terça-feira, 9 de junho de 2015

Concepções erradas acerca do neoliberalismo

por Prabhat Patnaik






 O neoliberalismo muitas vezes é encarado apenas como uma política económica. Isto por si pode não importar, uma vez que um conjunto específico de medidas económicas cai, sem dúvida, sob a categoria de neoliberalismo. Mas ao reduzir o neoliberalismo apenas a um conjunto de medidas económicas por vezes é transmitida a impressão enganosa de que tais medidas são uma questão de escolha por parte da formação política burguesa dominante, isto é, que um conjunto "não neoliberal" de medidas também poderia ser seguido, mesmo nas condições do capitalismo contemporâneo, bastando apenas que a formação política burguesa instalada no governo assim o decidisse.

 Reduzir o neoliberalismo a uma mera política económica abre caminho para esta concepção errada. Na verdade, o neoliberalismo é de facto uma mera descrição (e bastante má) de todo um conjunto de medidas que estão necessariamente associadas à hegemonia da finança globalizada. Estas medidas não são uma matéria de escolha por parte de alguma formação política burguesa particular; elas teriam de ser adoptadas na época contemporânea por qualquer formação política burguesa, isto é, desde que o país permaneça dentro da órbita capitalista, de onde se segue que qualquer formação política que pretenda seriamente anular estas medidas teria necessariamente de estar preparada para transcender o capitalismo. Ela pode ter de fazer isso, sem dúvida através de toda espécie de complexos passos tácticos, mas não pode tranquilizar-se fazendo vista grossa para a necessidade de assim fazer. Este ponto adquire particular significância no contexto da Grécia de hoje e de outros países europeus que no futuro possam vir a ter governos de esquerda anti-"austeritários".

 O ponto a destacar aqui é análogo àquele que Lenine apontou contra Karl Kautsky na questão do imperialismo. Ele acusou Kautsky de pensar acerca do imperialismo como uma política e dessa forma sugerir que uma política não imperialista também seria possível naquele tempo, ou na base do próprio capitalismo monopolista ou através de uma regressão do monopolismo outra vez à "livre competição", da qual havia emergido. Mas tais possibilidades, argumentou ele, eram absolutamente irreais e representavam uma absoluta lavagem cerebral, ou uma fantasia "pequeno-burguesa".
Para sublinhar que não se pode destacar o imperialismo do capitalismo monopolista desta maneira, que não se tratava de uma "política" que pudesse ou não ser adoptada conforme a vontade do governo dominante sob o capitalismo monopolista, ele definiu o imperialismo como a fase monopolista do capitalismo. A réplica de Kautsky a isto, nomeadamente de que se alguém definiu imperialismo como capitalismo monopolista, então esse alguém não provou a "necessidade" do imperialismo para o capitalismo mas simplesmente avançou-a como definição, também emergia naturalmente da sua posição. Eles apenas exprimiu a sua percepção de que a necessidade do imperialismo era um assunto independente o qual tinha de ser tratado separadamente, de onde se seguia como uma possibilidade manter o capitalismo monopolista mas abolir esta necessidade, isto é, que uma política não imperialista seria possível naquele tempo mesmo sem transcender o capitalismo.

 De modo exactamente análogo, o neoliberalismo não é uma coisa separada e destacável do capitalismo contemporâneo. Ele é o capitalismo contemporâneo, uma manifestação deste capitalismo contemporâneo, caracterizado pela hegemonia do globalizado, isto é, do capital financeiro, internacional.

 Frequentemente encontramos uma imagem espelhada deste argumento da "separabilidade" quanto à "globalização", a qual predomina em círculos de esquerda, especialmente na Europa. Este argumento sustenta que a "globalização" que hoje se verifica é uma coisa "boa", muito embora o capitalismo contemporâneo seja "mau", de modo que deveríamos de algum modo reter esta "globalização" mesmo enquanto tentamos transcender o capitalismo contemporâneo. O que faz esta argumentação é destacar a "globalização" contemporânea do capitalismo contemporâneo e sugerir que deveríamos reter uma mas não o outro. Mas a "globalização" que se está hoje a verificar não é menos manifestação do capitalismo contemporâneo do que as medidas económicas abrangidas pelo termo neoliberalismo. Assim como não podemos nos livrar do neoliberalismo e ao mesmo tempo reter o capitalismo contemporâneo, da mesma forma não podemos nos livrar do capitalismo contemporâneo e ao mesmo tempo reter a globalização contemporânea. Eles em conjunto constituem uma unidade integral que tem de ser transcendida. Através de que passos tácticos particulares se faz isto é uma questão separada, mas imaginar que um componente disto pode ser retido enquanto o outro é descartado é ignorar esta unidade. Isto equivale a lavagem cerebral.

CAPITALISMO DESENFREADO

 A questão que se levanta é: quais são os traços característicos desta unidade que constitui o capitalismo contemporâneo? Obviamente aqui só se pode aflorar alguns deles, mas todos eles decorrem do facto de que o capitalismo de hoje é um "capitalismo desenfreado". A restrição que o capitalismo enfrentava quando estava empenhado numa luta contra a aristocracia (a qual havia entre outras coisas forçado a aprovação de legislações fabris na Inglaterra); a restrição que o capitalismo enfrentava quando estava empenhado numa luta contra a ascensão do proletariado, quando o encarava como se o socialismo estivesse prestes a conquistar o mundo; e a restrição que o capitalismo enfrentava quando estava organizado em linhas "nacionais", quando o capital financeiro "nacional" tentava impor-se sobre o Estado-nação contra a resistência dos trabalhadores, especialmente no período pós segunda guerra quando esta resistência forçou a instituição da democracia eleitoral nos países capitalistas avançados: esta conjuntura de restrições parece por agora tem sido suspensa. O desafio socialista diminuiu por enquanto; e a "globalização" do capital forçou Estados-nação, mesmo aqueles cujos governos obtêm apoio da classe trabalhadora, a aceder às exigências deste capital. As características do capitalismo contemporâneo portanto decorrem de certo modo desta conjuntura de "capital desenfreado". O que são estas características que são imanentes ao capitalismo, mas estão agora a serem exprimidas com uma "liberdade" sem precedentes?

 Uma é o propagar da mercantilização (commoditisation) numa escala até agora nunca vista. De particular relevância aqui é a mercantilização de sectores como educação e saúde. No país capitalista mais velho do mundo, a Inglaterra, mais de dois séculos decorreram desde a revolução industrial, antes de a esfera da educação superior ficar aberta à obtenção de lucro privado. A mercantilização da educação superior tem duas implicações. Uma é que aqueles que são os produtos desta também são meras mercadorias com pouca sensibilidade social e o que é verdade para os países capitalistas avançados verifica-se com muito maior força nos chamados países capitalistas "emergentes". A destruição da sensibilidade social entre os produtos da educação superior é executada aqui com muito maior extensão. O outro é uma tentativa de mercantilizar seja o que for que reste da resistência intelectual ao capitalismo e portanto enfraquecê-la.

 A segunda característica é uma destruição implacável da pequena produção. Historicamente o capitalismo subjugou a pequena produção (ou, mais geralmente, a produção pré capitalista) para os seus próprios objectivos através do colonialismo, sem necessariamente suplantá-la (excepto nas regiões temperadas de colonização branca onde a terra dos "nativos" foi tomada pelos imigrantes das metrópoles); mas contra tal subjugação também houve resistência maciça dos pequenos produtores. Na nossa própria história, a cadeia de revoltas, desde a revolta do Indigo ao levantamento de 1857, culminando num apoio do campesinato em grande escala à luta de libertação anti-colonial, são exemplos óbvios de tal resistência. A descolonização trouxe restrição a esta subjugação, mas o capitalismo contemporâneo, negando os regimes económicos dirigistas pós coloniais e integrando as oligarquias corporativo-financeiras das nações ex-coloniais no corpus do capital financeiro internacional, não só ressuscitou este processo implacável de subjugação de pequenos produtores como está agora a embarcar num processo maciço de expropriação (dispossession) de tais produtores, de "acumulação primitiva de capital" nua, da qual a "Lei de tomada da terra" ("Land Grab Bill") actualmente no parlamento indiano é um exemplo óbvio. O fenómeno de 200 mil camponeses cometerem suicídio após a assimilação da Índia dentro do mundo hegemonizado pelo capital financeiro internacional revela a severidade deste processo.

 O terceiro é um enorme aumento da desigualdade económica , não só em riqueza mas também em rendimentos e não só globalmente, entre os trabalhadores do mundo e as oligarquias corporativo-financeiras mundiais, mas também dentro de cada país, entre estes dois pólos dentro de cada país. Este problema tornou-se tão significativo que o livro de Thomas Piketty se tornou um best-seller instantâneo. E mesmo a cimeira económica de Davos dos líderes mundiais do capital listou-a como uma das três principais questões que confrontam a "espécie humana". A razão para este aumento da desigualdade é que enquanto o exército de reserva mundial do trabalho permanece grande e em toda plenitude, suas consequências destrutivas, de não permitir que as taxas de salário reais aumentem, agora não estão confinadas apenas aos países do terceiro mundo onde existem grandes reservas de trabalho. Elas estendem-se aos países capitalistas avançados cujos trabalhadores também têm de evitar reivindicações de aumentos salariais, temendo que o capital, agora "globalizado", se mude para países do terceiro mundo com salários mais baixos. Portanto, com salários reais por toda a parte a não aumentarem, todos os aumentos na produtividade do trabalho aumentam a fatia do excedente no produto e em consequência a desigualdade do rendimento. Isto ocorre globalmente bem como dentro de cada país.

CRESCIMENTO DA FOME MUNDIAL

 Um aspecto deste fenómeno é o crescimento da fome mundial. Sugerimos acima que salários reais permanecem ligados a algum nível de subsistência em países do terceiro mundo. Mas mesmo isto não acontece. A privatização da educação, saúde e outros serviços essenciais aumenta os seus custos enormemente, o que corrói o poder de compra dos trabalhadores e realmente reduz sua despesa real per capita com alimentos. Quando acrescentamos a isto, que basicamente afecta os trabalhadores empregados ou "exército do trabalho na activa", o facto de que a expropriação de pequenos produtores também incha o exército de reserva, a escala de aumento na magnitude da fome mundial torna-se entendível.

 A quarta característica está ligada a este aumento na desigualdade. Um tal aumento produz ao nível mundial uma tendência rumo à super-produção (uma vez que uma mudança de distribuição do rendimento dos trabalhadores para os grandes capitalistas tem como efeito deprimir a procura). Numa situação em que os Estados-nação que confrontam o capital internacional têm pouca opção a não ser obedecer ao seu diktat, o capital utiliza este facto para extorquir novas concessões do Estado com o fundamento de que tais concessões, ao melhorarem o estado de confiança dos "investidores", superariam a crise de super-produção. Em suma, foi construída na conjuntura contemporânea uma dialéctica de crescente desigualdade de rendimento, persistindo ou mesmo acentuando a crise económica e o crescente poder de classe do capital – que realmente agrava tanto a desigualdade como a crise mas que paradoxalmente é defendida como um caminho de saída da crise.

 A quinta característica decorre da anterior. As instituições democráticas tais como existem em países capitalistas resultaram de lutas dos trabalhadores. Uma vez que esta "restrição" da militância de trabalhadores foi levantada, a tendência natural do capitalismo seria afundar tais instituições (também, inter alia, mercantilizando-as). Entretanto, além da persistente dialéctica mencionada acima, de desigualdade crescente, crises persistentes e aumento do poder de classe do capital, a qual é justificada em nome da superação da crise que no entanto persiste, aumenta o temor do capitalismo, e a sua hostilidade, a instituições democráticas. Desde financiar grupos fascistas, dividir o povo de acordo com linhas étnicas e religiosas, o flagrante recurso à mentira (como no caso da guerra do Iraque), à supressão absoluta de instituições democráticas, todo um conjunto de métodos é empregue para assegurar que tais instituições sejam adequadamente enfraquecidas. Ao mesmo tempo, a tentativa de manter o povo dividido cria uma situação de desintegração social. O recurso ao autoritarismo político e a desintegração social tornam-se então a marca inconfundível do capitalismo contemporâneo.

O artigo se encontra em http://resistir.info/patnaik/neoliberalismo_17mai15.html

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Rumo ao ''crash''?


Michael Roberts comenta sobre a especulação em torno dos últimos números de crescimento da China (artigo originalmente publicado aqui); tradução realizada pela página Café Socialista.



O crescimento reduz a marcha


 Há cerca de um mês, o Banco do Povo da China anunciou um corte em sua taxa de juros de referência, para algo ligeiramente acima de 5% ao ano. Esta foi a terceira redução da taxa desde novembro de 2014. O governo está claramente preocupado com a possibilidade de que a economia chinesa esteja reduzindo sua taxa de crescimento de tal forma que isso esteja a ameaçar a sua capacidade de prover emprego e rendimento suficientes para as multidões que seguem a fluir para as movimentadas cidades do país. Um falhanço na produção de crescimento e empregos poderia pôr em risco a condução que a elite chinesa impõe ao país.

 A economia chinesa cresce atualmente ao ritmo mais baixo desde o fim da crise financeira global e da Grande Recessão de 2009. Segundo os números oficiais, o crescimento no primeiro trimestre se reduziu para 7% ao ano sobre os doze últimos meses, contra 7,3% no trimestre anterior; e a maioria das estimativas não-oficiais apontam para um crescimento ainda menor. Além disso, tomava-se como dado que o produto chinês deveria crescer 8% ao ano, de forma a absorver a expansão e a migração da força de trabalho das zonas rurais para as cidades e fábricas. Afinal, por trás da impressionante ascensão econômica da está a maior migração humana da História. Até 2013, algo em torno de 269 milhões de habitantes das zonas rurais já haviam emigrado para as cidades, oferecendo mão-de-obra a custo reduzido e sustentando o crescimento urbano.

 A baixa no ritmo de crescimento é particularmente visível nos setores industriais. O valor adicionado na indústria, que é uma medida da produção manufatureira, atingiu os níveis da crise financeira [de 2009]. A produção industrial cresceu 5,6% em março, ante o mesmo mês do ano anterior - muito abaixo das expectativas dos economistas, de 6,9%. E o consumo também abrandou. As vendas a retalho cresceram 10,2% em março. Parece muito comparado com os padrões das principais economias capitalistas, mas é uma taxa menor do que a registrada durante a crise financeira.

 Acima de tudo, o principal indutor do crescimento - o investimento em ativo fixo, que é a medida dos recursos invertidos em grandes fábricas e projetos - cresceu 13,5% nos doze meses encerrados em março, depois de passar por um pico de 30% em 2009, muito embora a taxa atual ainda seja superior à registrada a princípios da década passada.

 Esta desaceleração é em parte o resultado de uma recuperação letárgica da economia mundial na Europa, no Japão e nos Estados Unidos - os destinos principais das exportações chinesas. Mas também é o resultado de uma política governamental deliberada de enfrentamento de uma imensa bolha imobiliária que se formou desde 2009. Esta bolha foi causada pelas baixas taxas de juros locais, pela imensa poupança acumulada pelos chineses ricos e pelo arrendamento e venda de terras, pelos governos locais, para a construção de habitações e cidades para a população urbana que brota por toda parte.

 Os bancos chineses, em busca de lucros, e administradores públicos corruptos, deram curso à uma imensa bolha imobiliária. O resultado foi uma elevação da dívida, tanto pública, oculta nos livros contábeis pelos governos locais, quanto privada, entre os incorporadores. A dívida, no momento, alcança 282% do PIB, segundo a McKinsey - uma taxa mais alta que a observada nos EUA. (1)

 Com o desmanche da bolha imobiliária, os chineses mais ricos se voltaram para a especulação no mercado bursátil. A Bolsa chinesa disparou. Mas isso já havia ocorrido antes. Entre 2005 e 2007, subiu 800%, para colapsar durante o "crash" financeiro global. Agora, subiu "apenas" 200% - pode, portanto, subir ainda mais.

 As bolhas chinesas - imobiliária e de ações - mostram que a grande expansão da indústria e do investimento ao longo dos últimos dez anos não foi repartida com equanimidade. Durante todo o período, a desigualdade de rendimento e riqueza subiu mais que em qualquer outra economia de porte, e a China apresenta um coeficiente de Gini superior a 0,40 - tão alto quanto o estadunidense e maior que o da maioria dos grandes países capitalistas.

 Há ampla evasão de impostos e fortunas são amealhadas em contas secretas pelos chineses super-ricos - mais uma vez revelada em relatórios vazados sobre os "pequenos príncipes chineses" (princelings), entre outros. Mais de uma dúzia de familiares dos mais altos líderes políticos e militares da China estão a fazer uso de empresas "offshore" localizadas nas Ilhas Virgens Britânicas, conforme revelam documentos oficiais divulgados. O cunhado do atual presidente chinês, Xi Jinping, e o afilhado do ex-primeiro-ministro Wen Jiabao estão entre os apadrinhados políticos que se servem desses paraísos fiscais. (2)

 Na verdade, enquanto o mundo se espanta com a subida de preço das ações chinesas, o dinheiro está a fugir silenciosamente do país no maior ritmo em pelo menos uma década Louis Kuijs, economista-chefe para a China do Royal Bank of Scotland, estima que a China perdeu US$300 mil milhões com as saídas financeiras ocorridas nos últimos seis meses encerrados em março passado. A Deltec International, uma empresa de investimentos das Bahamas, diz que as somas são ainda maiores. Isto expressa o temor que a elite chinesa tem da campanha anticorrupção posta em marcha pela liderança do Partido Comunista, bem como o medo dos investidores estrangeiros de que a bolha creditícia venha a estourar e a China faça uma "aterragem forçada" semelhante ao observado em 2008 no "capitalismo ocidental".

 Com US$ 3,73 milhões de milhões em reservas, não há risco da China ficar sem dinheiro. Mas a economia "mainstream" está confusa sobre os rumos da economia chinesa. Alguns media e economistas creem que a China está a caminhar para uma grande crise ou queda devido ao "superinvestimento" ("overinvestment"), uma reversão da bolha imobiliária impulsionada pelo crédito e uma espiral de créditos podres ocultos no sistema bancário. Por outro lado, alguns economistas acreditam que as autoridades chinesas serão capazes de engendrar uma "aterragem suave" por meio da facilitação do crédito e o financiamento da retirada das dividas do caixa nos balanços ("writing-off"), acumuladas ao longo dos anos.


Capitalismo?


 Por trás do debate sobre o futuro imediato há um outro: poderá a China continuar a crescer rapidamente através do investimento industrial, em infraestrutura e mais exportações, ou terá de migrar para uma economia de consumo, a importar mais e a fornecer produtos para uma "classe média ascendente", como as economias avançadas capitalistas supostamente o fazem? Os economistas do "mainstream" acham que isso não pode ser feito sem o desenvolvimento de uma economia "baseada no mercado", isto é, capitalismo - pois a "complexidade" duma sociedade de consumo somente pode funcionar sob o capitalismo e não sob a "mão-pesada" do planejamento econômico centralizado e com industrias estatais.

 Em minha opinião isto é uma incompreensão da natureza das tendências econômicas da China. Se examinamos as decisões do Terceiro Pleno do Partido Comunista Chinês, explicam-se melhor as coisas. (3) O Pleno emitiu uma resolução detalhada sobre o que a elite pretende fazer com o país nos próximos cinco a dez anos.(4) E esta não se comprometeu com nada parecido ao "capitalismo de livre mercado". Na melhor das hipóteses, acordaram-se alguns passos limitados voltados ao desenvolvimento das forças do mercado no sistema bancário (mais competição entre os bancos estatais) e na agricultura (algumas transações comerciais de propriedades); uma conversa vaga sobre "liberalização" de controles monetários e de capital mais à frente; algumas zonas econômicas especiais para o desenvolvimento de negócios das empresas estrangeiras; e permissão para companhias estrangeiras operar em alguns setores de serviços. E, é claro, haverá um relaxamento muito limitado da terrível política do filho único para as famílias e dos controles de movimentação das áreas rurais para as cidades (hukou), permitindo-se uma maior mobilidade rumo a cidades de menor porte.

 É tudo. Duas coisas chamaram a atenção por terem deixado de acontecer. Não houve qualquer mudança na filosofia geral do "socialismo com características chinesas" e, em consequência, na manutenção da hegemonia do setor estatal. Os elementos pró-capitalistas da elite chinesa pressionaram pela implementação das propostas contidas no extenso relatório do Banco Mundial sobre a China.(5) A primeira e mais enfática recomendação de "reforma" foi a privatização de empresas estatais. O Terceiro Pleno não deu em absoluto qualquer passo nessa direção. A outra mensagem clara é a de que não haverá mais democracia, tal como a transferência do controle de sistemas legais e de decisões, mesmo que locais, para o povo. Ao contrário: a liderança está a estabelecer serviços de segurança ainda mais repressivos, para monitorar e controlar a população e isolar qualquer dissidência.

 Portanto, nada há realmente, nas metas e políticas acordadas pela elite chinesa, que venha a alterar a natureza do modelo econômico, social e político do país A maior parte da liderança seguirá com um modelo econômico que é dominado por companhias estatais, conduzidas, em todos os níveis gerenciais, por funcionários graduados comunistas. Os mercados não ditarão as regras, e a lei do valor não dominará os preços, os salários ou o comércio doméstico. É óbvio que a lei do valor opera na China, mas principalmente através do comércio exterior, dos fluxos de capital (investimentos) e monetários, porém mesmo isso ocorre sob limites estritos, com movimentos apenas graduais para a ampliação desses limites.

 Poderá a elite continuar essa política "nem carne nem peixe" sem provocar uma crise ou um tropeço que a forçará a seguir pela "estrada do capitalismo", como o Banco Mundial e os elementos pró-capitalistas desejam? Terá de enfrentar uma erupção vinda de baixo, à medida que a classe trabalhadora urbana em rápida expansão comece a flexionar seus músculos para fazer valer sua voz na condução da sociedade?

 Bem, eu creio que não, pelo menos por enquanto. O FMI aparentemente pensa que a tendência da taxa de crescimento do produto chinês declinará gradualmente a apenas 6,3% em 2019 Outros são mais pessimistas. O Conference Board dos EUA previu, esta semana, que a tendência de crescimento do país após 2020 será tão-somente de 4% ao ano. Porém, mesmo essas previsões reconhecem que o PIB chinês continuará a crescer à taxa de 7% ao ano, pelo menos pelos próximos cinco anos. A população economicamente ativa ainda é crescente, embora deva atingir o pico por volta de 2020. Ainda há centenas de milhões de camponeses e trabalhadores rurais que terão de ser incorporados à indústria; e a China cada vez mais trata de absorver tanta matéria-prima quanto necessário para sustentar sua expansão industrial.

 John Ross, da Universidade de Xangai, assinalou que o crescimento industrial da China continua a ser verdadeiramente espantoso:

"Nos dados do Banco Mundial, a produção industrial chinesa e 2007 era apenas 60% da registrada nos Estados Unidos. Em 2011, correspondia a 121%. Assim, em apenas seis anos a China partiu de um produto industrial correspondente a menos de dois terços do produto dos EUA, ultrapassando-o por uma margem substancial. Em seis anos, o produto industrial chinês praticamente dobrou, enquanto a produção industrial nos EUA, Europa e Japão sequer atingiu os níveis pré-crise." (6)

 O grande "milagre econômico" chinês ainda não se esgotou.

Notas

(1) The McKinsey Institute, ‘Debt and (not much) deleveraging’, February 2015.
(2) Estas são as últimas revelações feitas por ‘Offshore Secrets’, um esforço de reportagem de dois anos, conduzido pelo Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo (ICIJ, em inglês), que obteve mais de 200 gigabytes de dados financeiros vazados de duas empresas das Ilhas Virgens Britânicas e dividiu a informação com o jornal The Guardian e outros provedores internacionais de notícias. Os documentos também revelam o papel central de grandes bancos e empresas de auditoria ocidentais, incluindo PricewaterhouseCoopers, Credit Suisse e UBS no mundo das companhias offshore, atuando como intermediários no estabelecimento dessas empresas. Entre US$ 1 e US$4 milhões de milhões em ativos não rastreados deixaram a China desde 2000, segundo estimativas (http://www.icij.org/offshore/leaked-records-reveal-offshore-holdings-chinas-elite).
(3) http://wiki.china.org.cn/wiki/index.php/Third_Plenum.
(4) http://chinacopyrightandmedia.wordpress.com/2013/11/15/ccp-central-committee-resolution-concerning-some-major-issues-in-comprehensively-deepening-reform.
(5) World Bank China 2030: www.worldbank.org/en/news/2012/02/27/china-2030-executive-summary.
(6) http://ablog.typepad.com/keytrendsinglobalisation/2013/09/china-has-overtaken-the-us.htm.

O blog de Michael Roberts: https://thenextrecession.wordpress.com.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A queda da URSS e o mito do colapso econômico

O artigo baixo é a versão traduzida deste artigo, que, por sua vez, é o resumo de um artigo (citado ao fim do texto) de David Kotz e Fred Wair.


 Mais e mais intelectuais, especialistas em suas áreas, estão repensando visões generalizadas sobre a União Soviética. Um dos mitos mais difundidos é o do colapso econômico, e é também dos que mais vem sendo contestado. De acordo com este mito, a queda da URSS teria sido devido principalmente a uma crise econômica brutal (pela ineficiência do sistema). Mas na Rússia, como em outros lugares, muitos pensam que a queda da URSS não teve muito a ver com uma suposta crise econômica, mas que foi um processo iniciado pelas elites da própria URSS, e a crise econômica não seria a causa da reforma, mas sua consequência, embora tenha sido usado como uma desculpa. Esta é uma crença bastante difundida na Rússia (ver por exemplo, os estudos de Kara-Murza e outros, alguns deles até mesmo traduzidos em espanhol), mas também compartilhada por outros. Aqui, por exemplo, eu apresento um resumo de um artigo de David Kotz e Fred Wair, publicado na revista húngara à esquerda"Eszmélet" ("Consciência"). O artigo é um resumo de seu livro "Revolução de cima: o desaparecimento do sistema soviético" (você pode ler parcialmente online aqui, em Inglês, eu não tenha feito ainda). Em relação ao artigo, eu não concordo com tudo o que os dois autores discutiram, mas no geral acho que é uma análise muito interessante.


Vista do Kremlim, em Moscou.

 Os autores partem da ideia, que tentam demonstrar no texto, que, embora a URSS tivesse graves problemas econômicos, não havia nenhuma indicação de que houvesse qualquer perigo de colapso econômico, e este não ocorreu até que a elite do país destruiu o sistema econômico existente.

 Foi a estrutura não-democrática do país que causou o desastre, e não a economia planificada.

 Eles começam falando da planificação soviética e de sua história:

 Desde 1917 os bolcheviques testaram várias estratégias quanto à estrutura econômica do país;apenas na década de 1920 é que surgiu o chamado sistema soviético. Se caracterizava pelo fato de que todas as empresas agrícolas eram de propriedade pública e eram dirigidas, em última instância, por uma instituição central de Moscou.


Usina hidrelétrica de Dniépr (construída entre 1927 e 1932). A foto é de 1947.

Apesar disso, a economia soviética teve um forte crescimento e um desenvolvimento rápido. Muitos pensam que este rápido crescimento foi alcançado pelas medidas de repressão contra certos setores da sociedade, bem como pelas condições de vida difíceis. Mas os autores dizem, muito pelo contrário, que o regime stalinista desacelerou o crescimento econômico, que poderia ter sido muito maior do que realmente era.

Entre 1928 e 75 a economia soviética cresceu a uma taxa de 5,1% ao ano. Entre 1950 e 75, quando a economia já havia se industrializado,  o crescimento econômico soviético permaneceu elevado, ainda mais do que os EUA.

 O sistema soviético teve muitas vantagens sobre o capitalismo: o pleno emprego, a possibilidade de utilizar os lucros das empresas maciçamente no desenvolvimento da educação e da formação e o fato de não ser afetado pelas crises periódicas do capitalismo.

 Nem tudo pode ser medido pelo PIB ou crescimento econômico, mas, em 1975, o país atrasado que havia sido a URSS havia se tornado uma potência econômica que de muitas maneiras competia com os EUA, e estes chegavam a estar em desvantagem numérica em alguns casos (veja o exemplo da corrida espacial).

Quebra-gelo atômico "Lenin", o primeiro navio de superfície no mundo alimentado por energia nuclear (1959-1989).

 Se, em 1960, metade de todas as famílias soviéticas tinham rádio, 10% televisão e 1 em cada 25 freezer, em 1985 todas as famílias tinham esses aparelhos. Em 1980, a URSS tinha mais médicos e leitos hospitalares do que os EUA. Na década de 70 o desenvolvimento científico, tecnológico e econômico da URSS foi seguido com alarme pelas potências ocidentais. Muitos pensaram que o futuro pertencia ao regime soviético, com suas grandes conquistas, apesar de seus traços negativos.

 No entanto, desde 1975, a economia soviética interrompeu o rápido desenvolvimento que teve até então. E o progresso tecnológico também parara. Pela primeira vez em décadas a economia americana crescia mais rápido que a soviética. Além disso, a corrida armamentista, reforçada pela administração Reagan, afeta-a seriamente.

 Em 1985 Gorbachev chega ao poder, e a elite dirigente da URSS reconhece que reformas são necessárias. Mas suas reformas não trouxeram uma melhoria da situação, e a produção seguiu sem decolar. Entre 1985 e 1989, o crescimento econômico soviético médio foi de 2,2%, em vez dos 1,8% entre 1975 e 1985. Mas, desde 1975, nunca houve um crescimento negativo, enquanto que nos EUA ocorreu ao longo de três anos.

Até o fim dos anos 80, a escassez de mercadorias se acentua. Para analistas ocidentais isso significavam os primeiros sinais de colapso, mas a explicação era outra; a razão era que a renda das famílias aumento muito mais do que a produção de artigos de consumo. As culpadas disto eram as reformas econômicas, que haviam descentralizado a produção e deixado de regular a renda.

 Assim, se a meados dos anos 80 a renda familiar cresceu 3-4% ao ano, em 1988 saltou a 9,1% e em 1989 a 12,8%. No entanto, os preços, que ainda não tinham sido estabelecidos pelas instituições centrais, não mudaram quase nada. Então as pessoas viram-se com um monte de dinheiro nas mãos, dos quais queriam se livrar o mais rápido possível. Em seguida, viu-se as lojas ficarem completamente vazias. O consumo, na realidade, continuava a crescer.

 É verdade que a economia soviética não conseguiu um crescimento notável nos anos 80, mas a imagem do colapso econômico é falsa.

 Porém a coisa muda entre 1990 e 1991. Gorbachev está perdendo poder para Yeltsin. Em maio de 1990 Yeltsin ganhou poder na Federação Russa, e tentou concentrá-lo todo em suas mãos, tirando-o das autoridades soviéticas. Assim, as instituições de planificação econômica encontraram-se sem qualquer poder real, e a economia soviética, que era um todo homogênea, começou a desabar lentamente. É importante destacar: a crise não veio da incapacidade da economia planificada, mas do seu desmonte, que levou a uma ausência de meios de coordenação eficazes.

O operário e a camponesa (1937), de Vera Mukhina, na era soviética.


 A elite escolhe o capitalismo


 Como é possível que o regime soviético tenha caído sem oposição aparente?

 Gorbachev e seu círculo pensavam que o principal defeito do regime soviético era a falta de democracia; por isso, desenvolveram a Perestroika (reestruturação). Formam-se 3 grandes grupos de opinião: os partidários da reforma, os partidários da manutenção do sistema como estava e os que rejeitavam o comunismo (''ultrapestroikistas''). Os anticomunistas, liderados por Yeltsin, se impôs a todos, porque conseguiu o apoio das elites do país.

 Os estudos de Alec Nove, Farmer e Matthews e outros mostram que após a Segunda Guerra Mundial a elite soviética era uma casta ambiciosa e sem princípios definidos; só se importava com poder e ganhos pessoais. Em 1991, muitos membros desta elite reconheciam abertamente que não eram comunistas, embora estivessem no Partido Comunista. Esta raça de oportunistas avaliou as suas opções com a chegada das reformas de Gorbachev: não lhes beneficiava o socialismo democrático de Gorbachev e muitos poucos membros dessa elite apoiavam o retorno ao sistema anterior. Ainda que esse sistema tivesse-lhes dado poder, era limitado, uma vez que não possuíam a propriedade privada e, portanto, o acúmulo de bens. Quando, em 1991, há uma tentativa de golpe contra as reformas, a mesma falha porque a elite se posiciona a favor de Yeltsin. Esta elite estava ansiosa para obter a posição de que gozaria no ocidente. E compreendeu que sua posição no país como novos capitalistas oferecer-lhes-iam muitas vantagens.

 Assim aconteceu, por exemplo, com Viktor Chernomirdin, primeiro ministro do governo russo entre 1992 e 1998, que tinha sido ministro de produção e tratamento de gás durante a era soviética. Hoje é um dos homens mais ricos do mundo e maior acionista da GAZPROM. Segundo uma análise, entre os 100 mais destacados homens de negócios da Rússia, 62 eram membros da elite comunista e 38 vêm do mercado negro e do mundo do crime.

 Um estudo de junho de 1991 da cientista política norte-americana Judith Kullberg mostra que 77% da classe alta soviética era partidária do capitalismo, 12% do socialismo democrático e 10% do comunismo ou nacionalismo.

 De acordo com um estudo realizado em 1991 por uma fundação americana na Rússia europeia, 10% da população queria voltar para o sistema anterior às reformas, 36% eram a favor do socialismo democrático, 23% do modelo social-democrata sueco e apenas 17% queriam um sistema similar ao capitalismo americano ou alemão. Ou seja, 69% queriam alguma forma de socialismo.

 Outros estudos e pesquisas mostram taxas ainda mais baixas de apoio ao capitalismo ocidental.

 Os reformistas dominavam as estruturas do poder soviético, mas os partidários do capitalismo dominavam as russas, por isso seu principal objetivo era destruir de alguma maneira a URSS. O referendo de março de 1991, entretanto, mostrara que a maioria da população era contra algo do tipo.



 No artigo também se mencionam dados interessantes sobre a economia da URSS:

 Crescimento econômico entre 1928 e 1985:

1928-40: URSS- 5,8% EUA- 1,7%
1940-50: URSS- 2,2% EUA- 4,5%
1950-70: URSS- 4,8% EUA- 2,9%
1975-85: URSS- 1,8% EUA- 2,9%

 Fonte: The Real National Income of Soviet Russia since 1928, Abraham Bergson, 1961; Measures of Soviet National Product in 1982 Prices, Joint Economic Committee, U.S. Congress.

 Crescimento da economia soviética entre 1986-1991:

1986: 4,1%
1987: 1,3%
1988: 2,1%
1989: 1,5%
1990: -2,4%
1991: -12,8%

 Fontes: Measures of Soviet National Product in 1982 Prices, Joint Economic Committee, U.S. Congress.

Lada ''Niva'', o famoso quadriciclo desenvolvido na URSS nos anos 70.

Fonte do artigo:

Nota: O artigo foi escrito originalmente para o Fórum Comunista.

domingo, 31 de maio de 2015

A direita e o culto do irracionalismo


Artigo de Bertone Sousa para seu blog pessoal




 Poucas pessoas entenderam quando Marilena Chauí comentou em uma palestra que a classe média é fascista, mesmo que depois a filósofa da USP tenha explicado didaticamente o sentido de sua frase. Marilena partiu de uma definição marxista de classe média para argumentar como seu desejo de tornar-se classe dominante a conduz ao extremismo político, como no Fascismo. Hoje, enquanto vivemos um momento político conturbado, podemos perceber o quanto a classe média brasileira (não aquela que ascendeu socialmente no governo Lula, mas a classe média no sentido tradicional, a quem Marilena se reportou) flerta com ideias autoritárias. Os panelaços contra Dilma são ações exclusivas desse segmento. São eles que vão às ruas protestar contra o governo e falar contra corrupção usando a camisa da seleção brasileira e a logomarca da CBF! São eles quem falam de “doutrinação de esquerda” nas escolas, pedem outro golpe militar e gritam palavras de ordem para expulsar a esquerda do jogo democrático.

 Parte dessa direita quer ser liberal, mas ela não entende que o liberalismo não funciona em países com grandes bolsões de pobreza, por isso sua defesa do fim das políticas sociais não encontra eco na sociedade; ela não compreende que as políticas sociais não são “esmolas”, mas promovem ascensão e reduzem o abismo entre ricos e pobres, além de expandir o emprego e o  aumento dos pequenos empreendimentos. Esse foi um dos principais acertos do governo Lula, e parte considerável dessa classe média não compreende que apenas se mantem nessa posição em decorrência dessas políticas cujo fim advogam.

 A direita que vai às ruas, na verdade, não está insatisfeita com a corrupção (senão não usaria a camisa da CBF), mas com a democracia. O sentimento de derrota é algo com que muitos não conseguem lidar e com a quarta vitória consecutiva do PT numa eleição presidencial o ressentimento saiu às ruas para manifestar nada mais do que ódio incontido: houve um cartaz defendendo feminicídio, bonecos de Lula e Dilma enforcados em um viaduto, entre outras aberrações que só a direita é capaz de fazer. Curiosamente, querem voltar ao espírito de 1964 e falam de um comunismo que não existe mais. Essa direita que lê apenas Veja e compreende apenas os textos prosaicos de Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho está aquém até mesmo de uma discussão de ideias, porque não tem ideias, apenas papagueia o que lê de seus líderes. Foi assim que Lobão ascendeu a uma posição de destaque em seu meio. Não importa se você nunca leu nada, ser anti-petista já te projeta como um expoente e um intelectual entre eles.

 Culto ao irracionalismo. É isso que vemos hoje no Brasil e é isso o que essas manifestações representam. Numa entrevista ao Jornal Brasil de Fato, a historiadora da USP Maria Aparecida de Aquino teceu algumas considerações importantes sobre as causas do golpe de 1964 e as posturas da direita atualmente. Vou reproduzir alguns trechos da entrevista e retorno a seguir:


Enquanto você tem nos países considerados avançados, como Inglaterra, França, Alemanha, uma determinada caracterização das elites, na medida em que não existe um distanciamento tão grande entre aquele que pertence à elite e aquele que está alijado na sociedade, no Brasil e em outras nações, você tem uma distância imensa. Existem nações em que o menor salário e o maior não ultrapassa dez vezes. Aqui não dá para mensurar quantas vezes ultrapassa. Consequentemente esse distanciamento tão grande faz com que essa elite nossa não seja tão permissiva.

Ela não admite, ela não é democrática. Ela é cruel, mesquinha. No momento em que ela diz “não podem se sentar à mesa”, ela está negando o próprio desenvolvimento. Porque é do acesso dessas pessoas a bens que elas não teriam, e a possibilidade que elas teriam que, inclusive, você tem o maior desenvolvimento do país. Quanto mais gente consumindo, partilhando, mais o país será desenvolvido. Nossa elite nega inclusive o desenvolvimento. O seu próprio desenvolvimento. É predatória, talvez seja o melhor adjetivo para ela.



[…]

Hoje pouca coisa [mudou]. Uma das coisas que persistem é o comportamento das elites. Ainda é muito parecido com o que era em 1964. As elites não evoluíram, não avançaram. Enquanto o Brasil mudou muito, para melhor, um país que inclui muito mais pessoas, e não só por causa dos últimos anos, vem num processo de inclusão muito importante. A realidade que vivemos hoje está a léguas de diferença da realidade de 50 anos atrás. Talvez a única que que persista é uma atitude semelhante das elites, infelizmente.

 […]

Quando você analisa as elites que estavam posicionadas em 1964 elas são claramente golpistas. Elas querem a derrubada do regime democrático. Elas não sabem e não conseguem conviver com o Estado democrático. Portanto, partem, para sua destruição e dissolução, que ocorre através do golpe, ilegal e ilegítimo.

Hoje você tem uma elite que tem um pouco de receio. Ela tem um pouco de receio de dizer “para nós acabou a brincadeira, a bola é minha e não brinco mais” e assumir uma caracterização abertamente golpista. Não que ela não flerte. Não que ela não seja capaz de embarcar em um aventura terrível, pela forma como age, pelas considerações que ela faz.

Um exemplo foi quando a presidenta Dilma se elegeu. Ela teve uma capacidade eleitoral bastante grande no Nordeste. Quando você olha as redes sociais falando dos nordestinos, você vai ver a cara dessa elite. Ela é exatamente aquilo. Ela começa a dizer: “é esse tipo de gente que elegeu, e nós somos melhores”. Ela tem condições, desejo e vontade de flertar abertamente [com o autoritarismo].

Ou seja, hoje você tem um processo ou uma proposta de inclusão social, que de uma maneira ou de outra dá o acesso às pessoas que não teriam a determinadas instâncias, desde a casa própria até o ensino universitário.

Essa proposta descontentava, como descontenta hoje. A proposta de inclusão. Se o Brasil vive um momento de crise, se é que existe a crise, se ela não é fabricada pelos meios de comunicação, essa crise se deve fundamentalmente a esse descontentamento. São os mesmos grupos, a mesma raiz, que não aceita que as pessoas que não têm nem acesso às migalhas passem a se sentar na mesa.

[…]

Uma coisa é pensarmos no Brasil como um país jovem, que está vivendo um processo de ascensão das chamadas classes médias, quanto a isso não há dúvida, mas é um erro achar que nesse mesmo processo progressivo também terá o mesmo processo no sentido de qual leitura eles terão da realidade brasileira. Infelizmente, a leitura que se tem, na média, é conservadora.

Isso se deve à formação do Brasil, uma escolarização muito baixa. Teve o acesso das pessoas ao ensino, mas é um ensino transformador? Quando se pega a escola pública, que atende à vasta maioria, essa educação transforma sua mentalidade, prepara para os novos tempos? Se tivesse uma imprensa que fosse muito mais plural, também contribuiria para que tivéssemos esses debates ampliados.

 Retornando…

 Recentemente Olavo de Carvalho escreveu em uma rede social que um dos motivos pelos quais a esquerda encontra tanto apoio no Nordeste em termos eleitorais por conta do Bolsa Família é porque os ricos deixaram de dar esmola. Lembrei disso ao ler a entrevista de Aquino quando ela diz as elites querem que os pobres vivam de migalhas. É essa a mentalidade da direita. No Brasil, quando os pobres começam a não depender de esmolas isso começa a incomodar. Eu disse em outro texto que o PT deixou de fazer reformas e investimentos importantes e isso contribuiu para o ajuste fiscal que agora pesa sobre os trabalhadores e reflete em um sensível aumento do desemprego.

 Mas a direita não está preocupada com o desemprego. Nunca esteve. A direita jamais foi às ruas protestar quando dezenas de milhares de pessoas se submetiam a condições degradantes em filas quilométricas por um vaga de emprego durante o governo FHC. Também não está preocupada com a corrupção. Jamais se manifestou contra ela. E a corrupção não é exclusiva do PT, ela está presente em toda a nossa política partidária e nas prefeituras dos mais remotos rincões do país. Ela vai às ruas porque não suporta cotas para negros, porque a desigualdade social foi reduzida demais pra seu gosto e porque não consegue mais vencer eleições presidenciais.

 Sua defesa do liberalismo é ranheta. O liberalismo prega o estado mínimo apenas para os pobres, ele prega que o estado não deve investir em políticas sociais mas deve manter os arrochos salariais e proteger os interesses dos banqueiros e das grandes corporações empresariais, livrando-os da bancarrota sempre que necessário. Ora, o PT não deixou de atender a esses interesses também, porém, não deixou de descontentar quem acha que fazer políticas sociais é fazer comunismo.

 Como disse a historiadora da USP, “ela [a direita] não é democrática. Ela é cruel, mesquinha”. E agora sai às ruas para mostrar essa face que por tanto tempo escondeu sob a máscara liberal. Essa direita quer o apoio da sociedade nas ruas. Mas suas medidas econômicas, tão logo implementadas, perdem essa base de apoio e a sociedade se volta novamente para a esquerda. Ela é mesquinha porque seu projeto econômico é reduzir o papel do estado na economia e isso acarreta desemprego, terceirizações, perdas de direitos trabalhistas; e não é democrática porque, não conseguindo vencer eleições, quer criminalizar a esquerda, quer ditadura, cassação de direitos civis e políticos. Em todo caso, a direita representa o retrocesso, o irracionalismo.

PS.: CLIQUE AQUI para acessar ao vídeo onde Marilena Chauí explica a classe média.

Vinte e seis coisas sobre o ISIS e a al-Qaeda que não querem que você saiba


por Michel Chossudovsky, do Global Research (publicado anteriormente no portal O Diário e no Café Socialista)




1-Os EUA apoiaram a al-Qaeda e as suas organizações filiadas durante quase meio século, desde o apogeu da guerra afegã-soviética.

2-A CIA criou campos de treino para a al-Qaeda no Paquistão. Num período de dez anos, desde 1982 até 1992, uns 35.000 jihadistas procedentes de 43 países islâmicos foram recrutados pela CIA para lutar na jihad afegã contra a União Soviética.

3- Desde a época da Administração Reagan que Washington tem apoiado a rede terrorista islâmica. Ronald Reagan qualificou esses terroristas como “lutadores pela liberdade”.

Os EUA forneceram armas às brigadas islâmicas. Era tudo para “uma boa causa”: a luta contra a União Soviética e a mudança de regime, o que levou à desaparição de um governo secular no Afeganistão. Apenas necessitamos de recordar filmes de propaganda da época, como o célebre Rambo III…

4-Os livros de texto jihadistas foram publicados pela Universidade de Nebrasca. Os EUA gastaram milhões de dólares para fornecer livros de texto repletos de imagens violentas e ensinamentos islâmicos militantes aos estudantes afegãos.

5- Osama bin Laden, fundador da al-Qaeda e homem mais odiado pelos EUA, foi recrutado pela CIA em 1979, mesmo no início da guerra jihadista no Afeganistão contra a União Soviética. Bin Laden tinha na altura 22 anos e foi treinado num campo de treino de guerrilha patrocinado pela CIA.

Segundo o Professor Chossudovsky, a al-Qaeda estava por detrás dos ataques do 11 de Setembro. De facto, o ataque terrorista de 2001 proporcionou uma justificação para desencadear uma guerra contra o Afeganistão, sob o argumento de que Afeganistão era um estado patrocinador do terrorismo da al-Qaeda.

6- O Estado Islâmico ou ISIS era originalmente uma entidade filiada na al-Qaeda, criada pelos serviços de informações dos EUA com o apoio do MI6 Britânico, a Mossad Israelita, os serviços de informações do Paquistão e da Presidência Geral de Informações da Arabia Saudita (GIP ou Ri’āsat Al-Istikhbarat Al-‘Amah (رئاسة الاستخبارات العامة).

7- As brigadas de ISIS estiveram envolvidas no apoio à insurgência que os EUA e a NATO dirigiram contra o governo sírio de Bashar al Assad no decurso da guerra civil na Síria.

8 – A NATO o Estado-Maior da Turquia foram os responsáveis pela contratação de mercenários para ISIS e Al Nusrah desde os inícios da insurgência síria, em Março de 2011. Segundo fontes dos serviços de informações israelitas, publicadas na web DEBKA, esta iniciativa consistiu em: “Uma campanha para recrutar milhares de voluntários muçulmanos em países do Médio Oriente e do mundo muçulmano para lutar juntamente com os rebeldes sírios. O exército turco aloja estes voluntários, treina-os e assegura a sua entrada na Síria”.

9- Há membros das forças especiais ocidentais e agentes dos serviços secretos ocidentais dentro das fileiras do ISIS. Membros das Forças Especiais Britânicas e do MI6 participaram no treino dos rebeldes jihadistas na Síria.

10- Especialistas militares ocidentais contratados pelo Pentágono treinaram os terroristas no uso de armas químicas. “Os EUA e alguns aliados europeus estão utilizando agentes contratados para treinar os rebeldes sírios sobre como assegurar arsenais de armas químicas na Síria, segundo informaram à CNN um alto funcionário dos EUA e vários diplomatas de alto nível”.

11- As brutais decapitações realizadas pelos terroristas de ISIS integram os programas de treino patrocinados pela CIA em campos da Arabia Saudita e Qatar, cujo objectivo é causar pavor e comoção.

12- Muitos dos criminosos recrutados por ISIS são presidiários condenados libertados dos cárceres da Arabia Saudita, país aliado do Ocidente. Entre eles encontram-se cidadãos Sauditas condenados à morte que foram recrutados para se juntar às brigadas terroristas.

13- Na sua luta contra o governo de Al-Assad e as forças shiítas do Hezbollah, Israel tem apoiado as brigadas de ISIS e Al Nusrah dos Montes Golã. Combatentes jihadistas têm-se reunido regularmente com oficiais das Forças de Defesa Israelitas (FDI), bem como com o primeiro-ministro Netanyahu.
O alto comando das FDI reconhece tacitamente que: “elementos da jihad global dentro da Síria, membros de ISIS e Al Nusrah, são apoiados por Israel”.

14- Os soldados de ISIS dentro da Síria trabalham às ordens da aliança militar ocidental. O seu mandato tácito é causar estragos e destruição na Síria e Iraque.

15- Uma prova disso é a foto que ilustra esta matéria, em que o senador estado-unidense John McCain se reúne com líderes terroristas jihadistas na Síria.

16- As milícias de ISIS, que atualmente são o proclamado alvo de uma campanha de bombardeamentos por parte dos EUA e da NATO sob o mandato da “luta contra o terrorismo”, continuam a ser secretamente apoiadas pelo Ocidente. Forças xiitas que lutam contra ISIS no Iraque, tal como membros do próprio exército iraquiano, têm denunciado repetidamente as ajudas militares fornecidas pelos EUA aos terroristas de ISIS, ao mesmo tempo que combatem contra eles.

17- Os bombardeamentos estado-unidenses e aliados não estão apontados contra ISIS, mas têm sim o objectivo de bombardear a infra-estrutura econômica de Iraque e Síria, incluindo as suas fábricas e refinarias de petróleo.

18- O projecto de ISIS de criar um califado faz parte de uma agenda de política externa dos EUA que pretende dividir Iraque e Síria em territórios separados: um califado islamita sunita, uma República Árabe xiita e a República do Curdistão.

19- “A Guerra Global contra o Terrorismo” apresenta-se perante a opinião pública como um “choque de civilizações”, uma guerra entre valores e religiões, quando na realidade se trata de uma guerra de conquista, guiada por objetivos estratégicos e econômicos.

20- Brigadas terroristas de al-Qaeda, patrocinadas secretamente pelos serviços de informação ocidentais, instalaram-se já no Mali, Níger, Nigéria, República Centro-africana, Somália e Iémen para levar o caos a esses países e justificar uma intervenção militar ocidental.

21- Boko Haram na Nigéria, al-Shabab na Somália, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia, (apoiado pela NATO em 2011), al-Qaeda no Magreb Islâmico e Jemaah Islamiya na Indonésia, entre outros, são grupos filiados na al-Qaeda que são secretamente apoiados pelos serviços de informações ocidentais.

22- Os EUA estão também a apoiar organizações terroristas filiadas com al-Qaeda na região autônoma Uigure da China. O seu objectivo é desencadear a instabilidade política no oeste da China.

23- ''Os terroristas ''somos nós''': ao mesmo tempo que os EUA são o oculto arquiteto do Estado Islâmico, o sagrado mandato de Obama é de proteger os EUA dos ataques do ISIL.

24- A ameaça terrorista local, como a que temos visto nos EUA ou na Europa, é uma fabricação promovida pelos governos ocidentais e apoiada pelos meios de comunicação com o objectivo de criar uma atmosfera de medo e intimidação que leve a uma anulação das liberdades civis e favoreça a instalação de um estado policial. Por seu lado, as prisões, julgamentos e condenações de “terroristas islâmicos” servem para sustentar a legitimidade do Estado de Segurança Interna dos EUA e a crescente militarização das suas forças de segurança. O objectivo final é inculcar na mente de milhões de estado-unidenses que o inimigo é real e que a Administração dos EUA protegerá a vida dos seus cidadãos. O mesmo podemos dizer de países como França, Reino Unido ou Austrália.

25- A campanha “antiterrorista” contra o Estado islâmico contribuiu para a demonização dos muçulmanos, que aos olhos da opinião pública ocidental se associam cada vez mais com os jihadistas, assentando desse modo as bases para um choque de religiões e civilizações.

26- Qualquer um que se atreva a questionar a validade da “Guerra Global contra o Terrorismo” é qualificado de terrorista vê-se sujeito às leis antiterroristas.

Imprensa obediente e entusiasta

 Com isso estabelece-se um primeiro instrumento para perseguir qualquer tipo de dissidente ideológico, associando-o com o terrorismo. Esta ferramenta poderá ser posteriormente alargada a qualquer outro tipo de dissidência ideológica. Como vemos, a administração Obama impôs finalmente um consenso diabólico com o apoio dos seus aliados e o papel cúmplice do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A imprensa ocidental abraçou esse consenso de forma obediente e entusiasta; o Estado Islâmico é descrito como uma entidade independente, surgida do nada, um inimigo exterior que ameaça os valores “pacíficos e democráticos” do mundo ocidental.

 Foi criado um inimigo que pode aparecer e atuar em qualquer momento, como um fantasma com o qual, quando for mais conveniente, se assusta a população impelindo-a a aceitar qualquer tipo de política repressiva das liberdades e qualquer tipo de ação militarista ao serviço dos grandes poderes ocidentais.

 E, pelo visto, este drama ainda está no seu início…

Escola austríaca de economia vs economia política marxista

O texto abaixo é a tradução realizada por mim e (especialmente) outros camaradas do grupo Marxonomia do artigo ''Response to Readers - Marxian Economics vs Marxism'', do blog Critique of Crisis Theory. Ainda não está completa, há divergências na forma como os tradutores puseram as referências/notas originais e, por decisão consciente, não pusemos os trechos em que o autor fala de Ron Paul, por crer que eles são mais de ordem política e local dos EUA que de descrição sobre a escola austríaca. É preciso, ainda, consertar certos aspectos formais.





 A escola austríaca é um dos ramos da economia marginalista. Difere das outras vertentes marginalistas na medida em que evita o emprego de modelos matemáticos. Por isso se especializam em abordar as ideias marginalistas em uma linguagem comum. Em contraste, a maioria das outras escolas do marginalismo moderno se especializam em construir modelos matemáticos que só são acessíveis para àqueles que já dominam as formas matemáticas mais avançadas.

 O porquê de que a escola austríaca evita a matemática é que, diferentemente da maioria dos economistas profissionais, ela dirige seus argumentos a um público "não-matemático". A escola austríaca - como sugere seu nome- começou na Áustria, originada na Alemanha. Por isto, logo se encontrou em um intenso combate ideológico com os movimentos dos trabalhadores austríacos liderados pelos marxistas. A despeito de que a maioria dos marginalistas simplesmente ignoravam Marx, a escola austríaca esforçava-se em refuta-lo.

 Dada sua ênfase em refutar Marx, os austríacos estão mais familiarizados com as ideias marxistas do que a maioria dos economistas burgueses. Como intelectuais que desfrutam de um diálogo de ideias, de fato estes absorveram certas ideias de Marx, que usaram para o seu próprios fins. Sem dúvida, a teoria econômica austríaca foi influenciada pela escola austríaca marxista austríaca, e esta, por sua vez, fora influenciada pelas ideias da escola austríaca. Examinarei abaixo alguma dessas influências mútuas.

 Como tipicamente fazem intelectuais apaixonados por suas ideias, os guerreiros da escola austríaca adoram levar suas ideias de marginalismo ao extremo. Ao mesmo tempo em que eles têm tido influência considerável sobre a moderna economia convencional burguesa marginalista na esfera da teoria, suas recomendações políticas são tão extremas que eles simplesmente não são levados a sério nos círculos de policy-makers.

 Apesar de a escola austríaca ter se originado na Áustria, nem todos os economistas austríacos são da Áustria. Murray Rothbard (1926-1955), um famoso economista ''austríaco'', era estadunidense. Hoje a maioria dos ''austríacos'', tanto quanto eu posso contar, são do mundo anglófono, em oposição ao mundo germanófono de onde a escola se originou.

 Os economistas austríacos afirmam que o sistema capitalista traz paz, e às vezes se opõem às guerras coloniais, como as guerras dos EUA/OTAN no Iraque e Afeganistão. E eles parecem fazer críticas ''radicais'' dos governos capitalistas e do imperialismo, às vezes denunciando o ''capitalismo monopolista estatal''.

 Alguns esquerdistas têm sido atraídos pelos austríacos às vezes, e os visto como potenciais aliados na luta contra o imperialismo e as guerras que o mesmo traz. Isso é uma tendência perigosa e deve ser combatida. Todos os partidários da economia austríaca são, sem exceções, inimigos da classe trabalhadora.

As teorias econômicas, políticas e ideológicas da escola austríaca

 Quais são as ideias econômicas da escola austríaca, e de onde elas vêm?

 Por volta dos anos 1870, uma nova escola de economistas burgueses surgiu e lançou um assalto extenso sobre a teoria do valor-trabalho da economia política burguesa clássica. Esses economistas incluíam William Stanley Jevons na Inglaterra, Leon Walras na Suíça e Carl Menger, o fundador da escola austríaca, na Áustrua. É interessante que o que se chama de ''revolução marginalista'' tenha ocorrido apenas 3 ou 4 anos depois da publicação do Livro Primeiro de O Capital.

 Marx demonstrou em O Capital que a mais-valia -- lucro, incluindo juro e renda -- surge na base da troca de mercadorias que em média tomam quantidades iguais de trabalho para serem produzidas [5]. Ou o que vem ser a exatamente a mesma coisa, Marx demonstrou que assim como a escravidão ou a servidão feudal, o capitalismo -- mesmo quando as mercadorias são trocadas exatamente por seus valores -- é um sistema de exploração onde os trabalhadores são forçados a realizar trabalho não-pago para a classe dominante. Nada seria o mesmo na economia de novo. O conceito de valor-trabalho tinha de ser banido da economia burguesa de uma vez por todas.

A revolução marginalista e a teoria da utilidade marginal

 Qualquer teoria do valor ''econômico'' começa com o que é conhecido por paradoxo da água e do diamante. O diamante custa uma enorme quantidade de dinheiro, mas não é necessário para a vida. A água, por sua vez, é muito barata -- embora talvez não tão barata quanto deveria ser -- mas é absolutamente necessária para a vida humana. De fato, você não consegue sobreviver mais que poucos dias sem água, mas pode atravessar a vida inteira sem nunca ter um diamante.

 Os economistas clássicos e Marx responderam esse paradoxo explicando que, em média, é preciso muito mais trabalho para achar um diamante e poli-lo do que para achar uma quantidade de água que uma garrafa possa guardar. Uma vez que um diamante representa uma quantidade muito maior de trabalho que uma garrafa cheia de água, o preço de um diamante em termos de dinheiro é muito maior que o preço de uma garrafa de água.

 Isso é ainda mais verdadeiro se substituirmos a água pelo ar. O ar é provido gratuitamente pela natureza -- não é produzido por trabalho humano -- e não tem preço monetário algum. Ainda assim não conseguimos sobreviver sem ar respirável por mais de alguns minutos.

 A economia política burguesa tem estado em profundo recuo de qualquer noção de valor trabalho desde 1830, mas os economistas burgueses ainda não substituíram a teoria do valor trabalho da economia clássica com qualquer teoria alternativa coerente [6]. Ao invés disso, os pós-ricardianos se limitaram a explicar que os preços são determinados pelos ''custos de produção''.

 Mas o que determina os custos de produção de determinada mercadoria? Por que o custo de produção das mercadorias incluindo o trabalho que é necessário para produzir a mercadoria em questão -- ou, o que acaba sendo a mesma coisa -- o preço das mercadorias é determinado pelos preços das mercadorias?  Se os economistas burgueses não pudessem fazer nada melhor que isso, a superioridade da teoria aperfeiçoada do valor-trabalho de Marx seria tão óbvia que o movimento dos trabalhadores teria uma enorme vantagem no que o ex-presidente cubano Fidel Castro chamou de ''batalha das ideias''.

Marginalismo ao resgate

 Carl Menger na Áustria, Leon Walras na França e William Stanley Jevons na Grã-Bretanha propuseram o que eles consideravam ser uma resposta alternativa coerente ao paradoxo da água e do diamante. Se eu estou num deserto morrendo de sede, eu iria -- assumindo que tenho dinheiro -- com certeza pagar mais por uma garrafa de água que salvasse a minha vida que por um diamante. Sob tais circunstâncias, minha valoração subjetiva da água seria muito maior que minha valoração subjetiva dos diamantes. Mas normalmente tenho abundância de água e se estou com sede simplesmente vou a uma torneira e obtenho outra garrafa de água por um custo nominal. Portanto minha valoração subjetiva de água adicional é normalmente bem baixa.

 Mas uma vez que diamantes são bem escassos, minha valoração subjetiva de diamante adicional comparado a uma garrafa extra de água será provavelmente muito alta, com certeza muito mais alta que minha valoração subjetiva de uma garrafa de água adicional. Eu irei sob circunstâncias normais certamente me dispôr a pagar muito mais dinheiro por um diamante adicional -- assumindo que eu sequer quero um diamante -- que do que por uma garrafa adicional de água. Portanto, Menger, Walras e Jevons concluíram, o valor de uma mercadoria é determinado não pelo ser valor de uso em si mas por seu valor de uso -- ou utilidade -- à margem.

 Enquanto a utilidade global de um diamante para alguém, comparado com a água, é bem baixa, a utilidade de um diamante adicional é normalmente bem alta. Portanto, argumentaram os fundadores da escola marginalista de economia, o valor de uma mercadoria é determinado não pela sua utilidade ou pela quantidade de trabalho socialmente necessário para produzi-la e sim pela sua utilidade marginal.

 Diferente do conceito de valor trabalho, que é objetivo, o conceito de utilidade marginal, como foi chamado, é subjetivo. Se eu pessoalmente gosto ou odeio diamantes, por exemplo, não tem efeito sobre a quantidade de trabalho medida em termos de tempo que eles em média, sob as condições correntes de produção, levam para serem produzidos. Pode ser que eu realmente odeie diamantes, e mesmo que eu tivesse muita água estivesse disposto a pagar mais por uma garrafa de água adicional que por um diamante adicional. Mas isso é pouco provável. A maior parte das pessoas, sob condições normais, fariam uma valoração subjetiva maior sobre um diamante adicional do que fariam sobre uma garrafa de água adicional.

 Diferentemente do conceito de valor-trabalho, que parte da produção, a teoria da utilidade marginal começa com o consumo. Isso fez com que N. I. Bukharin, em seu livro contra os marginalistas, propusesse que a ascensão da teoria da utilidade marginal na economia burguesa refletia a visão dos capitalistas que se retiraram da produção -- os rentistas, ou capitalistas monetários -- em oposição aos capitalistas industriais e comerciais.

O problema com o conceito de utilidade marginal

 Marx definiu o valor como uma substância social homogênea -- trabalho humano abstrato. Todas as tentativas de reduzir utilidade -- valor de uso -- a uma substância social abstrata similar falharam. Os marginalistas convencionais que se tornaram conhecidos como ''escola neoclássica'' -- sendo que eram na verdade a negação da escola de economia clássica burguesa -- então se satisfizerem em construir modelos matemáticos do comportamento do consumidor. Nesses modelos, os consumidores fazem escolhas entre bens alternativos escassos de acordo com suas necessidades subjetivamente determinadas por um bem de tipo particular. Entretanto, essa ''solução'' não estava realmente aberta para a escola austríaca por causa de sua natureza ''não-matemática''. Portanto eles permaneceram presos à utilidade marginal.

A teoria austríaca do valor excedente -- ou juro 

 A fim de descrever -- em vez de explicar -- o valor excedente, os economistas austríacos combinam utilidade marginal e tempo. Enquanto os modernos economistas burgueses, incluindo os austríacos, explicam os lucros como os ''salários'' de capitalistas ativos, e por um trecho considerável a renda dos donos de terras como uma recompensa por ''melhorar'' a terra, isso deixa inexplicado o juro ganho por capitalistas monetários ociosos. De onde pode o juro vir senão do trabalho não pago daqueles que trabalham?

 Os economistas austríacos ''explicam'' que nós subjetivamente valoramos bens que estão imediatamente disponíveis mais do que aqueles que somente estarão disponíveis no futuro. Por exemplo, vamos assumir que eu preciso de um casaco novo para ficar quente nesse inverno. Eu não vou pagar mais por um novo casaco que eu possa levar para casa de uma vez, do que um novo casaco que não estará disponível por mais um ano? Se eu não conseguir o casaco por mais um ano, eu vou ter que usar o meu velho casaco desgastado para ficar quente nesse inverno. Eu poderia estar disposto a pagar 100 dólares se o casaco está imediatamente disponível para que eu possa usá-lo neste inverno, mas talvez apenas 90 dólares se o casaco for entregue somente daqui a um ano. Eu ''desconto'' minha avaliação subjetiva do casaco devido a um a partir de agora em comparação com um casaco que eu possa usar hoje sob essas premissas a uma taxa de 10%. De acordo com os economistas austríacos, a diferença na minha avaliação subjetiva de um bem que eu posso receber em comparação com um bem que não estará disponível até algum momento no futuro é a taxa de juro.

 Os membros ''proprietários'' da sociedade -- capitalistas -- tem duas escolhas. Eles podem consumir agora, ou abster. Se se abstiverem, terão um padrão de vida menor agora mas um maior no futuro. Numa ''sociedade livre'' -- em oposição a uma sociedade democrática onde as ''massas'' podem interferir nas escolhas livres dos ''proprietários'' -- cabe aos proprietários individuais ou capitalistas decidir o quanto eles irão poupar para o futuro ao invés de consumir no presente.

 A função da taxa de juros na perspectiva austríaca

 De acordo com os austríacos, o propósito da taxa de juros é equalizar a oferta de poupança com os investimentos. Se a sociedade - os capitalistas- deseja poupar mais, considerando as circunstâncias como constantes, a taxa de juros cairá. Isto mostra que os capitalistas, como consumidores, estão descontando subjetivamente o valor dos bens de consumo disponível no futuro em comparação com os bens disponíveis no presente, a uma taxa de juros decrescente; fazem isto quando os bens de consumo estão ficando menos escassos em relação com as suas necessidades humanas subjetivamente determinadas e imediatas. A poupança e o investimento estão se equilibrando a uma taxa de juros decrescente.

 A partir dessas condições, de acordo com a economia austríaca e o marginalismo em geral, a taxa decrescente de juros significa que a sociedade tem uma necessidade decrescente de meios de produção adicionais, o que redundará numa menor criação de meios de produção.

 Se, ao contrário, os capitalistas desejam poupar menos, a taxa de juros, permanecendo tudo constante, se elevará. Se os capitalistas desejam poupar menos, isto significa que estão descontando subjetivamente o valor dos bens de consumo disponíveis no futuro a uma taxa de juros crescente. Segundo os austríacos, isto significa que os "bens" e o "capital" necessários para produzi-los estão se tornando mais escassos em relação as necessidades humana subjetivamente determinadas e imediatas. A poupança e o investimento estão sendo nivelados a uma taxa de juros crescente. Portanto a taxa natural de juros subirá. A taxa mais alta de juros provocará um ritmo mais acelerado no processo de geração dos meios de produção - reprodução ampliada.

 De acordo com os austríacos, contando que prevaleça a liberdade e a taxa de juros do mercado não seja diferente da sua taxa natural, prevalecerá uma proporção correta entre - usando uma terminologia marxista- o departamento I, o departamento da industria que produz os meios de produção, e o departamento II, o departamento da industria que produz os meios de consumo pessoal. Aqui ocultando-se atrás dos argumentos marginalista, nos encoramos com um velho amigo, os diagramas de Marx sobre a reprodução simples e ampliada do volume II d'o "capital..

 Inevitavelmente, os capitalistas industriais individuais podem tomar e sem dúvida tomarão decisões equivocadas sobre a questão de se produzir itens de consumo no lugar de bens de capital. Isso ocorre todos os dias da semana. Mas e se mercado não recompensar aqueles capitalistas industriais que se demonstraram competentes em determinar quais são as demandas do mercado, enquanto punem aqueles que não determinaram? Empregando um pouco a lei da seleção natural da biologia, explicam os economistas austríacos, os capitalistas industriais que geralmente tomam decisões acertadas acerca do que deseja o mercado serão "selecionados" para viver um dia a mas, enquanto aqueles que tomaram as decisões equivocadas sobre o quê produzir serão eliminados.

 De acordo com os economistas austríacos, cada capitalista individual desejará incrementar a produção da mercadoria produzida até o ponto em que a sua taxa de lucro individual caia abaixo da taxa de juros. Segundo a teoria austríaca, a economia estará em perfeito equilíbrio se a taxa de lucro realizada por cada capitalista se igualar a taxa de juros do mercado, e se esta taxa de juros do mercado, por sua vez, tiver correspondência com a taxa natural de juros.

 Em um mundo real os economistas austríacos admitem que nunca será exatamente assim, mas os austríacos sustentam que o mercado é tão eficiente que, assumindo que o governo não interfira e os sindicados não existam, a economia nunca pode se afastar muito dessa posição de equilíbrio.

A Lei de Say e a teoria austríaca das crises 

 Enquanto que os economistas neoclássicos aceitam a Lei de Say, ao menos implicitamente, os austríacos a proclamam abertamente. Os economistas austríacos dão muito crédito para o Say por ter descoberto a impossibilidade de uma superprodução de mercadorias. Recordemos que segundo Say, os bens são comprados com bens - sendo o dinheiro um simples instrumento técnico para facilitar a circulação de mercadorias. Contudo, Say admitia uma parcial superprodução de certas mercadorias respaldada por uma subprodução de outras. Portanto, a Lei de Say é compatível com uma teoria das crises fundada em uma produção desproporcional.

 Mas os economistas austríacos sustentam que enquanto a taxa de juros de mercado coincidir com a taxa de juros "Natural, não pode haver nenhuma desproporção entre o departamento I e II.

 Mas o que aconteceria se a taxa de juros de mercado se desviasse da taxa de juros natural? O que aconteceria se uma instituição diabólica como o "banco central" - chamaremos de o Sistema da reserva federal- fosse criada por um governo democrático que, suscetível a influência das massas, está determinado a manter a taxa de juros de mercado abaixo da taxa de juros "natural"?

A definição austríaca de inflação 

 Enquanto que a maioria dos economistas que definem a inflação como uma situação de preços crescentes, os austríacos rechaçam essa definição comum. Segundo eles, a economia está em um patamar de inflação sempre que a taxa de juros de mercado encontra-se abaixo da taxa natural de juros, sendo que esta é a que determina a oscilação dos preços.

 Os economistas austríacos "explicam" que gente bem "intencionada" e que está desinformada sobre economia geralmente apoia políticas de redução da taxa de juros para lograr alto crescimento econômico e "pleno emprego". Isto incluem os pequenos empresários e camponeses, que muitas vezes encontram-se endividados no processo de manter suas pequenas empresas competitivas frente aos outros concorrentes muito maiores e eficientes. Naturalmente este estrato social está a favor de políticas que reduzem a taxa de juros. Exatamente por isso que a democracia é perigosa.

 Se o governo e as suas "autoridades monetários" expandem a oferta monetária de maneira tal que cause a queda da taxa de juros abaixo da taxa natural, os capitalistas individuas serão induzidos ao erro de produzir excessivamente bens de capital em comparação com uma a baixa absorção de consumo pessoal.

 Segundo a teoria austríaca, os capitalistas individuais não têm meios de distinguir a disparidade entre a taxa natural e a taxa de juros de mercado. Ao que concerne aos capitalistas, existe somente uma taxa de juros, a taxa de juros do mercado. Como já fora explicado, segundo os austríacos - e os marginalistas em geral- os capitalistas individuais incrementarão a produção da mercadoria particular que cada um produz até o ponto em que sua taxa de lucro individual iguale a taxa de juros de mercado. Portanto, sustentam os austríacos, se a taxa de juros de mercado é inferior a taxa de juros natural, os investimentos serão superestimados.

Produção assimétrica

 Em termos marxistas, o departamento I, o departamento da produção de bens de capital, se expandirá excessivamente em relação ao departamento II, que produz os bens de consumo pessoal. De acordo com o arcabouço teórico austríaco, isto é uma "produção assimétrica" ou um "mau investimento". Não há uma superprodução - a Lei de Say nunca pode ser violada - a não ser que haja uma produção desproporcional. Tal produção desproporcional, ou assimétrica, segundo a teoria austríaca, é o resultado inevitável da inflação tal como os austríacos a definem - uma situação em que a taxa de juros do mercado encontra-se abaixo da taxa de juros natural.

 Uma vez que a "produção assimétrica" se desenvolve, uma crise torna-se inevitável. Em tal situação, a única política correta é "fazer das tripas o coração" permitindo que as taxas de juros subam mais rapidamente possível até o ponto de convergência com a taxa natural, aplacando a crise o mais breve possível.

 Segundo a escola austríaca, nenhuma política de expansão monetária pode evitar que a taxa de juros de mercado se iguale a taxa natural no longo prazo. Se o banco central tentar resistir a subida das taxas de juros, a instituição se verá obrigada a introduzir mais dinheiro no mercado. Se persistirem, o resultado será uma inflação galopante, a exemplo do tipo de hiperinflação que acometera a Alemanha em 1923, a onde a moeda nacional perdera todo seu valor.

 Os austríacos sustentam que quanto mais tempo a economia se mantem em um estado inflacionário - a taxa de juros de mercado permanecendo abaixo da taxa natural- mais assimétrica se torna a produção, agravando a inevitável crise.

 Portanto, sustentam os austríacos, a solução a uma ameaça de crise é sempre uma forte subida da taxa de juros. Ao incentivar a inevitável "liquidação", explicam os economistas austríacos, a crise será amortizada e a sua intensidade reduzida.

 Mas os bancos centrais, vulneráveis a pressão popular - ou por temê-las- tentam manter a baixa da taxa de juros para protelar a crise e minimiza-la. Segundo os austríacos, a rápida redução da taxa de juros levada a cabo pelo FED e outros bancos centrais durante a crise dos últimos anos é um exemplo exato do que não se deveria fazer.

 Em seu lugar, argumentam os economistas austríaco e seus seguidores, as taxas de juros deveriam ser desobstruídas e elevadas naturalmente até que se coincidam com a taxa natural. Os economistas austríacos concebem que isto significaria que a execução hipotecária de casas e fazendas, as bancarrotas de empresas e o desemprego seriam muito maiores. Porém, explicam os austríacos e seus seguidores como o congressista Ron Paul, isto é necessário. De acordo com os austríacos, esta é a única maneira de reparar a "produção assimétrica" que está por trás da crise.

 Porém será que essa política brutal é compatível com a democracia? Obviamente que não, e é precisamente por isso que os defensores da economia austríaca querem se desfazer dela.

 A cura austríaca das crises 

 Podem as crises econômicas, segundo os austríacos, serem eliminadas do sistema capitalista? Enquanto Marx diz não, os economistas afirmam o contrário. Porém para liquidar com as possibilidades de crises, segundo os economistas austríacos, a interferência estatal na economia deve cessar. Acima de tudo, os bancos centrais - as autoridades monetárias- devem ser abolidos. O dinheiro como qualquer outra "mercadoria" deve ser produzido somente por capitalistas. Não deve haver autoridade monetária e nenhuma espécie de "planificação central" da oferta monetária.

 Se a "planificação centralizada" da oferta monetária for abolida, sustentam os austríacos, a taxa de juros de mercado não se desvinculará da taxa natural. Com a taxa de juros igualada à taxa natural, a produção "assimétrica" não seria mais possível.

 Por exemplo, aos capitalistas privados deveria lhes permitir acunhar moedas de ouro sem que nenhuma outra moeda de ouro em particular seja declarada como curso forçado. Os bancos comerciais individuais deveriam poder emitir suas próprias notas, um processo semelhante ao que ocorrera no chamado "sistema de banco livre" que prevalecera nos EUA antes da guerra civil de 1861-65. O uso de moedas de ouro deveria ser fomentado e o padrão ouro deveria ser restabelecido.

 Se isto for colocado em prática, sustentam os austríacos, a concorrência entre as várias entidades capitalistas criadoras de dinheiro - por exemplo, as companhias mineradoras e os bancos comerciais que emitem notas- assegurariam que as melhores moedas prevaleçam, tal como a livre concorrência entre os produtores de outros de "bens" assegura que os melhores produtos prevaleçam. Os que emitem "dinheiro" inferior se veriam privados do negócio tal como se sucede com os produtores de outras mercadorias inferiores.

Uma contradição na economia austríaca ( e de Friedman) 

 Tanto os austríacos como os monetaristas se opõem fortemente ao sistema bancário de reservas fracionárias - dinheiro creditício criado pelos bancos. Embora os austríacos acreditem que a produção de dinheiro deva ser conduzida pelas mãos dos capitalistas privados, eles não creem que o dinheiro criado privadamente deveria incluir alguma forma de dinheiro creditício. Segundo os austríacos, toda forma de dinheiro creditício é nefasta porque leva a taxa de juros de mercado a uma tendência de queda em relação a taxa natural.

 Mas os austríacos e os "friedmanitas" são incapazes de explicar exatamente como eles irão proibir a criação de dinheiro creditício em uma economia capitalista "livre". Caso uma leia determine que os bancos comercias mantenham uma reserva de 100% em relação aos seus depósitos na forma de papel-dinheiro criado pelo estado - Friedman- ou ouro - austríacos-, esta lei regulatória não representaria o mesmo tipo de intervenção estatal no sistema capitalista que os austríacos e monetaristas tanto rechaçam?

 Mesmo se sancionassem uma lei que exigisse 100% de reservas para respaldar os depósitos bancários, o que impediria os bancos comerciais - e outras instituições financeiras capitalistas- de emitir papel comercial ou bônus que funcionariam na prática como dinheiro creditício, isto é, formas de dinheiro que atuam como meios de compra e meios de pagamento?

 Qualquer tentativa de suprimir o crédito da maneira que advogam os austríacos e monetaristas significaria reduzir a economia a uma verdadeira camisa de força. Requiriria uma enforme policia financeira que teria que examinar minunciosamente cada transação para assegurar-se de que nenhuma nova forma de "crédito circulante" seja criada. E o mundo dos negócios sempre encontraria maneiras de criar crédito de uma forma ou de outra. Afinal, o mercado sempre vence, não?

O lado revolucionário do sistema de crédito 

 Na realidade, tanto a escola austríaca como a de Friedman percebem que o crédito e o sistema de crédito em geral permitem ao sistema capitalista desenvolver suas forças produtivas além de seus limites organicamente determinados e que um tal desenvolvimento sempre redunda, fatalmente, em alguma crise. Tanto os austríacos como os monetaristas, enquanto que se posicionam como os defensores viscerais do capitalismo, na realidade se opõem em relação ao lado revolucionário do capitalismo, seu impeto inconsciente em estabelecer um modo de produção superior, porém sem exploração. Confrontados com este lado revolucionário do capitalismo, tanto os austríacos quanto os monetaristas abandonam o liberalismo econômico e se refugiam nas formas mais draconianas e reacionárias de intervenção estatal.

Diferenças entre as teorias das crises marxista e austríaca 

 Apesar do visão austríaca, as crises do capitalismo são todas engendradas por crises de superprodução geral relativa de mercadorias. Tanto o departamento I como o departamento II super-produzem. Marx demonstrou que o juro é só uma porção do lucro - juros mais o lucro, o que em si é uma fração do total do mais-valor - lucro mais renda.

 E o que é o mais-valor? É o trabalho não pago realizado pelos trabalhadores produtivos - todos os trabalhadores que produzem mais-valor- sob pena de inanição, para aqueles que monopolizam os meios de produção na sociedade capitalista - a classe burguesa. Enquanto que as mercadorias têm preços naturais - preços de produção, ao redor dos quais flutuam os preços de mercado-, o mesmo não acontece com a taxa de juros.

 Enquanto que é certo que a taxa de juros não pode, a longo prazo, igualar ou superar a taxa de lucro sem que os juros possam ser consideravelmente inferiores.

É a taxa de juros determinada pela taxa de lucro? 

 Muitos marxistas sustentam que a taxa de juros está determinada pela taxa de lucro. Enquanto que há uma certa verdade nisto, já que a taxa de juros não pode no longo prazo ser mais alta ou sequer se igualar a taxa de lucro, esta afirmação não explica o porquê, em um certo momento, a taxa de juros é uma porcentagem dada pela taxa de lucro e não por outra qualquer.

 De acordo com Marx, a taxa de juros pode ser de 10 porcento da taxa de lucro, 25 porcento da taxa de lucro, 50 porcento, 75 porcento etc. Se existe uma porcentagem fixa da taxa de lucro a qual condicionaria a taxa de juros, poderia haver alguma justificação para falar de uma taxa natural de juros ao redor da qual flutuam as taxas de juros do mercado. Mas, de fato, não existe uma porcentagem fixa da taxa de lucro ao redor do qual flutuem as taxas de juros.

O que realmente determina a taxa de juro?

 No volume III de "O Capital", Marx dá exemplos que mostram que as taxas de juros na Inglaterra eram mais sensíveis à mudanças de acordo com o tamanho da reserva de ouro mantida pelo Banco da Inglaterra.

 Em última análise, a taxa de juro tenderá para o ponto onde a oferta e demanda por ouro - dinheiro material - são iguais. Esse é o mais próximo que podemos chegar à uma "taxa natural de juro". (8) Todas as outras coisas permanecendo iguais, um nível relativamente alto de produção de ouro - relativa à produção de outros commodities - significará uma baixa taxa de juro relativa à taxa de lucro, enquanto que um nível relativamente baixo de produção de ouro significará um alto nível de taxa de juro relativa à taxa de lucro.

 Ou, mais precisamente, uma alta taxa de produção de ouro relativa à produção total de mercadorias significará que as taxas de juros tenderão à reduzir, enquanto uma baixa taxa de produção de ouro relativa à produção total de commodities significarão que as taxas de juros tenderão a crescer.

 Uma situação onde a oferta e demande por outro - dinheiro material - são igualadas por uma taxa de juro igual ou maior que a taxa de lucro não consegue se sustentar. Nesse caso, a produção de ouro deve crescer ou à produção de commodities deve cair, ou, como é no mundo real, uma combinação de ambos ocorre. Isso é exatamente o que vemos durante crises de superprodução.

 Graças a crise, a taxa de juros é mantida a longo prazo, abaixo do limite superior demarcado pela taxa de lucro, assegurando um lucro empresarial positivo e, portanto, um incentivo real para que um setor da classe capitalista atue como produtor de mais-valia.

A taxa de juros e a superprodução

 Com efeito, quando está ocorrendo uma superprodução geral de mercadorias, a taxa de juros tenderá a subir em relação a taxa de lucro, supondo que o mais-valor produzido seja realmente realizado. Semelhante situação não pode se manter e, cedo ou tarde, deve culminar-se numa crise que reduza uma vez mais a taxa de juros.

A taxa de lucro e a superprodução 

 Uma crise é um freio violento a uma situação de superprodução generalizada. A situação de superprodução é "curada" por um período de subprodução generalizada. Durante o período de subprodução generalizada de mercadorias, a relação entre a produção do ouro e a produção de outras mercadorias, é tal que a taxa de juros tende a baixar em relação ao nível que teria a taxa de lucro, se o montante total de mais-valor estivera sendo realizado.

 As massas, para usar uma terminologia usualmente empregada pelo congressista Ron Paul para denominar a classe trabalhadora e outros trabalhadores que não "compreendem" as leis do capitalismo, exercem pressão sobre o governo e os bancos centrais para tomar medidas que evitem as crises, e quando isso se evidencia impossível, para acelerar a recuperação. Isto é o que vemos atualmente. As "massas" estão sendo estúpidas ou irresponsáveis? De modo algum!

 Eles estão se esforçando, instintivamente, para liberar as forças produtivas de seu caráter como capital. A única vantagem que os marxistas têm sobre os outros trabalhadores é que eles entendem conscientemente as leis do capitalismo das quais os trabalhadores estão tratando corretamente, ainda que inconscientemente, de libertar-se.

 Hoje vemos que as "massas" estão se tornando impacientas com o fracasso da atual 'recuperação" cíclica para gerar empregos. O que maioria das autoridades na maioria dos países imperialistas afirmam é que a taxa de contração do emprego está decaindo. Naturalmente o povo está afirmando - com bastante precisão- que isso não é suficiente!. As massas, naturalmente, estão pressionando para que o governo e o banco central - apesar de tudo, não é o banco central um órgão do governo democrático que representa o povo?- produzam uma recuperação que realmente gere empregos em quantidade suficiente para cessar o desemprego de uma vez por todas.

 Mas o congressista Ron Paul, como estudioso da escola austríaca, se queixa de que, na medida em que o governo - o sistema de reserva federal, o FED- implementa medidas para acelerar a recuperação, haveria assim uma interferência, impedindo a necessária "liquidação", e no caso do FED, este estaria forçando a taxa de juros de mercado abaixo da taxa natural. De acordo com Ron paul e outros seguidores da escola austríaca, isto levaria a somente a um agravamento da "produção assimétrica.

 A solução para as crises, segundo Ron Paul e os austríacos, é não manter a taxa de juros "baixa por um período extenso de tempo", mas sim manter "as taxas de juros elevadas por um período extenso de tempo". Somente desta maneira a produção assimétrica, que causara a crise em primeiro lugar segundo a perspectiva austríaca, poderia ser eliminada de uma vez por todas.

Há alguma verdade na teoria austríaca das crises? 

 Enquanto prevalecia o padrão ouro - uma situação em que os bancos centrais tinham que resgatar suas notas com uma certa quantidade fixa de ouro - os bancos centrais sofriam uma drenagem nas reservas de ouro caso preservassem as taxas de juro abaixo do ponto em que oferta e a procura de ouro fossem iguais. Se as taxas de juro estiverem abaixo deste ponto, o banco central teria que reduzir sua própria "demanda" e, por conseguinte, incrementar a "oferta" disponível para o "setor privado, esgotando suas próprias reservas de ouro. Enquanto perdurava o padrão ouro, os bancos centrais não podiam fazer isso por muito tempo. Se fizessem, haveria uma "corrida" para as suas reservas de ouro, vendo-se, assim, despojados do seu próprio ouro.