terça-feira, 13 de maio de 2014

A Era do Antifascismo, 1929-45 (Primeira parte)

''A era do antifascismo'' é um conjunto de seis textos que postarei aqui no Bora Discutir. Tratam-se das seis partes referentes ao capítulo 11 do livro ''Como mudar o mundo: Marx e o marxismo'', do falecido historiador britânico Eric Hobsbawm. Boa leitura!


 Na década de 1930, o marxismo tornou-se uma força relevante entre os intelectuais da
Europa Ocidental e no mundo de língua inglesa. Fazia já muito tempo que ele representava
essa força na Europa Oriental e em partes da Central, e é claro que a Revolução Russa atraíra
numerosos socialistas ocidentais e outros rebeldes e revolucionários. Entretanto, ao contrário
do que se crê comumente, depois que a onda revolucionária de 1917-20 abrandou, o tipo de
marxismo que se tornou avassaladoramente dominante — o da Internacional Comunista —
não mostrou nenhuma atração forte para os intelectuais do Ocidente, sobretudo os de origem
burguesa. Eles se sentiam mais atraídos por grupos marxistas dissidentes, notadamente pelo
trotskismo, mas esses grupos eram numericamente tão pequenos em comparação com os
principais partidos comunistas que essa atração era desprezível do ponto de vista quantitativo.
No Ocidente, os partidos comunistas eram em geral proletários, e a posição do intelectual
“burguês” nesses partidos era muitas vezes anômala e nem sempre tranquila.(1, 2) Além disso,
principalmente após o período de “bolchevização”, o papel dos trabalhadores na liderança
desses partidos passou a ser deliberadamente ressaltado. Ao contrário dos partidos da Segunda
Internacional, poucos líderes destacados dos partidos comunistas eram intelectuais, a não ser
em certos países subdesenvolvidos e coloniais, e esses partidos normalmente não se
orgulhavam de ter intelectuais a dirigi-los, embora gostassem de contar com intelectuais de
renome em outras funções. Por isso, a afluência de intelectuais para partidos comunistas na
década de 1930 foi um fenômeno novo: na Grã-Bretanha, quase 15% dos delegados ao
Congresso do Partido Comunista em 1938 eram estudantes ou profissionais liberais.(3)

 A penetração do marxismo intelectual nesses países ocidentais foi um fenômeno não só
novo como também autóctone. Chama a atenção a importância dos refugiados políticos para a
difusão do socialismo, e sobretudo do marxismo, na era da Segunda Internacional,(4) e a década
de 1930 foi, infelizmente, um período de intensa emigração política. Ademais, o impacto
desses emigrantes sobre a vida intelectual dos países que os receberam foi profundo, tanto na
Grã-Bretanha quanto, e ainda mais, nos Estados Unidos, embora provavelmente menor na
França. Mas sobre as gerações autóctones que pendiam para o marxismo nos países do
Ocidente essa emigração não teve maior impacto.

 Talvez isso ocorresse porque a versão do marxismo mais aceita era, de longe, a que se
associava aos partidos comunistas e à União Soviética, disseminada mediante a publicação,
em tradução, dos “clássicos” (que agora incluíam Lênin e Stálin, bem como Plekhanov).
Existia agora uma versão internacional padronizada do marxismo, exemplificada de forma
muito sistemática na seção intitulada “Materialismo dialético e materialismo histórico”, na
História do PCUS(b): Breve curso, de 1938. Por isso, refugiados comunistas ortodoxos não
levavam consigo, ao emigrar, nem expunham em público qualquer coisa que soubessem que
divergia da versão padrão. Os marxistas heterodoxos ou marxizantes ficavam relativamente
isolados pela notoriedade de sua heterodoxia, mesmo que comunistas leais não estivessem
proibidos de manter contato com eles, como acontecia com os seguidores de Trotski.

 Dois outros fatores reduziam a influência da diáspora marxista. O primeiro era linguístico.
As duas línguas principais do discurso marxista, o alemão e o russo, eram pouco ou nada
conhecidas no Ocidente.(5) Fora dos Estados Unidos não existia um grande número de pessoas
de origem russa ou alemã capazes de ler livros nessas línguas e que estivessem interessadas
em obras esquerdistas. Assim, até mesmo autores aceitos por comunistas ortodoxos estavam
inacessíveis, a menos que houvesse traduções. Mas eram raras. Só em 1950 foi publicada em
inglês a primeira coletânea de estudos de Lukács, e mesmo um texto básico como os
Frühschriften, de Marx, disponível desde 1932, só causou impacto na França através das duas
ou três pessoas que eram capazes de lê-los em alemão, e ainda assim isso não aconteceu logo.
É claro que, inversamente, as obras que eram traduzidas adquiriam uma importância
desmesurada, como atesta o impacto revolucionário, sobre cientistas britânicos, do ensaio de
B. Hessen sobre Newton (ver p. 268, a seguir).

 O segundo fator foi a crescente resistência das sociedades ao influxo de emigrantes. Os
emigrantes, políticos ou não, oriundos da Alemanha hitlerista eram aceitos com relutância no
Ocidente, e com a exceção parcial dos Estados Unidos, não eram bem recebidos nem se
integravam, exceto em casos especiais. Permaneciam à margem da sociedade e, muitas vezes,
desconhecidos.(6) Assim, a formação dos marxistas no Ocidente se fez independentemente da
tradição (ou tradições) marxista central. Não terá sido por acaso que a primeira (e ainda, em
muitos aspectos, a melhor) exposição da teoria econômica marxista em inglês, incorporando
os debates e os fatos do período da Segunda Internacional, tenha sido publicada nos Estados
Unidos, ou seja, num país onde a distinção entre o marxismo (ou o conhecimento do
marxismo) dos imigrantes e a “nova esquerda” nativa do período era a menos acentuada.(7)

 Por isso, a difusão do marxismo foi um fenômeno paradoxal. Fez-se localmente, e não por
importação, na medida em que ocorreu, em cada país, independentemente de influências
externas, a não ser do comunismo oficial. Ao mesmo tempo, e exatamente por isso, assumiu,
predominantemente, uma forma uniforme e padronizada. Contudo, essa uniformidade não
consegue ocultar uma clara tendência para a segregação intelectual nacional, que contrasta
tanto com o período da Segunda Internacional quanto com o caráter internacional do
marxismo intelectual, mais ou menos desde 1960. Isso se deveu, em parte, à estrutura muito
centralizada e disciplinada da Internacional Comunista e ao caráter cada vez mais “oficial”
dos textos que emanavam dela e da União Soviética, mas que — até mais ou menos 1948 —
atuavam um tanto seletivamente (ver adiante). Periódicos comunistas internacionais,
publicados em várias línguas, com algumas variações regionais de conteúdo, como o
International Press Correspondence e o Communist International, tratavam basicamente de
assuntos políticos rotineiros e eram escritos principalmente por líderes políticos e pelo,
chamemos assim, quadro internacional de redatores do movimento. Na década de 1930 não
havia nenhum equivalente à Neue Zeit em qualquer idioma.(8) Por outro lado, os periódicos
teóricos, intelectuais e culturais marxistas ou marxizantes que começaram a surgir em vários
países ocidentais nos últimos anos da década de 1930 estavam a cargo sobretudo de
intelectuais carentes de autoridade política e não tinham nenhuma ressonância internacional
significativa além dos falantes nativos das línguas em que eram publicados, embora alguns
desses periódicos criassem conexões internacionais. Por isso, paradoxalmente, havia margem
para variação e desenvolvimento local, desde que não houvesse uma “linha” internacional
sobre determinado assunto ou não ficasse claro que essa “linha” era compulsória. Por isso
havia, como veremos, bastante teorização marxista independente (por exemplo, sobre ciências
naturais e literatura na Grã-Bretanha), e parte dela por fim sucumbiu à imposição de uma
ortodoxia mais universal no período de Zhdanov. Em essência, porém, cada país ou área
cultural em que o marxismo não estivesse oficialmente proibido adaptou o modelo
internacional padrão a sua própria maneira e à luz de suas condições locais, o que foi
facilitado pela mudança na linha internacional do Comintern depois de 1934.

 Somente em um campo podemos falar de um autêntico internacionalismo descentralizado
de intelectuais na esquerda. Como era de esperar, isso ocorreu no campo da literatura e das
artes, que estavam ligadas à política da esquerda menos por uma reflexão teórica do que por
um comprometimento emocional dos artistas e de seus admiradores pelas lutas do período. A
arte e a esquerda recriaram fortes vínculos durante a Primeira Guerra Mundial, mas não por
meio da teoria marxista ortodoxa. Somente no campo da cultura encontramos uma verdadeira
resistência, até entre intelectuais comunistas, à imposição da ortodoxia. Poucos comunistas
contestaram abertamente o “realismo socialista”, que se tornou oficial na União Soviética a
partir de 1934, embora seja significativo que o debate sobre o que poderia ser chamado de
“modernismo” nunca tenha cessado de todo e o lado não ortodoxo jamais capitulasse
realmente. Brecht não se rendeu a Lukács. Faziam-se esforços sinceros para admirar o que
vinha da União Soviética na década de 1930 e para silenciar com relação a obras que não
podiam ser admiradas (sobretudo pinturas e esculturas), mas a admiração autêntica dirigia-se
ao que ainda sobrevivia da arte e da literatura soviéticas da década de 1920. Poucos se
dispunham a discordar publicamente da crítica oficial das mais famosas figuras internacionais
do “modernismo” nas artes, porém era ainda em menor número os que se dispunham, ao
menos privadamente, a deixar de admirar Joyce, Matisse ou Picasso, mesmo enquanto
divulgavam com sinceridade estilos mais próximos ao “realismo socialista”.(9) A ortodoxia
oficial não aprovava o jazz, mas entre seus apreciadores e defensores mais ativos e
apaixonados no mundo anglo-saxão havia um número elevado de comunistas e simpatizantes.

 Por conseguinte, os intelectuais marxistas não apartados do resto do mundo tendiam,
qualquer que fosse seu país de origem, a partilhar uma cultura esquerdista internacional, que
incluía escritores e artistas identificados com o comunismo ou ao menos comprometidos com
a luta antifascista, e felizmente eram muitos: Malraux, Silone, Brecht (na medida em que era
conhecido na época), García Lorca, Dos Passos, Eisenstein, Picasso e outros.(10) Para os
membros de partidos comunistas, o grupo podia incluir escritores que contavam com uma
aprovação mais ou menos oficial como comunistas ou “progressistas”: Barbusse, Rolland,
Gorki, Andersen Nexö, Dreiser e outros. Quase com certeza incluía os nomes que faziam parte
da lista internacional de personagens da alta cultura, a menos que fossem identificados com a
reação ou o fascismo: escritores como Joyce e Proust, os pintores famosos (principalmente
franceses) do começo do século xx, os conhecidos arquitetos do “movimento modernista” e
ainda os cineastas russos famosos e Charlie Chaplin. A novidade da década de 1930 estava não
na existência dessa cultura internacional cujos nomes provinham, indiferentemente, de vários
países — na realidade, sobretudo da França, dos Estados Unidos, das Ilhas Britânicas, da
Rússia, da Alemanha e da Espanha — e sim no comprometimento político desses personagens
com a esquerda.(11) Não era, com certeza, uma cultura especificamente marxista, mas, sem
dúvida, foi crucial o papel de uma minoria de marxistas dedicados (ou seja, na prática, de
comunistas) em sua consolidação.(12)

Referências:
1. Para a situação geral do movimento comunista, ver Aldo Agosti, Bandiere rosse: Un profilo storico dei communismi europei (Roma, 1999), pp. 35-40. Para a origem diversificada e o quadro ideológico dos intelectuais comunistas ocidentais, ver Thomas Kroll, Kommunistische Intellektuelle in Westeuropa (Colônia-Weimar-Viena, 2007), que compara a França, a Itália, a Áustria e a Grã-Bretanha no período 1945-56.
2. Nada menos que 95% dos membros do kpd — Kommunistische Partei Deutschlands (Partido Comunista Alemão) tinham apenas educação primária, e 1%, educação superior (H. Weber, Die Wandlung des deutschen Kommunismus (Frankfurt, 1969, ii, p. 29). Para a situação dos intelectuais num partido muito proletário (ilegal), ver G. Amendola, Un isola (Milão, 1980).
3. For peace and plenty. Report of the Fifteenth Congress of the CPGB (Londres, 1938), p. 135. Há indícios de que a composição dos congressos traduz a do partido como um todo. Cf. K. Newton, The sociology of British communism (Londres, 1969), pp. 6-7.
4. Ver Georges Haupt, “Emigration et diffusion des idées socialistes: l’exemple d’Anna Kuliscioff” (Pluriel no 14, 1978, pp. 2-12).
5. Maurice Dobb teve de escrever sua primeira obra importante sobre a economia soviética, Russian economic development since the Revolution (Londres, 1928), com a ajuda de um tradutor.
6. Foi esse o caso de figuras como Karl Korsch, Walter Benjamin, Karl Polany, Norbert Elias e outros, marxistas e não marxistas.
7. P. M. Sweezy, The theory of capitalist development (Nova York, 1942).
8. O Unter dem Banner des Marxismus (Pod znameniem marksisma), publicação que estava mais perto de ser uma revista internacional de discussão teórica, sumiu de vista em meados da década de 1930, e em todo caso vinha refletindo cada vez mais a ortodoxia soviética. Além disso, só era editado em alemão e russo.
9. Cf. o típico casuísmo de Radek: “Será necessário aprender com grandes artistas, como Proust, a capacidade de esboçar, de delinear o mais ligeiro movimento de um homem? Não é isso que está em questão. O que está em questão é se temos nosso próprio caminho ou se esse caminho é indicado por experiências feitas no exterior”. Problems of Soviet literature (Moscou, 1935), p. 151.
10. Para um levantamento desse tipo de literatura, ver John Lehmann, New writing in Europe (Londres, 1940).
11. Para uma boa descrição desse clima político-cultural, ver J. M. Richards, Autobiography of an unjust fella (Londres, 1980), pp. 119-20. Richards foi editor da Architectural Review na Grã-Bretanha.
12. A Associação Internacional de Artistas (1933-9), organizada por comunistas, promovia exposições — em geral com um título como “Artistas contra o fascismo e a guerra” — de artistas acadêmicos, construtivistas, cubistas, surrealistas, realistas sociais e pós-impressionistas, de arte alemã do século xx, de artistas franceses (Gromaire, Léger, Lhote, Zadkine) etc. Seus próprios militantes eram, na maioria, realistas, mas influenciados pela arte mexicana (Rivera, Orozco) e americana (Gropper, Ben Shahn), e não por modelos soviéticos. Ver Tony Rickaby, “The Artists’ International” (History Workshop 6, outono de 1978, pp. 154-68).

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