quarta-feira, 11 de março de 2015

O BCE, a QE e a fuga à estagnação



Artigo de Michael Roberts para seu blog, The Next Recession; tradução do site resistir.info


 O anúncio de Mário Draghi na reunião do conselho de administração de 22/Janeiro do Banco Central Europeu (BCE) de que este e os bancos centrais nacionais da zona Euro injetariam €1,1 milhão de milhões de crédito novo ao longo dos próximos 18 meses nos bancos da área certamente teve um resultado rápido. O Euro caiu numa queda de onze anos contra o dólar estadunidense.





 O BCE finalmente aderiu ao Federal Reserve, ao Banco da Inglaterra e ao Banco do Japão naquilo que é chamado sem rodeios como facilidade quantitativa (quantitative easing, QE). Isto é, a compra direta pelos bancos centrais de títulos de governos, corporações e imobiliários pagos por meio de "impressão de dinheiro", ou mais precisamente criando eletronicamente reservas de dinheiro em bancos.

 Até agora, o BCE evitara fazer esta QE e, ao invés, meramente emprestava dinheiro ou crédito aos bancos por períodos de tempo cada vez maiores (agora de até três anos) a taxas de juro virtualmente de zero. O governo alemão e os da Europa do Norte opunham-se à compra de títulos da Irlanda, Espanha, Portugal, Itália e Grécia, os governos perdulários. Eles temiam que tais compras permitissem a estes governos gastarem como quisessem e colocarem em risco o contribuinte alemão em decorrência de quaisquer incumprimentos sobre esta dívida.

 Mas tamanha tem sido a estagnação da maior parte das economias da zona Euro e a perspectiva crescente de deflação absoluta que os alemães, holandeses e finlandeses foram persuadidos, a patear e a gritar, a que o BCE deve arriscar e comprar títulos italianos e espanhóis detidos por bancos, companhias de seguros, fundos de pensões e hedge funds e esperam que isto ajude a por em movimento a economia da zona Euro e evitar a deflação.

 Como expliquei na minha mensagem anterior ( https://thenextrecession.wordpress.com/2015/01/11/the-spectre-of-deflation/ ) e também agora num artigo para o Weekly Worker desta semana ( http://www.weeklyworker.co.uk/worker/1042/the-spectre-of-deflation/ ), há o espectro da deflação a pairar sobre a Europa, o qual poderia arrastar toda a região a uma depressão profunda e a uma euro crise renovada. Assim, esta ação era necessária.

 O pacote de Draghi é muito maior do que o esperado, injetando a cada mês fundos equivalentes a 0,6% do PIB da zona Euro. Isto é muito mais, em termos relativos, do que qualquer outro programa QE do Fed, do BdI ou do BdJ.



Para os dubitativos São Tomés alemães houve uma folha de parreira: que 80% do suposto risco das novas compras de dívidas governamentais seria remetida a bancos centrais nacionais e não partilhada pelo Eurosistema. Mas isso é uma ilusão: se qualquer banco central nacional entrar em perturbação devido a perdas com a compra dos títulos do seu próprio governo, o BCE teria de salvá-los de qualquer forma.

Assim, a pergunta real é: será que esta enorme QE levantará a economia da zona Euro da sua depressão quase deflacionária? Bem, ela certamente está a conduzir Euro para baixo. Isso ajudará exportadores da zona Euro a competirem nos mercados mundiais contra os da Suíça, EUA e alguns produtores asiáticos. Mas como a maior parte das exportações de cada estado membro da União Monetária Europeia (UME) são diferentes uns dos outros, um euro mais fraco não será suficiente para fazer com que as coisas andem.

A menos que os salários reais (os quais têm estado a cair na maior parte das economias da zona Euro) e o investimento em negócios (os quais permanecem estagnados na maior parte das economia da zona Euro) comecem a subir, não haverá escapatória à estagnação e à depressão. E a QE não fará isso, como expliquei com mais pormenor numa mensagem anterior ( http://thenextrecession.wordpress.com/2014/11/02/the-story-of-qe-and-the-recovery/ ). Desde a utilização do QE a partir de 2010 por vários bancos centrais, o crescimento global tem permanecido fraco e com tendência baixa e a recuperação no emprego e no investimento tem sido fraca apesar de uma enorme impressora eletrônica de dinheiro. O crescimento econômico real não tem correspondido.

É a procura por crédito ou dinheiro que conduz a oferta monetária, não a oferta a criar a procura. E a procura por moeda tem sido fraca porque a atividade econômica é fraca. Para utilizar outro cliché: você pode levar um cavalo à água, mas não pode fazê-lo beber. O "multiplicador da moeda", o rácio do montante de moeda impresso pelo Fed em relação ao montante de moeda a circular na economia caiu como uma pedra.





 A QE não funcionou para elevar as taxas de crescimento econômico de volta aos níveis anteriores à crise. Assim, para onde tem ido todo o dinheiro? Ele tem ido para dentro do sistema bancário para escorar seus balanços e restaurar seus lucros. E isto engendrou uma bolha maciça em ativos financeiros; e os preços de títulos do governo e corporativos e, acima de tudo, de ações, tem-se elevado a alturas recorde.



 Os únicos beneficiários têm sido os 1% de topo dos detentores de riqueza que por toda a parte possuem o grosso dos ativos financeiros.

 Quando a QE principiou, em 2010, economistas convencionais (mainstream), tanto monetaristas como o antigo presidente do Fed, Ben Bernanke, como os keynesianos, como Paul Krugman, consideraram a QE como a principal arma econômica para por economias em movimento. Krugman argumentou mesmo que o programa QE do Banco do Japão retiraria o Japão da sua estagnação.
Quão errado podia estar? O objectivo do BoJ de uma taxa de inflação de 2% permanece uma quimera cerca de quatro anos depois, enquanto a economia real do Japão paira perto da recessão apesar de um programa QE que representou uma ascensão nos haveres de títulos do governo equivalente a 50% do PIB e em crescimento. ( http://thenextrecession.wordpress.com/2014/10/13/japan-the-failure-of-abenomics/). Haverá o mesmo resultado para o programa QE do BCE: o Euro pode cair, como aconteceu com o yen depois de o BoJ iniciar o seu programa. Mas não haverá recuperação significativa do crescimento econômico.

 Os keynesianos continuam a insistir em ainda mais QE. Mas também procuram mais ação orçamental, nomeadamente incorrendo em défices orçamentais mais altos de modo a que os governos comecem a gastar mais em infraestrutura, serviços governamentais e mesmo defesa. Isto pode proporcionar algum apoio limitado ao crescimento. Mas tomadas de empréstimos extra por parte do governo são anátema para os estrategas do capital porque isso acabaria por resultar em taxas de juro mais altos e possivelmente maior tributação mais adiante, e portanto menor lucratividade num momento em que a lucratividade na maior parte das economias ainda está abaixo do nível de antes da Grande recessão (ver, thenextrecession.wordpress.com/... e o estudo conjunto de G. Carchedi e eu sobre a eficácia do gasto orçamental de tipo keynesiano, The long roots of the present crisis).

 Na verdade, longe de procurar um aumento da QE ou da despesa do governo, o Fed dos EUA prepara-se para aumentar sua "política de taxa" no fim deste ano. E o risco é de que se o Fed implementar um aumento das taxas de juro em 2015, então o boom financeiro também entrará em colapso e os lucros começarão a cair, aumentando o risco de um novo declínio (slump) (ver, thenextrecession.wordpress.com/…/…/the-risk-of-another-1937/ ).

 Economistas convencionais [mainstream] começaram a reconhecer que as principais economias capitalistas não estão a retornar ao normal, mas sim trancadas em algo a que eles agora chamam "estagnação secular", o tema principal da recente reunião anual da American Economics Association. Como pode as economias escapar?

 Um novo relatório da OCDE tenta apresentar algumas respostas ( escaping-the-stagnation-trap-policy-options-for-the-euro-area-and-japan-1 ). A OCDE é absolutamente clara: "A economia global continua a atuar a baixa velocidade e muitos países, particularmente na Europa, parecem incapazes de ultrapassar o legado da crise. Com alto desemprego, alta desigualdade e baixa confiança ainda a pesarem fortemente, é imperioso implementar rapidamente reformas que promovam a procura e o emprego e despertem o potencial de crescimento. O tempo para atuar é agora. Há um risco crescente de estagnação persistente, em que a fraca procura e o fraco crescimento do produto potencial reforçam-se mutuamente num círculo vicioso".

 Ainda mais sombriamente, o relatório chega a dizer: "Os motores da economia mundial continuam a atuar só a meia velocidade. O crescimento é baixo e desigual e algumas partes do mundo, tais como a área Euro, estão em risco de cair dentro de uma armadilha de estagnação persistente, um período extenso de baixa atividade econômica geral e baixo emprego apesar de estímulos monetários extraordinários. Um círculo vicioso está a desenvolver-se, com procura fraca a minar o crescimento potencial (ex. através de uma deterioração do stock de capital, desemprego estrutural e desigualdade mais alta) e fraco crescimento potencial mais uma vez reduzindo a procura (ex. ao desencorajar investimento em capacidade de expansão)".

 Realmente nada podia ser pior, excepto um outro declínio global. Então o que deve ser feito?
A OCDE apoia a política atual da QE e fala de gastos em investimento. "Com o lançamento das "três setas" do Japão em 2013, o recente lançamento da UE de um plano de investimento e o esperado movimento da área Euro em direção à facilidade quantitativa, a probabilidade de escapar à armadilha da estagnação está a aumentar". Mas não será suficiente: "é necessária nova ação para sustentar este momento de reforma positiva".

 E o que podia ser isto? "Reformas estruturais são urgentemente necessárias para remover obstáculos regulamentares ao investimento, reduzir o fardo administrativo para os negócios e facilitar reestruturações das empresas". Com efeito, a OCDE quer ainda mais desregulamentação nas práticas de negócios, completa "flexibilidade" nos mercados de trabalho e mais livre comércio, particularmente em serviços: "reduzindo barreiras regulamentares ... Novos desmantelamentos de barreiras de fronteiras e para além de fronteiras aos movimentos internacionais de bens e serviços servirão tanto à expansão da procura como tornarão os mercados mais competitivos e dinâmicos". Por outras palavras, a OCDE quer mais políticas "neoliberais" para permitir às "forças de mercado" trabalharem. Com efeito, ela quer "mercados livres" no trabalho para manter baixos os custos do trabalho e livre movimento de capital internacionalmente para elevar a lucratividade. Aparentemente, o problema é que não se está a permitir o capitalismo de funcionar, não que ele não funcione.

 A QE nos últimos quatro anos não conseguiu que as principais economias capitalistas avançassem; os gastos orçamentais deficitários tão pouco funcionaram no Japão; assim os estrategas do capital olham para a "terceira seta" do enfraquecimento do trabalho e da extensão do "livre" movimento do capital como sendo a resposta. Mas o caminho mais provável de saída é outro declínio que destrua valores de capital e eleve a lucratividade média.





sábado, 7 de março de 2015

''Nós vivíamos melhor naqueles tempos''






 Mais de duas décadas atrás, Vaclav Havel, o herdeiro mimado de uma família rica de Praga, ajudou a inaugurar um período de reação no qual as explorações e propriedades dos ex-proprietários de terra e capitães da indústria foram restauradas para seus proprietários anteriores, enquanto o desemprego, a falta de moradia e insegurança — abolidos pelos comunistas — voltaram à rotina. Havel é elogiado pelos suspeitos costumeiros, mas não por suas inumeráveis vítimas, que foram empurradas para trás em um abismo de exploração pela revolução de veludo e outras erupções reacionárias. Com a queda do socialismo permitindo a Havel e seu irmão recuperarem várias propriedades, suas vidas — ele trabalhou em uma fábrica de cerveja durante o socialismo — tornou-se muito mais rica. O mesmo não pode ser dito de incontáveis outros, cujas vidas melhore sob o socialismo foram varridas por uma fraude que, nos próximos dias, será tratada como celebridade por ocasião dos 20 anos da demolição da União Soviética [artigo originalmente publicado em 2011]. Tal aniversário não é momento de celebração, exceto para a minoria que lucrou com isso. Para a maior parte de nós deveria ser uma ocasião para refletir sobre o que os 99% de baixo da humanidade foram capazes de conseguir para nós mesmos fora das estruturas, instabilidades e crueldades desnecessárias do capitalismo.

 Ao longo das suas 7 décadas de existência, e apesar de ter que gastar tanto tempo preparando, lutando e se recuperando de guerras, o socialismo soviético conseguiu criar uma das grandes conquistas da história da humanidade: uma sociedade industrial de massas que eliminou a maior parte das desigualdades na distribuição de riqueza, renda, educação e oportunidade que assolaram o que o precedeu, o que veio depois e o que competiu com ele; uma sociedade em que os cuidados de saúde e educação universitária eram gratuitos (e estudantes universitários recebiam bolsas para se manter); onde aluguel, serviços públicos e transporte eram subsidiados, além de livros, periódicos e eventos culturais; onde a inflação foi eliminada, as pensões eram generosas e o cuidado infantil era subsidiado. Em 1933, com o mundo capitalista profundamente imerso em uma devastadora crise econômica, o desemprego foi abolido, e assim permaneceu durante as próximas 5 décadas e meia, até que o socialismo foi derrubado. Excetuando-se os anos de guerra, a partir de 1928, quando o socialismo foi introduzido, até que Mikhail Gorbachev começou a desmontá-lo no final dos anos 80, o sistema soviético de planejamento central e propriedade pública produziu crescimento econômico constante, sem as recessões e crises que assolaram as economias capitalistas da América do Norte, da Europa ocidental e do Japão. E na maior parte desses anos, as economias soviética e da Europa oriental cresceram mais rápido.

 Os comunistas produziram crescimento econômico uma segurança econômica tão robusta quanto (e muitas vezes mais que) a dos países mais ricos, mas com menos recursos e um menor nível de desenvolvimento e apesar dos esforços incansáveis do mundo capitalista para sabotar o socialismo. O socialismo soviético foi, e continua sendo, um modelo para a humanidade do que pode ser realizado fora dos limites e contradições do capitalismo. Entretanto, no fim da década de 1980, a contrarrevolução estava varrendo a Europa oriental e Mikhail Gorbachev desmantelava os pilares do socialismo soviético. Ingenuamente, cegamente, estupidamente, alguns esperavam que o projeto de demolição de Gorbachev levasse a uma sociedade de consumo próspera, em que os cidadãos soviéticos, com suas contas bancárias esbugalhadas com rendimentos auferidos de novos postos de trabalho obtidos em uma economia de mercado robusta, habitaria coloridos e luxuosos shoppings, para escolher prateleiras limpas e repletas de mercadorias. Outros imaginavam uma nova era de democracia multipartidária e liberdades civis expandidas, coexistindo com a propriedade pública dos setores chave da economia, um modelo que parecia se dever a projetos utópicos que à realidade concreta.

 Óbvio, nenhuma das promessas da contrarrevolução foram mantidas. Embora no momento o fim do socialismo na União Soviética e na Europa Oriental tenha sido declarado uma grande vitória da humanidade, não menos importante por intelectuais de esquerda dos EUA, duas décadas depois há pouco a se comemorar. O desmantelamento do socialismo, em uma palavra, foi uma catástrofe, uma grande fraude que não só não entregou nada do que foi prometido como também causou um dano irreparável, não só nos países ex-socialistas, mas em todo o mundo ocidental. Incontáveis milhões mergulharam na pobreza, o imperialismo recebeu mão livre e os salários e benefícios no Ocidente se curvaram sob a pressão de uma concorrência acrescida por emprego e indústria desencadeados por uma avalanche de desemprego nos antigos países socialistas, onde o desemprego, com razão, era considerado uma obscenidade. Inúmeras vozes na Rússia, Romênia, Alemanha Oriental e em outros lugares lamentavam o que foi roubado deles — e da humanidade como um todo: ''Nós vivíamos melhor sob o socialismo. Tínhamos emprego. Tínhamos segurança''. E com a ameça de os empregos migrarem para os países com baixa remuneração e altas taxas de desemprego da Europa Oriental, os trabalhadores da Europa Ocidental têm sido forçados a aceitar mais dias de trabalho, salários mais baixos e benefícios degradados. Hoje, eles lutam numa desesperada ação de retaguarda, onde as vitórias são poucas e as derrotas, muitas. Eles também viviam melhor — em outros tempos.

 Mas isso é apenas parte da história. Para outros, para os investidores e as empresas, que encontraram novos mercados e oportunidades de investimento rentável, e podem colher os benefícios de custos trabalhistas mais baixos que provocam a intensificação da concorrência por emprego, a derrubada do socialismo tem, de fato, sido algo para comemorar. Igualmente, tem sido bem recebida pelos proprietários de terras e elites industriais dos regimes pré-socialismo cujas propriedades e empresas industriais foram recuperadas e privatizadas. Mas eles são uma minoria. Por que o resto de nós comemora o assalto a si próprio?

 Antes do desmantelamento do socialismo, a maioria das pessoas no mundo foi protegida das vicissitudes do mercado capitalista global pelo planejamento central e as tarifas alfandegárias elevadas. Mas uma vez que o socialismo caiu na Europa Oriental e na União Soviética e com a China tendo marchado resolutamente no caminho capitalista, a reserva do trabalho sem proteção disponível para corporações transnacionais expandiu-se muitas vezes. Hoje, uma força de trabalho mundial muito maior do que a piscina inteira de trabalhadores norte-americanos — e disposta a trabalhar a preços baixíssimos — aguarda as corporações globais. Você não tem que ser um cientista espacial para descobrir quais são as implicações para os trabalhadores norte-americanos e seus homólogos na Europa Ocidental e no Japão: uma intensa competição de todos contra todos para o emprego e a indústria. Inevitavelmente, as rendas caem, os benefícios são erodidos, as horas de trabalho se estendem. Previsivelmente, com os custos trabalhistas caindo, os lucros sobem, os capitais excedentes se acumulam e criam bolhas, as crises financeiras entram em erupção e as guerras de rapina para garantir oportunidades de investimento irrompem.

 A crescente competição por empregos e indústria tem forçado os trabalhadores da Europa Ocidental a aceitar menores remunerações. Eles trabalham mais horas e, em alguns casos, para receber menos e sem aumento de benefícios, para impedir seus empregos de migrarem para a República Tcheca, Eslováquia e outros países ex-socialistas — que, sob o governo dos vermelhos, proviam empregos para todos. Mais trabalho por menos dinheiro é um resultado agradável para a classe empresarial, e acaba por ser exatamente os resultados que os fascistas prepararam para os capitalistas de seus países na década de 1930. Os métodos, com certeza, eram diferentes, mas o anti-comunismo de Mussolini e Hitler, em outras mãos, mostrou-se tão útil quanto para garantir os mesmos fins retrógrados. Ninguém que está sujeito aos caprichos do mercado de trabalho — quase todos nós — deve estar contente de o socialismo ter sido abolido.

 Talvez alguns de nós não saibam que fomos assaltados. E alguns de nós talvez não tenham sido. Pegue o historiador radical norte-americano Howard Zinn, por exemplo, que, juntamente com a maioria dos outros intelectuais proeminentes de esquerda, cumprimentou a derrubada do socialismo com alegria [1]. Eu, não menos do que outros, admiro os livros, os artigos e o ativismo de Zinn, embora eu tenha vindo a tomar seu ardente anti-comunismo como típico dos intelectuais de esquerda estadunidenses. Que fique claro que, em um ambiente hostil ao comunismo, não deve ser nenhuma surpresa que exibições notáveis de anti-comunismo tornem-se uma estratégia de sobrevivência para aqueles que procuram estabelecer um relacionamento, e salvaguardar suas reputações, com uma maior (e mais anti-comunista) audiência.

 Mas pode haver outra razão para o anticomunismo daqueles cujos pontos de vista deixam-lhes vulneráveis a críticas de indulgência para com o comunismo, e portanto de ter chifres. Como dissidentes em sua própria sociedade, sempre houve uma tendência natural para eles a se identificar com os dissidentes em outros lugares — e a propaganda ocidental pró-capitalista e antissocialista elevou os dissidentes nos países socialistas ao status de heróis, especialmente aqueles que foram presos, amordaçados ou reprimidos de outra forma pelo Estado. Para essas pessoas, a abreviação das liberdades civis em qualquer lugar se agiganta, uma vez que que a diminuição de suas próprias liberdades civis seria um evento de grande importância pessoal. Em compensação, a conquista dos comunistas no fornecimento de uma frugalidade confortável e seguridade econômica a todos, enquanto reconhecida intelectualmente como conquista de alguma importância, é menos apta a agitar a imaginação de alguém que tem uma renda confortável, o respeito de seus pares e muitas pessoas a lerem seus livros e participarem de suas palestras. Eles não têm que limpar o carvão descartado em lixões para ganhar a existência vazia, desolada e ingrata. Alguns têm de fazê-lo.

 Karol, de 14 anos, e sua irmã Alina, de 12, marcham todos os dias para o lixão, onde resíduos industriais misturados são descartados, nos arredores de Swietochlowice, na Polônia ex-socialista. Lá, junto com seu pai, elas procuram por sucata e carvão de segundo nível, qualquer coisa para obter alguns dólares para comprar um pequeno suprimento de mantimentos. ''A vida era melhor no socialismo'', diz o pai de Karol, 49 anos de idade, repetindo um refrão ouvido diversas vezes, não só na Polônia mas também ao longo dos países ex-socialistas da Europa Oriental e da antiga União Soviética. ''Eu trabalhei por 25 anos na mesma empresa e agora eu não consigo achar um emprego — qualquer emprego. Eles só querem trabalhadores jovens e qualificados''[2]. De acordo com Gustav Molnar, um analista político aliado com o Instituto Teleki Lazlo, ''a realidade é que quando as empresas estrangeiras vêm aqui, elas estão interessadas apenas na contratação de pessoas com menos de 30 anos. Isso significa que metade da população está fora do jogo''[3]. Isso pode se adequar às linhas de fundo de empresas estrangeiras — e a derrubada do socialismo pode ter sido um resultado agradável para os intelectuais confortáveis e bem alimentados de Boston — mas dificilmente combina com que parte da população polonesa que deve escalar montanhas de resíduos industriais — ou morrer. Maciel Gdula, 34 anos, um dos membros fundadores do grupo Krytyka Polityczna, ou Crítica Política, reclama que muitos poloneses ''estão desiludidos com as promessas incumpridas do capitalismo. Eles nos prometeram um mundo de consumo, estabilidade e liberdade. Em vez disso, temos uma geração inteira de poloneses que emigraram para ir lavar pratos'' [4]. Sob o socialismo ''sempre houve trabalho para todos'' [5] — no próprio país. E sempre um lugar para morar, escolas gratuitas para frequentar e médicos para se consultar, sem custos. Então por que Howard Zinn ficou tão contente de o socialismo ter sido derrubado?

 Que a derrubada do socialismo não entregou nenhum benefício para a maioria é fácil de ver. Uma década depois que a contrarrevolução cruzou toda a Europa Oriental, 17 nações ex-socialistas eram imensamente mais pobres. Na Rússia, a pobreza havia triplicado. Uma criança em cada dez — 3 milhões de crianças russas — viviam como animais, mal alimentadas, vestidas em trapos e vivendo, se tivessem sorte, em flats imundos e miseráveis. Só em Moscou, 30 a 50 mil crianças viviam nas ruas. A expectativa de vida, educação, alfabetismo dos adultos e renda diminuíram. Um relatório da European Children Trust, escrito em 2000, revelou que 40% da população dos países ex-socialistas — um número igual a 1 a cada 2 cidadãos norte-americanos — viviam na pobreza. A mortalidade infantil e a tuberculose estavam em alta, aproximando-se dos níveis do Terceiro Mundo. A situação, de acordo com a ONU, era catastrófica. E em toda parte a história foi a mesma [6, 7, 8].

 Paul Cockshot afirma que

''A restauração dos mecanismos de mercado na Rússia era uma vasta experiência controlada. A nação, o caráter nacional e a cultura, os recursos naturais e o potencial produtivo permanecerem os mesmos, apenas o mecanismo econômico mudou. Se os economistas ocidentais estavam certos, então deveríamos ter esperado o crescimento e um salto do padrão de vida depois do choque econômico de Yeltsin. Em vez disso, o país se tornou uma economia de exportação primária. A produção industrial caiu, indústrias tecnologicamente avançadas atrofiaram e os padrões de vida caíram tanto que a taxa de mortalidade aumentou em mais de um terço levando a cerca de 7,7 milhões de mortes extras.''

 Para muitos russos, a vida tornou-se mensuravelmente pior.

''Se você fosse velho, se você fosse um camponês, se você fosse um trabalhador manual, o mercado era muito pior do que a economia soviética relativamente estagnada de Brejnev. A recuperação com Putin, tal como foi, veio quase que inteiramente como um efeito colateral do aumento dos preços mundiais do petróleo, o próprio processo que havia operado na gestão de Brejnev'' [10].

 Ao mesmo tempo em que o retorno do capitalismo tornou a vida mais difícil para uns, foi letal para outros. De 1991 a 1994, a expectativa de vida na Rússia caiu 5 anos. Até 2008, havia caído para menos de 60 anos para os homens russos, um total de 7 anos mais baixo que em 1985, quando Gorbachev chegou ao poder e começou a desmontar o socialismo soviético. Hoje ''apenas um pouco mais da metade dos países ex-socialistas recuperaram seus níveis de expectativa de vida pré-transição'', de acordo com um estudo publicado na revista médica The Lancet [11].

 ''A vida era melhor sob os comunistas'', conclui Aleksandr. ''As lojas estão cheias de coisas, mas elas são muito caras''. Victor fala com tristeza da ''estabilidade de uma era anterior com de cuidados médicos acessíveis, educação superior gratuita, moradia e a promessa de uma confortável aposentadoria — as coisas agora estão fora do seu alcance'' [12]. Um relatório de 2008 no Globe and Mail, um jornal canadense, observou que ''muitos russos entrevistados ainda sofrem por seu grande país perdido''. Entre os entrevistados está Zhanna Sribnaya, 37, um escritor moscovita. Sribnaya lembra dos ''acampamentos de Pioneiros quando todos poderiam ir para o Mar Negro para as férias de verão. Agora, apenas as pessoas com dinheiro podem tirar aquelas férias'' [13].

 Ion Vancea, um romeno que luta para sobreviver em uma quantia de US $ 40 por mês de pensão diz: "É verdade que não havia muito para comprar naquela época, mas agora os preços são tão altos que não temos dinheiro para comprar alimentos, bem como o pagamento de eletricidade. "Ecoando as palavras de muitos romenos, Vancea acrescenta:" A vida era 10 vezes melhor  com Ceausescu (líder do Partido Comunista romeno Nicolae) ". [14] Uma pesquisa de opinião realizada no ano passado constatou que Vancea não é a minoria. Conduzida pela organização romena polling CSOP, a pesquisa constatou que quase metade dos romenos achava que a vida era melhor sob Ceausescu, em comparação com menos de um quarto que achava que a vida é melhor hoje. E enquanto Ceauşescu é lembrado no Ocidente como um diabo vermelho, apenas sete por cento disseram que sofreu sob o comunismo. Por que metade dos romenos acham que a vida era melhor sob com os vermelhos? Eles apontam para o pleno emprego, condições de vida digna para todos, e de habitação garantidos - vantagens que desapareceram com a queda do comunismo. [15]

 Ao lado, na Bulgária, 80 por cento dizem que estão em situação pior agora que o país fez a transição para uma economia de mercado. Apenas cinco por cento dizem que seu padrão de vida melhorou. [16] Mimi Vitkova, que foi brevemente ministro da Saúde da Bulgária por dois anos em meados dos anos 90, resume a vida após a derrubada do socialismo: "Nós nunca fomos um país rico, mas quando tivemos socialismo nossos filhos eram saudáveis e bem alimentados”. Todos eles eram imunizados. Os aposentados e deficientes recebam cuidados e tinham medicamentos gratuitos. Nossos hospitais estavam gratuitos. “Mas as coisas mudaram, diz ela”. “Hoje, se uma pessoa não tem dinheiro, ela não tem o direito de ser curada”. E a maioria das pessoas não tem dinheiro. A nossa economia estava arruinada. [17] Em 2009, uma pesquisa conduzida pelo Pew Global Attitudes Project descobriu que um em cada nove búlgaros acredita que as pessoas comuns estão em melhor situação, como resultado da transição para o capitalismo. E poucos consideram que o Estado como representa os seus interesses. Apenas 16 por cento dizem que ele é executado em benefício de todas as pessoas. [18]

 Na antiga Alemanha Oriental um novo fenômeno surgiu: Ostalgie, uma nostalgia da RDA. Durante a Guerra Fria, a pobreza relativa da Alemanha Oriental foi atribuída à propriedade pública e planejamento central - serragem nas engrenagens do motor econômico, segundo a mitologia antissocialista. Mas a propaganda convenientemente ignora o fato de que a parte oriental da Alemanha tinha sido sempre menos desenvolvida do que o Ocidente, que tinha sido saqueado dos seus ativos humanos fundamentais no final da II Guerra Mundial pelas forças de ocupação estadunidenses, que a União Soviética tinha carregado tudo de valor para indenizar-se por suas perdas de guerra, e que a Alemanha Oriental suportou o peso das reparações da guerra da Alemanha à Moscou. [19] Além disso, aqueles que fugiram da Alemanha Oriental disseram ter escapar da repressão de um regime brutal, e enquanto alguns podem de fato ter sido ardentes anticomunistas  fugindo da repressão do Estado, a maioria eram refugiados econômicos, buscando o abraço de um Oeste mais próspero, cujas riquezas dependia, em grande medida, de uma história de escravidão, colonialismo e imperialismo em processos de acumulação de capital , os países comunistas evitaram e gastaram recursos preciosos lutando contra.

 Hoje, ninguém de mente sem preconceitos diria que a riqueza prometida a alemães orientais se concretizaram. O desemprego, uma vez inédito, é executado na casa dos dois dígitos e aluguéis dispararam. A infraestrutura da região industrial - mais fraca do que a Alemanha Ocidental durante a Guerra Fria, mas em expansão - agora tem tudo, mas desapareceu. E a população está diminuindo, como refugiados econômicos, seguindo os passos de refugiados da Guerra Fria antes deles fazerem o seu caminho para o oeste em busca de empregos e oportunidades. [20] "Fomos ensinados que o capitalismo era cruel", lembra Ralf Caemmerer, que trabalha para Otis Elevator. "Você sabe, não vir a ser um absurdo." [21] Quanto à alegação de que os alemães orientais têm "liberdade" Heinz Kessler, um ex-ministro da Defesa da Alemanha Oriental responde com sarcasmo: “Milhões de pessoas na Europa Oriental são agora livre de emprego, livre de ruas seguras, livre de cuidados de saúde, livre de segurança social”. “[22] Ainda assim, Howard Zinn ficou contente que o comunismo tenha colapsado”. Mas então, ele não viveu na Alemanha Oriental.

 Então, quem está fazendo o melhor? Vaclav Havel, o dramaturgo tcheco virou presidente, veio de uma proeminente, família veementemente antissocialista de Praga, que teve  extensivas explorações", incluindo as empresas de construção, imobiliário e os estúdios de cinema Barrandov Praque". [23] A joia da coroa das explorações familiares de Havel foi o Palácio de Lucerna ", um palácio do prazer, de galerias, teatros, cinemas, casas noturnas, restaurantes e salões de baile," de acordo com Frommer. “Tornou-se “um local popular para novos ricos da cidade para se reunirem”, incluindo o jovem Havel que foi criado a pão de ló por uma governanta, adorado pelos empregados, e com motorista em torno da cidade em automóveis caros “, passou seus primeiros anos de vida em pisos de mármore polido do Lucerna "Então, a tragédia se abateu - pelo menos, do ponto de vista de Havel. Os vermelhos expropriaram Lucerna e outras explorações da família, e colocou-os para usar para o bem comum, ao invés de com a finalidade de proporcionar aos jovens Havel com mais servos. Havel foi enviado para trabalhar em uma cervejaria.

"Eu era diferente dos meus colegas cujas famílias não tinham empregadas domésticas, enfermeiras ou chauffeurs", Havel escreveu uma vez. "Mas eu experimentei essas diferenças como desvantagem. Eu me senti excluído da companhia dos meus colegas. "[24] No entanto, a companhia de seus pares não deve ter sido do agrado de Havel, pois, como presidente, ele foi rápido em recuperar o Silver Spoon que os comunistas tinham levado de sua boca. Celebrado em todo o Ocidente como um herói da liberdade intelectual, ele era, em vez disso um herói da restauração capitalista, presidindo sobre um retorno em massa de bens nacionalizados, incluindo Lucerna e outras posses de sua família.

 A Igreja Católica Romana é outra vencedora. O governo húngaro pró-capitalista devolveu para a Igreja Católica Romana grande parte da propriedade nacionalizada pelos comunistas que colocaram o imóvel sob propriedade comum para o bem público. Com a recuperação de muitas das propriedades do leste europeu e Europa Central  uma vez possuído, a Igreja é capaz de recuperar o seu papel pré-socialista de parasita - raking em vastas quantidades de riqueza fácil de alugada, um privilégio concedido por nenhuma outra razão do que ser é dona do título para a terra. Hungria também paga o Vaticano anuidade 9,2 milhão dólares para a propriedade tem sido incapaz de retornar. [25] (Note-se que a pesquisa de 2008 de 1.000 húngaros pela empresa de pesquisas húngaro Gif Piackutato descobriu que 60 por cento descreveu a era do regime comunista sob a liderança do comunista Janos Kadar como Hungria a mais feliz, enquanto apenas 14 por cento disseram o mesmo sobre a era pós-comunista . [26])

 A Igreja, os ex-proprietários das terras e CEOs de lado, a maioria das pessoas do antigo bloco socialista não estão satisfeitas que os ganhos das revoluções socialistas foram invertidos. Três quartos dos russos, de acordo com uma pesquisa [27] de 1999 lamentam o fim da União Soviética. E a sua avaliação do status quo é agradavelmente lúcida. Quase 80 por cento reconhecem a democracia liberal como fachada para um governo controlado pelos ricos. A maioria (corretamente) identifica a causa de seu empobrecimento como um sistema econômico injusto (capitalismo), que, de acordo com 80 por cento, produz "desigualdades excessivas e ilegítimas". [28] A solução, na opinião da maioria, é voltar para o socialismo, mesmo que isso signifique regime de partido único. Os russos lamentam  pelo historiador anticomunista Richard Pipes que eles não tenham gosto para a democracia multipartidária dos estadunidenses, e parecem incapazes de serem curados de sua predileção por líderes soviéticos. Em uma pesquisa, os russos foram convidados a listar os 10 maiores pessoas de todos os tempos, de todas as nações. Lênin ficou em segundo lugar, Stálin quarto e Pedro, o Grande veio primeiro. Pipes parece genuinamente chateado por eles não terem escolhidos o seu antigo chefe, Ronald Reagan, e está farto de que depois de anos da antissocialista  propaganda pró-capitalista, os russos continuam comprometidos com a ideia de que a atividade econômica privada deve ser restrita, e "a governo [precisa] se envolver mais na vida econômica do país ". [29] Uma pesquisa de opinião que perguntou aos russos qual sistema socioeconômico são a preferem produziu estes resultados:

• O planejamento estatal e distribuição, 58%;

• Com base na propriedade privada e de distribuição, 28%;

• É difícil dizer, 14%. [30]

 Assim, se os povos empobrecidos dos países outrora socialistas sentem falta dos atrativos antigos do socialismo, por que os comunistas não voltam? O socialismo não pode ser ligado com o apertar de um botão. As antigas economias socialistas foram privatizadas e colocadas sob o controle do mercado. Aqueles que aceitam as metas e os valores do capitalismo foram recrutados para ocupar escritórios centrais do Estado. E as estruturas econômicas, jurídicas e políticas foram alteradas para acomodar a produção privada com fins lucrativos. É verdade que há vagas para os partidos comunistas para operar dentro das novas democracias liberais multipartidárias, mas os comunistas agora competem com muito mais generosamente financiados partidos nas sociedades em que seus inimigos tenham restaurado a sua riqueza e os privilégios e usá-los para inclinar o campo de jogo fortemente em seu favor. Eles são donos dos meios de comunicação e, portanto, estão em condições de moldar a opinião pública e dar aos partidos da propriedade privada o apoio crítico durante as eleições. Eles gastam muito dinheiro em fazer lobby junto ao Estado e os políticos e gerenciando think-tanks que produzem séries de recomendações políticas e abastecem os meios de comunicação social com comentário de ''expert" pró-capitalistas. Eles definem a agenda nas universidades através de doações, subvenções e financiamento de cadeiras especiais para estudar questões de interesse para os seus lucros. Eles trazem os políticos sob seu domínio  distribuindo generosas contribuições de campanha e promessas de lucrativas oportunidades de emprego pós-carreira política. É de se admirar que os comunistas não são votados para voltar ao poder? Democracia capitalista significa democracia para uns poucos, — os capitalistas — e não uma igualdade de condições em que a riqueza, propriedade privada e privilégio, não importam.

 E quem pensa que comunistas podem ser eleitos para cargos devem familiarizar-se com a política externa dos EUA vis-a-vis Chile por volta de 1973. Os Estados Unidos armou um golpe para derrubar o socialista Salvador Allende, com o fundamento de que os chilenos não poderiam ser autorizados a fazer a escolha "irresponsável" de eleger um homem Cold Warriors considerado como um comunista. Mais recentemente, os Estados Unidos, União Europeia e Israel, se recusaram a aceitar a eleição do Hamas nos territórios palestinos, o tempo todo, hipocritamente, apresentaram-se como campeões e guardiães da democracia.

 É claro que nenhum passo em frente serão tomados, podem ser tomadas, até que uma parte decisiva da população fique descontente e rejeite o que existe hoje, e esteja convencida que algo melhor é possível e está disposta a tolerar os levantes de transição. Algo melhor do que a insegurança econômica incessante, privado (e para muitos, inacessíveis) cuidados de saúde e educação, e grande desigualdade, isto é possível. Os comunistas provaram isso. Era a realidade na União Soviética, na China (por um tempo), na Europa Oriental, e hoje, paira sobre em Cuba e Coréia do Norte, apesar do incessante e longo alcance dos esforços dos Estados Unidos para esmagá-lo.


 Não deve ser nenhuma surpresa que Vaclav Havel, como outros cuja supremacia econômica e política foram destruídas pelos comunistas, foi um lutador incansável contra o socialismo, e que ele e outros  que buscavam reverter os ganhos da revolução foram reprimidos, e às vezes amordaçados e presos pelos novos regimes. Esperar o contrário é fechar os olhos para a luta determinada que fosse exercida pelos inimigos do socialismo, mesmo depois que as forças socialistas tomaram o poder.
As forças da reação conservam o seu dinheiro, seus bens móveis, as vantagens da educação, e acima de tudo, as suas ligações internacionais. Para conceder-lhes total liberdade é conceder-lhes uma mão livre para organizar a queda do socialismo, para receber assistência material do exterior para reverter a revolução, e para elevar o mercado e a propriedade privada, mais uma vez com os princípios de regulação da economia. Poucos campeões das liberdades civis argumentam que, no interesse da liberdade de expressão, liberdade de reunião e de liberdade de imprensa, que os alemães deveriam ser autorizados a realizar comícios pró-nazistas, estabelecer uma imprensa pró-nazista, e organizar partidos políticos fascistas, para voltar aos dias do Terceiro Reich. Para sobreviver, qualquer governo socialista, deve, necessariamente, ser repressiva em relação aos seus inimigos, que, como Havel, buscará sua derrota e do retorno de suas posições privilegiadas. Este é demonizado como totalitarismo por aqueles que têm interesse em que prevalecem as forças antissocialistas, consideramos as liberdades civis e políticos (como a um mundo de abundância para todos) como o ápice da realização humana, ou têm uma visão exageradamente otimista das possibilidades para a sobrevivência das ilhas socialistas em um mar de Estados capitalistas predadores.

 Onde os comunistas têm prevalecido, o resultado tem sido de grande alcance ganho material para o grosso da população: o pleno emprego, cuidados de saúde gratuitos, educação gratuita até a universidade, puericultura gratuito e subsidiado, acomodações de vida baratos e transporte público barato. A expectativa de vida aumentou, o analfabetismo foi dizimado, e falta de moradia, desemprego e insegurança econômica foram abolidos. Conflitos raciais e tensões étnicas foram reduzidos a quase o ponto de fuga. E as desigualdades de riqueza, renda, oportunidade e educação têm sido muito reduzidas. Onde comunistas foram derrubados, o desemprego em massa, o subdesenvolvimento, a fome, as doenças, o analfabetismo, a falta de moradia, e os conflitos raciais vem recrudescendo como as propriedades, explorações e privilégios dos antigos gatos gordos foram restaurados. Comunistas produziram ganhos no interesse de toda a humanidade, alcançado em face de condições muito difíceis, incluindo a hostilidade incessante do Ocidente e do esforço incessante de antigos exploradores para restaurar o status quo de antes.



Notas e fontes


1. Howard Zinn, “Beyond the Soviet Union,” Znet Commentary, September 2, 1999.

2. “Left behind by the luxury train,” The Globe and Mail, March 29, 2000.

3. “Support dwindling in Czech Republic, Hungary, Poland,” The Chicago Tribune, May 27, 2001.

4. Dan Bilefsky, “Polish left gets transfusion of young blood,” The New York Times, March 12, 2010.

5. “Support dwindling in Czech Republic, Hungary, Poland,” The Chicago Tribune, May 27, 2001.

6. “An epidemic of street kids overwhelms Russian cities,” The Globe and Mail, April 16, 2002.

7. “UN report says one billion suffer extreme poverty,” World Socialist Web Site, July 28, 2003.

8. Associated Press, October 11, 2000.

9. “UN report….

10. Paul Cockshott, “Book review: Red Plenty by Francis Spufford”, Marxism-Leninism Today, http://mltoday.com/en/subject-areas/books-arts-and-literature/book-review-red-plenty-986-2.html

11. David Stuckler,  Lawrence King  and Martin McKee, “Mass Privatization and the Post-Communist Mortality Crisis:  A Cross-National Analysis,”   Judy Dempsey, “Study looks at mortality in post-Soviet era,” The New York Times, January 16, 2009.

12. “In Post-U.S.S.R. Russia, Any Job Is a Good Job,” New York Times, January 11, 2004.

13. Globe and Mail (Canada), June 9, 2008.

14. “Disdain for Ceausescu passing as economy worsens,” The Globe and Mail, December 23, 1999.

15. James Cross, “Romanians say communism was better than capitalism”, 21st Century Socialism, October 18, 2010. http://21stcenturysocialism.com/article/romanians_say_communism_was_better_than_capitalism_02030.html “Opinion poll: 61% of Romanians consider communism a good idea”, ActMedia Romanian News Agency, September 27, 2010. http://www.actmedia.eu/top+story/opinion+poll%3A+61%25+of+romanians+consider+communism+a+good+idea/29726

16. “Bulgarians feel swindled after 13 years of capitalism,” AFP, December 19, 2002.

17. “Bulgaria tribunal examines NATO war crimes,” Workers World, November 9, 2000.

18. Matthew Brunwasser, “Bulgaria still stuck in trauma of transition,” The New York Times, November 11, 2009.

19. Jacques R. Pauwels, “The Myth of the Good War: America in the Second World War,” James Lorimer & Company, Toronto, 2002. p. 232-235.

20. “Warm, Fuzzy Feeling for East Germany’s Grey Old Days,” New York Times, January 13, 2004.

21. “Hard lessons in capitalism for Europe’s unions,” The Los Angeles Times, July 21, 2003.

22. New York Times, July 20, 1996, cited in Michael Parenti, “Blackshirts & Reds: Rational Fascism & the Overthrow of Communism,” City Light Books, San Francisco, 1997, p. 118.

23. Leos Rousek, “Czech playwright, dissident rose to become president”, The Wall Street Journal, December 19, 2011.

24. Dan Bilefsky and Jane Perlez, “Czechs’ dissident conscience, turned president”, The New York Times, December 18, 2011.

25. U.S. Department of State, “Summary of Property Restitution in Central and Eastern Europe,” September 10, 2003. http://www.state.gov/p/eur/rls/or/2003/31415.htm

26. “Poll shows majority of Hungarians feel life was better under communism,” May 21, 2008, www.politics.hu

27. Cited in Richard Pipes, “Flight from Freedom: What Russians Think and Want,” Foreign Affairs, May/June 2004.

28. Ibid.

29. Ibid.

30. “Russia Nw”, in The Washington Post, March 25, 2009.

terça-feira, 3 de março de 2015

Ser negro na União Soviética e nos Estados Unidos: uma comparação histórica



Artigo de Jones Manoel, graduando em História pela Universidade Federal do Pernambuco (nordeste brasileiro), militante da UJC/PCB e autor do blog Teorizando.



O cantor Paul Robeseon em visita à URSS

 A História não é uma ciência neutra. Nenhuma ciência é. Com a derrota do movimento comunista no século XX e sua crise que quase o levou ao fim, a ideologia dominante partiu para uma contra-ofensiva assustadora. Para a ideologia dominante, todos os elementos emancipatórios conquistados pelo movimento comunista não existiam mais, todas as barbáries perpetradas pelo capital somem do horizonte histórico e os países socialistas são mostrados como a reencarnação do mal, o pior inimigo da democracia, dos direitos humanos e da liberdade. A categoria de totalitarismo, principal cavalo de batalha do pensamento conservador, resume bem essa visão estereotipada e reacionária [1].

 No bojo da contrarrevolução se consolida, nos anos 80, no Mundo Ocidental, uma visão processual (ou seja, jurídica) de democracia. A democracia passa a ser apenas a vigência das regras jurídicas que garantem uma competição eleitoral regular. Toda luta do movimento democrático-jacobino e depois socialista/comunista contra essa visão jurídica de democracia foi esvaziada. Nesse momento de miséria ideológica, Hannah Arendt, uma das principais ideólogas da Guerra Fria, pôde lançar um livro [2] que afirmava que a Revolução Francesa só produziu violência e totalitarismo por trazer a "questão social" para a esfera pública – achando que a "questão social" podia ser superada. Já a Revolução estadunidense conseguiu instituir um "corpus político" que garantiu a liberdade (entendida como liberdades negativas) e a libertação (possibilidade de todos participarem da esfera pública).

 Hannah Arentd reforça uma apologia cretina da ideologia dominante estadunidense. Ela "esqueceu", evidentemente, que a Revolução Americana manteve a escravidão sobre os negros (que só viraram cidadãos juridicamente no final dos anos 60 do século XX!) e acelerou o extermínio dos índios. Entre a Revolução Americana e o século XX, mais de 19 milhões de índios Pele Vermelhas foram exterminados brutalmente. Nada disso preocupou nossa autora. Ela conseguiu "analisar" o sistema político dos Estados Unidos sem levar em conta uma parte considerada da população daquele país e suas condições de vida (ou extermínio).

 Nosso objetivo é inverter a metodologia de Hannah Arendt: Ao invés de analisar o sistema político dos Estados Unidos excluindo os negros; vamos analisar como os negros eram tratados no sistema político e social dos Estados Unidos. Para nível de comparação e como forma de contribuir na desmistificação da historiografia reacionária da Guerra Fria, será comparada a situação do negro na União Soviética e nos Estados Unidos. Daremos preferência, no caso soviético, a comparação no período do Stálin. A escolha se faz devido à demonização desse período da história do movimento comunista -, como se nele não houvesse elementos emancipatórios. Por fim, antes de irmos ao próximo tópico, faz-se necessário demarcar uma posição.

 Essa postura de Hannah Arendt -, seguida por praticamente todo pensamento burguês, de definir um sistema político à revelia da sorte dos explorados, é algo totalmente estranho à tradição leninista do marxismo. Por anos, depois da queda da URSS, o leninismo foi vítima de uma intensa campanha de difamação. Um dos principais argumentos era seu suposto viés antidemocrático e autoritário. Para além da constatação empírica de que as maiorias dos que fizeram essa crítica estão hoje nas fileiras da direita, é basilar resgatar o sentido original da crítica leninista à democracia burguesa:

 Em relação a este mundo, Lênin representa uma ruptura não só no plano político, mas também epistemológico: a democracia não pode ser definida independentemente dos excluídos, "o despotismo" exercido sobre "bárbaros" obrigados à "obediência absoluta" própria dos escravos e as infâmias da expansão e do domínio colonial lança uma luz inquietante sobre os Estados Liberais, e não só que respeita à sua política interna (Losurdo, 2006, p. 18).

 E dando voz ao próprio Lenin:

 Nós somos partidários da república democrática como sendo a melhor forma de governo para o proletariado sob o regime capitalista, mas andaríamos mal se esquecêssemos que a escravidão assalariada é o quinhão do povo mesmo na república burguesa mais democrática (Lenin, 2007, p. 37).

Ser negro nos Estados Unidos


 Analisar o racismo nos Estados Unidos é algo complicado, do ponto de vista metodológico, por um motivo: as manifestações do racismo mudam de forma de acordo com a época histórica e a localização geográfica na mesma época histórica. È sabido que no Sul do país o racismo sempre foi maior e mesmo no Norte temos estados mais racistas e outros menos racistas.
Dito isso, fica claro que vamos nos centrar nas manifestações de racismo de maior generalidade (as mais comuns) e as mais extremas para percebermos o grau de brutalidade. Vamos começar pelo imediato fim da Guerra de Secessão, o confronto entre Norte industrializado e Sul agrário que pôs fim à escravidão. Ao fim desta, muitos negros eram feitos prisioneiros por uma diversidade de crimes (os negros não tinham direito a ampla defesa e o judiciário tendia a condená-los independente das provas) e alugados a empresários particulares. A situação dessas pessoas era essa:

[...] que os detidos eram excessivamente e, às vezes, cruelmente castigados; que estavam miseravelmente vestidos e alimentados, que os doentes não recebiam cuidados, porque não se providenciara nenhum hospital e eram encerrados junto com os detentos sadios". Uma pesquisa feita pelo grande júri no hospital da penitenciária do Mississipi relatou que os pacientes traziam "todos em seus corpos os sinais dos tratamentos mais inumanos e brutais. Muitíssimos têm as costas dilaceradas pelas bexigas, cicratizes e bolhas, alguns com a pele esfolada depois de cruéis chicotadas...Jaziam moribundos, e alguns deles sobre tábuas nuas, tão fracos e macilentos que os seus ossos eram quase visíveis debaixo da pele, e muitos se lamentavam pela deficiência de alimentação. [...] Os condenados a trabalhos forçados nos campos de terebentáceas da Florida, com "correntes nos pés" e "correntes na cintura" presas aos seus corpos, eram obrigados a trabalhar a trote" (Losurdo apud Woodward, 2008, p. 168).

 Oras, além dos maus tratos, como é de se deduzir, a taxa de mortalidade era absurda. No fim do século XIX, usando prisioneiros negros na construção de linhas ferroviárias, "morreram quase 45%" da força de trabalho (Lusurdo, 2008, 168). A maioria de jovens à flor da vida. No mesmo período, no estado do Alabama, a mortalidade de presos alugados foi: no primeiro ano, 25% de mortos; 35% no ano seguinte e 45% dois anos depois (idem, p. 169). Contudo, é sempre bom lembrar que o aluguel de presos negros não foi só algo do século XIX:

 Os guardas tinham o poder de acorrentar os prisioneiros, de disparar sobre aqueles que tentassem fugir, de torturar quem se recusasse a submeter-se e de açoitar os desobedientes, nu ou vestidos, como estivessem, quase sem limites. Por oito décadas [desde os anos setenta do século XIX até a II Guerra Mundial] quase não houve condenações de um comprador desses escravos por causa dos seus maus-tratos ou da morte deles (Blackmon apud Lusurdo, 2008, p. 177).

 Como diria a música de Sandra de Sá, "a carne mais barata do mercado é a carne negra". Essa longa-duração da banalização da violência sobre o corpo-negro não é achada apenas no aluguel de presos – uma forma velada de manter a escravidão. Em 1997, o presidente Clinton teve que pedir desculpas por, nos anos 60, mais de 400 anos negros terem sido usados como "cobaias humanas pelo governo. Doentes de sífilis, não foram curados porque as autoridades queriam estudar os efeitos da doença sobre uma amostra da população" (Idem, p. 170).

 Mas não basta manter formas disfarçadas à escravidão, é necessário estigmatizar publicamente os negros para mantê-los dominados. No Estado Democrático de Direito dos Estados Unidos, nas primeiras décadas do século XX, era normal negros serem espancados em praça pública em rituais periódicos como forma de manter um terror político-ideológico sobre eles:

 Notícias dos linchamentos eram publicadas em folhetos locais e vagões suplementares eram acrescentados aos trens para espectadores, às vezes milhares, provenientes de localidades a quilômetros de distância. Para assistir ao linchamento, as crianças das escolas podiam ter seu dia livre. O espetáculo podia incluir castração, o esfolamento, a assadura, o enforcamento, os tiros de arma de fogo. Os lembranças a serem adquiridas podiam incluir os dedos das mãos e dos pés, os dentes, os ossos e até as genitálias das vítimas, bem como cartões ilustrados do evento (Woodward apud Losurdo, 2008, p. 317).

 Como podemos ver, os linchamentos eram públicos, abertos, com total conhecimento e apoio do poder público. Os organizadores dos linchamentos pensavam nos mínimos detalhes: "teme-se que os tiros contra os negros possam errar o alvo e atingir espectadores inocentes, que incluem mulheres com os filhos no braço". Mas, para nossos democratas, se tudo fosse feito de acordo com os conformes, "ninguém ficará desapontado" e em um dos linchamentos a reação dos brancos é: "a multidão aplaude e ri pela horrível morte de um negro... Coração e genitálias cortadas do cadáver" (ibidem).

  Mas este quadro de barbarismo ainda não está completo. Foi comum achar notícia de homens inocentes mortos de forma cruel e antes de matar a vítima os seus algozes tinham por prática queimar sua cabana com todos os pertences. Afinal, a família também tinha que ser punida. Por falar em família, era totalmente proibido um negro namorar, casar, constituir família etc., com uma mulher branca. O Estado Democrático dos EUA, além de racista e terrorista, era patriarcal. As mulheres da sociedade eram vistas como posse e, é lógico, que os nossos democratas nunca deixariam os negros manterem relações afetivas com suas "posses":

 Além dos negros, o terror atinge também os brancos que, familiarizando excessivamente com os negros, se tornam traidores de sua raça. É o que resulta já do título de um artigo do Galveston Tribune (Texas) de 21 de junho de 1934: "Uma moça branca é posta na prisão e seu amigo negro é linchado". O fato é que – se comenta alguns dias depois um editorial do Chicago Defender – no estado do Texas, uma mulher branca pode se acassalar-se mais livremente com um cão do que com um negro" (Ginzburg apud Losurdo, 2008, p. 318).

 Agora temos um quadro histórico traçado mais ou menos fiel da situação do negro nos Estados Unidos. Como foi percebido, não falamos em maior profundidade da escravidão, sua amplitude, efeito e conseqüências. Não tratamos da violência sexual comum à mulher negra dos Estados Unidos e não falamos sobre o regime de segregação racial vigente no pós-escravidão: o conjunto de leis Jiw Grow. Evitei falar desses "fatos" por serem mais conhecidos e numa tentativa de fazer o texto um pouco menor.

Ser negro e racismo na União Soviética


 Agora vamos comparar a situação do negro e a questão do racismo na União Soviética. Antes de começarmos, é necessário reforçar um aviso e tratar de um problema metodológico. O aviso é: como falamos no início do texto, nossa intenção não é analisar o sistema político como um todo da União Soviética, mas apenas a situação do negro e a questão do racismo. Uma caracterização maior do sistema soviético não é objetivo desse texto. Um problema metodológico é: na União Soviética tínhamos poucos negros. Então, o fenômeno do racismo, lá, tinha uma fonte e um alvo diferente que nos Estados Unidos. O racismo que a União Soviética combateu era o racismo do qual eram vítimas as centenas de minorias nacionais oprimidas. Mesmo com essa diferença, a comparação se mantém como útil; afinal, mesmo com nuances diferentes, o racismo guarda elementos comuns independente de quais sejam seus alvos.

 O Estado Czarista oprimiu por séculos as pequenas nacionalidades. Essa opressão sempre foi combatida por Lenin e pelo Partido Bolchevique. O grande revolucionário russo fez do direito de autodeterminação das nações oprimidas, um princípio inegociável para os comunistas [3]. Essa política dos Bolcheviques foi reconhecida pelas minorias nacionais. Sua participação foi fundamental para a vitória da revolução:

 Seria difícil exagerar a importância que teve a política nacional para a sobrevivência da União Soviética. Os povos não-russos da periferia do velho império Tzarista adotaram uma posição geralmente simpática para cm o Governo bolchevique. Stálin insistiu sempre em que foi a simpatia pelos bolcheviques nas repúblicas de fronteiras, nos momentos críticos da invasão estrangeira, que possibilitou o sucesso da revolução (Davis, 1978, p. 105).

 Era essencial reverter os anos de práticas racistas e opressoras sobre as nacionalidades. Para isso:

A União Soviética foi o primeiro império mundial fundado sobre a ação afirmativa. O novo governo revolucionário da Rússia foi o primeiro entre os velhos Estados europeus multiétnicos a enfrentar a onda crescente do nacionalismo a responder promovendo sistematicamente a consciência nacional das minorias étnicas e estabelecendo para elas muitas das formas institucionais características do Estado-nação. A estratégia bolchevique foi assumir a liderança daquele processo de descolonização que se apresentava como inevitável e levá-lo a cabo de modo tal que preservasse a integridade territorial do velho império russo. Para tal fim o Estado soviético criou não só uma dúzia de repúblicas de amplas dimensões, mas também dezenas de milhares de territórios nacionais espalhados por toda a extensão da União Soviética. Novas elites nacionais eram educadas e promovidas a posição de lideranças no governo, nas escolas, nas empresas industrias desses territórios recém-formados. Em muitos casos isso tornou necessário a criação de uma língua escrita lá onde antes não existia. O Estado soviético financiava a produção em massa nas línguas não russas de livros, jornais, diários, filmes, óperas, museus, orquestras de música popular e outros produtos culturais. Nada comparável existiria antes (Martin apud Losurdo, 2008, p. 171).

E:

As repúblicas receberam, umas primeiro, outras depois, uma bandeira, um hino, uma língua, uma academia nacional, em alguns casos até um comissariado para o Exterior, e conservaram o direito, depois utilizado em 1991, de separar-se da federação, embora não tenha sido especificado o procedimento (Graziosi apud Losurdo, 2008, p. 172)

 Oras, pode-se, com razão, usar o contraste de uma excessiva centralização do poder na Rússia, certa promoção do nacionalismo russo e práticas autoritárias sobre algumas nacionalidades. Essas objeções são verdadeiras. Contudo, necessitam ser contextualizadas. O nacionalismo russo e a centralização excessiva do poder na Rússia foi resultado da necessidade de uma rápida política de industrialização, modernização e combate ao imperialismo. A União Soviética era um país extremamente atrasado, agrário, sem capacidade produtiva satisfatória e defesa militar. Isso cercado por uma série de potências reacionárias prontas para exterminar o país do mapa: ao Ocidente, a Itália fascista, a Alemanha nazista e a Inglaterra e, ao oriente, o Japão fascista (para dar apenas alguns exemplos). Além disso, era necessário arrumar uma forma de elevar o moral geral do povo em vista do confronto vindouro:

 Num discurso pronunciado em 1931, Stálin lembrou que a Rússia "foi derrotada pelos beis turcos. Foi vencida pelos nobres poloneses e lituanos. Foi derrotada pelos capitalistas ingleses e franceses. Foi superada pelos barões japoneses. Todos a venceram – devido ao seu atraso... Estamos 50 ou 100 anos atrás dos países adiantados. Devemos superar essa distância em 10 anos. Ou fazemos isso ou eles nos esmagam" (Davis, 1978, p. 116).

A URSS comparada aos EUA


 Ou seja, na Rússia czarista, a principal manifestação do racismo era a opressão das minorias nacionais. Essa opressão foi apoiada de forma direta ou indireta por todas as potências ocidentais. O partido bolchevique sempre fez da defesa e da autodeterminação das minorias nacionais um dos pontos centrais do seu programa. Essa defesa fez com que os povos não-russos fossem fundamentais para o triunfo da revolução. No processo de edificação do Estado e da economia soviética tivemos uma ampla política de promoção da igualdade jurídica, política e cultural das minorias nacionais – combatendo de forma eficaz o racismo. Esse processo emancipatório sofreu certa constrição por causa dos processos históricos vigentes; mas, analisando a totalidade, percebemos que os elementos emancipatórios superaram os não emancipatórios.

 Tivemos oportunidade de ver a trágica situação dos negros nos Estados Unidos. O sistema segregacionista Jiw Grow funcionava como uma forma legal de racismo que impedia, dentre outras coisas, os negros de usarem o direito ao voto:

"A técnica de desencorajar o voto de certos eleitores indesejáveis tem uma longa história. Oficialmente, os afro-americanos dispõem do direito de votar desde 1870. Nos estados do sul, porém, há cerca de um século foram impostas condições particulares (testes de idioma e civismo, pagamento de taxas etc.) destinadas a diminuir sua participação social. Com sucesso: no início de 1965, as listas eleitorais do condado de Lowndes, no Alabama, não contabilizavam nenhum dos 12 mil residentes negros do distrito, enquanto apresentavam 118% dos eleitores brancos potenciais. O fim da discriminação veio apenas em agosto daquele mesmo ano, quando o então presidente Lyndon Johnson promulgou o Voting Rights Act. Consequência: se em 1964 apenas 6% dos negros do Mississippi participaram das eleições presidenciais, quatro anos depois esse número aumentou dez vezes." [4]

 Oras, na União Soviética a Constituição de 1937 – chamada de a mais democrática do mundo – criou o sufrágio universal independente de etnia, gênero, nacionalidade ou renda. Todas as minorias nacionais podiam exercer seu direito político de voto. Evidentemente que alguém pode questionar o efeito prático desse sufrágio, mas não deixa de ser significativo que em pleno auge do racismo mundial – com a Alemanha Nazista, o Sul dos EUA e o colonialismo na África e na Ásia – um país vá pela contracorrente e legalize os direitos políticos combatendo o racismo.

 A Constituição Soviética de 1937 também trouxe outra inovação: a criminalização do racismo. Como já dissemos, isso em uma época na qual o racismo não tinha uma conotação negativa. Essa criminalização foi acompanha por uma ampla política cultural de combate ao racismo nas propagandas do partido e do Estado, no sistema educacional, na imprensa e em produções cinematográficas [5]. O resulto disso foi:

Uma negra, delegada no Congresso Internacional das mulheres contra a guerra e o fascismo, que se realiza em Paris em 1934, fica extraordinariamente impressionada com as relações de igualdade e fraternidade, apesar das diferenças de línguas e de raça, que se instauram entre os participantes dessa iniciativa promovida pelos comunistas: 'Era o paraíso na terra'. Aqueles que chegam a Moscou - observa um historiador estadunidense contemporâneo - 'experimentam um sentido de liberdade inaudito no sul'. Um negro se apaixona por uma branca soviética e se casam, mesmo se depois, ao voltar à Pátria, não pode levá-la consigo, sabendo o destino que o sul aguarda aos que se mancham com a culpa da miscegenation e do abastardamento racional (Losurdo, 2010, p. 280-281)

 Essas políticas de promoção da dignidade das minorias nacionais, a criminalização do racismo e a ampla política cultural ao seu combate, combinavam-se com um combate forte e vigoroso ao colonialismo. A Internacional Comunista, quando criada sobre os auspícios de Lenin, colocou entre suas 21 condições de adesão um combate forte e sem tréguas ao colonialismo. O colonialismo foi, sem dúvida, o maior promoter do racismo na história humana. As potências imperialistas usaram o racismo para estruturar os mecanismos de poder e dominação. A Internacional comunista foi fundamental para dar o primeiro grande impulso de libertação para os povos coloniais:

 Difundiam-se, com certa regularidade, notícias da penetração da propaganda bolchevista nas colónias portuguesas, a exemplo da "mensagem aos trabalhadores brancos e negros" assinada por Lênin e G. Thcitcherine e cuja cópia foi encontrada pelo chefe da circunscrição da Mossurize (então território da Manica e Sofala), em 1919, entre as mãos de um indígena de Johanesburgo. Circulam igualmente informações da passagem, em outubro de 1927, por Lourenço Marques, de um suspeito comunista, "o cidadão da Livónia russa de Bakin" e no mesmo mês foi repercutido um telegrama confidencial do Ministério português da Colónias comunicando a intenção de dois "comunistas" Dmitri Rodaien (ou Rodaiev?) e Senes Chapiro, acompanhados do português José Almendroa, se dirigiam à Guiné, Angola e eventualmente a Moçambique "em reunião de propaganda comunista especialmente encarregados de ativar com elementos locais o desenvolvimento da incidentes graves intervencionais entre as nossas colónias e as colónias inglesas" (Andrade, 1999, p.179).

 Todas essas ações não deixaram de afetar a dominação racial nos Estados Unidos. O Partido Comunista daquele país começava a ganhar muito espaço nos guetos negros; os negros começavam a olhar com cada vez mais admiração a União Soviética e isso provocou muitos efeitos:

 A URSS de Stalin influencia poderosamente a luta dos afro-americanos (e dos povos coloniais) contra o despotismo racial. No Sul dos EUA se assiste a um fenômeno novo e preocupante do ponto de vista da casta dominante: é a crescente 'imprudência' dos jovens negros. Estes, graças aos comunistas, começam, de fato, a receber o que o poder teimosamente lhes negava, a saber, uma cultura que vai muito além da instrução elementar tradicionalmente transmitida aos que estão destinados a fornecer trabalho semiescravo a serviço da raça dos senhores. Agora, porém, nas escolas organizadas pelo partido comunista no norte dos Estados Unidos ou nas escolas de Moscou, na URSS de Stalin, os negros se empenham em estudar economia, política, história mundial; interrogam essas disciplinas para compreender também as razões da dura sorte reservada a eles num país que se comporta como campeão da liberdade. Aqueles que frequentam tais escolas passam por uma mudança profunda: a "imprudência' censurada a eles pelo regime de white supremacy é na realidade a autoestima deles, até aquele momento impedida e espizinhada (Losurdo, 2010, p. 280-281)

 Então temos aqui um aparente paradoxo interessante: os Estados Unidos se apresentam e são apresentados pela ideologia dominante como o principal representante da liberdade e da democracia prometidas pela burguesia; a União soviética era mostrada como o inferno na terra, o reino de horror e totalitarismo; contudo, os negros do "país da liberdade" olhavam para a URSS como o exemplo de liberdade e viviam em um grande despotismo terrorista em seu país.

Conclusão


 Como demonstramos, para um negro os Estados Unidos e não a União Soviética é que representavam o autoritarismo, a violência brutal e o despotismo. Enquanto a potência capitalista manteve e mantém [6] durante toda sua história práticas racistas e genocidas contra o povo negro (e os índios), o Estado Soviético foi o primeiro país do mundo a criminalizar o racismo, promover uma ampla política cultural de combate ao racismo, promover a dignidade e a igualdade das minorias nacionais secularmente oprimidas e ser um instrumento de luta e grande referência na libertação dos povos coloniais, vítimas do racismo e da dominação mais brutal.

 O texto também mostrou, embora esse não seja seu ponto central, que a idéia da ideologia dominante de que as experiências socialistas do século XX só significaram terror e tragédias para as minorias (negros, mulheres, gays, etc.) não passa de uma idéia deformada e que não corresponde à factualidade histórica.

Notas

[1] Uma crítica destruidora da categoria de totalitarismo: http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo100critica17-A-losurdo.pdf.

[2] Livro com dois títulos a depender da edição. Ou "Da Revolução" (edições mais antigas) ou "Sobre a Revolução (edições mais atuais).

[3] Famoso ensaio de Lenin Sobre o Direito das Nações à Autodeterminação: http://www.marxists.org/portugues/lenin/1914/auto/cap01.htm.

[4] Matéria completa: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1745.

[5] Filme Soviético de 1936 satirizando o racismo: https://www.youtube.com/watch?v=UMVHDfMYmx8.

[6] Matéria sobre a situação atual dos negros.

Livros citados

Domenico Losurdo. Liberalismo. Entre a civilização e a barbárie. Anita Garibalde, 2006.

---------- Stalin: uma história crítica de uma lenda negra. Editora Revan, 2010.

V. I. Lenin. O Estado e a Revolução. Expressão Popular, 2007.

Mário Pinto Andrade. Origens do nacionalismo africano. Publicações Dom Quixote Lisboa, 1990.

Horace B. Davis. Para uma teoria marxista do nacionalismo. Editores Zahar, 1978.


VER TAMBÉM: 29 propagandas soviéticas promovendo a igualdade racial 

A URSS comparada aos EUA

Artigo de Antônio Santos retirado do jornal Avante!






Há pouco tempo, quando falava num debate sobre os problemas sociais dos EUA (o país em que vivo), perguntaram-me se achava o sistema soviético melhor que o americano.

A ratoeira estava montada: depois das derrotas do socialismo no Leste da Europa, a cultura dominante proibiu a esquerda afiançada de ''democrática'' de falar da URSS sem primeiro, a título de portagem, a condenar ou renegar. E mesmo assim, nem depois da costumeira demonização em piloto-automático, ouvimos falar dos enormes marcos civilizacionais soviéticos.

É óbvio que os EUA não podem ser, em rigor, comparados à URSS. Quando em 1917 os EUA eram um dos países mais avançados do mundo, a Rússia era um obscuro império feudal. De resto, quando se trata de comparar o socialismo ao mundo capitalista, é este último que define os termos, confrontando a realidade do capitalismo com o seu passado efectivo e a realidade do socialismo com o seu prospectivo futuro.

Mas qual seria o resultado se o critério fossem as conquistas sociais? Aceitemos pois, com esta justíssima condição, a pergunta armadilhada de saber «qual era o melhor sistema» e, sobretudo, «para quem».

O que nunca te disseram sobre a URSS


Em 50 anos, a produção industrial soviética passou de 12 para 85% da alcançada pelos EUA e a pátria de Lenine logrou patamares inéditos de igualdade, segurança, saúde, habitação, emprego, educação e cultura. O socialismo pôs fim à inflação, à discriminação racial e à pobreza extrema. A esperança média de vida duplicou e a mortalidade infantil caiu 90%. Segundo a UNESCO, nunca uma sociedade tinha elevado tanto o nível de vida da população em tão pouco tempo. Ao contrário dos Estados Unidos, perpetuamente assolados por epidemias de desemprego, em apenas 20 anos o país dos sovietes atingiu o pleno emprego.

Os direitos laborais nos EUA continuam hoje 80 anos atrás dos soviéticos: os norte-americanos trabalham em média quase 9 horas diárias. Já os soviéticos trabalhavam 7 horas por dia desde 1936. Os norte-americanos gozam em média 8 dias de férias, amiúde não remunerados. Já os soviéticos tinham direito a um mês de férias inteiramente pagas. Os EUA são o único país da OCDE que não contempla um único dia de licença de maternidade. Na URSS, as mulheres tinham direito a 20 meses de licença paga.

Os EUA não dispõem de um sistema público de saúde, o que condena diariamente 125 trabalhadores à morte. Tal não se passaria na URSS, que oferecia cuidados médicos gratuitos a toda a população. Os jovens norte-americanos contraem uma dívida média de 80 mil dólares durante a licenciatura. Na URSS, todos os graus de ensino, do pré-escolar ao pós-doutoramento, eram gratuitos. Na terra do Tio Sam os trabalhadores gastam metade do seu salário em habitação e serviços básicos. Na URSS, a renda da casa representava 2% do orçamento familiar e os serviços básicos 4%.

A URSS era também uma sociedade mais culta que os EUA. Em 1917, na Quirguízia, menos de 0,2% da população sabia ler e escrever. Em 1970 esse número chegava aos 97%. Nessa década, a URSS foi reconhecida pela UNESCO como o país do mundo onde se liam mais livros e viam mais filmes. As famílias soviéticas assinavam em média quatro publicações periódicas, o número de visitantes de museus representava metade da população e a frequência de teatros ultrapassava o seu total. Nos EUA cerca de 25% da população são tecnicamente «iletrados» (incapaz de compreender textos simples).

Anões aos ombros de gigantes


Como agora a direita europeia reconhece, o próprio Estado Previdência foi uma cedência arrancada a ferros pelos trabalhadores à burguesia, em parte pela necessidade de competir com a URSS em matéria de conquistas sociais.

Bernardo de Chartres, um filósofo do século XII, comparou os feitos da sua geração à figura de «anões aos ombros de gigantes». Também nós devemos reconhecer os benefícios duradouros que colhemos da experiência soviética, afinal, a URSS destruiu sozinha 70% do exército de Hitler e libertou o mundo do genocídio nazi, pagando-o com mais de 24 milhões de vidas e 70 mil cidades e vilas em escombros.

Uma terra sem amos


Com o fim da URSS, o número de pobres aumentou mais de 150 milhões, a economia e os salários encolheram mais de 50%. 75% dos russos caíram na miséria e doenças antes erradicadas atingiram proporções epidémicas. A esperança média de vida caiu para os níveis do século XIX.

Os EUA venceram a guerra fria, mas são todos os dias derrotados pela pobreza de 50 milhões, pela maior taxa de população prisional do mundo e por dois milhões de crianças sem tecto. Na URSS, as crianças não dormiam na rua e a democracia não ficava à entrada da fábrica. Foi o mais perto que a humanidade chegou de construir uma terra sem amos.

A URSS foi uma flor rara, de beleza extraordinária e difícil cultivo, que já antes tinha sido arrancada, com apenas dois meses de vida, quando a Comuna de Paris foi esmagada. E mesmo assim voltou a crescer, mais viçosa e resiliente num improvável sulco russo. Extinta a União Soviética, sobrevivem sementes que um dia darão flores novas

''Opressivo e cinzento? Não. Viver no socialismo foi a época mais feliz da minha vida''

Artigo originalmente publicado no Daily Mail e traduzido pelo Diário Liberdade. 



A autora do artigo, Zsuzsanna Clark, como estudante de Ensino Primário na Hungria socialista

''Quando as pessoas me perguntam como era crescer atrás da Cortina de Ferro, na Hungria nos anos setenta e oitenta, a maioria espera escutar contos sobre polícia secreta, as filas nas padarias e outras declarações desagradáveis sobre a vida em um Estado de partido único

Eles ficam sempre desapontados quando explico que a realidade era muito diferente, e a Hungria socialista, longe de ser o inferno na terra, era, na verdade, um ótimo local para viver. Os comunistas proporcionavam a todos com trabalho garantido, boa educação e atendimento médico gratuito.

Mas talvez o melhor de tudo fosse a sensação primordial da camaradagem, o espírito que falta em minha adotada Grã-Bretanha e, de igual forma, a cada vez que volto à Hungria atual.

Eu nasci em uma família de classe trabalhadora em Esztergom, uma cidade no norte da Hungria, em 1968. Minha mãe, Juliana, veio do este do país, a parte mais pobre. Nascida em 1939, teve uma infância dura. Deixou a escola aos 11 anos e foi diretamente trabalhar nos campos. Ela recorda ter tido que se levantar às 4 da manhã para caminhar cinco quilômetros e comprar um pão. De menina, ela tinha tanta fome que com frequência esperava junto à galinha até que pusesse um ovo. Então abria-o e engolia, cruas, a gema e a clara.

Foi o descontentamento com aquelas condições dos primeiros anos do socialismo, que conduziu à revolta húngara de 1956.

Os distúrbios fizeram com que as lideranças comunistas compreendessem que só poderiam consolidar suas posições tornando as nossas vidas mais toleráveis. O estalinismo acabou e o 'comunismo goulash' -- um tipo original de socialismo liberal -- chegou.

Janos Kadar, o novo líder do país, transformou a Hungria na barraca mais feliz do Leste da Europa. Tínhamos provavelmente mais liberdades que em qualquer outro país socialista.

Uma das melhores coisas foi a maneira como as oportunidades de lazer e férias se abriram a todos. Antes da Segunda Guerra Mundial, as férias estavam reservadas para as classes altas e médias. Nos imediatos anos da pós-guerra também, a maioria dos húngaros estava trabalhando muito duro para reconstruir o país, as férias ficavam fora de questão.

Porém, nos anos sessenta, como em muitos outros aspectos da vida, as coisas mudaram para melhor. No final da década, quase todo mundo podia se dar ao luxo de viajar, graças à rede de subsídios a sindicatos, empresas e cooperativas de centros de férias.

Meus pais trabalhavam em Dorog, uma cidade próxima, por Hungaroton, uma companhia discográfica de propriedade estatal, de modo que ficamos no acampamento de férias da fábrica no lago Balaton, o 'mar húngaro'. O acampamento era similar à espécie de colônias de férias na moda na Grã-Bretanha da época, a única diferença era que os hóspedes tinham que fazer seu próprio entretenimento às noites. Não havia campos de férias tipo Butlins Redcoats.

Algumas das minhas primeiras lembranças da vida no lar são os animais que meus pais mantinham no quintal. A cria de animais era algo que a maioria da gente fazia, bem como o cultivo de hortaliças. Fora de Budapeste e as grandes cidades, nós éramos uma nação de 'Toms e Barbaras Good' (nota: referência à série da BBC dos anos 70 'The Good Life', protagonizada por uma família auto-suficiente).

Meus pais tinham por volta de 50 frangos, porcos, coelhos, patos, pombos e gansos. Mantivemos os animais não só para alimentar a nossa família, como também para vender a carne a nossos amigos. Utilizaram-se as penas de ganso para travesseiros e edredões.

O governo entendeu o valor da educação e da cultura. Antes da chegada do socialismo, as oportunidades para os filhos dos camponeses e da classe operária urbana, como eu, para ascender na escala educativa eram limitadas. Tudo isso mudou após a guerra.

O sistema educativo na Hungria era similar ao existente no Reino Unido na época. A Educação Secundária era dividida por níveis: Elementar, Secundário Especializado e Formação Profissional. As principais diferenças eram que estávamos no Ensino Básico até os 14 anos e não até os 11.

Havia também ensino noturno, para crianças e para pessoas adultas. Os meus pais, que tinham abandonado a escola de novos, iam a aulas de Matemática, História e Literatura Húngara e Gramática.

Eu adorava os ir à escola e principalmente fazer parte dos Pioneiros - um movimento comum a todos os países comunistas.

Muitos em Ocidente achavam que era uma burda tentativa de doutrinar a juventude com a ideologia comunista, mas sendo pioneiros ensinaram-nos habilidades valiosas para a vida, tais como a cultura da amizade e a importância de trabalharmos para o benefício da comunidade. 'Juntos um para o outro' era nosso lema, e assim foi como se nos encorajava a pensar.

Como pioneiro, se obtinha bons resultados em teus estudos, no trabalho comunal ou em competições escolares, podia ser premiado com uma viagem a um acampamento de verão. Eu ia todos os anos, porque participava em quase todas as atividades da escola: competições, ginástica, atletismo, coro, fotografia, literatura e biblioteca.

Em nossa última noite no acampamento de Pioneiros, cantávamos canções ao redor da fogueira, como o Hino Pioneiro: 'Mint a mokus fenn a fan, az uttoro oly vidam' ('Somos tão felizes como um esquilo em uma árvore'), e outras canções tradicionais. Nossos sentimentos sempre foram misturados: tristeza ante a perspetiva de irmos embora, mas contentes ante a ideia de vermos nossas famílias.

Hoje em dia, inclusive os que não se consideram comunistas olham para atrás com saudade para seus dias de pioneiros.

As escolas húngaras não seguiam as chamadas ideias 'progressistas' sobre a educação dominantes na altura em Ocidente. Os padrões acadêmicos eram extremamente altos e a disciplina era estrita.

Minha professora favorita ensinou-nos que sem o domínio da gramática húngara iriamos carecer de confiança para articular os nossos pensamentos e sentimentos. Só podíamos cometer um erro se queríamos atingir a nota mais alta.

Com 14 anos, a Zsuzsanna (à direita) com uma amiga ainda antes da volta da Hungria ao capitalismo.


Diferentemente do Reino Unido, tínhamos exames orais em todas as matérias. Em Literatura, por exemplo, tínhamos que memorizar e recitar diferentes textos e depois a/o estudante teria que responder perguntas colocadas oralmente pola professora.

Sempre que tínhamos uma celebração nacional, eu era das que pediam para recitar um poema ou verso em frente de toda a escola. A cultura era considerada extremamente importante pelo governo. Os comunistas não queriam restringir as coisas boas da vida para as classes altas e médias -- o melhor da música, a literatura e a dança eram para o desfrute de todos.

Isto significava subsídios generosos para as instituições, incluindo orquestras, óperas, teatros e cinemas. Os preços dos ingressos eram subsidiados pelo Estado, daí que as visitas à ópera e ao teatro fossem acessíveis.

Abriram-se 'Casas da Cultura' em cada vila e cidade, também provinciais, para que a classe trabalhadora, como meus pais, pudessem ter fácil acesso às artes cênicas, bem como aos melhores intérpretes.

A programação na televisão húngara refletia a prioridade do regime para levar a cultura às massas, sem idiotização.

Quando eu era adolescente, a noite do sábado em prime time pelo geral significava ver uma aventura de Jules Verne, um recital de poesia, um espetáculo de variedades, uma obra de teatro ao vivo, ou um simples filme de Bud Spencer.

Grande parte da televisão húngara era feita com produção própria, mas alguns programas de qualidade eram importados, não unicamente do Bloco do Leste, mas também do Oeste.

Os húngaros de inícios dos anos 70 acompanharam as aventuras e tribulações de Soames Forsyte em The Forsyte Saga, tal como o público britânico tinha feito poucos anos antes. The Onedin Line foi uma outra das séries populares da BBC que eu desfrutei, assim como os documentários de David Attenborough.

No entanto, o governo estava atento ao perigo de nos tornarmos uma nação de telespectadores imbecilizados.

Todas as segundas-feiras, tínhamos 'noite familiar'. Aí a televisão estatal ficava fora do ar e isso encorajava as famílias a fazerem outras coisas juntas. Também era chamada "noite dos planos familiares" e eu tenho certeza que um estudo do número de crianças concebidas durante as segundas-feiras familiares seria uma boa leitura.

Ainda que vivêssemos no 'comunismo goulash' e tivéssemos sempre comida suficiente para comer, não eramos bombardeados com publicidade de produtos que não precisávamos.

Durante a minha juventude, vesti roupas em segunda mão, como a maior parte das pessoas novas. A minha mochila escolar era da fábrica onde meus pais trabalhavam. Que diferença com a Hungria de hoje, onde as crianças são intimidadas, tal como no Reino Unido, por usarem uns tênis da 'pior' marca.

Como a maioria da gente na era comunista, meu pai não tinha obsessão com o dinheiro. Como mecânico, ele cobrava às pessoas com justiça. Uma vez vi um carro avariado com o capô aberto - um espetáculo que sempre o fazia reagir. Pertencia a um turista da Alemanha Ocidental. Meu pai arranjou o carro, mas negou-se a cobrar-lhe, nem que fosse com uma garrafa de cerveja. Para ele era natural que a ninguém pudesse aceitar dinheiro por ajudar a alguém com problemas.

Quando o socialismo na Hungria terminou em 1989, não só fui surpreendida, também estava entristecida, tal como muitos outros. Sim, tinha gente se manifestando contra o governo, mas a maioria das pessoas comuns -- eu e minha família incluída -- não participou nos protestos.

Nossa voz -- a voz daqueles cujas vidas foram melhoradas pelo socialismo -- rara vez se escuta quando se trata de discussões sobre como era a vida por trás da Cortina de Ferro. Em troca, os relatos que se escutam no Ocidente são quase sempre da perspetiva de emigrantes ricos ou dos dissidentes anticomunistas com um interesse pessoal.

O socialismo na Hungria teve seu lado negativo. Enquanto as viagens a outros países socialistas não tinham nenhuma restrição, viajar para o oeste era problemático e só era permitido a cada dois anos. Poucos húngaros (eu incluída) desfrutaram das aulas de russo obrigatórias.

Tinha restrições menores e desnecessários setores burocráticos, e a liberdade para criticar o governo estava limitada. No entanto, apesar disto, acho que, em seu conjunto, as caraterísticas positivas ultrapassam as negativas.

Vinte anos depois, a maior parte destes benefícios foram destruídos.

As pessoas já não têm estabilidade no emprego. A pobreza e a delinquência vão em aumento. Pessoas da classe trabalhadora já não podem se dar ao luxo de ir à ópera ou ao teatro. Tal como na Grã-Bretanha, a televisão atonta em um grau preocupante -- ironicamente, nunca tivemos Big Brother durante o socialismo, mas hoje temos. E o mais triste de tudo, o espírito de camaradagem que uma vez se desfrutou quase desapareceu.

Nas últimas duas décadas é possível que tenhamos aumentado o número de shoppings, a 'democracia' multipartidarista, os celulares e a internet. Mas perdemos muito mais.''



NOTA: No artigo original (e na versão traduzida pelo Diário liberdade) a autora muitas vezes usa o termo 'comunismo' ao invés de 'socialismo', uma pequena confusão quanto ao fato de o regime húngaro, tal como as outras transições socialistas, ser liderado pelo partido comunista (e buscar alcançar o comunismo). Corrigi tais coisas na versão aqui postada.

72% da população da Hungria afirma que vivia melhor no socialismo

Hungria - LibreRed - [Tradução do Diário Liberdade]




 Enquanto a Ucrânia avança para o que considera ser o seu sonho europeu, dentro da UE cada vez são mais os países que veem as suas esperanças frustradas. A Hungria á um de eles, onde 72% da população afirma que vivia melhor sob o socialismo.

 A União Europeia, símbolo do apoio e de força econômica, um grupo exclusivo de Estados com uns níveis de vida exigentes, mas que em ocasiões acaba afogando. "Tenho 72 anos e continuo a trabalhar, porque agora não poderia viver da minha pensão. Não poderia manter a qualidade de vida que tinha há 50 anos", comenta um residente em Budapeste, capital da Hungria. "As faturas têm subido mais depressa do que as pensões. Há 20 anos um podia reformar-se aos 55 e viver tranquilamente. Agora é impossível. Continuo a trabalhar", explica uma mulher.

 O estudo, realizado por Pew Research, um centro de investigações que analisa a opinião pública, evidenciou em 2010 que 72% dos húngaros estavam seguros de que a situação atual da maioria da população do país era pior que sob o comunismo. Ainda mais: 94% qualificou a economia do país em geral como "má". Desde então, a situação não parece ter mudado muito.

"Os últimos dez anos desperdiçaram-se. O nível de vida dos húngaros é inferior ao de há uma década. O consumo familiar é inferior ao de então e o investimento também. Por isso, esta visão da população condiz com a realidade", comenta András Vértes, presidente do Centro de Investigações Econômicas GKI.

 No entanto,  nesta visão existe uma brecha geracional. Quem não conheceu os tempos comunistas, está satisfeito com a nova etapa que lhe tocou viver. "Estou contente com o nível de vida atual. Creio que é muito mais fácil sair do país e viajar. Acho que a entrada na Uniao Europeia foi um passo acertado para a Hungria", comenta uma jovem residente em Budapeste. "A capital melhorou, por exemplo, agora temos novas infraestrutura graças aos fundos europeus", destaca outra jovem.

 Segundo dados oficiais, quase 30% do total dos investimentos no antigo país socialista proveem de sócios da União Europeia. "Não seria honesto dizer que não temos influência de Bruxelas nas nossas políticas, (...) mas é  importante manter a maior margem de manobra, tanta liberdade como for possível, soberania nacional e a capacidade do Governo de velar polos interesses do país (...). Estamos a tentar olhar ao este para estabelecer relações comerciais com países da Ásia Central, com ex repúblicas soviéticas e também com outros países de oriente. Mas isso leva tempo", pontua Gábor Orbán, secretário de Estado do Ministério da Economia da Hungria.

 Apesar de a Hungria reconhecer os compromissos que supõem fazer parte do clube europeu, ainda está fora da eurozona: os preços continuam a estar em florins. O Governo não prevê a adoção do euro nem no curto nem no médio prazo.