sábado, 26 de julho de 2014

''Estagflação e salários'', Edmar Bacha

Em uma coleção de ensaios escritos na Universidade de Harvard em 1976-77, Edmar Bacha procurou delinear alguns dos principais problemas de economia política que o Brasil enfrentava. Como não poderia deixar de ser, ele analisou a estagflação - a incrível mistura de estagnação produtiva e inflação alta, normalmente antagônicas -, e demonstrou como o processo se dava, além da forma como o governo a combatia.
    
Edmar Lisboa Bacha (Lambari, Minas Gerais, 1942) é um economista brasileiro. Participou da equipe econômica que instituiu o Plano Real, durante o governo Itamar Franco. Desde 2003, é diretor do ''think tank'' Casa das Garças, instituição dedicada a estudos e debates de Economia, no Rio de Janeiro.
                                 

''O empresariado brasileiro trabalha com altas taxas de endividamento a curto prazo; seu capital de giro é quase integralmente formado a partir de recursos obtidos do sistema financeiro. O empresariado está, assim, numa situação de extrema dependência em relação à disponibilidade e o custo do crédito a curto prazo.

 Este simples fato se encontra à raiz do fenômeno de estagflação, ou seja, a mistura de inflação e estagnação que se manifesta todas as vezes em que o governo embarca numa política de contenção monetária.

 Ao fechar-se a torneira do crédito, as taxas de juro a curto prazo tendem a estourar. O custo variável de produção eleva-se substancialmente, devido à dependência do empresariado ao crédito bancário. Custos mais altos, por um lado, conduzem a preços mais elevados; por outro, forçam uma redução da quantidade produzida. O aumento de preços é uma reação bem entendida. A redução da quantidade produzida é consequência da redução do grau de utilização da capacidade instalada, que se torna necessária devido à elevação dos custos unitários de produção. Desativam-se os equipamentos e reduzem-se os níveis e reduzem-se os turnos extras de trabalho, pois estes se tornam anti-econômicos aos novos níveis de custos.

 Encarando-se o problema do lado da oferta fica claro que a restrição monetária leva a maiores preços e a menor produção. Como, então, pode haver uma crença tão arraigada de que, mesmo em curto prazo, uma menor quantidade de moeda (corrente) está associada a um melhor nível de preços?

  A explicação está em que os fenômenos de oferta antes assinalados não entram na cogitação dos modelos macroeconômicos que informam os preconceitos correntes sobre essa matéria. O modelo monetarista nega a possibilidade de desemprego voluntário e determina a oferta de bens a partir da disponibilidade de mão-de-obra. Nesse modelo, os preços dos bens são determinados diretamente pela quantidade de moeda disponível. O modelo keynesiano admite a possibilidade de desemprego involuntário, mas deprecia a importância do capital de giro. A oferta de bens é fixada pelas condições de demanda, e o preço de oferta pelo custo unitário de mão-de-obra. No modelo keynesiano, mais moeda implica em maior demanda e, portanto, em oferta mais alta. Como se supõe que os custos sejam crescentes com a quantidade produzida, os preços serão também mais altos.

 Ambos os modelos veem a influência da restrição monetária unicamente sob a ótica da procura. Ao apertar-se o torniquete monetário nesses modelos os empresários colocam no giro os seus recursos próprios, e reduzem o volume de investimentos em execução. A queda de investimentos provoca uma redução magnificada da procura. Reduz-se, assim, o excesso de demanda, cuja existência determina a contenção monetária. Menos demanda excedente significa menor taxa de inflação.

 No modelo monetarista, com a oferta dada, os preços se reduzem em resposta à uma queda da quantidade de dinheiro com ou sem excesso de demanda. No modelo keynesiano, os preços caem significativamente somente se a situação inicial era de excesso de demanda. Caso contrário, o efeito principal é uma redução da quantidade produzida e um aumento do desemprego.

 É inegável que a restrição monetária tem um efeito depressivo sobre a demanda. Mas, no caso brasileiro, é possível que a oferta diminua ainda mais do que a demanda em resposta a uma elevação da taxa de juros. Consequentemente, o corte de crédito poderá aumentar ao invés de diminuir o excesso de demanda. Se há mais demanda excedente, a taxa de elevação dos preços também será mais alta.

 Mesmo se levando em conta o que ocorre do lado da demanda, dada a extrema dependência do empresariado brasileiro em relação ao crédito bancário, é provável que uma restrição creditícia  resulte de fato em menos produção e mais inflação, ou seja, em estagflação.

 Como resolver o problema? Depende do contexto político. No Brasil, desde 1964 a solução tem sido o arrocho salarial. Vejamos como isso funciona.

 Do lado da oferta, a coisa é simples. O arrocho reduz os custos unitários variáveis. A propensão dos empresários é, assim, a de reduzir os preços e aumentar a produção. Do lado da demanda, o arrocho transfere renda dos assalariados para os não-assalariados. É provável que estes tenham uma propensão a gastar menor do que aqueles. Em consequência, a demanda se reduz. Tudo funciona conforme previsto. Se a situação de partida é o excesso de demanda, depois do arrocho há mais oferta e menos demanda. Portanto, menos inflação.

 O processo de ajuste se faz às custas da classe assalariada. É a redução de seu dispêndio que garante o equilíbrio de oferta e procura. A queda da taxa de inflação deve ser imputada ao retorno do arrocho salarial. A contenção monetária só serve para sobrepor uma estagflação à iniquidade da política salarial do governo.'' (Política Econômica e Distribuição de Renda, Ed. Paz e Terra, 1978.)

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