sábado, 30 de maio de 2015

Teorias sobre a causa da homossexualidade: ideologia, preconceito e fraude


 O artigo abaixo é de autoria de Alípio de Sousa Filho, Doutor em sociologia pela Sorbonne (Paris V) e professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN, e foi publicado em JUNQUEIRA, Rogério Diniz (Org.). Educação e diversidade sexual: problematizando a homofobia na escola brasileira. Brasília: Ministério da Educação (Coleção Educação para Todos). Dentre os comentários que tenho a fazer sobre ele estão os de que 1) há um uso excessivo de argumentos retirados da psicanálise, que tenho visto ser cada vez mais criticada e relegada à posição de pseudociência 2) não me parecer convincente quanto à não ser haver uma causa específica para a homossexualidade e 3) não ser capaz de responder (ou ignorar) evidências de uma base biológica da homossexualidade, tal como essa aqui (para outras referências de argumentos biológicos sobre a homossexualidade, ver esse artigo).



 A colonização do imaginário e a invenção da causa específica da homossexualidade 


 Pretendemos, neste artigo, tratar do preconceito em torno da homossexualidade, considerando algo de sua lógica interna, nem sempre percebida como tal. Não é desconhecido de ninguém que teorias e “pesquisas” de muitos tipos procuram causas (biológicas, psicológicas, sociais, “espirituais”) para a homossexualidade, deixando entender que os indivíduos concernidos na prática da homossexualidade – ditos homossexuais – têm qualquer coisa a menos (ou a mais) que os outros (um gene, um pedaço do cérebro, hormônios, um instinto congênito ou adquirido, etc), são indivíduos que sofreram algum “desvio” ou “suspensão” no chamado “desenvolvimento sexual normal” ou “inversão quanto ao objeto sexual”. Estas últimas sendo crenças muito difundidas, ainda hoje, entre psicólogos e psicanalistas – confundindo-se aí todas as correntes –, exceções isoladas à parte.

 A tese que sustentaremos aqui é a que uma longa história de colonização pelo preconceito, praticada sobre o imaginário de diversas sociedades, representando a homossexualidade como uma exceção ou como um desvio ou inversão no quadro de uma pretendida normalidade heterossexual, levou a que se buscasse a causa específica que produziria a homossexualidade – e não importando se esta tenha sido pensada, variando as épocas, como vício, pecado, crime, doença, perversão ou como um desvio no desenvolvimento sexual. Evidentemente, uma história que não deixou de marcar os espíritos... mesmo daqueles bem intencionados. E se sabemos que, desde a metade do século XIX, a homossexualidade não é mais tratada como “contrária à natureza” – a não ser em certos tratados de medicina legal, artigos de códigos penais ou discursos religiosos –, permanece, até hoje, a mesma sempiterna visão de que se trata de uma “tendência sexual” para cuja causa certos fatores devem ter influído, tornando-se matéria de etiologia médica, objeto de arqueologias do “inconsciente” ou, como mais recentemente, assunto de especialistas das áreas da biologia, neuroanatomia, neurociência. Num ou noutro caso, estamos no reino das pretendidas causas. O reino da ideologia [1] e do preconceito. As teorias variam – entre ideias propostas por religiões como o espiritismo (a homossexualidade seria cármica) e teses sustentadas por correntes das psicologias, passando por opiniões de biólogos –, mas a conclusão é sempre a mesma: a homossexualidade seria um fato, na vidado indivíduo afetado, que se tornaria possível explicar por alguma causa específica. Nossa reflexão é igual em conclusão à posição dos antropólogos Peter Fry e Edward MacRae, quando, em texto em que trataram do tema “que é a homossexualidade”, referindo-se brevemente ao assunto das “causas”, escreveram: “nenhuma das teorias existentes sobre as causas da homossexualidade nos convence e a nossa tendência é de tratá-las todas, sem exceção, como produções ideológicas” (FRY; MACRAE, 1983:15).

 Neste trabalho, faremos a crítica a teorias, que, de tão difundidas, tornaram-se verdadeiro senso comum social: as teorias das psicologias – a psicanálise aí incluída – e as produzidas na onda contemporânea do determinismo biológico em suas versões mais atuantes: a sociobiologia e a psicologia evolucionista. Trata-se, necessariamente, da visão de um cientista social, mas igualmente subjetiva e que não se esconde como uma visão política do problema. No combate ao preconceito (na ciência ou fora dela) e à violência que ele implica, nenhum cientista pode reivindicar objetividade e neutralidade científicas.

 Poder-se-á objetar nossa crítica dizendo que nenhum preconceito há em se pensar uma gênese específica da homossexualidade – Freud já tratava do assunto, acreditando numa “gênese psíquica da homossexualidade” (FREUD, 1910 [1970: 91 e segs.]) –, assim como se admitiria uma gênese também particular para a heterossexualidade. Nos dois casos, tratar-se-ia sempre de escolha objetal e, igualmente, existiriam aí causas implicadas: para cada um dos casos, as escolhas estariam fundadas em determinações (inconscientes), ignoradas pelo próprio sujeito, que se diferenciariam quanto apenas aos objetivos sexuais, julgamentos de valor não podendo ser aplicados a nenhum dos casos. Em outra ocasião (SOUSA FILHO, 2003b), já nos valemos desse argumento, mas ele é frágil. Ora, a questão que não aparece aí é que, como a priori o preconceito sobreatua em certas visões teóricas, as supostas determinações (inconscientes, sociais, culturais) da homossexualidade já são, de antemão, encaradas como determinações de um “problema”, de uma “inversão”, de um “desvio”, de uma “perversão”, isto é, de uma escolha não conforme a ideologia da “normalidade”. Simples é ver que o preconceito age em círculo: como a homossexualidade é a priori encarada como “inversão”, “desvio”, “anormalidade”, perversão”, etc., suas supostas “determinações” não são compreendidas como determinações de uma escolha objetal normal e saudável (uma escolha entre outras, supostamente quando haveria uma compreensão sem juízo de valor), mas, diferentemente, essas determinações são compreendidas como “causa” de um “problema”, de um “desvio” no âmbito da sexualidade dos indivíduos. Até aqui, de todo modo, é o que se pode depreender do discurso de muitos nos diversos modelos teóricos das psicologias, na pedagogia, e mesmo nas ciências sociais.

 Mas, deve-se saber, as sociedades ocidentais foram as primeiras que, na modernidade, constituíram a homossexualidade num problema clínico e os homossexuais em sujeitos clínicos – para o que, grandemente, contribuíram a psicologia e a psicanálise. Fato que se inscreve na realidade mais ampla da criação do que Michel Foucault chamou de “dispositivo de sexualidade” (FOUCAULT, 1985). Segundo o autor, o que chamamos de sexualidade é um produto histórico de um discurso sobre a sexualidade que se engendrou de muitas formas, uma invenção histórica tardia, data do século XIX. É desse período a criação histórica europeia de uma experiência social pela qual “os indivíduos são levados a reconhecer-se como sujeitos de uma ‘sexualidade’, que abre para campos de conhecimentos bastante diversos, e que se articula num sistema de regras e coerções” (FOUCAULT, 1984:10). Isto é, a ideia da sexualidade como uma substância em si (objeto natural e universal) e a existência de toda uma “produção especulativa”, de um “hiperdesenvolvimento do discurso sobre a sexualidade” (idem, 2004:58-59) são invenções sociais que, no século XIX, articulam-se a engenhos de saber e poder em suas relações também apontadas pelo autor (idem, 1977;1979). Nossa reflexão sobre a homossexualidade insere-se nessa linha de compreensão da sexualidade conforme apontada por Michel Foucault. Autor que, fazendo sua “história da sexualidade”, indicou igualmente o trabalho a se escrever sobre a imagem-tipo desqualificadora do homossexual produzida na história do Ocidente, desde os gregos (FOUCAULT, 1984:21). Descontadas as dificuldades de sua época e não deixando de se reconhecer seus autênticos propósitos emancipatórios, os enredamentos de Freud em torno do tema da homossexualidade (é conferir os seus textos em que o assunto aparece...) deixaram para sempre um legado de ambiguidades e preconceitos, marcando profundamente o imaginário de nossas sociedades modernas e o espírito daqueles que, nas psicologias, ao que parece, não perceberam que estão diante tão somente de um modelo teórico e não diante da verdade plena e objetiva sobre um pretendido fenômeno investigado.


 Em todo caso, sugerir que a gênese da homossexualidade releva de uma “tipicidade” na escolha de objeto, por representada como contrária à pretendida normalidade ou, como 5 ainda querem alguns, não conforme a natureza da divisão sexual, não é mais do que deixar o preconceito falar, mesmo considerando a boa intenção científica ou moral. Em geral, curiosas doutrinas (médicas, psicológicas, religiosas) sobre a sexualidade humana são invocadas para “explicar” a homossexualidade em homens e mulheres. Porém, não se tratando mais do que de preconceito em forma de teoria e ciência, as conclusões dessas doutrinas são não apenas arbitrárias: os “dados” sobre os quais se apoiam são questionáveis ou inexistentes. No caso das psicologias, teóricos que, confundindo casos clínicos individuais com supostas leis gerais de “estrutura”, mas arvorando-se à condição de poder teorizar sobre a homossexualidade, praticam generalizações errôneas e profundamente preconceituosas.

 É recente a crítica teórica e o combate político ao preconceito em torno da homossexualidade. É a partir dos anos 50, e sobretudo depois dos anos 70 do século XX, que se inicia a formulação crítica, apoiada na antropologia e na história, opondo-se ao discurso até então dominante – mesmo no chamado meio científico – que apontava o caráter patológico, marginal e desviante da homossexualidade.

 Como um produto dessa visão que a priori entende a homossexualidade como um desvio a explicar, nascem as “pesquisas” determinadas a explicar a causa específica da homossexualidade – e desde já, anote-se, específica porque, no preconceito, os homossexuais constituem uma “espécie à parte”, é o chamado “terceiro sexo”... não é o específico “o que é próprio de uma espécie”? Como veremos, a procura da causa particular (ou causas) da homossexualidade revela mais os preconceitos de quem fala do assunto do que alguma coisa sobre o “fenômeno” pretensamente estudado. A pergunta que poderíamos fazer é: por que razão se procura a gênese da homossexualidade e não se procura, na mesma medida, a gênese da heterossexualidade? Por que todo um conjunto de estudos e tratados sobre a origem da homossexualidade?

 Não se torna possível compreender o que essas questões envolvem se não consideramos o processo de colonização do imaginário de nossas sociedades pelo preconceito, que foi tomando a forma de “explicações” e “teorias” sempre mais aceitas. No limite deste artigo, contudo, estaremos apenas nos ocupando de nossa intenção central, sabendo-se que bom número de estudiosos se encarregou de levantar os elementos históricos que, nas nossas sociedades, produziram, com relação ao sexual, uma educação moralizante, uma teia simbólica de culpabilizações e punições, dispositivos de regulação e disciplina (FOUCAULT, 1977; 1979; BROWN, 1990; LAQUER, 2001; BOSWELL, s/d) – elementos entre os quais o preconceito (sob diversas formas) pôde sempre ser percebido como exercendo ação destacada.

 É importante ressaltar que, no longo processo de colonização do imaginário de nossas sociedades, ganhou força uma concepção que corresponderia a uma naturalização da sexualidade humana, cujo efeito mais destacado é ter criado a ideia segundo a qual a heterossexualidade seria inata (a natureza daria os exemplos em todas as espécies), sendo então natural e normal, a homossexualidade sendo uma tendência adquirida, não sendo, pois, nem natural nem normal. Indo da opinião popular a pretensas visões científicas, essa ideia da heterossexualidade como inata, constituída na natureza das espécies e, assim, igualmente na natureza animal da espécie humana, tornaria sem razão de ser qualquer questão sobre sua origem. É dessa concepção naturalizadora da sexualidade que decorre igualmente a ideia segundo a qual, nos cromossomos e nos hormônios, estariam pré-fixadas as essências masculina e feminina que marcariam o desejo sexual e o destino social de homens e mulheres. A atração sexual entre homens e mulheres (heterossexual) seria, então, natural, definida biologicamente (seria endocrinológica, inscrita no genoma, etc.), com claros (e benéficos) impulsos voltados à reprodução da espécie – impulsos estabelecidos no processo da seleção natural. A heterossexualidade vista como inata e inerente à biologia do ser sexual humano, restava à homossexualidade a condição de uma “tendência adquirida” a ser explicada por “causas”, um “fenômeno” a ser esclarecido na história da espécie e na vida dos indivíduos: causa hormonal, causa genética, causa neurogenética, causa psicossocial...? As hipóteses são lançadas.

 Todavia, convém lembrar que a classificação da homossexualidade como uma entidade nosológica e sua medicalização remontam à metade do século XIX, quando a medicina e a psiquiatria tendem a substituir a religião e o direito na definição social da normalidade. Embora a religião nunca tenha deixado de ser uma força na produção do preconceito no imaginário de nossas sociedades ditas laicas e modernas, é no contexto, pois, do desenvolvimento da ciência moderna com fins normativos que ganha lugar a importância dada à identificação da homossexualidade como fenômeno a ser averiguadas as causas.

 Ainda que a prática da homossexualidade esteja entre as principais práticas sexuais, ao lado da heterossexualidade e da bissexualidade, na história dos diversos povos, em todas as épocas e em todos os meios sociais, observado já por filósofos como Schopenhauer, e amplamente atestado pelas pesquisas em antropologia e história – e que um meio homossexual masculino tenha se formado nas grandes cidades ocidentais desde o século XVI ao menos –, a representação do homossexual (homem ou mulher) como um tipo clínico, tal como se conhece hoje, somente aparece nas sociedades ocidentais no século XIX. Em 1870, um texto do médico alemão Carl Westphal intitulado "As Sensações Sexuais Contrárias" definiu a homossexualidade como um desvio sexual, abrindo caminho para teóricos da época e seus herdeiros tratarem de descobrir o que, na anatomia ou na história familiar do “doente”, pôde provocar sua “anomalia”. O termo passa a designar um tipo social particular, com pretendidas características psicológicas ou fisiológicas. Assinale-se, contudo, que o termo homossexual (do alemão Homosexualität) aparece, pela primeira vez, em 1869, em artigos de jornais do escritor e advogado húngaro Karol Maria Kertbeny, que, como muito bem esclarece o antropólogo brasileiro Luiz Mott, fazia uso do termo “homossexual” e “homossexualismo” como uma maneira de

lutar contra o parágrafo 175 do Código Penal Alemão, que condenava os praticantes do amor do mesmo sexo à prisão com trabalhos forçados. Para proteger sua pessoa e conferir maior respeitabilidade à defesa desta minoria discriminada, Kertbeny usou o pseudônimo de Dr. Benkert, embora nunca tivesse sido médico (MOTT, www.dhnet.org.br/direitos/militantes/luizmott/mott1.html, s/d, s/p).

 Transformada numa anormalidade, a homossexualidade foi, durante um século, combatida ao mesmo tempo como doença, vício, crime e pecado. Não é senão muito recentemente que a homossexualidade cessou de ser considerada como um problema mental, com a decisão, em 1973, da Associação dos psiquiatras americanos de retirá-la da lista das doenças mentais. Até 1975, as sociedades de psicanálise não aceitavam homossexuais como psicanalistas. E foi apenas em 1991 que a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista das doenças. Convém observar que, no Brasil, já nos anos 80, por esforço do antropólogo Luiz Mott, diversas moções de associações científicas (entre estas a Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência e a Associação Brasileira de Antropologia) foram aprovadas e importantes posições de crítica ao preconceito em torno da homossexualidade foram anunciadas (MOTT, http://br.geocities.com/luizmottbr/artigos08.html, s/d, s/p). Mas, para a maior parte das religiões, notadamente para os três monoteísmos praticados no mundo, a homossexualidade continua sendo um mal. Em 1994, o papa João Paulo II declarava que a homossexualidade era “um comportamento moralmente inaceitável”. Em 2002, o Vaticano publica seu Lexicon – que se pretende um “dicionário dos termos ambíguos” (sic.): poderíamos chamá-lo de dicionário do preconceito –, em que se pode ler a homossexualidade definida como “conflito psíquico não resolvido que a sociedade não pode institucionalizar”.

 A lista das criações preconceituosas, pronunciadas contra a homossexualidade, poderia ser aumentada se acrescentássemos diversos outros exemplos da história. Uma passada rápida de olhos na legislação de certos países, ao longo do tempo, pode também oferecer uma ideia do que o preconceito produziu e de como se constituiu em dispositivo de domesticação do imaginário de nossas sociedades, tornando-se a base histórica que faz emergir o pensamento generalizado que se pergunta pela causa específica da homossexualidade. Quantos bem intencionados não se puseram a teorizar sobre o assunto, mais vítimas do imaginário domesticado de suas épocas do que livres pensadores? Uma prática corrente na Grécia, em Roma e na China antigas, ainda que dentro de suas tradições, a homossexualidade existiu como uma instituição pedagógica entre os povos indo-europeus, base da formação dos povos europeus de hoje, tendo se expandido como uma prática social para além de sua natureza pedagógica inicial (SERGENT, 1986). Após o estabelecimento do cristianismo em Roma, ela se torna passível de condenação à morte em todo o Ocidente cristão até o fim do século XVIII. A partir do século XIII, a homossexualidade é passível da aplicação de penas comparadas às que se aplicavam aos crimes de heresia e lesa-majestade. Nos textos da prática jurídica desse tempo, a homossexualidade é associada à bestialidade. Certas cidades, como Bolonha, tinham leis próprias: no início do século XIII, a pena era o banimento perpétuo. Em Florença, para o caso de reincidência, o “crime” era punido com a fogueira. A Alemanha, em 1871, tinha disposições legais para reprimir a homossexualidade masculina, modificadas somente em 1969. No Reino Unido, ainda em 1885, leis estabeleciam penas de prisão para homens que praticassem relações homossexuais. Leis revogadas apenas entre 1967 e 1982. Na Rússia, antes da revolução socialista de 1917, as penas eram leves e eram raras as perseguições; com Stalin no poder, são previstas penas de prisão. Na França, a restrição legal introduzida em 1942, que reprimia relações homossexuais entre um maior e um menor, somente foi abolida em 1982. Irã, Sudão, Zimbábue e Iraque, entre outros, conservam a pena de morte para o que consideram o “crime de homossexualismo”. No Brasil, os homossexuais foram difamados e perseguidos pela Inquisição em processos que começam já no século XVI e seguem até o século XVIII, e os códigos Manuelino, Filipino e Afonsino, aplicados também em terras brasileiras, prescreviam a pena de morte aos sodomitas (MOTT, 1999; entre outros trabalhos do autor). Até aqui, no Brasil, continuamos como uma sociedade em que o preconceito anti-homossexual é abertamente pronunciado em programas de TV, rádio, nas escolas, por professores, padres, pastores, políticos, estando o país entre aqueles que têm taxas recordes de assassinato de homossexuais (MOTT, 2001).

 Um outro fator histórico contribuiu para reforçar a visão segundo a qual a homossexualidade seria uma exceção na sexualidade humana, retardando a crítica do preconceito, e, acrescentaríamos, retardando a crítica da ideologia das pretendidas causas: a negação da homossexualidade na história dos povos e civilizações. Os notáveis estudos de Bernard Sergent, L’homosexualité dans la mytologie greque (SERGENT, 1984) e L’homosexualité initiatique dans l’Europe ancienne (SERGENT, 1986), são esclarecedores a esse respeito: adulterando os textos originais, adaptando-os de maneira a neutralizar a realidade homoerótica ou desclassificando como bárbaras ou primitivas as sociedades nas quais a homossexualidade era abertamente praticada, bom número de historiadores e antropólogos contribuiu com a transformação da homossexualidade em um tabu e, posteriormente, na ideia de uma exceção dentro de uma suposta normalidade majoritária.

Torna-se importante destacar ainda que, na história de nossas sociedades, entre outras de suas expressões, o preconceito tomou a forma da opinião religiosa, que, misturando às crenças uma visão também naturalista da sexualidade, traduz-se na versão segundo a qual a heterossexualidade sendo a forma sexual herdada da natureza pelo homem e – sendo a natureza uma criação de Deus... Javé, Allah, os termos variam conforme as crenças... – tudo que a essa forma contraria, não apenas contraria a natureza, contraria igualmente a vontade divina. Explica-se porque a homossexualidade é banida nas religiões para o campo dos “pecados”, “atos impuros”, “anomalias”, “vícios”, “depravações” ou, na erudição de seus chefes, representa “quando menos, desordem da identidade de gênero” – os termos são de Joseph Ratzinger, logo após tornar-se Bento XVI.

 Considerando a homossexualidade como um problema (ora congênito, ora adquirido), cuja gênese seria um “mistério” que se deve procurar desvendar, as teses patologizantes e moralistas dominaram longamente sem que se lhes opusessem críticas. Apenas nas últimas décadas do século XX os estudos críticos – adotando uma perspectiva antropológica e histórica – iniciaram a desconstrução do discurso do preconceito. Estudos que vão nascendo e se fortalecendo a partir da entrada em cena dos movimentos feministas, da contracultura e do movimento gay. Em diferentes países, o movimento gay transforma o homossexual, de um (inventado) sujeito clínico, em um sujeito de desejo e em sujeito político – o que prevalece até hoje, como forma de luta contra o preconceito. É fato que – como fruto da ação daqueles que sempre resistiram à dominação em todas as épocas – uma outra concepção rivalizou sempre com o preconceito e com a ideologia naturalista que aprisiona a sexualidade numa suposta realidade natural da divisão e da atração sexual: o que chamamos de concepção histórico-antropológica (cultural, construtivista ou, como proporei chamar aqui, construcionista), antes de constituídas as ciências humanas modernas, já dava sinais de sua existência de muitas maneiras... em filósofos, escritores, poetas e em solitários pesquisadores, de pouca fama, que se pode reconhecer nas entrelinhas das citações e diálogos (explícitos ou implícitos) na obra dos famosos.


 Édipo, ratos, hormônios e genes: da ideologia à fraude das causas 


 Assim é que, situado que se trata de um produto histórico e cultural, o preconceito não deixou de fazer seus estragos. E não deixaremos de sugerir que as formulações sobre a(s) pretendida(s) causa(s) da homossexualidade, que se dissimulam como “teorias”, pretendam ou não ser “científicas”, merecem ser chamadas de fraudes (de ordem intelectual e moral), pois constituem um trabalho do pensamento preconceituoso (social, mas também o de cada um) que, embora se reconhecendo como tal, não cessa de agir. Em muitos casos, trabalho que se crê portador da verdade da homossexualidade, da qual os próprios homossexuais estariam privados, pois ignorariam a razão (desconhecida para eles; inconsciente; genética, psicossocial, etc.) de sua “tendência sexual”. E que se pretenda que no anúncio dessa verdade encontra-se uma posição ética que concorreria para uma maior aceitação social da homossexualidade ou para a liberação dos homossexuais numa maior aceitação de si, a pretensão não é menos produto do imaginário colonizado pela ideologia da heteronormatividade, colonizado pelo preconceito.

 Por efeito da longa memória dessa história de colonização pelo preconceito, pensar que existem causas específicas que produziriam a homossexualidade, estigmatizada como um desvio, tornou-se uma ideia que está na cabeça da maioria, se não de todos. Mesmo às vezes no pensamento daqueles que se creem sem preconceitos. Quando não manifesto, permanece latente, no imaginário social, a crença de que um homem ou mulher cuja identidade sexual é a de homossexual é alguém que, no seu desenvolvimento sexual, carrega algo que se constitui fundamento de uma variação não conforme a tendência sexual majoritária. O homossexual seria sempre alguém que teria uma sexualidade a ser esclarecida, investigada, por ele próprio e pelos outros, pois, não conforme uma pretensa normalidade sexual (que seria também normalidade psíquica, moral, social). Na boa “tradição europeia da confissão, que começa pela confissão católica e desemboca na psicanálise” (FOUCAULT, 2004:30), o homossexual é sempre visto como aquele a quem se deve extrair a confissão de sua sexualidade. A homossexualidade como desvio, para cuja existência pesa uma causa específica (talvez variando conforme o caso), é objeto das mais variadas fantasias... das crendices da opinião popular às dos consultórios médicos e dos divãs, passando pelos laboratórios universitários de pesquisa.

 Na psicologia e na psicanálise, uma vez que a naturalização do sexual é refutada por Freud (FREUD, 1905 [1972]), a homossexualidade aparece como uma concretização dos percalços a que a sexualidade do ser da linguagem pode regularmente ser submetida. Resumidamente, três fatores determinariam a homossexualidade masculina: o forte vínculo do filho com a mãe, a fixação na fase narcísica e problemas na “castração”. No primeiro, a homossexualidade teria início em razão de uma intensa e incomum atração do filho pela mãe, o que impediria a ele de se ligar a outra mulher. O segundo fator, a fixação no narcisismo, faria com que o indivíduo invista menos trabalho (psíquico) em se ligar ao seu igual (mesmo sexo) que a outro sexo (diferente). A homossexualidade representaria uma espécie de “estagnação” na fase narcísica, responsável por tornar o amor-sexual, para o homossexual, uma experiência sempre condicionada a encontrar um órgão genital semelhante ao dele. Terceiro fator, problemas relativos à chamada travessia da castração: isto é, dificuldades emocionais relativas a perdas e à idéia de morte, que deixariam o indivíduo resignado ou acomodado na sua psico(homo)ssexualidade.

 Nesses termos, a homossexualidade ilustraria uma falha no evento psíquico que se sucederia ao momento original no qual, na infância, a fixação libidinal se realizaria a partir da imagem de si – que não distinguiria nenhum outro traço que o igual – que, desde então, funcionaria como o protótipo dos objetos que poderão provocar a atração sexual. Como é sabido, para a teoria freudiana e de seus sucessores, o ser humano, enquanto ser da linguagem e para passar de virtual a qualquer coisa a mais, terá que atravessar uma crise psíquica singular em seus efeitos, que provocaria ordinariamente o abandono da (primeira) imagem de si em proveito de uma imagem substitutiva. Descartado que não se trata da realidade animal, em que não há escolha, mas pré-formatação instintual do sexo, no ser falante, o narcisismo (o amor da imagem de si) se encontraria na origem da escolha e da relação libidinal e manteria uma tensão nostálgica e desvalorizadora com relação aos futuros objetos substitutos da imagem de si. A crise psíquica que causaria o abandono do primeiro objeto e suas substituições foi teorizada por Freud como sendo a do Édipo e, desde aí, a atenção se voltou assim para o acesso à sexualidade humana como uma realidade produzida num processo singular, caso único entre todas as espécies animais, por se produzir a partir de uma realidade não biológica mas psíquica e social. (Sem dúvida, definir o caráter psíquico e social da sexualidade humana é uma importante contribuição de Freud para um tema que o aproxima em quase tudo da antropologia, pois essa sexualidade que é uma realidade psíquica é cultural/social no sentido antropológico, isto é, realidade que é construção de uma configuração cultural particular, nas relações sociais, que coloca cada um no roteiro que terá que seguir no drama das instituições em cada cultura – a própria psicanálise podendo ser inscrita num projeto de uma antropologia geral.) Mas se segue que aquilo que era, em certo sentido, uma teorização revolucionária em Freud – retirar o sexual do campo do biológico e inscrevê-lo na cultura – vai se tornar também o ponto de partida de elaborações de um pensamento sobre a homossexualidade (e já no próprio Freud) que não se distanciaram do preconceito de pensá-la como adquirida por vias que a afastariam do percurso normal da sexualidade, e aquisição que se poderia explicar.

 Dispondo da teoria do Édipo, o modelo freudiano proporá que, se o objeto desejado não encarna a prevalência do objeto substituto – o outro, o diferente (héteros) – sobre o amor de si – o igual, o mesmo (homós) –, algo de errado terá se passado ao nível da referenciação da crise psíquica que provocaria ordinariamente o abandono dos objetos do amor de si (homós) em proveito dos objetos do amor do outro (héteros). Conforme esse argumento, a homossexualidade seria o caso de indivíduos que não alcançariam, na sexualidade, o amor do objeto culturalizado – nem instintual, nem narcísico –, permanecendo no amor (primário) do igual, do mesmo (hómos). Por outro lado, a heterossexualidade seria o caso bem sucedido da passagem de um estado a outro da escolha objetal no psiquismo, em que sairia ganhando a reprodução da espécie e a organização social humana, baseada na diferença entre os sexos. Daí porque a heterossexualidade corresponderia a uma sexualidade perfeitamente cultural, civilizatória, própria do ser da linguagem, e resultado de uma intervenção humana (na forma do Édipo, do complexo de castração e quejandos), assinalando o acesso do indivíduo à cultura, sob o império da Lei (do Pai) da diferença sexual. Para a ideologia (no discurso freudiano e no de seus seguidores), a homossexualidade estaria para a natureza assim como a heterossexualidade estaria para a cultura?

 Ainda no modelo teórico das psicologias, a homossexualidade (masculina) seria efeito de uma mensagem da mãe, recebida pelo filho, na rivalidade com o marido. Tratarse-ia, assim, de um lado, da figura do pai, que, desde a aurora dos tempos freudianos, é identificado com a lei, e, de outro, da figura da mãe, que seria uma mulher que nutriria uma queixa essencial com relação a essa lei, pois lei que parece dispensá-la da castração e do seu reconhecimento. Mãe, ela espera do seu filho uma vingança decisiva contra a instância demasiada injusta para fazê-la submissa e demasiado absurda para separar uma mãe de seu produto. Ora, como se sabe que esse pai não está aí senão por procuração – ele é o pai simbólico –, a mãe (do homossexual), nessa fábula, o que tem é um problema com a lei (do pai) e oferece ao filho uma alternativa de ser a outra versão – (per)versão? sub-versão? – da lei do pai. A mãe, transferindo – inconsciente – o desejo de ser uma outra versão da lei do pai, deixa ao filho o combate a uma lei patriarcal que, introduzindo o pai no centro de tudo, 14 também a subjuga e oprime: “A mãe faz lei no lugar do pai”, “a mãe dita a lei ao pai” (LACAN, 1957-1958 [1999]). O homossexual seria aquele que, levado a negar a castração, terminaria riscando do seu programa a diferença entre os sexos (observar que Freud já concluía pela mesma curiosa ideia em 1915; FREUD, 1975 [1976: 356]). Nos termos propostos por Jacques Lacan, em um de seus célebres Seminários, o homossexual seria aquele que conservaria uma “relação profunda e perpétua com a mãe”, manteria “identificação com a posição da mãe”, mãe diretiva, “que cuidou mais do filho que o pai”, etc etc.

A mãe que mostra ter sido a lei para o pai num momento decisivo... no momento que a intervenção proibidora do pai deveria ter introduzido o sujeito na fase de dissolução de sua relação com o objeto do desejo da mãe, e cortado pela raiz qualquer possibilidade de ele se identificar com o falo, o sujeito encontra na estrutura da mãe, ao contrário, o suporte, o reforço... que faz com que essa crise não ocorra (LACAN, 1957-1958 [1999: 215]). 

 Não identificados com a posição do pai, os homossexuais conservariam para sempre – “não são curados” (ibid: 214]). – um “medo pavoroso de ver o órgão da mulher (...), pela suposição de que a vagina [perigosa] ingeriu o falo do pai: (...) o que é temido na penetração [homem/homossexual – mulher] é justamente o encontro com esse falo” (ibid:218). Mais ainda:

a exigência do homossexual de encontrar em seu parceiro o órgão peniano corresponde precisamente a que, na posição primitiva, aquela ocupada pela mãe que dita a lei ao pai, o que é questionado – não resolvido, mas posto em questão – é saber se, na verdade, o pai tem ou não tem, e é exatamente isso que é exigido pelo homossexual a seu parceiro, acima de qualquer outra coisa, e de um modo preponderante em relação às outras coisas (ibid: 217]).

 Tais eventos psíquicos constituem o homossexual como aquele que “agarra-se extremante à sua posição homossexual”, como aquele que tem “dificuldade de abalar sua posição” – é ler Lacan... e conferir (para todas as citações: LACAN, 1957-1958 [1999: 214-220]).

 Tais generalizações ignoram a diversidade das culturas (já MALINOWSKI, 1927 [1973], apontava críticas a Freud sobre as generalizações de sua teoria, embora críticas consideradas ingênuas por estudos posteriores (entre outros, DUVEREUX, 1972; ORTIGUES e ORTIGUES, 1989)), a variabilidade das famílias, mesmo apenas no interior das sociedades ocidentais, assim como a amplitude, variabilidade e dinamismo das relações humanas que engendram a biografia de cada indivíduo, incluindo aí a sua sexualidade – esta seguramente não sendo construída apenas pelas relações que se produzem no microcosmo familiar e na infância. Acrescente-se, igualmente, as generalizações de um tal modelo teórico (que se pretende validado pela clínica) tornam-se responsáveis pela reificação do preconceito, ao traduzir, mais uma vez, a homossexualidade como “problema”, que se quer intrínseco à sua própria natureza como orientação ou variante sexual, embora a realidade demonstre o contrário: o número daqueles que são homossexuais, para os quais a homossexualidade não é um “problema”, é muito maior do que o preconceito (da opinião popular ou do senso comum douto) é capaz de admitir.

 Convém anotar, entretanto, que nossa crítica à abordagem da homossexualidade pela psicologia e pela psicanálise não ignora a importante contribuição dessas áreas ao estudo de diversos outros fenômenos humanos. E não podemos deixar de ressaltar o importante papel que a psicanálise desempenha hoje, por exemplo, no combate às tentativas de biologização dos atos humanos, no que ela se reúne à crítica das demais ciências sociais à nova vaga do determinismo biológico. Foi exatamente esse combate que inspirou a psicanalista e historiadora das idéias Elisabeth Roudinesco a escrever seu ensaio “Por que a psicanálise?”, no qual diz:

 violentamente atacada hoje em dia pelos que pretendem substituí-la por tratamentos químicos, julgados mais eficazes porque atingiriam as chamadas causas cerebrais das dilacerações da alma (...) [a psicanálise] restaura a idéia de que o homem é livre por sua fala e de que seu destino não se restringe a seu ser biológico (ROUDINESCO, 2000: 9).

 É com a crítica ao determinismo biológico e sua tentativa de igualmente definir a gênese própria da homossexualidade que nos ocuparemos daqui por diante. A procura por explicar os fenômenos humanos a partir de bases biológicas não é um fato de hoje na história da ciência. Mas, não resta dúvida, que a onda atual do determinismo biológico tem permitido retornar com força, nas últimas décadas, explicações biologizantes de fatos sociais e fenômenos culturais, com ampla aceitação e difusão pelas mídias. Destacam-se, 16 entre outras expressões, a atuação da sociobiologia (e desde Edward Wilson) – com variações entre os autores, que podem ir de comentários mais ou menos comprometidos (ROSE, 2000), hibridismos teóricos entre antropologia cultural e sociobiologia (PARÍS, 2002) ou formulações fortemente comprometidas (WINSTON, 2006) – e a atuação do seu subproduto correspondente: a chamada psicologia evolucionista (WRIGHT, 1996; PINKER, 2004).

  Acreditando que a subjetividade humana possui fundamentos biológicos, autores dessa vertente afirmam a existência de um “componente genético” para a homossexualidade. E o fazem, ao que parece, pretendendo fundamentar uma visão “não preconceituosa”, não baseada em juízos morais, que concorreria para se ter uma compreensão (justa?) da homossexualidade. Esta definida como uma prática para cujas razões (na espécie humana e na vida do indivíduo homossexual) a natureza teria concorrido. Como escreve Robert Winston, em Instinto Humano:

Do ponto de vista da seleção natural, a homossexualidade deveria ser um beco sem saída. Não pode haver nenhuma vantagem evolucionista em ser exclusivamente gay ou lésbica. Contudo, os seres humanos não são os únicos com comportamento homossexual: os bonobos – chimpanzés pigmeus – freqüentemente são vistos se agarrando com parceiros do mesmo sexo (WINSTON, 2006: 120). 

 E mais adiante, diz o autor: a homossexualidade pode parecer ir de encontro à adaptação evolucionista, mas isto não significa que seja uma prática moralmente ruim (Ibid, 2006: 122). Uma posição semelhante parece ser a de Simon Le Vay, especialista norte-americano em neuroanatomia e autor do livro The Sexual Brain, publicado em 1991, ele próprio homossexual, que procurou enraizar a homossexualidade num “cérebro gay”, certamente por acreditar que a naturalização da homossexualidade poderia ajudar a diminuir o preconceito contra homossexuais. Essa posição não nos parece, contudo, afastarse do preconceito. Mais adiante, voltaremos ao assunto.

 As teses da sociobiologia e da psicologia evolucionista retomam a chamada controvérsia “natureza versus cultura”, conhecida de antropólogos, sociólogos, psicólogos, pedagogos. Controvérsia iniciada, no final do século XIX até as primeiras décadas do século XX, nas disputas entre biólogos e psicólogos, ao discutirem os fundamentos dos chamados “traços comportamentais”, gerando uma polêmica na qual se considerava, de um lado, que certos padrões de comportamento eram herdados, inatos, inscritos nos genes (etólogos, psicólogos fisicalistas) e, de outro, que os comportamentos eram aprendidos (psicólogos behavioristas), sendo moldados ou pela seleção natural (biólogos e fisicalistas) ou pelas experiências do indivíduo (psicólogos comportamentalistas, behavioristas).

 Essa dicotomia foi retomada por Edward O.Wilson, um entomologista e biólogo de Harvard, considerado o fundador da sociobiologia (ROSE, 2000; PARÍS, 2002), para quem, mesmo numa sociedade mais igualitária, as desigualdades e hierarquias sociais continuariam a existir, como os homens dominando as mulheres, pelo peso da herança biológica animal sobre o comportamento social humano. Somos (machistas) como os macacos (PINKER, 2004). Seu projeto, apresentado no livro Sociobiologia: a nova síntese, publicado em 1975, estabelecia que “a sociobiologia, assim como as outras ciências sociais e as humanidades, são os últimos ramos da Biologia e esperam ser incluídas na moderna síntese” (apud PARÍS, 2002: 42). Nessa “ciência unificada do comportamento”, como assinala Michael Rose, “o comportamento humano deveria passar a ser estudado como o comportamento da mosca das frutas e dos gansos, num esforço sistemático de resolver ou revelar todas as motivações darwinianas inerentes a ele.” (ROSE, 2000: 195). Tese que, de lá para cá, tem ganhado cada vez mais força e adeptos, mesmo no interior das ciências humanas nas universidades.

 A sociobiologia pretende explicar as sociedades humanas (instituições sociais, padrões culturais) a partir de uma teoria evolucionista que se pretende baseada nas conclusões da biologia sobre origem e evolução das espécies animais. Uma espécie de neodarwinismo, aceito por certos darwinianos, contestado por outros [2]. Os sociobiólogos sugerem, com pequenas variações de ênfases entre eles, que os comportamentos sociais humanos, de algum modo, são determinados geneticamente e sua manutenção deve-se à seleção natural no processo da evolução da espécie (WINSTON, 2006; WRIGHT, 1996; PINKER, 2004). Nas últimas décadas, a sociobiologia e a psicologia evolucionista têm se fortalecido com a expansão da biologia molecular e com os desdobramentos do Projeto Genoma. Igualmente, sem que seja estranho à episteme de nossa época, a neurociência tem assumido a dianteira das explicações sobre comportamento humano centradas somente na biologia, na genética.

 No tocante às orientações sexuais e à homossexualidade, em particular, as teses do determinismo biológico vão variando mais ou menos conforme o tempo e os “avanços” que estabelecem. Já se falou de comparecimento de algum gene (ou grupo de genes) no zigoto do indivíduo, levando-o a apresentar um traço correspondente de comportamento sexual, sem relação com o ambiente (relações sociais, padrões culturais) no qual se desenvolve. Já se atribuiu aos hormônios funções determinantes na orientação sexual: testosterona, progesterona e estrógenos concorreriam para definir as tendências sexuais dos indivíduos. Homens homossexuais seriam “feminilizados” e mulheres homossexuais seriam “masculinizadas” pelos hormônios, estes conformando suas tendências sexuais. Por fim, mais recentemente, seguidores das ciências que estudam o cérebro acreditam que os genes, alterando a estrutura cerebral, gerariam a orientação sexual correspondente. O exemplo mais conhecido é a tentativa de reputar aos genes de certa região cerebral a responsabilidade pelas diferenças no hipotálamo e de se concluir que este fenômeno determinaria a orientação sexual. No cérebro, estaria definido se somos homossexuais ou heterossexuais.  

 Diversas críticas podem ser feitas ao determinismo biológico e não apenas quanto à sua tentativa de definir a “causa” da homossexualidade. Destacaremos rapidamente algumas delas. Como discurso científico, o determinismo biológico é uma reificação reducionista de processos e realidades (mesmo biológicas), em termos de uma natureza humana biológica fixa, que não podem ser compreendidos se não se considera suas relações com práticas culturais, históricas e sociais, que são dinâmicas e diversas. Constitui um procedimento igualmente reducionista por pretender a existência de “genes” ou “hormônios” específicos para cada gesto, emoção, atitude, desejo, eliminando a complexidade de fatores envolvida na produção dos atos humano-sociais. O mais curioso de observar, tratando-se de trabalhos no campo científico, é a inversão na ordem das coisas: o efeito torna-se a causa. É comum a descrição de fenômenos tomados como desencadeados por “ações do cérebro”, à simples vista fenômenos que são reflexos ou reações fisiológicas provocadas por situações emocionais, subjetivas, sociais. O uso das 19 imagens feitas com ressonância magnética talvez seja, hoje, o melhor exemplo dessa inversão (A edição de 31/01/07, da revista Veja, traz matéria sobre as “bases cerebrais” da atitude de compradores compulsivos, atestadas por imagens produzidas com a técnica da ressonância: são o nucleus accumbens, o córtex insular e o córtex pré-frontal médio que nos fazem comprar o carro da propaganda na TV, a camisa que está na vitrine ou o perfume que adoramos!).

 O determinismo biológico é também uma extrapolação questionável à esfera da realidade humano-social de estudos realizados com animais, tornando-se uma ampliação de modelos que se tornam válidos apenas para certos tipos de fenômenos e não para todos. Um exemplo dessa extrapolação é Gunther Dörner, que, trabalhando na Universidade Humboldt, em Berlim, e estudando cérebros de ratos, concluiu que a identidade de gênero dos bichinhos podia ser modificada, quando se interferia em partes de seu cérebro. Gunther Dörner partiu daí para fazer afirmações sobre a homossexualidade humana... Outro exemplo de extrapolação é Simon Le Vay, a quem já nos referimos: estudando cérebros de cadáveres, com tecidos naturalmente modificados pela morte, afirma ter encontrado uma diferença estrutural de tamanho nos hipotálamos de gays e lésbicas: nos homossexuais, seria de menor tamanho. O neuroespecialista estudou os cérebros de 41 cadáveres, incluindo 6 mulheres, 19 homens homossexuais e 16 outros que supôs serem heterossexuais. No seu estudo, afirma ter encontrado uma pequena área do cérebro, o INAH-3, que era de medida menor e similar em mulheres e homens homossexuais e maior em homens que supôs serem heterossexuais. Para o determinismo biológico, ratos e cadáveres servem para definir aspectos da subjetividade humana, o desejo, a gênese da homossexualidade.

 Por fim, por seus termos, o determinismo biológico corresponde a uma elisão do social, do cultural, da história e da política na vida de nossas sociedades. A constatar pelos “estudos” divulgados pela mídia, sempre com muito estardalhaço, as diversas expressões dessa corrente de pensamento estão prontas a estabelecer uma sociedade humana inteiramente dominada por genes, neurônios, hormônios, e sem instituições culturais, padrões sociais, classes, Estado, relações de poder, sujeições à ideologia, conflitos, lutas políticas, etc. Em outros termos, uma ciência do social sem sociedade.

 Mas o determinismo biológico não segue sem críticas. As ciências sociais, através de diferentes autores, nunca deixaram de realizar a crítica às tentativas de biologização e naturalização do social (SAHLINS, 1980; BOURDIEU, 1989; 1998; 1999; HÉRITIER, 1996; GODELIER, 1982; KURZ, 1997, entre outros exemplos). Hoje, diversas vozes têm se levantado para denunciar os significados conservadores de suas teses e advertir que algumas delas representam ameaças a conquistas emancipatórias importantes. Nomeando a vaga biologizante atual de “pretensões obscurantistas”, valeria mais uma vez citar Elisabeth Roudinesco, ao acusar as tentativas de biologização do social de pretenderem “reduzir o pensamento a um neurônio ou confundir o desejo com uma secreção química” (ROUDINESCO, 2000:9). A crítica ao determinismo biológico na ciência não deve ser confundida, entretanto, com o combate à ciência como tal, empreendida por religiosos conservadores e outros.


 Homossexualidade: uma orientação sexual, uma expressão sexual como outra


 O que o preconceito oculta? O que para o preconceito se torna insuportável quando se trata de pensar a homossexualidade? Que é a homossexualidade?

 Não é mais desconhecida a formulação teórica (na psicologia, antropologia, sociologia, pedagogia, etc.) que define a homossexualidade como uma orientação sexual para pessoa do mesmo sexo. Deve-se evitar, contudo, a confusão de pensar que apenas a homossexualidade é uma orientação sexual (com talvez mais a bissexualidade), sendo a heterossexualidade outra coisa diferente de uma orientação. Que é uma orientação sexual? Em geral, define-se a orientação sexual como a atração e o desejo sexuais (paixões, fantasias) do indivíduo por um outro de um gênero particular. O gênero é a conformação física, orgânica, celular, particular que permite distinguir, nas espécies, os machos e as fêmeas e, na espécie humana, o homem e a mulher, o sexo masculino e o sexo feminino. Mas, nesses termos, uma definição ainda muito limitada, pois, para homens e mulheres, o gênero é uma construção social que se configura numa relação com o que, em cada cultura e época histórica, se define como sendo a identidade sexual, os papéis sexuais, idéias de masculinidade, feminilidade, etc. (BUTLER, 2003; HÉRITIER, 1996; BADINTER, 1985; 21 1986; 1993; BOURDIEU, 1999; CECCARELLI, 1998b). Em geral, ao gênero se vincula uma identidade sexual, mas, como advertem os estudiosos do assunto, essa relação entre gênero e identidade é uma realidade bem mais complexa: “o modelo biológico do masculino e do feminino é válido para a definição celular; mas seria ilusório pensar que a identidade sexuada poderia ser definida a partir do biológico” (CECCARELLI, 1998a, s/p) A orientação sexual, na maior parte dos casos, não interfere na identidade sexual. Ficam de fora os casos de transexualismo (CECCARELLI, 1998b) Assim, contrariamente ao que imagina a opinião popular, um homossexual masculino não se identifica como “feminino”, não se sente “mulher”. Conceber a sexualidade do indivíduo em termos de orientação sexual (e esta como atração, fantasias e desejo direcionados a indivíduos de outro, do mesmo ou de ambos os gêneros) é quase um consenso entre especialistas hoje (SUPLICY, 1983).

 Não resta a menor dúvida, o conceito de orientação sexual é válido para pensar a homossexualidade. Deve-se saber, todavia, que a orientação sexual é algo complexo, cuja compreensão envolve entender a relação sui generis de elementos diversos, que desconhecemos e deformamos ao querer captá-los em sua totalidade e como causação, alguns deles que permanecerão para sempre insondáveis. Porém, para um uso mais crítico do conceito e para evitar possíveis apropriações preconceituosas e conservadoras, torna-se importante dessubstancializar a orientação sexual, relativizando o papel que as variáveis psicológicas e pedagógicas ocupam no conceito, que tornam a orientação sexual uma substância em si (um objeto natural e universal), levando a crer, mais uma vez, que os indivíduos portam algo identificável a uma sexualidade fixa, inteligível, coerente, inteira, um conjunto de atributos idêntico a si mesmo, provavelmente também “com uma gênese específica”. Para evitar a substancialização da orientação sexual, é importante trazer a reflexão sobre o assunto para o terreno da reflexão antropológica e sociológica: a orientação sexual é uma construção subjetiva, certo!, como desejo é singular e em grande medida inconsciente, mas é igualmente uma construção de caráter social. Constituída de prazeres, sensações, fantasias, imaginação, práticas eróticas, etc., a orientação sexual é construída nos embates subjetivos e sociais, produzidos nas interações, sob padrões culturais, relações de poder, idéias sociais, configurando-se como um fenômeno individual tanto quanto coletivo. Constitui uma expressão sexual, uma manifestação das possibilidades sexuais e eróticas humanas, sempre contextualizadas e socialmente comuns a muitos indivíduos.

 Uma orientação sexual expressa a plasticidade e as possibilidades humanas no terreno da sexualidade, como em outros. Expressões das capacidades criativas e variáveis humanas. Os estudos em antropologia e sociologia, alguns deles já citados neste trabalho, demonstram que, na espécie humana, as orientações sexuais podem assumir várias formas. Os estudos também mostram que a variedade de orientações sexuais é encontrada em todas as culturas e em diferentes épocas, embora não se constituam necessariamente nas identidades sociais como conhecemos, hoje, nas sociedades ocidentais modernas.

 Definida em termos de orientação ou expressão sexual, a homossexualidade não é uma opção que depende da vontade do indivíduo, como uma deliberação consciente, mas nenhuma orientação sexual o é, assim como não é algo da ordem de uma causa específica (como pretendem as tentativas de explicação criticadas logo acima). Se há que se falar de causa, a causa da homossexualidade é a mesma de toda orientação/expressão sexual, a mesma da sexualidade humana como tal: a pulsão sexual, sobre a qual se estrutura o desejo, que, como Freud a caracterizou, não tem objeto nem fixo nem único, não se determina nenhum objetivo como natural ou normal, e que faz suas escolhas segundo uma economia cujo único princípio é o prazer (FREUD, 1905 [1972], entre outros textos do autor). Assim, heterossexualidade, homossexualidade ou bissexualidade são nomenclaturas usuais (todas com sentidos culturais e históricos) para expressões sociais do desejo sexual humano, calcadas na pulsão. A sexualidade ligada à pulsão e ao desejo não se estrutura por uma disposição orgânica ou em dados fisiológicos. Assim,

Ao buscar o prazer, a sexualidade escapa à ordem da natureza e age a serviço próprio "pervertendo" seu suposto objetivo natural: a procriação. Subordinar a sexualidade à função reprodutora é "um critério demasiadamente limitado", adverte Freud. Isto vem mostrar à biologia, à moral, à religião e à opinião popular, o quanto elas se enganam no que diz respeito à natureza da sexualidade humana: a sexualidade humana é, sem si, perversa - entendida aqui em seu sentido primeiro: desvio de uma finalidade específica. Ou seja, em se tratando de sexualidade, não existe "natureza humana" pois a pulsão sexual não tem um objeto específico, único e muito menos pré-determinado biologicamente (CECCARELLI, 2000, s/p).

 Desestabilizando ingenuidades e confrontando à opinião comum, as esferas do desejo e da sexualidade são possibilidades abertas e sempre mais surpreendentes, superando toda predeterminação e naturalismo. As diversas orientações/expressões sexuais são construtos da mesma estrutura da pulsão e dos mesmos desígnios insondáveis do desejo. A nosso favor, citaremos mais uma vez o psicanalista Paulo Roberto Ceccarelli:

Tanto a heterossexualidade quanto a homossexualidade são posições libidinais e identificatórias que o sujeito alcança dentro da particularidade de sua história: as duas formas de manifestação da sexualidade são igualmente legítimas (CECCARELLI, 2000, s/p).

 E, no âmbito do desejo e da sexualidade, toda procura de inteligibilidade – causas específicas – está fadada a cair em preconceitos, nos discursos de poder, na ideologia, porque buscarão determinações sempre arbitrárias, reducionistas, e sob o domínio dos discursos de normalidade social. Foi o próprio Freud quem escreveu que

a pesquisa psicanalítica se opõe com o máximo de decisão que se destaquem os homossexuais, colocando-os em um grupo à parte do resto da humanidade, como possuidores de características especiais. Estudando as excitações sexuais, além das que se manifestam abertamente, descobriu que todos os seres humanos são capazes de fazer uma escolha-de-objeto homossexual e que na realidade o fizeram no seu inconsciente” (FREUD, 1905 [1972:146]) E mais adiante: “assim, do ponto de vista da psicanálise, o interesse sexual exclusivo de homens por mulheres também constitui um problema que precisa ser elucidado, pois não é fato evidente em si mesmo (ibid: 146).

 O que toda uma abordagem histórico-sócio-antropológica tem demonstrado até aqui é que, por sobre o prazer e por sobre o desejo, a intervenção da cultura (por meio de diversas formas) elege sempre uma expressão sexual como a forma normal (ou natural) – escolha da ordem do que sociólogos e antropólogos, depois de Pierre Bourdieu, chamam de “arbitrário cultural” (BOURDIEU, 1982:20) –, foracluindo várias outras como anormalidades. Isto é, uma ordem social-cultural (em qualquer tempo e lugar), na medida em que é uma construção de caráter convencional, elege, aleatoriamente – não inteiramente consciente, e num acontecer anônimo, coletivo e impessoal –, suas instituições, padrões, crenças, etc. que se integrarão à ordem (enquanto também uma “máquina simbólica” (BOURDIEU, 1999:18)) como uma realidade única, universal e necessária, invalidando 24 todas as demais alternativas por ela não ratificadas. A sexualidade não fica menos fora desse processo, que em ciências sociais chamamos de “institucionalização” do social (BERGER E LUCKMANN, 1985) - assunto para cuja reflexão se pode igualmente mencionar Freud (FREUD, 1929 [1974]).

 Na história das nossas sociedades, o que ocorreu é que a história da heterossexualidade é a de um notável privilégio, mas não menos sustentado pela eficácia da ideologia. Sendo o sexual polimorfo, variegado, diverso, o que ocorreu, até aqui na história, é que a institucionalização social procura reduzi-lo a uma única forma, tendo sido a heterossexualidade a forma consentida e legitimada nas nossas sociedades. Fato que não guarda nenhum mistério, nem se deve a qualquer razão alheia às razões humanas: o consentimento da heterossexualidade, construída ao lado da negação da homossexualidade, não se deve a qualquer razão indiferente aos fatos que produzem a cultura, a história. Não é a heterossexualidade uma forma inata da sexualidade; como uma prática sexual ela é social e historicamente construída, e sua naturalização e hegemonia ocorreram por efeito de um longo trabalho de domesticação do imaginário social das sociedades humanas, que se fez invalidando, ao mesmo tempo, a prática da homossexualidade, excluída como uma “inversão” da sexualidade “normal”. Vê que o próprio Freud considera essa hipótese da domesticação e da “proibição terminante pela sociedade” como fator de exclusão da homossexualidade na sexualidade dos indivíduos (FREUD, 1905 [1972: 236]; 1929 [1974: passim]). Sendo uma instituição histórico-social como outra, a heterossexualidade se estabeleceu estigmatizando a homossexualidade, fato que se deu com a mesma semelhança e força com que a dominação masculina emergiu em todas as culturas. Aliás, a prevalência da dominação masculina e a supremacia da heterossexualidade são fatos que guardam relações entre si na história cultural das sociedades humanas. Porém, como assinalam diversos estudos (ROSALDO E LAMPHERE, 1979; GODELIER, 1996), o fato de não encontrarmos, nas diversas sociedades conhecidas, casos em que a dominação masculina não seja um dado antropológico, e conseqüentemente a submissão feminina seja sempre uma realidade, isso nada revela sobre uma pretendida inferioridade natural da mulher, mas, ao contrário, revela tão somente a longa história de dominação social dos homens que se estabeleceu nos modelos de sociedade que a humanidade construiu até aqui.

 O mesmo se deu com a valorização da heterossexualidade em detrimento da homossexualidade: um puro fato da história humana, que não possui nenhuma razão imanente (de qualquer ordem), mas que não foi sem conseqüência para o pensamento humano, como tem sido o caso também da questão da desigualdade entre homens e mulheres. Vale lembrar, o que toda uma perspectiva crítica – que volto a chamar construcionista [3] – tem procurado demonstrar é que a sexualidade é um construto social como outro e que sua existência se deve a um processo de construção que em nada difere de todo o processo de institucionalização da realidade. Não havendo sexualidade natural, mas social, o que ocorre com o sexual é o mesmo que ocorre com todas as demais esferas da vida social: algo que é uma construção arbitrária, uma instituição de caráter convencional e histórico, ganha, no curso histórico, a aparência de uma realidade natural, universal, necessária e irreversível, tornando inválidas todas as demais formas que ficaram foracluídas no processo da institucionalização. A homossexualidade é uma das formas foracluídas do sexual nas nossas sociedades, estigmatizada pelo discurso da instituição social da sexualidade.

 Do ponto de vista de uma constante antropológica e psíquica, ninguém está afastado da possibilidade de práticas eróticas com pessoas do mesmo sexo, de relações homossexuais. Conforme o Relatório Kinsey, já em 1948, um quarto dos jovens americanos tinham tido relações homoeróticas. Não há o que se possa chamar de pré-disposição (inata ou adquirida) à homossexualidade em alguns e sua inexistência absoluta em outros, como algo determinado por movimentos internos do psiquismo ou como fenômeno enzimático-endocrinológico. De novo aqui, Freud, por mais que tenha fechado algumas vezes a via crítica aberta por ele próprio, deve ser lembrado entre os autores que indicaram a existência de uma “bissexualidade psíquica originária” no ser humano (FREUD, 1972, 1974; cf. também ROUDINESCO, 2002: 41), o que torna possível pensar que é somente à custa de prolongada domesticação cultural que essa disposição psíquica desaparece para dar lugar à heterossexualidade ratificada como “normal” e “em conformidade com a natureza”. O preconceito inverteu as razões e apresentou a homossexualidade como um desvio de um suposto desenvolvimento normal, quando se trata de uma variante da sexualidade existindo em todos, mas inibida pela sujeição cultural – através da ideologia da heteronormatividade. A própria normalidade não sendo mais do que uma construção simbólica reversível, mas que, para se perpetuar, procura todos os meios de sua naturalização e divinização. O horror à homossexualidade manifestado por muitos sistemas de sociedade e religiões deve ser visto como expressão de uma ordem simbólica em seu temor (metafísico-ideológico) de desaparecer enquanto ordem reversível, que tem na heterossexualidade sua base.

 Assim, se a sexualidade humana como um todo tem sido objeto de visões preconceituosas, a homossexualidade, dentre as suas expressões, tem sido historicamente e incomparavelmente a que a mais ataques tem sido submetida pelos preconceitos produzidos em religiões, moral, ciência e no direito em todas as partes. Preconceito que tem constituindo fonte de opressão para milhares de homens e mulheres em todas as idades, classes sociais e nos diversos países.


Desfazendo enganos

 Por fim, quando o preconceito crê como certo que a homossexualidade é um fenômeno a ser esclarecido em sua causa específica, devemos deslocar a questão sobre a sua pretendida causa para uma outra: assim, ao invés de se querer saber “qual a causa da homossexualidade?”, deve-se perguntar: por que e qual a origem do preconceito em torno da homossexualidade?

 Muito ainda resta a ser feito. É a própria compreensão da sexualidade humana que deve ser revista ou a própria ideia de uma substância chamada sexualidade que deve desaparecer. Após séculos de condenação pela religião, pelo Estado e pela ciência (ou pseudociência?), um conhecimento livre de preconceito na compreensão da sexualidade, do desejo sexual, permanece uma construção a ser continuamente desenvolvida e um desafio a ser assumido por aqueles que tenham compromisso com a crítica do preconceito e com a emancipação e a felicidade humanas.

 A crítica ao preconceito tem sempre novas lutas a empreender. E uma delas é desfazer o engano de correntes entre os próprios homossexuais que, caídos também no determinismo biológico que criticamos antes, acreditam que encontraram nos favores da genética uma maneira de enfrentar o preconceito: admitindo a tese segunda a qual a homossexualidade é um fenômeno enzimático, endocrinológico ou genético, teria se chegado, assim, ao patamar no qual se poderia impor a verdade de uma “homossexualidade natural”, seguindo o engano de uma “heterossexualidade natural”. Poder-se-ia, assim, combater os preconceituosos, o discurso religioso, alegando a natureza natural da homossexualidade – espécie de apelo à sociedade para que aceite os homossexuais, pois tratar-se-ia de algo da ordem do nascimento (estaria, pois, nos planos do Criador) com relação ao que “não se pode ir contra”. Mais uma vez o preconceito vencerá caso se caia nessa armadilha: a aceitação da homossexualidade deve acontecer na sociedade por sua mudança de conceitos, paradigmas e valores, não por acomodação a uma pretendida “verdade” que estaria na “própria constituição genética” dos homossexuais. A invenção do “gene da homossexualidade” é outra vez o trabalho do preconceito e da ideologia na história.  

 Uma outra batalha a se empreender é fazer que se compreenda que as lutas dos homossexuais pela cidadania plena (direito ao reconhecimento pelo Estado e pela lei de suas uniões conjugais, direitos de herança, direito à adoção por casais gays, entre outros direitos que se tem conquistado em diversos países) não é um ingênuo “desejo de normalização”, uma queda na ideologia (burguesa ou outra), mas um nível de luta política em que se questionam as idéias de normalidade e de democracia, quando esta se limita a direitos que excluem significativos segmentos da população em diversos países – os homossexuais entre os mais excluídos (MOTT, s.d.).

 Por fim, poderíamos assinalar o fracasso, mais uma vez, de teses que pretendem aprisionar os homossexuais numa espécie à parte, pois as lutas pela cidadania plena desconstroem até mesmo aquelas teses que se apresentam com o charme libertário que destina aos homossexuais o papel de “sublimes perversos” da cultura, subversivos marginais da ordem, tese que, como assinalou Elisabeth Roudinesco, “está prestes a desaparecer” (ROUDINESCO, 2002: 46), com a atitude dos homossexuais que, sabendo que toda normalidade é uma construção social e histórica, procuram redefinir uma nova normalidade social, em que a homossexualidade não seja estigmatizada como exceção, desvio, inversão, patologia, anormalidade, mas seja vista como uma expressão da sexualidade humana, uma orientação sexual, entre outras, em torno da qual se pode organizar afetos, laços, famílias. Aqui quando os homossexuais questionam os próprios conceitos de normalidade social, democracia e cidadania nas sociedades nas quais vivemos.

 Amanhã, teremos superado todo o preconceito se não tivermos mais questões a colocar sobre a causa própria da homossexualidade. 


 Notas

[1] Neste artigo, estarei utilizando o termo ideologia no sentido próprio de “inversão da realidade” e de “idéias da dominação”, sentido outorgado ao termo desde Marx (MARX, 1845 [1986]). Contudo, deve-se assinalar, nas reflexões deste último, como inversão e dominação, a ideologia corresponderia ao modo particular do imaginário da sociedade capitalista. A ideologia seria a representação da realidade que a classe dominante nesta sociedade produz e procura impor a todas as demais classes, com o objetivo de garantir sua posição de classe dominante. Objetivo que realiza, ao dissimular, justo através da representação ideológica que oferece da realidade, a dominação que pratica sobre as outras classes. Embora o fenômeno da ideologia tome essa forma específica, e não há que se esquecer isso, é importante assinalar que se torna necessário, hoje, acrescentar à elaboração pioneira de Marx novas considerações sobre o fenômeno da ideologia. Em meus textos, somando à minha própria reflexão as contribuições de Louis Althusser (ALTHUSSER, 1974; 1985), Maurice Godelier (GODELIER, 1980; 1996), John Thompson (THOMPSON, 1995) e Marilena Chauí (CHAUÍ, 1980; 1981), tenho insistido em formulações na direção de um conceito de ideologia que não fique restrito à dimensão da dominação de classe, e que torne possível pensar o dado antropológico da dominação que sempre-já implica a sujeição do indivíduo humano à Cultura, através de sua sujeição a normas, costumes, padrões, crenças, mitos, instituições. Nesse sentido, deve-se entender que a ideologia torna possível a dominação pela via simbólica, desde já a sumpção do indivíduo pela linguagem, via pela qual ocorre de toda estruturação social se constituir, tornando-se uma ordem que se ratifica no simbólico, e constituindo-se ela própria numa ordem simbólica. A ideologia, assim, responde a uma exigência anterior à necessidade da reprodução das relações de produção (capitalistas ou outras) e da dominação política de classe, como ainda entendem diversos autores (marxistas ou não). Anterior a toda outra coisa, a ideologia assegura, em todo sistema de sociedade, mesmo naqueles nos quais não há classes, que a ordem social não desabe enquanto também uma Ordem Simbólica, ratificando-a, por meio de representações imaginárias, crenças coletivas e certas idéias sociais, como uma ordem natural, única, universal, imutável, divina. Resultado que a ideologia procura obter invertendo e ocultando o caráter de coisa construída, arbitrária e convencional de toda ordem social e suas instituições, e cujo efeito é a eficácia de sua dominação sobre os indivíduos, engendrada e reproduzida sem o recurso da força. A ideologia constitui o modo de operar de toda cultura (enquanto sistema de sociedade), ao procurar naturalizar-se e eternizar-se, e atua por meio dos discursos sociais (variando do mito à ciência moderna) que oferecem as significações legitimadoras do que em cada cultura está instituído. Podemos apontar que a eficácia da ideologia, entre outras formas, realiza-se na sua ancoragem nas esferas psíquica, emocional e cognitiva (a subjetividade de cada um; uma parte dela inconsciente) dos indivíduos. O estigma da homossexualidade como prática cuja causa específica deve-se desvendar, ainda perdurante em muitas cabeças, que transforma os homossexuais em indivíduos-portadores-de-um-enigma-a-esclarecer (e, assim, objetos a dominar no trabalho da ciência, das religiões, da lei, etc.) é um entre vários exemplos que se pode oferecer da dominação dos indivíduos por meio do trabalho da ideologia no espaço da cultura. Na ideologia, a homossexualidade é um fenômeno estranho a esclarecer na vida dos indivíduos e o homossexual é portador de uma causa determinante que o torna sujeito de uma sexualidade particular. Sobre o conceito de ideologia, ver meus “Medos, mitos e castigos” (SOUSA FILHO, 2001); “Cultura, ideologia e representações” (SOUSA FILHO, 2003) e “Mito e ideologia” (SOUSA FILHO, 2006).

[2] Michael Rose, em O Espectro de Darwin, traz alguns dos problemas que aplicações do darwinismo têm acarretado. E como demonstra o autor, embora alguns chamados neodarwinistas adotem posições claramente reacionárias e de direita, o darwinismo, como concepção da origem e evolução das espécies e do ser humano, é crítico e revolucionário. Não é por outra razão que é violentamente combatido pelas diversas religiões (ROSE, 2000)

[3] Situaremos como construcionistas os estudos do configuracionismo ou de cultura e personalidade em antropologia (Ruth Benedict, Margareth Mead, Melville Herskovits), a antropologia do simbólico (LéviStrauss, Geertz), a abordagem da aprendizagem social (G. Robert Mead, Peter Berger) e os estudos socioantropológicos (Pierre Bourdieu, Maurice Godelier, Françoise Héritier, Elisabeth Badinter, Michel Foucault, Michel Maffesoli, entre outros). 



Referências

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Heteronormatividade e homofobia


 O texto abaixo constitui um dos capítulos de uma coletânea de artigos organizados por Rogério Diniz Junqueira, a pedido do MEC e da UNESCO, para o livro ''Diversidade sexual na educação: problematizações sobre a homofobia nas escolas'', lançado em 2009, e é de autoria de Guacira Lopes Louro [1]. A partir da nota [2] encontram-se alguns comentários e críticas meus. 




 Um diário, escrito no século XIX, é descoberto muitos anos depois. Trata-se das memórias de um jovem hermafrodita que narra suas poucas alegrias e suas muitas tristezas e angústias ao longo da curta vida. Herculine Barbin é inicialmente criada como uma moça, Alexina, no interior de um internato católico e, posteriormente, é reconhecido como um rapaz e se vê obrigado a trocar de sexo. As humilhações e o drama que experimenta neste processo acabam por levá-lo ao suicídio. A história talvez não seja tão extraordinária ou incomum, mas o fato é que as memórias desse/a jovem acabaram sendo publicadas, já em pleno século XX, precedidas de um texto de Michel Foucault.

 Apesar de toda a curiosidade que pode cercar o diário de Alexina/Herculine, o que me interessa particularmente explorar, nesse momento, é o pequeno prefácio de Foucault ou, mais precisamente, aproveitar sua pergunta inicial. Escreve Foucault: ''Precisamos verdadeiramente de um verdadeiro sexo?''. E continua, respondendo em seguida: ''Com uma constância que chega às raias da teimosia, as sociedades do ocidente moderno responderam afirmativamente a essa pergunta'' (FOUCAULT, 1982).

 Nesse pequeníssimo trecho já se colocam duas expressões que me parecem especialmente instigantes: o sexo e a verdade. Por um lado, ao encaminhar uma resposta à essa pergunta que propôs, Foucault indica de forma categórica que o sexo se constitui em uma questão não só importante, mas perturbadora e decisiva para as sociedades ocidentais. Por outro lado, ele propõe a questão da verdade. Vale dizer que o filósofo teve o cuidado de destacar graficamente neste prefácio o advérbio verdadeiramente e o adjetivo verdadeiro. Ainda que não seja possível afirmar com segurança porque ele fez isso, parece razoáveis que ele quisesse nos lembrar que colocava essas expressões sob suspeita.

 Seguindo seu pensamento, poderíamos dizer que uma ''verdade'' [2] só aparece quando pode aparecer. Em um dado momento, um conjunto de circunstâncias se combina e possibilita que algo seja admitido como verdade. Esse conjunto de circunstâncias está atravessado e ordenado por relações de poder. Sendo assim, é possível compreender que determinadas relações de poder permitem que determinadas ''verdades'' (e não outras) apareçam. Daí que os saberes ou enunciados ''verdadeiros'' em torno dos quais vivemos e com os quais lidamos cotidianamente precisam ser analisados em função das estratégias de poder que os sustentam. Isto vale para as teorias, as leis ou as regras do passado, mas deve valer também para aquelas que hoje abraçamos, para aquelas que nos mobilizam e nas quais apostamos.

 É claro que é mais fácil assumir uma postura crítica em relação ao passado. É provável que possamos entender que determinadas estratégias e tecnologias de poder estão articuladas na constituição dos discursos ''científicos'' antigos; por exemplo, discursos que ''comprovavam'' que tais e tais sujeitos ou tais e tais práticas eram sadios ou doentes, positivos ou negativos. Foi e é assim que se produziram e se produzem discursos jurídicos, religiosos, educativos e psicológicos que mostram ou tornam evidente que os sujeitos ou as práticas que são bons ou que são maus, integrados ou desintegrados, produtivos ou prejudiciais para o conjunto da sociedade. Determinadas relações e estratégias de poder sustentam-se através desses saberes [3] e ''verdades''; elas precisam desses discursos para se tornarem evidentes o que, paradoxalmente, faz com que essas relações de poder se tornem invisíveis. Não há como negar (e todos podemos lembrar situações para comprovar isso!) que quanto menos for notada ou quanto mais for invisível uma relação de poder mais ela será eficiente.

  Num determinado momento (numa perspectiva foucaultiana, esse momento seria compreendido como o século XIX ou, mais especificamente, na metade final daquele século), passou-se a prestar uma especialíssima atenção à definição da sexualidade. A sexualidade se tornou uma questão central para os Estados e também para os indivíduos. Na verdade, o processo já vinha se desenrolando há algum tempo, desde o século XVIII, pelo menos: transformações políticas, culturais, sociais e econômicas articuladas ao industrialismo e à revolução burguesa, acompanhadas por uma outra divisão sexual do trabalho e pela circulação de ideias de caráter feminista, foram constituindo todo um conjunto de condições para que os corpos, a sexualidade e a existência de homens e mulheres fossem significados de outro modo. Laqueur (1990) diz que se construiu por essa época um novo corpo sexuado. Mas alerta: não seria adequado afirmar que qualquer um desses eventos ''provocou a construção desse novo corpo sexuado'', em vez disso seria importante lembrar que a ''a reconstrução do corpo é, ela própria, intrínseca a cada um desses desenvolvimentos'' (LAQUEUR, 1990: 11).

 Esse estudioso conta que até o início do século XIX as sociedades ocidentais tinham um modelo sexual que hierarquizava os sujeitos ao longo de um único eixo, cujo vértice era o masculino. Entendia-se que os corpos de mulheres e de homens diferiam em ''graus'' de perfeição; a ''verdade'' era que as mulheres tinham ''dentro de seu corpo'' os mesmos órgãos genitais que os homens tinham externamente. Em outras palavras, afirmava-se, cientificamente [4], que ''as mulheres eram essencialmente homens nos quais uma falta de calor vital -- de perfeição -- havia resultado na retenção, interna, de estruturas que nos machos eram visíveis'' (ibid.: 4). A substituição desse modelo (de um único sexo) pelo modelo de dois sexos opostos (que é o modelo que até hoje prevalece) não foi um processo simples nem linear. Essa transformação de ordem epistemológica -- e também política, é claro -- se deu junto com todo aquele conjunto de transformações já mencionadas. E, por um largo tempo, houve embate e disputa entre esses modelos sexuais.

 Nesta nova compreensão da sexualidade passava-se a prestar uma atenção especial nos corpos, às suas estruturas e características materiais e físicas. Antes, a explicação para as formas de relacionamentos entre mulheres e homens e para as diferenças percebidas entre eles era buscada na Bíblia, nos textos sagrados; as diferenças eram, enfim, vinculadas a uma dimensão cósmica mais ampla. O corpo tinha menos importância. Mas agora ele passava a ter um papel primordial. Como diz Linda Nicholson (2000), o corpo se tornou causa e justificativa das diferenças. O corpo passou a ser aquilo que dá origem às diferenças.

 O que temos aqui, então, é a constituição de uma nova episteme, de um outro conjunto de regras ou de formas de compreender e dar sentido ao mundo. Novos saberes, novas verdades [5] são instituídas. Como parte desse contexto -- aliás como parte especialmente importante -- foram sendo construídas novas formas de representar e dar significado ao homem e à mulher, às suas relações, à sexualidade. Tais mudanças não são nada banais: elas são constituídas e constituintes de outras estratégias e relações de poder.

 Como os novos Estados nacionais estarão agora, mais do que antes, preocupados em controlar suas populações e garantir sua produtividade, seus governantes  vão investir numa série de medidas voltadas para a vida: passam a disciplinar a família e a ter especial cuidado com a reprodução e as práticas sexuais. É importante prestar atenção em quem, neste contexto, tem autoridade para afirmar a verdade e quem será o alvo preferencial de ação dos governos.

 Ao final do século XIX serão homens, médicos e também filósofos, moralistas e pensadores (das grandes nações da Europa) que vão fazer as mais importantes ''descobertas'' e definições sobre os corpos de homens e mulheres. Será o seu olhar ''autorizado'' que irá estabelecer as diferenças relevantes entre sujeitos e práticas sexuais, classificando uns e outros a partir do ponto de vista da saúde, da moral e da higiene. Não é de estranhar, pois, que a linguagem e a ótica empregadas em tais definições sejam marcadamente masculinas; que as mulheres sejam concebidas como portadores de sexualidade ambígua, escorregadia e potencialmente perigosa; que os comportamentos das classes média e alta dos grupos brancos das sociedades urbanas ocidentais tenham se constituído numa referência para estabelecer o que era ou não apropriado, saudável ou bom. Nascia a sexologia. Inventaram-se tipos sexuais, decidia-se o que era normal ou patológico e esses tipos passavam a ser hierarquizados. Buscava-se tenazmente conhecer, explicar, identificar e também classificar, dividir, regrar e disciplinar a sexualidade. Tais discursos, carregados da autoridade da ciência, gozavam do estatuto de verdade e se confrontavam ou se combinavam com os discursos da igreja, da moral e da lei.

 É nesse contexto que surge o homossexual e a homossexualidade. Práticas afetivas e sexuais exercidas entre pessoas do mesmo sexo (que sempre existiram em todas as sociedades [6]) ganham agora uma nova conotação. Não serão mais compreendidas, como eram até então, como um acidente, um pecado eventual, um erro ou uma falta a que qualquer um poderia incorrer, pelo menos potencialmente. Por certo, em muitas sociedades, aqueles que incorriam nessa falta mereciam ser punidos, e o perdão lhes era concedido a duras penas (quando era!). No entanto, agora tais práticas passam a ser compreendidas de um modo bem distinto, Entende-se que elas revelam uma verdade oculta do sujeito. O homossexual não era simplesmente um sujeito qualquer que caiu em pecado, ele se constituía num sujeito de outra espécie. Para este tipo de sujeito, haveria que inventar e pôr em execução toda uma série de ações: punitivas ou recuperadoras, de reclusão ou de regeneração, de ordem jurídica, religiosa ou educativa.

 Tendo sido nomeados o homossexual e a homossexualidade, ou seja, o sujeito e a prática desviantes, tornava-se necessário nomear também o sujeito e a prática que lhes haviam servido como referência. Até então, o que era ''normal'' não tinha um nome. Era evidente por si mesmo, onipresente e, consequentemente (por mais paradoxal que pareça), invisível. O que, até então, não precisara ser marcado agora tinha de ser identificado.

 Estabelecia-se, a partir daí, o par heterossexualidade/homossexualidade (e heterossexual/homossexual), como oposição fundamental, decisiva e definidora de práticas e sujeitos. Entendia-se o primeiro elemento como primordial e o segundo como subordinado, numa oposição que, segundo teóricos contemporâneos, encontra-se onipresente na sociedade, marcando saberes [7], instituições, práticas, valores. Consolidava-se um marco, uma referência-mestra para a construção dos sujeitos.

 Numa perspectiva pós-estruturalista, nossa tarefa seria perturbar a aparente solidez desse par binário, entender que esses dois elementos estão mutuamente implicados, dependem um do outro para se afirmar, supõem um ao outro. Ainda que por toda parte se afirme a primazia da heterossexualidade, observamos que, curiosamente, ela se constituiu como a sexualidade-referência depois da instituição da homossexualidade. A heterossexualidade só ganha sentido na medida em que inventa a homossexualidade. Então, ela depende da homossexualidade para existir [8]. O mesmo pode ser dito em relação ao sujeito heterossexual: sua definição carrega a negação de seu oposto. Ao dizer: eu sou heterossexual, um homem ou uma mulher acabam invariavelmente por ter de recorrer a algumas características ou marcas atribuídas ao homossexual, na medida em que ele ou ela precisam afirmar também o que não são. De outro lado do par, o movimento será o mesmo: a homossexualidade precisa da heterossexualidade para dizer de si. Há uma reciprocidade nesse processo. A dicotomia sustenta-se numa única lógica.

 Mas a manutenção dessas posições hierarquizadas não acontece sem um investimento continuado e repetitivo. Para garantir o privilégio da heterossexualidade -- seu status de normalidade e, o que ainda é mais forte, seu caráter de naturalidade -- são engendradas múltiplas estratégias nas mais distintas instâncias (na família, na escola, na igreja, na medicina, na mídia, na lei). Através de estratégias e táticas aparentes ou sutis reafirma-se o princípio de que os seres humanos nascem como macho e fêmea e que seu sexo -- definido sem hesitação em uma destas categorias -- vai indicar um de dois gêneros possíveis -- masculino e feminino -- e conduzirá a uma única fonte normal de desejo, que é o desejo pelo sujeito de sexo/gênero oposto ao seu.

 Esse alinhamento (entre sexo-gênero-sexualidade) dá sustentação ao processo de heteronormativid, ou seja, à produção, e à reiteração compulsória da norma heterossexual. Supõe-se, segundo essa lógica, que todas as pessoas sejam (ou devam ser) heterossexuais -- daí que os sistemas de saúde ou de educação, o jurídico ou o midiático sejam construídos à imagem e à semelhança desses sujeitos. São eles que estão plenamente qualificados para usufruir desses sistemas ou de seus serviços e para receber os benefícios do Estado. Os outros, que fogem à norma, poderão na melhor das hipóteses ser reeducados, reformados (se for adotada uma ótica de tolerância e complacência); ou serão relegados a um segundo plano (tendo de se contentar com recursos alternativos, restritivos, inferiores); quando não forem simplesmente excluídos, ignorados ou mesmo punidos. Ainda que se reconheça tudo isso, a atitude mais frequente é a desatenção ou conformação. A heteronormatividade só vem a ser reconhecida como um processo social, ou seja, como algo que é fabricado, produzido, reiterado, e somente passa a ser problematizada a partir da ação de intelectuais ligados aos estudos de sexualidade, especialmente os estudos gays e lésbicos e à teoria queer.

 Steve Jackson (2005) diz que a grande utilidade do conceito de heteronormatividade ''consiste em poder nos alertar para as formas pelas quais a norma heterossexual é tramada no tecido social de nossas vidas numa série de níveis, do institucional ao cotidiano'' e que isso se dá de forma consistente, ainda que, por vezes, seus efeitos sejam contraditórios. Ele sugere também que se pense nas intersecções entre ''heterossexualidade'' e gênero, afirmando que elas são complexas.

 O processo de reiteração da heterossexualidade adquire consistência (e também invisibilidade) exatamente porque é empreendido de forma continuada e constante (muitas vezes, sutil) pelas mais diversas instâncias sociais. Os discursos mais autorizados nas sociedades contemporâneas repetem a forma regulatória que supõe um alinhamento entre sexo-gênero-sexualidade. Por certo circulam ainda (e cada vez com mais força) discursos divergentes e práticas subversivas dessa norma, produzidos a partir das posições subordinadas. Movimentos organizados das chamadas ''minorias sexuais'' têm conseguido nas últimas décadas expressivos avanços no campo midiático ou mesmo jurídico, com alguns efeitos também no campo da educação. Há, contudo, sérios limites nesse processo, os quais pretendo indicar a seguir. Antes, me parece importante enfatizar dois pontos:

  • Primeiro, que a norma precisa ser reiterada. Não há nenhuma garantia de que a heterossexualidade aconteça naturalmente (se isso fosse seguro, não seriam feitos tantos esforços para afirmar e reafirmar essa forma de sexualidade);
  • Segundo, que a norma pode e é subvertida. Todos os dias, em todos os espaços, homens e mulheres a desafiam, Alguns sujeitos embaralham códigos de gênero ou atravessam suas fronteiras; outros articulam de formas distintas sexo-gênero-sexualidade; outros ainda criticam a norma através da paródia ou da ironia. A heteronormatividade constituiu-se, portanto, num empreendimento cultural que, como qualquer outro, implica disputa política.

 Outra ideia sugestiva é a de que há de provavelmente especiais intersecções entre heterossexualidade e gênero. Temos de reconhecer que sexualidade e gênero estão profundamente articulados, Experimentações empreendidas no ''território'' da sexualidade acabam por ter efeitos no âmbito do gênero. Basta lembrar o quanto é comum atribuir a um homem homossexual a qualificação de ''mulherzinha'' ou supor que uma mulher lésbica seja uma mulher-macho. A transgressão da norma heterossexual não afeta apenas a identidade sexual do sujeito, mas é muitas vezes representada como uma ''perda'' do seu gênero ''original''.

 Em nossa cultura, esse movimento, ou seja, o processo de heteronormativização, parece ser exercido de modo mais intenso ou mais visível em relação ao gênero masculino. Observamos que desde os primeiros anos da infância os meninos são alvo de uma especialíssima atenção na construção de uma sexualidade heterossexual. As práticas afetivas entre meninas e mulheres costumam ter, entre nós, um leque de expressões mais amplo do que aquele admitido para garotos e homens. A intimidade cultivada nas relações de amizade entre mulheres e a expressão da afetividade por proximidade e toques físicos são capazes de borrar possíveis divisórias entre relações de amizade e relações amorosas e sexuais. Daí que a homossexualidade feminina pode se constituir de forma mais invisível. Abraços, beijos, mãos dadas, a atitude de ''abrir o coração'' para amiga/parceira são práticas comuns do gênero feminino em nossa cultura. Essas mesmas práticas não são, contudo, estimuladas entre os meninos ou entre os homens. A ''camaradagem'' masculina tem outras formas de manifestação: poucas vezes é marcada pela troca de confidências e o contato físico, ainda que seja plenamente praticado em algumas situações (nos esportes, por exemplo), se dá cercado de maiores restrições entre eles do que entre elas (não só quanto às áreas do corpo que podem ser tocadas como do tipo de toque que é visto como adequado).

 Dessa forma, o processo de heternormativização não só se torna mais visível em sua ação sobre os sujeitos masculinos, como também aparece, neste caso, frequentemente associado com a homofobia. Pela lógica dicotômica, os discursos e as práticas que constituem o processo de masculinização implicam a negação de práticas ou características referidas ao gênero feminino e essa negação se expressa, muitas vezes, por uma intensa rejeição ou repulsa e marcas femininas (o que caracterizaria, no limite, misoginia). É preciso afastar ou negar qualquer vestígio de desejo que não corresponda à norma sancionada. O medo e a aversão da homossexualidade são cultivados em associação à heterossexualidade.

 Observa-se ainda que na construção cultural da identidade masculina a centralidade da sexualidade tem sido mais reiterada do que na construção da identidade feminina (pelo menos em sociedades como a nossa. Uma vida sexual ativa -- leia-se uma vida heterossexual ativa -- parece ser elemento recorrente na representação da masculinidade, não acontecendo o mesmo em relação à feminilidade (vale lembrar, por exemplo, o quanto a impotência sexual é representada como uma grave perda da identidade masculina).

 Evidentemente, sendo esse um processo cultural, é histórico e dinâmico, quer dizer, é passível de transformações. Ao lado dos discursos que reiteram a norma heterossexual, circulam também discursos divergentes e práticas subversivas, e parece notório que esses processos de subversão e desafio da norma vêm se tornando, contemporaneamente, cada vez mais visíveis. Contudo, sugeri antes que há limites nesse processo e gostaria de fazer um breve comentário a respeito.

 A premissa sexo-gênero-sexualidade sustenta-se numa lógica que supõe o sexo como ''natural'', entendendo este natural como ''dado''. Ora, segundo esta lógica, o caráter imutável, a-histórico e binário do sexo impõe limites à concepção de gênero e sexualidade. Na medida em que se equaciona a natureza (ou o que é ''natural'') com a heterossexualidade, isto é, com o desejo pelo gênero/sexo oposto, passa-se a considerá-la como a forma compulsória de sexualidade. Por esta lógica, os sujeitos que, por qualquer razão ou circunstância, escapam da norma e promovem uma descontinuidade da sequência serão tomados como uma ''minoria'' e serão colocados à margem tanto das preocupações da escola, quanto da justiça ou da sociedade em geral. Paradoxalmente, esses sujeitos ''marginalizados'' continuam necessários, pois são precisamente eles que servem para circunscrever os contornos daqueles tidos como ''normais''. O limite do ''pensável'', no campo dos gêneros e da sexualidade, fica assim circunscrito aos contornos dessa sequência ''normal''. Como a lógica é binária, há que admitir a existência de um pólo desvalorizado -- um grupo designado como minoritário que pode ser tolerado como desviante ou diferente -- contudo, é impensável pensar em múltiplas sexualidades. A ideia de multiplicidade escapa da lógica que rege toda essa questão. Penso que aqui se inscreve um importante  limite epistemológico: onde ficam os sujeitos que não ocupam nenhum dos dois lados dessa polaridade? Como se representa, ou o que se ''faz'' com os sujeitos bissexuais, com os transgêneros, travestis e drags?

 A episteme dominante não dá conta da ambiguidade e do atravessamento das fronteiras de gênero e sexualidade. A lógica binária não permite pensar o que escapa do dualismo. Não tenho qualquer pretensão de sugerir uma resposta para este impasse. Parece-me, no entanto, sugestivo que se problematize o estatuto de ''verdade'' da dicotomia heterossexualidade/homossexualidade como a categoria explicativa da sociedade contemporânea. Será possível desconstruir esse binarismo? Demonstrar suas formas de produção? Estranhar sua intrincada presença na intimidade das instituições sociais, nos processos de produção do conhecimento e das relações entre os sujeitos?

 Bibliografia (da autora)

FOUCAULT, Michel (Apresentação de). Herculine Barbin: o diário de um hermafrodita. Rio de Janeiro: F. Alves, 1982.
JACKSON, Steve. The social complexity of heteronormativity: gender, sexuality and heterosexuality. Heternormativity - A Fruitful Concept? Trondheim, Norway, June 2nd-4th, 2005. Disponível em: <http://www.hf.ntnu.no/itk/heteronormativity-2005/Jackson.pdf>
LAQUEUR, Thomas. Making sex: body and gender from the greeks to Freud. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1990.
LOURO, Guacira Lopes.Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Autêntica: Belo Horizonte, 2004.
NICHOLSON, Linda. Interpretando o gênero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 2, 2000.

 Notas
(minhas)

[1] Guacira Lopes Louro é licenciada em História pela UFRGS (1969), Mestre em Educação pela mesma universidade (1976) e Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (1986). Professora titular aposentada da UFRGS, onde atua como colaboradora convidada no Programa de Pós-Graduação em Educação, na linha de pesquisa Educação, Sexualidade e Relações de Gênero. Fundadora do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero.
[2] A forma como Lopes usa o termo ''verdade'' faz o leitor, especialmente aquele com certa visão dos ditos pós-modernos, achar que para a mesma ou para Foucault (que sugere ser uma base teórica sua) não há verdades objetivas; deveria ter deixado mais explícito que se trata de discursos concebidos como verdadeiros, discursos que recebem ''efeitos de verdade'' (na terminologia foucaultiana) devido às relações de poder.
[3] Um ''saber'', para Foucault, é ''[...] aquilo de que podemos falar em uma prática discursiva que se encontra assim especificada: o domínio constituído pelos diferentes objetos que irão adquirir ou não um status científico [...]; o espaço em que o sujeito pode tomar sua posição para falar dos objetos de que se ocupa em seu discursos [...]; o campo de coordenação e de subordinação dos enunciados em que os conceitos aparecem, se definem, se aplicam e se transformam [...]; finalmente, um saber se define por possibilidades de utilização e de apropriação oferecidas pelo discurso [...] (A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013).
[4] Acho que também aqui Lopes faz mau uso de termos. Pareceu-me mais apropriado que houvesse dito ''em um discurso científico''; como Foucault afirma na supracitada obra, nem todo discurso científico apresenta cientificidade, ou seja, ''não responde aos critérios formais e não atinge o nível de rigor que se pode esperar da física, da química ou mesmo da biologia'' (idem).
[5] Ver nota 2.
[6] Foi importante essa afirmação, pois é comum que façam espantalhos da obra de Foucault sugerindo que, para o mesmo, pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo/gênero só teriam surgido no século XIX.
[7] Ver nota 3.
[8] Mais uma vez, parece-me mau uso de termos. Evidentemente que a atração sexual pelo sexo/gênero oposto não necessita da existência da atração pelo mesmo sexo/gênero para existir (e vice-versa); o que o faz são os conceitos de heterossexualidade e homossexualidade, que são categorias mentais e não concretudes.

sábado, 23 de maio de 2015

Elementos básicos de economia política marxista




 Embora tenha se dedicado a estudos mais gerais, o principal foco de trabalho de Marx era o modo de produção capitalista, o capitalismo; ele tinha a intenção de fornecer ao proletariado o aparato teórico necessário para compreender as causas de sua miséria e opressão e destruir aquilo que a causava. Para tal, Marx investigou a célula da sociedade burguesa, a unidade fundamental do capitalismo: a mercadoria.

 Toda mercadoria, diz Marx seguindo os economistas clássicos, tem dupla natureza: é, ao mesmo tempo, um valor de uso, um bem, e um valor de troca, uma grandeza quantitativa pela qual pode se intercambiar com outras mercadorias. Oras, sendo as propriedades materiais das mercadorias (que definem seu valor de uso para nós) diferentes, o que há de comum entre elas que permite seu intercâmbio? Só pode ser o fato de serem todas produto do trabalho humano.

 Marx descobre então, a partir do valor de troca, o valor: uma propriedade social que consiste no poder de compra, no poder de atração que possui uma mercadoria sobre as demais e que permite que ela tenha valores de troca determinados e não outros maiores ou menores. Esse poder de compra está relacionado, numa primeira análise, à riqueza mercantilque a sociedade reconhece na sua existência (a quantidade de trabalho socialmentenecessário). É aí que fica determinado que a magnitude do valor é a magnitude da riquezamercantil que foi produzida pelo trabalho social, pelo esforço produtivo da sociedadedesviado eventualmente de outros fins.Enquanto o valor é uma propriedade social inerente, interior à mercadoria,expressão nela das particulares relações sociais existentes e, portanto, uma categoria da essência da sociedade capitalista, o valor de troca é sua forma de manifestação e aparece na superfície mesma dos fenômenos; por isso, diretamente observável [1].

 A quantidade de trabalho socialmente necessário determina a magnitude do valor,refere-se à sua dimensão quantitativa, à sua grandeza, mas não à sua natureza. O valor nãoé trabalho, embora encontre nele o seu fundamento. Valor é uma propriedade social das mercadorias que consiste em um certo poder de compra, de magnitude só aproximadamentedeterminada, como vimos anteriormente. É uma qualidade delas, um adjetivo atribuídoobjetiva mas socialmente a elas. E mais: é realmente isso, mas só é isso durante um tempo,um período, uma época.Como qualquer categoria da dialética marxista, não se refere a algo dado, a algo quepossa ser definido de uma vez para sempre. O valor é, na verdade, um processo dedesenvolvimento que, como qualquer outro, possui seu nascimento, desenvolvimento,maturidade, velhice ou senilidade e morte. Se for mais fácil de entender-se, o valor é algoque está em permanente processo de desenvolvimento. Este processo é, ao mesmo tempo, odesenvolvimento das relações sociais mercantis no seio da humanidade. Como está empermanente desenvolvimento, o que ele é hoje deixará de ser amanhã e é diferente do quefoi ontem, como qualquer ser orgânico, inorgânico ou social. Por isso, defini-lo de alguma forma é uma completa insensatez. É verdade que o valor, durante um certo período pode ser descrito (nunca definido)como uma característica, um adjetivo, uma qualidade social. Trata-se de algo que existe nointerior da mercadoria e não pode desprender-se dela; a destruição da mercadoria é suadestruição. Mas tudo isso é correto na etapa de seu desenvolvimento anterior à suamaturidade. Esta só é alcançada quando ele se transforma em capital.

 É isso mesmo, o capital é simplesmente valor, só que um valor mais desenvolvido,que já alcançou sua maturidade. Ele agora é capaz de se reproduzir, produzir seus filhinhos(a mais-valia). Ele, agora, já não é mais uma simples propriedade social ou um simplesadjetivo da mercadoria. Ele adquiriu vida própria, transformou-se em ser com vida própria.Ele não perece com a mercadoria que lhe porta, ele agora é eterno, ou melhor, pretende sereterno. Ele saiu da infância e adquiriu sua maturidade; é o que Marx chama de“substantivação do valor” (de adjetivo, transformou-se em substantivo) quando o valor seconverte em capital.O valor-capital agora existe em si e para si. Utiliza-se das formas corpóreas dasmercadorias e do dinheiro, mas não se confunde com elas. Ele se transforma não só em sercom vida própria: passa a ser o sujeito da sociedade e da história e transforma o ser humanoem mero aspecto seu. É o que se pode chamar de inversão do sujeito histórico e social. Seudesígnio de alcançar o posto de sujeito absoluto da história é inalcançável, por encontrarseu oponente, apesar de tudo, na rebeldia inerente, essencial à natureza humana que, pormais que apareça na pré-história da humanidade como algo embotado, violentado,subjugada, manifesta-se sempre, mesmo que de maneira pouco eficiente ou significativa, namaior parte dos momentos da história das sociedades de classe.

 Mais-valia e luta de classes

 Como qualquer outra mercadoria, aquela que os trabalhadores assalariados vendem aos capitalistas, a força de trabalho (i.e. a própria capacidade de trabalhar), na forma de sua própria carne e sangue, tem um valor, que é a quantidade de trabalho humano abstrato socialmente necessária, em média, para a sua produção e reprodução, ou seja, para produzir os meios de subsistência de que ela necessita. Isso não deve ser entendido somente no sentido fisiológico; na determinação do valor da força de trabalho entra também um aspecto histórico e moral, uma vez que as necessidades humanas se transformam com o estágio de desenvolvimento da sociedade.

 A partir do momento em que a produtividade do trabalho atinge um nível tal que as pessoas já não precisam se dedicar integralmente à produção de meios de subsistência que satisfaçam suas necessidades básicas, torna-se possível a geração de um excedente (que pode ser comercializado). No capitalismo, logo após o processo que separou os meios de produção (instrumental de trabalho e matérias-primas) dos produtores diretos, tornando-se aqueles propriedade privada de uma classe ociosa, e as relações de trabalho haverem se convertido em trabalho assalariado, os trabalhadores já não mais trabalham apenas para cobrir suas próprias necessidades, mas também para gerar um excedente que constituirá o lucro do patrão, o dono dos meios de produção: é a mais-valia [m]. Ela, que toma a forma de produto excedente, divide-se em lucro empresarial, renda agrícola e juros para o capital bancário/financeiro. Sua produção é o verdadeiro objetivo da produção capitalista como um todo, e está na raiz dos antagonismos de classe.

 A lei da tendência de queda da taxa de lucro e a transitoriedade do capitalismo

 O capitalista individual, na intenção de aumentar seus lucros, pode estender a jornada de trabalho de seus funcionários ou aumentar a intensidade de trabalho dos mesmos, extraindo com isso uma quantidade maior de valor, que se traduz em mais produtos: é a mais-valia absoluta. Tal coisa, porém, esbarra em limites morais e naturais, físicos. O capitalista individual tem, então, de obter meios que permitam ao trabalhador dedicar menos tempo à reprodução do preço de sua força de trabalho (tempo esse que chamamos tempo de trabalho necessário) e mais à produção de excedente (momento chamado de tempo de trabalho excedente), sem ser necessário aumentar a jornada absoluta de trabalho: é a mais-valia relativa.

 Como, no processo de acumulação de capital, o capitalista é levado a recorrer ao segundo método para aumentar seus lucros, a composição orgânica do capital -- ou seja, a razão entre o capital constante (i.e. maquinário, ferramentas e matérias-primas, que simplesmente reproduzem seu valor no processo de produção) [c] e o capital variável (aquele dedicado a empregar força de trabalho, assim chamado por reproduzir seu valor e, além disso, um excedente, a mais-valia, que pode variar, ser maior ou menor) [v] -- tende a aumentar. Oras, uma vez que só o trabalho produz valor, isso significa que, no processo de acumulação, embora a massa de mais-valia obtida pelo capitalista tenda a crescer, sua proporção em relação ao capital total tende a cair. E como a razão entre a massa de mais-valia e o capital total -- ou seja, m/(c+v) -- constitui a taxa de lucro, a própria rentabilidade da atividade capitalista, isso significa que a taxa de lucro tende, a longo prazo, a cair!

 Uma vez que é a rentabilidade/lucratividade da atividade capitalista que leva o capitalista individual a investir, gerando emprego e renda, podemos concluir que a própria acumulação de capital sempre chega a um ponto em que a díade custos x benefícios torna-se pouco atrativa, os investimentos cessam e, com isso, tem-se uma crise de superprodução de mercadorias, que simplesmente não encontram compradores (é a ''falta de demanda efetiva'' dos economistas keynesianos): é a crise do capitalismo, que contrasta a riqueza gerada por forças produtivas cada vez mais desenvolvidas com a miséria gerada pelo sistema de mercado e iniciativa privada.

 Tudo isso, claro, não passaria de especulação barata se eu ou qualquer outro marxista não fosse capaz de apresentar dados que o comprovassem. Pois bem: eis aí 5 gráficos que analisam a taxa média de lucro 1) mundial, entre 1869 e 2007 2) nos EUA, entre 1948 e 2013 3) idem, entre 1982 e 2010-2011, comparada com a composição orgânica média do capital e a fração que os lucros empresariais ocupavam no PIB ianque 4) ibid., entre 1946 e 2010, comparada com a composição orgânica média do capital 5) ibid., entre 1929 e 1945.

1) https://thenextrecession.files.wordpress.com/2014/12/world-rate-of-profit.png
2) https://thenextrecession.files.wordpress.com/2012/07/rate-of-profit.png
3) https://thenextrecession.files.wordpress.com/2012/06/image0051.png
4) https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjaNv8B6wU_8I3VASIlF3XXdQa4OUSneEDZnU45_3JUyGrp0D-y41BbWdL1p_0-KB5cfJpJ5BJ_XI8fIND4a-sdMmkrqTTvsH7YZP7ovYe3JjCDPwH6r1EhEEu-CCskswdPP8nf9IQ8imxC/s1600/1.png
5) https://thenextrecession.files.wordpress.com/2012/08/us-rop-1929-441.png

 Tais gráficos chegaram a mim pelo blog do economista estadunidense Michael Roberts, que os produziu, dentre outras fontes, a partir de artigos  de terceiros e de seus próprios cálculos [2] [3] [4]. Observe que o declínio mais severo das linhas que representam a taxa média de lucro caminha lado a lado com o aumento da composição orgânica do capital e com a ocorrência das crises.

 A resolução da crise exige, ao contrário do que pensam alguns economistas keynesianos, não um aumento da ''demanda efetiva'' (cuja falta é consequência da própria crise, não sua causa) mas uma subida da taxa média de lucro. Para que isso ocorra é necessária a destruição de valores e capitais não lucrativos e/ou a redução dos custos salariais. A 2ª Guerra Mundial fez a primeira coisa e permitiu aos EUA escapar da depressão em que sua economia havia entrado em 1929, e não o New Deal de Franklin D. Roosevelt; a mesma guerra que, só entre cidadãos soviéticos, fez mais de 20 milhões de vítimas.

 A economia mundial encontra-se, desde 2008, em mais uma crise. As taxas médias de lucro, as de investimento e de crescimento, tanto nos países desenvolvidos quanto nos emergentes, ainda não alcançaram os níveis pré-crise. O desemprego cresce na Europa [5], especialmente na Espanha e nos chamados PIIGs, as economias dos EUA e do Japão estão estagnadas [6] e mesmo a China começa a crescer mais lentamente; as medidas tomadas pelos governos para bombar suas economias não funcionam [7] tudo aponta para que, nos próximos 2 anos, entremos em mais uma recessão mundial. Os conflitos geopolíticos recentes indicam que a guerra parece, para certas potências ocidentais, mais uma vez uma forma atraente de recuperar altas margens de lucros, e os acontecimentos recentes na Grécia, na Espanha e no Canadá sugerem que a luta de classes está se intensificando.

 O capitalismo, que mal tem 400 anos, já está senil; sua sobrevivência exige o derramamento de mais sangue e lágrimas, a destruição de importantes ecossistemas e, talvez, do planeta. Sua derrubada, porém, não será atingida sem luta, através de qualquer apelo ao ''bom-senso'' da classe proprietária dos meios de produção, que não quer perder o privilégio de viver do trabalho alheio; terá de ser obtida à força, por meio de uma revolução social (e não tenhamos dúvidas de que a burguesia convocará os fascistas novamente para se proteger -- como já o está fazendo na Ucrânia [8]). Estaremos nós preparados para essa tarefa?


 Notas e fontes


 [1] Para compreender melhor o tema, sugiro a leitura do artigo do falecido professor Reinaldo Carcanholo, ''Elementos básicos da teoria marxista do valor'': http://www.unicamp.br/cemarx/ANAIS%20IV%20COLOQUIO/comunica%E7%F5es/GT1/gt1m2c4.pdf
 [2] https://thenextrecession.files.wordpress.com/2014/04/maito-esteban-the-historical-transience-of-capital-the-downward-tren-in-the-rate-of-profit-since-xix-century.pdf?hc_location=ufi
 [3] https://thenextrecession.files.wordpress.com/2014/04/long-term-movement-of-the-profit-rate-in-the-capitalist-world-economy.pdf?hc_location=ufi
 [4] https://thenextrecession.files.wordpress.com/2011/11/the-profit-cycle-and-economic-recession.pdf?hc_location=ufi
 [5] http://www.swissinfo.ch/eng/jobs-in-europe_what-future-for-the-younger-generation-/32584024/
 [6] https://thenextrecession.wordpress.com/2014/10/13/japan-the-failure-of-abenomics/ & https://thenextrecession.wordpress.com/2015/03/27/profit-warning/
 [7] http://boradiscutir.blogspot.com.br/2015/03/o-bce-qe-e-fuga-estagnacao.html
 [8] http://sputniknews.com/europe/20150418/1021066599.html & http://boradiscutir.blogspot.com.br/2015/03/o-fascismo-esta-outra-vez-em-ascensao.html

Foram as conquistas da Era Lula mera ''herança'' da Era FHC?

O texto abaixo é a resposta de um colega, graduando em Ciências Econômicas, a um liberal sobre a suposição do título deste artigo. As expressões ''cacheiro iletrado'' e ''vagabundo 9-dedos'' foram usadas pelo segundo, daí sua inclusão (irônica) na resposta de meu camarada.



 Sou de esquerda sim, mas não sou petista, inclusive uma das razões para eu não ser petista reside numa crítica à política econômica ao longo do governo PT(2003-2013), apontando as limitações do modelo de desenvolvimento puxado por fatores exógenos -- boom das commodities -- e por um consumo cuja renda é absorvida em larga medida pelo setor importador devido a (equivocada) política cambial -- esta sim uma herança do PSDB infelizmente conservada pelo PT.

 Mas se existe uma crítica irrazoável e infundada ao governo do PT, é a de que o bom desempenho macroeconômica entre 2004-2011 tenha sido um simples reflexo da estabilização monetária implantada pelo PSDB.

 Essa frágil tese é sustentada pela manutenção do cultuado tripé macroeconômico sob a vigência do PT, ou seja, a preservação do regime de metas fiscais -- superávit primário --, câmbio flutuante e o plano de metas inflacionárias. Foram essas medidas monetárias e fiscais, de natureza ortodoxa e herdadas do governo PSDB, que proporcionaram as condições necessárias para que o PT pudesse aproveitar uma boa fase de relativo avanço da taxa de crescimento e evolução dos indicadores de emprego e salário.

 Somado a isso temos o fator político onde setores chaves da economia foram entregues à figuras de perfil econômico semelhantes às características liberais do PSDB - falo da nomeação do Palocci e do Henrique Meireles para o ministério da fazenda e banco central respectivamente.

 A principio parece ser uma tese sólida o suficiente para convencer o reaça anti-petista que se infla todo de arrogância quando menciona que a fase de esplendor econômico fora um simples mérito indireto do honrado e culto FHC em contraste com o "cachaceiro iletrado operário 9-dedos"

 Porém se investigarmos com mais criticidade e critério, constatamos que a fase expansão encontra razão nas decisões políticas que vão na contramão das políticas adotadas no período FHC.

 Pois, vejamos só:

 Indiscutivelmente a principal causa -- não única, porém -- da fase expansiva foi a incrível procura chinesa por matérias primas; em parte a causa foi constituída pelo fator sorte, mas a outra parte é de responsabilidade e mérito do governo em ter promovido uma política externa que estabelecesse vínculos diplomáticos e comerciais com países fora do enquadro Europa-EUA.

 O PSDB, pelo contrário, priorizava relação com a UE e EUA, a fim de estreitar o país com "as principais cadeias de valor global" segundo demonstra o próprio programa político da campanha de 2002, que inclusive foi reproduzida na campanha de 2014.

 O que isso quer dizer? Quer dizer que em boa medida o Brasil soube se posicionar estrategicamente, por meio da aproximação política com a China, para abastecer o mercado chinês e obter assim saldos comerciais expressivos. Se tivesse mantido a mesma política externa "sul-norte", teríamos desperdiçado o potencial da demanda chinesa por minério e soja, a exemplo do que aconteceu com o México que seguiu por esse caminho e auferiu um desempenho inferior ao brasileiro no mesmo período.

 A política externa diferente e voltada para as relações sul-sul foram fundamentais para o Brasil na conjuntura de boom provocada pela expansão industrial Chinesa. Nesse quesito, o Brasil depende mais da China do que a China do Brasil, já que a China poderia muito bem ter procurado outras fontes provedoras de matéria prima caso o Brasil, em razão de uma política externa orientada para o norte, apresentasse resistência em se aproximar de Pequim. A china poderia muito bem ter aprofundado a exploração de recursos naturais na África e na América latina a onde detém grandes investimentos em detrimento do Brasil.

Cacheiro iletrado 1 vs 0 FHC.

 Outra diferença que foi de grande importância: a política de fomento ao mercado interno; em suma, o governo PT adotou em partes, uma política econômica de natureza keynesiana, fundamentada no incentivo às componentes da demanda agregada, especificamente o fator consumo via ampliação do crédito, programas de transferência de renda e aumento real do salário minimo.

 Essa foi uma decisão política do governo PT que entra em conflito com as características ortodoxas e neoliberais do PSDB, cuja metodologia se concretizava na retração dos gastos públicos - gastos estes que possibilitaram medidas como a expansão do crédito através dos bancos públicos-e, portanto,no atrofiamento dos incentivos à demanda agregada, que foram de grande utilidade para o desenvolvimento econômico observado entre 2004-2011.

 Inclusive o PSDB, por meio do seu programa política, denotava que o papel dos bancos públicos seria reduzido ou mesmo aniquilado por privatizações. OS bancos públicos tiveram função especial nos estímulos que construíram um mercado interno mais forte e resistente aos choques exógenos. Coisa que o PSDB certamente não faria devido a cegueira ideológica do neoliberalismo.

 E outra: o Lula escalou uma equipe de economistas muito competentes para dirigir os bancos públicos, como por exemplo o Carlos Lessa e o Fernando Nogueira, dois quadros que divergem da ortodoxia de Meireles e Palocci.

Enfim, vagabundo 9-dedos 2 vs 0 FHC culto e honrado.

 Só pra concluir: a herança deixada pelo PSDB ao invés de condicionar o desenvolvimento, pelo contrário, o enfraqueceu! A estabilização monetária tucana veio à custa da deterioração das cadeias produtivas, que foram devastadas ou convertidas em importadoras intensivas. O coeficiente de importação aumentou nos setores produtivos, esvaziando em grande medida o potencial da expansão do mercado interno auferido durante os governos PT. O governo do PT ao conservar tal base macroeconômica hostil à integração de cadeias produtivas nacionais, teve que abastecer o mercado interno com produtos de maioria estrangeira, frustrando a criação de industrias, empregos e renda dentro do país.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A ofensiva global da OTAN


por Manlio Dinucci




 A Organização do Tratado do Atlântico Norte não tem mais fronteiras. Na Europa - após de ser estendida a sete países do antigo Pacto de Varsóvia, três da antiga União Soviética e dois da ex-Jugoslávia (destruída pela guerra [movida pela própria OTAN] em 1999) - a organização está a incorporar a Ucrânia. As forças armadas de Kiev, que há alguns anos têm participado em operações da  OTAN em diversas regiões (nos Bálcãs, Afeganistão, Iraque, Mediterrâneo, Oceano Índico), estão a ser cada vez mais integradas à aliança comandada pelos Estados Unidos.

 Em 24 de abril último, firmou-se um acordo que enquadra de facto essas forças na rede de comando, controle e comunicações da  OTAN. Isto ocorre no momento em que o parlamento de Kiev aprova por unanimidade uma lei que exalta como "heroico" o passado nazista da Ucrânia e, ao mesmo tempo torna "criminosa" qualquer referência ao comunismo, põe na ilegalidade o PC ucraniano e declara "combatentes pela independência" os nazistas que massacraram dezenas de milhares de judeus daquele país.

 Na Lituânia e na Polónia, a OTAN tem colocado caças-bombardeiros que "patrulham" os céus das três repúblicas bálticas, nos limites do espaço aéreo russo: a Itália, depois de liderar a "missão" no primeiro trimestre de 2015, permanecerá pelo menos até 4 de agosto com seus aviões Eurofighter Typhoon.

 Na Ásia Central, "região estrategicamente importante",  OTAN está incorporando a Geórgia, que, já integrada às suas operações ,"aspira a tornar-se membro da Aliança". Também continua a "aprofundar a cooperação" com o Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão, para enfrentar a União Económica da Eurásia (que inclui a Rússia, Belarus [Bielorrússia], Cazaquistão, Arménia e, a partir de maio, o Quirguistão).

 A organização permanece "profundamente comprometida" no Afeganistão (que, para a geografia imperial, é parte do "Atlântico Norte"), país de grande importância geoestratégica em relação à Rússia e China, onde a guerra continua com forças especiais da  OTAN, drones e caças-bombardeiros (52 ataques aéreos somente em março).

 Na Ásia Ocidental, a  OTAN continua com sua operação militar encoberta contra a Síria e prepara outra (o Irã sempre está no visor), como evidenciado pela mudança para Izmir (Turquia) do LANDCOM, o comando-geral das forças terrestres da aliança. Ao mesmo tempo, a  OTAN está a reforçar a parceria (testada na "campanha da Líbia") com quatro monarquias do Golfo - Bahrain, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar - e a cooperação militar com a Arábia Saudita, que, conforme denuncia "Human Rights Watch", está a se lançar sobre o Iêmen com bombas de fragmentação fornecidas pelos EUA.

 No leste da Ásia, a  OTAN concluiu um acordo estratégico com o Japão que "amplia e aprofunda a parceria de longa data", o qual se reúne a um acordo semelhante firmado com a Austrália, com finalidades anti-chinesas e anti-russas. Com o mesmo fim, os principais países da  OTAN (incluindo-se a Itália) participam, a cada dois anos no Pacífico, daquilo que o comando da Marinha dos EUA chama de "o maior exercício marítimo do mundo".

 Na África, depois de demolir a Líbia, a  OTAN está a reforçar a assistência militar para a União Africana, e fornece ainda "planejamento e transporte aeronaval", no quadro estratégico do Comando para a África dos Estados Unidos (AFRICOM).

 Finalmente, na América Latina, a  OTAN firmou um "Acordo de Segurança" com a Colômbia que, já engajada em programas militares da Aliança (incluindo a formação de forças especiais), pode em breve tornar-se um membro da aliança. Não será surpresa se, em pouco tempo, a Itália enviar seus bombardeiros para "patrulhar" os céus da Colômbia em alguma "missão" da OTAN contra a Venezuela.

Originalmente publicado em: http://www.marx21.it/internazionale/pace-e-guerra/25559-loffensiva-della-nato-globale.html

70 anos da vitória soviética sobre os nazistas e a manipulação da opinião pública francesa





 Nada como o poder da indústria cinematográfica hollywoodiana para falsificar a História.

 Em maio de 1945, o IFOP, Instituto Francês de Opinião Pública, realizou uma pesquisa com a seguinte pergunta: "Qual, para você, foi a nação que mais contribuiu para a derrota da Alemanha nazista em 1945?"; os resultados, à época, foram 57% para URSS, 20% para os EUA e 12% para o Reino Unido. Em 1994, quase 50 anos depois, a pesquisa foi refeita e teve resultados bem diferentes: 25% para a URSS, 49% para os EUA e 16% para o Reino Unido. A pesquisa foi novamente realizada em 2004, obtendo a URSS 20% dos votos, os EUA, 58%, e o Reino Unido, 16%. Neste ano repetiu-se a pesquisa, com uma pequena mudança, pouquíssimo significativa: 23% para a URSS, 54% para os EUA e 18% para o Reino Unido [1].



 O território ocupado no interior da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas pelos alemães era responsável por 70% das minas de carvão, 60% da produção de minério de ferro, 50% da produção siderúrgica e 30% da colheita de cereais. Quando o exército soviético recuou, destruiu grande parte das instalações produtivas para impedir que fossem utilizadas pelos alemães. Quando, mais tarde, os alemães foram repelidos, também eles adotaram uma política de terra arrasada, destruindo na sua retirada qualquer coisa de valor que encontrassem. As fábricas e casas foram especialmente atingidas. Além de matarem mais de 20 milhões de soviéticos -- por volta de 9 milhões de soldados e 16 milhões de civis --, os alemães destruíram os lares de outros 25 milhões, arrasando totalmente cerca de 2 mil cidades e 70 mil aldeias [2]. E entretanto, foi a URSS quem destruiu a maior parte do exército nazista -- quatro quintos dos combates na Segunda Guerra Mundial aconteceram no front do Leste, dois terços do exército alemão estavam no Leste mesmo depois do Dia D [3].

 O feito heroico da primeira pátria socialista não deve jamais ser esquecido.

"Na nossa época, com a fabricação total de fotografias, filmes e videoteipes realistas tecnologicamente ao nosso alcance, com a televisão em cada casa e o espírito crítico em declínio, parece possível reestruturar as memórias sociais... O que estou imaginando não é que cada um de nós venha a ter um estoque de lembranças implantadas em sessões terapêuticas especiais indicados pelo Estado, mas antes que um pequeno número de pessoas terá um controle tão grande sobre as notícias, os livros de história e as imagens profundamente influentes que poderá efetuar enormes mudanças nas atitudes coletivas." - Carl Sagan, em "O mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela no escuro"


"Sem os sacrifícios da União Soviética e de seus povos, o capitalismo liberal ocidental provavelmente teria sucumbido a esta ameaça [a do nazifascismo] e o mundo ocidental contemporâneo (fora os Estados Unidos) agora consistiria de um conjunto de variações de regimes autoritários e fascistas, ao invés de um conjunto de variações de regimes liberais. Sem o Exército Vermelho, as chances de derrotar os poderes do Eixo eram inexistentes." - Eric J. Hobsbawm, "Adeus a tudo aquilo", em "Depois da Queda"

Fontes


[1] https://www.les-crises.fr/la-fabrique-du-cretin-defaite-nazis/
[2] HUNT, E. K. História do pensamento econômico: uma perspectiva crítica. Rio de Janeiro: Campus, 2005.
[3] http://br.sputniknews.com/opiniao/20150504/928159.html#ixzz3ZEGTqaCC