quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O socialismo funciona?

O texto abaixo é a tradução (precária) que fiz do artigo ''Do publicy owned, planned economies work?'', de Stephen Gowans, publicado em seu blog. Boa leitura.

Economias planificadas e de propriedade pública funcionam?


Comparada com o capitalismo, a economia planificada funcionou muito bem.

 A União Soviética foi um exemplo concreto do que uma economia planificada pôde produzir: pleno emprego, pensões garantidas, licença maternidade paga, limites de horas de trabalho, cuidados médicos e educação (incluindo ensino superior) gratuitos, férias pagas, moradia barata, cuidado infantil a baixo custo, transporte público subsidiado e baixa desigualdade de renda. A maioria de nós deseja tais benefícios. Entretanto, eles são alcançáveis permanentemente? É largamente acreditado que embora a União Soviética tenha produzido tais benefícios, no fim a economia de propriedade pública e planificada provou-se um fracasso. Caso contrário, como explicar o fim do país? Ainda sim, quando a economia soviética foi pública e planificada, de 1928 a 1989, esta cresceu de forma sólida ano a ano, exceto durante os anos de guerra. Para ser claro, enquanto as economias capitalistas mergulharam em uma depressão profunda e solidamente caíram em recessões de poucos em poucos anos, a economia soviética infalivelmente não o fez, expandindo-se incessantemente e proporcionando emprego a todos. Longe de ser um fracasso, a economia pública e planificada da União Soviética funcionou notavelmente bem. O que não funcionava era o capitalismo, com suas ocasionais depressões, regulares recessões, desempregos em massa e extremos de riqueza e pobreza, tanto mais evidente hoje quando as economias capitalistas contraem ou mancam juntas, condenando inúmeras pessoas à inatividade. O que eventualmente levou à queda da União Soviética foi  o pedágio acumulado sobre a economia soviética para derrubá-la, a intensificação da Guerra Fria pelo governo Reagan e a inabilidade da liderança soviética para achar uma maneira de escapar do prejuízo que tais coisas causaram.

 Nos anos 80, a URSS estava demonstrando as estirpes da Guerra Fria. Sua economia crescia, mas a um ritmo menor que no passado. A competição militar com seu adversário ideológico, os EUA, atrasou seu crescimento de várias maneiras. Primeiro, recursos R&D (pesquisa e desenvolvimento, ''research and development'') foram monopolizados pelos militares, privando a economia civil dos melhores cientistas, engenheiros e ferramentas. Segundo, gastos militares aumentaram para se responder ao abandono da trégua em favor de uma nova corrida armamentista por parte do governo Reagan que tinha claramente como objetivo prejudicar a economia soviética. Para impedir a agressão estadunidense, os soviéticos utilizaram uma punitiva porcentagem de seu PIB no setor militar enquanto os EUA, com uma economia maior, investiam mais em termos absolutos porém em uma cota menor e mais gerenciável da renda nacional. Em terceiro lugar, para se proteger contra os perigos de depender de importações estrangeiras de matérias-primas importantes que poderiam ser cortadas para deixar o país de joelhos, a União Soviética escolheu extrair matérias-primas de seu próprio vasto território. Ao mesmo tempo em que fez a URSS autossuficiente, o abastecimento interno enredou o país numa armadilha Ricardiana*. O custo de produzir matérias-primas aumentou, à medida que fontes mais novas e difíceis de alcançar precisavam ser exploradas enquanto as mais velhas e de fácil alcance se esgotavam. Em quarto lugar, a fim de melhor defender o país, os soviéticos procuraram aliados no leste europeu e no terceiro mundo. Porém, porque a URSS era mais rica que os países e movimentos com que se aliou, esta se tornou a âncora e financiadora oficial dos outros países socialistas, movimentos de libertação e estados que buscavam libertar-se da espoliação por parte das potências ocidentais. Como seu número de aliados, aumentou, e Washington manobrou para armar, financiar e apoiar as revoltas anti-comunistas em uma tentativa de impôr pressão adicional ao tesouro soviético, os custos de Moscou para auxiliar seus aliados. Esses fatores — corolários da necessidade de prover defesa para a União Soviética — combinaram-se para empurrar custos até o ponto que eles impediram seriamente o crescimento soviético.


Por todos os anos entre 1928 a 1989, exceto durante os de guerra, a economia planificada e de propriedade pública soviética expandiu-se de forma segura, proporcionando empregos, moradia e uma grande variedade de serviços públicos de baixo ou nenhum custo para todos, enquanto que as economias capitalistas afundavam regularmente em recessão e tinham de lutar entre si em meio aos destroços de vidas humanas.


 Com a desaceleração do crescimento e os custos de defender o país aumentando, parecia que era apenas uma questão de tempo até que a URSS se achasse entre a Scylla de um posicionamento militar insustentável e a Caríbdis de uma falência impulsionada pela corrida armamentista. Mikhail Gorbatchev, o último líder do país, enfrentou um dilema: ele poderia falir a economia tentando manter o ritmo com os gastos armamentistas americanos ou retirar-se completamente da corrida. Gorbatchev escolheu a última opção. Ele agiu pelo fim da Guerra Fria, retirando auxílio militar aos aliados e comprometendo-se à cooperação com os Estados Unidos. No plano econômico, ele agiu para transformar a União Soviética em uma social-democracia ocidental. Entretanto, ao invés de resgatar o país de um futuro de crescimento econômico ainda mais lento, as capitulações de Gorbatchev em política econômica e externa levaram a um desastre. Sem a mão restritiva da União Soviética, os Estados Unidos iniciaram uma série de agressões ao redor do mundo, a começar pelo Iraque, prosseguindo à Iugoslávia, Afeganistão, Iraque de novo e então Líbia, com numerosas intervenções menores entre essas. O abandono do planejamento econômico e os esforçar para limpar o caminho para a implementação de uma economia de mercado empurrou o país para uma crise. Dentro de 5 anos, a Rússia mostrou-se um desastre econômico. O desemprego, a falta de moradia, a falta de segurança e o parasitismo social (viver do trabalho dos outros) retornaram como uma vingança.

 No dia de natal de 1991, data em que a URSS oficialmente acabou, Gorbatchev disse: ''Vivemos em mundo novo. A Guerra Fria está terminada. A corrida armamentista e a militarização louca dos Estados, que deformaram nossa economia, sociedade e valores, foram parados. A ameaça de uma guerra mundial foi eliminada'' (Roberts, 1999). Isso fez de Gorbatchev bastante popular no ocidente. Os russos  estavam bem menos entusiasmados. Contida nas palavras de Gorbatchev estava a verdade de que a primeira tentativa consciente do mundo de construir uma alternativa ao capitalismo havia chegado ao fim. Não foi porque o sistema soviético provou-se ineficiente; pelo contrário, ele mostrou funcionar melhor que o capitalismo. A verdadeira razão para o fim da URSS foi que seu líder capitulou diante de um inimigo americano, que, desde a 2º Guerra Mundial, e com vigor crescente durante a era Reagan, promoveu uma corrida armamentista para eliminar a economia soviética. Esta foi uma economia que funcionou para 99% da população, e, portanto, se lhe tivesse sido permitido prosperar, teria desacreditado as economias privadas e reguladas pelo mercado de que 1% da população se favorece e beneficia. Foi esse modelo de livre iniciativa e desregulamentação do mercado que gerou vasta riqueza, conforto e segurança as prerrogativas dos capitães da indústria e titãs financeiros e desemprego, pobreza, fome, insegurança econômica e indignidade — condições necessárias para a existência dos 1% mais ricos — para o resto de todo mundo.

 Os 21 anos desde o fim da URSS não têm sido fáceis. Stálin, sob cuja tutela a primeira economia pública e planificada do mundo foi construída, deu certa vez uma advertência profética: ''O que aconteceria se o capitalismo conseguisse esmagar as repúblicas soviéticas? Isto iniciaria uma era da mais negra reação nos países capitalistas e coloniais. A classe trabalhadora e os povos oprimidos seriam pegos pela garanta, as posições do comunismo mundial estariam perdidas'' (Stalin, 1954). E da forma como Stálin havia precisamente profetizado 10 anos antes da operação Barbarossa, a invasão nazista da União Soviética, que seu país tinha apenas 10 anos para se preparar para um ataque, também previu ele com precisão as consequências da queda da União Soviética perante as forças do capitalismo. Uma era da mais negra reação, de fato, iniciou-se. Washington tem agora mais liberdade para força militar para prosseguir com sua agenda reacionária em todo o mundo. A posse pública e a planificação mantém-se em Cuba e na Coreia do Norte, porém os Estados Unidos e seus aliados usam sanções, isolamento diplomático e assédio militar para sabotar as economias dos sobreviventes (tal como fizeram com a economia soviética), de modo que as consequências podem ser falsamente atribuídas às deficiências da propriedade pública e da planificação. Elas são, na verdade, fruto de um programa metódico de guerra de baixo nível. Estimulados a acreditar que o sistema econômico soviético tinha falhado, muitas pessoas, incluindo tanto os defensores e detratores comunistas da União Soviética, concluíram que um sistema de propriedade pública e planificação é inerentemente defeituoso. Comunistas bandearam-se de partidos comunistas para social-democratas, ou abandonaram a política radical logo. Os social-democratas deslocaram-se à direita, evitando a reforma e abraçando o neoliberalismo. Além disso, os governos ocidentais, não precisando mais barrar o apelo da propriedade pública e da planificação, abandonaram a política de pleno emprego e declararam não serem mais acessíveis serviços públicos robustos (Kotz, 2001). Ao mesmo tempo, a privatização na antiga União Soviética e países ex-comunistas expandiu a oferta global de força de trabalho, com consequências previsíveis para os níveis de salários em todo o mundo. A derrota da União Soviética deu início a uma era áurea para o capital. O resto de nós, como advertiu Stálin, fomos pegos pelas gargantas...

 As maiores economias do mundo estão em crise desde 2008. Algumas estão presas em uma espiral fatal de austeridade, algumas nas garras da recessão, a maioria crescendo lentamente na melhor das hipóteses. Austeridade — na realidade a eliminação de serviços públicos — é a pseudo-solução prescrita. Não há fim à vista. Em algumas partes da Europa, o desemprego oficial chega a 2 dígitos; o desemprego entre os jovens, ainda mais. Na Grécia, um país de 11 milhões, há apenas 3,7 milhões empregados (Walker e Kakaounaki, 2012). Além disso, a crise não pode, de forma alguma, ser atribuída a um poder externo trabalhando sistematicamente para trazer a derrubada do capitalismo, tal qual os EUA e seus aliadas fizeram para com a propriedade pública e a planificação na URSS. Ainda sim, livre para se desenvolver sem o ônus de um esforço organizado para sabotá-lo, o capitalismo não está funcionando. Poucos deixam isso claro. Em contraste, o modelo soviético de propriedade e planejamento — que, desde o início, foi alvo de um esforço concentrado para derrubá-lo — jamais, exceto os anos de 2ª Guerra Mundial, caiu em recessão, nem deixou de oferecer pleno emprego. Entretanto entende-se, até mesmo por alguns ex-partidários da União Soviética, ter sido ineficiente. Ao contrário do engano geral, a experiência soviética não demonstrou que uma fraqueza inerente existiu dentro da propriedade pública, que a levou ao fracasso. Ela demonstrou, pelo contrário, o oposto - que a propriedade pública e a planificação puderam fazer o que o capitalismo não pode: produzir um crescimento econômico constante, pleno emprego, uma ampla gama de gratuitos e semi-gratuitos serviços públicos e uma distribuição bastante igualitária da renda. Além disso, pôde fazê-lo ano após ano e continuou a fazê-lo até que a liderança soviética puxou a tomada. Demonstrou, também, que a elite dos 1% iria defender a propriedade privada usando meios militares, econômicos e ideológicos para esmagar um sistema que funcionou contra eles mas fê-lo esplendidamente pelos outros 99% (um esforço que continua hoje contra Cuba e Coreia do Norte).

 A derrota da União Soviética, de fato, marcou o início de um período negro de reação. A saída permanece sendo, como sempre, a propriedade pública e a planificação — que a experiência soviética de 1928 a 1989 demonstrou funcionar muito bem — e a luta contra aqueles que tentam desacreditá-la, degradá-la ou destruí-la.

O que a propriedade pública e a planificação fizeram pelos cidadãos comuns da URSS

 Os benefícios do sistema econômico soviético encontraram-se na eliminação dos males do capitalismo - o fim do desemprego, da inflação, das recessões e depressões, os extremos de riqueza e pobreza; o fim da exploração, ou seja, de viver do trabalho dos outros; e a prestação de um vasto leque de gratuitos ou semi-gratuitos serviços públicos.

 A mais importante conquista da economia soviética foi a abolição do desemprego. A União Soviética não apenas proveu emprego para todos como o trabalho era considerado uma obrigação social, de tanta importância que foi consagrado na constituição. A constituição de 1936 estipulara que ''os cidadãos da URSS têm o direito de trabalhar, ou seja, são garantidos o direito ao emprego e ao pagamento por seu trabalho de acordo com a qualidade e quantidade.'' Por outro lado, viver de meios que não o trabalho era proibido. Consequentemente, tirar riqueza de rentismo, lucros, especulação ou mercado negro — parasitismo social — era ilegal (Szymanski, 1984). Achar um emprego era fácil, porque normalmente havia baixa oferta de trabalho. Consequentemente, os funcionários tinham um alto poder de negociação no trabalho, com evidentes benefícios em segurança do trabalho e a gestão prestando muita atenção á satisfação do empregado (Kotz, 2003).

 O artigo 41 da constituição de 1977 estabeleceu a semana de trabalho em 41 horas. Trabalhadores do turno da noite trabalhavam 7 horas mas recebiam a remuneração total (correspondente a 8 horas). Os trabalhadores empregados em empregos perigosos (por exemplo, mineradores) ou onde a vigilância mantida era crítica (por exemplo, médicos), trabalhavam 6 ou 7 horas mas recebiam salário integral. Trabalho em hora-extra foi proibido, exceto em circunstâncias especiais (Szymanski, 1984).

 A partir dos anos 60, os trabalhadores receberam em média um mês de férias (Keeran e Kenny, 2004; Szymanski, 1984), que poderiam ser tomadas em resorts subsidiados (Kotz, 2003).

 A todos os cidadãos soviéticos era fornecida uma renda de aposentadoria, aos homens com 60 anos de idade e às mulheres com a idade de 55 (Lerouge, 2010). O direito à pensão (assim como benefícios por invalidez) foi garantido pela constituição soviética (artigo 43, constituição de 1977), ao invés de ser revogável e sujeita a caprichos momentâneos de políticos, como é o caso nos países capitalistas.

 Às mulheres era garantida licença maternidade totalmente remunerada desde 1936, além de muitos outros benefícios, pela constituição soviética (artigo 122, 1936). Simultaneamente, a constituição de 1936 provia uma ampla rede de maternidades, creches e jardins de infância, enquanto a constituição de 1977 obrigava o Estado a ajudar ''a família, proporcionando e desenvolvendo um amplo sistema de assistência à infância... mediante o pagamento de subvenções sobre o nascimento de uma criança, fornecendo subsídios às crianças e benefícios para as grandes famílias'' (artigo 35). A União Soviética foi o primeiro país a criar creches públicas (Szymanski, 1984).


Que os cidadãos americanos tivessem de pagar por sua saúde foi considerado extremamente bárbaro na União Soviética, e cidadãos soviéticos ''frequentemente questionavam os visitantes estadunidenses de forma bastante incrédula quanto a isso''. 

 Também lhes foi garantida a igualdade de direitos em relação aos homens, em todas as esferas da vida econômica, política, cultural e social (artigo 122, 1936), incluindo o direito ao emprego, descanso e lazer, segurança social e educação. Entre seus muitos pioneirismos, a URSS foi o primeiro país a legalizar o aborto, que estavam disponíveis sem custo algum (Sherman, 1969). Também foi o primeiro país a trazer as mulheres para os cargos superiores do governo. Uma intensa campanha foi realizada na Ásia central soviética para libertar as mulheres da opressão misógina do islamismo conservador. Isso produziu uma transformação radical das condições de vida das mulheres nestas áreas (Szymanski, 1984).

 O direito à moradia foi garantido por uma disposição constitucional de 1977 (artigo 44). O espaço urbano para habitação foi, entretanto, reduzido à metade do que era por cabeça na Áustria e na Alemanha Ocidental, por exemplo. As razões eram construção inadequada na era czarista, a destruição massiva de moradias durante a 2ª Guerra Mundial e a ênfase soviética na indústria pesada. Depois da revolução, novas moradias foram construídas, mas seu ''estoque'' permaneceu insuficiente. A construção de habitações pesava fortemente sobre o capital, de que o governo necessitava urgentemente para a construção da indústria. Além disso, os invasores nazistas destruíram de 1/3 a 1/2 das habitações soviéticas durante a 2ª Guerra Mundial (Sherman 1969).

 Cidadãos urbanos soviéticos vivam tipicamente em edifícios de apartamentos de propriedade da empresa em que trabalhavam ou do governo local. Os aluguéis eram baratíssimos por lei, cerca de 2 a 3% do orçamento familiar, enquanto os utilitários ocupavam de 4 a 5% (Szymanski, 1984; Kenny & Keeran, 2004). Isso difere nitidamente dos Estados Unidos, onde os aluguéis consumiam uma parcela significativa do orçamento familiar médio (Szymanski, 1984) e ainda o fazem.

 Produtos alimentares e outras necessidades eram subsidiados, enquanto itens de luxo eram vendidos bem acima de seus custos.

 O transporte público era eficiente, extenso e praticamente gratuito. A tarifa de metrô era cerca de 8 centavos nos anos 70, inalterada desde 1930. Nada comparável existiu nos países capitalistas. Isto porque um serviço público eficiente, acessível e extenso limitaria severamente as oportunidades de lucro de fabricantes de automóveis, companhias de petróleo e empresas de engenharia civil. A fim de salvaguardar seus lucros, essas empresas usam sua riqueza, conexões e influência para impedir o desenvolvimento de eficientes, extensas e baratas alternativas públicas ao transporte privado. Os governos, que precisam manter a indústria privada feliz para que esta possa gerar empregos, são obrigados a jogar seu jogo. A única maneira de mudar isto é pôr o capital sob o controle público, a fim de usá-lo para atender às metas de políticas públicas estabelecidas em um plano conscientemente construído.

 A União Soviética deu maior ênfase à saúde do que seus adversários capitalistas. Nenhum outro país teve mais médicos ou leitos hospitalares por cabeça que a URSS. Em 1977, esta tinha 35 médicos e 212  leitos hospitalares a cada 10.000 habitantes, em comparação com 18 médicos e 63 leitos hospitalares nos EUA (Szymanski, 1984). O mais importante: a saúde era gratuita. Que cidadãos dos EUA tivessem que pagar por atendimento médico foi considerado extremamente bizarro na URSS, e os cidadãos soviéticos ''frequentemente questionavam os visitantes estadunidenses de forma bastante incrédula quanto a isso'' (Sherman, 1969).

 A educação superior também era gratuita, e bolsas estavam disponíveis para estudantes de pós-graduação, adequadas para pagar livros-texto, hospedagem e alimentação, dentre outras despesas (Sherman, 1969; Szymanski, 1984).

 A desigualdade de renda na União Soviética era leve em comparação com os países capitalistas. A diferença entre a maior renda e o salário médio era equivalente à diferença entre a renda mensal de um médico e um trabalhador comum nos EUA, cerca de 8 a 10 vezes maior (Szymanski, 1984). Os rendimentos mais elevados da elite proporcionou privilégios não maiores que a capacidade de se adquirir uma casa modesta e um carro (Kotz, 2000). Para comparar, em 2010, os 100 CEO's mais bem pagos do Canadá tinham rendimentos 155 vezes que os salários médios de tempo integral. Este era de US$43.000 (Canadian Centre for Policy Alternatives, 2011). Um rendimento 10 vezes maior seria de US$430.000 — mais ou menos o que os membros da elite capitalista ganham em uma semana. Um fator que mitigou a desigualdade de renda na União Soviética foi o acesso de todos os cidadãos soviéticos a serviços essenciais, sem nenhum ou quase nenhum custo. Assim, o grau de desigualdade material era ainda menor que o grau de desigualdade de renda (Szymanski, 1984).

 Líderes soviéticos não vivam nas opulentas mansões que são as residências comuns de presidentes, primeiros-ministros e monarcas na maioria das capitais do mundo (Parenti, 1997). Gorbatchev, por exemplo, vivia num prédio de apartamentos para 4 famílias. Um alto funcionário da construção em Leningrado viva numa apartamento de um quarto, enquanto o funcionário político do topo em Minsk, sua esposa, sua filha e seu filho adotado moravam num apartamento de dois quartos (Kortz e Weir, 1997). Críticos da União Soviética acusam sua elite de ser uma classe dominante exploradora, mas os rendimentos modestos e as circunstâncias materiais humildes desta levantam sérias dúvidas sobre esta avaliação. Se foi de fato uma classe dominante exploradora, foi a mais estranha da história.

O recorde de crescimento da economia soviética sob a propriedade pública e a planificação


 A partir do momento que, em 1928, a economia soviética tornou-se propriedade pública e planificada, até o ponto em 1989 no qual a economia foi empurrada em direção ao livre-mercado, o crescimento do PIB per capita soviético foi superior ao de qualquer outro país exceto Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Ele cresceu a uma taxa de 5,2% contra 4% para a Europa Ocidental e 3,3% para as ramificações da Europa Ocidental (EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia). Em outras palavras, no tempo em que a economia planificada e de propriedade pública estava em prática, o registro de aumento das riquezas na URSS foi melhor que a dos principais países capitalistas industrializados. O robusto crescimento da União Soviética durante esse período é ainda mais impressionante considerando que o período inclui os anos de guerra, quando um grande ataque da Alemanha nazista deixou um rastro de destruição no caminho. Os invasores alemães destruíram mais de 1500 cidades e vilas, mais de 70000 aldeias, 31000 fábricas e 100 milhões de cabeças de gado (Leffler, 1994). O crescimento foi máximo até 1970, ponto em que a economia soviética começou a ocorrer mais devagar. No entanto, mesmo durante esse período chamado (erroneamente) de estagnação pós-1970, o PIB per capita cresceu 27% (Allen, 2003).


 Enquanto as taxas de crescimento do PIB per capita soviético se mostram positivas em comparação com a das principais economias capitalistas, uma comparação ainda mais relevante é a com o resto do mundo. Em 1929, a União Soviética ainda era em grande parte um país agrário, e a maioria das pessoas trabalhava na agricultura, comparado com uma minoria na Europa Ocidental e na América do Norte. Assim, a economia da URSS no momento de sua transição para a propriedade pública e a planificação era muito diferente da dos países ocidentais industrializados. Por outro lado, o resto do mundo se parecia com a União Soviética, sendo também, em grande parte, agrário (Allen, 2003). É, por conseguinte, com o resto do mundo e não os Estados Unidos e outros países industrializados avançados que a URSS deve ser comparada. De 1928 a 1989, o PIB per capita soviético não só ultrapassou o crescimento dos países ricos como também excedeu o crescimento em todas as outras regiões do mundo combinadas, bem como em maior grau. Assim, a economia planificada de propriedade pública não só ultrapassou o desenvolvimento das economias capitalistas mais ricas como também cresceu ainda mais rápido que os países; ela cresceu ainda mais rápido que as economias dos países que eram parecidos com ela em 1928. Por exemplo, fora do seu núcleo sul, o PIB per capita da América Latina era de US$1332 (dólares de 1990), quase igual aos US$1370 da URSS. Em 1989, o mesmo dado alcançou, na América Latina, US$4486, mas a renda média da União Soviética havia alcançado um nível muito maior, US$7078 (Allen, 2003). A propriedade público e a planificação havia elevado nível de vida a um patamar mais alto do que o capitalismo na América Latina havia feito, apesar do mesmo ponto de partida. Além disso, enquanto a economia soviética nos tempos de paz crescia seguramente, a economia latino-americana crescia aos trancos e barrancos, com empresas regularmente fechando as portas e demitindo seus funcionários.

O i-Phone. Produzido pela ''livre iniciativa''? Pense de novo. 

 Talvez o melhor exemplo de como a planificação e a propriedade pública se saiu melhor em elevar o padrão de vida venha de uma comparação dos rendimentos da Ásia Central soviética com o dos vizinhos no Oriente Médio e Sul da Ásia. Em 1928 essas áreas estavam em um estado pré-industrial. Sob a propriedade pública e a planificação, a renda média na Ásia Central soviética cresceu para US$5257 em 1989, 32% maior que na vizinha capitalista Turquia, 44% maior que no vizinho capitalista Irã e 241% maior que no vizinho capitalista Paquistão (Allen, 2003). Para os asiáticos centrais, ficou claro que o padrão de vida do lado soviético da fronteira era mais alto.


A emulação do financiamento público de pesquisa e desenvolvimento por parte dos EUA


 Os defensores de uma economia de livre iniciativa querem nos fazer acreditar que a propriedade pública e a planificação sufocam a inovação, enquanto a livre iniciativa estimula-o. Se for esse o caso, como é que vamos explicar:



  • Que a União Soviética superou os EUA alcançando o espaço em 1950, acumulando um recorde de pioneirismos na exploração do espaço e, consequentemente, desencadeando um pânico em Washington?
  • Que a maioria das inovações nos EUA, da internet ao algoritmo do mecanismo de pesquisa do Google passando pelos medicamentos avançados e o iPhone sejam baseados não em investimento privado, mas em financiamento público?

 Na realidade, a verdade sobre a inovação é o exato oposto do que os apologistas do livre-mercado querem nos fazer crer. Não é a iniciativa, mas a planificação e o financiamento público que a dirigem.

 As conquistas soviéticas no espaço, se consideradas à luz da ideia equivocada de que a URSS sempre foi uma pobre segunda-melhor para o supostamente mais dinâmico EUA, são verdadeiramente surpreendentes. As conquistas soviéticas constituem o primeiro satélite, o primeiro homem em órbita, a primeira mulher em órbita, a primeira caminhada espacial, o primeiro pouso lunar, a primeira imagem do lado mais distante da lua, a primeira aterrissagem suave não tripulada na lua, o primeiro veículo lunar, a primeira estação espacial e a primeira sonda interplanetária. O pânico criado em Washington depois que a economia soviética supostamente sufocadora-de-inovações permitiu à URSS bater seu adversário ideológico muito mais rico no espaço galvanizou os Estados Unidos para pegar uma folha do livro soviético. Assim como os soviéticos estavam fazendo, Washington usaria fundos públicos para fortalecer a pesquisa em inovações. Isso seria feito por meio da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada em Defesa, a DARPA. Esta viria a canalizar dinheiro público para cientistas e engenheiros para pesquisa militar e espacial, entre outras. Muitas das inovações que sairiam da DARPA viriam a fazer o caminho para os investidores privados, que os usariam para lucro próprio (Mazzucato, 2011). Desta forma, os investidores privados foram poupados de arriscar seu próprio capital, como a mitologia da livre-iniciativa quer nos fazer crer que eles fazem. Nessa mitologia, perspicazes e ousados capitalistas colhem grandes lucros por arriscar seu capital em uma pesquisa que poderia nunca ser paga. Exceto que não é assim que funciona. É muito melhor para os investidores investir seu capital em empreendimentos com menos riscos e retornos imediatos, enquanto o público arca com o ônus do financiamento de pesquisa e desenvolvimento e seus muitos riscos e inseguranças. Usando sua riqueza, influência e conexões, os investidores têm pressionado com sucesso os políticos para manter este agradável arranjo no lugar. A realidade da livre-iniciativa, portanto, baseia no sistema-otário: o risco é socializado (ou seja, bancado pelo público, os otários), enquanto os benefícios são ''privatizados'' (por investidores que manipularam políticos para impôr ao público o ônus de financiar a pesquisa e o desenvolvimento).

 Um estudo realizado por Block e Keller (2008) constatou que, entre 1971 e 2006, 77 das 88 melhores inovações em pesquisa e desenvolvimento tinham sido totalmente financiadas pelo governo dos EUA. Resumindo uma pesquisa da economista Mariana Mazzucato, o colunista do Guardian Seumas Milne (2012) aponta que

''Os algoritmos que sustentaram o sucesso do google foram financiados pelo setor público. A tecnologia no iPhone da Apple foi inventada no setor público. Em ambos EUA e Reino Unido foi o Estado, e não a indústria farmacêutica, que financiou os mais inovadores medicamentos 'nova entidade molecular', com o setor privado desenvolvendo, então, pequenas variações. E na Finlândia, foi o setor público que financiou o desenvolvimento precoce da Nokia — e fez um retorno desse investimento.''

 A energia nuclear, a tecnologia para satélites e foguetes e a internet são outros exemplos de inovações que foram produzidas com dinheiro público, e têm sido usadas desde então para lucro privado. O presidente estadunidense Barack Obama reconheceu a natureza da fraude em um pronunciamento sobre o estado da nação de 2011: ''Nosso sistema de livre-iniciativa'', começou o presidente, ''é o que impulsiona a inovação.'' No entanto ele imediatamente se contradisse ao dizer que ''mas porque nem sempre é rentável às empresas investir em pesquisa básica, ao longo da história o nosso governo tem proporcionado cientistas e inventores de ponta e o suporte de que eles necessitam.''

 Tudo isso aponta para dois fatos importantes: (1) os Estados Unidos deram o ponta-pé inicial na inovação de sua economia pela simulação do modelo soviético de pesquisa dirigida pelo Estado porque a iniciativa privada não estava à altura da tarefa e (2) em vez de imitar o modelo soviético para o beneficiamento público, os EUA canalizaram o financiamento público em pesquisa e desenvolvimento para o lucro privado. A partir do segundo ponto pode inferir-se um terceiro: o fato de que os soviéticos socializaram os benefícios que fluem dos riscos socializados, enquanto os EUA ''privatizaram-lhes'', reflete a natureza antagônica dessas duas sociedades: uma delas, uma sociedade orientada pelo coletivo e organizada para beneficiá-lo; a outra, uma sociedade de negócios organizada para beneficiar uma minoria de proprietários e donos de empresas. O capitalismo, como o presidente dos EUA reconhece, não promove a inovação, porque ''nem sempre é rentável para as empresas investir em pesquisa básica.'' Por outro lado, o financiamento dirigido pelo Estado é fonte de inovação. Claramente, então, uma agenda política tem alimentado dois mitos: (a) que um sistema de propriedade pública e planificação impede a inovação e (b) que o sistema de lucro a estimula.

Por que o crescimento desacelerou

 Embora a economia soviética tenha crescido rapidamente entre 1928 e 1989, esta nunca ultrapassou as economias da América do Norte, Europa Ocidental e Japão. Consequentemente, a renda perca pita da URSS sempre foi menor que a das economias capitalistas industrializadas. A desvantagem comparativa dos rendimentos e condições de vida foi falsamente atribuída às supostas ineficiências da propriedade pública e da planificação, em vez da realidade de que, tendo iniciado ainda mais para trás que os países capitalistas ricos, a União Soviética tinha mais estrada para percorrer. Quando a corrida começou, em 1928, a União Soviética ainda era em grande parte um país agrário enquanto os EUA já era industrializado. Por isso a União Soviética tinha de percorrer o terreno que os EUA já haviam percorrido quando a Rússia estava sob o domínio sufocante da tirania czarista. Além disso, tinha que fazê-lo sem riquezas extraídas de outros países, como os EUA, Grã-Bretanha, França e Japão que haviam baseado parte de sua prosperidade em explorar seus próprios impérios formais e informais (Murphy, 2000). É verdade que a URSS possuía um grupo de países satélites na Europa Oriental — sobre os quais exerceu hegemonia, mas, exceto nos primeiros anos do pós-2ª Guerra Mundial, esses países nunca foram economicamente explorados pela União Soviética. Se qualquer coisa, os soviéticos, que exportavam matérias-primas em troca de bens manufaturados, saíram perdendo no final de sua relação comercial com seus satélites. Enquanto eles permaneceram membros do Pacto de Varsóvia — uma aliança defensiva formada depois e em resposta à OTAN — e mantiveram alguma aparência de propriedade pública e planejamento, Moscou permitiu aos países do Leste Europeu traçar seu próprio curso. A hegemonia soviética, então, limitou-se a dar cumprimento a essas duas condições (Szymanski, 1979).

 Em meados da década de 1970 havia uma série preocupação em Washington de que a economia soviética estava em rumo de ultrapassar a dos Estados Unidos. Uma vez que Washington sempre apontou para a maior renda média e o padrão de vida mais elevado dos Estados Unidos para mobilizar a fidelidade de sua população, a liderança soviética (no campo da economia) seria um golpe mortal à legitimidade do capitalismo estadunidense. Estimativas cuidadosas preparadas nos EUA mostraram que o PIB soviético estava ganhando do estadunidense. Em 1950, a economia soviética era apenas um terço da economia estadunidense, mas cresceu para quase metade 8 anos depois (Sherman, 1969). Do ponto de vista dos estrategistas em Washington no final dos anos 1950, o perigo que se aproximava era que, no ritmo corrente, a economia soviética ultrapassasse a economia dos EUA por volta de 1982. Nesse momento, todo o fundamento da crença da população dos EUA na necessidade da livre-iniciativa — que esta produziu um padrão de vida mais elevado do que a propriedade pública e a planificação — desmoronaria. Alguma coisa tinha de ser feita.

 Em 1975, a CIA estimou que a economia soviética era cerca de 60% da economia estadunidense (Kotz  e Weir, 1997). No entanto, o crescimento econômico soviético começava a desacelerar. De acordo com dados fornecidos por Allen (2003), o PIB per capita soviético cresceu a uma taxa de 3,4% de 1928 a 1970, mas a menos de metade dessa taxa, 1,3%, de 1970 a 1989. Teria os Estados Unidos, alarmado por ter sido batido na corrida espacial e agitado por aquilo que parecia a perspectiva bem real de ser economicamente ultrapassado pela URSS, manobrado para sabotar o progresso soviético?

 A guerra fria nunca foi gentil com as perspectivas soviéticas de crescimento. Os líderes soviéticos reconheceram que uma economia planificada e de propriedade pública era uma anátema para os capitães da indústria e das finanças que usam sua riqueza e conexões para dominar a política nos países capitalistas. A URSS tinha sido invadida várias vezes, e em duas ocasiões por potências capitalistas agressivas com o intuito de varrer o sistema soviético para fora do mapa. A fim de deter futuras agressões, foi necessário manter o ritmo militarmente. Portanto, a União Soviética lutava da melhor forma que podia para obter uma paridade militar áspera para manter uma convivência pacífica com os seus vizinhos capitalistas (Szymanski, 1979).

 No entanto, o tamanho menor da economia soviética em relação a seus concorrentes ideológicos gerou problemas. A necessidade de manter a paridade militar áspera significou gastar um percentual muito mais elevado do PIB com os militares em comparação com o que os EUA e outros países da OTAN gastavam em suas forças armadas. Recursos que poderiam ter sido mobilizados para a expansão industrial para ajudar o país a elevar-se economicamente tiveram de ser alocados para a auto-defesa (Murphy, 1999). Desde a década de 1950 até a de 1970, os soviéticos gastaram de 12 a 14% do seu PIB com o exército (Szymanski, 1984; Allen, 2003), um número que iria crescer muito mais depois, quando o governo Reagan elevou os gastos militares, antecipando um esforço soviético para manter-se que poderia prejudicar a economia da URSS.

 Outra restrição imposta à economia soviética pela necessidade de deter a agressão militar foi a monopolização dos recursos de pesquisa e desenvolvimento por parte dos militares.

 Mantendo o ritmo militarmente envolvido numa batalha incessante para alcançar a inovação militar estadunidense. Quando os EUA Explode a primeira bomba atômica em 1945, a URSS correu para igualar a façanha científica dos EUA. O que fez isso quatro anos depois. A introdução dos Estados Unidos da bomba de hidrogênio em 1952 foi rapidamente seguido pelos soviéticos explodindo  sua própria bomba de hidrogênio, um ano depois. O primeiro submarino estadunidense lançador de mísseis nucleares foi acompanhado pela URSS um ano depois. Nenhuma arma importante foi primeiro desenvolvida pela URSS, com uma única exceção — A ICBM. Ao contrário dos EUA, a URSS não tinha bases militares perto do seu rival ideológico. E, portanto, precisava de uma maneira de transportar ogivas nucleares em longas distâncias. No entanto, o objetivo foi em legítima defesa, e que a União Soviética era normalmente em modo de recuperação em sistemas de armas demonstrou que os Estados Unidos estavam estimulando a Guerra Fria adiante, não a URSS. Para os soviéticos, a Guerra Fria era um veneno econômico. Para os estadunidenses, a Guerra Fria foi uma forma de arruinar a economia soviética. Devido a autodefesa ter sido a prioridade, os cientistas e engenheiros da URSS foram canalizados para o setor militar. Os bens de consumo soviéticos foram, frequentemente, ditos terem sido de baixa qualidade, mas ninguém diz o mesmo sobre os equipamentos militares soviéticos. A razão é clara: Os militares tinham a primazia sobre as melhores mentes e os melhores equipamentos e nunca teve falta de financiamento. Há um ponto subsidiário: armas soviéticas de alta qualidade por um sistema de propriedade e planejamento público, apesar do mito de que tal sistema é incapaz de produzir produtos de alta qualidade (Kotz,2008). A necessidade de canalizar a maior parte e melhores recursos de pesquisa de desenvolvimento para a área militar fez com que os outros setores sofressem, e o crescimento do PIB foi interrompido. Por exemplo, os soviéticos fracassaram em seus esforços para aumentar a produção de petróleo, por causa dos metais, máquinas, cientistas e engenheiros necessários para aumentar a produção de óleo que foram enviados para o setor militar (Allen,2003). Metade de produção de máquina- ferramentas produzidas e, pelo menos, metade dos gastos em Pesquisas e desenvolvimento estavam indo para indústria da defesa.

 Outra razão para a desaceleração pós-1975 na economia soviética era que a URSS tinha se ficado enrolada numa armadilha ricardiana (Allen, 2003). A União Soviética tinha uma oferta abundante de todas as matérias-primas de uma economia industrial necessária e, a princípio, eles eram fáceis de alcançar e, portanto, poderiam ser obtidos a baixo custo. Por exemplo, no início dos anos de industrialização da URSS, minas a céu aberto foram escavadas perto de centros industriais. Minerais estavam perto da superfície e poderiam ser transportados em distâncias curtas para fábricas próximas. Portanto, os custos de produção e transporte eram mínimos. No entanto, ao longo do tempo, os minerais que estavam perto da superfície foram escavados para fora e poços tornou-se mais profundo e mais estreito. Em grandes profundidades, a quantidade de minerais que puderam ser extraídos e os custos diminuídos para alcançá-los, aumentaram.

 Eventualmente as minas foram esgotadas, e novas minas tiveram de ser abertas, mas bem longe dos centros industriais, o que significa custos mais elevados para o transporte de matérias- primas para as fábricas. A indústria do petróleo soviético ficou igualmente presa numa armadilha ricardiana. No início da década de 1970, a União Soviética foi perdendo $ 4.6 bilhões de dólares por ano para manter sua indústria petrolífera. Como o petróleo tornou-se mais difícil de alcançar, os soviéticos tinham que ir mais profundamente e através das rochas mais duras. Os custos aumentaram atingindo $6.0 bilhões de dólares até o final da década. No início da década de 1980, os custos haviam subido para $ 9,0 bilhões por ano (Schwizer.1994). Os soviéticos poderiam ter escapado da armadilha ricardiana procurando por importados mais baratos. Porém, isso os teria deixado vulneráveis a problemas de fornecimento. Os Estados Unidos e seus aliados — aqueles que sempre seriam hostis à União Soviética, exceto quando a conveniência ditava alianças temporárias ou abrandamento das tensões, poderiam interditar matérias-primas importantes para URSS para deixar a economia soviética de joelhos ou extorquir concessões. Em outras palavras, dada a elevada probabilidade de que os Estados Unidos iriam explorar oportunidades para colocar a União Soviética em desvantagem, comprando importados mais baratos, em vez de implementar uma política de recursos de autossuficiência, não era uma opção realista.


Conquistas soviéticas no espaço: O primeiro satélite, primeiro animal em órbita, primeiro homem em órbita, primeira mulher em órbita, primeira caminhada espacial, impacto primeira lua, primeira imagem do lado mais distante da Lua, o primeiro não-tripulado lunar aterragem suave, primeiro rover espacial , primeira estação espacial e primeira sonda interplanetária.



 Outra razão de a economia soviética ter desacelerado foi o fato de que os custos para a União Soviética apoiar os seus aliados começaram a alcançar níveis insustentáveis. Uma forma de reforçar a autodefesa é encontrar amigos que partilham o mesmo inimigo, e a União Soviética começou a expandir sua aliança de países amigos, prestando assistência econômica e militar a países e movimentos hostis às forças reacionárias. Ao fazê-lo, tornou-se o banqueiro para os movimentos de libertação nacional, os países socialistas do Leste Europeu, e vários países do Terceiro Mundo, que procuraram escapar e permanecerem livres da dominação dos poderosos estados capitalistas.



 Em 1981, a União Soviética e seus aliados europeus orientais tiveram 96.000 conselheiros econômicos em 75 países e 16.000 conselheiros militares em 34 países, em conjunto com um contingente de 39.000 tropas cubanas na África, um exército que Moscou acabou pagando a conta. Ao mesmo tempo, os soviéticos foram pegar bolsa de estudos para 72.000 estudantes do Terceiro Mundo matriculados em universidades soviéticas e do Leste Europeu (Miliband, 1989). Em 1980, Moscou estava gastando 44 bilhões de dólares por ano com seus aliados (Keeran e Kenny, 2004). Ele deu US $ 4,5 bilhões em ajuda para Varsóvia a partir de agosto de 1980 a agosto 1981 sozinho para ajudar a conter o movimento Solidariedade apoiado pelos EUA (Schweizer, 1994). Enquanto isso, a guerra no Afeganistão estava drenando o tesouro Soviético até a quantia de US $ 3 a US $ 4 bilhões por ano. Em outras palavras, os custos para sustentar aliados tinham crescido enormemente, os custos das matérias-primas foram aumentados, os melhores cientistas, engenheiros e máquinas-ferramentas estavam sendo monopolizado pelos militares e gastos militares estavam consumindo uma grande porcentagem da renda nacional.

 Uma grande parte da situação em que os soviéticos se encontravam deveu-se a uma decisão da administração Reagan que tinha tomado para tentar paralisar a economia soviética. Em Outubro de 1983, o presidente estadunidense Ronald Reagan lançou o que se tornaria conhecido como a Doutrina Reagan ‘‘O objetivo do mundo livre não deve mais ser indicado em negativo, isto é, como resistência ao expansionismo soviético,” disse o presidente dos EUA.  ''o  objetivo do mundo livre deve, em vez disso, ser indicado no positivo. Nós temos de ir para a ofensiva com uma estratégia progressiva para a liberdade''. A guerra começou.

 De modo mais formal, a Doutrina Reagan foi exposta numa série de decisões diretivas de segurança nacional, ou NSDDs (sigla em inglês). NSDD-66 foi anunciado que seria a política dos EUA para perturbar a economia soviética, enquanto que o NSDD-75 comprometeu os EUA a tentar elevar os custos da economia soviética a fim de mergulhar a URSS numa crise. A economia soviética era para ser espremida, e uma das medidas era induzir Moscou a aumentar seu orçamento de defesa (Schmweizer 1994). A alta tecnologia na corrida armamentista, seria a chave.Ela não só forçaria Moscou a desviar mais recursos para o setor militar, mas canalizaria ainda mais cientistas, engenheiros, máquinas-ferramentas  e orçamento para pesquisa e desenvolvimento militar, reduzindo investimentos produtivos e travando a economia civil ainda mais do que a Guerra Fria já havia feito. O objetivo era forçar a União Soviética "a gastar sangue precioso para disputar uma corrida contra um inimigo mais atlético" (Schweizer, 1994), um inimigo que tinha uma economia maior e mais recursos para durar a corrida, porque tinha começado a um nível superior de desenvolvimento e foi saqueando vários países ao redor do mundo de suas riquezas.

 Durante os primeiros seis anos de sua presidência, Reagan mais do que duplicou gastos militares dos EUA, a compra de 3.000 aviões, 3.700 mísseis estratégicos, e perto de 10.000 cisternas (Schweizer, 1994). Para acompanhar, os gastos militares Soviéticos, anteriormente em 12 a 14 por cento do PIB, começou a subir. Já duas vezes maior que o dos Estados Unidos como uma percentagem do rendimento nacional (Silber, 1994) o orçamento de defesa cresceu mais ainda. Os gastos militares aumentaram 45 por cento em cinco anos, superando consideravelmente o crescimento da economia soviética. Em 1990, os soviéticos estavam gastando mais do que 20 por cento do PIB do país em matéria de defesa (Englund, 2011). Ao mesmo tempo, Moscou aumentou seus gastos  militares em pesquisa e desenvolvimento quase duas vezes. Na primavera de 1984, o líder soviético Konstantin Chernenko anunciou que "a complexa situação internacional nos obrigou a desviar uma grande quantidade de recursos para reforçar a segurança do nosso país" (Schweizer, 1994).


A Doutrina Reagan foi posta em prática em uma série de decisões diretivas sobre a segurança nacional, as NSDDs. A NSDD-66 anunciou que seria uma política estadunidense quebrar a economia soviética, enquanto a NSDD-75 comprometeu os Estados Unidos a tentar elevar os custos da economia soviética, a fim de mergulhar a URSS em uma crise.




 Enquanto isso, a administração Reagan tinha tomado uma página do livro de Che Guevara. O revolucionário argentino havia chamado por não um, não dois, mas três Vietnãs, para drenar o Tesouro dos EUA. Voltando a doutrina de Che contra o comunismo, o diretor da CIA Bill Casey chamado por não um, não dois, mas uma meia dúzia de Afeganistãos . Para atolar os soviéticos no "seu próprio Vietnã", os mujahedin afegãos foram regados com dinheiro e armas. Na Polônia, apoio financeiro, inteligência e apoio logístico foram vertidos para o movimento Solidariedade, forçando Moscou a aumentar o apoio ao governo polaco (Schweizer, 1994).

 Os meios de comunicação soviéticos se queixaram de que os Estados Unidos queriam impor "uma corrida armamentista ainda mais ruinosa", acrescentando que Washington esperava que a economia soviética estaria esgotada (Izvestiya, 1986). Ministro soviético das Relações Exteriores,  Andrei Gromyko, reclamou que reforço militar dos Estados Unidos teve como objetivo esgotar os recursos materiais da URSS e forçar Moscou para se render. Gorbachev ecoou Gromyko, dizendo que os cidadãos soviéticos sobre isso,

“Os EUA querem esgotar a União Soviética economicamente através de uma corrida nas armas espaciais mais modernas e caras. O país quer criar vários tipos de dificuldades para a liderança soviética, para destruir os seus planos, inclusive na esfera social, no âmbito da melhoria do nível de vida do nosso povo, assim despertando a insatisfação entre as pessoas com a sua liderança” (Schweizer de 1994 ).


 Em meados da década de 1980, era claro em Washington e Moscou, que a União Soviética estava em apuros. Não era que o sistema de propriedade e planejamento público não estava funcionando. Pelo contrário, reconhecendo as vantagens do sistema soviético, os próprios Estados Unidos haviam emulado para estimular a inovação em sua própria economia. Além disso, a economia soviética ainda estava se expandindo de forma confiável, como tinha feito todos os anos em tempo de paz desde que Stalin tinha trazido sob o controle público, em 1928. No entanto, a defesa do país em face de uma intensificada Guerra Fria estava ameaçando sufocar o crescimento econômico completamente. Ficou claro que as perspectivas de Moscou para manter o ritmo com os Estados Unidos militarmente, e, ao mesmo tempo sustentando aliados sob ataque de insurgentes anticomunistas, estadunidenses alimentando e derrubando movimentos, estavam longe de ser otimista. Os Estados Unidos haviam manobrado a União Soviética em uma armadilha. Se Moscou continuasse a tentar se igualar aos EUA militarmente, isso acabaria por levá-la a falência e sua capacidade de deter os EUA ficaria perdida. Se não se tentou manter o ritmo, já não se poderia deter a agressão estadunidense. Não importa o caminho que Moscou tomou, o resultado seria o mesmo. A única diferença seria o tempo que levaria para o inevitável acontecer.



 Gorbachev escolheu atender o inevitável, mais cedo ou mais tarde. Seu assessor de Relações Exteriores, Anatoly Chernayaev, lembra que foi "um imperativo para a Gorbachev que tivemos que colocar um fim à Guerra Fria, que tivemos que reduzir nosso orçamento militar de forma significativa, que tivemos de limitar nosso complexo industrial militar, de algum jeito "(Schweizer, 1994). A necessidade de frear o orçamento de defesa foi ecoado por outro consultor de Gorbachev, Aleksandr Yokovlev, que mais tarde recorda que "Ficou claro que o nosso gasto militar era enorme e tivemos que reduzi-lo" (Blum, 1995). Gorbachev, portanto, retirou o apoio de aliados e prometeu cooperação com os Estados Unidos. Esta foi uma rendição. A capitulação foi escondida por trás de frases melosas sobre promoção da cooperação internacional e promoção dos valores humanos universais, mas a retórica não escondeu o fato de que Gorbachev estava jogando a toalha. Ele descreveu a rendição como uma vitória para a humanidade, declarando que ele havia evitado "a ameaça de guerra nuclear", terminou a "corrida armamentista nuclear," reduzido "forças armadas convencionais," resolvido "inúmeros conflitos regionais que envolvam a União Soviética e os Estados Unidos ", e substituído" a divisão do continente europeu em campos hostis com ... uma casa comum europeia "(Gorbachev, 2011). Ao reduzir a ameaça de uma guerra nuclear global, Gorbachev tinha realmente conseguido uma vitória para a humanidade. No entanto, a vitória foi provocada por ceder aos Estados Unidos, que agora estava livre para passar por cima países que eram fracos demais para recusar as exigências dos EUA que produzem para a dominação política, militar e econômica.

 Por questões domésticas, Gorbachev-que se identificou com a posição democrático-social, principalmente, do Partido Comunista Italiano (Hobsbawm, 1994) tentou transformar a União Soviética num estilo ocidental de democracia social (Roberts, 1999). Ele citou a necessidade de inverter a desaceleração da economia soviética como sua justificativa para a transição (Gorbachev, 1988). O crescimento econômico certamente tinha abrandado, e realmente havia o perigo de que a continuação do crescimento lento iria ameaçar a posição frente aos rivais capitalistas do seu país. No entanto, a solução de Gorbachev totaliza, "Se você não pode vencê-los, junte-se a eles." O aparato de planejamento, que infalivelmente traçava o percurso para o crescimento incessante em tempo de paz, foi desmantelado, a fim de levar a economia à regulação pelas forças de mercado. Ao invés de impulsionar o crescimento econômico, como Gorbachev esperava, o abandono do planejamento fez exatamente o oposto. A economia caiu de cabeça em um abismo, a partir do qual os países sucessores da URSS não sairiam por anos. Como um engraçadinho colocou, "Stalin encontrou a União Soviética um naufrágio e deixou uma superpotência; Gorbachev achou uma superpotência e deixou um naufrágio. "Gorbachev ainda é muito admirado no Ocidente, mas sua popularidade termina na fronteira com a Rússia.  Em março de 2011, uma pesquisa constatou que apenas um em cada 20 russos admiram o último líder da União Soviética, e que "perestroika", o nome para o movimento de Gorbachev em direção a uma economia de mercado ", tem quase puramente conotações negativas" (Applebaum, 2011).

Gorbachev ainda é largamente admirado no Ocidente, mas sua popularidade para nas fronteiras da Rússia. Uma pesquisa em março de 2011 verificou que apenas um em vinte russos admiram ao último líder da URSS, e que a ''perestroika'', o nome da guinada de Gorbachev para uma economia de mercado, tem na maioria dos casos conotações negativas.


O sistema superior



 Com poucas exceções, o que dizem numa discussão séria sobre URSS está cheio de preconceito, distorção e equívoco. Trancada em batalha com a União Soviética, durante décadas, Washington deliberadamente promoveu equívocos sobre o seu inimigo ideológico. O objetivo era fazer com que a URSS parecesse sombria, brutal, repressiva, economicamente lenta e ineficiente, e não o tipo de lugar que ninguém em sã consciência iria querer imitar ou viver. Hoje, acadêmicos, jornalistas, políticos, funcionários do Estado, e até mesmo alguns comunistas repetem a  velha propaganda da Guerra Fria. A economia soviética, na opinião deles, nunca funcionou muito bem. No entanto, a verdade sobre a questão é que ela funcionou muito bem. Ela cresceu mais rápido ao longo do período que foi de propriedade pública e planejada do que a economia dos EUA, supostamente dinâmica, para não falar das economias dos países que eram tão subdesenvolvidas como a URSS era em 1928, quando a economia soviética foi trazida sob o controle público. A economia soviética era inovadora o suficiente para permitir que a URSS ultrapassasse os Estados Unidos na exploração espacial, apesar de os Estados Unidos "terem mais recursos, um evento que inspirou os estadunidenses a imitar o apoio público da União Soviética para pesquisa e desenvolvimento. Além disso, o sistema soviético de propriedade pública e do planejamento empregava de forma eficiente todos os seus recursos de capital e humano, ao invés de manter exércitos de trabalhadores desempregados e ineficiente funcionando abaixo de sua capacidade, como as economias capitalistas regularmente fazem. Todos os anos, 1928-1989, exceto durante os anos de guerra, a economia soviética se expandido de forma confiável, proporcionando empregos, abrigo e uma grande variedade de serviços públicos de baixo custo ou gratuito para todos, enquanto que as economias capitalistas afundaram regularmente em recessão e que tiveram de  lutar continuamente em meio aos destroços de vidas humanas.

 O Conselho Nacional de Inteligência estadunidense faz um alerta preocupante de que a economia mundial tendente à crise poderia produzir o caos e angústia numa escala ainda maior do que a última crise (Shanker, 2012). Oferecendo um "prognóstico sombrio" sobre a economia mundial, a ONU adverte que "uma nova recessão global que afunda muitos países em um ciclo de austeridade e desemprego durante anos" (Gladstone, 2012). Mas, ao mesmo tempo, somos informados de que a economia soviética nunca funcionou, e que o capitalismo, com suas crises regulares, falha em não promover emprego, comida, roupas e abrigo a todos, é ao mesmo tempo a única opção e o sistema superior. Claramente, não é um sistema superior, ao contrario, é claramente inferior e tampouco a  única opção. Não só podemos fazer melhor, temos feito melhor. É hora de derrubar o muro de equívocos politicamente engendrados sobre a propriedade pública e do planejamento. Por muito tempo, o muro nos impediu de ver um modelo alternativo viável ao capitalismo, cujo histórico de pontos de sucesso inigualável para um futuro realista e possível aos “99 por cento”, um futuro livre de desemprego, recessão, extremos de riqueza e pobreza, e onde bens e serviços essenciais estão disponíveis sem nenhum custo para todos.


BIBLIOGRAFIA

Allen, Robert C (2003). Farm to Factory: A Reinterpretation of the Soviet Industrial Revolution, Princeton University Press, 2003.

Applebaum, Binyamin (2012). “A shrinking military budget may take neighbours with it”, The New York Times, January 6, 2012.

Block, Fred and Keller, Matthew R (2008). “Where do innovations come from? Transformations in the U.S. national innovation system, 1970-2006,” Technology and Innovation Foundation, July 2008. http://www.itif.org/files/Where_do_innovations_come_from.pdf

Blum, William (1995). Killing Hope: U.S. Military Interventions since World War II, Common Courage Press, 1995.

Canadian Centre for Policy Alternatives (2011). “Hennessy’s Index”, February, 2011.

Englund, Will (2011). “Gorbachev in London: Credit, no cash”, The Washington Post, July 16, 2011.

Gladstone, Rick (2012). “U.N. presents grim prognosis on the world economy,” The New York Times, December 18, 2012.

Gorbachev, Mikhail (1988). Perestroika: New Thinking for Our Country and the World, Harper & Row.

Gorbachev, Mikhail (2011). “Is the world really safer without the Soviet Union?” The Nation, December 21, 2011.

Hobsbawm, Eric (1994). Age of Extremes: The Short Twentieth Century, 1914-1991, Abacus, 1994.

Izvestiya (1986). “Chance missed, search continues”, October 17, 1986, cited in Schweizer, 1994.

Keeran, Roger and Kenny, Thomas (2004). Socialism Betrayed: Behind the Collapse of the Soviet Union, International Publishers, New York, 2004.

Kotz, David M (2000). “Socialism and Capitalism: Lessons from the Demise of State Socialism in the Soviet Union and China,” in Socialism and Radical Political Economy: Essays in Honor of Howard Sherman, edited by Robert Pollin, Cheltenham and Northampton: Edward Elgar, 2000, 300-317.

Kotz, David M (2003). “Socialism and Global Neoliberal Capitalism”, Paper written for the International Conference: The Works of Karl Marx and Challenges for the XXI Century, Havana, Cuba, May 5-8, 2003.

Kotz, David M (2008). “What Economic Structure for Socialism?” Paper written for the Fourth International Conference “Karl Marx and the Challenges of the XXI Century, Havana, May 5-8, 2008.

Kotz, David M (2011). “The Demise of the Soviet Union and the International Socialist Movement Today”. Paper written for the International Symposium on the 20th Anniversary of the Former Soviet Union and its Impact, Beijing, April 23, 2011.

Kotz, David with Fred Weir (1997). Revolution From Above: The Demise of the Soviet System, Routledge, 1997.

Leffler, Melvyn P (1994). The Specter of Communism: The United States and the Origins of the Cold War, 1917-1953, Hill and Wang, 1994.

Lerouge, Herwig (2010). “How the October Revolution and the Soviet Union contributed to the labour movement in Western Europe, and more particularly in Belgium”, Belgium Works Party, May 05, 2010.

Mazzucato, Mariana (2011). The Entrepreneurial State, Demos, 2011 http://www.demos.co.uk/files/Entrepreneurial_State_-_web.pdf?1310116014

Miliband, Ralph (1989). Divided Societies: Class Struggle in Contemporary Capitalism, Oxford University Press, 1989.

Milne, Seumas (2012). “Budget 2012: George Osborne is stuck in a failed economic model, circa 1979,” The Guardian (UK), March 20, 2012.

Murphy, Austin (2000). The Triumph of Evil: The Realities of the USA’s Cold War Victory, European Press Academic Publishing, 2000.

Parenti, Michael, (1997). Blackshirts & Reds: Rational Fascism and the Overthrow of Communism, City Light Books, 1997.

Roberts, Geoffrey (1999). The Soviet Union in World Politics: Coexistence, Revolution and Cold War, 1945-1991, Routledge, 1999.

Schweizer, Peter (1994). Victory: The Reagan Administration’s Secret Strategy that Hastened the Collapse of the Soviet Union, The Atlantic Monthly Press, New York, 1994.

Shanker, Thom (2012). “Study predicts future for U.S. as No. 2 economy, but energy independent”, The New York Times, December 10, 2012

Sherman, Howard J (1969). The Soviet Economy, Little, Brown and Company, 1969.

Silber, Irwin (1994). Socialism: What Went Wrong? An Inquiry into the Theoretical and Historical Sources of the Socialist Crisis, Pluto Press, 1994

Stalin, J.V., Works, Foreign Languages Publishing House, 1954, vol. 9, pp. 28-29. Report delivered at the 7th enlarged Plenum, December, 1926.

Szymanski, Albert (1979). Is the Red Flag Flying? The Political Economy of the Soviet Union Today, Zed Press, London, 1979.

Szymanski, Albert (1984). Human Rights in the Soviet Union, Zed Books Ltd, London, 1984.

Walker, Marcus and Kakaounaki, Marianna (2012). “Struggles mount for Greeks as economy faces winter,” The Wall Street Journal, December 18, 2012.


* ''Uma agricultura primitiva, de baixa produtividade (tanto em termos de rendimentos por hectare quanto de produtividade por trabalhador), é incapaz de produzir um excedente de alimentos para atender às necessidades de uma população urbana crescente e de oferecer matérias primas agrícolas necessárias às industriais.'' (SACHS, Ignacy. Desenvolvimento: includente, sustentável, sustentado. Rio de Janeiro: Garamond, 2008, pp.77-78)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Trechos de ''Manuscritos Econômico-Filosóficos'' sobre a igualdade de salários


Karl Marx (1818-1883) foi um filósofo, historiador, sociólogo e economista alemão. Fundador do assim chamado ''socialismo científico'', é considerado uma das personalidades mais influentes na formação da realidade contemporânea, e de suma importância nos movimentos trabalhistas.

''Já observamos que o salário e a propriedade privada têm origem idêntica. Certamente, o salário, tal como produto ou objeto do trabalho, o próprio trabalho remunerado, constitui apenas uma consequência necessária da alienação do trabalho (o operário é quem produz as mercadorias, mas estas não lhe pertencem). No sistema de salários, o trabalho aparece não como fim em si mesmo, mas como escravo do salário. Iremos desenvolver mais tarde o último ponto e, por enquanto, veremos apenas algumas consequências.

 Um aumento forçado dos salários (deixando de lado todas as dificuldades e, sobretudo, que tal anomalia só poderia manter-se pela força) não passaria de uma melhor remuneração dos escravos e não restituiria o significado e o valor humanos nem ao trabalhador nem ao trabalho.

 A própria igualdade de salários, que Proudhon determina, mudaria exclusivamente a relação do atual trabalhador com seu trabalho no interior da relação de todos os homens com o trabalho. A sociedade será concebida, agora, como um capitalista abstrato.'' - Karl Marx, Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), ''O trabalho alienado''


''Assim como diferem os custos de produção de força de trabalho de diferente qualidade, têm que diferir, também, os preços das forças de trabalho aplicadas nas diferentes indústrias. Por consequência, o grito pela igualdade de salários assenta num erro, é um desejo oco, que jamais se realizará. É um rebento desse falso e superficial radicalismo que admite as premissas e procura fugir às conclusões. Dentro de qualquer sistema de salariado, o preço da força de trabalho se fixa como o de qualquer outra mercadoria, e como distintas espécies de força de trabalho possuem diferentes valores, ou exigem para a sua produção distintas quantidades de trabalho, necessariamente têm que ter preços distintos no mercado de trabalho.

 Pedir uma retribuição igual ou simplesmente justa, na base do sistema de salariado, é o mesmo que pedir liberdade na base do sistema de escravatura.'' - Idem, idem, ''Salário, preço e lucro''

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Fragmento do ''Manifesto de Lançamento da Associação Internacional dos Trabalhadores''



 ''Se a emancipação dos trabalhadores requer sua união fraternal, como poderão realizar essa missão com uma política exterior voltada para objetivos criminosos, tirando partido dos preconceitos nacionais e malbarateando o sangue e a riqueza do povo em guerras de pirataria? Não foi a prudência das classes dominantes e sim a resistência heroica à sua loucura por parte do operariado da Inglaterra que salvou a Europa ocidental de ser lançada em uma cruzada infame pela perpetuação e propagação da escravidão do outro lado do Atlântico.¹

 A aprovação descarada, a compaixão fingida ou a indiferença idiota com que as classes superiores da Europa têm presenciado a fortaleza montanhosa do Cáucaso ser subjugada e a heroica Polônia ser assassinada pela Rússia²; as imensas invasões, perpetradas sem resistência, por aquela potência bárbara cuja cabeça está em São Petersburgo e cujas mãos se encontram em todos os gabinetes da Europa, ensinaram aos trabalhadores o dever de dominarem eles próprios os segredos da política internacional; de observarem a ação diplomática de seus respectivos governos; de combaterem esta atuação, quando necessário, por todos os meios ao seu alcance; e quando impossibilitados de impedi-la, de se unirem em denúncias simultâneas, e afirmarem as leis simples da moral e da justiça, que devem governas as relações dos indivíduos, assim como as regras principais do intercâmbio entre as nações.

 A luta por tal política externa faz parte da luta geral pela emancipação dos trabalhadores.''

- Karl Marx.

Notas:

1 - Referência à campanha enérgica desenvolvida pelos operários ingleses durante a Guerra Civil Americana, campanha essa dirigida contra as tentativas da burguesia inglesa e francesa de organizar uma intervenção armada em favor dos estados sulistas que sustentavam a escravidão.

2 - Marx refere-se à conquista do Cáucaso pela Rússia czarista, que resultou na submissão e no empobrecimento das nacionalidades, bem como à repressão, pelo governo czarista, do levante revolucionário ocorrido na Polônia em 1863-1864.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Noções básicas de materialismo histórico

 Karl Marx, influenciado pelos filósofos alemães Feuerbach e Hegel, criou um método de análise da realidade, o materialismo histórico, que parte da seguinte constatação:

''Para viver, é necessário, antes de mais nada, beber, comer, ter  moradia, vestir-se etc. O primeiro fato histórico é, pois, a produção dos meios que permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria material; trata-se de um fato histórico, de uma condição fundamental de toda a história que é necessário hoje, tanto quanto há milhares de anos, executar, dia a dia, hora a hora, a fim de manter os humanos vivos.'' (A Ideologia Alemã)

 Para realizar essa produção da vida material, são necessários alguns fatores:

- Os recursos naturais e equipamentos que são usados na produção, aos quais chamamos meios de produção;
- Energia humana ou animal que é aplicada sobre esses meios de produção, a chamada força de trabalho;

 Meios de produção e força de trabalho, juntamente com as técnicas de produção, compõem as forças produtivas.

 Ao empregarmos força de trabalho sobre os meios de produção, realizamos trabalho e geramos produto. As formas nas quais essa produção é realizada, as chamadas relações de produção, variam muito no decorrer da História, e dependem do grau de desenvolvimento das forças produtivas. Na antiguidade, por exemplo, a propriedade dos meios de produção era comunal e estatal, fruto da união de vários tribos em única cidade, e a força-de-trabalho vinha da mão-de-obra escrava. No feudalismo, surgiu a propriedade feudal ou estamental, e a força de trabalho vinha do campesinato servil. No moderno capitalismo, que surgiu do comércio urbano da Idade Média e cuja produção principal não é mais agrícola e sim mercantil, a propriedade dos meios de produção é privada, e seus donos formam a chamada burguesia. A força-de-trabalho vem, aqui, dos trabalhadores assalariados, os proletários.

 Cada um desses períodos, portanto, apresenta relações de produção específicas -- embora a divisão da sociedade em classes, isto é, grupos com papel determinado na produção, exista em todos eles, assim como a luta entre esses grupos, uma vez que seus interesses divergem --, que compõem a estrutura de uma sociedade. Dessa estrutura formam-se as superestruturas, como o direito, a religião, a moral etc, naturalmente conservadoras e nas quais se expressa a luta de classes citada acima. Quando a estrutura gera necessidades sociais que já não são mais satisfeitas pelas velhas instituições (ou seja, pelas superstruturas), ocorre uma transformação violenta que põe estas abaixo; é a revolução. Lênin, líder da revolução russa, identificou 4 condições mínimas necessárias para a eclosão da revolução:

1 - A ocorrência de dificuldades econômicas para a sobrevivência da ampla maioria social;
2 - A disposição da massa para reagir contra as dificuldades presentes;
3 - A existência de uma vanguarda política organizada;
4 - A divisão política da classe dominante configurando uma crise no vértice da estrutura social.

 À primeira vista, o materialismo histórico pode parecer uma espécie de determinismo, mas não o é; o próprio Marx critica o materialismo determinista nas Teses Ad Feuerbach. Marx defende o conceito de práxis, uma união entre teoria e prática que analisa a realidade para transformá-la.  A obra do próprio Marx - como O Capital - investigava o capitalismo para descobrir os caminhos que levariam este ao seu fim e para politizar os trabalhadores por meio da explicação da explicação de como se dá a exploração dos trabalhadores nesse sistema.

domingo, 23 de novembro de 2014

O socialismo traído


 A História, ao contrário do que desavisados podem pensar, não é uma ciência neutra, meramente descritiva, rigorosamente objetiva. A historiografia - o escrever da história, isto é, a produção de conhecimento histórico - é um campo de guerra de interpretações e sentidos, provindos das mais diversas correntes ideológicas e metodológicas. O artigo abaixo, publicado pela dupla estadunidense Roger Keeran e Thomas Kenny, faz oposição a uma interpretação histórica da queda da URSS que já foi exposta aqui anteriormente.


                                       

O Colapso da URSS revisitado

Roger Keeran e Thomas Kenny [1]

 Em 2004, Thomas Kenny e eu escrevemos o livro O Socialismo Traído – Por Trás do Colapso da União Soviética. [2] Desde esse ano, o livro foi publicado e recenseado na Bulgária, Rússia, Irã, Turquia, Grécia, Portugal, França, Cuba e Espanha. Juntos ou separadamente, os autores participaram em debates sobre olivro na Grécia, Portugal, França e Cuba, e foram publicadas várias críticas em jornais de esquerda. Nesta exposição, Kenny e eu queremos responder a dois tipos de críticas e a uma questão suscitadas pelo livro. Nele desenvolvemos uma explicação do colapso da União Soviética. Usamos as palavras «colapso» e «traído» no título, apesar das possíveis conotações equívocas de ambas as palavras.

 No entanto não se levantaram dúvidas sobre o que tentamos explicar, nomeadamente, a transformação radical que arredou do poder político o Partido Comunista da União Soviética, aboliu a maioria da propriedade estatal, a planificação centralizada e o sistema de serviços sociais, e fragmentou o Estado multinacional. Argumentamos que a União Soviética não colapsou porque o socialismo fracassou. Ao invés, o sistema socialista baseado na propriedade coletiva ou estatal e na planificação central teve um assinalável êxito, em particular do ponto de vista do povo trabalhador. O sistema provou ser capaz de assegurar um crescimento econômico sustentado durante seis décadas, produziu notáveis inovações técnicas e científicas e proporcionou benefícios econômicos e sociais sem precedentes a todos os cidadãos. Ao mesmo tempo defendeu-se permanentemente da invasão externa, da sabotagem e ameaças, e prestou ajuda econômica, auxílio técnico e proteção militar a outras nações em luta pela independência e o socialismo.

 A União Soviética tinha todavia problemas. Alguns relacionados com a ossificação política e ideológica, outros ligados à quantidade e qualidade da produção da economia, outros ainda derivados da confrontação com o imperialismo. No entanto, não foram estes problemas que causaram o colapso do sistema. O que derrubou o socialismo soviético foram as políticas prosseguidas por Mikhail Gorbatchov. Essas políticas baseadas na crença de que os problemas do socialismo poderiam ser resolvidos através de concessões unilaterais ao imperialismo e da incorporação no socialismo de certas ideias e políticas do capitalismo. Estas ideias tinham raízes no discurso político soviético, mas nunca haviam triunfado de forma tão completa como com Gorbatchov.

 O que permitiu que essas ideias ganhassem ascendência foi o fato de nas três décadas anteriores se ter desenvolvido dentro da União Soviética um setor pequeno-burguês, que se enraizou sobretudo na economia privada ilegal. Esta chamada «segunda economia», causou danos à primeira economia, desmoralizou uma parte da população, corrompeu segmentos do partido comunista e do governo,e forneceu uma base social para as políticas prosseguidas por Gorbatchov. Em vez de sarar os problemas do socialismo, as políticas de Gorbatchov provocaram num curto prazo o caos completo na economia e acabaram por derrubar o socialismo.

 O primeiro tipo de críticas

 Algumas críticas alegam que a nossa explicação ignora a causa profunda do colapso, isto é, que a tentativa de construir o socialismo na União Soviética estava condenada desde o início, devido ao insuficiente desenvolvimento das forças produtivas. Não é uma tese nova. Em 1918, Karl Kautski afirmou que a Rússia não estava preparada para o socialismo. A ideia provém de Karl Marx e Friedrich Engels, que acreditavam que só o desenvolvimento completo das forças produtivas no capitalismo criaria as pré-condições para a abolição das classes, e baseia-se numa descrição do atraso da Rússia feita por Engels em 1875.

 De acordo com este ponto de vista, a União Soviética só poderia avançar para o socialismo permitindo primeiro o florescimento da iniciativa privada e o desenvolvimento das forças produtivas através de empresas mistas com capitais estrangeiros. Ambas as coisas teriam acontecido se a União Soviética tivesse continuado a chamada Nova Política Econômica (NEP), introduzida por Lênin em 1921. O corolário desta tese é a alegação de que a União Soviética só poderia ter evitado o colapso se enveredasse pelo caminho atual da China ou do Vietname, o caminho da «economia de mercado com orientação socialista».

 Esta explicação levanta problemas maiores. Não é nada claro que o pensamento de Marx e Engels fosse, neste caso, a linha adequada a seguir pelos comunistas soviéticos nos anos 20. Mesmo que as condições soviéticas pudessem não ser as ideais para construir o socialismo, Marx tinha bem a consciência de que, como disse em 1853, «os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias da sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado». [3]

 Além disso, em 1917, a Rússia não era um país tão atrasado como o descreveu Engels em 1875. Possuía algumas das maiores fábricas do mundo, e dez por cento da sua população trabalhava na indústria. Reconhecidamente, a nova União Soviética continuava a ser essencialmente um país rural. Os líderes soviéticos, como Viatcheslav Mólotov, reconheceram mais tarde que o atraso «afectou negativamente o socialismo».

Fonte: Koenker, D. e Rosenberg, W., "Strikes and Revolution in Russia, 1917", Princeton University Press, 1989.

 Não obstante, aqueles que pensam que o atraso não só afetou negativamente o socialismo como o condenou, defrontam-se com três objecções. A primeira é a de que, por muito atrasada que estivesse no início dos anos 20, a União Soviética não se manteve nessa situação. Tendo como vantagens recursos naturais ricos, uma liderança talentosa e uma população motivada, a União Soviética tornou-se na segunda potência econômica, apenas superada pelos EUA. Em 1984, o economista Harry Shaffer escreveu: «Os Estados Unidos continuam à frente da União Soviética em termos de produção bruta e per capita, de consumo e nível de vida. Mas a União Soviética tem vindo a aproximar-se gradualmente dos Estados Unidos.»

 Assim, mesmo que no início as forças produtivas estivessem num estado de atraso, tal não era certamente a situação em 1985. Apesar de o desenvolvimento industrial da União Soviética ser indiscutível, alguns acreditam, todavia, que o atraso original enfraqueceu fatalmente o sistema. Erwin Marquit afirma que o atraso original levou os soviéticos a recorrerem ao «modelo utópico da economia planificada», e que essa economia planificada «provou ser incapaz de acertar o passo com desenvolvimento tecnológico orientado pelo mercado no Ocidente». Isto não é convincente. Com efeito é precisamente o oposto que é verdadeiro. Foi através da propriedade estatal e da planificação que a economia soviética fez progressos notáveis, não só economicamente mas também tecnologicamente.

 Nos anos 80, o desenvolvimento tecnológico soviético não igualava o dos EUA, mas não estava longe, e aproximava-se gradualmente. Num livro sobre ciência e tecnologia socialista, publicado em 1989, John W. Kiser III afirmou que a ideia do «fosso tecnológico» era um exagero criado pela «crença norte-americana na inferioridade inerente ao sistema soviético». Devido ao facto de a União Soviética não incentivar a comercialização das suas realizações tecnológicas, o Ocidente manteve «uma tendência persistente para as subestimar». Kiser assinala, entre outros, os avanços tecnológicos nos sectores da metalurgia, química, indústria alimentar, biomedicina, alcançados pelos soviéticos e países socialistas do Leste europeu.

 No que respeita à tecnologia computacional, em 1986, a CIA concluiu que existia um fosso entre a União Soviética e o Ocidente em matéria de software e hardware,mas ressalvava que «os soviéticos continuarão a fazer rápidos progressos em termos absolutos», e em dez ou 15 anos «as instituições científicas de topo terão provavelmente equipamentos comparáveis aos melhores que hoje dispõem os laboratórios nacionais dos EUA». Por outras palavras, o fosso tecnológico era pequeno e diminuía. Assim, o atraso tecnológico dificilmente pode explicar deforma convincente o colapso.

 Um segundo problema da explicação baseada no atraso tecnológico é a presunção de que a Nova Política Econômica (NEP), isto é, a promoção do desenvolvimento através da iniciativa privada e do investimento estrangeiro, seria uma opção real. É como afirmar que a Guerra Civil norte-americana poderia ter sido evitada se o Norte permitisse que a escravatura desaparecesse de modo natural. Apesar de esta ideia poder ser apelativa para aqueles que culpam os abolicionistas pela carnificina da Guerra Civil, poucos historiadores (caso haja algum) pensarão que tal era uma opção real em 1860.

 De igual modo, continuar com a NEP não era uma opção real para os soviéticos nos anos 20. Em 1921, os soviéticos viraram-se para a NEP para resolver problemas criados pelas políticas do «comunismo de guerra», em particular o desinteresse dos camponeses, provocado pelo confisco dos cereais. No entanto, em pouco tempo,a NEP gerou os seus próprios problemas.

 Explicando porque é que os soviéticos abandonaram a NEP, o historiador E.H.Carr apontou três graves problemas. O primeiro é a ocorrência da chamada «crise das tesouras» [4] em 1922-23, na qual a forte queda dos preços do trigo provocou penúria de alimentos, desemprego e sofrimento para os camponeses pobres e médios. O segundo foi a constatação por parte da maioria dos líderes soviéticos de que a NEP condenava a União Soviética a um longo período de atraso industrial, perspectiva aterradora e intolerável face à ameaça crescente de inimigos externos. O terceiro foi o açambarcamento da produção pelos camponeses, devido à queda dos preços agrícolas, provocando fome nas cidades. Por estas razões, a dependência do mercado e da iniciativa privada tornou-se insustentável. Assim, foram problemas econômicos reais, bem como opções ideológicas, que levaram os líderes soviéticos a adotar novas políticas e aderir à propriedade estatal e à planificação centralizada. Nestas circunstâncias, chamar «utópica» à passagem para a propriedade estatal e planificação central é absurdo. Esta transição permitiu que a União Soviética se industrializasse num curto espaço de tempo, derrotasse a invasão nazi e reconstruísse rapidamente o país depois da guerra.

 Além disso conseguiu ao mesmo tempo aumentar progressivamente o nível de vida dos trabalhadores soviéticos. Imaginar que a URSS poderia alcançar tais resultados, prosseguindo as problemáticas políticas da NEP, é simplesmente tomar os desejos por realidade.

 A explicação do colapso da URSS pelo atraso comporta um terceiro ponto fraco, que se revela quando examinamos as lições que se podem tirar desta explicação. É inteiramente apropriado avaliar a explicação através das lições que dela decorrem. Por exemplo, se um pastor morre ao cair de um penhasco na montanha, só um louco concluiria que se deve evitar o pastoreio e as montanhas. No entanto, se no momento do acidente, o pastor estivesse bêbado, uma pessoa razoável diria que se deve evitar beber quando se guardam ovelhas em encostas montanhosas.

 No entanto, se no momento do acidente, o pastor estivesse bêbado, uma pessoa razoável diria que se deve evitar beber quando se guardam ovelhas em encostas montanhosas. Alguns dos que subscrevem a tese do colapso da URSS devido ao atraso concluem que a URSS deveria ter evitado a planificação central e seguido o caminho da China atual. Mas esta conclusão é tão sensata como evitar o pastoreio e as encostas montanhosas. No mínimo é irrefletida. Nem mesmo os próprios chineses tiram esta conclusão do colapso da União Soviética. Segundo afirma Arthur Waldron, «hoje, oficialmente, a China considera que nada de profundo ou fundamental estava errado na União Soviética, mesmo na segunda metade dos anos 80. De acordo com o discurso oficial, a falência da União Soviética continua a não ser atribuível a um amplo fenômeno sistêmico mas, pelo contrário, à falência muito específica do Partido Comunista da União Soviética.»

 Além disso, saber para onde conduziria em última instância a via chinesa e o que tal significaria para a classe operária, são questões que permanecem em aberto. A curto prazo, a via chinesa produziu crescimento econômico e aumentou os rendimentos da população urbana. No entanto, desde 2008, o declínio das taxas decrescimento econômico e as dificuldades causadas à economia chinesa pela estagnação do mercado mundial levantam dúvidas sobre a viabilidade futura deste modelo. Segundo o New York Times, em Março deste ano, o crescimento da China «desacelerou para o nível mais baixo em mais de uma década».

 Em simultâneo, a classe operária chinesa está a pagar um preço elevado por uma via que se afasta progressivamente dos objetivos do socialismo. Durante a última década o desemprego não oficial nas cidades esteve sempre acima dos oito porcento. A parte do capital e investimento estrangeiros no total das vendas da China passou de 2,3 por cento em 1990 para 31,3 por cento em 2000. Como o investimento direto na China (124 mil milhões de dólares em 2011) tem vindo acrescer anualmente, e apenas é superado pelo investimento estrangeiro nos Estados Unidos, a percentagem do capital estrangeiro é hoje inquestionavelmente maior do que em 2000. De resto, como constata um estudo recente, entre «os resultados inevitáveis do desenvolvimento capitalista da China», assinala-se o «aumento do desemprego, da desigualdade e da insegurança; cortes nos cuidados de saúde e educação pública; agravamento da opressão das mulheres; marginalização da agricultura; multiplicação das crises ambientais». Na medida em que a economia de mercado com orientação socialista é questionável enquanto via para o socialismo, também é questionável a conclusão que se retirou do colapso da URSS.

 Em suma, a tese do atraso deve ser rejeitada por três razões. Primeiro, porque as forças produtivas da União Soviética não estavam subdesenvolvidas em 1985, por maior que fosse o seu atraso em 1917. Segundo, porque esta tese implica que que a União Soviética deveria e poderia ter continuado a NEP. Esta ideia era insustentável à época e completamente fantasiosa em retrospectiva. Terceiro, a hipótese de a via chinesa para o socialismo ser mais fiável do que a soviética continua por demonstrar.

O segundo tipo de críticas

 Um segundo tipo de críticas ao nosso livro surge a propósito da abordagem a Iossif Stálin. Para alguns críticos, o facto de não se ter denunciado Stálin como um paranoico, um criminoso, um anti-semita, um demônio, um ditador e um assassino de massas, constitui uma falha fatal. Alguns críticos só ficaram satisfeitos se subscrevêssemos o que Domenico Losurdo chama de «uma lenda negra». Para eles, o facto de não termos condenado a crueldade de Stálin constitui uma omissão imperdoável. A estes gostaríamos de responder como Lênin respondeu a Máxime Górki, quando este manifestou preocupação sobre «a crueldade das táticas revolucionárias». Lênin ripostou: «Que quer você? (…) Será possível agir humanamente num combate com tal ferocidade sem precedentes? Haverá aqui lugar à brandura e à generosidade? Estamos sob bloqueio da Europa, privados da esperada ajuda do proletariado europeu, vemos por todos os lados a contra-revolução trepar contra nós como um urso. Que devemos fazer? Não devemos, não temos o direito de lutar e resistir? Desculpe, mas não somos tolos. (…) Com que critério avalia a quantidade de golpes necessários e excessivos no combate?». [5]

 A verdade é que não fazemos uma avaliação global de Stálin, porque consideramos que era um assunto demasiado importante para ser tratado de forma superficial num estudo dedicado a um tema diferente. Como qualquer historiador, levantamos uma questão específica – neste caso, as causas do colapso da União Soviética – e limitamo-nos a tentar responder a esta questão. Tratamos as ideias de Stálin e as suas políticas apenas na medida em que se relacionavam com a nossa exposição.

 Mas porquanto a crítica à nossa abordagem de Stálin está ligada à nossa explicação do colapso, merece uma resposta. Aqui temos de fazer uma distinção. Como é sabido, existe uma corrente de pensamento, que remonta aos anos 20 e se estende até ao presente, segundo a qual a União Soviética entrou em declínio inexorável desde que rejeitou as ideias de Trótski, sobre a necessidade de prosseguir a revolução permanente ao nível mundial e a inutilidade de construir o socialismo num só país. Deste ponto de vista, a União Soviética não construiu o socialismo, e o seu colapso representou apenas uma nota de rodapé ao exílio de Trótski. Só aqueles que aceitam estas premissas sobre a importância de Trótski e a ausência de socialismo na União Soviética podem ficar satisfeitos com a explicação trotskista da história soviética.

 Todavia há outras visões sobre Stálin e o seu papel no colapso da União Soviética. Uma dessas visões sustenta que o colapso da URSS resultou das «deformações stalinistas», uma espécie de efeito retardado das políticas de Stálin. Esta tese reconhece que a União Soviética construiu o socialismo, baseado na propriedade pública e na planificação, que funcionou bem proporcionando crescimento econômico, defesa militar, emprego, segurança econômica, cuidados de saúde, educação e um nível cultural elevado para os trabalhadores. Não obstante, a luta contra o seu próprio atraso e contra as ameaças internas e externas, bem como outros desafios, conduziram a deformações antidemocráticas. Estas deformações manifestaram-se no «culto da personalidade, na sujeição autoritária de toda a atividade social à disciplina e controlo do PCUS, e na subordinação de todo o pensamento e práticas científicas e culturais à ideologia política». [6] 

 De acordo com esta visão, a economia planificada não constituiu um problema.O problema residia antes no legado do autoritarismo stalinista. O autoritarismo de Stálin teria minado as tentativas de descentralizar o controlo e a responsabilidade, coarctado a iniciativa e impedido a realização do potencial da economia socialista. 

 Qualquer pessoa minimamente familiarizada com a historiografia ocidental dificilmente estranhará que alguns autores culpem Stálin pelo colapso da União Soviética, uma vez que toda uma série de outros lhe atribuem a responsabilidade por praticamente todas as calamidades do século XX. 

 Uma figura tão complexa como Stálin, líder de um vasto país que atravessou numerosas crises durante um prolongado espaço de tempo, estava destinada a deixar um legado complicado. Assim, pode-se facilmente admitir a existência dos problemas referidos por aqueles que sustentam a teoria das deformações de Stálin. Por exemplo, na economia planificada, onde a natureza e a dimensão da produção são definidas a partir de cima, existe o problema endêmico da asfixia da iniciativa e da responsabilidade em baixo. [7]

 A União Soviética debateu-se com este problema durante anos, e Cuba debate-se hoje com ele. Este problema não resulta apenas de Stálin. Por seu turno, sem lhe chamarmos «deformações stalinistas»,reconhecemos que a dimensão e os métodos da repressão «deixaram inquestionavelmente uma herança de ressentimento, timidez, servilismo, remorso,e sabe-se lá que mais».

 No entanto a história não acaba aqui. Ao avaliar-se o legado de Stálin deve-se distinguir as apreciações morais e políticas – ou seja, se determinadas atitudes e políticas foram boas ou más, justificadas ou injustificadas, positivas ou negativas –das apreciações históricas sobre os seus efeitos e consequências. Ambas são legítimas, mas a questão que temos perante nós é matéria de apreciação histórica. Ou seja: podem efetivamente as políticas de Stálin ser relacionadas com o colapso da URSS? Honestamente, aqueles que defendem a tese das deformações de Stálin pouco fizeram para levar a discussão do campo moral para o da explicação histórica. Stálin deixou uma herança contraditória no que respeita ao autoritarismo e democracia. Aqueles que subscrevem a tese das deformações de Stálin apenas vêem um lado, afirmando que Stálin minou a democracia socialista, desmoralizou e desmobilizou o povo soviético, e que isso, em última instância, socavou a eficiência e a produtividade do sistema socialista, conduzindo-o, a partir daí, ao colapso. Mas onde está a prova desta desmoralização e desmobilização?

 As grandiosas realizações do povo soviético, entre os anos 30 e os anos 50, a coletivização da agricultura, a rápida industrialização, o aumento do nível educacional e cultural do povo, a derrota da invasão de Hitler, a reconstrução do país em quatro anos, depois da devastação da guerra, dificilmente traduzem o trabalho de uma população desmoralizada e desmobilizada. Bem pelo contrário. Estas realizações exigem uma participação popular ativa. Aliás, um olhar sóbrio sobre o legado de Stálin tem de reconhecer que existem nele elementos de democracia e de participação popular, bem como de autocracia e repressão. A Constituição Soviética de 1936 simboliza esta herança ambígua. 

 Por um lado, apesar das promessas democráticas da Constituição, a União Soviética permaneceu um Estado em que o poder se concentrava no partido comunista e, de uma forma crescente, no seu líder, onde as nomeações para cargos oficiais e outras se faziam a partir de cima, e onde outras instituições, incluindo os sovietes e os sindicatos, tinham, no melhor dos casos, uma função consultiva.

 Por outro lado, a Constituição representou uma tentativa, pela primeira vez na história, sob condições favoráveis, de dar um significado à ideia da democracia socialista. A Constituição foi o resultado de dois anos discussão, em que largos segmentos dos trabalhadores, camponeses e outras camadas foram envolvidos num amplo debate nacional do projeto de documento, que foi seguido de um referendo nacional. A Constituição alargou os direitos democráticos dos cidadãos soviéticos, levantando as restrições eleitorais aos indivíduos associados ao regime tsarista e, ao mesmo tempo que consagrou o papel exclusivo do partido comunista, também introduziu as candidaturas múltiplas, o sufrágio secreto e as eleições diretas. Partindo das constituições burguesas com uma perspectiva revolucionária, a Constituição soviética instituiu direitos econômicos, onde se incluíram: o direito ao emprego, férias pagas anuais, assistência médica gratuita, ensino gratuito até ao sétimo ano inclusive, assistência estatal às mulheres com muitos filhos e mães solteiras, licença de maternidade totalmente paga e acesso às maternidades, enfermarias e jardins-de-infância. [8]

 A Constituição de 1936 refletiu ainda um outro legado democrático, designadamente a política soviética para as minorias nacionais. O historiador Terry Martin caracterizou a União Soviética como «o primeiro império do mundo com ação positiva». O que Martin quis dizer com isto foi que a União Soviética «criou não só dezena e meia de grandes repúblicas nacionais, mas também dezenas de milhares de territórios nacionais espalhados por toda a vastidão do país. Novas elites nacionais foram instruídas e promovidas para cargos de liderança no governo, escolas e empresas industriais desses novos territórios. Em cada território, a língua nacional adquiriu estatuto de língua oficial do governo. Em dezenas de casos isso implicou a criação de uma língua escrita, que não existia. O Estado soviético financiou a produção em massa de livros, revistas, jornais,filmes, óperas, museus, música tradicional e outras produções culturais em línguas não russas. Nada de comparável tinha sido tentado anteriormente (…) e nenhum Estado multiétnico igualou ulteriormente a escala da ação positiva soviética.» [9] Segundo um estudo de opinião, realizado em 1950-51 pelo Harvard Interview Project, que abrangeu centenas de cidadãos soviéticos, «a maioria esmagadora» dos inquiridos sobre a Constituição de 1936 concordou que as garantias estabelecidas sobre a igualdade das nacionalidades correspondiam de fato à realidade. [10] A ambiguidade do legado autocrático e democrático de Stálin até se manifesta nas repressões dos anos 30. A campanha contra os trotskistas e sabotadores em 1937, que conduziu milhões à prisão e milhares à morte, correspondeu a um movimento de massas lançado nos sindicatos e nos locais de trabalho pelo alargamento da democracia. O líder dos sindicatos, Nikolai M. Chvérnik, [11] lançou este movimento no sentido de aplicar nos sindicatos os direitos consagrados na Constituição de 1936, ou seja, eleições secretas com múltiplos candidatos, um maior envolvimento das bases e uma maior prestação de contas por parte das direções sindicais. Este movimento estava de mãos dadas com a campanha contra o culto dos líderes, pela erradicação dos dirigentes corruptos, dos oposicionistas dissimulados e outros «inimigos do povo», que desviavam fundos dos sindicatos, violavam as normas de segurança, sabotavam habitações, serviços sociais e a produção. Em resultado deste levantamento a partir de baixo, no final de 1937, «mais de um milhão e 230 mil pessoas foram eleitas em 146 sindicatos e em centenas de milhares de organizações sindicais e comités de empresa (…) O resultado final das eleições traduziu-se numa mudança radical de quadros. Mais de 70 por cento dos antigos comités de fábrica, 66 por cento dos 94 mil presidentes de comités de fábrica e 92 por cento dos 30 723 membros dos comités plenários regionais foram substituídos». [12] O que aconteceu nos sindicatos e locais de trabalho em 1937 foi literalmente um movimento democrático a partir de baixo para afastar e punir determinados líderes sindicais. A historiadora Wendy Goldman chamou-lhe uma «repressão democrática», e notou que esta «repressão não constituiu um ato contra o povo soviético realizado por uma “entidade” maléfica, mas foi ativamente apoiada e difundida pelo próprio povo em todas as instituições».

 Em resumo, se olharmos objetivamente para o legado de Stálin, não vemos ligações diretas entre Stálin, o autoritarismo, a desmobilização popular e o colapso da URSS. Tanto no enunciado da Constituição de 1936 como na política das nacionalidades e no movimento de democratização dos sindicatos de 1937, pelo menos, ao contrário de desmobilizar, Stálin mobilizou as massas. Aliás, se a políticas de Stálin tivessem tido o efeito de desmobilizar e desmoralizar o povo soviético, dificilmente a sua morte seria motivo de tão grande consternação, nem se esperaria que passados 50 anos a sua personalidade continuasse a ser venerada. No entanto, é precisamente isso que as sondagens mostram. [14] Em resumo, pode admitir-se com facilidade que o legado democrático de Stálin é ambíguo. No entanto, só uma visão muito unilateral e distorcida de Stálin poderá concluir que as «deformações» de Stálin desmobilizaram politicamente as massas trabalhadoras a tal ponto que foram a causa principal do colapso da URSS. 

Uma terceira reação

 A terceira reação ao nosso livro não é propriamente uma crítica, mas antes uma pergunta, colocada nos seguintes termos: por que razão o partido comunista e a classe operária soviética não se opuseram às políticas de Gorbatchov, sublevando-se em defesa do socialismo? No livro abordamos esta questão (pp. 267-273). É certo que o fato de a resistência das bases não ter sido grande, nem maior o seu êxito, constitui o aspecto mais perturbador em todo o processo da dissolução da União Soviética. Mas por muito perturbador que seja, este fato em si e por si não permite saltar para a conclusão de que havia alguma coisa errada no socialismo soviético ou que o socialismo soviético frustrou as expectativas dos trabalhadores de uma forma fundamental. 

 Gorbatchov pretendia que se podia resolver os problemas do socialismo fazendo concessões aos imperialistas e incorporando ideias do capitalismo no socialismo. Parte disto passava pela introdução de aspectos da democracia burguesa, ao mesmo tempo que as instituições tradicionais da democracia socialista eram minadas e marginalizadas. Para se compreender a ineficácia da resistência da classe operária não  precisamos de ir muito além disto. Os comunistas e trabalhadores soviéticos viram-se privados das vias tradicionais de expressão, ao mesmo tempo que o seu líder formal introduzia gradualmente ideias capitalistas, embrulhadas na noção de aperfeiçoamento do socialismo. Na nossa opinião, as coisas não tinham de se passar desta forma. Reformas diferentes e um processo diferente de reformas, que mobilizassem o partido comunista e a classe operária, poderiam produzir resultados diferentes. Isto havia sido tentado por Iuri Andropov, mas o esforço foi de curta duração, devido à sua doença e morte.

 Duas recentes visitas a Cuba e um estudo sobre as presentes reformas em curso, chamadas «atualização», reforçaram a nossa conclusão sobre o destino do socialismo soviético. Obviamente que a União Soviética e Cuba são dois países completamente diferentes, com histórias e situações muito diferentes. Uma diferença significativa foi o embargo econômico e comercial imposto pelos EUA a Cuba. Apesar de a União Soviética também ter passado por um bloqueio econômico durante duas décadas, o embargo a Cuba dura há mais tempo e o seu custo é relativamente mais elevado. Hoje, passados 50 anos, segundo estimativas moderadas, o embargo custou aos cubanos mais de 104 mil milhões de dólares apreços correntes, e se considerarmos a desvalorização do dólar em relação ao ouro esse valor sobe para 975 mil milhões de dólares. [15] Sem o boicote, hoje, o nível de vida em Cuba poderia ser semelhante ao da Europa Ocidental. [16]

  Não obstante as diferenças óbvias, Cuba e a União Soviética têm algumas características comuns. Ambas as economias se baseiam na propriedade pública e na planificação centralizada, dirigidas pelo partido comunista, e tanto a sociedade soviética em 1985 como a cubana em 2011 enfrentavam problemas similares, embora em graus diferentes. Por exemplo, ambas tinham duas moedas, uma convertível em divisas internacionais e outra interna. A divisa soviética, interdita à maioria dos cidadãos, estava limitada aos turistas, diplomatas e alguns outros representantes, e era usada apenas nas lojas em divisas. Em Cuba, no entanto, a moeda convertível não é ilegal, e muitos cubanos auferem legalmente rendimentos em pesos convertíveis, por trabalharem na indústria do turismo, sob a forma de prêmios em certas outras entidades, ou ainda provenientes de remessas de familiares emigrantes.

 A existência de duas moedas gera mais problemas em Cuba do que no caso da União Soviética. A grande disparidade entre o valor do peso (CUP) e do peso convertível (CUC), na ordem de 25 para 1, criou uma série de problemas, incluindo uma crescente desigualdade entre aqueles que têm acesso à moeda convertível e os que não têm, e uma fuga de cérebros de profissões sem salários em divisas para aquelas que permitem esse acesso, como é o caso do turismo. Conduzir um táxi pode proporcionar gorjetas em divisas de valor superior aos rendimentos de um professor. Isto é claramente desmoralizador e ineficiente. Um outro exemplo de um fenômeno presente nas duas sociedades é a segunda economia, ou mercado negro. Na União Soviética a segunda economia constituía um problema maior do quem em Cuba. Na União Soviética a segunda economia existiu durante um período mais longo, estava mais espalhada e desenvolvida, e ligada com frequência a minorias nacionais e à «máfia» organizada. [17] 

 Em certos aspectos, os problemas de Cuba e da União Soviética (nos anos 80) são semelhantes: deficiências na produtividade e eficiência, qualidade insuficiente dos bens de consumo, falta de iniciativa e de sentido de propriedade e responsabilidade no local de trabalho, difusão insuficiente das tecnologias computacionais, etc. Além disso pode-se encontrar facilmente semelhanças entre as soluções propostas por Iuri Andropov, em 1983 (e mesmo entre as políticas iniciais de Gorbatchov), e o programa cubano de reformas de «atualização», proposto em 2011. Por exemplo, nos dois casos as reformas visavam aumentar a eficiência, a produtividade, a motivação e a qualidade através da recompensa do esforço, da descentralização do controlo e da responsabilidade, do desenvolvimento de empresas mistas com capitais estrangeiros, de incentivos às cooperativas e da concessão de maior latitude à iniciativa privada. 

 Mas os processos na União Soviética e em Cuba diferem de forma flagrante. Em Cuba o processo de reformas envolveu os comunistas de base e os trabalhadores de uma forma muito mais ampla do que na União Soviética. Em Cuba, entre o desenvolvimento das orientações da reforma em 2010 até à sua implementação em 2014, houve todo um processo que implicou o envolvimento das massas e a construção de um consenso de massas. O processo começou entre Dezembro de 2010 e Fevereiro de 2011, com debates com o povo em geral, seguiram-se debates no partido em todas as províncias, e por fim debates no VI Congresso do PCC em Abril. No total realizaram-se 163 079 reuniões, em que estiveram 8 913 828 participantes. Destes debates resultou um importante conjunto de alterações: «O documento original continha 291 linhas de orientação, das quais 16 foram incorporadas noutras, 94 mantiveram a sua redação, o conteúdo de 181 delas foi modificado e foram incorporadas 36 novas linhas de orientação, para um total de 311 no atual projeto. (…) Aproximadamente mais de dois terços das linhas de orientação, exatamente 68 por cento, foram reformulados.» [18] 

 O debate das linhas de orientação decorreu ainda através de cartas publicadas no jornal Granma, em programas de rádio, em blogs na Internet e nos sindicatos. [19] Um observador anotou: «O elemento-chave aqui é que o projeto da nova lei trabalhista implica um processo de consulta com a CTC (Central dos Trabalhadores de Cuba) tão detalhado e extensivo que os sindicatos têm de facto o poder de veto». [20]

 Na União Soviética, Iuri Andropov iniciou as reformas econômicas com debates nos locais de trabalho. Todavia, para Gorbatchov, os debates com as bases sobre as mudanças foram sobretudo uma oportunidade para promover a sua imagem pública. Os amplos debates, o estímulo à crítica e a construção de consensos estiveram praticamente ausentes no processo de reformas de Gorbatchov. Se tivesse sido de outro modo, será que hoje nos interrogaríamos sobre onde estavam os comunistas soviéticos e os trabalhadores?

  Mas se os dois tipos de críticas («o atraso soviético» e «as deformações de Stálin») não são convincentes, por que razão continuam a ser tão populares? Na nossa opinião a razão da popularidade destas explicações é que elas decorrem e dependem da onipresente ideologia do anti-stalinismo e do anticomunismo. O anticomunismo e o anti-stalinismo não são meras discordâncias com o sistema socialista ou com as políticas de Stálin, antes consistem na apresentação deste sistema e deste homem como o pior mal do mundo.

 Para a maioria dos intelectuais ocidentais o dogma de que «Stálin é um monstro» não é susceptível de discussão. É um axioma. Pior, é um tabu. É a chave-mestra que dá acesso à família de autores admitidos pela ideologia dominante. Os acadêmicos dos EUA, mesmo aqueles com pontos de vista não ortodoxos, inscrevem rotineiramente referências hostis a Stálin nos seus trabalhos, mesmo quando não incidem sobre a história da União Soviética, para assim garantirem a sua aceitação política. A razão de o anti-stalinismo continuar a ser a pedra-de-toque merece mais atenção do que tem tido. Recentemente, acadêmicos como Domenico Losurdo e Grover Furr [21] lançaram luz sobre esta questão. A circunstância de a demonização de Stálin ter o apoio de toda a esquerda, graças a Trótski e a Khruchov, é seguramente um dos fatores. Uma outra razão é o fato de Stálin ser o símbolo personificado da URSS entre 1924 e 1953, o período do êxito da construção do socialismo, e também o período em que o Estado soviético era o maior inimigo do imperialismo. Seja qual for a razão, para os marxistas, como são alguns dos nossos críticos, condescender com estereótipos anti-Stálin e polemizar na sua base, deve ser entendido como uma concessão oportunista à pressão da ideologia da classe dominante. Evidentemente que a rejeição do anti-stalinismo não equivale à beatificação de Stálin, a um amontoado de elogios à sua pessoa, ou ainda menos ao escamoteamento dos problemas associados à sua liderança. Significará antes, um trabalho acadêmico paciente, que use os mesmos critérios que são requeridos para avaliar qualquer líder do século XX.

Conclusão

 As principais críticas levantadas contra os argumentos do Socialismo Traído não resistem a um escrutínio rigoroso. A ideia de que a União Soviética estava condenada por um defeito congênito, nomeadamente o atraso das forças produtivas, agrada sobretudo àqueles que sonham com um avanço gradual para o socialismo, e àqueles que pensam que os chineses descobriram a estrada de ouro para o futuro. No entanto, tal ideia implica que se ignore os problemas gerados pela NEP nos anos 20 e na China hoje, e significa subestimar as difíceis opções que os soviéticos tiveram de fazer nos anos 20 e 30, bem como os tremendos progressos que fizeram para superar o atraso.


 A ideia de que o colapso da URSS em 1991 se deveu ao autoritarismo de Stálin e nos anos 30 assenta numa montanha de preconceitos contra Stálin e numa leitura unilateral do seu legado que ignora os seus marcados elementos democráticos. Finalmente, a ineficácia da resistência dos comunistas de base e dos operários à destruição do socialismo não prova a existência de problemas profundamente enraizados do socialismo soviético. Mostra no entanto que a destruição da propriedade socialista, da planificação, dos benefícios sociais e do internacionalismo exigiram a erosão simultânea da autoridade do partido comunista e das instituições da democracia socialista. Se alguma coisa boa adveio do colapso da URSS foi o fato de Cuba parecer ter aprendido a lição. 


Notas:

[1] Texto apresentado por Roger Keeran, sob o título original The Collapse of the Soviet Union Reconsidered, no II Congresso internacional «Marx em Maio», promovido pelo Grupo Estudos Marxistas, de 8 a 10 de Maio de 2014, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

[2] Esta obra foi publicada em Portugal, em 2008, sob a chancela das Edições Avante! Ver entrevista com os autores em http://www.hist-socialismo.com/docs/OSocialismofoitraido.pdf

[3] K. Marx, O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, (22 Julho 1853), Marx e Engels, Obras Escolhidas em três tomos, ed. Avante-Progresso, Lisboa-Moscovo, 1982, t.1, p. 417.


[4] A designação «crise das tesouras» tem origem num gráfico representando duas linhas rectas cruzadas em forma de tesoura aberta, uma relativa à queda dos preços agrícolas eoutra, ascendente, mostrando a subida dos preços dos produtos manufacturados.



[5] Máxime Górki, V.I Lénine, escrito em 1924 e editado separadamente em 1931. Obras Completas em 30 tomos (em russo), t. 17.

[6]  David Laibman, Deep History: A Study in Social Evolution and Human Potential, Universidade Estatal de Nova Iorque, 2007, p.184.

[7] Os problemas da economia socialista, nomeadamente os decorrentes da sua direção e planificação, foram reconhecidos desde muito cedo pela liderança soviética. Lênin insistiu incansavelmente na necessidade do «registro e controle». Stálin viu na generalização do movimento stakhanovista o caminho para o aumento exponencial da produtividade e eficiência econômica. Sempre segundo o princípio de «cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo o seu trabalho», no final dos anos 30, começou a ser introduzido o Método de Aumento da Eficiência do Trabalho, que teve grande divulgação e extraordinários resultados nos anos do pós-guerra, sendo inexplicavelmente abolido por Khruchov, pouco depois da morte de Stálin. Sobre este método e muitos outros fatos pouco conhecidos, que nos mostram o vigor da economia soviética do pós-guerra,recomendamos a leitura do artigo Memórias da URSS – Os anos do pós-guerra, de V.A.Torgachev (http://www.hist-socialismo.com/docs/Torgachev Memorias URSS2.pdf). Otema específico da eficiência da economia centralizada é também tratado no interessante artigo de «A alternativa rejeitada à reforma de mercado de 1965», de V.D. Pikhorovitch,que nos fala do plano visionário de V.M. Gluchkov (1923-1982) de informatização de todo o aparelho produtivo da URSS, que acabou por ser preterido a favor das catastróficas reformas de «mercado» de Kossíguine/Liberman (http://www.hist-socialismo.com/docs/Gluchkov.pdf).


[8] Leonard Schapiro, The Communist Party of the Soviet Union, Vintage Books, Nova Iorque, 1971, p. 409; Kenneth Neill Cameron, Stalin: Man of Contradiction, Toronto, 1987,NC Press Limited, pp. 80-81.

[9] Terry Martin, The Affirmative Action Empire: Nations and Nationalism in the Soviet Union, 1923-1939, Cornell University Press, Ithaca e Londres, 2001, pp. 1-2.


[10] Idem, ibidem, pp. 387-389.

[11]  Chvérnik, Nikolai Mikháilovitch (1888-1970), membro do partido desde 1905, do CC desde 1925, do Presidium do CC (1952-53 e 1957-66), candidato do Politburo/Presidium (1939-1952 e 1953-1957). Metalúrgico, dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos (1910-11),presidente do Soviete de Samara (1917), comissário das frentes Leste e Sul (1918-20), comissário da Inspeção Operário-Camponesa da RSFSR (1924). A partir de 1929 ésecretário do Comité dos Urais do partido, presidente do Conselho Central dos Sindicatos de Toda a União (1930-44 e 1953-1956) e presidente do Conselho das Nacionalidades do Soviete Supremo (1938-1946). Presidente do Presidium do Soviete Supremo da RSFSR(1944-1946) foi presidente do Presidium do Soviete Supremo da URSS (1946-1953). Aposentou-se em 1966.


[12] Wendy Goldman, p. 14.

[13] Idem, ibidem, p. 19.

[14] Richard Pipes, «Flight from Freedom: What Russians Think and Want», Foreign Affairs, Maio-Junho de 2004, p. 14.

[15] Cuba vs Bloqueo, relatório de Cuba sobre a resolução 65/6 da Assembleia-Geral das Nações Unidas, intitulado «A necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América a Cuba» (Julho de 2011), p. 54.


[16] Entrevista com Manuel Yepe, Havana, Cuba, 18 de Fevereiro de 2014.

[17] Entrevista com Marta Nunez, Havana, Cuba, 18 de Fevereiro de 2014.

[18] Relatório central ao VI Congresso do Partido Comunista de Cuba(http://www.cuba.cu/gobierno/ rauldiscursos /2011/por/r160411p.html)

[19] Steve Ludlam, «Cuba’s Socialist Development Strategy», Science & Society 76, n.º 1, Janeiro de 2012, p. 47.

[20]  Ludlam, p. 51.

[21] Domenico Losurdo, Stalin – História Crítica de uma Lenda Negra, Editora Revan, Rio de Janeiro, 2010, e Grover Furr, Khrushchev Lied, Kettering, Erythros Press andMedia, Ohio, 2011.



sábado, 22 de novembro de 2014

''Terá o marxismo tornado-se inútil na pós-modernidade?''

O texto a seguir é o capítulo 1 do livro ''Marx estava certo'', do filósofo britânico Terry Eagleton. Boa leitura.



''O marxismo acabou. Supostamente ele deve ter tido alguma relevância em um mundo de fábricas e de escassez de comida, de mineiros de carvão e limpadores de chaminés, de miséria disseminada e da massa das classes operárias. No entanto, decerto não exerceria nenhuma influência sobre as sociedades ocidentais cada vez menos classistas, mais socialmente móveis e pós-industriais do presente. É o credo daqueles que são teimosos, medrosos ou iludidos demais para aceitar que o mundo mudou para melhor, em ambos os sentidos do termo.''

 O suposto fim do marxismo deveria soar como música aos ouvidos dos marxistas em todo canto. Eles poderiam recolher suas marchas e piquetes, voltar para suas famílias enlutadas e aproveitar a noite em casa em vez de ir a mais uma tediosa reunião de comitê. O que os marxistas mais desejam é deixar de ser marxistas. Nesse sentido, ser um marxista nada tem a ver com ser budista ou milionário, assemelhando-se mais a ser médico. Os médicos são perversos, criaturas autossabotadoras que promovem o próprio desemprego curando pacientes, que, depois, não mais precisam deles. A tarefa dos radicais políticos, igualmente, é chegar ao ponto em que não mais sejam necessários porque suas metas foram alcançadas. Estão, então, livres para se retirar, queimar seus pôsteres de Che Guevara, voltar ao violoncelo há muito esquecido e falar sobre algo mais intrigante do que o modo de produção asiático. Se ainda existirem marxistas ou feministas daqui a vinte anos, será lamentável. O marxismo se destina a ser uma atividade temporária, razão pela qual quem molda toda a sua identidade nele não terá entendido o espírito da coisa. A existência de uma vida após o marxismo é precisamente a ideia do marxismo.

 Existe apenas um problema com essa visão sedutora. O marxismo é uma crítica do capitalismo — a crítica mais investigativa, rigorosa e abrangente já feita. É também a única crítica que transformou grandes setores do mundo. Assim é que, enquanto o capitalismo ainda continuar em atividade, o marxismo precisará fazer o mesmo. Somente depois de aposentar seu oponente ele será capaz de se aposentar. E em sua última aparição o capitalismo parecia tão combativo como sempre.

 A maioria dos críticos do marxismo atualmente não refuta isso. Seu argumento é, sim, o de que o sistema se modificou quase a ponto de se tornar irreconhecível desde os dias de Marx e que por isso suas ideias já não são relevantes. Antes de esmiuçarmos tal argumento, vale a pena notar que o próprio Marx tinha total consciência da natureza mutante do sistema que desafiou. É ao próprio marxismo que devemos o conceito de diferentes formas históricas de capital: mercantil, agrário, industrial, monopolista, financeiro, imperial e daí por diante. Por que, então, o fato de o capitalismo ter mudado sua forma nas últimas décadas deveria desqualificar uma teoria que encara a mudança como a própria essência desse sistema? Ademais, o próprio Marx previu um declínio da classe trabalhadora e um aumento acentuado no trabalho dos colarinhos-brancos. [1] Abordaremos esse assunto um pouco à frente. Marx também previu a chamada globalização — o que é estranho para um homem com um raciocínio supostamente arcaico, embora talvez a característica “arcaica” de Marx seja o que o torne ainda relevante nos dias de hoje. Ele é acusado de ultrapassado pelos defensores de um capitalismo que rapidamente vem regredindo aos níveis vitorianos de desigualdade.

 Em 1976, um bocado de gente no Ocidente achava que o marxismo defendia um argumento razoável. Já em 1986, muitas delas não pensavam mais assim. O que ocorreu nesse ínterim? Será que essas pessoas estavam enterradas debaixo de uma pilha de crianças saídas das fraldas? Teria a teoria marxista sido desmascarada como falsa por alguma nova pesquisa retumbante? Será que esbarramos em algum manuscrito há muito sumido em que Marx confessava que tudo não passava de uma piada? Não é que tenhamos descoberto, para nossa decepção, que Marx era sustentado pelo capitalismo. Disso sempre soubemos. Sem a fábrica Ermen & Engels em Salford, de propriedade do pai de Engels, fabricante de tecidos, o Marx cronicamente empobrecido poderia muito bem não ter sobrevivido a polêmicas literárias contra fabricantes de tecido.

 Alguma coisa realmente aconteceu no período em questão. A partir de meados da década de 1970, o sistema ocidental sofreu mudanças radicais. [2] Houve uma guinada da produção industrial tradicional para uma cultura “pós-industrial” de consumismo, comunicações, tecnologia da informação e da indústria de serviços. Empreendimentos de pequena escala, descentralizados, versáteis e não hierárquicos entraram na ordem do dia. Os mercados foram desregularizados, e o movimento da classe operária, submetido a um selvagem ataque jurídico e político. As alianças de classe tradicionais foram enfraquecidas, enquanto as identidades locais, de gênero e etnia ficaram mais insistentes. A política tornou-se mais e mais administrada e manipulada.

 As novas tecnologias da informação tiveram um papel-chave na crescente globalização do sistema, quando um punhado de corporações transnacionais distribuiu a produção e o investimento por todo o planeta em busca dos lucros mais imediatos. Boa parte da produção industrial foi terceirizada, com emprego de mão de obra de regiões com baixos salários no mundo “subdesenvolvido”, levando alguns ocidentais de mente provinciana a concluir que a indústria havia sumido por completo do planeta. Migrações internacionais maciças de mão de obra surgiram na esteira dessa mobilidade global, e com elas houve um ressurgimento do racismo e do fascismo, à medida que imigrantes empobrecidos inundavam as economias mais avançadas. Enquanto os países “periféricos” eram submetidos ao trabalho nas sweatshops [locais de trabalho insalubres], em fábricas privatizadas, a uma previdência social inoperante e a condições comerciais surrealmente desiguais, os executivos das nações metropolitanas arrancavam suas gravatas, abriam os colarinhos e se preocupavam com o bem-estar espiritual de seus empregados.

 Nada disso ocorreu porque o sistema capitalista gozava de um humor esfuziante. Ao contrário, sua nova postura belicosa, como a maioria das formas de agressão, brotou de uma ansiedade profunda. Se o sistema enlouqueceu foi porque se viu acometido por uma depressão latente. O que provocou tal reorganização foi, acima de tudo, o súbito esmaecimento do boom do pós-guerra. A competição internacional intensificada forçava para baixo os índices de lucro, secando as fontes de investimento e reduzindo a taxa de crescimento. Mesmo a social-democracia era uma opção política radical e onerosa demais. O cenário, assim, estava pronto para Reagan e Thatcher, que ajudariam a desmontar a indústria tradicional, reprimir o movimento operário, deixar o mercado à solta, fortalecer o braço repressivo do Estado e defender uma nova filosofia social conhecida como ganância descarada. O deslocamento do investimento da manufatura para as indústrias de serviços, de finanças e de comunicações foi uma reação a uma crise econômica prolongada, não ao abandono repentino de um velho mundo mau em troca de um corajoso mundo novo.

 Ainda assim, é duvidoso que a maioria dos radicais que mudaram de ideia quanto ao sistema entre as décadas de 1970 e 1980 o tenha feito apenas porque havia menos fábricas de algodão. Não foi isso que os levou a descartar o marxismo juntamente com suas costeletas e bandanas, mas, sim, a crescente convicção de que o regime que confrontavam era simplesmente duro demais para ser rompido. Não foram as ilusões sobre o novo capitalismo, mas a desilusão quanto à possibilidade de mudá-lo que mostrou ser o fato decisivo. Houve, decerto, um grande número de ex-socialistas que racionalizaram seu pesar sustentando que, se o sistema não podia ser mudado, não precisava sê-lo. Mas isso era falta de fé numa alternativa que se revelou conclusiva. Como o movimento da classe operária havia sido tão massacrado e a esquerda política tão consistentemente rechaçada, o futuro parecia ter desaparecido sem deixar vestígios. Para alguns membros da esquerda, a queda do bloco soviético no fim da década de 1980 serviu para aprofundar o desencantamento. O fato de a corrente radical mais bem-sucedida da Idade Moderna — o nacionalismo revolucionário — estar a essa altura bastante exaurida não ajudou. O que alimentou a cultura do pós-modernismo, com seu descarte das chamadas grandes narrativas e seu anúncio triunfal do Fim da História, foi, acima de tudo, a convicção de que o futuro seria apenas uma repetição do presente. Ou, como declarou um exuberante pós-modernista, “o presente acrescido de mais opções”.

 Assim, o que ajudou a desacreditar o marxismo foi, sobretudo, uma sensação arrepiante de impotência política. É difícil manter a fé na mudança quando a mudança parece não constar da agenda, ainda que nesse momento seja mais do que nunca crucial mantê-la. Afinal, se não resistirmos ao que é aparentemente inevitável, jamais saberemos quão era o inevitável. Se tivessem conseguido se apegar a suas antigas noções por mais duas décadas, em 2008 os “desistentes” teriam visto um capitalismo tão exultante e imbatível que praticamente era capaz apenas de administrar os caixas automáticos instalados nas grandes avenidas. Também teriam visto todo um continente ao sul do Canal do Panamá dar uma guinada decisiva para a esquerda política. O Fim da História chegava, então, ao fim. De todo modo, os marxistas deveriam estar mais do que acostumados à derrota. Conheceram catástrofes maiores do que essa. A vantagem política sempre pertence ao sistema no poder, simplesmente porque ele possui mais tanques do que nós. Mas as visões estonteantes e as esperanças efervescentes do fim da década de 1960 transformaram esse revés numa pílula especialmente amarga para os sobreviventes daquela era.

 O que fez o marxismo parecer implausível, então, não foi o fato de o capitalismo ter alterado sua posição, e sim o oposto — o fato de que, no que tangia ao sistema, tudo funcionava como de hábito, e até melhor. Ironicamente, o que ajudou a derrubar o marxismo também acabou dando certo crédito a seus argumentos. Ele foi relegado à margem porque a ordem social que confrontava, longe de se tornar mais moderada e benigna, ficou mais cruel e extrema do que antes. E isso tornou a crítica que lhe fazia o marxismo ainda mais pertinente. Numa escala global, o capital se encontrava mais concentrado e predatório do que nunca, e a classe operária havia, com efeito, crescido. Começava a parecer possível imaginar um futuro em que os mega-ricos se abrigariam em suas comunidades armadas e gradeadas, enquanto cerca de um bilhão de moradores de favelas ficariam sitiados em seus fétidos barracos, cercados por torres de vigilância e arame farpado. Nessas circunstâncias, afirmar que o marxismo havia acabado era mais ou menos como dizer que o Corpo de Bombeiros estava ultrapassado porque os incendiários estavam cada vez mais hábeis e criativos.

 No nosso tempo, conforme previu Marx, a desigualdade de riqueza cresceu de forma dramática. A renda de um único bilionário mexicano equivale hoje aos rendimentos dos 17 milhões de seus compatriotas mais pobres. O capitalismo criou mais prosperidade do que a história jamais testemunhou, mas o preço — em especial a quase penúria de bilhões de indivíduos — foi astronômico. Segundo o Banco Mundial, 2,74 bilhões de pessoas em 2001 viviam com menos de dois dólares por dia. Enfrentamos um futuro provável de Estados munidos de armas nucleares guerreando devido à escassez de recursos, e a escassez é, em grande medida, uma consequência do próprio capitalismo. Pela primeira vez na história, nossa forma prevalente de vida tem o poder não apenas de alimentar o racismo e disseminar o cretinismo cultural, nos levar à guerra ou nos tocar como rebanhos para os campos de trabalho, mas também de nos riscar do planeta. O capitalismo se comportará de maneira antissocial se considerar essa atitude lucrativa, e isso atualmente pode significar a devastação humana numa escala inimaginável. O que antes não passava de fantasia apocalíptica é agora realismo sóbrio. O tradicional slogan esquerdista “Socialismo ou barbárie” nunca foi mais sombriamente adequado e nunca equivaleu menos a um mero floreio retórico. Nessas sombrias condições, como escreve Fredric Jameson, “o marxismo precisa necessariamente voltar a ser verdade.” [3]

 E se ultrapassado não estiver o marxismo, mas, sim, o próprio capitalismo? Na Inglaterra vitoriana, Marx via o sistema em processo de perda de fôlego. Tendo promovido o desenvolvimento social em seu auge, ele funcionava então como um entrave a ele. Marx considerava a sociedade capitalista impregnada de fantasia e fetichismo, mito e idolatria, por mais que se orgulhasse de sua modernidade. Seu esclarecimento — a crença arrogante na própria racionalidade superior — não passava de uma espécie de superstição. Se, por um lado, foi capaz de certo progresso retumbante, por outro precisava correr muito apenas para continuar no lugar. O derradeiro limite para o capitalismo, comentou Marx certa vez, é o próprio capital, cuja reprodução constante é uma fronteira além da qual ele não pode se aventurar. Existe, assim, algo curiosamente estático e repetitivo a respeito desse regime histórico mais dinâmico de todos. O fato de que sua lógica subjacente permanece bastante constante é uma das razões por que a crítica que lhe fazia Marx continua válida em grande medida. Apenas se o sistema fosse genuinamente capaz de romper suas próprias fronteiras, inaugurando algo novo, nunca antes sequer imaginado, deixaria esse de ser o caso. Mas o capitalismo é incapaz de inventar um futuro que não reproduza seu presente ritualmente. Desnecessário dizer que com mais opções...

 O capitalismo trouxe grandes avanços materiais. Entretanto, embora essa maneira de organizar nossos negócios tenha tido muito tempo para demonstrar que é capaz de satisfazer as exigências humanas por todo lado, ela aparentemente não está mais perto disso do que antes. Quanto tempo estamos preparados para aguardar que o capitalismo produza os bens? Por que continuamos a nutrir o mito de que a riqueza fabulosa gerada por esse modo de produção se tornará disponível para todos no devido tempo? Será que o mundo trataria reivindicações similares vindas da extrema esquerda com a mesma tolerância cordial, esperando para ver o que vai acontecer? Os direitistas que admitem que sempre haverá injustiças colossais no sistema, mas que, apesar disso, as opções são ainda piores, são ao menos mais honestos em seu jeito inflexível do que aqueles que pregam que tudo dará certo afinal. Se existe tanto gente rica quanto gente pobre, como existe tanto gente negra quanto branca, as vantagens dos abonados podem muito bem, com o tempo, chegar aos desprovidos. Mas observar que alguns são miseráveis enquanto outros são prósperos é mais ou menos como afirmar que o mundo contém ao mesmo tempo detetives e criminosos. E é verdade, mas isso encobre o fato de que existem detetives porque existem criminosos...

Notas:
[1] White-collars, trabalhadores de escritório, em oposição aos blue-collars, colarinhos-azuis
dos macacões.
[2] Embora alguns marxistas duvidem de quão vitais tenham sido. Por exemplo, CALLINICOS, Alex. Against Postmodernism: a Marxist critique. Cambridge: Polity Press, 1989, cap. 5.
[3]  JAMESON, Fredric. The Ideologies of Theory. Londres: Verso Books, 2008, p. 514.