposição de tarifas isso seria mutuamente benéfico, mesmo que Portugal fosse melhor em produzir ambos os produtos comercializados, vinho e algodão. A razão é simples: mesmo que os trabalhadores portugueses fossem mais produtivos do que suas contrapartes inglesas na produção de ambos os bens, eles poderiam ser melhores na produção de um deles (digamos, vinho) e ainda se beneficiariam de colocar todos os seus esforços na atividade em que se destacam.

 Em outras palavras, o argumento para o comércio sem tarifas e outras restrições estava baseado na ideia de que o comércio é equivalente a acesso a melhores tecnologias. Os portugueses poderiam se especializar no que eles são tecnologicamente melhores, e obter através do comércio as coisas que eles não produzissem. Os ingleses poderiam ter acesso a melhor vinho. Ambos teriam acesso a algodão mesmo que os ingleses fossem menos eficientes em produzi-lo. A mensagem é que especialização é a chave para a riqueza das nações.

 Entretanto, o que é frequentemente ignorado na discussão é que o argumento ricardiano da vantagem comparativa, como é o caso para todos os modelos econômicos, depende de certas premissas especiais, e que aquelas premissas correspondiam às próprias visões políticas de Ricardo. Primeiramente, Ricardo assumiu que todos os trabalhadores que estavam empregados na produção de vinho na Inglaterra encontrariam emprego na produção de algodão, e que todos os trabalhadores empregados na produção de algodão em Portugal poderiam achar trabalho na produção de vinho. A Lei dos Mercados de Say, que sugere que a crise geral de demanda não ocorre no mercado interno, foi estendida para os mercados externos também. Trabalhadores estão sempre empregados por definição (não necessariamente pleno emprego para Ricardo). Além disso, Ricardo assumiu que o capital era imóvel, isto é, mesmo que fosse mais barato de produzir em Portugal (dada a sua maior produtividade e menores custos) e exportar para a Inglaterra, capitalistas ingleses prefeririam manter o seu capital na Inglaterra e produzir em seu país natal.

 Note que se qualquer uma dessas premissas for violada, o argumento de Ricardo desaba. Em outras palavras, se os trabalhadores na Inglaterra e/ou em Portugal no setor ''deslocado'' não puderem achar empregos no outro setor, não é claro que todos se beneficiam do ''livre'' comércio. Além disso, se os capitalistas puderem e de fato se moverem de país para país (Interessantemente, Ricardo descendia de uma família de banqueiros que emigrou de Portugal para a Itália, desta para a Holanda e por fim para a Inglaterra), isso determinaria que ambos o algodão e o vinho seriam produzidos em Portugal. A Inglaterra estaria em uma difícil situação, importando ambos os bens e condenada a crescer num ritmo mais lento, o que é exatamente o oposto da situação histórica (para uma análise do comércio Anglo-Português depois do Tratado de Methuen de 1703 que permitiu ao vinho português ser exportado para a Inglaterra livre de tributações e o mesmo para os têxteis ingleses em Portugal, ver Trade and Power de Sandro Sideri).

 As razões das premissas especiais de Ricardo são bastante conhecidas. Ricardo representou os interesses financeiros e industriais, e era um severo crítico das Corn Laws, as tarifas sobre grãos importados impostas após as Guerras Napoleônicas, que beneficiava as classes dos aristocratas e latifundiários -- defendidas por seu amigo Robert Malthus. Ricardo assumiu que os salários estavam no nível da subsistência, e que as tarifas na importação de grãos levaria ao uso de mais (e menos produtivas) terras na Inglaterra para sua produção, incrementando a renda auferida pelos donos de terras. Para uma produção dada, e com salários constantes, a renda maior iria necessariamente reduzir lucros e a acumulação de capital. Em outras palavras, as premissas especiais (que Ricardo pensou relevantes para o caso particular da Inglaterra naquele contexto histórico particular) foram instrumentais em sua argumentação para a eliminação das tarifas sobre grãos importados. Isto era um argumento progressista pela industrialização e contra a aristocracia agrária (para uma discussão sobre as posições políticas de Ricardo, veja Ricardian Politics, de Milgate e Stimson).

 Generalizações do argumento ricardiano somente podem ser defendidas se seus pressupostos (incluindo que trabalhadores desalocados acham novos empregos e que não há mobilidade de capital) também são tido como geralmente válidos. Outros argumentos modernos em favor do ''livre'' comércio se apoiam no assim chamado modelo Heckscher-Ohlin-Samuleson (HOS), que está repleto de problemas lógicos, e é ainda menos defensável do que a generalização de pontos de vista ricardianos, mas eu vou lidar com aqueles em outro post.

Ps. Meu artigo ''O que os graduandos realmente precisam aprender sobre comércio e finanças'' pode prover uma discussão mais detalhadas sobre os assuntos abordados acima. Robert Vinneau postou aqui elementos da crítica sraffiana ao modelo HOS.

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Para outras críticas à teoria das vantagens comparativas, ver este artigo do site da World Economics Association e este texto do blog Critique of Crisis Theory.