quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A contra-história do liberalismo


Artigo de Jorge Nogueira, professor de ciências sociais na rede pública, para seu blog.




As mobilizações populares - da América Latina à Europa - em defesa dos recursos naturais, dos direitos conquistados com luta, contra as privatizações e até as eleições de políticos aparentemente críticos ao liberalismo restaurado (o neoliberalismo) apontavam para uma crescente insatisfação com a doutrina do dogma do mercado. A insatisfação ampliou-se com a crise econômica que tem atacado as condições de vida das classes subalternas.

No entanto não está nos planos das classes dominantes o abandono do liberalismo restaurado: empresas nacionalizadas serão privatizadas novamente assim que a poeira baixar, o livre mercado segue sendo exaltado, flexibilização e supressão de direitos populares seguem nos discursos dos governos e nas reivindicações das classes dominantes - assim como o pedido por mais privatizações de serviços públicos. Portanto as lutas das classes subalternas seguirá!

Se em qualquer conjuntura seria interessante pelo conhecimento histórico e ideológico que traz dos personagens envolvidos, na atual então torna-se fundamental para instrumentalizar àqueles que seguirão resistindo ao neoliberalismo o livro "Contra-História do Liberalismo" (Editora Idéias & Letras, 2006) do filósofo italiano Domenico Losurdo.

A obra retrata como nos mais variados períodos históricos se portaram os intelectuais e políticos que reivindicavam o liberalismo e se proclamavam os paladinos das liberdades e da democracia. As contradições são expostas não pela interpretação dos fatos pela ótica de Losurdo mas através dos escritos dos próprios liberais.

Defesa da liberdade do indivíduo com uma mão e da escravidão com a outra, democracia censitária e repulsa ao sufrágio universal, teoria da superioridade da raça ariana, são algumas das posições dos liberais mostradas na obra de Losurdo.

Mas porque então o livro se chama "Contra-História" e não apenas "História"? "É só para chamar a atenção sobre aspectos até agora ampla e injustamente ocultados" explica Losurdo (p.11). É a História mas não a normalmente divulgada e ensinada. “O que é notório, justamente porque é notório, não é conhecido. No processo do conhecimento, o modo mais comum de enganar a si mesmos e aos outros é pressupor algo notório e aceitá-lo com tal” (citando Hegel, p.39).

Ainda hoje ouvimos falar dos Pais fundadores dos EUA como os campeões da liberdade e da democracia. Seria isso mesmo? "Em trinta e dois anos dos primeiros trinta e seis de vida dos Estados Unidos, quem ocupa o cargo de Presidente são os proprietários de escravos (p.24)". "(...) nas primeiras dezesseis eleições presidenciais, entre 1788 e 1848, todas, salvo quatro, colocaram um proprietário de escravo do Sul na Casa Branca (p.24)."

Deve-se mencionar que na democracia americana só votava a classe proprietária e mesmo entre ela havia diferença pois os votos dos proprietários de escravos do Sul tinham um peso maior do que os do Norte. “É uma tese reafirmada, em 1864, por um liberal francês (Edouard Laboulaye). Com a cláusula dos três quintos é como se a Constituição americana se dirigisse assim a população do Sul:
“uma vez que vocês têm escravos, vos será permitido eleger um deputado com dez mil votos, enquanto aos yankees [do Norte], (...), serão necessários trinta mil votos (...)” ” (p.108)

A situação era tão crítica que Adam Smith chegou a declarar que a escravidão poderia ser "mais facilmente suprimida em um "governo despótico" do que em um "governo livre", cujos organismos representativos ficam exclusivamente reservados aos proprietários brancos". (p.18)

Mas e a Inglaterra, que zombava da auto-proclamada liberdade americana devido à escravidão, seria ela a campeã da liberdade e da democracia como propalava? "(...) quem promoveu e continua a promover o comércio dos negros? (p.23)" É a questão levantada por Benjamin Franklin, que coloca a pátria de Smith em contradição.

Ele vai além e denuncia que na Grã-Bretanha ainda há formas de trabalho que não se distanciam muito da escravidão. De fato os mineiros da Escócia “foram comprados e vendidos com a mina de carvão, e não são livres de deixá-la tanto quanto nossos negros não são livres de deixar o plantio do patrão”, arremata Franklin. (p.69) Adam Smith não só não retruca como reconhece que há “resíduos de escravidão que permanecem entre nós”. (p.80)

O controle sobre os trabalhadores atinge inclusive a sua privacidade mais íntima: “Atualmente todos os patrões desencorajam os próprios servos masculinos a se casar e não aceitam que encontrem marido as fêmeas, as quais em tal caso não teriam mais condição de cumprir com seus deveres” é o que diz Hume. (p.81)

A situação é tão precária que Calhoun, um dos teóricos liberais do Sul americano, consegue inverter a situação em seu favor contrapondo “positivamente a situação dos escravos americanos à dos detentos da Inglaterra nas casas de trabalho ou nos abrigos para pobres: os primeiros cercados de cuidados e assistidos (...) pelo patrão (...) nos momentos de doença e durante a velhice, os segundos reduzidos a uma “condição desumana e abjeta”; os primeiros que continuam a viver no círculo da família e dos amigos, os segundos desenraizados do seu ambiente e separados (...) dos seus entes queridos”. (p.81)

Quem eram os detentos das casas de trabalho? Eram criminosos? Na verdade tratava-se da “canalha” - termo que liberais como Tocqueville utilizavam para se referir aos pobres. Para ela, liberais como o inglês John Locke, defendem que sejam levados os filhos dos pobres “desde os três anos” de idade. (p.83)

O ambiente nas casas de trabalho era insalubre. Ficavam amontoados em um quarto - “como suínos na lama” como descreveu Tocqueville (p.82) - de doze a quatorze pessoas. O liberal francês define a "zona industrial de Manchester e os quarteirões operários" como um "inferno", "o último refúgio que o homem possa ocupar entre a miséria e a morte". (p.204)

Diante de tais descalabros era de se esperar a reação raivosa de auto-proclamados defensores do trabalho livre como Adam Smith. No entanto ele entende que “o patrão tem direito a punir o seu servo (...), e se o servo morrer por causa de tal punição, não é homicídio (...)” (p.80)

Da democracia inglesa também só participavam os proprietários. Mesmo assim é para ela que Tocqueville acha que os franceses devem se voltar para salvar "o futuro das instituições livres" (p.205). "A cada passo, a liberdade revela a sua força desenfreada e criadora" derrete-se Tocqueville pela Inglaterra. (p.205)
Ele vai se decepcionar com a Revolução Francesa chegando a afirmar que "éramos um povo livre" antes de 1789 (p.212) e vai se posicionar quase sempre de forma conservadora nos conturbados períodos de revolução e contra-revolução que atravessaram o seu país.

O problema para Tocqueville é que de muitos movimentos da França participa "a canalha" e assim ela acaba por arrancar alguns benefícios em seu favor, os quais ele acusa de serem socialistas: "A revolução da Inglaterra foi desencadeada unicamente em vista da liberdade, enquanto a da França foi feita principalmente em vista da igualdade", conclui amargurado. (p.215). Se o fato de considerar um "inferno" as casas de trabalho inglesas dava a impressão de flexibilidade com relação aos trabalhadores, esta é desfeita com a posição que Tocqueville adota na França votando "contra o limite que se queria impor à duração do trabalho" (p.211) e acusando revoltado "o ministro do interior de incoerência e moleza: "enquanto Cavaignac e Lamorcière combatem o socialismo nas ruas, Sénard apóia as doutrinas socialistas a propósito do trabalho de doze horas" (p.211).

A participação "da canalha" não é vista com desprezo apenas por Tocqueville que em uma das revoluções da França trovejou "contra "esta revolução ultra-democrática, que estendeu o direito de sufrágio para além de todos os limites conhecidos até na América" (p.341).

Para Lorde Acton o "sufrágil universal (...) constitui um fenômeno de regressão pré-moderna: ele é "absolutista e retrógrado", pelo fato de favorecer a dilatação do Estado e o despotismo, já felizmente superados pelo liberalismo." (p. )

Blackstone é taxativo na defesa da democracia censitária: "o direito de voto não pode ser ampliado para "pessoas indigentes"" (p.199)

Benjamin Constant, por sua vez, alerta que "o objetivo (...) dos não-proprietários é chegar à propriedade, todos os meios que forem dados a eles vão ser utilizados para esta finalidade" por isso "direitos políticos "nas mãos do maior número vão servir infalivelmente para invadir a propriedade" (p.267).

"Um país governado pelos proprietários fica na ordem social, aquele no qual governam os não-proprietários está ao contrário no estado da natureza" sentencia Boissy d'Anglas. (p.267)

Não é apenas o direito de sufrágio que é duramente combatido pelos campeões da liberdade. Qualquer tentativa de organização "da canalha", ou "desses lacaios" como disse Mandeville (p.224), deve ser prevenida e reprimida conforme sugere Adam Smith, pois não pode ser tolerada a "violação da liberdade natural e da justiça" (p.225). Assim "Theodore Roosevelt enuncia um método muito sumário para acabar com greves e conflitos sociais:"é possível suprimir os sentimentos que agora animam uma grande parte do nosso povo, prendendo dez dos seus chefes, colocando-os [...] contra uma parede e fuzilando-os" (p.343).

Até mesmo os que se compadecem da situação dos pobres são alvejados. Em 1764 Benjamin Franklin envia uma carta ao médico Fothergill com o seguinte recado: "A metade das vidas que vocês salvam não é digna de ser salva, porque é inútil, enquanto a outra metade nem mereceria ser salva porque pérfida. (...)" (p.128). Subjugada, explorada e duramente reprimida pelas classes proprietárias, "a canalha" acaba responsabilizada pela sua desgraça: "o pobre é como "o selvagem" que não conseguiu superar o estado de natureza (...). A pobreza não é uma consequência da ordem social (...). É uma derivação do estado da natureza", conclui Bentham (p.208).

Na mesma linha intervém a revista inglesa Saturday Review:

"Do garoto ou do homem pobre inglês espera-se que ele se lembre sempre da condição na qual Deus o colocou, exatamente como do negro espera-se que se lembre da pele que Deus lhe deu. Em ambos os casos a relação é a que subsiste entre um superior e um inferior perpétuo, entre um chefe e um dependente: por maior que possa ser, gentileza ou bondade nenhuma pode alterar essa relação". (p.125)

Não apenas as classes são hierarquizadas de forma naturalizante como o mesmo ocorre com as raças. Hume vai afirmar que "há motivos para acreditar que os negros "sejam por natureza inferiores aos brancos"" (p.178). Mas não é qualquer branco: "as "nações europeias" constituem "aquela parte do globo [que] nutre sentimentos de liberdade, honra, equidade e valores superiores ao resto da humanidade" (p.178), arremata o mesmo Hume.

Na mesma linha argumenta Tocqueville: "A raça européia recebeu do céu ou adquiriu com seus esforços uma superioridade tão incontestável sobre todas as outras raças que formam a grande família humana (...)". (p.242)

"Tudo é raça e não há outra verdade", ela é a "chave da história" (p.284), "para sua constituição há uma coisa só: o sangue" (p.285), sentencia Disraeli.

Mas ainda é preciso salientar que essa regra não se aplica a todo o branco europeu já que de acordo com Locke: "um trabalhador manual [...] não está em condições de raciocinar melhor que um indígena (p.105)''.

Sobre os índios ironiza Theodore Roosevelt: "Não chego a pensar que os índios bons sejam os mortos, mas creio que entre dez nove sejam assim; e nem gostaria de investigar muito sobre o décimo" (p.347).

Renan, um "liberal iluminado" elogiado por Hayek, conclui que "as raças semi-selvagens" estão destinadas a ser subjugadas ou exterminadas pela "grande família ariano-semítica". (p.348)

É isso mesmo! A mitologia da raça ariana estará presente em muitos liberais da época. Gobineau, por exemplo, "celebra os arianos em primeiro lugar por causa das suas "tradições liberais" e individualistas. (p.285). Para Disraeli são as "raças nórdicas e ocidentais" as "que assimilaram" o "princípio semítico" e por isso "encarnam a civilização" (p.285).

Além de Renan, Gobineau e Disraeli, também Lecky e Spencer vão se destacar na difusão da superioridade ariana. Este último defenderá assim a proibição legislativa da miscigenação: "Na raiz não existe apenas uma questão de filosofia social; na raiz existe uma questão de biologia" (p.284).

A teoria da superioridade racial vai endossar o despotismo praticado contra os "bárbaros" nas empreitadas colonizadoras:

"O despotismo é uma forma legítima de governo quando se lida com bárbaros (...)" sentencia Mill (p.239), afinal "a liberdade "vale só para seres na plenitude das suas faculdades", e ela não pode ser reivindicada por menores de idade ou pelas "sociedades atrasadas nas quais a própria raça pode ser considerada de menoridade", conclui o mesmo. (p.239)

A colonização da França na Argélia vai gerar mal-estar em muitos franceses, mas não em Tocqueville: "Tenho ouvido frequentemente na França homens, que respeito muito mas que não apoio, achar condenável o fato de queimar as colheitas, esvaziar os silos e afinal apropriar-nos dos homens desarmados, das mulheres e das crianças. Trata-se, na minha opinião, de necessidades desagradáveis, mas às quais será obrigado a se submeter qualquer povo que queira travar guerra contra os árabes" (p.248). Ele ainda sugere: "Destruir tudo o que parece com uma agregação permanente de população ou, em outras palavras, com uma cidade (...)". (p.229)

Quando da revolta dos sepoys na Índia Tocqueville não vacila em se posicionar em favor dos ingleses: "estes indianos são animais tão brutos quanto ferozes", a sua vitória significaria "a restauração da barbárie", a vitória dos "selvagens" e a derrota do "único país da liberdade política que ainda existe na Europa". (p.264)

Além do racismo e da superioridade da raça ariana, outro elemento que alimentará um tenebroso movimento político no século XX vai se fazer presente em muitos liberais da época: o do complô judeu.

"É eloquente o quadro que Disraeli traça da grande onda revolucionária de 1848: sem a direção oculta dos hebreus: "a inesperada reviravolta não teria devastado a Europa". Não necessidades sociais objetivas, "mas a orgulhosa energia e os férteis recursos dos filhos de Israel têm alimentado longamente esta luta desnecessária e inútil" (p.291).

"Por sua vez, os hebreus estão muito contentes em apoiar os ataques da plebe francesa contra o rei e a aristocracia, (...); as atrocidades revolucionárias aparecem a Burke "orgias tebanas e trácias, realizadas na França e aplaudidas só no Velho Gueto" (p.289). Quem é o Velho Gueto? Burke explica: são os "agentes de câmbio judeus, voltados só a disputar entre si o privilégio de remediar com a circulação fraudulenta de papel moeda desvalorizada à miséria e à ruína trazidas no seu país pelas suas insanas deliberações". (p.289).

O liberalismo hoje


Odiada e duramente reprimida, "a canalha" seguiu lutando e, com idas e vindas, alterando esse quadro caótico. Suas conquistas não se consolidavam facilmente, sofriam constantes retrocessos, como no caso do sufrágio universal (masculino) francês obtido em 1848 pela revolta operária e cancelado dois anos depois pela burguesia liberal. (p.358) À essas idas e vindas Losurdo chama de processos de "emancipação" e "des-emancipação".

Assim o filósofo italiano observa que "é necessário abandonar de uma vez por todas o mito da passagem gradual e pacífica, a partir de motivações e impulsos puramente internos, do liberalismo à democracia (...)" (p.357)

A discriminação racial nos Estados Unidos vai adentrar a segunda metade do século XX. Em 1952 o ministro da justiça americana alerta assim a Corte Suprema que discutia a integração negra nas escolas públicas: "A discriminação racial leva água para a propaganda comunista e suscita dúvidas também entre as nações amigas a respeito da nossa devoção (...) à fé democrática". (p.358)
Ainda em 1952, nos Estados Unidos, "uns trinta Estados da União proíbem o 'matrimônio inter-racial'" sendo que em "quase todos os Estados o cruzamento racial é um delito de traição". (p.355)
No Norte a situação dos negros nunca foi das melhores. Não por acaso muitos deles buscavam refúgio no Canadá o que levou a nobreza daquele país a tocar a seguinte corneta nos americanos no século XIX: "Dizeis ao republicanos além da fronteira que nós monárquicos não discriminamos os homens pela cor da pele. Se chegardes aqui, gozareis de todos os privilégios devidos aos outros súditos de Sua Majestade". (p. 318)

É preciso refletir até que ponto as características reacionárias do antigo liberalismo se fazem, ou podem se fazer, presentes no atual neoliberalismo.

Será que temos raças que se julgam superiores subjugando e “civilizando” outras raças consideradas bárbaras?

Estaria “a canalha” em processo ou ameaça de “des-emancipação” em seus direitos sociais e políticos?

Os conflitos no Oriente Médio, os recentes golpes de Estado na América Latina e os constantes cortes de direitos dos trabalhadores podem ajudar em tal reflexão.

Ainda assim não deixa de ser pertinente investigar a posição dos principais intelectuais que buscaram no século XX manter acesa a Chama do Liberalismo:

Ludwig von Mises, que é admirado até por auto-proclamados "anarco-capitalistas", vai considerar as greves dos sindicatos ingleses como atos de "terrorismo" (p.344).

Em seu país será conselheiro econômico do conservador Monsenhor Ignaz Seipel, responsável pelo chamado "Massacre de Viena de 1927", e depois aderirá à fascista Frente Patriótica de Dollfus. [1]
Em sua obra chamada "Liberalism", Mises vai considerar que o fascismo "havia salvado a civilização européia" por manter a "propriedade privada" e que por isso ele "viverá eternamente na história". (p.344) e [2]

Friedrich Hayek, um dos mais destacados neoliberais, defenderá abertamente a maximização das liberdades para a classe proprietária ao afirmar que "prefere uma ditadura liberal do que um governo democrático sem liberalismo" [3].

Joseph Schumpeter, considerado um dos mais importantes economistas do século XX, dirigirá e falirá o banco Bidermannbank de Viena em 1924.

Sabe-se que as idéias (neo)liberais ganharam terreno após a crise de 1973 e coincidência ou não, assim como o banco do economista neoliberal, o setor financeiro enfrenta uma grave crise nos últimos anos, tendo de recorrer aos recursos estatais para evitar uma estrondosa quebradeira.

Percebe-se, portanto, que os membros da chamada Escola Austríaca, à exemplo de seus antecessores, também têm uma Contra-História. E olhando para seus mentores vemos que não é por acaso.
Assim como Mises condenou a organização “da canalha” em sindicatos, a mesma postura teve Theodore Roosevelt e até Adam Smith, como vimos anteriormente.

Se o mesmo aderiu ao despotismo contra as coligações operárias, a mesma postura tiveram Tocqueville, Benjamin Constant e Sieyès na França do século XIX.

Se Hayek “prefere uma ditadura liberal”, quantos liberais vimos se colocando contra a expansão do sufrágio e defendendo uma democracia censitária?

O liberalismo é a justificação teórica e ideológica de um sistema dividido em classes chamado capitalismo. As suas teorias propalam a maximização das liberdades para a classe proprietária dominante dispor como bem entender da sua propriedade privada dos meios de produção. Daí o porque de seus intelectuais, que muitas vezes são também proprietários (Locke era acionista de uma empresa que comercializava escravos e Jefferson era proprietário de escravos), defender sem constrangimentos a repressão “da canalha” na sua luta por reconhecimento de direitos políticos e econômicos. Daí porque os neoliberais defendem o fim dos direitos do trabalho, são contra os sindicatos e apoiam golpes de Estado sobre governos que, pressionados pelas suas classes subalternas, estatizam setores estratégicos. Enquanto houver capitalismo o fantasma das características reacionárias do liberalismo se fará presente. A liberdade “da canalha” deverá ser obra da própria “canalha”.



[1] http://mises.org/story/2797
[2] http://mises.org/liberal/ch1sec10.asp
[3] http://www.fahayek.org/index.php?option=com_content&task=view&id=121

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Se quiser falar de política, fale em luta de classes

 O nível geral da discussão política no Brasil é péssimo; pode-se dizer com segurança que ele chega a ser, em sua maior parte, inútil. A desinformação reina, e os debatedores discorrem longamente tendo por base premissas falsas, o que compromete toda a conclusão. Uma dessas premissas, que muitas vezes sai implícita nos discursos, é a de que não há diferença essencial de interesses entre os brasileiros, ou mesmo -- e eu me pergunto como esse absurdo é possível -- que não existe divisão da sociedade em classes.

 Tente lembrar do último post de uma página à la TV Revolta ou Revoltados ON LINE que chegou ao feed do seu facebook. Se tiver gasto seu precioso tempo lendo a legenda da foto, quem sabe os comentários, provavelmente terá percebido a retórica comum de que ''os brasileiros'' estão revoltados, que esse ou aquele político é um ''inimigo da nação'', que é necessário lutar contra a ''corrupção''. E só. Veja que incrível: todos os problemas do país quase que resumidos a ''desviadores'' de dinheiro público! Será que as coisas são mesmo simples assim?

Conceito de classe e classes modernas/contemporâneas


 Apesar de incontáveis pensadores terem analisado a divisão da sociedade -- em distintos modos de produção --, foi o filósofo, sociólogo, historiador e economista alemão Karl Marx (1818-1883) o responsável pelo estudo mais rigoroso sobre o tema. O próprio desenvolvimento histórico, segundo ele, encontra-se essencialmente no conflito entre as classes (''A história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes'', diz o célebre Manifesto do Partido Comunista em 1848, com uma ressalva quanto às sociedades anteriores à invenção da escrita). Mas o que são classes? Marx diz o seguinte n'O 18 Brumário de Luís Bonaparte:

''Milhões de famílias existindo sob as mesmas condições econômicas que separam o seu modo de vida os seus interesses e a sua cultura do modo de de vida, dos interesses e da cultura das demais classes , contrapondo-se a elas como inimigas, formam uma classe.'' 

 E acrescenta:

''Mas na medida em existe apenas um vínculo local entre os parceiros, na medida em que a identidade de seus interesses não gera entre eles nenhum fator comum, nenhuma união nacional e nenhuma organização politica, eles não constituem classe nenhuma.''

 Pode-se dizer que no primeiro trecho o pensador fala da natureza das classes, e no segundo, da consciência de classe, o elemento que garante a coesão dos indivíduos pertencentes a uma mesma classe. Ele afirma que a sociedade moderna estaria basicamente divida em proletariado (aqueles que vendem sua força de trabalho) e burguesia (proprietários dos meios dos meios de produção social social² -- fábricas, terras e similares --, que empregam trabalho assalariado), embora hajam também os camponeses, pequeno-burgueses (pequenos comerciantes e empresários), profissionais liberais (advogados, médicos, engenheiros, executivos etc.), lumpemproletariado (mendigos, prostituas e outros grupos incapazes ou impedidos de trabalhar formalmente) e as ''classes ideológicas'' (categoria na qual Marx inclui o exército, o clero, a burocracia e a magistratura).

 ''Tudo bem'', você pode estar pensando, ''as pessoas ocupam papeis diferentes na sociedade. O que tem de especial nisso?''. Bem, há algo muito especial.

 A dimensão econômica (, expressão por excelência) da luta de classes


 Os interesses das várias classes acabam entrando em conflito pela própria natureza do modo de produção capitalista, que é o esqueleto da sociedade moderna e, portanto, da sociedade brasileira. Não é algo difícil de perceber, pense comigo: o burguês/capitalista compra um certo número de matéria-prima e instrumental de trabalho e contrata um certo número de trabalhadores. Para ele, o mais vantajoso é que os trabalhadores produzam o máximo possível pelo menor custo possível, do que se segue que é de seu interesse (enquanto personificação do capital) o prolongamento das jornadas diárias de trabalho, o aumento da sua intensidade e salários mais baixos quanto for possível, podendo assim acumular valor e garantir sua sobrevivência na guerra de mercado; o trabalhador intenta exatamente o oposto: quer se livrar o mais cedo possível do fardo do trabalho, deseja que o mesmo não seja exaustivo e aspira por uma recompensa que faça jus à sua produção.

 Mais que isso: uma vez que a propriedade dos meios de produção social é privada, os capitalistas têm o direito legal de fazer o que bem quiser do produto excedente do capital que controla (isto é, de todo o valor que lhes sobra após arcar com as despesas obrigatórias), e usa-o para substituir pouco a pouco seus empregados por maquinário, para cortar gastos; o fruto do trabalho dos próprios trabalhadores se volta contra eles e joga-os na rua, onde, pela lei da oferta e da procura, exercerão pressão deflacionária sobre os salários, tendo que vender suas forças de trabalho por um preço cada mais baixo se não quiserem morrer de fome.

 Também é do interesse da burguesia reduzir a oferta de mercadorias similares à sua (em outras palavras, eliminar a concorrência), pois isso lhes permite aumentar o preço de seus produtos e diminuir os salários de seus empregados (os empregados despedidos pelos concorrentes falidos funcionam como exército industrial de reserva, fazendo o que descrevi no parágrafo acima).

 As outras classes envolvem-se de forma variada no conflito, tal seja o seu papel no processo de produção e apropriação do trabalho social.

 Não há, portanto, política econômica que vá no interesse ''da nação'', como um todo. É preciso tomar lado.

A dimensão ''jurídico-penal'' da luta de classes


 Em seu Prefácio à Contribuição para a Crítica da Economia Política, Marx enfatizou o caráter do Estado enquanto superestrutura da base econômica da sociedade civil, constituída pelas relações de produção (no nosso caso, simplificadamente, propriedade privada dos meios de produção e trabalho assalariado). Por essa lógica, é preciso analisar com afinco a relação entre a legislação como um todo e a legislação penal em particular e o interesse das classes que detém o poder (econômico) na sociedade civil.

 Entre os anos 70-80, uma crise atingiu as maiores economias capitalistas, cuja taxa média de lucratividade empresarial estava em queda. Para resolver o problema, os governos, liderados por parlamentares burgueses, aplicaram o receituário econômico neoliberal: abolição do salário mínimo, redução drástica dos encargos trabalhistas, prolongamento da jornada de trabalho (3 medidas que aumentam a taxa de mais-valia), eliminação de benefícios sociais promovidos pelo Estado, privatização de empresas estatais, etc (sem que a carga tributária, em relação ao PIB, caísse). O resultado foi uma recuperação do investimento, acompanhada de um aumento do desemprego, da concentração de renda e da pobreza e da precarização da qualidade de vida dos trabalhadores.

 É claro que haveria protesto da classe trabalhadora, dentre outros inconvenientes da nova política econômica. Para lidar com esse problema, Margaret Thatcher, primeira-ministra inglesa entre 1979 e 1990, introduziu uma draconiana legislação antissindical, que foi imposta com a ajuda de uma força policial cínica e corrupta. Nos EUA, a chamada ''Teoria das janelas quebradas'' forneceu a base teórica para uma política de tolerância zero para as infrações à lei, por menores que fossem. Vetadas as duas formas de manifestação contra as consequências de estratégia neoliberal, a atividade sindical e os crimes ligados à condição de pobreza, os governos amansaram seus proletariados nacionais e consolidaram as medidas neoliberais. Estas, tomadas para salvar o sistema baseado na exploração da força de trabalho do proletariado ao invés de substituí-lo por um modo de produção harmônico e democrático - o socialismo -, foram ainda elogiadas como ''racionais'' e ''idealizadas e aplicadas no interesse de todos os indivíduos'' pelos economistas burgueses!²

 A relação entre forças repressivas do Estado moderno e poder econômico é, porém, bem mais antiga.

Concluindo

 É preciso evitar discussões inócuas e despolitizadas sobre a política. Se quisermos melhorar algo, precisamos ir além dos discursos vagos sobre corrupção pessoal e desvio de dinheiro público -- que deve ser combatido! -- e entender que interesses agem por detrás dos burocratas, tanto nos poderes legislativo e executivo quanto no judiciário. Quando houvermos feito-o, saberemos que a política, à exceção parcial de questões como direitos civis (lembremos que gênero, raça e orientação sexual têm uma integração infraestrutural com o capitalismo³), é uma questão de luta de classes.

 E então, ao lado de quem você combaterá?



Notas:

1 - Sobre os conceitos de força de trabalho, meios de produção, mais-valia, exploração da força de trabalho e grau da exploração da força de trabalho, ver:

http://boradiscutir.blogspot.com.br/2014/12/trabalho-e-forca-de-trabalho-em-marx.html
http://boradiscutir.blogspot.com.br/2015/01/reproducao-do-capital-e-papel-da-mais.html
http://boradiscutir.blogspot.com.br/2014/11/a-dinamica-da-exploracao-no-capitalismo.html

2 - Para saber mais sobre Margaret Thatcher e o neoliberalismo apresentado (mentirosamente) como ''interesse universal'' e única opção de regime socioeconômico possível, ver:

https://thenextrecession.wordpress.com/2013/04/09/thatcher-there-was-no-alternative/

3 - Sobre as questões de gênero, raça e orientação sexual e sua integração ao capitalismo, ver:

http://boradiscutir.blogspot.com.br/2015/02/racismo-misoginia-e-lgbtfobia-no.html

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Racismo, misoginia e homobitransfobia no capitalismo


Morto em 1883, o pai do socialismo científico ainda tem muito a dizer aos filhos do século XXI.

 Karl Marx, em O Capital, elaborou o conceito de ''exército industrial de reserva'': uma massa de trabalhadores desempregados que estão à disposição da exploração capitalista sempre que os custos com a parcela empregada da classe trabalhadora excederem os níveis desejados pelos empregadores burgueses. Especialmente em um regime de livre-mercado, quanto maior for essa superpopulação relativa de trabalhadores desempregados, mais pressão para baixo ela exercerá sobre os salários.

 Ao final da decisão do capitalista sobre quem empregar (o trabalhador antigo cujas despesas estão desagradando-lhe ou o membro daquele exército de trabalhadores de reserva), uma coisa é certa: o escolhido ganhará menos do que o mesmo posto rendia anteriormente, e trabalhará na mesma magnitude. Uma vez que a jornada de trabalho é constituída por tempo de trabalho necessário (no qual o trabalhador reproduz o valor correspondente ao seu salário) e tempo de trabalho excedente (no qual o trabalhador trabalha gratuitamente para seu patrão, gerando mais-valia¹), o grau de exploração da força de trabalho² daquele trabalhador, que é a razão entre a mais-valia por ele produzida e o preço de sua força de trabalho, aumentará em relação ao caso anterior.

''E o que isso tem a ver com racismo, misoginia ou 'LGBTfobia'?'', pode estar pensando se perguntando o leitor. É simples, até: preconceitos como esses servem para moldar no imaginário popular categorias de sub-humanos, pessoas marginalizadas cujas forças de trabalho são, por isso, mais baratas no mercado. Os exemplos pululam pela História: ainda na Inglaterra do século XIX de Marx e Engels, por exemplo, as mulheres operárias ganhavam menos que seus colegas do sexo masculino, mesmo sendo igualmente produtivas; na Alemanha de Hitler, o antissemitismo propalado pelo governo permitiu a transformação dos judeus em escravos que trabalhavam gratuitamente nas indústrias, o que atraiu a ganância vampiresca de empresas como Faber-Castell, Wolkswagen e a ancestral da Bayer. Nos EUA de hoje, trabalhadores latinos ainda vendem suas forças de trabalho por salários vergonhosos a fim de não morrer de fome. Não deve ser difícil para o leitor imaginar uma pessoa transsexual no Brasil se submeter a um emprego com péssimas condições de trabalho e baixa remuneração por não achar outras oportunidades. Desnecessário comentar que, em todos esses casos, os trabalhadores que exigiam salários mais justos -- não pertencentes às assim chamadas ''minorias'' -- fica(va)m sem emprego.

 Isso significa que esses preconceitos sejam conscientemente propagados pelo capital, e com esse objetivo? Não. Em nosso país, aliás, creio que ao menos a misoginia e a ''LGBTfobia'' sejam muito mais uma questão ideológica -- conservadorismo religioso, mais especificamente -- que algo vinculado à base econômica da sociedade, ao pragmatismo burguês. Mas é preciso estar alerta: em tempos onde Eduardo Cunha (o ultraconservador religioso que defende nossos corruptos meios de comunicação contra a regulação social da mídia) é eleito presidente da câmara legislativa, não se pode baixar a guarda, e, parafraseando Marx, o trabalhador branco-hétero-cis-cristão não pode se emancipar onde se ferreteia o trabalhador pertencente a qualquer minoria.³




Notas:

1 - ''Observemos mais de perto. O valor diário da força de trabalho ascendeu a 3 sh., porque nela própria está objectivado meio dia de trabalho, i. e., porque os meios de vida diariamente precisos para a produção da força de trabalho custam meio dia de trabalho. Mas o trabalho passado, que está metido na força de trabalho, e o trabalho vivo, que ela pode prestar, os seus custos diários de manutenção e o seu dispêndio diário, são duas magnitudes totalmente diversas. A primeira determina o seu valor de troca, a outra forma o seu valor de uso. Que meio dia de trabalho seja preciso para o conservar em vida durante 24 horas, não impede, de modo algum, o operário de trabalhar um dia inteiro. O valor da força de trabalho e a sua valorização no processo de trabalho são, pois, duas magnitudes diversas. Esta diferença de valor, tinha-a o capitalista em vista quando comprou a força de trabalho. A sua propriedade útil, fazer fio ou botas, era apenas uma conditio sine qua non, pois o trabalho, para formar valor, tem de ser despendido em forma útil. O que, porém, decidiu foi o valor de uso específico desta mercadoria: ser fonte de valor, e de mais valor do que ela própria tem. Este é o serviço específico que o capitalista espera dela. E aí procede segundo as leis eternas da troca de mercadorias. De facto, o vendedor da força de trabalho, como o vendedor de qualquer outra mercadoria, realiza o seu valor de troca e aliena o seu valor de uso. Não pode conservar um sem desistir do outro. O valor de uso da força de trabalho, o próprio trabalho, pertence não mais ao seu vendedor do que o valor de uso do óleo vendido ao comerciante de óleo. O possuidor de dinheiro pagou o valor diário da força de trabalho; a ele pertence, portanto, o seu uso durante o dia, o trabalho do dia todo. A circunstância de a conservação diária da força de trabalho custar apenas meio dia de trabalho — embora a força de trabalho possa actuar, trabalhar durante um dia inteiro —, a circunstância de, portanto, o valor que o seu uso cria durante um dia ser duas vezes maior do que o seu próprio valor diário é uma particular felicidade para o comprador, mas de modo algum uma injustiça contra o vendedor.

O nosso capitalista previu o caso, que o faz rir. O operário encontra, pois, na oficina os meios de produção precisos não apenas para um processo de trabalho de seis horas, mas para um de doze horas. Se 10 libras de algodão sugavam 6 horas de trabalho e se transformavam em 10 libras de fio, então 20 libras de algodão sugarão 12 horas de trabalho e serão transformadas em 20 libras de fio. Consideremos o produto do processo de trabalho prolongado. Nas 20 libras de fio estão agora objectivados 5 dias de trabalho, 4 na massa de algodão e de fusos consumida, 1 sugado pelo algodão durante o processo de fiação. A expressão em ouro de 5 dias de trabalho é, porém, 30 sh. ou 1 lib. esterl. e 10 sh. Este é, pois, o preço das 20 libras de fio. A libra de fio continua a custar 1 sh. e 6 d. Mas a soma de valor das mercadorias lançadas no processo elevou-se a 27 sh. O valor do fio ascende a 30 sh. O valor do produto cresceu cerca de 1/9 acima do valor adiantado para a sua produção. Portanto, 27 sh. transformaram-se em 30 sh. Eles pariram uma mais-valia de 3 sh. O truque foi, por fim, conseguido. Dinheiro é transformado em capital.'' (O capital, tomo I)

*Sh = xelim, lib. esterl. = libra esterlina, d. = pence.

2 - ''Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos o conjunto das capacidades físicas e mentais existentes no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação cada vez que produz valores de uso de qualquer espécie.'' (Idem)

3 - ''O trabalhador branco não pode se emancipar onde se ferreteia o trabalhador negro.'' (Ibid.)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Paul Krugman, Steve Keen e o misticismo da economia keynesiana

*Artigo de Michael Roberts, economista marxista britânico, originalmente publicado em seu blog.

 Como prometido, deixe-me voltar ao debate dentro do keynesianismo entre Paul Krugman, ganhador do prêmio nobel e guru do keynesianismo ortodoxo e Steve Keen, o iniciante 'minsky-keynesiano' radical, sobre quais são os processos chave do capitalismo moderno e as causas da Grande Recessão.

 Steve Keen recentemente revisou e expandiu seu excelente livro, Debunking Economics , e seus ataques à economia mainstream, a natureza da crise capitalista e o que fazer acerca disso provocaram o grande colunista do New York Times e flagelo dos republicanos, Paul Krugman, a respondê-lo. Krugman não perdeu tempo em descartar as ideias de Keen em seu blog como sendo ''misticismo''. Keen respondeu de maneira agressiva e então um longo debate seguiu-se com participações de outros economistas em seus respectivos blogs entrando na briga. Você pode acompanhar as voltas e reviravoltas aqui.

 Acho que agora é minha vez de fazê-lo. Mas, primeiro: esse debate é importante e interessante? Bem, eu acho que sim, porque as diferenças demonstradas ajudam a demonstrar o esforço que a economia mainstream tem para tentar explicar a recessão que o capitalismo mundial acaba de atravessar e o porquê de a recuperação ser tão fraca. Esse debate em particular não é entre keynesianos e partidários da austeridade (veja meu post, O debate sobre a austeridade). É entre o que chamo de keynesianismo ortodoxo e uma variedade mais radical que considera a maioria dos keynesianos ainda presos em muitos teoremas neoclássicos que não lhes permitem entender o moderno capital financeiro e o sistema bancário. Se os keynesianos ortodoxos entendessem, dizem os heterodoxos, então eles veriam mais claramente por que o capitalismo entra em crise e o que fazer quanto a isso. Steve Keen se inclina sobre as ideias desses keynesianos radicais, como um seguidor de Hyman Minsky e a Teoria Monetária Moderna (MMT, Modern Monetary Theory), que tenta explicar o papel do comércio bancário como a causa-mór das crises econômicas.

 Então, quais são os temas em debate? Bem, depois de ler milhares e milhares de palavras dos participantes, eu creio que são 3: A primeira é a de saber se, em uma economia capitalista moderna, o dinheiro é criado de forma endógena, ou seja, a demanda por dinheiro dirige a sua oferta, em vez de exógena, pela impressão ou absorção de dinheiro por um banco central. A segunda é se a expansão da dívida, particularmente de crédito privado, acrescenta à demanda em uma economia, de forma que ele pode ficar fora de sincronia com a expansão da produção de coisas e serviços; e se essa é a chave para a crise capitalista. Em terceiro lugar, se é a instabilidade inerente do sistema financeiro que é o 'kernel' da crise e não apenas a falta de 'demanda efetiva', como keynesianos ortodoxos argumentam. 

 Vamos começar com o primeiro tema: dinheiro exógeno, isto é, a necessidade de fazer empréstimos por parte de empresas, famílias, instituições financeiras e governo dirige os empréstimos bancários, e não o contrário. A MMT diz que os bancos emprestam em primeiro lugar e que isso gera depósitos, um simples processo de escrituração de casal [a simple double bookkeeping process]. Assim, bancos podem criar dinheiro do nada. Bancos não esperam por depósitos de clientes e dinheiro do banco central antes de realizar empréstimos. Keynesianos ortodoxos como Krugman não reconhecem isso, dizem os caras da MMT (e Keen). Os bancos podem conduzir quantias de empréstimo, ou criar dinheiro por empréstimo, mas eles estão restrito em tanto por 3 fatores: as taxas de juros (os custos de seus empréstimos, em parte definidos pelo Banco Central), as reservas necessárias de dinheiro que eles devem manter (como imposta por um regulamento do BC) e da quantidade de capital próprio que deve ter (mais uma vez uma questão de regulação). Mas essas restrições de crédito afetam a rentabilidade dos empréstimos para os bancos, não a quantidade que eles podem fazer.

 A questão em debate aqui é saber se os bancos centrais têm qualquer controle real sobre a oferta de dinheiro e crédito em uma economia. Com efeito, os caras da MMT sugerem que (o controle) é pouco e que os keynesianos ortodoxos estão enganando a si mesmos de que a economia pode ser controlada pelos bancos centrais, ao tentarem estes controlar exogenamente a oferta de dinheiro ou mesmo manipulando as taxas de juros. Eles [the MMT guys] estão afirmando que as autoridades não podem controlar o ''ciclo de negócios'', o ciclo de expansão e recessão, pela política monetária, porque o dinheiro é criado de forma endógena. Os keynesianos ortodoxos gostam de pensar que eles podem e assim a sua política de restrição das taxas de juros ou aperto de reservas bancárias vão funcionar na regulação do capitalismo.

 O que Marx diz sobre isso? Embora ele não tenha detalhado sua teoria da moeda e do crédito claramente em um livro (como sempre!), é evidente a partir de seus escritos que ele achava que a oferta de crédito é endógena ao sistema capitalista e que os bancos podem criar crédito como exigido pela produção capitalista, sem esperar por algum agente exógeno para fornecê-la. Diz ele:

''O crédito dado por um banqueiro pode assumir várias formas, por exemplo, letras e cheques contra outro banco ou aberturas de crédito a outro banco, e por fim bilhetes de banco, no caso de bancos emissores. O bilhete de banco nada mais é que uma letra contra o banqueiro, pagável ao portador a qualquer momento, e que para o banqueiro faz as vezes de letra de câmbio particular. Tal forma de crédito impressiona o leigo e lhe parece de grande importância, primeiro porque essa espécie de dinheiro de crédito sai da mera circulação comercial e entra na circulação geral, funcionando aí como dinheiro; depois, porque, na maioria dos países, os principais bancos, emissores de bilhetes -- estranha mistura de banco nacional e banco privado -- na verdade têm o crédito nacional para apoiá-los, e seus bilhetes têm curso mais ou menos legal. Assim, fica evidente que a função do banqueiro é negociar com o crédito mesmo, pois o bilhete de banco somente simboliza crédito em circulação.'' (Marx, 1984, pp.403-404)

 O que dirige o crédito bancário não é a oferta de dinheiro, mas as demandas da produção capitalista:

''A quantidade de notas em circulação é regulada pelos requisitos do volume de negócios (de acumulação do capital - MR), e cada bilhete supérfluo segue seu caminho de volta imediatamente ao emitente.'' (Marx, 1984, p.524)

 Crédito gera depósitos.

 Mas a teoria marxista do dinheiro faz uma importante distinção para com os caras da MMT. O capitalismo é uma economia monetária. Capitalistas começam com um capital em dinheiro para investir na produção e capital comercial, que, por sua vez, por meio do dispêndio de força de trabalho, eventualmente oferece um novo valor que se realiza em mais capital monetário. Assim a demanda por capital monetário impulsiona a demanda por crédito. Os bancos criam dinheiro ou crédito como parte deste processo de acumulação capitalista, não como algo que faz o capital financeiro separado da produção capitalista.

 Ambos Marx e os caras da MMT concordam que a chamada teoria quantitativa da moeda, tal como exposta pelo economista de Chicago Milton Friedman e outros, que dominou a política dos governos nos anos 1980, está errada. Os governos e os bancos centrais não podem melhorar as expansões e recessões no capitalismo tentando controlar a oferta de moeda. Os péssimos desempenhos dos atuais programas de flexibilização quantitativa (QE) adotadas pelos principais bancos centrais para tentar impulsionar a economia confirmam isso. Os balanços do banco central dispararam desde a crise de 2008, mas o crescimento do crédito bancário não o fez.





 E, no mesmo período, o chamado multiplicador monetário (proporção da massa monetária na economia para o dinheiro no banco central), sobre o qual os teóricos da quantidade se confiam para julgar se a quantidade de dinheiro é a correta (M3/M1), afundou. Em outras palavras, os bancos centrais têm tentado aumentar a oferta de dinheiro por impressão de dinheiro, mas isso teve o mínimo ou nenhum efeito sobre a economia real, porque a demanda por empréstimos caiu longe.




 Os keynesianos ortodoxos como Krugman diriam que o colapso do multiplicador monetário comprova o fenômeno da ''armadilha de liquidez''. Isto acontece quando a demanda agregada em uma economia é tão fraca que as pessoas acumulam o seu dinheiro e os bancos deixam de emprestar, por isso ainda que as taxas de juro são reduzidas a zero (mais ou menos como elas estão agora), isso não desencadeia uma recuperação econômica. Logo, precisamos de políticas exógenas para lançá-lo. Os caras da MMT diriam que, porque a criação de moeda é endógena, políticas puramente monetárias como flexibilização quantitativa nunca vão funcionar. Marxistas concordarão, desde que seja reconhecida que enquanto os bancos podem criar dinheiro do nada, eles não o farão se a acumulação de capital declinou. O crescimento do crédito depende da acumulação de capital, mesmo que este nunca esteja alinhado (portanto a moeda nunca é neutra).

 Isso me leva à segunda questão: de crédito ou endividamento excessivo. Um dos argumentos principais da escola austríaca é que o crédito pode se tornar excessivo porque ele é criado artificialmente pelos bancos centrais. Se não existissem bancos centrais, o ''livre mercado'' acabaria por trazer crédito alinhado com a produção através de uma mudança para uma taxa de juros equilibrada. O dinheiro teria um efeito neutro sobre a produção e não poderia haver crises monetárias, se não fosse pela intervenção do banco central.

 Steve Keen também argumenta que a chave para as crises no capitalismo é o excesso de crédito ou débito privado. Mas não se trata da explicação austríaca. Em vez disso, ele se inclina sobre as ideias de Hyman Minsky, o keynesiano radical da década de 1980. Keen-Minsky argumenta que o sistema financeiro moderno está inerentemente tentando expandir o crédito para obter retornos mais elevados. Isto leva a uma categoria ''minskyana'' de especulação financeira (para mais detalhes acerca da visão de Minsky sobre a especulação, veja meu artigo The causes of the Great Recession). O crédito privado dispara quando bancos especulam em formas cada vez mais arriscadas de ativos (ações, títulos de propriedade). Isso cria demanda extra em uma economia, que pode eventualmente não ser satisfeita. Cada vez mais, o endividamento é gerado apenas para cobrir empréstimos anteriores, tal como em um esquema de Ponzi. Eventualmente, todo o baralho de cartas desmorona em um ''momento Minsky'' e capitalismo tem uma recessão.

 Keen diz que a melhor maneira de olhar para a 'demanda agregada' ao modo keynesiano em uma economia moderna é adicionar ao rendimento nacional o montante da dívida ou empréstimo privado. Se você alterar Keynes desta forma, obtém um melhor indicador de quando a crise está chegando. Keen ganhou o prêmio Real Economics Review por prever a crise de crédito. Ele diz que isto veio a ele como uma revelação, porque de repente percebeu como o aumento da dívida privada norte-americana estava preparando uma crise. Keen disse que o gráfico da dívida privada dos EUA em relação ao seu produto interno bruto parecia o gráfico ''bastão de hóquei'' para o aquecimento global.




 Os keynesianos ortodoxos não consideram isto e Krugman descarta a ideia em seu debate com Keen. Para ele, a crise, um ''colapso na 'demanda efetiva''', é devido ao término do que Keynes chamou de ''espíritos animais'', uma perda de confiança de empresários que se alimenta através de um colapso dos investimentos e uma ausência de vontade de gastar. Não é devido à dívida privada excessiva. A recessão segue e pode ficar por um longo tempo, se a economia está bloqueada por uma armadilha de liquidez. Ela precisa de uma intervenção do governo para sair.

 O que Marx diz? A teoria marxista concorda com Keen que o crédito privado pode se tornar excessivo. Na verdade, isto flui a partir da visão marxista de que a moeda não é neutra na economia capitalista, mas central para ela. O crédito pode e irá se desalinhar com a produção capitalista. Crédito é, realmente, capital fictício, isto é, capital dinheiro adiantado para títulos de propriedade de capital produtivo e improdutivo, isto é, ações, obrigações [shares, bonds], derivados etc. O preço de tais ativos antecipa futuros retornos sobre o investimento em ativos reais e financeiros. Mas a realização destes retornos depende, em última análise, da criação de um novo valor e de mais-valia no setor capitalista produtivo. Assim, grande parte desse capital dinheiro pode facilmente vir a ser fictício.

 O ponto-chave para os marxistas aqui é o lucro. O enorme aumento da dívida privada (medida contra o PIB) é claramente um bom indicador de que uma bolha de crédito está se desenvolvendo. Mas isso por se só não é um bom indicador de quando ela irá se romper. Alguns economistas da escola austríaca tentaram quando pode ser o ponto de inflexão através da medição da divergência entre o crescimento do crédito e o crescimento do PIB (ver Borio and White, Asset prices, financial and monetary stability, BIS 2002). Mas a teoria marxista oferece um guia muito melhor. É quando a taxa de lucro começa a cair; em seguida, mais imediatamente, quando a massa de lucros vira para baixo. Em seguida a enorme expansão do crédito projetada para manter a rentabilidade [profitability] já não pode remerter [deliver].

 Esse é o modelo de crise que adotei em 2006 para o meu livro, The Great Recession. Levou-me a prever uma recessão maior para 2009-10 (eu estava errado, uma vez que veio um ano antes). A evidência estava lá para os EUA, onde a recessão global estourou. A taxa de lucro média nos EUA atingiu o pico em 1997. No início de 2006, a massa de lucros começou a cair e o mercado imobiliário caiu [turned down].

 Uma forma de demonstrar como a queda na taxa de lucro combinou-se com o endividamento para trazer o capitalismo estadunidense abaixo é medir a taxa de lucro não apenas convencionalmente contra ativos corporativos tangíveis, mas também contra os ativos financeiros (capital fictício), que havia subido tanto. Eu tenho feito isso em vários lugares (incluindo o meu artigo The profit cycle and economic recession e vários posts). Aqui está o gráfico novamente para enfatizar o ponto.




 Isso mostra que a taxa de lucro corporativa dos EUA, medida contra todos os ativos, foi menor em 2002 do que era em 1982, enquanto subiu contra ativos apenas físicos. Uma vez que a rentabilidade convencional também caiu [turned down] em 2006, a crise começou e o impacto foi muito maior por causa do tamanho do capital fictício. Agora, em todos os lugares, o capitalismo continuar a tentar 'desalavancar' [try and 'deleverage'] para limpar não somente o capital morto da economia real, mas também para se livrar do capital fictício.

 Isso me leva à questão final: a causa da crise. Para os keynesianos ortodoxos, é devido ao colapso da demanda agregada ou efetiva na economia (como expresso em uma queda do investimento e do consumo). Esta queda do investimento leva a uma queda do emprego e, assim, a menos renda. A demanda efetiva é a variável independente e os rendimentos e emprego são as variáveis dependentes. Não há menção ao lucro ou à rentabilidade [profit or profitability] neste esquema. Esta é a visão de Keynes:
''Nada, obviamente, pode restaurar o emprego, que não primeiro restaurar os lucros das empresas. No entanto nada, na minha visão, pode restaurar os lucros das empresas sem antes restaurar o volume de investimento.'' (Collected Writing Vol 13, p.343)

 Como argumentei anteriormente (veja meu post, Double dips, deficit and debt, 24  de agosto de 2011), esses esquemas estão ''de trás para frente'' para explicar as leis de movimento do capitalismo. O esquema de Marx é o oposto. Uma mudança nos lucros produz uma mudança nos investimentos, o que, por sua vez, afeta emprego e renda e portanto demanda efetiva.

 Mas se o investimento é a variável independente, de acordo com Keynes, Krugman e Minsky-Keen, o que provoca uma queda no investimento? É o encerramento do 'espírito animal' entre os empresários ou a 'falta de confiança'. Como Minsky coloca-o, o investimento depende da ''natureza subjetiva das expectativas sobre o curso futuro dos investimentos, bem como a determinação subjetiva de banqueiros e seus clientes de negócios da estrutura de responsabilidade apropriada para o financiamento de posições em diferentes tipos de bens de capital''. Assim, os lucros depende de expectativas e as crises são o resultado de mudanças de expectativas por especuladores financeiros. Investimento e crédito crescem enquanto houver confiança: o que outros têm chamado de 'pó mágico da fada Sininho', uma crença de que as coisas só vão melhorar.

 Este é o verdeiro misticismo da economia keynesiana. Para Keen e os seguidores de Minsky, a identidade entre ortodoxos keynesianos e Kalecki ainda se aplica. Instabilidade em finanças e/ou crédito excessivo leva a um colapso do investimento ou da 'demanda efetiva', e em seguida do emprego e dos rendimentos/lucros. Para os marxistas, a instabilidade no setor financeiro não seria suficiente para causar uma grande crise se a rentabilidade [profitability] está aumentando. A abordagem Keynes/Minsky é subjetiva, com base em expectativas. A abordagem marxista é objetiva e baseada na lei do valor.

 Dependendo do seu ponto de vista, as políticas para a recuperação econômica também são diferentes. Keen defende controlar o nível de dívida privada como solução principal. Krugman defende regulação das finanças e dinheiro fácil. Se isso falhar, ele quer intervenção fiscal para estimular o setor privado. Marxistas atentam para a substituição do sistema de lucro.

 A explicação marxista é a mais abrangente, uma vez que integra dinheiro e crédito no modo de produção capitalista. Ela reconhece que a moeda e o crédito não são neutros, como os austríacos acreditam, e  argumenta que o dinheiro pode ser fator-chave na instabilidade e crise, como os keynesianos acreditam, mas também mostra que não é a falha decisiva no modo de produção capitalista e que lançar fora o capital financeiro não é suficiente [and that sorting out finance is not enough]. Assim, pode explicar por que as soluções keynesianos também não funcionam.












domingo, 25 de janeiro de 2015

Reprodução do capital e papel da mais-valia no processo



 Antes de qualquer outra, é preciso definir capital. Este é uma determinada quantidade de valor que, por seu próprio modus operandi, converte-se em mais valor. Na forma de capital produtivo -- que é a que trataremos aqui --, o capital é ''uma concentração maior ou menos de meios de produção, com o comando correspondente sobre um exército maior ou menor de trabalhadores'' (O Capital, tomo I, capítulo XXIII), e seu processo de reprodução é descrito no ciclo D-M-D'. Examinemos tal processo mais acuradamente.

 O capitalista desembolsa determinada quantidade de valor -- cuja origem não importa agora -- e   emprega-o na forma de capital primitivo (C). Este divide-se em capital constante (c) e capital variável (v), sendo o primeiro empregado na compra de instrumental de trabalho, matéria-prima e despesas similares e o segundo, na compra de força de trabalho, isto é, para pagar salários. Suponhamos que o capital primitivo seja de 2000 reais, e que se reparta na proporção de 1600 (4/5) para c e 400 (1/5) para v. Como os meios de produção simplesmente transmitem seu valor ao produto, isto é, não criam nenhum novo valor, o capitalista precisa extrair seu lucro da mercadoria força de trabalho, a única capaz de gerar mais valor ao ser consumida do que o encerrado nela. Esse valor da força de trabalho, que entra nas contas do capitalista como preço da força de trabalho, é a quantidade de trabalho socialmente necessário pra reproduzir a própria força de trabalho, ou seja, de tempo necessário para produzir valor que permita comprar os meios de subsistência do trabalhador.

 Suponhamos que um trabalhador trabalhe 10 horas por dia, recebendo um salário de 50 reais por dia (que suporemos aqui como sendo a quantia necessária para comprar seus meios de subsistência) e produzindo valor correspondente a 10 reais por hora de trabalho. Nas primeiras 5 horas de trabalho de cada dia, portanto, ele reproduzirá o valor da própria força de trabalho (é o que chamamos tempo de trabalho necessário), enquanto que, nas 5 horas seguintes, trabalhará gratuitamente para o capitalista (é o tempo de trabalho excedente). O valor produzido nessas 5 horas de trabalho excedente é o que chamamos mais-valia.

 Para calcular a massa de mais-valia (que chamaremos aqui de m), precisamos multiplicar a soma do capital variável adiantado (v) pela razão entra a mais-valia diariamente fornecida, em média, pelo trabalhador individual (m') e o preço diário da força de trabalho (v') -- razão esta chamada de taxa de mais-valia --, de forma que m = (m'/v') x v.  Seguindo as condições definidas nos dois parágrafos anteriores, conclui-se que a massa de mais-valia produzida pelo conjunto de trabalhadores será de 400 x (50/50) = 400 reais. A taxa de lucro do nosso capitalista será calculada por meio de m/C = 400/2000, 20%, enquanto a taxa de mais-valia, i. e., o grau de exploração do trabalho será de 100%. Esses 400 reais -- que o capitalista adquire ao vender o produto global pela soma c + v + m -- poderão ser dedicados ao seu consumo pessoal ou capitalizados, reinvestidos no próprio capital. Se o capitalista optar pela 2ª via, seu novo capital será de 2400 reais, os quais, seguindo a proporção anterior, se repartiriam em 1920 reais de capital constante e 480 reais de capital variável.

 Caso queira aumentar sua taxa de lucro, o capitalista precisará aumentar o tempo de trabalho excedente, ou seja, a produção de mais-valia. Suponhamos que o valor da força de trabalho caia pela metade, e com ele os salários, sem variar a quantidade diária de valor produzida por cada trabalhador individual ou a quantidade de horas da jornada de trabalho. A massa de mais-valia produzida a partir de agora será de 240 x (75/25) = 720 reais; a taxa de lucro, 720/2160 = aprox. 33%, e a taxa de mais-valia, 300%. Caso estenda a jornada de trabalho, sem pagar nada, em, digamos, 2 horas, a massa de mais-valia subirá para 240 x (95/25) = 912; a taxa de mais-valia, para 380%, e a de lucro, para aprox. 42%.

 Com aumento do grau de exploração do trabalho, mais mais-valia acumulará o capitalista, permitindo-lhe investir somas sempre maiores no próprio capital. Esse processo de acumulação constante é o que se chama de reprodução ampliada do capital, em contraposição à reprodução simples, na qual a mais-valia tem outro destino que não o de incrementar valor ao seu capital de origem.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O marxismo sob ataque (de falácias)

À parte poucas tentativas honestas de examinar o marxismo,  a ciência burguesa e suas denúncias dos ''erros e estupidezas'' do mesmo refletem apenas o vício ideológico de uma classe que não quer abandonar seus privilégios.  


 Desde a segunda metade do século XIX, quando se tornou hegemônico entre os movimentos da classe operária, o marxismo têm estado sob ataque constante da ciência burguesa. À parte o interesse claro desses ataques — deslegitimar a ''ciência proletária'' e desarticular os trabalhadores, garantindo assim a manutenção do status quo —, é possível dizer que houveram tentativas honestas de refutar Marx. Muitos dos ideólogos burgueses infiltrados na academia, porém, não têm tal compromisso com a verdade, e suas obras não passam de libelos anti-marxistas.

 Meu mais recente contato com algo do tipo foram os livros ''Marx morreu: Viva Marx!'', organizado pela acadêmica brasileira Bárbara Freitag, e ''Economia política da nova esquerda'', do economista sueco Assar Lindbeck, que me causaram bastante impacto à primeira leitura, mas revelaram-se parcial ou totalmente embusteiros conforme avancei em meus estudos. Não dissertarei aqui sobre o livro de Lindbeck; este recebeu uma fenomenal réplica pelo economista marxista Paul M. Sweezy ainda na época de seu lançamento, e a realidade continua a refutá-lo diariamente, como é possível constatar na sensacional explanação das causas e consequências da crise de 2008 exposta no blog do também economista marxista Michael Roberts, The Next Recession. Tratarei do coração do livro de Freitag: o seu próprio artigo.


A sociologia do espantalho


 Diz Freitag em seu artigo:

''Ao analisarmos o opus magnum [?] de Marx, Das Kapital, cuja contribuição para a compreensão do modo de produção é indiscutível, levantamos algumas questões, em torno das quais os 'herdeiros' de Marx não admitiam nenhuma fonte de debate. Trata-se de críticas levantas pelos assim chamados 'clássicos' da sociologia, via de regra antimarxistas, que por sua vez passaram a ser objeto de reflexão de alguns marxistas afastados pelo Partido, por sua 'infidelidade' ou seu 'revisionismo' face ao 'ideário' básico de Marx.''

 Confessa ela, no trecho, que as teses que abordará provém de antimarxistas, e afirma, contra a história, que os marxistas não admitiam debate. Oras, que eram a Segunda e a Terceira Internacionais se não também centros de intenso debate teórico? A própria ''questão nacional'' e a ''autonomia das superestruturas'' não foram fontes de intensos debates?

 Prossegue ela:

''Fazem parte desses questionamentos as seguintes teses, apresentadas por Marx em O Capital:

(1) A tese da determinação, em última instância, do econômico sobre o político, jurídico, social e ideológico;
(2) A teoria do valor, baseada na tese da extração da mais-valia do trabalhador pelo capitalista;
(3) A tese da concentração de renda nas mãos de um punhado de capitalistas, com consequente pauperização em massa do resto da humanidade;
(4) A teoria das crises cíclicas do capitalismo, que levaria à sua dissolução e desmoronamento interno.''

 Ignoremos que a dita socióloga confunde, no tópico 2, premissa e consequência, e continuemos a leitura de seu texto:

''1- A tese da monocausalidade (determinação, em última instância, da economia) foi contestada enfaticamente pelo sociólogo alemão, Max Weber (...).''

 É a partir do trecho acima que o título secundário ''a sociologia do espantalho'' se justifica. Seria, de fato, muito fácil fazer os marxistas passarem por idiotas caso algum de nós defendesse o absurdo de que a economia é a única causa de todo e qualquer conflito e fenômeno superestrutural, ainda por cima usando a autoridade de Weber. Engels já esclarecera, numa carta de 1890 a J. Bloch, que:


''De acordo com a concepção materialista da história, o elemento determinante final na história é a produção e reprodução da vida material. Mais do que isso, nem eu nem Marx jamais afirmamos. Assim, se alguém distorce isto, afirmando que o fator econômico é o único determinante, ela transforma esta proposição em algo abstrato, sem sentido e em uma frase vazia.''

 O resto do tópico é mero chute em cachorro morto, chegando a invocar o nome de Gramsci e Althusser, entre outros marxistas, para arrogar alguma autoridade a si próprio. Prossigamos:

''2 - Essa teoria do valor [a de Marx], mais especificamente da mais-valia, tem como pressuposto a redução da força de trabalho qualitativa em quantitativa. (...) De acordo com seus críticos, Marx ignora as diferenças quantitativas entre os trabalhadores, sua formação e grau de profissionalização. Marx também ignora os diferentes níveis de modernização da indústria em diferentes lugares do mundo.''


 Bem, bem, vejamos o que Marx afirma n'O Capital, suposta fonte das críticas que Freitag trabalha:



''A fim de modificar a natureza humana, de forma que alcance habilidade e destreza em determinada espécie de trabalho e se torne força de trabalho desenvolvida e específica, é mister educação ou treino que custa uma soma maior ou menor de valores em mercadorias.  Esta soma varia com o nível de qualificação da força de trabalho. Os custos de aprendizagem, ínfimos para a força de trabalho comum, entram, portanto, no total de valores despendidos para sua produção.'' (2013, p. 202)


Desnecessário comentar pormenorizadamente a gafe cometida na última frase. Qualquer um que tenha lido ao menos os prefácios do Manifesto do Partido Comunista, em especial o de 1882, sabe que isso é uma grande mentira.

 Vamos em frente?

 ''3 - Marx subestimou a capacidade de aprendizado e a flexibilidade do modo de produção capitalista. Longe de levar a concentração de renda às últimas consequências, permitindo a pauperização geral da classe operária, o capitalismo soube redistribuir a riqueza (...) na Europa, a tese da pauperização gradativa do proletariado tornou-se insustentável (...).''

 'Na Europa, a tese da pauperização gradativa do proletariado tornou-se insustentável'. Gostaria que Freitag dissesse isso aos jovens gregos, metade dos quais está desempregado, ou aos jovens espanhóis, que passam por aperto semelhante. Muitos países europeus sofrem com os efeitos da crise que se arrasta, e o keynesianismo 
— a ferramenta reformista (e distributivista) por excelência do século XX — já não é mais viável. De qualquer forma, analisemos as circunstâncias de distribuição de renda no século XX, tratadas pela nossa socióloga, aparentemente, como uma decisão consciente do capitalismo:

''A equalização (da distribuição de renda) se deu, nesses países (industriais, onde impera o Estado de Bem-Estar social), como consequência da destruição do capital físico e da subversão dos padrões sociais provocada pelo conflito mundial. (Mas) Os exemplos não estão somente nos países industriais. Entre os países em desenvolvimento não-socialistas, dois que tem a renda nacional bastante bem distribuída são Formosa e Coreia do Sul. Aí também foi a guerra que eliminou a classe proprietária japonesa, possibilitando uma ampla reforma agrária.'' (Bacha, 1978, p. 54)
''O fato de a (2ª) guerra ter acabado na Grã-Bretanha com a derrota eleitoral de Winston Churchill, o líder de guerra amado e admirado e símbolo do patriotismo britânico, e com a vitória maciça do Partido Trabalhista, é demonstrado sem argumentações; qualquer que tenha sido a euforia de libertação em outros lugares, vista com ponderação pela opinião pública, a eleição geral britânica de 1945 era incontestável. Ambos os partidos, Conservador e Trabalhista, comprometeram-se com a vitória, mas apenas um comprometeu-se formalmente com a vitória e com a transformação social.'' (Hobsbawm, 1990, p. 176) 
''O edifício do reformismo assentava-se sobre três alicerces. O primeiro era a dimensão e o crescimento da classe operária, uma consciência que soldava uma massa díspar de trabalhadores aos mais ou menos pobres, tornando-os uma classe única (...) A Revolução Russa  dera ao reformismo seu segundo alicerce: o medo do comunismo e da União Soviética (...) o pleno emprego... seria o terceiro alicerce do reformismo.'' (Hobsbawm, 2011, pp.369-370)

 Ademais, como atesta o estudo de Thomas Piketty, o rock star da vez no mundo da economia, a desigualdade na distribuição de riqueza mostra-se, nos dias de hoje, semelhante àquela do século XIX. Nada surpreendente diante do avanço do neoliberalismo nas décadas finais do século XX.

''4 - (...) Marx subestimou a força dos mecanismos de reajustamento embutida na própria lógica de mercado, em que um setor de produção é tranquilamente sacrificado em favor ou detrimento de outro. Subestimou ainda, a capacidade regeneração interna da economia de mercado e o poder institucionalizado dos Estados nacionais em minimizar a crise... A sobrevivência do capitalismo no mundo e a facilidade com a qual o socialismo burocrático sucumbiu depois de setenta anos de vida são elucidativos para o fato, de que Marx realmente subestimou o poder de articulação política das economias capitalistas hegemônicas. Resulta daí, que a teoria das crises, assim como vislumbrada por Marx, exigiria uma radical formulação... Há evidências históricas suficientes para desmentir a sua validade nos termos em que Marx a formulou.''

 Tratei do funcionamento da economia soviética no artigo chamado ''Uma economia socialista funciona?'', tradução do artigo ''Do a planned, public owned economy works?'', de Stephen Gowans. Ao contrário do que escreveu Freitag, o socialismo soviético não caiu com ''facilidade''; só caiu após a intensificação da ''segunda economia'' e dos gastos militares e da liberalização pró-mercado. Mas falemos sobre capitalismo. Por acaso Marx nega em suas obras, do início de sua produção intelectual até sua morte, que o reformismo seja possível? Não. O que a economia marxista nos permite compreender é que um tipo de intervencionismo como o que caracterizou o welfare state é a longo prazo prejudicial à própria economia capitalista, uma vez que concorre com os capitalistas, reduzindo a lucratividade dos investimentos destes e, posteriormente, a própria ''massa'' de investimentos. Com menos investimentos, menos empregos, e por aí vai.

 A opinião marxiana de que a revolução socialista explodiria primeiro nos países principais da economia capitalista mostrou-se equivocada, fazendo mais sentido a tese leninista de que essa ocorreriam nos ''elos mais fracos da corrente'', países como China e Rússia. Apesar disso, os fundamentos da teoria marxiana das crises, fatores como superprodução, queda da taxa de lucro etc, mostram sua veracidade após a crise de 1929 e perante a crise que se arrasta de 2008 aos dias atuais.

 Freitag tem mais a dizer:

 ''Os dois amigos e co-autores dos textos aqui citados estava convencidos como Rousseau de que a origem de todos os males da sociedade contemporânea provinha da propriedade privada de bens e terras.''

 Mera repetição da crítica exposta no tópico 2.

 ''Não cabe aqui refazer o amplo debate travado entre os economistas de dentro e fora das alas marxistas. Mas entre os que cedo advertiram para as dificuldades técnicas e práticas de uma economia planejada estão os trabalhos dos austríacos Oskar Mises e Friedrich von Hayek, dos anos 30 e 40, cujo reexame é recomendado a todos aqueles que ainda acreditam numa economia socialista, livre do 'socialismo burocrático e de caserna' e superior em produtividade e competitividade às economias do 'capitalismo tardio'.''

 Sim, meus caros. Nada de keynesianos ou pós-keynesianos, e sim austríacos, os famosos crentes do deus-mercado. Atenção especial para o tom da nossa acadêmica de falar de 'todos aqueles que ainda acreditam uma economia socialista'.

''Na teoria da revolução Marx defendia a tese de que a história mundial teria sido o resultado de uma sequência de revoluções de classe, em que as classes oprimidas, mediante o recurso legítimo da violência, haviam derrubado as classes opressoras, assumindo, depois da vitória, as rédeas do processo histórico.''

 Aqui, novamente, temos um espantalho. O que Marx afirma, já na segunda página do Manifesto, é que ''a história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes'' (com uma nota de Engels logo abaixo lembrando que se trata da história escrita). De 1995 até os dias atuais, no Brasil, temos tido lutas de classes, mas nenhuma revolução. O que acha o leitor? Terá o Brasil tido história durante esse intervalo?

 ''Esses autores contemporâneos simplesmente confirmam a tese... da autonomia das esferas econômicas e de poder (...) Ao diluírem em sua utopia comunista o político no econômico, Marx e Engels subestimaram a força organizatória do poder também na área econômica. As formações societárias não se reduzem a 'modos de produção' de bens, mas são sempre também co-determinadas pelas formas de organização do próprio poder, que inclui de forma legalizada ou não, legitimada ou não, o uso da força.''

 Autonomia das esferas econômicas e de poder, diz-nos ela. E entretanto, que se percebe ao observar a política no Brasil ou na maioria dos países capitalistas, senão um predomínio da participação burguesa no Estado, em detrimento da participação dos próprios trabalhadores? É verdade que a democracia liberal impôs limites à própria voracidade do capital 
— não sem luta —, mas este tenta subvertê-la para consolidar os próprios interesses, e em casos extremos, quando não consegue fazê-lo, não tem escrúpulos para atacar a própria democracia liberal burguesa (coisa já fenomenalmente descrita pelo próprio Marx n'O 18 Brumário de Luís Bonaparte e exemplificada realisticamente com as ditaduras militares na América Latina na segunda metade do século XX, sendo o Chile, na opinião deste que vos escreve, o caso mais notável).

 É de uma graça singular o fato de que, embora não tenha posto uma citação sequer d'O Capital (ou de qualquer outra obra marxista) no seu próprio artigo, que diz discutir essencialmente tal obra, Freitag nos presenteie com as seguintes afirmações na contra-capa de seu livro:

 ''Seus textos podem ser enfeixados em três grupos: os que analisam o modelo teórico de Marx a partir de seus próprios fundamentos; os que analisam como Marx abordou determinados temas como a luta de classes e os movimentos políticos, a questão dos direitos e da mulher; e os que abordam determinadas experiências específicas como a Revolução Russa e o socialismo real.
  O retorno ao pensamento de Marx para a análise de temas da atualidade é a principal contribuição desta obra.''

 Nós, marxistas, apreendemos o segredo da dialética histórica e fizemos um juramento de serviço à classe trabalhadora de todo o mundo, servindo-lhe de vanguarda e esclarecendo-lhe contra os charlatões da ciência burguesa e outras formas de ideologia. Sabemos que não basta esperarmos sentados até as contradições do modo de produção capitalista criarem uma consciência de classe revolucionária, sendo necessário o ativismo político ininterrupto, assim como a constante batalha das ideias. E seguiremos adiante.

 

Bibliografia:

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.
BACHA, Edmar. Política econômica e distribuição de renda, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
HOBSBAWM, Eric J. Nações e nacionalismo desde 1780, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

HOBSBAWM, Eric J. Como mudar o mundo: Marx e o marxismo, São Paulo, Cia. das Letras, 2011.








sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Trabalho e força de trabalho em Marx



''A utilização da força de trabalho é o próprio trabalho. O comprador da força de trabalho consome-a, fazendo o vendedor dela trabalhar. Este, ao trabalhar, torna-se realmente no que antes era apenas potencialmente: força de trabalho em ação, trabalhador. Para o trabalhar reaparecer em mercadorias, tem de ser empregado em valores de uso, em coisas que sirvam para satisfazer necessidades de qualquer natureza. O que o capitalista determina ao trabalhador produzir é, portanto, um valor de uso particular, um artigo especificado. A produção de valores de uso não muda sua natureza geral por ser levado a cabo em benefício do capitalista ou estar sob seu controle. Por isso, temos inicialmente de considerar o processo de trabalho à parte de qualquer estrutura social determinada.

 Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo - braços e pernas, cabeças e mãos -, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais. Não se trata aqui das formas instintivas, animais, de trabalho. Quando o trabalhador chega ao mercado para vender sua força de trabalho, é imensa a distância histórica que medeia sua condição e a do homem primitivo com sua foram ainda instintiva de trabalho. Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato fortuito. Além do esforço dos órgãos que trabalham, é míster a vontade adequada que se manifesta através da atenção durante todo o curso do trabalho. E isto é tanto mais necessário quanto menos se sinta o trabalhador atraído pelo conteúdo e pelo método de execução de sua tarefa, que lhe oferece, por isso, menos possibilidade de fruir da aplicação das suas próprias forças físicas e espirituais.

 Os elementos componentes do processo de trabalho são:

1) a atividade adequada a um fim, isto é, próprio trabalho;
2) a matéria a que se aplica o trabalho, o objeto de trabalho;
3) os meios de trabalho, o instrumental de trabalho.''

Karl Marx, O Capital: crítica da economia política, capítulo 5.