sexta-feira, 2 de maio de 2014

Teocracia e totalitarismo

 George Orwell introduziu, em um chamado livro 1984, o conceito de ''crimideia'': a noção de que um indivíduo pode ser condenado e penalizado não (só) pelo que ele faz, mas até mesmo pelo que ele pensa.  Essa noção extremamente autoritária (e  essencialmente totalitária) foi percebida em regimes como o socialismo stalinista, quando milhares foram presos acusados de ter ''delírios reformistas''. Isso certamente revolta qualquer cidadão com um mínimo de senso comum: nós não somos culpados pelo que pensamos, por nossas opiniões, mas sim por nossos atos. No entanto, os velhos sistemas metafísicos (as ''boas'' e velhas religiões) estão repletas desse totalitarismo. A marcante frase de Jesus, ''Somente aquele que crê em mim e for batizado'', é uma boa prova disso: pessoas condenadas ao inferno pela eternidade por não crerem, por não terem determinada ideia em suas mentes, ainda que tenham praticado boas ações por toda a vida.

 O texto abaixo, de autoria de Christopher Hitchens, corresponde à primeira metade do capítulo 17 do livro ''god is not Great: how religion poisons everything'', ''Uma objeção antecipada: o 'argumento' desesperado contra o secularismo'', e está relacionado a esse tema. Boa leitura.


''Uma fé que despreza a mente e o indivíduo livre, que prega a submissão e a resignação e que considera a vida algo pobre e transitório está mal equipada para a autocrítica.'' - C. Hitchens

 Se eu não posso provar definitivamente que o sentido da religião desapareceu no passado, que seus livros fundamentais são fábulas transparentes, que é uma imposição criada pelo homem, que tem sido inimiga da ciência e da pesquisa e que sobreviveu principalmente de mentiras e medos e foi cúmplice da ignorância e da culpa, bem como da escravidão, do genocídio, do racismo e da tirania, eu quase certamente posso afirmar que a religião hoje está plenamente consciente dessas críticas. Também está plenamente consciente das provas cada vez mais numerosas, referentes às origens do universo e à origem das espécies, que a relegam à marginalidade, quando não à irrelevância. Eu tentei lidar com as objeções na fé à medida que foram surgindo ao longo da discussão (no livro), mas há um último ponto que não pode ser evitado.

 Quando já foi dito o pior sobre a Inquisição, os julgamentos das bruxas, as cruzadas, as conquistas imperiais islâmicas e os horrores do Velho Testamento, não é verdade que os regimes seculares e ateus cometeram crimes e massacres que são, na escala das coisas, pelo menos tão ruins, quando não piores? E o corolário não é de que homens livres da reverência religiosa irão agir da forma mais desabrida e abandonada? Em seu Os irmãos Karamazóv, Dostoiévski foi extremamente crítico em relação à religião (e vivia sob o despotismo que era santificado pela Igreja) e também representou seu personagem Smerdiakov como  uma figura vã, crédula e idiota, mas a máxima de Smerdiakóv - de que ''Se deus não existe, tudo está permitido'' - compreensivelmente encontra eco naqueles que veem a Revolução Russa do prisma do século XX.

 É possível ir além e dizer que o totalitarismo secular de fato nos deu um resumo do mal humano. Os exemplos mais utilizados - os regimes de Hitler e Stálin - nos mostram com terrível clareza o que acontece quando os homens usurpam o papel dos deuses. Quando eu consulto meus amigos seculares e ateus, descubro que essa se tornou a objeção mais comum e frequente que escutam de plateias religiosas. O ponto merece uma réplica detalhada.

 Para começar devagar, é interessante descobrir que as pessoas de fé hoje buscam dizer defensivamente que não são piores que fascistas, nazistas ou stalinistas. Seria de esperar que a religião tivesse preservado um pouco mais de dignidade. Não diria que as fileiras do secularismos e ateísmo estão abarrotadas de  comunistas ou fascistas, mas pelo bem do debate pode-se considerar certo que, assim como os secularistas e ateus resistiram às tiranias clericais e teocráticas, os crentes religiosos resistiram às pagãs e materialistas. Mas isso seria apenas dividir a diferença.

 A palavra 'totalitário' provavelmente foi usada pela primeira vez pelo dissidente marxista Victor Serge, que ficou chocado com os frutos do stalinismo na União Soviética. Ela foi popularizada pela intelectual judia secular Hannah Arendt, que escapou do inferno do Terceiro Reich e escreveu Origens do Totalitarismo. É um termo útil, porque ele distingue as formas ''comuns'' de despotismo - aqueles que se limitam a exigir obediência de seus súditos - dos sistemas absolutistas que exigem que os cidadãos se transformem inteiramente em súditos e entreguem suas vidas e suas personalidades ao Estado, ou ao líder supremo.

 Se aceitarmos essa última definição, então o primeiro ponto a ser abordado também é fácil. Durante a maior parte da história humana, a ideia o Estado total ou absoluto esteve intimamente ligada à religião. Um barão ou rei podia obrigar você a pagar impostos ou a servir em seu exército, e normalmente podia garantir ter sacerdotes à mão para lembrar você que essa era sua obrigação, mas os despotismos verdadeiramente assustadores foram aqueles que também queriam o conteúdo do seu coração e da sua cabeça. Quer estudemos as monarquias orientais da China, da Índia ou da Pérsia, os impérios asteca ou inca ou as cortes medievais da Espanha, da Rússia e da França, quase invariavelmente descobrimos que esses ditadores também eram deuses, ou líderes das igrejas. Devia-se a eles mais do que a mera obediência: qualquer crítica a eles era por definição profana, e milhões de pessoas viveram e morreram de medo de um governante que podia escolher você para um sacrifício ou condená-lo à punição eterna por um capricho. A menor infração - de um dia santo, um objeto sagrado ou uma regra acerca de sexo, comida ou casta - podia produzir calamidades. O princípio totalitário, que frequentemente é representado como ''sistemático'', também está intimamente relacionado ao capricho. As regras podem mudar ou ser flexibilizadas a qualquer momento, e os governantes têm a vantagem de saber que seus súditos nunca estarão seguros sobre estar obedecendo ou não à lei mais recente. Hoje valorizamos algumas poucas exceções da antiguidade - como a Atenas de Péricles, com todas as suas deformações - exatamente porque havia alguns poucos momentos em que a humanidade não viveu em terror permanente de um faraó, Nabucondonosor ou Dário, cuja menor palavra era lei sagrada.

 Isso continuou a ser verdade mesmo quando o direito divino dos déspotas começou a dar lugar a versões da modernidade. A ideia de um Estado utópico na Terra, moldado a partir de algum ideal celestial, é muito difícil de eliminar, e levou pessoas a cometer crimes terríveis em nome do ideal. Uma das primeiras tentativas de criar uma sociedade edênica ideal como essa, baseada no conceito de igualdade humana, foi o Estado socialista totalitário estabelecido por jesuítas no Paraguai. Ele conseguiu combinar o máximo de igualitarismo com o máximo de falta de liberdade, e só pôde ser sustentado pelo máximo de medo. Isso deveria ser um alerta para aqueles que buscam aperfeiçoar a espécie humana. Mas o objetivo de aperfeiçoar a espécie - que é a própria raíz e fonte do impulso totalitário - é essencialmente religioso.

 George Orwell, o descrente ascético cujos romances nos deram um retrato indelével de como realmente é a vida num Estado totalitário, não tinha dúvidas sobre isso. Escreveu ele em ''The Prevention of Literature'', de 1946: ''Do ponto de vista totalitário, a história é algo a ser criado, mais que ser aprendido. Um estado totalitário é na verdade uma teocracia, e sua casta governante, de modo a manter sua posição, tem de ser considerada infalível.'' (Você perceberá que ele escreveu isso em um ano em que, tendo combatido o fascismo por mais de uma década, ele estava voltando suas armas cada vez mais contra os simpatizantes do comunismo.)

 Para ter uma disposição totalitária, não é preciso vestir um uniforme nem carregar um porrete ou um chicote. Só é preciso desejar sua própria sujeição e se dedicar com a sujeição dos outros. O que é um sistema totalitário senão aquele em que a glorificação abjeta do líder perfeito é acompanhada da renúncia a toda a privacidade e individualidade, especialmente em questões de sexualidade, e da denúncia e punição - ''para seu próprio bem'' - daqueles que transgridem? O elemento sexual provavelmente é decisivo, no sentido de que a mente mais embotada pode perceber o que Nathaniel Hawthorne capturou em A Letra Escarlate: a profunda relação entre repressão e perversão.

 No começo da história da humanidade, o princípio totalitarista era o que reinava. A religião estatal oferecia uma resposta completa e ''total'' a todas as perguntas, da posição de alguém na hierarquia social às regras concernentes à dieta e ao sexo. Escravo ou não, o ser humano era propriedade, e o clero garantia a implementação do absolutismo. A projeção mais criativa que Orwell fez para a ideia totalitária - a acusação de ''crime imaginado'' (crimideia) - era lugar-comum. Um pensamento impuro, quanto mais um herético, podia fazer com que você fosse esfolado vivo. Ser acusado de possessão demoníaca ou de contato com o Diabo era ser condenado por isso. Orwell se deu conta dessa infernização pela primeira vez ainda jovem, ao ser trancada em uma escola hermética gerida por cristãos sádicos na qual não era possível saber quando você tinha violado as regras. Independentemente do que você fizesse, e por mais que tomasse precauções, os pecados dos quais não tinha consciência sempre podiam ser lançados sobre você.

 Era possível deixar aquela escola medonha (traumatizado por toda a vida, como milhares de crianças ficaram), mas não é possível, na visão religiosa totalitária, escapar deste mundo de pecado original, culpa e dor. Uma infinidade de punições espera por você mesmo depois da morte. De acordo com os totalitaristas religiosos realmente radicais, como João Calvino, que tomou sua doutrina medonha de Agostinho, uma infinidade de punições pode estar esperando por você antes mesmo do nascimento. Há muito tempo foi escrito que as almas seriam escolhidas ou ''eleitas'' quando chegasse o momento de separar as ovelhas das cabras. Não é possível nenhum recurso a essa sentença primordial, e não há boas ações ou profissões de fé que possam salvar aqueles que não tiveram a sorte de serem escolhidos. A Genebra de Calvino era um Estado totalitário típico, e o próprio Calvino era um sádico, torturador e assassino, que queimou Servetus ( um dos grandes pensadores e questionadores da época) com o homem ainda vivo. A infelicidade a que foram induzidos os seguidores de Calvino, obrigados a desperdiçar suas vidas se preocupando em se teriam sido ''eleitos'' ou não, foi bem captada no Adam Bede de George Elliot e em uma antiga sátira plebeia inglesa contra as outras seitas, das Testemunhas de Jeová à Irmandade Plymouth, que ousam dizer que são os eleitos e que só eles sabem o número exato dos que serão poupados da fogueira:

              Nós somos os poucos puros e escolhidos, todos vocês estão condenados.
             Há bastante espaço para vocês no inferno - não queremos o céu lotado.

 Eu tive um tio inofensivo mas de espírito fraco cuja vida foi arruinada e tornada infeliz exatamente dessa forma. Calvino pode parecer um personagem distante para nós, mas aqueles que costumavam agarrar e usar o poder em seu nome ainda estão entre nós e usam os nomes mais suaves de presbiterianos e batistas. O apelo a proibir e censurar livros, silenciar dissidentes, condenar estrangeiros, invadir a esfera privada e invocar uma salvação exclusiva é a própria essência do totalitarismo. O fatalismo do islamismo, que acredita que tudo está antecipadamente definido por Alá, tem algumas semelhanças com essa completa negação da autonomia e da liberdade humanas, bem como sua crença arrogante e intolerável de que sua fé inclui tudo o que qualquer um precisa saber.

 Assim, quando a grande antologia antitotalitarista do século XX foi publicada em 1950, seus dois editores se deram conta de que ela só podia ter um nome. Eles a chamaram de O deus que falhou. Eu conheci ligeiramente e trabalhei com um desses dois homens - o socialista britânico Richard Crossman. Como ele descreveu em sua introdução do livro:

          Para o intelectual o conforto material é relativamente desimportante; ele se 
          preocupa principalmente com a liberdade espiritual. A força da Igreja Ca-
          tólica sempre foi o fato de que ela exige o completo sacrifício dessa liberda-
          de, e condena o orgulho espiritual como um pecado mortal. O noviço comu-
          nista, sujeitando sua alma à lei canônica do Kremlin, sente um pouco do alí-
          vio que o catolicismo também dá ao intelectual, extenuado e preocupado com
          a liberdade.

 O único livro que tinha alertado antecipadamente para tudo isso, trinta anos antes, foi uma obra pequena mas brilhante publicada em 1919 e intitulada Prática e teoria do bolchevismo. Muito antes de Arthur Koestler e Richard Crossman terem começado a pesquisar os destroços retrospectivamente, todo o desastre estava sendo previsto em termos que ainda despertam admiração por sua presciência. O analista cáustico dessa nova religião era Bertrand Russel, cujo ateísmo o tornou ainda mais previdente do que muitos ''socialistas cristãos'' ingênuos que alegaram identificar na Rússia o início de um novo paraíso na Terra. Ele também era mais previdente do que o establishment cristão anglicano de sua Inglaterra natal, cujo principal jornal, o Times de Londres, assumiu o ponto de vista de que a Revolução Russa podia ser explicada pelo Protocolo dos Sábios de Sião. Essa falsificação revoltante feita por agentes secretos ortodoxos russos foi publicada por Eyre and Spottiswood, impressora oficial da Igreja da Inglaterra.

 Dado seu próprio histórico de sucumbir a ditaduras na Terra e ao controle absoluto da próxima vida e ainda sim promulgá-los, como a religião enfrentou os totalitarismos ''seculares'' de nossa época? É preciso inicialmente considerar, por ordem, fascismo, nazismo e stalinismo.

 O fascismo - precursor do modelo do nacional-socialismo - foi um movimento que acreditava em uma sociedade orgânica e corporativa, presidida por um líder ou guia. (As ''fasces'' - símbolo dos lictores, ou guardas da roma antiga - eram feixes de varas amarrados a uma machadinha, sinal de unidade e autoridade.) Surgindo da miséria e da humilhação da 1ª Guerra Mundial, os movimentos fascistas defendiam os valores tradicionais contra o bolchevismo e pregavam o nacionalismo e a piedade. Provavelmente não é coincidência que a Igreja Católica em geral fosse simpática ao fascismo como ideia.

 Não apenas a Igreja via o comunismo como inimigo mortal, mas também via seu inimigo judeu mais antigo nas altas fileiras do partido de Lênin. Benito Mussolini mal tinha tomado o poder na Itália  e o Vaticano já estava fazendo com ele um tratado oficial, conhecido como Tratado de Latrão de 1929. Pelos termos do acordo, o catolicismo se  tornou a única religião reconhecida na Itália, com monopólio em questão de nascimento, casamento, morte e educação, e em troca conclamava seus seguidores a votar no partido de Mussolini. O papa Pio XI descreveu Il Duce (''o líder'') como ''um homem enviado pela Providência''. Eleições não seria uma característica da vida italiana por muito tempo, mas a igreja ainda sim levou à dissolução dos partidos leigos de centro e ajudou a financiar um pseudopartido chamado ''Ação Católica'', que foi copiado em muitos países. Por todo o sul da Europa, a Igreja foi uma aliada confiável na instalação de regimes fascistas na Espanha, em Portugal e na Croácia. Na Espanha, o general Franco foi autorizado a chamar a sua invasão do país e destruição da república eleita pelo título terrível de La Crujada, ou ''A Cruzada''. O Vaticano apoiou ou se recusou a criticar as tentativas operísticas de Mussolini de recriar um pastiche do Império Romano com suas invasões da Líbia, da Abissínia (hoje Etiópia) e da Albânia: territórios que eram habitados principalmente por não-cristãos ou pelo tipo errado de cristãos orientais. Mussolini chegou mesmo a dar como uma de suas justificativas para a utilização de gás venenoso e outros métodos horripilantes na Abissínia a insistência de seus habitantes na heresia do monofisismo, um dogma incorreto da Encarnação que tinha sido condenado pelo papa Leão e pelo Concílio de Calcedônia de 451.
 Na Europa central e oriental o quadro não era melhor. O golpe militar de extrema direita na Hungria, liderado pelo almirante Horthy, foi calorosamente endossado pela Igreja, assim como movimentos fascistas semelhantes na Áustria e na Eslováquia. (O regime-fantoche nazista da Eslováquia na verdade era comandado por um homem de votos sacerdotais chamado padre Tiso.) O cardeal da Áustria proclamou seu entusiasmo com a tomada de seu país por Hitler quando do Anschluss.

 Na França, a extrema-direta adotou o lema de ''Meilleur Hitler que Blum'' - em outras palavras, melhor ter um ditador racista alemão que um socialista francês judeu eleito. Organizações fascistas católicas como a Action Française, de Charles Murras, e a Croix de Feu fizeram violentas campanhas contra a democracia e não tentaram de modo algum esconder seu ressentimento pelo modo como a França estava decaindo desde o veredicto de Inocência para o capitão judeu Alfred Dreyfuss em 1899. Quando houve a conquista da França pela Alemanha, essas forças colaboraram ativamente com a prisão e o assassinato de judeus franceses, assim como a deportação para trabalhos forçados de um enorme número de outros franceses. O regime de Vichy se curvou ao clericalismo eliminando o lema de 1989 - ''Liberté, Egualité, Fraternité'' - da moeda nacional e substituindo pelo lema cristão ideal de ''Familie, Travail, Patrie''. Mesmo em um país como a Inglaterra,  onde as simpatias fascistas eram menores, eles ainda conseguiram uma plateia em círculos respeitáveis com a atuação de intelectuais católicos como T. S. Elliot e Evelyn Waugh.

 Na vizinha Irlanda, o movimento Blue Shirt do general O'Duffy (que enviou voluntários para lutar por Franco na Espanha) era pouco mais do que um ramo da Igreja Católica. Mesmo em abril de 1945, ao receber a notícia da morte de Hitler, o presidente Eamon de Valera colocou sua cartola, chamou a carruagem oficial e foi à embaixada alemã de Dublin para apresentar suas condolências. Atitudes como essas significaram que vários Estados dominados por católicos, da Irlanda à Espanha e à Portugal, eram inelegíveis para ingresso nas Nações Unidas quando elas foram criadas. A Igreja se esforçou para se desculpar por isso tudo, mas sua cumplicidade com o fascismo é uma marca indelével de sua história, e não foi um compromisso de curto prazo ou precipitado, mas uma aliança de trabalho que não foi rompida até depois de o próprio período fascista ter passado para a história.

 O caso da rendição da Igreja ao nacional-socialismo alemão é consideravelmente mais complicado, mas não muito mais elevado. Apesar de partilhar dois importantes princípios com o movimento de Hitler - o antissemitismo e o anticomunismo -, o Vaticano podia ver que o nazismo representava também um desafio a ele próprio. Para começar, era um fenômeno quase pagão que a longo prazo buscava substituir o cristianismo por ritos de sangue e sinistros mitos raciais pseudonórdicos, baseados na fantasia da superioridade ariana. Em segundo lugar, defendia uma política de extermínio para os doentes, os desajustados e os insanos, e rapidamente começou a aplicar essa política não a judeus, mas a alemães. Em benefício da Igreja deve ser dito que seus púlpitos alemães denunciaram essa hedionda seleção eugênica logo de início.

 Mas se os princípios étnicos fossem a regra, o Vaticano não teria de passar os 50 anos seguintes tentando se desculpar por sua desprezível passividade e inação. ''Passividade'' e ''inação'' na verdade podem ser uma escolha de palavras errada. Decidir não fazer nada é em si uma política e uma decisão, e é lamentavelmente mais fácil registrar e explicar o alinhamento da Igreja em termos de uma realpolitik que buscava não uma derrota do nazismo, mas um ajuste a ele.

 O primeiro acordo diplomático fechado pelo governo de Hitler foi consumado em 8 de Julho de 1933, poucos meses após a tomada do poder, e teve a forma de um tratado com o Vaticano. Em troca de controle inquestionável da educação de crianças católicas na Alemanha, o fim da propaganda nazista dos abusos infligidos em escolas e orfanatos católicos e a concessão de outros privilégios, a Santa Sé instruiu o Partido Centro Católico a se dissolver, e bruscamente determinou que os católicos se abstivessem de qualquer atividade política em qualquer tema que o regime resolvesse definir como fora dos limites. Na primeira reunião de gabinete depois dessa capitulação ter sido assinada, Hitler anunciou que as novas circunstâncias seriam ''especialmente significativas na luta contra o judaísmo internacional''. Ele não estava equivocado em relação a isso. De fato, ele podia ser desculpado por não acreditar em sua própria sorte. Os 22 milhões de católicos que vivam no Terceiro Reich, muitos dos quais tinham demonstrado grande coragem resistindo à ascensão do nazismo, tinam sido estripados e castrados como força política. Seu próprio Santo Padre tinha de fato dito a eles para entregar tudo ao pior César da história humana. A partir de então, os registros das paróquias foram colocados à disposição do Estado nazista de modo a estabelecer quem era e quem não era suficientemente ''racialmente puro'' para sobreviver à interminável perseguição sob as leis de Nuremberg.

 A consequência não menos chocante dessa rendição moral foi o paralelo colapso moral dos protestantes alemães, que buscavam conseguir um status especial para os católicos publicando seu próprio acordo com o Fuhrer. Porém, nenhuma das igrejas protestantes foi tão longe quanto a hierarquia católica ordenando uma celebração anual no aniversário de Hitler, em 20 de abril. Nessa data auspiciosa, por instrução do papa, o cardeal de Berlim regularmente transmitia ''calorosas congratulações ao Fuhrer em nome dos bispos e das dioceses da Alemanha'', sendo essas louvações acompanhadas de ''orações fervorosas que os católicos da Alemanha estão enviando aos céus a partir de seus altares''. A ordem era obedecida, e fielmente executada.

 Para ser justo, essa tradição abjeta só foi iniciada em 1939, ano em que houve uma mudança no papado. E, sendo justo mais uma vez, o papa Pio XI sempre tinha acalentado as mais profundas apreensões quanto ao sistema de Hitler e a sua evidente capacidade de mal radical. (Durante a primeira visita de Hitler a Roma, por exemplo, o Santo Padre deixou a cidade de forma bem clara para o retiro papal  de Castelgandolfo.) Contudo, essa papa frágil e doente foi constantemente manobrado, ao longo da década de 1930, por seu secretário de Estado, Eugenio Pacelli. Temos bons motivos para acreditar que pelo menos uma encíclica papal, expressando pelo menos uma mínima preocupação com o tratamento dispensado aos judeus da Europa, fora preparada por Sua Santidade mas eliminada por Pacelli, que tinha em mente outra estratégia. Nós hoje conhecemos Pacelli como o papa Pio XII, que ocupou o posto depois da morte de seu antigo superior em 1939. Quatro dias depois de sua eleição pelo colégio de cardeais, Sua Santidade produziu a seguinte carta para Berlim:

                     Ao ilustre Herr Adolf Hitler, Fuhrer e chanceler do Reich alemão! Aqui, no início
                     de Nosso Pontificado, queremos assegurar que Nós permanecemos dedicados ao
                    bem-estar espiritual do povo alemão confiado à sua liderança. (...) Durante os mui-
                    tos anos que passamos na Alemanha, fizemos tudo ao nosso alcance para estabelecer
                   relações harmoniosas entre a Igreja e o Estado. Agora que as responsabilidades de 
                   nossa função pastoral aumentaram as nossas oportunidades, de forma ainda mais
                   ardente rezamos para atingir nossa meta. Que a prosperidade do povo alemão e seu
                   progresso em todas as áreas se realizem, com a ajuda de Deus, para a fruição!
         
 Seis anos depois dessa mensagem maldosa e vaidosa, um dia o próspero e civilizado povo alemão podia olhar ao redor e dificilmente ver um tijolo sobre o outro, enquanto o Exército Vermelho sem deus marchava rumo a Berlim. Mas eu menciono essa conjuntura por outra razão. Espera-se que os crentes sustentem que o papa é o Vigário de Cristo na Terra e guardião das chaves de São Pedro. Eles, claro, são livres para acreditar nisso, e para acreditar que Deus decide quando encerrar o mandato de um papa ou (mais importante ainda) iniciar o mandato de outro. Isso implicaria acreditar na morte de um papa antinazista e na ascensão de um papa pró-nazista como desejo divino, poucos meses antes da invasão da Polônia por Hitler e o início da Segunda Guerra Mundial. Estudando aquela guerra, talvez seja possível acreditar que 25 por cento dos SS eram católicos praticantes e que nenhum católico foi sequer ameaçado de excomunhão por participação em crimes de guerra. (Joseph Goebbels foi excomungado, mas isso se deu antes e, afinal, ele tinha sido responsável por isso pelo crime de ter se casado com uma protestante.) Seres humanos e instituições são imperfeitos, certamente, mas não poderia haver prova mais clara e vívida de que as instituições sagradas são feitas pelo homem.

 O conluio continuou mesmo depois da guerra, com criminosos nazistas procurados levados para a América do Sul pela ''linha do rato''. Foi o próprio Vaticano, com sua capacidade de providenciar passaportes, documentos, dinheiro e contatos, que organizou a rede de fuga e também a necessária proteção e ajuda no outro extremo. Por mais que isso fosse ruim em si, também envolvia cooperação com outras ditaduras de extrema direita no hemisfério sul, muitas delas organizados segundo o modelo fascista. Torturadores e assassinos fugitivos como Klaus Barbie frequentemente se viam em uma segunda carreira como empregados desses regimes, que até começarem a desmoronar nas últimas décadas do século XX também desfrutaram de firme apoio do clero católico local. A ligação da Igreja com o fascismo e o nazismo de fato resistiu ao próprio Terceiro Reich.

 Muitos cristãos deram suas vidas para proteger seus próximos naquela meia noite do século, mas a chance de que eles o tenham feito por ordem de qualquer sacerdote é estatisticamente nula, Por isso referenciamos a memória daqueles poucos crentes, como Dietrich Boenhoffer e Martin Niemoller, que agiram de acordo apenas com o que determinavam suas consciências. O papado demorou até os anos 1980 para encontrar um candidato à santidade no contexto da ''solução final'', e mesmo então só conseguiu encontrar um padre muito dúbio que - após um longo histórico de antissemitismo político na Polônia - aparentemente tinha se comportado de forma nobre em Auschwitz. Um candidato anterior - um simples austríaco chamado  Franz Jagerstatter - infelizmente foi desclassificado. Ele de fato tinha se recusado a ingressar no exército de Hitler alegando obedecer à lei. A esquerda secular da Europa se saiu bem melhor em sua luta contra o nazismo.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Marx e o trabalhismo: o longo século, por Eric Hobsbawm

Eric J. Hobsbawm (1917) é conhecido por ter sido um dos maiores historiadores e intelectuais do século XX. Formado na tradição marxista, ele demonstra o poder do método de análise histórico-materialista em obras como Era das Revoluções e a Era dos Extremos. No artigo abaixo, que é o capítulo 16 do último livro publicado de Hobsbawm, Como Mudar o Mundo: Marx e o Marxismo (Cia. das Letras, 2011), o historiador fala da relação entre marxismo e trabalhismo ao longo do século XX e início do século XXI. Nada mais indicado para o Dia do Trabalhador que essa leitura.


''Não nos desarmemos, ainda que os tempos sejam insatisfatórios. A injustiça social ainda precisa ser denunciada e combatida. O mundo não ficará melhor por conta própria.'' - E.J. Hobsbawm

Marx e o Trabalhismo: o longo século

 Parece apropriado que uma coletânea de estudos sobre a história do marxismo encerre com
um ensaio sobre o movimento organizado da classe operária. Para Marx, o proletariado era o
predestinado “coveiro do capitalismo”, o agente essencial da transformação social. No século
xx, a maioria dos movimentos e partidos da classe operária foram associados ao sonho de
Marx de uma nova sociedade (“socialismo”), e, por sua vez, os marxistas, quase sem exceção,
viam os partidos e movimentos da classe operária como seu campo de ação política. No
entanto, não se pode compreender nem o marxismo nem os movimentos operários a não ser
como agentes históricos independentes, em relações complexas e cambiantes entre si. Na
verdade, tampouco se pode compreender o impacto deles sobre a história do século xx.
Embora qualquer pessoa que tenha lido o Manifesto comunista saiba que os movimentos
operários são muito mais antigos, há certa justificativa em começar este estudo dos
movimentos operários e de suas ideologias pelo fim do século xix. A crônica do movimento
operário britânico começa para valer na década de 1890, sobretudo com os notáveis estudos de
Sidney e Beatrice Webb sobre o sindicalismo. A primeira pesquisa global comparativa surgiu
em 1900: Die Gewerkschaftsbewegung. Darstellung der gewerkschaftlichen Organisation der
Arbeiter und Arbeitgeber aller Länder [Sindicalismo. Descrição da organização sindical de
trabalhadores e empregadores em todo o mundo], de W. Kulemann. As primeiras histórias
escritas de dentro dos novos partidos socialistas começaram a aparecer mais ou menos na
mesma época — por exemplo, em 1898, a primeira versão da história de Mehring do Partido
Social-Democrata da Alemanha.

 Além disso, foi na década de 1890 que os governos europeus reconheceram a existência
política de movimentos operários firmemente organizados. O governo britânico publicou seu
primeiro Abstract of Labour Statistics em 1893-4; o governo belga começou a publicar uma
Revue du Travail em 1896. Pela primeira vez, um primeiro-ministro britânico — lorde
Rosebery, em 1894 — sentiu-se compelido a mediar um litígio entre empregadores e
empregados. Cinco anos depois, o premier francês, Waldeck-Rousseau, seguiu seu exemplo,
tendo sido convidado a fazê-lo pelos operários em greve da fábrica Schneider-Creusot. E, no
mesmo ano, o governo francês deu um passo que deixou os partidos operários, ou ao menos os
socialistas, em estado de choque. Nomeou um socialista, Alexandre Millerand, de quarenta
anos, para ministro do Comércio. Até então, e na verdade ainda durante muitos anos, os
socialistas davam como certo que nem formariam o governo nem fariam parte de nenhum
deles até que a revolução ou uma greve geral houvesse posto o capitalismo de joelhos, ou pelo
menos até que um partido social-democrata intransigente tivesse ganhado sozinho uma
eleição. Essa foi a crise que, ideologicamente, deu início à história política do trabalhismo no
século XX.

 Por que os governos europeus concluíram que tinham de levar o operariado a sério? Não
terá sido, seguramente, por sua força econômica, ainda que muitos empregadores alegassem
que os sindicatos estavam prestes a asfixiar a indústria. A organização sindical ainda era
modesta — digamos que reunisse de 15% a 20% dos trabalhadores na Grã-Bretanha e na
França, e um pouco menos na Alemanha. Tampouco tinha forte presença política, exceto na
Alemanha, onde o Partido Social-Democrata constituía, de longe, a maior força eleitoral, com
seus 30% dos eleitores (do sexo masculino). Entretanto, se a democracia eleitoral fosse
reimplantada, o que parecia provável, podia-se esperar que os partidos operários se tornassem
importantes forças eleitorais, o que realmente aconteceu na Escandinávia e outras regiões nos
anos que antecederam a eclosão da guerra em 1914. Todavia, o que realmente deixava os
governos nervosos não eram cálculos eleitorais, e sim a evidente consciência de classe dos
operários, que encontrou expressão nos partidos de classe, preponderantemente “vermelhos”.
Como disse Winston Churchill, presidente da Câmara de Comércio no novo governo liberal
reformista de 1906, se o velho sistema bipartidário de conservadores e liberais se rompesse, a
política britânica se tornaria uma aberta política de classes, ou seja, uma política dominada
pelo conflito dos interesses de classe. Na Grã-Bretanha, onde, em sua maioria, os habitantes
eram ou se viam como “trabalhadores”, isso parecia uma questão de especial urgência, mas
evitar a política de luta de classes era um problema geral.

 Pela primeira, mas não pela última vez, a crise Millerand forçou os novos partidos operários
a refletir sobre sua relação com o sistema em que atuavam. O momento era patentemente
oportuno para se fazer uma pergunta central, pois, quase na mesma época (no outono de 1899),
Eduard Bernstein, um dos primeiros pilares do marxismo alemão, publicou seu manifesto de
reformismo, Die Voraussetzungen des Sozialismus und die Aufgaben der Sozialdemokratie [As
premissas do socialismo e as tarefas da social-democracia], que levaria a um acrimonioso
debate no movimento internacional. Nem é irrelevante que esse tenha sido o momento em que,
também pela primeira vez, publicaram-se livros com títulos como A crise do marxismo (de
Masaryk, mais tarde presidente da Tchecoslováquia).

 A pergunta central que estava por trás da crise Millerand e do debate sobre o revisionismo
de Bernstein era: reforma ou revolução? Uma vez que, no fim da década de 1890, não se
esperava o colapso imediato do capitalismo, ao menos nas economias desenvolvidas, qual
seria a função histórica dos movimentos operários? Em outras palavras, existiria uma via não
revolucionária para o socialismo? Os casos de Millerand e Bernstein foram em especial
escandalosos, porque não havia como fugir à forma peremptória com que eles faziam essa
pergunta. Bernstein teve de ser rejeitado, porque afrontou todas as seções da Internacional ao
propor claramente uma revisão do marxismo e, por isso, foi denunciado unanimemente. O
movimento tratou o caso Millerand com muito mais circunspecção, pois dizia respeito a uma
única pessoa, e a teoria socialista como tal não estava em questão. Propôs-se uma solução
conciliatória, que na prática possibilitou a participação de pessoas, mas não de partidos, em
“governos burgueses”. Quanto a Bernstein, na prática a social-democracia aceitou a tese de
que a melhoria nas condições de trabalho sob o capitalismo era a principal tarefa do
movimento, ao mesmo tempo que repudiava categoricamente sua justificativa teórica do
reformismo. De fato, a partir de 1900, os movimentos operários marxistas nos principais
países do capitalismo viveram numa simbiose tácita com o capitalismo, e não num estado de
guerra.

 Embora trabalhismo e socialismo parecessem inseparáveis, os dois movimentos não eram
idênticos. Millerand e Bernstein protagonizaram uma crise do socialismo, mas não dos
movimentos operários. Uma conferência internacional de historiadores do trabalhismo debateu equivocadamente o tema “O movimento trabalhista como um projeto de modernidade
que fracassou”. Movimentos operários e consciência de classe não são “projetos”, mas, numa
certa fase da produção social, características de classe logicamente necessárias e,
politicamente, quase inevitáveis de homens e mulheres que trabalham por salários. O termo
“projeto” aplica-se antes ao socialismo, ou seja, à intenção de substituir o capitalismo por um
novo sistema econômico e uma nova sociedade. Movimentos trabalhistas surgem em todas as
sociedades que contem com uma classe operária, exceto quando impedidos pela coerção e o
terror. Os movimentos trabalhistas desempenharam um papel importante na história dos
Estados Unidos. Ainda o desempenham dentro do Partido Democrata. Ao mesmo tempo já se
perguntava “Por que não existe socialismo nos Estados Unidos?” — como fez o então
marxista Werner Sombart, em 1906 —, tomando como incontestável a ausência ou
insignificância do socialismo naquele país, quer como ideologia, quer como movimento
político. Na Grã-Bretanha, o movimento sindical Lib-Lab buscava apoio político junto ao
Partido Liberal, com o qual não cortou inteiramente sua ligação até depois da Primeira Guerra
Mundial. Na Argentina, socialistas e comunistas não conseguiam imaginar, na década de 1940,
como seria possível o surgimento de um movimento trabalhista politicamente independente e
radical num país cuja ideologia (o peronismo) consistia basicamente em lealdade a um general
demagogo.

 Além disso, tem havido movimentos operários de boa-fé e ativamente antissocialistas,
como o Solidariedade polonês, e movimentos operários ligados a nacionalismos ou religiões
específicos, com ou sem laços com outras ideologias. Assim, a tentativa do governo britânico,
na década de 1970, de incluir os católicos no governo da Irlanda do Norte foi sabotada por
uma greve geral da classe operária protestante. Por outro lado, a história registra movimentos
socialistas e comunistas que não tinham nem buscavam uma base de classe, movimentos
cristãos tradicionais e heréticos, e os vários “socialistas utópicos” criadores de comunidades
no século xix, paradoxalmente mais populares nos Estados Unidos do que em qualquer outro
lugar.

 É inegável, sem dúvida, que da época do Manifesto comunista até a década de 1970, foram
raros os movimentos operários sem relação com o socialismo. Com efeito, na prática é quase
impossível encontrar qualquer movimento operário, de qualquer natureza, em que socialistas
ou pessoas formadas nos movimentos socialistas não tenham desempenhado um papel
importante. É claro que essa simbiose entre os movimentos operários e o socialismo não foi
fortuita. Ambos os lados tiravam vantagem dela, exceto nos sistemas de “socialismo real”, que
aboliu os movimentos operários em nome de partidos que alegavam representar a classe
operária e em nome do socialismo.

 Os movimentos operários e o socialismo não eram, porém, necessariamente congruentes.
De fato, teóricos marxistas, de Kautsky a Lênin, sustentaram que o socialismo não era gerado
espontaneamente pelos movimentos operários, mas tinha de ser trazido de fora e introduzido
neles. Isso talvez fosse um exagero. Pode-se afirmar que a época da Revolução Americana, da
Revolução Francesa e da Revolução Industrial fez com que a possibilidade de pôr fim à ordem
vigente e substituí-la por uma sociedade inteiramente diferente e melhor passasse a fazer parte
do panorama intelectual geral, ao menos no Ocidente. Por conseguinte, a luta dos
trabalhadores por melhores condições, uma luta essencialmente coletiva, trazia em si,
implicitamente, o potencial dessa sociedade melhor, isto é, com mais justiça social; uma
sociedade baseada na comunidade e na cooperação, e não na competição. Os movimentos dos
pobres tendiam a apoiar e fomentar essa perspectiva. O que tinha de ser trazido de fora e
introduzido neles eram outras coisas: o nome e o conteúdo específicos da nova sociedade, uma
estratégia que facilitasse a transição do capitalismo para o socialismo e, acima de tudo, o
conceito de um partido de classe, politicamente independente e ativo em escala nacional.
Organizações como sindicatos, centros de proteção mútua e cooperativas poderiam surgir
espontaneamente da experiência de vida dos trabalhadores, mas não partidos políticos.

 A contribuição fundamental de Marx e Engels, a partir do Manifesto comunista, foi a tese
segundo a qual a organização de classe dos trabalhadores deveria necessariamente assumir a
forma de um partido político ativo em todo o território do país, ou até além dele. (Na verdade,
isso só seria viável em Estados constitucionais, liberais ou democrático-burgueses.) Essa foi
uma proposição de imenso significado histórico, não só para o movimento operário, que não
poderia avançar muito em suas metas sem mobilizar o apoio do Estado contra os
empregadores, como também para a estrutura da política moderna em geral. Também se
mostrou realista, pois vários desses partidos surgiram depois da morte de Marx, destinados a
se tornar partidos governistas e manter-se como tais, ou como importantes partidos de
oposição na maior parte da Europa não comunista. Alguns deles ainda mantêm sua filiação de
classe original: o Labour Party na Grã-Bretanha, o Partido Socialista Obrero na Espanha, o
Sveriges Socialdemokratiska Arbetareparti na Suécia, o Norske Arbeiderparti na Noruega.
Esse é um caso de continuidade quase sem paralelo na Europa, que invalida a ideia de que os
movimentos operários têm de se tornar ou permanecer revolucionários porque não poderiam
chegar a lugar nenhum sob um regime capitalista. Já quanto à afirmativa de que, por
necessidade histórica, o proletariado era ou viria a ser a “classe verdadeiramente
revolucionária”, hoje está evidente que essa presunção era infundada. Além disso, a história
nos mostrou que as revoluções são conjuntos de eventos demasiado complexos para serem
vistas apenas como transcrições da estrutura de classes. Os teóricos e historiadores do
trabalhismo que, como os marxistas, tentaram explicar por que razão os partidos da classe
operária se recusavam obstinadamente a cumprir o papel revolucionário que lhes foi imputado
poderiam ter se poupado tanto tempo e esforço.

 Em suma, nos países (constitucionais) do capitalismo avançado, nos quais não se esperavam
revoluções por outras razões, havia revolucionários dentro ou fora dos movimentos operários,
mas a maioria dos trabalhadores organizados, até os com mais consciência de classe, em geral
não eram revolucionários, mesmo quando seus partidos estavam comprometidos com o
socialismo. A situação, claro está, era diferente em países como os dos impérios russo ou
otomano, nos quais só se poderia esperar qualquer mudança para melhor através de revolução.
Assim, nada nos Estados no centro do capitalismo avançado parecia obstar uma simbiose
entre o trabalhismo e um florescente sistema econômico no começo do século xx. Não estava à
vista o colapso do capitalismo ou das constituições liberais, cada vez mais democráticas,
típicas dessa região. O modelo capitalista de desenvolvimento não parecia mais periclitante do
que a estrutura imperialista do globo, pois no mundo “atrasado” era evidente a superioridade
econômica, cultural e, em especial, militar do mundo “avançado”. Com efeito, nos países
“atrasados” em que a revolução era uma perspectiva real, e não um mero artifício retórico,
estava claro para os marxistas que o desenvolvimento capitalista burguês era o único caminho
do progresso. Por isso, na Rússia, os chamados “marxistas legais” transformaram o marxismo
numa ideologia de industrialização capitalista, mas até 1917 os próprios bolcheviques estavam
convencidos de que o objetivo imediato da revolução iminente era uma sociedade liberal
burguesa, uma vez que somente ela poderia criar as condições históricas que permitissem um
maior avanço no sentido da revolução proletária, isto é, para o socialismo.

 A Primeira Guerra Mundial pareceu resolver todas essas expectativas. A “Era da
Catástrofe”, de 1914 ao fim da década de 1940, transcorreu à sombra da guerra, do colapso
social e político e da revolução — principalmente da Revolução Russa de Outubro. Tudo deu
errado para o Velho Mundo. Guerras acabaram em revoluções e agitação colonial. Estados
constitucionais liberais burgueses e democráticos, até então sob o império da lei, deram lugar
a regimes políticos quase inimagináveis antes de 1914, como a Alemanha de Hitler e a União
Soviética de Stálin. Até mesmo a economia de mercado do liberalismo econômico ameaçava
desabar na crise do começo da década de 1930. Conseguiria o capitalismo sobreviver, a não
ser numa forma que abolisse tanto a democracia quanto o movimento operário? Só a extensão
dos problemas do capitalismo explica que, mesmo no Ocidente, a débil economia industrial da
União Soviética fosse vista, seriamente, como um sistema mais dinâmico do que o ocidental e
uma possível alternativa global ao capitalismo. Ainda no começo da década de 1960 havia
políticos burgueses, como o primeiro-ministro britânico Harold Macmillan, que acreditavam,
como Kruchev, que as economias socialistas poderiam produzir mais do que as ocidentais.
Mesmo aqueles que se mostravam mais céticos com relação às realizações e ao potencial
econômicos da União Soviética não podiam negar seu peso político global e seu poder militar.
A Primeira Guerra Mundial derrubou o tsarismo, e a Segunda transformou a Rússia numa
superpotência. Para grandes áreas do mundo colonial, agora emancipado, e outras partes do
“Terceiro Mundo”, a União Soviética e, por meio dela, o socialismo tornaram-se um modelo
econômico de como superar o subdesenvolvimento.

 Diante disso, mudou a meta política dos movimentos socialistas e operários na Era da
Catástrofe: se antes ela consistia em conviver com o capitalismo, passou a ser acabar com ele.
A revolução e a posterior construção da nova sociedade pareciam uma perspectiva melhor do
que a vagarosa marcha avante, por meio de reformas, rumo a um socialismo distante que
sequer era buscado com afinco. Sidney e Beatrice Webb, inspiradores dos fabianos britânicos
e apóstolos do reformismo gradual — a inspiração do revisionismo de Bernstein no fim do
século XIX —, abjuraram o reformismo na década de 1930 e depuseram sua fé no socialismo
soviético.

 Entretanto, embora as coisas parecessem muito diferentes depois de 1917, o capitalismo,
em seus principais redutos, não se viu ameaçado nem com o colapso final nem com uma
revolução social — a qual se restringia a países na periferia do sistema. A revolução do
soviete de Petrogrado não vingou em Berlim, e hoje vemos que era irrealista esperar o
contrário. Por isso, os alicerces da simbiose reformista permaneceram firmes. De fato, ela se
tornou mais atraente para os políticos e empreendedores como uma salvaguarda contra a
revolução social e o espectro de um movimento comunista mundial, tanto mais porque havia
agora uma distinção nítida entre os partidos social-democratas reformistas e os partidos
comunistas revolucionários, mutuamente hostis. Tudo o que faltou entre as duas guerras foi a
prosperidade que proporcionava os meios para as necessárias concessões aos movimentos
operários. Em todo caso, mesmo nos piores dias de crise, a maioria dos membros desses
movimentos nesses países recusou-se a trocar os partidos reformistas pelos revolucionários.
Entre as guerras, os partidos comunistas só tiveram apoio da massa em três dos países em que
eram legais, e mesmo neles continuaram mais fracos do que a social-democracia: Alemanha,
França e Tchecoslováquia. Se o partido comunista fosse legal na Finlândia, poderiam ter sido
quatro. Em outros países, os partidos comunistas obtiveram no máximo 6% dos votos
(Bélgica, Noruega e Suécia) e durante pouco tempo.

 Depois da Segunda Guerra Mundial, a simbiose foi promovida de maneira mais sistemática,
como parte de uma política de reforma estrutural do capitalismo ocidental, por meio da
política deliberada de pleno emprego e do que veio a ser o Estado de bem-estar social, com
base no enorme crescimento das economias capitalistas no período 1947-73. Teria essa
tentativa consciente de integrar o trabalhismo surgido sem as experiências traumáticas da
grande depressão no entreguerras e da ascensão da Alemanha de Hitler? Quanto dela se deveu
ao medo do comunismo, cujas forças haviam aumentado substancialmente nos anos da
resistência antifascista? O que agora estava por trás dessas forças era uma superpotência.
Teria o reformista Bernstein (“o movimento é tudo, o objetivo final, nada”) vencido sem
Stálin e Hitler? É improvável.

 Assim, nos países do centro do capitalismo, o modelo revisionista do movimento operário
prevaleceu na nova Era Áurea do capitalismo ocidental (1947-73). Sua vitória teve como
símbolo o abandono formal do marxismo pelo Partido Social-Democrata da Alemanha, no
programa de Godesberg (1959). Nada parecia ter sido perdido com isso, a não ser lembranças
sentimentais, pois, quando a Era Áurea se aproximava do fim, os objetivos do reformismo
tinham sido alcançados na prática, e os trabalhadores estavam em situação incomparavelmente
melhor do que os mais otimistas representantes da reforma teriam sonhado antes de 1914. Não
obstante, os partidos revisionistas permaneciam radicados na classe operária, embora tivessem
renunciado ao “objetivo final” do socialismo e fossem criticados por esquerdistas tradicionais.
A classe dos operários manuais, sua principal base eleitoral, continuou a votar neles, e só
começou a abandonar seus partidos de classe mais tarde.

 Até o fim da década de 1970, a expansão espetacular da produção ainda exigia uma vasta
massa de operários industriais, que, portanto, continuaram a ser ou se tornaram uma parte
importante dos eleitorados. É provável que na década de 1970 houvesse mais proletários na
Europa capitalista, em números absolutos e relativos, do que no fim do século xix, quando a
nova consciência de classe do operariado de repente criou partidos proletários de massa.
Contudo, hoje também está claro que esses partidos da classe operária, mesmo considerando
todos eles, os reformistas e os revolucionários, nunca alcançaram mais que metade dos votos
em eleições, e só depois da Segunda Guerra Mundial.

 Excetuado o período entre as guerras, o desenvolvimento de movimentos operários nos
países do centro do capitalismo, até a crise após a década de 1970, pode ser sintetizado como
segue.

 Antes até da Primeira Guerra Mundial, as políticas das classes dominantes, que se
defrontavam com uma crescente democratização política (acelerada pela pressão dos novos
partidos trabalhistas), haviam começado a se encaminhar para a reforma social. Nos países
não fascistas, o processo acelerou-se no entreguerras, mas só se tornou sistemático depois da
Segunda Guerra Mundial, com os lemas “pleno emprego” e “Estado de bem-estar social”.
Mesmo antes de 1914, a democratização e o crescimento econômico estimularam a franca
admissão da importância dos movimentos operários moderados, embora a Alemanha imperial
representasse uma relevante exceção. Por conseguinte, os movimentos e partidos operários
identificaram-se na prática com seus Estados-nações. Isso ficou mais do que patente ao
rebentar a guerra em 1914.

 O fim do conflito assistiu a um aumento espetacular nos números e na força da classe
operária organizada. Embora esse incremento não pudesse ser mantido no entreguerras, foi
retomado durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Salvo em países industriais
tradicionalmente fracos ou instáveis, como, por exemplo, a França e a Espanha, o trabalhismo
organizado alcançou força máxima na década de 1970. Com isso, os partidos trabalhistas
tornaram-se forças mantenedoras do Estado e do sistema. Durante a Primeira Guerra Mundial
e depois dela, representantes desses partidos participaram de governos e logo eles próprios
formavam governos, ainda que só depois de 1945 tenham podido fazê-lo sem o apoio de
partidos não socialistas. Essa mudança também chegou ao auge na década de 1970, quando,
em uma época ou outra, governos social-democratas dirigiram a Alemanha Federal, a Áustria,
a Bélgica, a Dinamarca, a Espanha pós-Franco, a Finlândia, a Noruega, Portugal, o Reino
Unido e a Suécia. A esses países se juntaram a França e a Grécia em 1981. Sobreveio então a
crise.

 Que papel desempenharam os revolucionários nos movimentos trabalhistas dos países do
centro do capitalismo ocidental? Quaisquer que fossem suas teorias, na prática não podiam ser
revolucionários, uma vez que não havia expectativa de colapso do capitalismo ou de transição
para o socialismo. Por outro lado, eram necessários, pois mesmo os movimentos operários não
socialistas dependiam da combinação de luta de classes no local de trabalho e de pressão
política sobre os governos nacionais, sem falar em ideias que expressassem suas aspirações.
Onde os sindicatos eram fortes, os revolucionários puderam desempenhar um papel de relevo,
de modo que pequenas minorias de comunistas podiam ter uma eficácia desproporcional a sua
força em países como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, onde seus partidos eram
politicamente desprezíveis. O apogeu da influência do Partido Comunista no sindicalismo
britânico ocorreu na década de 1970, quando o partido estava com um pé na cova.
Nas ditaduras que sobraram da Era da Catástrofe — por exemplo, Espanha e Portugal —, os
comunistas, ilegais, ainda eram a principal força de resistência e desempenharam um papel
significativo na transição para a democracia na década de 1970, mas logo se viram
marginalizados. Na Itália, o maior partido comunista de massa da Europa, sistematicamente
excluído dos gabinetes por pressão de Washington, afastou-se da União Soviética e
aproximou-se de um modelo social-democrata. Na França, o Partido Comunista adotou uma
política reformista durante alguns anos na década de 1970, como parte de algo como uma nova
Frente Popular iniciada por Mitterrand, o reconstrutor do Partido Socialista. O Partido
Comunista participou do governo, com um presidente socialista, em 1981-4 — foi a primeira
vez, desde 1947, que um partido comunista teve permissão de fazê-lo —, mas logo reverteu à
linha dura costumeira. Derrotado nas eleições e suplantado por hábeis manobras do Partido
Socialista a partir de 1974, seu apoio de massa ruiu nos anos 1980.

 A situação era muito diferente nos países fora do centro do capitalismo, inclusive nos que
agora tinham regimes oriundos das vitoriosas revoluções leninistas de 1917 e 1945-9. Os
bolcheviques russos haviam chegado ao poder em nome do proletariado, e seus planos
quinquenais criaram uma gigantesca classe operária, mas aboliram o movimento operário
como o conhecemos. Até o fim, a União Soviética não permitiu a existência de nenhuma
organização de trabalhadores que não fosse controlada pelo partido e pelo Estado, e esse
modelo foi seguido pelos novos Estados comunistas depois de 1945 enquanto tiveram poder
para impô-lo. Pode-se escrever a história da classe operária no mundo comunista e até uma
história dos conflitos trabalhistas, mas não a história de movimentos trabalhistas, excetuado o
caso relevante do Solidariedade na Polônia, na década de 1980.

 Em outras partes do mundo, os movimentos operários, socialistas ou de outra linha
(podemos considerar ou não os da Australásia e poucas outras exceções modestas), só
começaram com a Revolução Russa. A Segunda Internacional era quase nula nessas regiões, e
nelas simplesmente não havia base alguma para as políticas social-democratas, quanto mais as
bernsteinianas. Por outro lado, em alguns países, sobretudo nas Américas, encontramos um
fenômeno que, por motivos históricos, praticamente não existia no Velho Mundo — a
disposição de chefes de Estado demagogos de favorecer movimentos operários como parte de
sua luta contra as velhas elites de latifundiários. Esse foi o caso na Argentina e no Brasil. No
México, o mesmo papel foi desempenhado pelo Partido Revolucionário Institucional, o pri,
que surgiu da revolução mexicana. De fato, até os primórdios da verdadeira industrialização,
na década de 1970, era difícil encontrar uma classe operária organizável nessas regiões, salvo
nos setores de mineração, energia, têxteis e transporte e navegação. Desde então, porém,
ocorreram dois fatos comparáveis ao que sucedeu na Europa um século antes: na Coreia, o
crescimento do sindicalismo de massa, e, no Brasil, o surgimento do Partido dos
Trabalhadores (pt), ambos na década de 1980. A influência do leninismo (ortodoxo ou
dissidente) foi importante nesses movimentos, mas só se tornou decisiva em alguns poucos
países. Qualquer que fosse a ideologia ou a não ideologia por trás desses movimentos,
praticamente todos tiveram lugar em países onde golpes militares, revoluções, violência
urbana e armas eram mais corriqueiros do que a política democrática e pacífica. Na China e no
Vietnã, assim como na União Soviética, a industrialização em massa não teve como levar a
organizações trabalhistas independentes.

 Então, depois da década de 1970, tudo mudou: tanto Lênin quanto Bernstein perderam as
esperanças. Todo mundo sabe que o sistema soviético ruiu, enquanto os partidos comunistas
fora do poder se desvaneceram. Menos notório é o fato de que a social-democracia
bernsteiniana também sumiu. O edifício do reformismo assentava-se sobre três alicerces. O
primeiro era a dimensão e o crescimento da classe operária, a consciência que soldava uma
massa díspar de trabalhadores aos mais ou menos pobres, tornando-os uma classe única, e a
disposição dos governos democrático-burgueses, já antes de 1914, a fazer concessões a esses
relevantes blocos eleitorais, desde que não se conduzissem de modo demasiado radical. Mas, a
partir da década de 1970, as classes operárias dos países do centro capitalista (o “Primeiro
Mundo”) encolheram, tanto em termos relativos quanto absolutos, e perderam grande parte de
sua consciência de classe unida e unificante. Isso chegou a tal ponto que alguns grupos dessas
classes operárias, no passado ligados ao movimento, bandearam-se para partidos do
liberalismo econômico, como aconteceu na Grã-Bretanha de Thatcher e nos Estados Unidos de
Reagan. Nos anos 1980 nota-se também a ascensão de partidos da direita nacionalista radical
que atraem eleitores da classe operária, sobretudo na França (sob a liderança de Le Pen) e na
Áustria (liderada por Haider). Ademais, o enorme incremento na riqueza das sociedades de
consumo afluentes, que também beneficiou as classes operárias, solapou o princípio
axiomático de que melhorias reais para o membro da classe operária só poderiam ser
alcançadas por solidariedade e ação coletiva.

 Não podemos ir além de imaginar a importância do declínio das ideologias de esquerda,
inclusive o socialismo, que tinham raízes no Iluminismo do século xviii. Ela terá sido,
provavelmente, insignificante na Europa, mas não em partes da Ásia e da África, sobretudo
nas regiões muçulmanas. A revolução iraniana de 1979 foi a primeira revolução importante,
desde Cromwell, não inspirada por uma ideologia secular, mas apelou para as massas na
linguagem da religião, no caso o idioma do islã xiita. Mais tarde, um politizado islã
fundamentalista (sunita) começou a aparecer em várias regiões entre o Paquistão e o Marrocos
e ganhou força. Ao mesmo tempo, como vimos, ocorreu um forte declínio no marxismo e na
esquerda social-democrata, acompanhado de uma despolitização geral de trabalhadores e
estudantes.

 A Revolução Russa dera ao reformismo seu segundo alicerce: o medo do comunismo e da
União Soviética. O avanço de ambos durante a Segunda Guerra Mundial e depois dela pareceu,
ao menos na Europa, exigir de governos e empregadores uma contrapolítica de pleno emprego
e seguridade social sistemática. Mas a União Soviética não existe mais, e com a queda do
muro de Berlim o capitalismo pôde esquecer seus temores e, por isso, perdeu o interesse por
pessoas que dificilmente comprarão ações. Em todo caso, até os episódios de desemprego em
massa nas décadas de 1980 e 1990 pareceram ter perdido o velho poder de radicalizar suas
vítimas.

 Contudo, a partir de 1945, não foi só a política que se mostrou necessitada de reformas, mas
também a economia e, principalmente, o pleno emprego — como Keynes e os economistas
suecos da social-democracia escandinava haviam predito. Esse seria o terceiro alicerce do
reformismo. Essa foi a política não só dos governos social-democratas, como de todos os
governos (sem excluir o dos Estados Unidos). Isso valeu aos países ocidentais tanto
estabilidade política quanto uma prosperidade econômica sem precedentes. Só ao sobrevir a
nova era, depois de 1973, quando a economia e a política de reformas do pós-guerra já não
rendiam resultados tão positivos, os governos foram seduzidos pelas ideologias individualistas
de liberalismo econômico radical que a essa altura haviam tomado conta da escola de
economia de Chicago. Para seus professores, os movimentos operários, os partidos operários
e, com efeito, os sistemas públicos de bem-estar social não passavam de obstáculos ao
mercado livre que garantia crescimento máximo dos lucros e da economia e, em consequência
— assim argumentavam os ideólogos —, também do bem-estar geral. Idealmente, deveriam
ser abolidos, embora na prática isso se mostrasse impossível. O “pleno emprego” foi agora
substituído por flexibilidade do mercado de trabalho e pela doutrina da “taxa natural de
desemprego”.

 Esse foi também o período em que os Estados-nações recuaram ante o avanço da economia
global transnacional. Apesar de seu internacionalismo teórico, os movimentos operários só
eram eficazes dentro dos limites de seu país, acorrentados a seu Estado-nação, sobretudo nas
economias mistas estatais e nos Estados de bem-estar social da segunda metade do século xx.
Com o recuo do Estado-nação, os movimentos operários e os partidos social-democratas
perderam sua arma mais poderosa. Até hoje eles não foram muito bem-sucedidos em
operações transnacionais.

 Neste momento em que o capitalismo entra em mais um período de crise, constatamos o
fim de uma fase peculiar na história dos movimentos operários. Nas “economias emergentes”,
em rápida industrialização, não há possibilidade alguma de declínio da mão de obra industrial.
Nos países ricos do capitalismo antigo ainda existem movimentos operários, embora busquem
forças nos serviços públicos, que, apesar das campanhas neoliberais, não mostram sinais de
retração. Os movimentos ocidentais sobreviveram porque, como previu Marx, a grande
maioria da população economicamente ativa depende de seus salários e, por isso, reconhece a
diferença entre os interesses dos patrões e dos assalariados. Quando surgem conflitos entre os
dois lados, são resolvidos mediante ação coletiva, em geral por iniciativa dos assalariados. Ou
seja, a luta de classes continua, apoiada ou não por ideologias políticas.

 Além disso, continua a existir o hiato entre ricos e pobres e divisões entre grupos sociais
com interesses divergentes, não importa que chamemos ou não esses grupos de “classes”.
Quaisquer que sejam as hierarquias sociais, muito diferentes das de cem ou duzentos anos
atrás, a política prossegue, ainda que só em parte como política de classe.

 Por fim, os movimentos operários continuam porque o Estado-nação não está a caminho da
extinção. O Estado e as demais autoridades públicas são as únicas instituições capazes de
distribuir o produto social entre seu povo, em termos humanos, e atender a necessidades
humanas que não podem ser satisfeitas pelo mercado. A política, por conseguinte, tem sido e
continua a ser uma dimensão necessária da luta para melhoria social. Com efeito, a grande
crise econômica que começou em 2008, como uma espécie de equivalente da direita à queda
do muro de Berlim, trouxe uma compreensão imediata de que o Estado era essencial para uma
economia em dificuldades, do mesmo modo como fora essencial para o triunfo do
neoliberalismo quando os governos lançaram suas bases por meio de privatizações e
desregulações sistemáticas.

 Contudo, o grande efeito do período 1973-2008 foi o abandono de Bernstein pela socialdemocracia.
Na Grã-Bretanha, os líderes social-democratas julgaram não ter opção senão
confiar nos benefícios que o crescimento econômico do mercado livre global gerava
automaticamente, e em uma rede de segurança social criada de cima para baixo. O “Novo
Trabalhismo” estava identificado com a sociedade orientada para o mercado e assim
continuou até a crise financeira de 2008, quase cortando seu vínculo orgânico com o
movimento trabalhista. O caso é extremo, mas a posição da social-democracia reformista em
outras praças-fortes (inclusive a do único partido comunista de massa restante, o da Itália)
também se deteriorou fortemente, com a possível exceção da Alemanha reunificada e da
Espanha. Os comunistas, divididos entre os “eurocomunistas” moderados e os tradicionalistas
de linha dura, decaíram a ponto de o comunismo desaparecer como força política
representativa no Ocidente.

 Mas essa era também está chegando ao fim, já que em 2008 o mundo entrou de repente na
mais séria crise do capitalismo desde a Era da Catástrofe. Quando começou, a situação do
trabalhismo era estranha. Seus partidos ainda estavam no governo em diversos países
europeus, sozinhos ou como partes de uma “grande coalizão” (Espanha, Portugal, Reino
Unido, Noruega, Alemanha, Áustria e Suíça). O súbito colapso financeiro reabilitou o Estado
como ator econômico, uma vez que tanto empregadores quanto trabalhadores pediram a seus
governos que salvassem o que restava das indústrias nacionais. Além disso, já havia sinais
claros de militância nas empresas e insatisfação pública, ainda que entre os trabalhadores a
velha tradição de “ir para as ruas” (descendre dans la rue, dizem os franceses) já enfraquecera
— embora ainda estivesse viva e fosse politicamente importante em alguns países europeus e
em outros lugares, como na Argentina. Ainda havia fortes movimentos sindicais, em grande
parte dirigidos por homens e mulheres que haviam se formado na tradição socialista, socialdemocrata
ou comunista.

 No papel, numa época dessas, parecia possível uma revitalização dos movimentos operários
ligados à esquerda ideológica. Na prática, entretanto, suas perspectivas a curto prazo eram
menos estimulantes, até para aqueles que não recordavam que o resultado político imediato da
Grande Depressão de 1929-33 fora um generalizado esvaziamento dos movimentos operários e
da esquerda em quase toda a Europa. Os socialistas, por tradição os especialistas do
trabalhismo, não sabem o que fazer, como os demais, para superar a crise atual. Ao contrário
do que ocorreu na década de 1930, não podem apontar exemplos de regimes comunistas ou
social-democratas imunes à crise, nem têm propostas realistas para uma mudança socialista.
Nos velhos países capitalistas do Ocidente, a desindustrialização já encolhera e continuaria a
encolher a principal base, industrial e eleitoral, desses países: a classe operária. Nos países
emergentes, onde a situação era diferente, os movimentos trabalhistas poderiam até crescer,
mas não havia uma base real para uma aliança com as ideologias tradicionais de liberação
social, ou porque essas ideologias estavam ligadas a regimes comunistas, presentes ou
passados, ou porque os movimentos antes ligados aos “vermelhos” tinham se atrofiado com o
tempo. (Deixemos de lado o caso inusitado da América Latina.)

 A rigor, surgiram algumas teses radicais ou esquerdistas durante a fragmentação e o
declínio das velhas ideologias da esquerda, mas com uma base muito mais de classe média.
Suas preocupações — por exemplo, o meio ambiente, a veemente hostilidade contra as guerras
do período — não eram diretamente relevantes para as ações dos movimentos operários.
Podem ter até antagonizado seus integrantes. Onde esses movimentos pretendiam
transformação social, elas representavam antes protestos que aspirações. Era fácil perceber
contra o que se insurgiam — eram “anticapitalistas”, embora sem nenhuma ideia clara sobre o
capitalismo —, mas era quase impossível identificar o que propunham no lugar dele. Isso
talvez explique uma revivescência de algo parecido com o anarquismo de Bakunin, o ramo das
teorias socialistas do século xix com menos ideias sobre o que aconteceria quando a velha
sociedade tivesse sido derrubada, e, portanto, o mais fácil de adaptar a uma situação de intensa
insatisfação social sem perspectiva. Se bem que isso tenha sido eficaz para gerar publicidade,
graças à exibição, pelos meios de comunicação, de distúrbios, confrontos com a polícia e,
talvez, algumas atividades terroristas, não tem hoje praticamente efeito algum sobre o futuro
dos movimentos trabalhistas. Temos o equivalente à “propaganda pelo ato” do século xix, mas
nada que seja equivalente ao anarcossindicalismo.

 Não está claro até que ponto o vácuo deixado pelo desvanecimento das velhas ideologias da
esquerda socialista pode ser preenchido pelas imaginadas comunidades de identidade étnicas,
religiosas, de gênero, de estilos de vida e outras. O nacionalismo politicamente étnico tem as
melhores chances, uma vez que apresenta forte atrativo para os anseios políticos xenófobos e
protecionistas da classe operária, anseios que ressoam mais do que nunca numa época em que
a globalização e o desemprego em massa se aliam: “nossa” indústria para a nossa nação, não
para estrangeiros; prioridade de empregos para os nacionais; abaixo a exploração pelos
estrangeiros ricos e pelos imigrantes estrangeiros pobres etc. Em teoria, religiões universais
como o catolicismo e o islã impõem seus próprios limites à xenofobia, mas tanto a etnia
quanto a religião funcionam como barreiras potenciais à globalização capitalista desenfreada
que destrói velhos estilos de vida e relações humanas sem oferecer nenhuma alternativa. O
risco de uma guinada brusca da política para uma direita radical demagógica, de fundo
nacionalista ou confessional, é provavelmente máximo nos países europeus ex-comunistas, no
Sul e no Sudoeste da Ásia, e mínimo na América Latina. Nos Estados Unidos, a crise
econômica pode acarretar um relativo desvio para a esquerda semelhante ao que ocorreu no
governo de F. D. Roosevelt, durante a Grande Depressão, mas isso não é provável em outras
partes do mundo.

 Entretanto, uma coisa mudou para melhor. Redescobrimos que o capitalismo não é a
solução, mas o problema. Durante meio século, seu êxito foi de tal forma aceito sem discussão
que o próprio nome perdeu as associações tradicionalmente negativas e ganhou outras,
positivas. Empresários e políticos podiam regozijar-se não só com a “livre-iniciativa”, mas
por serem francamente capitalistas.1 A partir da década de 1970, esquecido dos temores que o
levaram a reformar-se depois da Segunda Guerra Mundial e dos benefícios econômicos dessa
reforma na subsequente “Era Áurea” das economias ocidentais, o sistema reverteu à versão
extrema, poderíamos até dizer patológica, da política de laissez-faire (“o governo não é a
solução, e sim o problema”) que finalmente implodiu em 2007-8. Durante quase vinte anos
depois do fim do sistema soviético, os ideólogos do laissez-faire acreditaram que haviam
alcançado “o fim da história”, “uma imperturbável vitória do liberalismo econômico e
político” (Fukuyama),2 o crescimento numa definitiva, permanente e autoestabilizadora ordem
mundial do capitalismo, uma ordem social e política, incontestada e incontestável, tanto na
teoria quanto na prática.

 Tudo isso deixou de ser defensável. No século xx, as tentativas de tratar a história do mundo
como um jogo econômico de soma zero entre o privado e o público, o puro individualismo e o
puro coletivismo, não sobreviveram à patente falência da economia soviética e da economia
do “fundamentalismo de mercado” do período que vai de 1980 a 2008. Tampouco uma volta
ao primeiro é mais possível do que uma volta ao segundo. Desde a década de 1980 ficou
evidente que os socialistas — marxistas ou não — tinham ficado sem sua tradicional
alternativa ao capitalismo, pelo menos até que repensassem o que queriam dizer com
“socialismo” e renunciassem à presunção de que a classe operária (manual) seria
necessariamente o agente principal da transformação social. Contudo os fiéis do credo da
reductio ad absurdum do período 1973-2008 também se viram desamparados. Um sistema
alternativo sistemático pode não estar à vista, mas não se pode mais descartar a possibilidade
de uma desintegração, até mesmo de um colapso, do sistema existente. Nenhum dos dois lados
sabe o que aconteceria ou poderia acontecer nesse caso.

 Paradoxalmente, ambos os lados têm interesse em voltar a um importante pensador cuja
essência é a crítica do capitalismo e dos economistas que não perceberam aonde levaria a
globalização capitalista, como ele previra em 1848. Mais uma vez é óbvio que as operações do
sistema econômico devem ser analisadas tanto historicamente, como uma fase da história, e
não como seu fim, quanto de forma realista, isto é, em termos não de um equilíbrio de
mercado ideal, e sim de um mecanismo integrado que gera crises periódicas capazes de
transformar o sistema. A crise atual pode ser uma dessas. Mais uma vez, fica patente que,
mesmo no intervalo entre grandes crises, “o mercado” não tem nenhuma resposta para o
principal problema com que se defronta o século XXI: o fato de que o crescimento econômico
ilimitado e cada vez mais tecnológico, em busca de lucros insustentáveis, produz riqueza
global, mas às custas de um fator de produção cada vez mais dispensável, o trabalho humano,
e, talvez convenha acrescentar, dos recursos naturais do planeta. O liberalismo econômico e o
liberalismo político, sozinhos ou combinados, não conseguem oferecer uma solução para os
problemas do século XXI. Mais uma vez chegou a hora de levar Marx a sério.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Ruanda - 20 anos do genocídio de 94


Em 1994, Ruanda seria o local do pior massacre da história do século XX pós-2ª guerra mundial. Traídos pelo Estado, pela Igreja e possivelmente pelas nações-potência daquela época, os membros da etnia tútsi (e os hutus dissidentes que não concordaram com o que estava acontecendo) passaram por uma experiência trágica e dolorosa, e suas feridas ainda não cicatrizaram. Trata-se de uma lição para a humanidade - uma lembrança de que não devemos sucumbir aos preconceitos que tentam se impôr, nem aceitar submissos os chauvinismos nacionalistas ou religiosos, lembrando que não há povos arianos ou escolhidos de deus, mas que somos todos membros de um único povo - a raça humana, e habitantes de uma única grande nação - a Terra. O caso Ruanda é uma mancha de sangue nas mãos daqueles que, por amor ao poder ou à sua ideologia, desprezaram seres humanos igualmente capazes de sentir dor e raiva e que acabariam por se vingar com a mesma moeda de brutalidade com que foram atingidos, lembrando-nos que a violência só gera a violência, e nada mais.
Abaixo, três textos: o primeiro da Redação do site Opera Mundi, sobre a denúncia de envolvimento das nações ticas com o preparamento político do genocídio; o segundo, do jornalista André Langer para o jornal belga DH, sobre a denúncia de omissão da Igreja Católico perante o massacre que ocorria; e o terceiro, um trecho do livro God is not Great, do jornalista e intelectual britânico Christopher Hitchens, sobre as atrocidades cometidas por membros do clero católico no país em massacre.

RUANDA LEMBRA 20 ANOS DO GENOCÍDIO LAMENTANDO ENVOLVIMENTO DE POTÊNCIAS OCIDENTAIS

Presidente ruandês disse que "ainda há assuntos que são tabu, como a participação-chave de potências ocidentais".

O presidente de Ruanda, Paul Kagame, criticou novamente nesta segunda-feira (07/04), de maneira velada, o envolvimento da França e de outros países no genocídio que há 20 anos arrasou com o país africano. O massacre resultou na morte estimada de 800 mil a 1 milhão de integrantes da etnia tútsi e também dos hutus considerados moderados.

Em resposta, Paris anulou a participação de um ministro nos atos oficiais e o embaixador da França foi excluído nesta segunda das cerimônias.


Kagame advertiu que "nenhum país é tão poderoso que possa mudar os fatos, mesmo quando pensa que é", em referência a Paris. "A passagem do tempo não deve obscurecer os fatos, diminuir a responsabilidade ou transformar as vítimas em vilões", disse em um discurso durante um ato oficial do aniversário da tragédia.
O presidente de Ruanda acusa a França e a Bélgica de terem desempenhado um papel direto na “preparação política do genocídio”. A França, aliada do governo hutu na época, sempre negou qualquer implicação no massacre, considerado um dos mais graves da história do século 20, apesar de apoiado militarmente os agressores.

Em entrevista a uma revista francesa, Kagame afirmou que "ainda há assuntos que são tabu, como a participação-chave de potências ocidentais nos acontecimentos da época”.

Hoje, em Kigali, o presidente disse que "o legado mais devastador do controle europeu em Ruanda foi a transformação das distinções sociais. Fomos classificados, de acordo com um marco inventado em outro lugar", lamentou. A diferenciação social entre os grupos hutu e tútsi durante a colonização belga está na origem do enfrentamento étnico que desembocou no massacre, principalmente de tútsis, durante 100 dias.

A Bélgica herdou o território de Ruanda como espólio da Primeira Guerra Mundial e fez estudos antropomórficos da população, medindo o tamanho do nariz, da testa e altura para classificar os habitantes da região de acordo com o tipo físico. As diferenças foram classificadas e depois exploradas como forma de controle. 

A cerimônia em Kigali foi realizada na presença de familiares das vítimas de todo o país e representantes governamentais de vários países. Entre eles estava o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon; o ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair; e o ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki.



RUANDA DENUNCIA IGREJA CATÓLICA POR ENCOBRIR GENOCÍDIO DE 1994

''Milhares de crianças, mulheres e homens foram trucidados, e sacerdotes se mantiveram em silêncio'', disse o embaixador.

O representante da Ruanda na Unesco denunciou na segunda-feira, dia 07, a atitude da Igreja católica durante o genocídio de 1994, afirmando que “alguns de seus membros encobriram essas ações criminosas".

O embaixador francês junto à Unesco, Philippe Lalliot, não se manifestou depois da cerimônia na tribuna da agência da ONU, contrariamente ao que anunciou no programa da “Jornada internacional de reflexão sobre o genocídio de 1994 na Ruanda”.

“A Igreja católica, poder moral, instituição importante na vida internacional, refugiou-se no silêncio”, declarou o embaixador da Ruanda na França e representante junto à Unesco, Jacques Kabalé.

“Seu abandono foi vivamente sentido, mais ainda porque alguns de seus membros encobriram essas ações criminosas”, acrescentou. “Muitas igrejas na Ruanda tornaram-se lugares de memória de massacres de dezenas de milhares de tutsis que foram até elas para encontrar refúgio”.

O papa Francisco exortou, na quinta-feira, os bispos ruandeses a tomar “a iniciativa” de trabalhar pela reconciliação nacional, “fortalecendo as relações de confiança com o Estado” e apoiando as famílias feridas. Ele pediu à Igreja católica ruandesa para “falar uma só voz” “superando os preconceitos e as divisões étnicas”.

A diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, convidou para “tirar lições desse drama”. “Construir a paz é, é verdade, virar a página, disse. Mas, antes de virar a página é preciso lê-la e não omitir nada, nem esquecer nada, nem esconder nenhuma ação, da passividade da comunidade internacional”.

Sábado, Paris cancelou a participação da sua ministra da Justiça, Christiane Taubira, das cerimônias em Kigali, após as acusações feitas pelo presidente ruandês Paul Kagame contra a França. No domingo à noite, o embaixador da França foi visto retirando a acreditação do governo ruandês permitindo-lhe participar das cerimônias oficiais desta segunda-feira, comemorativas do genocídio de 1994.

No dia 7 de abril de 1994, começaram os 100 dias mais ferozes da história da Ruanda e, talvez, da humanidade inteira depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Por mais de três meses, perpetrou-se um massacre sistemático que o mundo não soube prever nem enfrentar, muito menos parar.

O detonador da explosão de horror que resultou em décadas de conflito entre as etnias hutu e tutsi foi um atentado: no dia anterior, haviam sido mortos o presidente ruandês, Juvénal Habyarimana, e burundês, Cyprien Ntaryamira, quando foi derrubado o seu avião que estava aterrissando no aeroporto da capital ruandesa, Kigali. Com eles morreram dois ministros do Burundi, cinco funcionários da Ruanda e os três membros da tripulação francesa do avião.

Os dois presidentes voltavam de uma cúpula de chefes de Estado da África Central, realizada em Dar-es-Salaam, naTanzânia, e dedicada justamente à guerra que, há anos, via a contraposição entre os hutu e os tutsi que vivem nos dois países.

Não foram suficientes para parar o conflito nem mesmo os acordos assinados no dia 4 de agosto do ano anterior, em Arusha, também na Tanzânia, que previam um governo de transição na Ruanda, também com expoentes da Frente Patriótica Ruandesa (FPR), o grupo armado dos tutsi, liderado pelo atual presidente Paul Kagame.

Nenhuma investigação internacional jamais determinou quais foram os responsáveis pelo atentado. Mas a violência transbordou imediatamente, antes na capital Kigali e depois no resto da Ruanda, contra os tutsi e os hutu moderados.

Os soldados hutu da guarda presidencial se lançaram contra o bairro de Kigali onde estavam alojadas as milícias da FPR, que consideravam como os autores do atentado. Entre as primeiras vítimas, estavam dez soldados das forças de paz belgas da UNAMIR, a missão da ONU que começou em outubro do ano anterior. Os militares belgas foram capturados quando tentavam proteger a fuga da primeira-ministra, Agathe Uwilingiyimana, também ela morta, assim como outros expoentes do governo.

Por 100 dias, centenas de milhares de mulheres e de homens, de idosos e de crianças, foram trucidados em todas as localidades, durante uma caçada humana aterrorizante. Um ano depois, também foi atroz a vingança dos tutsi que chegaram ao poder. No campo de Kibeho, milhares de hutu foram mortos, incluindo mulheres e crianças, enquanto, em Kigali, o novo governo reivindicava "o direito de separar os refugiados dos autores do genocídio".

As forças da ONU, depois de terem assistido, impotentes, ao primeiro e aterrorizante ataque, conseguiram resgatar milhares de crianças, muitas vezes encontradas ao lado dos cadáveres das mães. Aquelas horas marcaram para sempre a memória de quem as viveu. Aquelas crianças não falavam, não choravam, algumas estavam enlouquecidas. Também vacilou a razão daqueles que fizeram o máximo para tornar aquele horror, embora minimamente, menos cruel ou daqueles que tiveram que relatá-lo.

Um aspecto do conflito entre hutu e tutsi, populações de grande maioria católica, não pode ser calado: o do envolvimento de muitos religiosos. Desde o início, o sangue marcou a Igreja ruandesa muitas vezes com a cor do martírio, mas às vezes – e é algo que ainda surpreende – manchando mãos culpadas.

Não por acaso, recebendo os bispos ruandeses justamente nessa semana, o Papa Francisco recordou os "tantos sofrimentos e feridas, ainda longes de serem cicatrizadas" e os exortou a "seguir resolutamente em frente, testemunhando incessantemente a verdade", ressaltando que "a Igreja tem um lugar importante na reconstrução de uma sociedade reconciliada".

Uma impressão amarga se difundiu nas consciências naquela primavera de 1994. Mas a comunidade internacional não captou imediatamente o assustador porte dos acontecimentos. O Conselho de Segurança da ONU se limitou a solicitar que o então secretário-geral, Boutros Boutros-Ghali, tomasse "as medidas necessárias para assegurar a segurança" dos cidadãos estrangeiros na Ruanda.

Uma década depois, Kofi Annan, o sucessor de Boutros-Ghali, que em 1994 era responsável pelas missões militares da ONU, admitiu, ele mesmo, que tinha subestimado a situação. Assim como, um ano depois, em julho de 1995, as forças de paz francesas da ONU demonstraram ser impotentes diante de outro genocídio, o de Srebrenica, na Bósnia Herzegovina.

Além disso, nem mesmo a trágica história balcânica realmente envolveu o norte rico e poderoso do mundo, onde se viviam os anos do fim do bipolarismo leste-oeste com um alívio que as décadas posteriores se encarregariam de demonstrar que era infundado.

O que estava sendo preparado e o que depois aconteceu nos Bálcãs e na região dos Grandes Lagos pegou despreparada a comunidade internacional. No entanto, aquelas imagens, aquelas notícias de massacres, de campos de concentração que viam encadeados homens concretos e a própria dignidade do homem, valas comuns onde se enterravam cadáveres e a própria humanidade, não eram novas.

Não eram tão inéditas a ponto de parecerem incríveis. Acontecia de novo, como acontecera 50 anos antes na Europa. A imprensa propunha evidências cruas e ressuscitava memórias dolorosas. Mas essa insistência da memória não soube se tornar compaixão ativa, reflexão atenta, vigilância solícita.

Declinava, entregando os seus horrores ao duro julgamento da posteridade, um século marcado pelas atrocidades, o século que inventara os campos de concentração, as limpezas étnicas, os genocídios sistemáticos, que tinha proposto a epidemia recorrente dos totalitarismos, que devastara a fisiologia das nações com a patologia dos nacionalismos, que havia transformado a identidade étnica na máscara zombeteira do racismo.



TRECHO DO CAPÍTULO 13 DE ''GOD IS NOT GREAT''

(...) O caso Ruanda, em 1992, deu ao mundo um novo sinônimo para genocídio de sadismo. Essa antiga possessão belga é o pais mais cristão da África, exibindo a maior proporção de igrejas per capita, 65 por cento dos ruandeses professando o catolicismo romano e outros 15 por cento pertencente a várias seitas protestantes.  As palavras per capita ganharam um tom macabro em 1992, quando a um sinal as milícias racistas do Poder Hutu, incitadas pelo Estado e pela Igreja, se lançaram sobre seus vizinhos tútsis e os chacinaram em massa. 
 Não foi um espasmo atávico de derramamento de sangue, e sim uma versão africana friamente ensaiada da Solução Final nazista, que estava sendo preparada havia algum tempo. O primeiro sinal disso surgiu em 1987, quando um visionário católico com o nome enganadoramente folclórico de Little Pebbles começou a anunciar que ouvia vozes e tinha visões, derivadas da Virgem Maria. As ditas vozes e visões eram pertubadoramente sanguinárias, prevendo massacre e apocalipse, mas também - como compensação - o retorno de Jesus Cristo no domingo de Páscoa de 1994. Aparições de Maria no alto de uma montanha chamada Kibeho foram investigadas pela Igreja Católica e consideradas confiáveis. A esposa do presidente de Ruanda, madame Agathe Habyarimana, ficou especialmente fascinada com essas visões e mantinha um relacionamento muito próximo com o bispo de Kigali, a capital do país. Esse homem, o monsenhor Vincent Nsengiyumva, era também membro do comitê central do partido único do presidente Habyarimana, o Movimento Nacional Revolucionário pelo Desenvolvimento, ou MRND. O partido, juntamente com outros órgãos do Estado, se preocupava em prender quaisquer mulheres que fossem desaprovadas como sendo ''prostitutas'' e em encorajar ativistas católicos a atacar quaisquer lojas que vendessem contraceptivos. Com o tempo, se espalhou a notícia de que a profecia seria cumprida e que as ''baratas'' - a minoria tútsi - logo teriam o que mereciam.

 Quando finalmente chegou o ano apocalíptico de 1994 e começaram os ataques premeditados e coordenados, muitos tútsis e hutus dissidentes assustados foram imprudentes o bastante para buscar refúgio nas igrejas. Isso facilitou consideravelmente a vida dos intereahamwe, ou esquadrões da morte governamentais e militares, que sabiam onde encontrá-los e que podiam confiar em que padres e freiras indicariam os locais. ( Por isso muitas das covas coletivas que foram fotografadas em solo consagrado, e também por isso vários clérigos e freiras estão no banco dos réus nos atuais julgamentos por genocídio em Ruanda.) O notório padre Wenceslas Munyeshyaka, por exemplo, figura importante da Catedral da Santa Família de Kigali, foi retirado do país às escondidas com a ajuda de um padre francês, mas foi acusado de genocídio, de fornecer listas de civis aos intereahamwe e de estuprar jovens refugiadas. Ele de modo algum é o único clérigo a enfrentar acusações semelhantes. Para que não pensamos que ele foi apenas um padre ''patife'', temos a palavra de outro membro da hierarquia ruandesa, o bispo de Gilkongoro, conhecido como monsenhor Augustin Misago. Para citar um relato cuidadoso daqueles acontecimentos terríveis:

 ''O bispo Misago foi muitas vezes descrito como um simpatizante do Poder Hutu; ele foi publicamente acusado de impedir a entrada de Tútsis em locais de refúgio, de criticar colegas do clero que ajudaram 'baratas' e de pedir a um missionário do Vaticano em visita a Ruanda em junho de 1994 para dizer ao papa que este devia 'encontrar um lugar para os padres tútsis, pois o povo de Ruanda não os quer mais'. Acima de tudo, no dia 4 de maio daquele ano, pouco antes da última aparição de Maria no Kibeho, o bispo apareceu pessoalmente lá com uma equipe de policiais e disse a um grupo de noventa crianças tútsis em idade escolar que estavam sendo preparadas para o massacre que não se preocupassem, porque a polícia iria protegê-los. Três dias depois a polícia ajudou a massacrar 82 das crianças.''

Crianças em idade escolar ''preparadas para o massacre''... Talvez você se lembre da denúncia pelo papa desse crime indelével e da cumplicidade de sua igreja nele. Ou talvez não, já que nunca foi feito nenhum comentário assim. Paul Ruseabagina, o herói de Hotel Ruanda, recorda-se do padre Wenceslas Munyeshyaka se referindo até mesmo à sua mãe tútsi como uma ''barata'', mas isso não impediu que ele, antes de sua prisão na França, recebesse da Igreja francesa autorização para retomar seus ''deveres pastorais''. Quanto ao bispo Misago, houve aqueles no ministério da Justiça de Ruanda depois da guerra que acharam que ele também deveria ser acusado. Mas, como disse um dos funcionários do ministério, ''o Vaticano é excessivamente convicto para que ataquemos bispos. Já ouviu falar em infalibilidade?''



Leia mais em: 
http://www.paulopes.com.br/2014/04/ruanda-denuncia-igreja-catolica-por-encobrir-genocidio.html#ixzz2zG8G3n93 
 e  
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/34714/ruanda+lembra+20+anos+do+genocidio+lamentando+envolvimento+de+potencias+ocidentais.shtml

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