segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Marx, os direitistas e a falsificação da História


 ''A verdade é sempre revolucionária.'' - Vladimir Itilich Ulianov, mais conhecido como Lênin.


 Os estudos teóricos e a observação de sua realidade prática proporcionam àqueles oprimidos no modo de produção capitalista uma compreensão cada vez maior dos mecanismos que causam (e mantém) suas condições de subjugação e reforçam em suas mentes a necessidade de substituir esse sistema pelo socialismo, a fim de que possam libertar a si próprios; nesse processo de evolução da consciência, é normal que criem afeição e respeito por aqueles que dedicaram suas vidas, com todas as dificuldades possíveis, pela causa dos mesmos. Isso é especialmente verdade em se tratando de um daqueles que mais contribuiu para os movimentos de libertação da era moderna: Karl Marx.

 A direita como um todo – de fascistas a conservadores mais moderados, passando pelos liberais (desde aqueles que apoiam o liberalismo político, econômico e moral àqueles que só se importam com o segundo, como os economistas que auxiliaram o ditador Pinochet no Chile)* – esforça-se constantemente para jogar sua monumental figura na lata de lixo da História, seja jactando-se de ter refutado a teoria econômica deste e desenvolvido algo muito melhor (enquanto a realidade mostra o contrário)[1], seja tentando convencer a população de que o mesmo era moralmente nojento, totalitário, sanguinário, escravista ou algo similar. Tratarei aqui de alguns dos ataques do segundo tipo.




 Em 1846, um pensador francês chamado Pierre-Joseph Proudhon publicou o livro ''Filosofia da Miséria'', na qual expunha suas ideias econômicas e políticas. Marx irritou-se com tal livro, que além de utilizar uma dialética esdrúxula e muito abaixo daquela de Hegel, ao mesmo tempo em que mantinha o idealismo filosófico (isto é, a ideia de que os fenômenos materiais, históricos, são só encarnações de categorias filosóficas), tentava convencer os trabalhadores a não promover ação política para melhoramento das próprias condições de vida e, como consequência de sua própria dialética (baseada na noção simplória de oposição entre ''bem'' e ''mal'', onde os fenômenos deveriam ter seu lado bom mantido e o mau eliminado), pregava uma espécie de ''capitalismo equilibrado''. O alemão escreveu então, às pressas e em francês, o livro ''Miséria da Filosofia'', no qual criticava e buscava refutar as ideias de Proudhon.

 Um escritor russo que Marx encontrara em Paris chamado Pavel Vassilievitch Annenkov (e que a pedido do primeiro participara do comitê de correspondência comunista de Bruxelas) pediu ao primeiro que lhe falasse sobre o livro de Proudhon. Numa carta de 1846 (que pode ser lida aqui), Marx disse-lhe, entre outras coisas, que

''(...) assim o sr. Proudhon, principalmente por falta de conhecimentos históricos, não viu: que os homens, ao desenvolverem as suas faculdades produtivas, isto é, ao viverem, desenvolvem certas relações entre eles, e que o modo dessas relações muda necessariamente com a modificação e o crescimento dessas faculdades produtivas. Ele não viu que as categorias econômicas são apenas abstrações dessas relações reais, que só são verdades na medida em que subsistam essas relações. Assim, ele cai no erro dos economistas burgueses que vêem nessas categorias econômicas leis eternas e não leis históricas, as quais só são leis para um certo desenvolvimento histórico, para um desenvolvimento determinado das forças produtivas. Assim, em vez de considerar as categorias político-econômicas como abstrações feitas [a partir] das relações sociais reais, transitórias, históricas, o sr. Proudhon, por uma inversão mística, não vê nas relações reais senão encarnações [incorporations] dessas abstrações. Estas mesmas abstrações são fórmulas que dormitaram no seio de Deus-pai desde o começo do mundo.


Mas, aqui, o bom do sr. Proudhon cai em grandes convulsões intelectuais. Se todas estas categorias são emanações do coração de Deus, se são a vida oculta e eterna dos homens, como é que então, em primeiro lugar, há desenvolvimento e, em segundo lugar, como é que o sr. Proudhon não é conservador? Explica-nos estas contradições evidentes por todo um sistema do antagonismo.

Para esclarecer esse sistema de antagonismo, tomemos um exemplo.

O monopólio é bom porque é uma categoria econômica. Mas o que não é bom é a realidade do monopólio e a realidade da concorrência. O que é ainda pior, é que o monopólio e a concorrência se devoram mutuamente. Que se deve fazer neste caso? Como estes dois pensamentos eternos de Deus se contradizem, parece-lhe evidente que há no seio de Deus igualmente uma síntese entre esses dois pensamentos, na qual os males do monopólio são equilibrados pela concorrência, e vice-versa. A luta entre as duas ideias terá por efeito deixar-lhes aparecer só o lado bom. Há que arrancar a Deus esse pensamento secreto e depois aplicá-lo, e tudo correrá pelo melhor; há que revelar a fórmula sintética escondida na noite da razão impessoal da humanidade. O sr. Proudhon não hesita um só momento em fazer-se o revelador.

Mas lancemos por um momento o olhar sobre a vida real. Na vida econômica atual, não apenas encontramos a concorrência e o monopólio, mas também a sua síntese, que não é uma fórmula, mas um movimento. O monopólio produz a concorrência; a concorrência produz o monopólio. No entanto, esta equação, longe de remover as dificuldades da situação atual, como imaginam os economistas burgueses, tem por resultado uma situação mais difícil e mais baralhada. Assim, mudando a base sobre a qual se fundam as relações econômicas atuais, destruindo o modo atual de produção, destrói-se não só a concorrência, o monopólio e o seu antagonismo, mas também a sua unidade, a sua síntese, o movimento que é a equilibração real da concorrência e do monopólio.

Agora vou dar-lhe um exemplo da dialética do sr. Proudhon.

A liberdade e a escravatura formam um antagonismo. Não preciso falar dos lados bons nem dos lados maus da liberdade.

Quanto à escravatura, não preciso falar dos seus lados maus. A única coisa que é preciso explicar é o lado belo da escravatura. Não se trata da escravatura indireta, da escravatura do proletário, trata-se da escravatura direta, da escravatura dos Negros no Suriname, no Brasil, nas regiões meridionais da América do Norte.

A escravatura directa é o eixo do nosso industrialismo actual, tal como as máquinas, o crédito, etc. Sem escravatura, não temos algodão; sem algodão, não temos indústria moderna. Foi a escravatura que deu valor às colônias, foram as colônias que criaram o comércio mundial, o comércio mundial é que é a condição necessária da grande indústria mecânica. Por isso, antes do tráfico dos negros, as colônias só davam ao velho mundo muito poucos produtos e não alteravam visivelmente a face do mundo. Assim, a escravatura é uma categoria econômica da mais alta importância. Sem a escravatura, a América do Norte, o povo mais progressivo, transformar-se-ia num país patriarcal. Risque-se apenas a América do Norte do mapa dos povos e ter-se-á a anarquia, a decadência completa do comércio e da civilização modernos. Mas fazer desaparecer a escravatura seria riscar a América do mapa dos povos. Por isso a escravatura, sendo uma categoria econômica, se encontra desde o começo do mundo em todos os povos. Os povos modernos só souberam disfarçar a escravatura no seu próprio seio e importá-la abertamente no Novo Mundo. Como abordará isto o bom do sr. Proudhon depois destas reflexões sobre a escravatura? Procurará a síntese da liberdade e da escravatura, o verdadeiro meio termo; por outras palavras: o equilíbrio da escravatura e da liberdade.

O sr. Proudhon compreendeu muito bem que os homens fazem o pano, a tela, os tecidos de seda; que grande mérito ter compreendido tão pouca coisa! O que o sr. Proudhon não compreendeu é que os homens, segundo as suas faculdades, produzem também as relações sociais em que produzem o pano e a tela. Menos ainda compreendeu o sr. Proudhon que os homens, que produzem as relações sociais em conformidade com a sua produtividade material, produzem também as ideias, as categorias, isto é, as expressões abstratas ideais dessas mesmas relações sociais. Assim, as categorias são tão pouco eternas quanto as relações que exprimem. São produtos históricos e transitórios. Para o sr. Proudhon, muito pelo contrário, a causa primitiva são as abstrações, as categorias. Segundo ele, são elas e não os homens que produzem a História. A abstração, a categoria tomada como tal, isto é, separada dos homens e da sua ação material, é naturalmente imortal, inalterável, impassível; é apenas um ser da razão pura, o que só quer dizer que a abstração tomada como tal é abstrata. Tautologia admirável!'' (MARX, 2011, p.53-56)

 Fica óbvio aqui que Marx não estava em sentindo algum fazendo um julgamento elogioso da escravidão. O que ele fez foi aplicar a dialética torpe de Proudhon, que implicava em não buscar a liberdade absoluta, mas sim um equilíbrio entre liberdade e escravidão, uma vez que a última proporcionou grande progresso à indústria dos Estados Unidos da América. A opinião do próprio Marx quanto à escravidão direta (em oposição à escravidão assalariada) pode ser vista em trechos como esses:

“A descoberta das terras auríferas e argentíferas na América, o extermínio, a escravização e o soterramento da população nativa nas minas, o começo da conquista e saqueio das Índias Orientais, a transformação da África numa reserva para a caça comercial de peles-negras que caracterizam a aurora da era da produção capitalista. Esses processos idílicos constituem momentos fundamentais da acumulação primitiva.
[...] na Inglaterra, no fim do século XVII, esses momentos foram combinados de modo sistêmico, dando origem ao sistema colonial, ao sistema da dívida pública, ao moderno sistema tributário e ao sistema protecionista. Tais métodos, como por exemplo, o sistema colonial, baseiam-se, em parte, na violência mais brutal.” (MARX, 2013, p. 820)

 Completa ele, com relação aos povos nativos americanos:

 “O tratamento dispensado aos nativos era, naturalmente, o mais terrível nas plantações destinadas exclusivamente à exportação, como nas Índias Ocidentais e nos países ricos e densamente povoados, entregues à matança e ao saqueio, como o México e as Índias Orientais” (MARX, 2013, p. 823)

 E continua ironizando a ética cristã e puritana que discursava sobre o amor a Deus ao mesmo tempo que, na sua contribuição ao processo de dominação colonial, matava índios – homens, mulheres e crianças, indiscriminadamente.


 Mais à frente, diz:

“Com o desenvolvimento da produção capitalista durante o período manufatureiro, a opinião pública europeia perdeu o que ainda lhe restava de pudor e consciência. As nações se jactavam cinicamente de toda a infâmia que constituísse um meio para a acumulação de capital.” (MARX, 2013, p. 824)

  Marx reforça na continuação do texto – denunciando o cinismo europeu – o fato dos europeus terem seu crescimento baseado na exploração do tráfico negreiro e na destruição da África, ao mesmo tempo em que associavam isso à sua suposta sabedoria política. E diz ainda:

“Enquanto introduzia a escravidão infantil na Inglaterra, a indústria do algodão dava, ao mesmo tempo, o impulso para a transformação da economia escravista dos Estados Unidos, antes mais ou menos patriarcal, num sistema comercial de exploração. Em geral, a escravidão disfarçada dos assalariados na Europa necessitava, como pedestal, da escravidão sem rebuços do Novo Mundo.” (MARX, 2013, p.829)

 Percebam os adjetivos e expressões que Marx usa em toda essa parte que se encontra no capítulo 24 do livro I d'O Capital: ''o extermínio, a escravização e o soterramento''; ''a transformação da África numa reserva para a caça comercial de peles-negras que caracterizam a aurora da era da produção capitalista''; ''violência mais brutal''; ''perdeu o que ainda lhe restava de pudor e consciência''; ''as nações se jactavam cinicamente de toda a infâmia''.

Ele faz isso pra demonstrar toda a brutalidade e violência com que nasce o capital, expropriando os camponeses na Europa, exterminando os indígenas na América, escravizando e matando os africanos na África. Para dar conta desse fenômeno extremamente violento, Marx não poupa adjetivos depreciativos para caracterizar os atos europeus e as formas de consciência e discurso que os europeus ainda buscavam justificar tais atos. Usa de intensa ironia, como é característico em toda a usa obra, para analisar o processo de acumulação de capital e as justificativas infames dos europeus. Por acaso seria tal coisa do feitio de alguém que apoia a escravidão?


                  


 O caso acima não se trata sequer de uma citação retirada de contexto e editada, como a anterior; trata-se pura e simplesmente de forja, e você, por mais que se esforce e leia TODA a obra de Marx e Engels, incluindo cartas e artigos escritos a jornais e revistas, jamais a achará. Se, porém, adquirir O Manifesto do Partido Comunista, edição da coleção ''A obra-prima de cada autor'', da editora Martin Claret, encontrará entre os textos anexos aquele conhecido como ''Manifesto de lançamento da Associação Internacional de Trabalhadores'' – de 1864 – , no qual lerá o seguinte:

''Se a emancipação do proletariado requer sua união fraternal, como poderão realizar essa grande missão com uma política exterior voltada para propósitos criminosos, tirando partido dos preconceitos nacionais e malbarateando o sangue e a riqueza do povo em guerras de pirataria? Não foi a prudência das classes dominantes, e sim a resistência histórica à sua loucura por parte do operariado da Inglaterra o que salvou a Europa ocidental de ser lançada em uma cruzada infame pela perpetuação e propagação da escravidão do outro lado do Atlântico.[2] A aprovação descarada, a compaixão fingida ou a indiferença idiota com que as classes dominantes da Europa têm presenciado a fortaleza montanhosa do Cáucaso ser subjugada e a heroica Polônia ser assassinada pela Rússia [3]; as imensas invasões, perpetradas sem resistência, por aquela potência bárbara, cuja cabeça está em São Petersburgo e cujas mãos se encontram em todos os gabinetes da Europa, ensinaram ao operariado o dever de dominarem eles próprios os mistérios da política internacional; de observarem a atuação diplomática de seus respectivos governos; de combaterem esta atuação, quando necessário, por todos os meios ao seu alcance; e quando impossibilitados de impedi-la, de se unirem em denúncias simultâneas, e afirmarem as leis simples da moral e da justiça. que devem governar as relações dos indivíduos, como as regras principais do intercâmbio entre as nações. A luta por uma tal política externa faz parte da luta geral pela emancipação do proletariado.

 Proletários de todo o mundo, uni-vos!'' (É possível ler o texto na íntegra aqui)



 Somado aos trechos destacados d'O Capital na seção anterior, fica óbvio que Marx jamais acreditou que ''para o advento do verdadeiro socialismo será necessário exterminar povos e nações inteiras'', ao contrário: o socialismo necessitaria (e necessita!) do respeito à autodeterminação dos povos.




 A figura coloca “na boca” do teórico comunista uma frase que ele nunca falou. Segundo a forjada citação, ele teria determinado que as lutas dos comunistas promovessem um “holocausto revolucionário” e, com ele, iniciassem o extermínio de determinadas classes e raças. Induz-se aqueles que leem tal ditado a crer que ele foi um inspirador dos nazistas.

 Na verdade, a frase em questão é uma adulteração maliciosa de um trecho de um texto escrito por Marx em março de 1853 e publicado no New York Daily Tribune e no People’s Paper algumas semanas depois – ele pode ser acessado no site marxists.org. O artigo, intitulado Forced Emigration (Emigração forçada), descreve como o avanço do capitalismo industrial nas Ilhas Britânicas forçou a migração de milhares de ingleses, escoceses e irlandeses para outras partes do mundo em meados do século 19.

 No texto, Marx faz a seguinte declaração:

''Society is undergoing a silent revolution, which must be submitted to, and which takes no more notice of the human existences it breaks down than an earthquake regards the houses it subverts. The classes and the races, too weak to master the new conditions of life, must give way. But can there be anything more puerile, more short-sighted, than the views of those Economists who believe in all earnest that this woeful transitory state means nothing but adapting society to the acquisitive propensities of capitalists, both landlords and money-lords?''

Eis a tradução:

 ''A sociedade está passando por uma revolução silenciosa, à qual é obrigada a se submeter e que leva em conta as existências humanas que ela fragmenta tanto quanto um terremoto se importa com as casas que subverte. As classes e as raças, fracas demais para dominar as novas condições de vida, são obrigadas a ceder. Mas pode haver alguma coisa mais pueril, mais visão estreita, do que as visões daqueles economistas que acreditam com toda sinceridade que esse lastimável estado transitório não significa nada além de adaptar a sociedade às propensões aquisitivas dos capitalistas, tanto senhores de terra como senhores de dinheiro?''

 A “revolução silenciosa” que ele menciona não era comunista ou socialista, mas sim a altamente capitalista Revolução Industrial, que estava promovendo na Europa e nos Estados Unidos uma configuração social, econômica e tecnológica muito diferente da que existia até o século 18. Era “silenciosa” porque, ao contrário das revoluções burguesas do século 18, não consistia em promover guerras contra o poder vigente. Nenhuma revolução socialista ou comunista vitoriosa havia acontecido até então, apesar dos levantes de 1848.

 E o trecho adulterado e transformado na falsa frase “protonazista” diz: “As classes e as raças, fracas demais para dominar as novas condições de vida, são obrigadas a ceder [must give way].” As “classes e raças” citadas não estavam sendo exterminadas, nem sendo vitimadas por nenhum “holocausto revolucionário”. O que acontecia é que elas estavam sendo tolhidas de seu modo original de vida e forçadas ou a se adaptar à nova tradição econômica, social e cultural, geralmente de maneira sofrível, ou a emigrar para outros países, nos casos em que a vida no seu país de origem havia se tornado insuportável.

 Ou seja, a suposta menção de Marx a “raças fracas” e “holocausto revolucionário” é falsa. É uma distorção, feita com fins escusos de manipulação política, de um trecho de um artigo dele sobre o que o capitalismo estava fazendo com pessoas de diversas classes e culturas nos países britânicos de sua época.


 Curioso é que os conservadores, em sua maracutaia, ainda tentam misturar a citação falsa com um suposto racismo de Marx contra os povos eslavos [Veja o url da imagem abaixo e descobrirá um ''judeo-bolchevism discovered'' (''o bolchevismo judaico descoberto''), uma forte sugestão de que a direita nunca perdeu seu antissemitismo, cuja expressão máxima foi o nazismo de Hitler. Aqui vai uma coleção de citações sobre o marxismo na famosa obra de Hitler, ''Minha Luta'']:





 Como vimos, não há nenhuma menção sequer a um ''holocausto revolucionário'' no artigo de Marx para o People's Paper, e ainda menos contra eslavos; trata-se de outra forja mal-feita da direita, que foi explicada aqui. Não nos esqueçamos, aliás, que Marx, a propósito da aprovação pelos liberais do ''Règlement Organique'' – o código legislativo proclamado pelo general Kisselew em 1831 para regular o trabalho dos camponeses russos (eslavos) nas terras dos boiardos (antes pertencentes aos próprios camponeses), que praticamente legalizava a servidão –, não teve dúvidas em tratá-los pela carinhosa alcunha de ''cretinos''. [4] Lembremos ainda que, no final de sua vida, Marx depositava suas esperanças numa revolução na Rússia, país onde suas ideias haviam conseguido mais adeptos.

Conclusão

 A direita, na intenção de manter o poderoso escopo teórico de Marx longe das massas, não faz a mínima cerimônia em forjar ou manipular citações do pensador alemão, de forma que este apareça àquelas como algum tipo de psicopata totalitário e/ou racista; a verdade é que estão simplesmente acusando-o do que eles próprios são.





Notas

[1] Para ver as deficiências da economia burguesa -- aquela que enxerga o modo capitalista de produção como a melhor formação socioeconômica possível, dedicando-se portanto a defendê-lo --, veja os artigos do blog Critique of Crisis Theory, Austrian economics vs Marxism, The ideas of John Maynard Keynes1234, 5 e 6) e Are Marx and Keynes compatible? ( 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9).

[2] Referência à campanha enérgica desenvolvida pelos operários ingleses durante a Guerra Civil Americana, campanha essa dirigida contra as tentativas da burguesia inglesa e francesa de organizar uma intervenção a favor dos estados sulistas que sustentavam a escravidão. Mais tarde, no livro I d'O Capital, ele se refere à G.C.A. desta forma:

''Nos Estados Unidos, todo o impulso de independência dos trabalhadores ficou paralisado enquanto a escravatura desfigurava uma parte da república. O trabalhador branco não pode se emancipar onde se ferreteia o trabalhador negro.'' (MARX, 2014, p. 346)

[3] Marx se refere à conquista do Cáucaso pela Rússia czarista, que resultou na submissão e no empobrecimento das nacionalidades, bem como à repressão, pelo governo czarista, do levante revolucionário ocorrido na Polônia em 1863-1864. Engels dirá, no prefácio à edição de 1892 d'O Manifesto, que

 ''A criação de uma Polônia forte e independente não interessa apenas aos poloneses, mas a todos nós. Uma sincera colaboração internacional entre as nações europeias é possível somente se cada uma delas for plenamente autônoma em sua própria casa. (...) A nobreza não foi capaz nem de conservar nem de reconquistar  a independência polonesa; à burguesia ela é hoje pelo menos indiferente.  No entanto, tal independência é uma necessidade para a colaboração entre as nações europeias. Ela só poderá ser reconquistada pelo jovem proletariado polonês, e em suas mãos estará bem garantida. Os operários de toda a Europa têm tanta necessidade da independência da Polônia quanto os próprios operários poloneses (disponível na íntegra aqui)''.


[4] Trecho da seção 2ª do capítulo VII do livro I d'O Capital:

''No caso do capitalista, a avidez por sobretrabalho aparece no ímpeto de prolongar sem medida o dia de trabalho; no caso do boiardo, mais simplesmente na caça imediata a dias de trabalho servil


Nos principados do Danúbio, o trabalho servil estava ligado a rendas em géneros e outros pertences da servidão; constituía porém o tributo decisivo [pago] à classe dominante. Onde isto aconteceu, o trabalho servil raramente brotou da servidão; inversamente, foi sim a servidão que na maioria dos casos brotou do trabalho servil. Aconteceu assim nas províncias romenas. O seu modo de produção originário estava fundado na propriedade comum, mas não na propriedade comum em forma eslava ou mesmo indiana. Uma parte das terras era autonomamente administrada pelos membros da comuna como propriedade privada livre, uma outra parte — o ager publicus — era lavrada por eles em comum. Os produtos deste trabalho comum serviam em parte como fundo de reserva para más colheitas e outras casualidades, em parte como tesouro de Estado para cobertura dos custos de guerra, religião e outras despesas da comuna. No decurso do tempo, dignitários guerreiros e eclesiásticos usurparam, com a propriedade comum, as prestações à mesma. O trabalho dos camponeses livres na sua terra comunal transformou-se em trabalho servil a favor dos ladrões da terra comunal. Com isso, desenvolveram-se simultaneamente relações de servidão, porém apenas de facto, não de direito, até que a Rússia, libertadora do mundo, sob o pretexto de abolir a servidão, a elevou a lei. O código do trabalho servil, que o general russo Kisselev proclamou em 1831, foi naturalmente ditado pelos próprios boiardos. A Rússia conquistou assim de uma assentada os magnatas dos principados do Danúbio e o aplauso dos cretinos liberais de toda a Europa.

Segundo o Règlement organique — assim se chama aquele código de trabalho servil — cada camponês valáquio deve ao chamado proprietário fundiário, para além de uma massa de pormenorizadas contribuições em géneros: 1. doze dias de trabalho, em geral; 2. um dia de trabalho no campo; 3. um dia de carregamento de lenha. Summa summarum), 14 dias no ano. Com profunda inteligência da economia política, o dia de trabalho não é contudo tomado no seu sentido ordinário, mas sim no de dia de trabalho necessário para a fabricação de um produto médio diário, e o produto médio diário está tão manhosamente determinado que nenhum ciclope em 24 horas o teria concluído. Nas palavras secas de autêntica ironia russa, o próprio Règlement explica assim que por 12 dias de trabalho se deve entender o produto de um trabalho manual de 36 dias; por um dia de trabalho no campo, três dias, e por um dia de carregamento de lenha, igualmente o triplo. Summa: 42 dias de trabalho servil. Acrescenta-se porém a chamada Jobagie, prestações de serviço devidas ao senhor fundiário para necessidades extraordinárias da produção. Na proporção da magnitude da sua população, cada aldeia tem de fornecer anualmente um determinado contingente para a Jobagie. Este trabalho servil suplementar é avaliado em 14 dias para cada camponês valáquio. Assim, o trabalho servil prescrito ascende anualmente a 56 dias de trabalho. O ano agrícola na Valáquia só conta porém 210 dias, devido ao mau clima, dos quais 40 para domingos e feriados, 30 em média para mau tempo, em conjunto não entram 70 dias. Ficam 140 dias de trabalho. A relação entre trabalho servil e trabalho necessário, 56/84 ou 66 2/3 por cento, exprime uma taxa muito mais pequena de mais-valia do que a que regula o trabalho do operário agrícola ou fabril inglês. Isto é, porém, apenas o trabalho servil legalmente prescrito. E num espírito ainda «mais liberal» do que a legislação fabril inglesa, o Règlement organique soube facilitar o seu próprio torneamento. Depois de, a partir de 12 dias, fazer 56, o trabalho diário nominal de cada um dos 56 dias de trabalho servil é novamente determinado de tal modo que um suplemento tem de passar para os dias seguintes. Em um dia, p. ex., deve ser mondada uma extensão de terreno que para esta operação, nomeadamente nas plantações de milho, requer o dobro do tempo. O trabalho diário legal para trabalhos agrícolas singulares é interpretável de tal modo que o dia começa no mês de Maio e acaba no mês de Outubro. Para a Moldávia, as determinações são ainda mais duras.

'Os doze dias de trabalho forçado do Règlement organique', exclamou um boiardo enebriado pela vitória, 'elevam-se a 365 dias no ano!' ''

* Sobre a aplicação do neoliberalismo na América Latina durante o século passado, que ocorreu no contexto de ditaduras civis-militares, veja o vídeo abaixo (atenção especial para o trecho entre 8:25 e 9:21):




 Bibliografia:

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I – o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I – o processo de produção do capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

MARX, Karl. Miséria da filosofia. São Paulo: Martin Claret, 2011.

MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. O manifesto do partido comunista. São Paulo: Martin Claret, 2011.


23 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que é mto facil se basear em fatos narrados pelos que abominam tais ideologias... Vejo mta gnt ignorante fundamentado seus argumentos em dados de natureza duvidosa...

      Excluir
    2. Natureza Duvidosa??? Quando você enxerga com seus próprios olhos o povo cubano fugindo em cima de uma balsa feita de pneu, vc pensa que aquilo é armação?

      Excluir
    3. Do que Jesus disse, existe Edir Macedo, Malafaia, Valdomiro Santiago, logo Jesus é o culpado??? #volta-pra-escola-diabo

      Excluir
  2. uehuehueh nossa mais um pra dizer que ''deturparam marx'' aham claro vai ler o capital meu amigo ou a historia do demonio marx

    ResponderExcluir
  3. Meus Parabéns! Excelente trabalho! Copiei seu texto na integra e vou compartilhar!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

      Excluir
  4. UTOPIA

    A revolução cultural está a acabar, meu amigo.

    ResponderExcluir
  5. Robson Santana.'.
    12 de julho de 2016 às 21:46

    Quanto á Lula, Não Temos Dúvidas Que Muito Ajudou ao Nosso Estado.
    Mais Também é Fato; Que Nunca Antes Na História Desse País, Houve Tanto Roubo E tanta Corrupção Capitaneada Por um Partido Político E Pelo Seu Maior Líder.
    Como Pernambucano; Tenho VERGONHA de Lula Ter Nascido no meu Estado.

    Pedimos Perdão ao Brasil.

    Responder ↓

    ResponderExcluir
  6. E com relação ao trecho abaixo do Manifesto Comunista?
    "E natural que o proletariado de cada pais deva, antes de tudo, liquidar sua própria burguesia."

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E daí, ta com pena dos "burgueses" ? Eles não terão pena de vc se não te achar "necessário". Ta com pena, leva eles pra sua casa (mas cuidado pra ele não roubar sua mulher).

      Excluir
    2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

      Excluir
  7. EIS UM MARXISTA INCURÁVEL...
    Mesmo que ele não tenha dito nada disso, ele foi um grande demônio FDP ao publicar suas ideias comunistas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Marx disse que:

      "As classes e as raças, fracas demais para dominar as novas condições de vida, devem ser submetidas à dominação.
      Quando a revolução socialista acontecer, quando a guerra de classes acontecer, haverão sociedades primitivas na Europa dois estágios atrás, porque elas nem sequer são capitalistas ainda.
      Os bascos, os bretões, os escoceses, os sérvios, que chamo de "lixo racial" tem que ser destruídos porque, estando dois estágios atrás na luta histórica, será impossível trazê-los ao nível dos revolucionários.
      Os húngaros e os povos eslavos são imundos e a Polônia não tem razão para existir.
      As classes e as raças, fracas demais para conduzir as novas condições de vida devem deixar de existir. Elas devem perecer no holocausto revolucionário."

      Excluir
  8. Parabéns cara, no em uma entrevista, percebi Marx usando um pouco de seu tempo para se defender das falsas afirmações que falavam que ele dizia. Acho defender ele necessário para que erros que mesmo evitava venha acontecer.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Marx disse que:

      "As classes e as raças, fracas demais para dominar as novas condições de vida, devem ser submetidas à dominação.
      Quando a revolução socialista acontecer, quando a guerra de classes acontecer, haverão sociedades primitivas na Europa dois estágios atrás, porque elas nem sequer são capitalistas ainda.
      Os bascos, os bretões, os escoceses, os sérvios, que chamo de "lixo racial" tem que ser destruídos porque, estando dois estágios atrás na luta histórica, será impossível trazê-los ao nível dos revolucionários.
      Os húngaros e os povos eslavos são imundos e a Polônia não tem razão para existir.
      As classes e as raças, fracas demais para conduzir as novas condições de vida devem deixar de existir. Elas devem perecer no holocausto revolucionário."

      Excluir
  9. eu não conheço ninguém mais rico que Fidel Castro, dono de 11 milhões de escravos, torturador há 60 anos.

    ResponderExcluir
  10. Parabéns pelo excelente conteúdo do blog.

    ResponderExcluir
  11. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  12. comunista eh um bando de vagabundos !! invejosos e desonestos !

    ResponderExcluir