sábado, 15 de agosto de 2015

Muro de Berlim: outro mito da Guerra Fria


Texto de William Blum, publicado no portal Counterpunch em 2014

 Tradução de Gabriel Duccini para o site Nova Cultura





 O dia de 9 de novembro irá marcar o 25º aniversário da queda do Muro de Berlim. A excessiva comoção já começou meses atrás em Berlim. Nos Estados Unidos, podemos esperar todos os clichês da Guerra Fria sobre o Mundo Livre contra a Tirania Comunista serem pregados e o conto de porque se construiu o muro, se repetindo: Em 1961, os comunistas de Berlim Oriental construíram um muro para manter seus cidadãos oprimidos de fugir para Berlim Ocidental e a liberdade. Por que? Porque comunistas não gostam que as pessoas sejam livres, para aprenderem a “verdade”. Qual outro motivo poderia ter sido?

 Antes de tudo, antes que o muro fosse construído em 1961, milhares de alemães orientais estavam viajando diariamente para o Ocidente para trabalho todos os dias nas manhãs, e depois voltavam para a Oriental à tarde; vários outros iam e voltavam para fazerem compras ou outros motivos. Então claramente eles não estavam sendo mantidos no Oriente contra sua vontade. Então por que se construiu o muro? Houve duas razões principais:

 A Alemanha Ocidental estava atentando à Oriental com uma vigorosa campanha de recrutamento de profissionais alemães do leste e trabalhadores qualificados, que haviam sido educados à custa do governo comunista. Eventualmente, isso levou para uma série crise de produção e de força de trabalho na Alemanha Oriental. Algo que indica isso, o New York Times noticiou em 1963: ”Berlim Ocidental foi afetada economicamente pelo muro com a perda de cerca de 60.000 trabalhadores especializados que saíam diariamente das suas casas em Berlim Oriental para seus locais de trabalho em Berlim Ocidental."

 Deve-se pontuar que em 1999, USA Today  noticiou: “Quando o Muro de Berlim caiu (1989), os alemães do Leste imaginaram uma vida de liberdades onde os bens de consumo eram abundantes e as dificuldades desapareceriam. Dez anos depois, espantosos 51% dizem que eram mais felizes com o comunismo”. Pesquisas anteriores provavelmente teriam mostrado bem mais do que 51% expressando tal sentimento, pois nesses dez anos muitos do que se lembravam da vida na Alemanha Oriental com algum apreço haviam morrido; ainda que mesmo dez anos depois, em 2009 o Washington Post pôde relatar: “Ocidentais (de Berlim) dizem que estão fartos da tendência de seus conterrâneos orientais falarem nostalgicamente dos tempos comunistas.”

 Então, no período após a unificação surgiu um novo provérbio na Rússia e no Leste Europeu: “Tudo que os comunistas diziam sobre o comunismo era mentira, mas tudo que eles falavam sobre o capitalismo acabou sendo verdade.”

 Ainda deve ser notado que a divisão da Alemanha em dois Estados em 1949 – preparando o terreno para 40 anos de hostilidade da Guerra Fria – foi uma decisão dos Estados Unidos, e não soviética. Durante os anos 50, o lado dos Estados Unidos na Guerra Fria na Alemanha Ocidental instituiu uma campanha feroz e cruel de sabotagem e subversão contra a Alemanha Oriental, destinada a jogar sua maquinaria econômica e administrativa fora do jogo. A CIA e outros serviços de inteligência e militares dos Estados Unidos recrutaram, equiparam, treinaram e financiaram grupos e indivíduos ativistas alemães, do Oeste e do Leste, para levar a cabo ações que transformassem a delinquência juvenil em terrorismo; qualquer coisa para dificultar a vida para o povo da Alemanha Oriental e enfraquecer seu apoio ao governo; qualquer coisa para queimar o filme dos comunistas.

 Foi um compromisso notável. Os Estados Unidos e seus agentes usaram explosivos, incêndios, curto-­circuitos, e outros métodos para danificar centrais elétricas, estaleiros, canais, portos, edifícios públicos, postos de gasolina, transportes públicos, pontes, etc; fizeram descarrilar trens de carga, ferindo gravemente os trabalhadores; queimaram 12 carros de um trem de carga e destruíram mangueiras de pressão de ar dos outros; usaram ácido para danificar importantes maquinarias de fábricas; mataram 7000 vacas de uma cooperativa de laticínios através de envenenamento; colocaram sabão no leite em pó que se destinava para as escolas da Alemanha Oriental; estavam em posse, quando foram presos, de uma grande quantidade do veneno de cantaridina com que foi planejado para produção de cigarros envenenados para assassinar líderes alemães orientais; plantaram bombas de fedor para interromper encontros políticos; tentaram interromper o Festival Mundial da Juventude em Berlim Oriental ao enviar convites falsificados, falsas promessas de alojamento e pensão grátis, notícias falsas de cancelamento, etc.; realizaram ataques aos participantes com explosivos, bombas e métodos para furar pneus; forjaram e distribuíram grandes quantidades de cartilhas de racionamento de comida para causar confusão, escassez e rancor; enviaram falsos avisos de impostos e outras orientações do governo e documentos para provocar a desorganização e ineficácia na indústria e sindicatos... tudo isso e muito mais.

 O Centro Internacional Woodrow Wilson para Acadêmicos, de Washington, DC, soldados da guerra fria conservadores, em um de seus Cold War International History Project Working Papers afirmam: “A fronteira aberta em Berlim expôs a RDA [República Democrática Alemã] à espionagem massiva e subversão e, como os dois documentos em anexos mostram, o seu encerramento deu ao Estado comunista uma maior segurança ".

 Ao longo dos anos 50, os Alemães orientais e a URSS repetidamente apresentaram reclamações aos antigos aliados dos soviéticos no Ocidente e às Nações Unidas sobre sabotagens específicas e atividades de espionagem e pediu o fechamento dos escritórios na Alemanha Ocidental dos quais alegaram serem os responsáveis, e para o qual eles forneceram nomes e endereços. Essas reclamações foram ouvidas em um ouvido e saídas pelo outro. Inevitavelmente, os Alemães do Leste começaram a dificultar a entrada no país a partir da Alemanha Ocidental, o que levou eventualmente para o infame muro. No entanto, mesmo após a construção do muro, ainda havia imigração legal regular, ainda que limitada, do Leste para o Oeste. Em 1984, por exemplo, a Alemanha Oriental permitiu que 40.000 pessoas saíssem. Em 1985, os jornais da Alemanha Oriental afirmaram que mais de 20.000 ex cidadãos que haviam se firmado no Ocidente. Queriam voltar para casa após se desiludirem com o sistema capitalista. O Governo da Alemanha Oriental disse que 14.300 pessoas da Alemanha Oriental haviam voltado nos últimos 10 anos.

 Não vamos também nos esquecer que enquanto a Alemanha Oriental estava completamente desnazificada, na Alemanha Ocidental por mais de uma década após a guerra, as posições de governo de maior escalão, no executivo, legislativo e judiciário, continham vários ex e “ex” nazistas.

 Por fim, é preciso lembrar, que o Leste Europeu se tornou comunista porque Hitler, com aprovação do Ocidente, usou a região como uma estrada para chegar à União Soviética para destruir o bolchevismo para sempre, e que os russos na I e II Guerra Mundial, perderam cerca de 40 milhões de pessoas porque o Ocidente usou este caminho para invadir a Rússia. Não deve surpreender que após a II Guerra Mundial, a União Soviética estava determinada em fechar essa “rodovia”.

 Para acrescentar, e com um ponto de vista interessante sobre o aniversário da Queda do muro de Berlim, veja o artigo “Humpty Dumpty and the Fall of Berlin’s Wall” de Victor Grossman. Grossmann fugiu do Exército dos Estados Unidos na Alemanha sob pressão das ameaças da era McCarthy e se tornou um jornalista e autor durante seus anos na RDA. Ele ainda mora em Berlim e você pode seguir seus e­mails em wechsler_grossman@yahoo.de. Sua autobiografia “Crossing the River: a Memoir of the American Left, the Cold War and Life in East Germany” foi publicada pela University of Massachusetts Press. Ele afirma ser a única pessoa do mundo com diploma tanto de Harvard quanto da Universidade Karl Marx de Leipzig.


Ver também o vídeo abaixo, sobre a condição dos alemães orientais após a unificação do país:



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